02/04/17 no Parque Trianon às 10h – Intervenção artística de Santos no festival internacional Visões Urbanas

Tempos Modernos está na programação do festival internacional Visões Urbanas

 

Intervenção urbana será realizada no domingo (2/4) no Parque Trianon, em São Paulo

 

A intervenção urbana “Tempos Modernos”, realizada desde 2015 em ruas, parques e edifícios públicos da cidade de Santos, está na programação do 10º Visões Urbanas, Festival Internacional de Dança em Paisagens Urbanas, que ocorre de 31 de março a 7 de abril em São Paulo e Campinas. As duas personagens de “Tempos Modernos” vão aparecer pelas alamedas do Parque Trianon, em frente ao Masp, na Avenida Paulista, na manhã de domingo, dia 2, a partir das 10 horas. A intervenção é uma criação da bailarina Jeanice Ferreira, na qual é acompanhada por Alessandro Atanes.

 

Em “Tempos Modernos”, a dupla de intérpretes-criadores busca criar relações com o espaço urbano que formem contrapontos à aceleração constante da vida cotidiana. O trabalho parte do título do filme de Charles Chaplin para sugerir ao público, por contraste, manter um olhar sensível à percepção do tempo. “Desde que eu pensei em fazer o Tempos Modernos, eu pensei também em levá-lo para São Paulo, porque São Paulo tem esse impacto da vida moderna, mas eu ainda acho nela aspectos de singeleza”, conta a bailarina.

 

O Visões Urbanas contará também com artistas de São Paulo, Maceió, Bélgica e Japão. Em 2017, o festival será realizado em homenagem ao coreógrafo Jorge Schutze, falecido no ano passado. Criado em 2006 pelos artistas∕pesquisadores Mirtes Calheiros e Éderson Lopes, o festival já contou com artistas de vários estados do Brasil e países como Portugal, Espanha, França, Argentina, Uruguai, Turquia, EUA, Cuba, Alemanha, Bélgica e Itália.

 

O festival integra ainda a rede de festivais CQD ⌁ cidades que dançam, conectando por meio da dança São Paulo a Lisboa, Barcelona, Valparaíso, Manchester, Genova, Rio de Janeiro, Zurich, Havana e Alegrete, entre outras. “É um festival que eu gostaria que ocorresse em Santos também, para que a cidade passasse a fazer parte dessa rede de cidades que dançam”, comenta Jeanice.

 

Mais informações:

Alessandro Atanes: (13) 9822-98144

http://jeaniceferreira.wixsite.com/temposmodernos

https://www.facebook.com/SobreAModernidadeTemposModernos

www.visoesurbanas.com.br

Busca

Busca

Por Marta Bertolino

Prisão de Villa Devoto, Buenos Aires, Argentina, 1977

 

 

Rosto sem nome; corpo ulcerado;
são restos vivos,
e quem são eles?
Homens, mulheres, adolescentes,
infâncias doídas,
e são milhares.
‒ E ninguém viu?

Caco de corpo; bota na cara;
fantasmas cruéis.
‒ Ninguém conhece?
Infâncias doídas,
e são milhares.
Homens, mulheres, adolescentes,

onde se escondem?

Mais escritórios, outros quartéis,
vozes que clamam desesperadas:

‒ E ninguém viu?
‒ Ninguém conhece?
Ninguém responde.

Andavam sempre pelos caminhos
juntando braços ‒
iam semeando amanheceres,
tinham nas mãos terra de todos
e nos seus cílios, infância alada.
Infâncias doídas,
e são milhares.
Onde estão eles?

Homens, mulheres, adolescentes.
Onde se escondem?

Pequeno fogo em meio à névoa,
saberá deles alguma estrela?

Ninguém responde.
Ninguém responde.
Ninguém responde.

Haverá um tempo que lhes encontre.
Flores crescendo sobre o horror,
terra de todos, cria nascente.

 

 

[Recriação em português: Damian Kraus]

O valor decisivo de uma ação reside naquilo que nela é não-intencional, precisamente no que tem de não-intencional, e que tudo o que tem de intencionalidade, tudo o que se pode ver ou saber dela (tornado consciente), pertence ainda à superfície, à sua pele que, como toda pele, revela algo, mas sobretudo esconde?

Pensamento vem de fora e pensa que vem de dentro.

Arnaldo Antunes

 

Hoje não temos mais compaixão pelo conceito de ‘livre-arbítrio’: sabemos bem demais o que é – o mais famigerado artifício (…) de “sacerdotes” que há, com o objetivo de fazer a humanidade ‘responsável’ no sentido deles, isto é, de torná-la deles dependente… Apenas ofereço, aqui, a psicologia de todo ‘tornar responsável’. – Onde quer que responsabilidades sejam buscadas, costuma ser o instinto de querer julgar e punir que aí busca. O vir-a-ser é despojado de sua inocência, quando se faz remontar esse ou aquele modo de ser à vontade, a intenções, a atos de responsabilidade: a doutrina da vontade foi essencialmente inventada com o objetivo da punição, isto é, de querer achar culpado. Toda a velha psicologia, a psicologia da vontade, tem seu pressuposto no fato de que seus autores, os sacerdotes à frente das velhas comunidades (e hoje há sucessores científicos), quiseram criar para si o direito de impor castigos – ou criar para Deus esse direito…Os homens foram considerados ‘livres’ para poderem ser julgados, ser punidos – ser culpados: em consequência, toda ação teve de ser considerada como querida, e a origem de toda ação, localizada na consciência (assim, a mais fundamental falsificação de moeda in psychologicis [em questões psicológicas] transformou-se em princípio da psicologia mesma. Hoje, quando encetamos o movimento inverso , quando nós, imoralistas, buscamos com toda a energia retirar novamente do mundo o conceito de culpa e o conceito de castigo, e deles “purificar” a psicologia, a história, a natureza, as sanções e instituições sociais, não existem, a nossos olhos, adversários mais radicais do que os “novos sacerdotes”, que, mediante o conceito de ‘ordem moral do mundo’ (tudo é natural e já sabido ), continuam a empestear a inocência da vida com ‘culpa’ e ‘castigo’ (…) O que podemos aprender neste ponto? Que nada dá ao homem suas qualidades, nem Deus, nem a sociedade, nem seus pais e antepassados, nem ele mesmo. Nada é responsável pelo fato do homem existir, seja desta ou da outra maneira, encontrasse em tais condições em tal meio. A fatalidade de seu ser não pode separar-se da fatalidade de tudo o que foi e será. O homem não é a conseqüência duma “intenção própria”, duma “vontade”, dum fim; com ele não se fazem ensaios para obter-se um ideal de humanidade; um ideal de felicidade ou um ideal de moralidade; é absurdo desviar seu ser para um fim qualquer. Nós inventamos a idéia do fim; na realidade não existe o fim … Somos necessários, somos um fragmento do destino, formamos parte de um todo aberto, estamos no todo; não há nada que possa julgar, medir, comparar e condenar nossa existência, pois isto eqüivaleria a julgar, medir, comparar e condenar o todo. E não há nada fora do todo aberto! Nada pode ser responsabilizado: as categorias do ser não podem ser referidas a uma causa primeira, o mundo não é uma unidade, nem como mundo sensível, nem como inteligência; apenas esta é a grande questão, deste modo a inocência do devir fica[1] (…)

***

Durante[2] a era mais longa da “história humana” — a pré-história — o valor ou não valor de uma ação era deduzido de suas consequências. O próprio ato importava tão pouco quanto suas origens, mais ou menos como acontece, hoje em dia, na China, onde os filhos recebem honra ou vergonha como herança dos pais; era o efeito retroativo do êxito ou do fracasso o que induzia a pensar bem ou mal de uma ação. Convenhamos, pois, que aquele foi o período pré-moral da humanidade. O imperativo “conhece-te a ti mesmo” era, pelo contrário, desconhecido. No decurso dos últimos dez milênios, em largas regiões da terra, mudou-se o caminho e agora, o valor é atribuído não às conseqüências da ação, mas à sua origem (INTENÇÕES). Isto representa um acontecimento importante, produto de um grande refinamento do juízo, o efeito distante e inconsciente dos valores aristocráticos, da crença na “origem”, o sinal distintivo de um período que poderíamos denominar de período moral no senso estrito, definitivamente o primeiro passo para o conhecimento de si mesmo (autoconhecimento). Por isso a ação ocorre ao inverso e em lugar de se procurarem as conseqüências, trata-se de encontrar a origem. Que inversão de perspectiva! Uma inversão que é fruto de longos combates e hesitações, na verdade, uma nova superstição de funestas consequências, uma singular estreiteza de interpretação, que chegou para dominar atravessando este caminho. Atribuiu-se a origem de um ato, no sentido mais estrito do termo, a uma intenção e se esteve de acordo com a crença de que o valor de um ato reside no valor de sua intenção (ORIGEM NA DELIBERAÇÃO). A intenção era por si só a origem e a pré-história da ação; e por este preconceito se diferenciou até nossos dias o louvor e a censura, formularam-se juízos e inclusive se filosofou moralmente. Hoje não deveríamos sentir a necessidade de uma inversão total dos valores, graças a um novo retorno sobre nós mesmos, a uma nova sondagem do homem? Não chegamos ao princípio de um novo período ao qual se qualifica, negativamente desde o começo, de extramoral, posto que entre nós, pelo menos, imoralistas, se começa a entrever que o valor decisivo de uma ação reside naquilo que nela é não-intencional, precisamente no que tem de não-intencional, e que tudo o que tem de intencionalidade, tudo o que se pode ver ou saber dela (tornado consciente), pertence ainda à superfície, à sua pele que, como toda pele, revela algo, mas sobretudo esconde? Resumindo, vemos que a intenção nada mais é que um signo e um sintoma que tem necessidade de ser interpretado, um signo carregado de demasiadas significações para ter uma única para ele. Mantemos a opinião de que a moral, tal como foi concebida até hoje, a moral das intenções foi um preconceito, um juízo precipitado e provisório que a coloca no mesmo lugar que a astrologia e a alquimia e em todo caso, algo que deve ser superado. A superação da moral e o triunfo desta sobre si mesma, seria a denominação da larga e misteriosa tarefa reservada às consciências sutis e honestas e também às mais maliciosas da atualidade, na condição de viventes pedras de toque da alma.

N.

***

“Que é que junta em mim as coisas que leio e vejo? Que forças em mim me fazem ver isso? Que forças em mim me fazem expressar assim o que “estou pensando”? Que forças já me dominam? Com que forças me alio[3] ?”

[3] Frases de Luiz Orlandi transcritas do vídeo Orlandi e Giacóia. Acesso em 31/01/2015. Disponível in:http://www.youtube.com/watch?v=Hem6s9cvJKI

CORPO E SEXO (não antropocêntrico e antropomórfico) e o teatro da ciência moderna no trabalho de Marina Abramovic. Vídeo abaixo. O desejo como libido já está espalhado por toda parte, a sexualidade para além da forma-homem percorre e esposa todo o campo social, coincidindo com os fluxos que passam sob os objetos, as ditas pessoas e grupos. Seria preciso dizer que não há sexualidade humana, só representação humana da sexualidade. Talvez a psicologia e os sexólogos tenham permanecido numa ideia antropomórfica e antropocêntrica demasiadamente perceptível do sexo.

D. H Lawrence valoriza os contistas do chamado renascimento, como Boccacio e Laska, como antídotos ao problema da dissimulação moderna e da apologia à pureza.

Nessa valorização de certos contistas do século XV e XVI, o elogio ao corpo e ao sexo nas histórias de Decameron que não trai a vida em favor da dissimulação sentimental. E diz: “(…) sem dissimulação não chegaria a haver pornografia.”

Leia o ensaio completo de D. H. Lawrence, Pornografia e Obscenidade no link:

https://laboratoriodesensibilidades.wordpress.com/2012/11/01/pornografia-e-obscenidade-d-h-lawrence/