Um exercício com mapas e redes indeterminadas do comum

Um exercício com mapas e redes indeterminadas do comum[1]

Fernand Deligny[2] transcreve as linhas e trajetos das crianças autistas, faz mapas: distingue cuidadosamente as ‘linhas de errância’ e as ‘linhas costumeiras’. E isso não vale somente para os passeios, há também mapas de percepções, mapas de gestos (cozinhar ou recolher madeira), com gestos costumeiros e gestos erráticos. Deligny abriu suas linhas de escrita para linhas de vida. E constantemente as linhas se cruzam, se superpõem por um instante, se seguem por um tempo. Contra a insistência de alguns em ler o humano sob o signo das estruturas de parentesco, Deligny, tem a pachorra de querer lê-lo à luz da “estrutura da rede”, por assim dizer, e ele a descobre por toda parte, desde sua infância, na adjacência precisamente de espaços proibidos, ou interditados, ou vagos. Em todo o caso, os trajetos fazem uma rede apoiada no gesto, no corpo, no rastro (…) Para ele o homem-que-somos descenderia menos dos macacos do que das aranhas: a gestualidade primeva que consiste em tecer uma rede, ou traça-la através de uma mão que não pertence a quem parece possuí-la, é de uma gratuidade que não se inscreve na dialética da comunicação ou da finalidade. Deligny contrapõe “agir” e “fazer”. Fazer é fruto da vontade dirigida a uma finalidade, por exemplo, fazer obra, fazer sentido, fazer comunicação, ao passo que agir, no sentido muito particular que lhe atribui o autor, é o gesto desinteressado, o movimento sem intencionalidade, que consiste eventualmente em tecer, traçar, pintar, no limite até mesmo em escrever, num mundo onde o balanço da pedra o ruído da água não são menos relevantes do que o murmúrio dos homens (…) Se a analogia com a aranha tem seus limites, é por ser a teia a obra de uma só aranha, ao passo que precisamente a rede é obra de muitos, e, no caso humano, por exemplo, dispensa um mestre de obras, um autor que tivesse seu desenho previamente na cabeça. Quando há um claro desenho prévio almejado, presente na cabeça do autor, é aí que desaparece justamente a dimensão do “agir”, do “vagar”, em favor do “fazer”, portanto já finalizado, com o que desaparece o caráter da rede. Pois: “A rede está desprovida de todo “para”, e todo “excesso de para” a coloca em chamas assim que a sobrecarga do projeto é depositada sobre ela.(…) Em todo o caso, a dificuldade em Deligny é ter acesso ao que ele chama de agir. Como evitar que a rede seja engolida pelo projeto pensado, mesmo sabendo que a rede carregará algum projeto, eventualmente? (…) O que é mesmo que eles ligam, esses fios? Sim, referências, em meio aos trajetos de errância ou aos trajetos costumeiros (…) O que são para ele, então, as linhas de errância? São o traçado, sobre folhas de papel transparente, da equipe de adultos que acompanha as crianças, a partir dos trajetos feitos por elas ao longo de um dia, uma jornada. Em geral, sob a folha transparente há uma outra folha, como que um mapa físico do terreno percorrido. Então, trata-se de traçar os trajetos, das crianças autistas, dos adultos, em diferentes cores ou modos: o trajeto dos autistas às vezes em nanquim, com todos os seus desvios sutis, giros, escapadas, recorrências. Com outros meios ou cores, o trajeto dito costumeiro, feito pelos adultos que os acompanham, e do qual as crianças desviam amiúde. Deleuze e Guattari diriam: linha dura para o trajeto costumeiro, linha flexível para o trajeto errático, e linha de fuga para os desvios, as escapadas – tudo isso, grosso modo. Mas afinal, para que traçar tais linhas, fazer tais mapas? O mapa substitui a fala. É uma maneira de evitar o excesso de compreensão que tornaria invivível a existência do autista, e também aliviar o adulto desse desafio, sobretudo para aquele homem, por exemplo, que vem de uma fábrica de caminhões e “não sabe” o que é o autismo – não é “especialista”, e é isto o que o salva e salva o autista. Ao invés de querer compreender, e eventualmente significar, interpretar, cabe traçar, cartografar, diria Guattari, seguir o curso das coisas, como se diz, seguir o curso de um rio, e não fixar-se nas supostas intenções, sempre projetadas, pressupostas (…) Seguir os gestos, e nisso perceber o que isso tudo, essa transumância – cabras, adultos, autistas, em deslocamento, mas repassando pelas referências-, permite daquilo que Deligny chamaria de iniciativas. Não interpelar, mas permitir. Foi preciso então criar um espaço para isso, isto é, para o resto, ou seja, para aquilo que é refratário à compreensão, para esse domínio que um signo não recobre. Quando o vinham visitar, Deligny dizia: venha ver os acontecimentos a partir da minha janela. Mas acrescentava: Ora, se cada um vê os acontecimentos a partir de sua janela, pode ser que o autista não tenha janela. Mas ele traça. Trata-se, pois, de seguir esse traçado ..Dez anos depois de iniciada essa experiência por onde passaram sessenta crianças, pois elas vinham por um, dois meses, às vezes mais, trazidas pelas famílias, sobretudo durante as férias das instituições que frequentavam, com exceção daquelas poucas que viviam ali o tempo todo, Deligny relata o que ali importava, e falou dessa prática de inscrever, sobre folhas transparentes, os trajetos de uns e outros, linhas de errância, e de olhá-las, e elogiava o fato de que, acumuladas, já mal se sabia de quem eram , assim não importa o quem, e nesse esquecimento embaralhado era possível ver a sobreposição dos “restos” e a reiteração do refratário a toda compreensão. Ao invés do abraço compreensivo, ou do empreendedorismo do monitor, ou da maternagem, ou de qualquer traço de familiarismo que infantilizasse, ao invés disso, o respeito- mas do que? dos chevêtres, das madres-devigamento, das ligaduras, são os ai, pontos em que as linhas se cruzam no espaço e no tempo, pontos que por vezes são comuns nos diversos mapas. Há, por exemplo, nessas linhas erráticas, lugares de atração, por exemplo, a fonte de água, ou mesmo um lençol de água o outrora objeto de culto, já recoberto, que só os autistas detectam. O autista que Deligny adota em 1967, e com quem vive por anos, rebatizado janmari, curva-se diante da água, quase como numa reverência, e passa muito tempo ouvindo e contemplando, seu corpo em total vibração, exultação … a água, como diz Deligny, não é para ele uma coisa, pois ele não é um sujeito … a água, sem nenhuma utilidade, nenhuma serventia, nenhuma finalidade, nada tem a ver com a sede do animal, pois a atração pela água vem antes da sede, e é inesgotável. Eis uma ligadura, que não deveria ser rebatida sobre o discursivo (…) A imagem do bonhomme, do homenzinho, não deveria se sobrepor ao trajeto- é todo o perigo, que o trajeto seja “humanizado”. Nos primeiros mapas não se transcrevia o que se “fazia”, embora com o tempo fossem se agregando pequenos signos, ou palavras, tais como “arrumar, carregar, descascar, lavar”, e, com a multiplicação dessas palavras, depositou-se como que uma sobrecarga de fazeres, na contramão total daquilo que desde o início estava colocado, o agir contraposto ao fazer, o agir que abre para a iniciativa, para os gestos inadvertidos, sem finalidade (…) Por que Interessam linhas de errância, mapas e redes em Deligny? Por ser uma perspectiva reversa, que talvez fosse capaz de ler nossa excessiva impregnação de sentido e de intenções, cheia de eu e de palavras, de arrogância humanista (mesmo quando parecemos não tê-la), em suma, a partir da dimensão que Deligny chamaria de inata ou humana-inumana. Um agir que pode permitir e acompanhar desvios e errâncias. Vagar e rastrear o campo. Silenciar (…) Há uma retroescavadeira, uma pedra, um mangue, um barbante, uma certa fonte (…) Pois são os pontos a partir dos quais pode tecer-se uma teia, são as referências que despertam um apego extremo, onde a coisa e o lugar da coisa são o mesmo, e a partir das quais se pode estender fios, invisíveis para nós, mas que deveríamos conseguir imaginar, ou supor, em todo o caso respeitar, pois é com esses fios invisíveis estendidos em meio a um espaço que se constituiu uma teia, uma rede na qual a vida é possível e cuja destruição pode desencadear um desastre, mesmo e sobretudo quando alguém cruza os fios com seus tamancos profissionais (…) Abaixo estão algumas questões experimentais, provisórias e ou descartáveis para um exercício com mapas e redes.  Há nelas certa preponderância do “fazer” sobre o “agir” ainda que um possa auxiliar na prospecção do outro: Diariamente, em que lugares você mais passa – qual o caminho que você mais faz no dia-a-dia – seja para ir ao trabalho, almoçar, ir à casa de parentes e ou amigos? Tem um lugar que você nunca vai aqui à região? Você poderia indicar um ou mais desses lugares? E quando você está alegre (ou quer ficar), tem algum lugar aonde você vai, seja para andar, dançar, passear, visitar alguém? Tem algum lugar (ou mais de um) de que você tem medo, e ou não gosta, acha perigoso ou coisa assim? Quando está mal, com dor e precisa de ajuda, faz o quê? Vai onde? Tem mais algum lugar que você procura quando não está bem? Essas são apenas ideias iniciais, talvez ajudem para um começo. Observação: Para cada questão, montar um percurso no mapa, produzindo um itinerário, quadra a quadra, uma linha com uma cor específica. Pedir para o acompanhado dizer o percurso com detalhes e refazê-lo no mapa com ele.. Podem ser diferentes mapas ou utilizar o mesmo. Na conversa evitar termos que possam conduzir excessivamente como “saúde’, “cuidado” e outros termos afins.. ficar à espreita para outros percursos que o acompanhado queira contar.. há também mapas de percepções, mapas de gestos..podemos inventar outros mapas.. Nos mapas atuais e GPSs – cada um se vê mas não vê a comunidade dos que traçam (…), não se cria o comum , contrariamente aos mapas de Deligny. Mesmo o tempo global não é um tempo comum, os trajetos individuais jamais são clandestinos, essa localização contemporânea cria sua própria ideologia do “saiba onde você está”(…) e as linhas contemporâneas têm por finalidade otimizar e controlar a performance urbana e social, tornar os fluxos mais eficazes e mais fluidos, ao passo que para Deligny tratava- se de traçar um comum impossível, salpicado de desvios, de gestos, de temporalidades, de Nós, de atratores estranhos. Há, para Deligny, não uma greve de fome, mas de fim, a greve da finalidade, do objetivo (terapêutico, pedagógico, ocupacional, político), daí o ritornelo tão provocativo: para que isso tudo? Para Nada ou  seja, para preservar o Resto do Tudo, sabendo que o Tudo é desde sempre já uma truculência, e a totalização, violência.

 

[1] Esse material é uma recolha supersônica com interferências e pequenas inflexões no artigo de PELBART, Peter. “Linhas Erráticas” In: O avesso do niilismo: cartografias do esgotamento. São Paulo: N-1 Edições, 2013.

[2] Fernand Deligny (1913-1996) é um educador, escritor e cineasta francês.

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