David Lapoujade: (…) Que o cérebro não seja mais capturado nos encadeamentos de imagens e de linguagem das sociedades de controle, que introduza cortes irracionais, reencadeamentos a partir desses cortes, movimentos aberrantes, em suma, para se liberar de sua submissão maquínica. Então o cérebro se torna como que o órgão do fora ou a “membrana do fora e do dentro”. Talvez seja dessa maneira, em última análise, que a mônada possa reconquistar aquilo de que é constantemente despossuída: recriar um corpo, um pensamento, uma fala, liberar um cérebro de sua submissão e recriar assim o vínculo do “homem” com “o mundo” que os processos de sujeição e de submissão da axiomática romperam (…)

 

Os movimentos aberrantes.

É o cérebro que diz eu, mas eu é um outro. É o cérebro que pensa e não o homem (forma-homem). Não é de se surpreender que o cérebro, tratado como objeto constituído da ciência, só possa ser um órgão de formação e de comunicação da opinião: e que as conexões graduais e as integrações centradas permanecem sob o modelo estreito da recognicão (gnosias e praxias, ” é um cubo”, “é um lapis”…), e que a biologia do cérebro se alinhe com os mesmos postulados da lógica mais obstinada

A noção além-do-homem de cérebro em O que é a filosofia de Deleuze e Guattari.

 

(Recolha de fragmentos)

 

Pensar sem principios, na ausência de Deus, na ausência do próprio homem, tornou-se a tarefa perigosa de uma criança-jogadora que destrona o velho Mestre do jogo e que introduz os incompossíveis no próprio mundo estilhaçado (a mesa quebra-se… ). Porém, nessa longa história do “niilismo”, que ocorreu antes de o mundo perder seus principios? Mais perto de nós, foi preciso que a Razão humana desmoronasse como último refúgio dos principios, o refúgio kantiano: ela morre de “neurose”.                  
Gilles  Deleuze

Para pensar com radicalidade crescente a experiência do aprendizado, um tal educador ou professor deveria consultar assiduamente pelo menos duas porções do caos: aquela porção com a qual ele não pára de se emaranhar, simplesmente por estar vivo e por ser portador de um cérebro, essa coisa estranha que nele pensa por estar cheia de dobras envolvendo interioridades e exterioridades; e aquela grande porção do caos que ele encontra a cada passo, justamente por envolver-se com o aprendizado dos outros, seja daqueles que outrora eram denominados discípulos, educandos, alunos etc., seja daqueles que já se livraram de certos bancos escolares.
Luiz Orlandi

(…) o pensamento não é aqui remetido ao lento cérebro como ao estado de coisas cientificamente determinável em que ele se limita a efetuar-se, quaisquer que sejam seu uso e sua orientação.  (…) o que concerne ao pensamento, como tal, deve ser separado dos acidentes que remetem ao cérebro, ou as opiniões históricas. Por exemplo, perder a memória, ou estar louco, isto pode pertencer ao pensamento como tal, ou são somente acidentes do cérebro que devem ser considerados como simples fatos? Quanto as pseudociências, que pretendem considerar os fenômenos de opinião, os cérebros artificiais de que se servem tomam como modelos processos probabilísticos, atratores estáveis, toda uma lógica da recognicão das formas; mas devem atingir estados caóides e atratores caóticos, para compreender, ao mesmo tempo, a luta do pensamento contra a opinião e a degenerescência do pensamento na própria opinião. (…) Chamam-se de caóides as realidades produzidas em planos que recortam o caos. A junção (não a unidade) dos planos é o cérebro. Certamente, quando o cérebro é considerado como uma função determinada, aparece ao mesmo tempo como um conjunto complexo de conexões horizontais e de integrações verticais, reagindo umas sobre as outras, como testemunham os “mapas”cerebrais. Então a questão é dupla: as conexões são preestabelecidas, guiadas como por trilhos, ou fazem-se e desfazem-se em campos de forças? E os processos de integração são centros hierárquicos localizados, ou antes formas (Gestalten), que atingem suas condições de estabilidade, num campo do qual depende a posição do próprio centro? (…) Mas, quaisquer que sejam os pontos de vista considerados, não se tem dificuldade em mostrar que caminhos, inteiramente prontos ou em vias de se fazer, centros, mecânicos ou dinâmicos, encontram dificuldades semelhantes. Caminhos inteiramente prontos, que se segue aos poucos, implicam num traçado prévio; mas trajetos, que se constituem num campo de forças, procedem por resoluções de tensão, agindo também gradativamente (…) Não é de se surpreender que o cérebro, tratado como objeto constituído da ciência, só possa ser um órgão de formação e de comunicação da opinião: e que as conexões graduais e as integrações centradas permanecem sob o modelo estreito da recognicão (gnosias e praxias, ” é um cubo”, “é um lápis”…), e que a biologia do cérebro se alinha aqui com os mesmos postulados da lógica mais obstinada(…). Parece então difícil tratar a filosofia, a arte e mesmo a ciência como “objetos mentais”, simples conjuntos de neurônios no cérebro objetivado, já que o modelo derrisório/irrisório da recognicão[1] os encerra na doxa. Se os objetos mentais da filosofia, da arte e da ciência (isto é, as ideias vitais) tivessem um lugar, seria no mais profundo das fendas sinápticas, nos hiatos, nos intervalos e nos entretempos de um cérebro inobjetivável, onde penetrar, para procura-los, seria criar (…).Significa dizer que o pensamento, mesmo sob a forma que toma ativamente na ciência, não depende de um cérebro feito de conexões e de integrações orgânicas: segundo a fenomenologia, dependeria de relações do homem com o mundo — com as quais o cérebro concorda necessariamente porque delas deriva, como as excitações derivam do mundo e das reações do homem, inclusive em suas incertezas e suas falências. “O homem pensa e não o cérebro”; mas esta reação da fenomenologia, que ultrapassa o cérebro na direção de um ser no mundo, através de uma dupla critica do mecanicismo e do dinamismo, não nos faz absolutamente sair ainda da esfera das opiniões, conduz-nos somente a uma Urdoxa, afirmada como opinião originaria ou sentido dos sentidos. A viragem não estaria em outra parte, lá onde o cérebro é “sujeito”, se torna sujeito? É o cérebro que pensa e não o homem, o homem sendo apenas uma cristalização cerebral. Pode-se falar do cérebro como Cezanne da paisagem: o homem ausente, mas inteiro no cérebro… A filosofia, a arte, a ciência não são os objetos mentais de um cérebro objetivado, mas os três aspectos sob os quais o cérebro se torna sujeito, Pensamento-cérebro, os três planos, as jangadas com as quais ele mergulha no caos e o enfrenta. Quais são os caracteres deste cérebro, que não mais se define pelas conexões e integrações secundarias? Não é um cérebro por trás do cérebro, mas, a princípio, um estado de sobrevoo sem distância, ao res do chão, auto sobrevoo do qual não escapa nenhum abismo, nenhuma dobra nem hiato. É uma “forma verdadeira”, primaria como a definia Ruyer: não uma Gestalt, nem uma forma percebida, mas uma forma em si, que não remete a nenhum ponto de vista exterior, como a retina ou a área estriada do córtex não remete a uma outra, uma forma consistente absoluta que se sobrevoa independentemente de qualquer dimensão suplementar, que não apela, pois, a nenhuma transcendência (…) Não diremos também que todo conceito é um cérebro. Mas o cérebro, sob este primeiro aspecto da forma absoluta, aparece bem como a faculdade dos conceitos, isto é, como a faculdade da sua criação, ao mesmo tempo que estende o plano de imanência, sobre o qual os conceitos se alocam, se deslocam, mudam de ordem e de relações, se renovam e não param de criar-se. O cérebro é o espirito mesmo. E ao mesmo tempo que o cérebro se torna “sujeito”, ou antes “superjecto”, segundo o termo de Whitehead, que o conceito se torna o objeto como criado, o acontecimento ou a criação mesma, e a filosofia, o plano de imanência que carrega os conceitos e que traça o cérebro. Assim, os movimentos cerebrais engendram personagens conceituais. É o cérebro que diz Eu, mas Eu é um outro. Não é o mesmo cérebro que o das conexões e integrações segundas, embora não haja transcendência. E este Eu não é apenas o “eu concebo” do cérebro como filosofia, é também o “eu sinto” do cérebro como arte. A sensação não é menos cérebro que o conceito. Se consideramos as conexões nervosas excitação-reação e as integrações cerebrais percepção-ação, não nos perguntaremos em que momento do caminho, nem em que nivel, aparece a sensação, pois ela é suposta e se mantem na retaguarda. A retaguarda não é o contrário do sobrevoo, mas um correlato. É sua maneira de responder ao caos. A sensação vibra, ela mesma, porque contrai vibrações. Conserva-se a si mesma, porque conserva vibrações: ela é Monumento. Ela ressoa, porque faz ressoar seus harmônicos. A sensação e a vibração contraída, tornada qualidade, variedade. E por isso que o cérebro-sujeito aqui é dito alma ou força, já que só a alma conserva contraindo o que a matéria dissipa, ou irradia, faz avançar, reflete, refrata ou converte. (…) Como se as flores sentissem a si mesmas sentindo o que as compõe, tentativas de visão ou de olfato primeiros, antes de serem percebidas ou mesmo sentidas por um agente nervoso e cerebrado. As rochas e as plantas certamente não têm sistema nervoso. Mas, se as conexões nervosas e as integrações cerebrais supõem uma força-cérebro como faculdade de sentir coexistente aos tecidos, é verossímil supor também uma faculdade de sentir que coexiste com os tecidos embrionários, e que se apresenta na espécie como cérebro coletivo; ou com os tecidos vegetais nas “pequenas espécies”. Não só as afinidades químicas, como as causalidades físicas remetem elas mesmas a forças primarias capazes de conservar suas longas cadeias, contraindo os elementos e fazendo-os ressoar: a menor causalidade permanece ininteligível sem esta instancia subjetiva. Nem todo organismo é cerebrado, e nem toda vida e orgânica, mas há em toda a parte forças que constituem microcérebros, ou uma vida inorgânica das coisas. Se não é indispensável fazer a esplendida hipótese de um sistema nervoso da Terra, como Fechner ou Conan Doyle, é porque a força de contrair ou de conservar, isto é, de sentir, só se apresenta como um cérebro global em relação a tais elementos diretamente contraidos e a tal modo de contração, que diferem segundo os dominios e constituem precisamente variedades irredutiveis. Mas, no final das contas, são os mesmos elementos últimos e a mesma força de reserva que constituem um só plano de composição, suportando as variedades do universo.(…) Não basta dizer que estas operações do conhecimento cientifico são funções do cérebro; as funções são elas mesmas, as dobras de um cérebro que traça as coordenadas variáveis de um plano de conhecimento (referência) e que envia por toda a parte observadores parciais. Ha, ainda, uma operação que precisamente mostra a persistência do caos, não apenas em torno do plano de referência ou de coordenação, mas em desvios de sua superfície variável, sempre reposta em jogo. São as operações de bifurcação e de individuação: se os estados de coisas lhes são submissos, e porque são inseparáveis de potenciais que tomam do próprio caos, e que não atualizam sem risco de ser destruídos ou submergidos. Cabe, pois, a ciência por em evidência o caos, no qual mergulha o próprio cérebro, enquanto sujeito do conhecimento. O cérebro não cessa de constituir limites, que determinam funções de variáveis em áreas particularmente extensas; com mais razão, as relações entre essas variaveis (conexões) apresentam um caráter incerto e casual, não apenas nas sinapses elétricas que indicam um caos estatístico, como também nas sinapses quimicas que remetem a um caos determinista. Ha menos centros cerebrais que pontos, concentrados numa área, disseminados numa outra; e “osciladores”, moléculas oscilantes que passam de um ponto a um outro. Mesmo num modelo linear, como o dos reflexos condicionados, Erwin Straus mostrava que o essencial era compreender os intermediários, os hiatos e os vazios. Os paradigmas arborizados do cérebro dão lugar a figuras rizomáticas, sistemas acentrados

P.S

Sem dúvida, este caos está escondido pelo reforço das facilitações geradoras de opinião, sob a ação dos hábitos ou dos modelos de recognição; mas ele se tornara tanto mais sensível, se considerarmos, ao contrário, processos criadores e as bifurcações que implicam. E a individuação, no estado de coisas cerebral, é tanto mais funcional quanto não tem por variáveis as proprias células, ja que estas não deixam de morrer sem renovar-se, fazendo do cérebro um conjunto de pequenos mortos que colocam em nós a morte incessante.(…) o caos no qual o cérebro mergulha. Neste mergulho, diríamos que se extrai do caos a sombra do “povo por vir”, tal como a arte o invoca, mas também a filosofia, a ciência: povo-massa, povo-mundo, povo-cérebro, povo-caos. Pensamento não-pensante que se esconde nos três, como o conceito não conceitual de Klee ou o silêncio interior de Kandinsky. É aí que os conceitos, as sensações, as funções se tornam indecidíveis, ao mesmo tempo que a filosofia, a arte e a ciência, indiscerníveis, como se partilhassem a mesma sombra, que se estende através de sua natureza diferente e não cessa de acompanha-los.

[1] Acerca da noção de recognição ver especialmente o post em: https://laboratoriodesensibilidades.wordpress.com/2016/01/28/a-nocao-de-recognicao-uma-pequena-recolha/ Acesso em 28/07/2016.

Regina Favre: Tecelagem neuro-motora e abdicação das forças narcísicas que nos dominam. Cooperar não é apenas um princípio ético.

Se nos dedicarmos a compreender a continuidade autopoiética de cada corpo como uma tecelagem neuro-motora de comportamentos e modos de contenção da continuidade dos processos formativos de si mais modos de conexão com os fluxos ambientais, poderemos manejar melhor e mais finamente nossa presença no mundo.

O sentimento de ser parte de redes maiores que o indivíduo pensante e vivente, se devidamente amadurecido pela prática de si, ajudada por corpos e grupos mais amadurecidos, revela-se um instrumento urgente, importante e necessário para que possamos nos sentir e agir de modo cooperativo com as forças maiores, políticas e sociais. Cooperar não é apenas um princípio ético. Corpos, dependendo de seu amadurecimento fundem, dependem, exploram, buscam aprovação, obedecem, dominam, competem, mas não cooperam… sentir-se responsável e parte dos processos coletivos requer um grande esforço de amadurecimento e abdicação das forças narcísicas que nos dominam… abrir mão do ego não é fácil… estamos dominados pelas belas palavras que são repetidas, imitadas, muitas vezes de modo arrogante, num esforço de inclusão, como sempre, nas diferentes esferas de poder…