ENCONTROS E SABERES [trocas abertas de saber-fazer] NO LABORATÓRIO DE SENSIBILIDADES. ANOTE NA AGENDA!

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Um livro tem que ser um machado para quebrar o mar de gelo do bom senso e do senso comum. Uma aposta Kafka (fragmento de carta)

Acho que só devemos ler a espécie de livros que nos ferem e trespassam. Se o livro que estamos lendo não nos acorda com uma pancada na cabeça, por que o estamos lendo? Porque nos faz felizes, como você escreve? Bom Deus, seríamos felizes precisamente se não tivéssemos livros e a espécie de livros que nos torna felizes é a espécie de livros que escreveríamos se a isso fôssemos obrigados. Mas nós precisamos de livros que nos afetam como um desastre, que nos magoam profundamente, como a morte de alguém a quem amávamos mais do que a nós mesmos, como ser banido para uma floresta longe de todos. Um livro tem que ser como um machado para quebrar o mar de gelo que há dentro de nós. É nisso que eu creio

Publicado por laboratoriodesensibilidades

MOBY DICK – D.H. LAWRENCE

A terrível fatalidade.

Fatalidade.

Perdição.

Perdição! Perdição! Perdição! Alguma coisa parece murmurar nas próprias árvores negras da América. Perdição!

Perdição de quê?

Perdição de nosso dia branco. Nós estamos perdidos, perdidos. E a perdição está na América. A perdição de nosso dia branco.

Ah, claro, se meu dia está perdido, e eu perdido com o meu dia, existe uma coisa maior do que eu que me leva à perdição, e assim eu aceito minha perdição como sinal da grandeza que é maior do que eu.

Melville sabia. Ele sabia que sua raça estava perdida. Sua alma branca, perdida.

Sua grande época branca, perdida. Ele próprio, perdido. O idealista, perdido. O espírito, perdido.

A reversão. “Ela não estava se dirigindo a um porto à frente, mas fugia de todos os portos que deixava para trás.”

Esse nosso grande medo! Nossa civilização se afastando rapidamente a ré de todos os portos.

A última e horrível caçada. A Baleia Branca.

O que é então Moby Dick? Ele é o mais profundo sangue da raça branca; é nossa mais profunda natureza sanguínea.

E ele é caçado, caçado, caçado pelo fanatismo maníaco de nossa consciência mental branca. Nós queremos caçá-lo até o fim. Para sujeitá-lo à nossa vontade. E nessa caçada maníaca e consciente de nós mesmos tomamos raças escuras e claras para nos ajudar, vermelhas, amarelas e negras, do leste e do oeste, quacres e adoradores de fogo, nós as tomamos todas para nos ajudar em nossa horrível e maníaca caçada que é nossa perdição e nosso suicídio.

O último ser fálico do homem branco. Caçado na morte da consciência imediata e da vontade ideal. Nosso ser de sangue sujeito à nossa vontade. Nossa consciência de sangue minada por uma consciência ideal ou mente parasitária.

Moby Dick, nascido do mar, o sangue quente. Caçado por monomaníacos da ideia. Oh Deus, oh Deus, o que vem a seguir, quando o Pequod afunda?

Ele naufraga na guerra, e nós todos somos vestígios de naufrágios.

Agora o que vem depois?

Quem sabe? ¿Quién sabe, quién sabe, señor?

Nem espanhóis, nem anglo-saxões tem a resposta.

O Pequod caiu. E o Pequod era o navio da alma branca americana. Ele afundou, levando consigo seu negro e seu índio e seu polinésio, asiático e quacre e bons homens de negócio ianques e Ishmael: ele os afundou todos.

Boom! Como diria Vachel Lindsay.

Para usar as palavras de Jesus, ESTÁ ACABADO.

Consummatum est!

Mas Moby Dick foi publicado em 1851. Se a Grande Baleia Branca afundou o navio da Grande Alma Branca em 1851, o que tem acontecido desde então?

Efeitos pós-morte, presumidamente.

Porque, nos primeiros séculos, Jesus era Cetus, a Baleia. E os cristãos eram os pequenos peixes. Jesus, o Redentor, era Cetus, o Leviatã. E todos os cristãos seus pequenos peixes.

*********

 

 

MOBY DICK

D.H. LAWRENCE

 

 

MOBY DICK, ou a Baleia Branca.

Uma caçada. A última grande caçada.

Em nome de quê?

Em nome de Moby Dick, o imenso cachalote; que é velho, grisalho, monstruoso, e nada sozinho; que, tendo estado muitas vezes sob ataque, é inominavelmente terrível em sua ira; e branco como a neve.

É claro que ele é um símbolo.

De quê?

Duvido que mesmo Melville soubesse com precisão. Isso é o melhor de tudo.

Ele tem o sangue quente, ele inspira amor. Ele é o Leviatã solitário, não da espécie de Hobbes. Ou é?

Ele tem o sangue quente e inspira amor. Os ilhéus dos Mares do Sul, os Polinésios e Malaios, adoradores de tubarões, ou crocodilos, ou que teceram à exaustão imagens distorcidas de gaivotas, por que eles jamais adoraram a baleia? Ela é muito grande!

Porque a baleia não é má. Ela não morde. E seus deuses têm de morder.

Ela não é um dragão. Ela é o Leviatã. Ela nunca se movimenta em espirais como o Dragão do Sol chinês. Ela não é uma serpente das águas. Ela tem o sangue quente, é um mamífero. E é caçada, muito caçada.

É um grande livro.

A princípio você se cansa por causa do estilo. Soa como jornalismo. Parece falso. Você acha que Melville está querendo fazê-lo acreditar em algo. Não vai dar.

E Melville é realmente um pouco sentencioso; cioso e consciente de si, querendo ele mesmo acreditar em algo. E aí não é fácil entrar no ritmo de uma peça de profundo misticismo quando você só quer acompanhar uma história.

Ninguém pode ser mais bobalhão, mais sem graça e sentenciosamente de mau gosto do que Melville, mesmo em um grande livro como Moby Dick. Ele reza e prega porque não está seguro de si. E ele prega, muitas vezes, de um modo muito amador.

O artista era muito maior do que o homem. O homem é, antes, um chato da Nova Inglaterra, do tipo eticamente transcendentalista e místico: Emerson, Longfellow, Hawthorne etc. Muito cansativo, a estupidez solene até no humor. Tão desgraçadamente au grand sérieux, você sente como se dissesse: Bom Deus, em que isso me interessa? Se a vida é uma farsa, ou um desastre, ou sei lá o quê, o que me importa? Deixe a vida ser o que é. Me dê uma bebida, é isso o que quero agorinha mesmo.

Da minha parte, a vida é feita de muitas coisas que não me importam. Não é de meu interesse desvendá-la. Neste momento, ela é uma xícara de chá. Pela manhã, era losna e fel. Passe-me o açúcar.

Há quem se aborreça com o grand sérieux. Existe algo de falso nisso. E esse algo é Melville. Oh, querido, quando a estupidez solene guincha, guincha que guincha!

Mas ele era um artista grande e profundo, mesmo que antes fosse um homem sentencioso. Era um americano de verdade, um que sempre sentia seu público diante de si. Mas quando ele deixa de ser americano, quando esquece todo o público, e nos oferece sua mais completa percepção de mundo, aí então ele é maravilhoso, seu livro impõe um silêncio na alma, um temor reverente.

Em seu íntimo “humano”, Melville é quase um morto. Isto é, ele dificilmente vai reagir ao contato humano; ou apenas em um plano ideal; ou apenas por um instante. Seu íntimo humano, emocional quase já não existe. Ele é abstrato, autoanalítico e alienado de si. E está muito mais interessado nos estranhos deslizares e colisões da Matéria do que nas coisas que os homens fazem. Neste ponto, ele é como [Richard Henry] Dana. Seu negócio está nos elementos materiais. Seu drama está neles. Ele foi um futurista muito antes do futurismo encontrar suas tintas. O pleno e evidente deslizar dos elementos. E a alma humana experimentando tudo isso. Muitas vezes, isso vai além dos limites: psiquiatria. Quase falso. E tão grande.

É a velha coisa de sempre em todos os americanos. Eles ficam com seus capotes ideais e fora de moda, e seus ultrapassados chapéus de seda, enquanto fazem as coisas mais impossíveis. Ali está: você vê Melville abraçado na cama por um ilhéu dos Mares do Sul, e oferecendo solenemente a oferenda chamuscada a seu pequeno ídolo selvagem, e seu capote ideal só esconde sua gola e nos impede de ver seu peito nu enquanto ele faz seus salamaleques, enquanto o tempo inteiro seu ético chapéu de seda está corretamente postado sobre sua fronte. Isso é tão tipicamente americano: fazer as coisas mais impossíveis sem tirar suas vestes espirituais. Seus ideais são como a armadura que enferrujou e nunca mais se desmonta. E enquanto isso em Melville seu conhecimento corporal tem a nudez do movimento, uma vida ágil por entre os elementos desolados. Pois com uma sensibilidade física e vibracional completa, como uma antena, ele capta os efeitos do além-mundo. E também registra, quase além da dor ou do prazer, as transições extremas da alma isolada e muito distante, a alma que agora está sozinha, sem nenhum contato humano real.

Os primeiros dias em New Bedford introduzem o único ser humano que realmente aparece no livro, mais especificamente, Ishmael, o “Eu” do livro. E então seu camarada do momento, Queequeg, o tatuado e poderoso arpoador dos Mares do Sul, que Melville ama como Dana ama Hope. O surgimento do companheiro de quarto de Ishmael é divertido e inesquecível. Mas logo a seguir os dois juram um “casamento”, na linguagem dos selvagens. Pois Queequeg abriu mais uma vez as comportas do amor e da relação humana em Ishmael.

Durante um tempo fiquei sentado ali naquele aposento solitário; o fogo baixo, num estágio intermediário após sua primeira intensidade ter aquecido o ar, apenas brilhando para ser olhado; as sombras e os fantasmas noturnos se juntando nos vãos das janelas, observando-nos, silenciosa e solitária dupla; a tempestade bramindo lá fora em ondas solenes; comecei a ter consciência de sentimentos estranhos. Senti algo derretendo em mim. Meu coração despedaçado e minhas mãos enlouquecidas já não se rebelavam contra o mundo lupino. Este selvagem conciliador o redimira. Lá estava ele sentado, sua indiferença era de uma natureza que não conhecia nem a hipocrisia civilizada, nem a fraude mais branda. Era um selvagem; um espetáculo dentre os espetáculos; contudo, comecei a me sentir misteriosamente atraído por ele.

Então eles fumam juntos, e estão agarrados um ao braço do outro. A amizade é finalmente selada quando Ishmael oferece o sacrifício ao pequeno ídolo de Queequeg, Yojo.

Eu era um bom Cristão; nascido e logo trazido ao seio da infalível Igreja Presbiteriana. Como então poderia me unir a esse idólatra selvagem na adoração de seu pedaço de madeira? Mas o que é a adoração?, pensei. Você então supõe, Ishmael, que o magnânimo Deus do céu e da terra – e até dos pagãos – pode sentir ciúmes de um pedaço insignificante de madeira preta? Impossível! Mas o que é a adoração? – fazer o desejo de Deus – isso é adorar. E qual é o desejo de Deus? – fazer ao semelhante o que desejo que façam a mim – esse é o desejo de Deus.

– Que soa como Benjamin Franklin e é, irremediavelmente, teologia barata. Mas é a verdadeira lógica americana.

Ora, Queequeg é meu semelhante. E o que gostaria que Queequeg fizesse por mim? Ora, unir-se a mim em meu rito presbiteriano de adoração. Portanto, eu devo unir-me a ele, logo, devo tornar-me um idólatra. Assim, acendi as aparas; ajudei a pôr o idolozinho inocente de pé; ofereci-lhe biscoito queimado com Queequeg; fiz uns dois ou três salamaleques diante dele; beijei seu nariz; terminadas essas cerimônias, nos despimos e fomos para a cama, em paz com as nossas consciências e em paz com o mundo todo. Mas não adormecemos sem antes papear um pouco.

Não sei por quê; mas não há lugar mais propício para confidências entre amigos do que uma cama. Marido e mulher, dizem, ali abrem até o fundo da alma um para o outro; e alguns casais idosos muitas vezes ficam deitados conversando sobre os velhos tempos até o amanhecer. E assim, na lua-de-mel de nosso coração, eu e Queequeg ficamos deitados – um casal aconchegante e amoroso.

Você poderia pensar que essa relação significa alguma coisa para Ishmael. Mas não. Queequeg é esquecido como jornal velho. As coisas humanas são emoções ou diversões momentâneas para o americano Ishmael. Ishmael, o caçado. Mas muito mais Ishmael, o caçador. O que é um Queequeg? O que é uma esposa? A baleia branca precisa ser caçada até o fim. Queequeg precisa ser apenas “CONHECIDO”, e então lançado ao esquecimento.

E o que, em nome da fortuna, é a baleia branca?

Em algum lugar Ishmael diz amar os olhos de Queequeg: “seus olhos grandes e profundos, de um negro vívido e audaz”. Sem dúvida como Poe, ele quis encontrar a “pista” para eles. E só.

Os dois homens viajam de New Bedford para Nantucket, e então se alistam no navio baleeiro quacre, o Pequod. Tudo isso é estranhamente fantástico, fantasmagórico. A viagem da alma. E no entanto, curiosamente também uma verdadeira viagem baleeira. Nós seguimos pelos mares afora com este estranho navio e sua incrível tripulação. Perto dela, os Argonautas eram quase como ovelhas. E veja que Ulisses saiu derrotando as Circes e superando as rameiras maldosas das ilhas. Mas a tripulação do Pequod é formada por um bando de maníacos que caçam fanaticamente uma solitária e inofensiva baleia branca.

Como uma história da alma, deixa qualquer um nervoso. Como um conto de marinheiro, é maravilhoso: há sempre algo um pouco exagerado nos contos de marinheiro. Deveria haver. E então, mais uma vez, sobrepõe-se à experiência do homem do mar um sonoro misticismo – o que dá nos nervos. E mais uma vez, como uma revelação do destino do livro, ele é profundo demais mesmo para lamentos. Profundo para além do sentimento.

Você ainda está um pouco antes de poder ver o capitão, Ahab: o misterioso quacre. Oh, esse é um navio de um quacre temente a Deus. Ahab, o capitão. O capitão da alma.

Sou o senhor de meu destino,

Sou o capitão de minha alma!

 

Ahab!

“Oh capitão, meu capitão, nossa temida viagem se completou.”

O macilento Ahab, quacre, sujeito misterioso, aparece somente depois de alguns dias no mar. Existe um segredo sobre ele. O quê?

Oh, ele é um sujeito portentoso. Ele manca de uma perna de mármore, feita de mármore do mar. Moby Dick, a grande baleia branca, arrancou a perna de Ahab na altura do joelho, quando Ahab a atacava.

Pois muito bem. Que tivesse arrancado as duas pernas e um pouquinho mais. Mas Ahab não pensa assim. Ahab é agora um monomaníaco. Moby Dick é sua monomania. Moby Dick precisa MORRER, ou Ahab não poderá mais viver. Ahab é ateu por causa disso.

Tudo bem.

Esse Pequod, navio da alma americana, tem três imediatos.

1) Starbuck: quacre, de Nantucket, um bom e responsável homem de razão, precavido, intrépido, o que se chama de um homem sem iniciativa. No fundo, medroso.

2) Stubb: “Destemido como fogo, e mecânico”. Insiste em ser desleixado e engraçadinho em qualquer ocasião. Precisa sentir medo, também.

3) Flask: Determinado, obstinado, sem imaginação. Para ele “a imensa baleia era apenas uma espécie de camundongo grande ou rato d’água”.

Aqui você tem: um capitão monomaníaco e seus três imediatos, três esplêndidos homens do mar, admiráveis baleeiros, homens de primeira linha em seu trabalho.

América!

É quase como o Sr. Wilson e sua admirável e “eficiente” comitiva na Conferência da Paz. Exceto pelo fato de que os homens do Pequod não levavam suas mulheres a bordo.

Um capitão da alma maníaco, e três eminentes e presentes imediatos.

América!

E então a tripulação. Renegados, náufragos, canibais: Ishmael, quacres.

América!

Três arpoadores gigantes para fustigar a grande baleia branca.

1) Queequeg, o ilhéu dos Mares do Sul, todo tatuado, grande e poderoso.

2) Tashtego, o pele-vermelha da costa, onde os índios encontram o mar.

3) Daggoo, o negro imenso e preto.

Aqui você os encontra, três raças selvagens, sob a bandeira americana, o capitão maníaco, com seus grandes e astutos arpoadores, prontos para fustigar a baleia branca.

E apenas depois de muitos dias em alto mar a tripulação do bote de Ahab aparece no navio. Estranhos, silenciosos, sigilosos e vestidos de preto, malaios, parses adoradores do fogo. Esses são os homens do bote de Ahab, quando esse é lançado em busca daquela baleia.

O que você acha do navio Pequod, o navio da alma de um americano?

Muitas raças, muitos povos, muitas nações, sob as listras e estrelas.

Submetidos com muitas listras.

Vendo as estrelas às vezes.

E em um navio louco, sob um capitão louco, em uma louca e fanática viagem.

Em nome de quê?

Em nome de Moby Dick, a grande baleia branca.

Mas esplendidamente conduzidos. Três esplêndidos imediatos. A coisa toda envolta em praticidade, eminentemente prática em seu trabalho. Indústria americana!

E toda essa prontidão a serviço de uma caçada louca, louca.

Melville tenta conservá-lo como um navio baleeiro de verdade, em uma cruzada de verdade, a despeito de todos os fanáticos. Uma viagem maravilhosa, maravilhosa. E uma beleza que só é superada pelo horrendo arrastar-se do autor em águas místicas. Ele quer manter a profundidade metafísica. E ele vai mais fundo do que a metafísica. É um livro extraordinariamente belo, com um significado terrível, e surpresas desagradáveis.

É interessante comparar Melville com Dana, a respeito do albatroz – Melville é um pouco sentencioso.

Lembro-me do primeiro albatroz que vi. Foi durante uma longa tormenta, nas águas turbulentas dos mares antárticos. Do meu turno da manhã, embaixo, subi para o convés nublado; e lá, projetado no convés principal, vi uma coisa magnífica, em suas penugens de brancura imaculada, e com um bico adunco e sublime como um nariz romano. De vez em quando arquejava suas grandes asas de arcanjo, como se cobrisse uma arca sacrossanta. Fantásticas palpitações e vibrações agitavam-no. Ainda que o corpo não estivesse ferido, soltava gritos, como o espectro de um rei em angústia sobrenatural. Em seus olhos estranhos e inexpressivos pensei ver segredos que chegavam até Deus. Como Abraão diante dos anjos, inclinei-me; aquela coisa branca era tão branca, suas asas tão vastas, e naquelas águas de perpétuo exílio, eu perdera as memórias que trouxera a reboque de tradições e cidades. […] Afirmo, então, que em sua brancura maravilhosa se esconde principalmente o segredo do feitiço […]

O albatroz de Melville é um prisioneiro, pego por uma isca em um gancho.

Bom, eu também já vi um albatroz: ele também nos seguia nas águas próximas à Antártida, sul da Austrália. E no inverno do Sul. E o navio, um P.&O., quase vazio. E a tripulação indígena tremendo.

O pássaro com suas longas, longas asas nos seguindo, e então nos deixando. Ninguém sabe até que experimenta, quão ermas, quão solitárias são as águas do Sul. E as aparições rápidas da costa australiana.

Isso faz com que sintamos que nosso dia é apenas um dia. Que na escuridão da noite outros dias se agitam fecundos logo à frente, quando nós nos desprendemos da existência.

Quem sabe quão totalmente nós havemos de nos desprender.

Mas Melville mantém seu discurso sobre a “brancura”. O grande abstrato o fascina. O abstrato onde terminamos, e deixamos de ser. Branco ou preto. Nosso branco, fim abstrato!

Então de novo é maravilhoso estar no mar com o Pequod, sem um grão de terra por perto.

Era uma tarde nublada e opressiva; os homens passeavam lentamente pelo convés, ou olhavam distraidamente para as águas plúmbeas. Queequeg e eu estávamos ocupados em tecer tranquilamente o que se chama de esteira-espada, para servir de amarra suplementar para o nosso bote. Tão calma e absorta e ainda de certo modo auspiciosa a cena se apresentava, e pairava tamanho encantamento de sonho no ar, que todo marinheiro, em silêncio, parecia dissolver-se em seu próprio eu invisível.

No meio deste silêncio agourento veio o primeiro aviso: “Lá ela sopra! Ali! Ali! Ali! Ela sopra! Ela sopra!”. E então vem a primeira perseguição, uma maravilhosa passagem de verdadeira escrita marítima, o mar, e todos seres do mar na caçada, criaturas marinhas caçadas. Não há praticamente nenhum torrão de terra – puro movimento marinho.

“Avancem, homens”, sussurrou Starbuck, puxando ainda mais para a popa a escota da vela; “ainda temos tempo para matar um peixe antes da tempestade. Veja mais água branca ali! – Mais perto! Continuem!”

Logo em seguida dois gritos sucessivos vindos de ambos os lados indicaram que os outros botes haviam sido rápidos; porém mal foram ouvidos, e Starbuck disse com um sussurro que estalou como um relâmpago: “Levante!”, e Queequeg, com seu arpão na mão, ficou de pé.

Embora nenhum dos remadores pudesse ver de frente o perigo mortal que se encontrava logo adiante, pela fisionomia tensa e pelo olhar fixo do imediato na popa do bote, todos sabiam que o momento crítico havia chegado; também escutaram um ruído enorme que parecia de cinquenta elefantes chafurdando na lama. Enquanto isso o bote continuava a atravessar a neblina, com as ondas a se agitar e silvar à nossa volta, como serpentes furiosas de cabeças levantadas.

“Ali está a corcova. Ali, ali! Dá-lhe!”, sussurrou Starbuck.

Um som breve e apressado partiu do bote; era a seta de ferro de Queequeg. Então, fundindo-se numa mesma comoção veio um ataque invisível da popa, enquanto a proa parecia bater num rochedo; a vela fechou-se e caiu; um jato de vapor escaldante ergueu-se ali perto; alguma coisa debaixo de nós rolou e se virou como um terremoto. Toda a tripulação ficou um pouco sufocada quando foi temerariamente jogada no branco do creme coalhado da tormenta. Tormenta, baleia, e arpão se haviam mesclado; e a baleia, meramente arranhada pelo ferro, escapava.

Melville é um mestre do movimento físico caótico e violento; ele consegue manter uma caçada selvagem inteira sem uma falha sequer. Ele é como que perfeito em criar quietude. O navio está cruzando o Carrol Ground, ao sul de Santa Helena.

Foi quando deslizávamos por essas últimas águas que, numa noite calma e enluarada, quando todas as ondas rolavam como pergaminhos de prata e com a sua agitação suave faziam o que parecia ser um silêncio prateado e não solidão: foi nessa noite silenciosa que um sopro de prata, bem distante das bolhas brancas da proa, foi avistado.

Então há a descrição do brit.

Rumando a nordeste das ilhas Crozet enredamo-nos em vastas pradarias de brit, a minúscula, amarela substância de que a baleia franca fartamente se nutre. Por léguas e mais léguas, aquilo ondulou à nossa volta, de modo que parecíamos estar navegando através de ilimitados campos de trigo maduro e dourado.

No segundo dia, avistamos um grande número de Baleias Francas, as quais, a salvo de serem atacadas por um navio de pesca de cachalotes como o Pequod, boquiabertas nadavam indolentemente através do brit, que, aderindo às bordas fibrosas das impressionantes venezianas que têm nas bocas, era assim separado da água que lhes escapava pelos lábios.

Como ceifeiros matutinos, que lado a lado avançam suas foices, lenta e tempestuosamente, através da relva sempre úmida das campinas alagadiças; assim também esses monstros nadavam, fazendo um som estranho, de capim, de corte; e deixando atrás de si um sem-fim de gavelas azuis no mar amarelo.

Mas era apenas o barulho que faziam ao atravessar o brit que lembrava a ceifa. Vistas dos topos dos mastros, especialmente quando faziam uma pausa e ficavam estáticas por algum tempo, suas imensas formas negras se pareciam mais com massas rochosas sem vida do que qualquer outra coisa.

Essa bela passagem nos conduz à aparição da lula.

Atravessando lentamente as pradarias de brit, o Pequod ainda seguia a sua viagem a nordeste, rumo à ilha de Java; uma brisa suave impelindo a quilha, de tal modo que na serenidade circundante seus três mastros altos e afilados balançassem brandamente, como três brandas palmeiras numa planície. E, com longos intervalos na noite prateada, o jato solitário e encantador ainda se avistava.

Mas numa manhã azul e transparente, quando uma tranquilidade quase sobrenatural se espalhava por sobre o mar, embora desacompanhada de uma estanque calmaria; quando a clareira longamente polida do sol sobre as águas parecia um dedo de ouro, impondo-lhes algum segredo; quando as ondas de chinelos sussurravam juntas enquanto corriam suavemente; neste profundo sossego da esfera visível, um estranho espectro foi visto por Daggoo do topo do mastro principal.

Na distância, um grande vulto branco ergueu-se preguiçosamente, e erguendo-se cada vez mais, e destacando-se do azul, enfim cintilou diante da nossa proa como um trenó, que viesse descendo a neve da colina. Assim faiscante por um momento, também lentamente baixou, e submergiu. Então mais uma vez ergueu-se, e cintilou em silêncio. Não parecia uma baleia; mas será que é Moby Dick?, pensou Daggoo.

Os botes desceram e foram lançados à cena.

[…] no mesmo ponto em que afundara, lentamente ressurgiu. Quase esquecendo por ora os pensamentos sobre Moby Dick, então contemplamos o mais maravilhoso fenômeno que os mares secretos já revelaram até ali aos homens. Um imenso vulto carnudo, com centenas de metros de comprimento e de largura, de reluzente coloração leitosa, flutuava na água, com inúmeros tentáculos compridos irradiando do centro, e se enrolavam e contorciam feito um ninho de anacondas, como que cegamente dispostos a apanhar algum desgraçado objeto ao seu alcance. Não tinha rosto ou face perceptível; nenhum indício concebível de sensação ou instinto; mas ondulava ali sobre as ondas, uma aparição sobrenatural, amorfa e fortuita da vida. Quando aquilo, com um som baixo e aspirado, desapareceu novamente […]

Os capítulos seguintes, com seu relato de caçadas de baleia, a morte, o estripar, o corte, são registros de coisas que acontecem. Então vem o estranho caso do encontro com o Jeroboão, um navio baleeiro encontrado em alto-mar, cuja tripulação inteira se apresentava sob a dominação de um fanático religioso, um dos marinheiros do navio. Há descrições detalhadas da própria extração do espermacete da cabeça de um cachalote. Demorando-se na pequenez do cérebro de um cachalote, Melville observa significativamente: “pois acredito que muito do caráter de um homem estará simbolizado em sua coluna. Eu sentiria mais sua coluna do que seu crânio, desconhecido”. E sobre a baleia, ele acrescenta:

“Pois, vista sob essa luz, a maravilhosa pequenez proporcional do cérebro da baleia é mais do que compensada pela maravilhosa magnitude proporcional de sua espinha”. E em meio à correria de terríveis e assustadoras caçadas, chegam a nós momentos de pura beleza.

Enquanto os três botes permaneciam ali naquele mar que rolava suavemente, contemplando o seu eterno meio-dia azul; e como nenhum gemido ou bramido de qualquer espécie, não, nem mesmo uma ondulação ou bolha subia de suas profundezas; qual homem terrestre teria imaginado que, sob aquele silêncio e tranquilidade, se contorcia e se retorcia em agonia o maior monstro marinho?!

Talvez o mais estupendo capítulo seja o chamado A Grande Armada, no início do volume III. O Pequod navegava por entre o Estreito de Sonda nas proximidades de Java quando se vê sobre um enorme bando de cachalotes.

Às claras, dos dois lados da proa, a uma distância de duas ou três milhas, e formando um grande semicírculo que abrangia metade da linha do horizonte, uma corrente de sopros contínuos de baleias brincava no alto e resplandecia ao céu do meio-dia.

Perseguindo o grande bando, passado o Estreito de Sonda, eles próprios perseguidos por piratas de Java, os baleeiros avançam em alta velocidade. Então os botes descem. Por fim, aquele curioso estado de irresolução inerte acometia as baleias, quando elas estavam, como dizem os homens do mar, sarapantadas. Em vez de imitar um imenso esquadrão e avançar, elas nadavam violentamente de lá pra cá, vagalhões de baleias, sem sair do lugar. O bote de Starbuck, que corria para uma baleia, é arrastado para dentro desse ruidoso caos causado pelo Leviatã. Em louca carreira o bote parece se comprimir através das águas agitadas pelos monstros, até que é levado a um ponto de calmaria no centro daquele bando vasto, louco e terrível. Ali reina uma calmaria pura e brilhante. Ali as fêmeas nadam em paz, e as baleias mais jovens vêm ao bote para cheirá-lo docilmente, como cachorros. E ali os atônitos homens do mar assistem ao amor desses admiráveis monstros, mamíferos, aqui excitados nas profundezas do mar:

Muito abaixo desse maravilhoso mundo da superfície, um outro universo ainda mais estranho se descortinava diante de nós quando olhávamos pelo costado. Pois, suspensas naqueles subterrâneos aquáticos, flutuavam formas de baleias que amamentavam seus filhotes, e outras que, pelo tamanho imenso da cintura, pareciam que em breve se tornariam mães. O lago, conforme sugeri, até uma profundidade considerável, era extraordinariamente transparente; e como os bebês humanos quando mamam olham calma e fixamente para longe do peito, como se levassem duas vidas diferentes ao mesmo tempo; e, conquanto sorvam alimento mortal, ainda assim se deleitam espiritualmente com alguma reminiscência extraterrena; assim também os bebês dessas baleias pareciam olhar na nossa direção, mas não para nós, como se não passássemos de pedaços de sargaço aos seus olhos recém-nascidos. Flutuando ao lado deles, as mães também pareciam calmamente nos observar. […]

Alguns dos segredos mais sutis dos mares pareceram se nos revelar nesse lago encantado. Nós vimos os amores do jovem Leviatã nas profundezas.

E assim, embora cercadas por círculos justapostos de consternação e terror, essas inescrutáveis criaturas do centro se dedicavam livre e desimpedidamente às mais pacíficas atenções; sim, serenamente se regalavam em flertes e deleites.

Há algo de realmente espantoso nessas caçadas de baleia, quase sobre-humano ou inumano, maior do que a vida, mais admirável do que os feitos humanos. O mesmo acontece no capítulo sobre o âmbar-gris: é tão curioso, tão real, e também tão sobrenatural. E de novo no capítulo chamado A batina, certamente a mais antiga peça de falicismo em toda a literatura mundial.

Depois disso vem o fantástico registro da Refinaria, quando o navio é transformado em uma fuliginosa e oleosa fábrica no meio do oceano, e o óleo é extraído da gordura. Na noite da fornada vermelha queimando no convés, Melville encontra sua surpreendente experiência de reversão. Ele está no leme, mas se virou para observar o fogo: quando subitamente ele sente o navio se afastando rapidamente dele, numa mística reversão.

A minha impressão mais forte era de que, por mais rápida e impetuosa que fosse aquela coisa na qual eu estava, ela não estava se dirigindo a um porto à frente, mas que fugia de todos os portos que deixava para trás. Uma sensação violenta e desnorteante, como de morte, invadiu-me. As minhas mãos se agarraram convulsivamente ao leme, mas tive a impressão enlouquecida de que o leme, por algum encantamento, estava invertido. Meu Deus! O que há comigo?, pensei.

Essa experiência de sonho é uma experiência real da alma. Ele termina com uma advertência a todos os homens, que não admirem o fogo vermelho quando sua vermelhidão faz com que todas as coisas fiquem como que desencarnadas. Parece-lhe que seu admirar-se no fogo evocava este horror da reversão, o desmanchar-se.

Talvez lhe parecesse. Ele era nascido na água.

Depois de algum trabalho insalubre no navio, Queequeg caiu em febre e ficou a ponto de morrer.

Como definhou e definhou naqueles poucos dias vagarosos, até que lhe parecia restar pouco mais do que osso e tatuagem. Mas, enquanto todo o resto definhava e os ossos da face ficavam mais salientes, os olhos, no entanto, pareciam ficar cada vez maiores; adquiriram um fulgor de estranha tranquilidade; e plácidos, porém penetrantes, olhavam para você do fundo da doença, um testemunho maravilhoso da saúde imortal que tinha e não podia morrer, nem enfraquecer. E, como os círculos na água que, à medida que enfraquecem, expandem; seus olhos davam voltas e mais voltas como os anéis da Eternidade. Um terror sem nome dominava quem quer que se sentasse ao lado do selvagem enfermiço […]

Mas Queequeg não morre – e o Pequod emerge dos Estreitos do Oriente no Pacífico sem fim. “Para qualquer Feiticeiro, andarilho e pensativo, este plácido Pacífico, uma vez contemplado, deve se tornar para sempre seu mar de adoção. Agita-se em meio às águas mais centrais do mundo.”

Nesse Pacífico as lutas se seguem:

Caía o fim da tarde; e quando todas as lanças do rubro combate se foram; e flutuando no maravilhoso crepúsculo de céu e mar, sol e baleia pereciam pacificamente juntos; então, tal doçura e tal melancolia, tal voluta de orações havia, subindo pelo ar róseo espiraladas, que era como se de muito longe, dos verdejantes e castos vales profundos das ilhas de Manila, a brisa da terra Espanhola, vertida em insolente sopro náutico, tivesse ido ao mar, carregada desses cânticos vesperais.

Mais uma vez calmo, mas apenas para chegar a uma melancolia mais profunda, Ahab, que se afastara da baleia, assistia com atenção à sua agonia final, sentado em seu bote agora tranquilo. Pois aquele estranho espetáculo que se observa em todos os cachalotes agonizantes – o movimento da cabeça voltando-se na direção do sol e morrer assim –, aquele estranho espetáculo, contemplado num tão plácido entardecer, de certo modo proporcionava a Ahab um maravilhamento até então desconhecido.

“Ele sempre se volta para aquela direção – quão lento, e no entanto firme, é seu semblante venerando e vocativo, na eminência de seus últimos e agonizantes movimentos. Também ele adora o fogo […]”

Assim, Ahab realiza seu solilóquio: e assim a baleia de sangue quente se transforma pela primeira vez no sol, que a fazia surgir das águas. Mas como vemos no capítulo seguinte, é o trovão de fogo que Ahab realmente adora: aquele fogo vivo que se espalha e do qual ele carrega a marca, dos pés à cabeça; é a tempestade, a elétrica tempestade do Pequod, quando os santelmos queimam em altas e afiladas chamas de palidez sobrenatural sobre o mastro, e quando o compasso se inverte. Depois disso tudo é fatalidade. A própria vida parece misticamente invertida. Nessas caçadas a Moby Dick não há nada exceto loucura e possessão. O capitão Ahab se movimenta de mãos dadas com seu pobre e imbecil negrinho, Pip, que havia enlouquecido de modo tão cruel, abandonado a nadar sozinho no vasto mar. É a criança imbecilizada do sol de mãos dadas com o monomaníaco do Norte, capitão e senhor.

A viagem rola adiante. Eles encontram um navio, depois outro. É sempre a rotina ordinária, embora tudo seja uma tensão de pura loucura e horror, o terror da última luta que se aproxima.

De lá, de cá, pelas alturas, deslizavam níveas as asas de pequenos pássaros imaculados; eram doces pensamentos da brisa feminina; mas, de um lado, de outro, pelas profundezas de um azul sem fundo, corriam os gigantescos Leviatãs, os peixes-espada e os tubarões; e tais eram os pensamentos vigorosos, tensos e mortíferos do másculo oceano.

Nesse dia Ahab confessa sua preocupação, a preocupação de seu fardo. “Mas eu pareço muito velho, muito, mas muito velho, Starbuck? Eu me sinto mortalmente fraco, e curvado, e corcunda, como se eu fosse Adão cambaleando para além dos séculos cravados desde o Paraíso.” É o Getsêmane de Ahab, antes da última luta: o Getsêmane da alma humana procurando sua última grande conquista pessoal, a última realização da consciência expandida – infinita consciência.

Por fim eles avistam a baleia. Ahab a vê de seu cesto preso à gávea – “Dessa altura a baleia era vista agora um milha ou mais adiante, toda a superfície do mar revelando sua alta e brilhante corcova, e regularmente espirrando seu jato silencioso no ar”.

Os botes descem, para chegar perto da baleia branca.

Finalmente, o caçador ofegante chegou tão perto de sua aparentemente incauta presa, que toda a sua deslumbrante corcova se fez visível, deslizando pelo mar como uma coisa isolada, sempre envolta num anel da mais fina, felpuda e esverdeada espuma. Ele viu intricadas e imensas rugas da cabeça que se projetava mais à frente. Adiante, distante nas águas suaves do tapete turco, seguia a fulgurante sombra branca da imensa fronte leitosa, com um jovial murmúrio de música acompanhando o vulto; e, atrás, as águas azuis corriam entrelaçadas para o vale movente de seu rastro vigoroso; e, pelos flancos, bolhas cintilantes surgiam e dançavam em seu caminho. Mas essas eram estouradas pelas garras ligeiras de centenas de aves alegres que ora cobriam a água de suave plumagem, ora seguiam em seu bater intermitente de asas; e, como o mastro de bandeira que assoma do casco pintado de um galeão, a comprida haste partida de uma lança recente se projetava do dorso da baleia branca; e, de vez em quando, uma das aves da nuvem de garras ligeiras, que pairava e voava de um lado para o outro por sobre o peixe como um dossel, pousava silenciosa e balançava na haste das longas penas da cauda a tremular como pendões.

Uma alegria tranqüila – uma gigantesca suavidade de repouso na velocidade tomou conta da baleia que deslizava.

A luta com a baleia é tão maravilhosa e tão terrível que precisa ser citada à parte do livro. Ela dura três dias. A visão horrenda, no terceiro dia, do corpo mutilado do Parse, perdido no dia anterior, visto agora preso aos flancos da baleia branca pelo emaranhado das linhas de arpão, tem a mística dos pesadelos. A terrível baleia enfurecida se vira contra o navio, símbolo desse nosso mundo civilizado. Ela o golpeia com uma terrível colisão. E uns poucos minutos depois, do último dos valentes botes baleeiros chega um grito:

“O navio? Grande Deus, onde está o navio?” Logo, através da atmosfera fosca e confusa, viram seu fantasma desvanecer-se, como nas brumas da Fata Morgana; apenas a parte superior dos mastros fora da água; enquanto, presos por encantamento, ou fidelidade, ou destino aos seus poleiros outrora elevados, os arpoadores pagãos mantinham sua vigilância náufraga sobre o oceano. E então círculos concêntricos envolveram o bote solitário e toda a sua tripulação e cada remo flutuante e cada haste de lança e, levando a girar as coisas vivas e as inanimadas em volta de um único vórtice, fizeram desaparecer até a menor lasca do Pequod.

O pássaro do céu, a águia, o pássaro de São João, o Pássaro vermelho indígena, o americano, cai junto ao navio, atingido pelo martelo de Tashtego, o martelo do índio americano. A águia do espírito. Afunda!

Pequenas aves voavam agora gritando sobre o golfo ainda escancarado; uma rebentação branca se abateu contra os seus lados íngremes; e então tudo desabou e o grande sudário do mar voltou a rolar como rolava há cinco mil anos.

Assim termina um dos mais estranhos e mais maravilhosos livros do mundo, encerrando seu mistério e seu tortuoso simbolismo. É um épico do mar tal como nenhum outro homem realizou; e é um livro de simbolismo esotérico de profundo significado, e de considerável aborrecimento.

Mas é um extraordinário livro, um livro muito extraordinário, o maior livro marítimo já escrito. Ele se move com terror e reverência na alma.

A terrível fatalidade.

Fatalidade.

Perdição.

Perdição! Perdição! Perdição! Alguma coisa parece murmurar nas próprias árvores negras da América. Perdição!

Perdição de quê?

Perdição de nosso dia branco. Nós estamos perdidos, perdidos. E a perdição está na América. A perdição de nosso dia branco.

Ah, claro, se meu dia está perdido, e eu perdido com o meu dia, existe uma coisa maior do que eu que me leva à perdição, e assim eu aceito minha perdição como sinal da grandeza que é maior do que eu.

Melville sabia. Ele sabia que sua raça estava perdida. Sua alma branca, perdida.

Sua grande época branca, perdida. Ele próprio, perdido. O idealista, perdido. O espírito, perdido.

A reversão. “Ela não estava se dirigindo a um porto à frente, mas fugia de todos os portos que deixava para trás.”

Esse nosso grande medo! Nossa civilização se afastando rapidamente a ré de todos os portos.

A última e horrível caçada. A Baleia Branca.

O que é então Moby Dick? Ele é o mais profundo sangue da raça branca; é nossa mais profunda natureza sanguínea.

E ele é caçado, caçado, caçado pelo fanatismo maníaco de nossa consciência mental branca. Nós queremos caçá-lo até o fim. Para sujeitá-lo à nossa vontade. E nessa caçada maníaca e consciente de nós mesmos tomamos raças escuras e claras para nos ajudar, vermelhas, amarelas e negras, do leste e do oeste, quacres e adoradores de fogo, nós as tomamos todas para nos ajudar em nossa horrível e maníaca caçada que é nossa perdição e nosso suicídio.

O último ser fálico do homem branco. Caçado na morte da consciência imediata e da vontade ideal. Nosso ser de sangue sujeito à nossa vontade. Nossa consciência de sangue minada por uma consciência ideal ou mente parasitária.

Moby Dick, nascido do mar, o sangue quente. Caçado por monomaníacos da ideia. Oh Deus, oh Deus, o que vem a seguir, quando o Pequod afunda?

Ele naufraga na guerra, e nós todos somos vestígios de naufrágios.

Agora o que vem depois?

Quem sabe? ¿Quién sabe, quién sabe, señor?

Nem espanhóis, nem anglo-saxões tem a resposta.

O Pequod caiu. E o Pequod era o navio da alma branca americana. Ele afundou, levando consigo seu negro e seu índio e seu polinésio, asiático e quacre e bons homens de negócio ianques e Ishmael: ele os afundou todos.

Boom! Como diria Vachel Lindsay.

Para usar as palavras de Jesus, ESTÁ ACABADO.

Consummatum est!

Mas Moby Dick foi publicado em 1851. Se a Grande Baleia Branca afundou o navio da Grande Alma Branca em 1851, o que tem acontecido desde então?

Efeitos pós-morte, presumidamente.

Porque, nos primeiros séculos, Jesus era Cetus, a Baleia. E os cristãos eram os pequenos peixes. Jesus, o Redentor, era Cetus, o Leviatã. E todos os cristãos seus pequenos peixes.

 

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Para seu estudo, Lawrence utilizou a primeira edição inglesa de Moby Dick, publicada por Richard Bentley sob o título The Whale em 1851 e dividida em três volumes. A nota curiosa dessa edição é que ela omitia – à revelia do autor – o “Epílogo”, em que Ishmael explica como sobreviveu ao naufrágio. Na época de sua publicação na Inglaterra, tal ausência rendeu algumas críticas à verossimilhança do volume. Lawrence não chega a comentá-las; entretanto, os trechos que cita muitas vezes não coincidem com o texto estabelecido, ora por inversões no corpo da frase, ora por pequenas omissões de frase.

Extraído de Studies in Classic American Literature (1923).

 

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Publicado na fortuna crítica de Moby Dick, de Herman Melville. São Paulo: CosacNaify, 2008, trad. Irene Hirsch e Alexandre Barbosa de Sousa/ trad. da fortuna crítica Bruno Gambarotto, pp. 602-617. Imagem: recorte das ilustrações da edição da CosacNaify: detalhes de ilustrações reproduzidas na Harper’s New Monthly Magazine, v. 49, n. 293, out. 1874. Cortesia da Cornell University Library, Making of America Digital Collection.

 O CUIDADO NÃO EXISTE. O cuidado é sempre qualificado, nunca qualquer, sempre já tomado na percepção de um campo social que o codifica ou o qualifica, mas que sobretudo o distribui. Nesse sentido, as definições de cuidado são sempre já políticas e estratégicas. 

Leia mais em:

https://laboratoriodesensibilidades.wordpress.com/2017/05/15/a-violencia-nao-existe-david-lapoujade/

A violência não existe. A violência é sempre qualificada, nunca qualquer, sempre já tomada na percepção de um campo social que a codifica ou a qualifica, mas que sobretudo a distribui. Nesse sentido, as definições da violência são sempre já políticas e estratégicas.

D. L.

 

 

O inferno fora de nós. “A Etiqueta no Antigo Regime” desvenda como o homem moderno se exilou em sua interioridade

Erich Auerbach, em um estudo literário, cita o teólogo medieval Hugo, do mosteiro de São Vítor: “Refinado é o homem para quem a pátria é doce, corajoso é aquele para quem qualquer solo é uma pátria, mas perfeito é aquele para quem o mundo inteiro é um exílio”. A frase soa familiar. A tradição cristã de renúncia ao mundo, o culto romântico da autenticidade sentimental e a dedicação burguesa à intimidade nos levou a ver o mundo como um “lugar de exílio”. Viver plenamente é viver fora da visibilidade pública na qual tudo parece frio e artificial. Em público, fingimos ser o que não somos e apenas no exílio interior recobramos a espontaneidade recalcada pelo “inferno” do olhar do outro.A reedição de “A Etiqueta no Antigo Regime” (Ed. Moderna), de Renato Janine Ribeiro, desvela a relatividade cultural dessa crença. O autor nos faz ver, com precisão e elegância, que um dia sentimos e agimos de modo diferente. Ao pensarmos no Antigo Regime, quase sempre pensamos em reis obesos, perucas empoadas, mesuras alambicadas, em suma, desperdício, opulência e lassidão moral pagos com a vida dos miseráveis. É mais ou menos assim que a tradição democrático-republicana, ajudada por Hollywood, é certo, pintou a aristocracia. Renato, como um roteirista de cinema, desmonta o lugar-comum. Por meio de imagens eloquentes ele mostra que, se o Antigo Regime foi iníquo, em muitos aspectos, também foi uma experiência de sociabilidade em que política e afeto, poder e prazer, honra e glória caminhavam juntos. Ser nobre significava possuir qualidades morais que, hoje, dificilmente, reconheceríamos naqueles que aspiram à vida pública. Fidelidade, lealdade, pudor, reputação, amizade e proximidade afetiva eram atributos valorizados e trazidos à cena social, de modo permanente, no “ritual da etiqueta”. A etiqueta não era, como na sociedade burguesa, instrumento de ostentação do que se tem, mas um meio de tornar aparente o que se é. “O ser de um homem, diz Janine, se confundia com sua aparência. Quem agia como nobre era nobre”.A sensibilidade barroca não distinguia aparência de essência, mas nada tinha de hipócrita, como se pode pensar. Ela era a substância mesma do que significava viver! Ainda não havíamos sucumbido aos encantos do “mundo interior” e à manipulação econômica da realidade social, responsáveis pelo “declínio do homem público”, como disse Richard Sennett. Foi preciso o romantismo de Rousseau, a educação sentimental burguesa e a invenção do “homem trabalhador” para que a sociabilidade fosse reduzida a dois domínios separados: um domínio afetivo, reservado aos afetos interpessoais, no qual podemos ser sinceros e honestos, e um domínio público impessoal, no qual dissimulamos o que sentimos para melhor exercer a função de cidadão.Essa cisão não existia no mundo da nobreza. Estar em meio a todos exigia , seguramente, controle do jogo da exibição. Mas o jogo não era um simulacro. Ser reconhecido como nobre e não como “parvenu” era uma partida decisiva. A vida sem a admiração dos pares era uma vida sem grandeza. Virtude não era sinônimo de bons sentimentos interiores; honra e glória podiam mesmo dispensar bondade e compaixão. Assim, Redmond Barry, ao decidir se tornar nobre, conquistando Lady Lindon, não hesita em destruir quem estava ao lado, desde que viesse a ser chamado de “Barry Lindon”.Por isso os hábitos aristocráticos de exclusão social eram cruéis em sua imobilidade. Basta lembrar o que ganhamos em liberdade e justiça, com a abolição da hierarquia baseada no sangue e na linhagem, para vermos o progresso moral da modernidade. A intenção de Janine, pois, não é idealizar, conservadoramente, o que passou. Sua pergunta é mais sutil e urgente: como reacender o arendtiano “amor ao mundo”, presente no estilo de vida nobre? Ou, em outros termos, como conciliar apreço pela igualdade, liberdade e solidariedade com uma participação democrática afetivamente investida?A importância do estudo é grande, sobretudo se confrontada ao pano de fundo da moralidade contemporânea. Pensar em afeto, atualmente, é pensar, de imediato, em parcerias amorosas ou em amor familiar. Abandonamos a vida pública à gestão empresarial e fizemos dos sentimentos íntimos o último refúgio contra a obsessão do dinheiro. A tática de evasão custou caro. Pouco a pouco, aprendemos a pilhar, sem escrúpulos, os mais frágeis e seguimos adiante, usando uns aos outros como fontes de excitações momentâneas.Na cena aristocrática essa omissão ou desprezo pelo mundo seriam inconcebíveis. Como nas culturas greco-romanas, viver no “teatro do mundo” era a única forma de vida lograda. Não se podia, portanto, rebaixar aquilo que dignificava. Em nossa cultura, ao contrário, trocamos o respeito ao público pela subserviência à publicidade. Admirado não é o que dignifica, é o que dá lucro. Estamos dispostos a exibir em público corpos e almas por dinheiro. O que exibimos, porém, logo se degrada em mercadoria. A imagem do mundo como feira de interesses criou, desse modo, um dilema moral ao qual estamos presos: ou ocultamos o que tem valor e o mundo se empobrece ou expomos nosso melhor, correndo o risco de vê-lo se degradar comercialmente.O “teatro do mundo” deu lugar ao “mundo do “show business'”, no qual tudo é farsa, moda ou furo jornalístico, destinado a desaparecer depois de excitar, devidamente, a voracidade dos “consumidores”. A distância do mundo da etiqueta é notável. Hoje mostramos o que é volátil e desprezível, antes o que devia durar e já se apresentava como “feito histórico”. No ritual da etiqueta, o “feito”, a apresentação pública do fato e de seu comentário, era, de saída, memória e história, pois exprimia a crença aristocrática de que, embora todos devêssemos morrer, o mundo comum deveria permanecer.No Antigo Regime, sacrificar-se pela glória da linhagem era honroso; na cultura do narcisismo, salvar a própria pele é mesquinho e compulsório. Perdemos todo amor à transcendência, seja ela divina ou mundana, e ficamos com uma pífia paixão pelo corpo e pelas sensações, incapazes de oferecer um sentido duradouro para a vida. E aqui estamos nós, como na imagem de Eliot, no meio do caminho, desfigurados pela inveja e pela competição, sem a “consolação da filosofia” e sem o alento dos nossos melhores ideais.Essa é uma das lições do belo texto de Renato Janine Ribeiro. No momento em que até nossos frágeis lugares de preservação da cultura, da história e da memória vêm se dobrando, pela força ou conivência, à lei do “quem dá mais”, é sempre salutar ouvir alguém dizer: “Era uma vez um lugar em que poder e prazer, honra e glória, política e afeto eram a matéria da vida em comum”. É o que narra Janine. Acredite quem puder e ainda não tiver alugado as orelhas às sereias do marketing.

J.F.C

«Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi»

“Segundo Aion, somente o passado e o futuro insistem ou subsistem no tempo. Em lugar de um presente que absorve o passado e o futuro, um futuro e um passado que dividem a cada instante o presente, que o subdividem ao infinito em passado e futuro, nos dois sentidos ao mesmo tempo. Ou antes, é o instante sem espessura e sem extensão que subdivide cada presente em passado e futuro, em lugar de presentes vastos e espessos que compreendem uns com relação aos outros o futuro e o passado.”

G.D. LS. S23.