Aguarde brevemente BIOS II – A ALMA É UM ESTÔMAGO promoção do laboratório de sensibilidades em articulação com discentes e docentes das áreas de nutrição, psicologia, filosofia e serviço social

saiba mais acerca do BIOS-I: Biologias da Arte, Artes da Biologia (2011)

O dispositivo BIOS-I: Biologias da Arte, Artes da Biologia foi construído com o propósito de produzir problematizações para além da dicotomia biologia versus humanidades. Foi uma possibilidade de pensar, por meio das artes, um campo comum em que a própria vida (bios) é o valor maior. Em outras palavras, foram enunciadas certas articulações da biologia com as artes visuais, que implicam bios (vida) como invenção, ars curandi e construtivismo vital. Para além de qualquer humanismo extenuado, apresentamos alguns movimentos do que costumamos considerar arte (artes plásticas, cinema, webdesign), utilizando o campo da biologia molecular, anatomia, neurociências, como operadores, como produtores de biopotência, isto é, de vida como obra de arte.
No dia 28/09/11 o laboratório de sensibilidades instalou o BIOS-I na unidade da Av. Ana Costa, 95, onde se situam os laboratórios da área de biociências do campus da Unversidade Federal de São Paulo (UNIFESP) em Santos. Nos vidros escuros que formam uma das paredes do corredor de entrada foram expostas Neuroimagens da artista visual Susan Aldworth, bem como algumas obras da série Cryptozoology, do artista plástico Walmor Corrêa.
Nos computadores do laboratório de informática foram instalados os CD-ROMs Corpocobaia, do artista plástico Paulo Buenos e Potência Virótica da Vida: Afecto, Escrita e Subjetivação da pesquisadora Angela Donine que trazem fotos, trechos de cartas, filmes e obras literárias que articulam questões ao mesmo tempo políticas, biológicas, estéticas e de saúde. A ideia foi que os usuários os explorassem antes de seguir com seus afazeres. Essa abordagem se mostrou pouco eficaz: em geral, os aplicativos eram rapidamente fechados – algumas vezes acompanhados por exclamações de estranhamento do público.
Terminamos o dia com a exibição do filme Videodrome, do diretor David Cronemberg. O filme visionário de 1983, de certo modo antecipa a explosão do youtube, aborda diversas questões contemporâneas como as marcas adquiridas pela cultura da visualização, o impacto biotecnológico e seus efeitos sobre a molecularização dos corpos e da vida. Ao final, os presentes promoveram uma discussão em que todos puderam partilhar suas sensações e perspectivas acerca do filme.

FELICIDADE ANIMAL

(…) as pessoas que gostam verdadeiramente de gatos e cachorros têm uma relação com eles que não é humana. Por exemplo, as crianças, têm uma relação com eles que não é humana, que é uma espécie de relação infantil ou… o importante é ter uma relação animal com o animal. O que é ter uma relação animal com o animal? Não é falar com ele… Em todo caso, o que não suporto é a relação humana com o animal. Sei o que digo porque moro em uma rua um pouco deserta e as pessoas levam seus cachorros para passear. O que ouço de minha janela é espantoso. É espantoso como as pessoas falam com seus bichos (…) A questão é: que relação você tem com o animal? Se você tem uma relação animal com o animal… Interessante é que geralmente as pessoas que gostam dos animais não têm uma relação humana com eles, mas uma relação animal. Isso é muito bonito, mesmo os caçadores, e não gosto de caçadores, enfim, mesmo eles têm uma relação surpreendente com o animal. Acho que você me perguntou, também, sobre outros animais. (…) E é também uma relação com animais, alguém que tem carrapatos, piolhos. O que quer dizer isto? São relações bem ativas com os animais. (…) Se tento me dizer, vagamente, o que me toca em um animal, a primeira coisa é que todo animal tem um mundo. É curioso, pois muita gente, muitos humanos não têm mundo. Vivem a vida de todo mundo, ou seja, de qualquer um, de qualquer coisa, os animais têm mundos. (…)

Os animais emitem signos, não param de emitir signos, produzem signos no duplo sentido: reagem a signos, por exemplo, uma aranha: tudo o que toca sua tela, ela reage a qualquer coisa, ela reage a signos. E eles produzem signos, por exemplo, os famosos signos… Isso é um signo de lobo? É um lobo ou outra coisa? Admiro muito quem sabe reconhecer, como os verdadeiros caçadores, não os de sociedades de caça, mas os que sabem reconhecer o animal que passou por ali, aí eles são animais, têm, com o animal, uma relação animal. É isso ter uma relação animal com o animal. (…) Se me perguntassem o que é um animal, eu responderia: é o ser à espreita, um ser, fundamentalmente, à espreita. CP: Como o escritor? GD: O escritor está à espreita, o filósofo está à espreita. É evidente que estamos à espreita. O animal é… observe as orelhas de um animal, ele não faz nada sem estar à espreita, nunca está tranqüilo. Ele come, deve vigiar se não há alguém atrás dele, se acontece algo atrás dele, a seu lado (…) Não são os homens que sabem morrer, são os bichos, e os homens, quando morrem, morrem como bichos. Aí voltamos ao gato e, com muito respeito, tive, entre os vários gatos que se sucederam aqui, um gatinho que morreu logo, ou seja, vi o que muita gente também viu, como um bicho procura um canto para morrer. Há um território para a morte também, há uma procura do território da morte, onde se pode morrer. E esse gatinho que tentava se enfiar em um canto, como se para ele fosse o lugar certo para morrer. Nesse sentido, se o escritor é alguém que força a linguagem até um limite, limite que separa a linguagem da animalidade, do grito, do canto, deve-se então dizer que o escritor é responsável pelos animais que morrem, e ser responsável pelos animais que morrem, responder por eles… escrever não para eles, não vou escrever para meu gato, meu cachorro. Mas escrever NO LUGAR dos animais que morrem é levar a linguagem a esse limite. Não há literatura que não leve a linguagem a esse limite que separa o homem do animal. Deve-se estar nesse limite. Mesmo quando se faz filosofia. Fica-se no limite que separa o pensamento do não-pensamento. Deve-se estar sempre no limite que o separa da animalidade, mas de modo que não se fique separado dela. Há uma inumanidade própria ao corpo humano, e ao espírito humano, há relações animais com o animal ”

DELEUZE

FELICIDADE MENOS HUMANA

(…) uma vontade de preservar uma parte da vida que seja sem nome, sem interpretação (…) Francis Ponge, poeta que tomou o “partido das coisas”, já havia escrito que, mesmo quando vemos um animal é no homem que pensamos. Como se os outros animais fossem abstratos (…) Cachorros com sentimentos humanos, gatos que só faltam falar, automóveis que “já sabem o caminho do seu dono”(…) toda uma lista de seres e objetos humanizados demonstra como a “psicologia” ganhou espaço fora do reino humano. No cinema os extraterrestres não escapam dessa ambição imperialista, e, os diversos monstros costuman ser bem recebidos, na medida em que aceitam e recebem os sinais e sentimentos humanos. Na publicidade os alimentos ganham rostos e um (…) dentríficio se transforma num ser animado que fala e dá conselhos (…)

Denise Bernuzzi de Sant´Anna

FELICIDADE ELEMENTAL

ELEMENTAL (versão inumanizada)

D.H.Lawrence

As pessoas deixam de ser amáveis
ou de pensar que são amáveis, ou de querer ser amáveis,
e são um pouco elementais.
Desde que o homem é feito dos elementos
fogo, e chuva, e ar, argila viva
e nada disso é amável
mas elemental, o homem é inclinado para o lado das coisas e dos anjos.
Os homens têm um estranho “equilíbrio”
entre os elementos
e podem ser ardentes, literalmente, tão incapazes de dizer mentiras
como o fogo o é.
Fiéis às suas próprias
mudanças, como a água,
que atravessa todos os estágios de vapor e fluxo e gelo
sem perder a cabeça (…)

FELICIDADE BAILARINA (Portuguesa)

A Desfazer-se
Vera Mantero
a cultura está em erosão.
O espírito está em erosão. estão os dois a desfazer-se. estão a desaparecer.
O espírito pode entreter-se com coisas ricas ou pode entreter-se com coisas pobres. o espírito é uma criatura muito ávida de ocupação. precisa de se ocupar-se constantemente. O espírito deve ser O único pedaço de nós que ficou criança e que precisa de estar sempre entretido com uma qualquer coisa. se dissermos a coisa assim, a palavra “entretenimento” torna-se muito menos pecaminosa. enquanto me entretenho com o Glenn Gould e as suas variações Goldberg eu não morro e nada morre à minha volta. necessitamos das artes para não morrermos. as artes falam conosco, as artes dizem-nos coisas, não se calam. não se calam, não nos deixam no silêncio, não nos deixam naquele silêncio em que se morre de tédio, naquele silêncio das casas, aquele silêncio das casas onde não há livros e uma pessoa anda de assoalhada para assoalhada cheia de fome de livros. casas burguesas, muitas vezes, onde não falta dinheiro para pôr as paredes a falar mas onde o espírito já deve ter morrido, porque os mortos não precisam de se entreter, os mortos não precisam que falem com eles, não precisam que lhes contem nada, não precisam de fazer uma leitura das coisas, ou precisamente não querem fazer leitura nenhuma das coisas, não se querem ler nem se querem saber. é sempre duro apercebermo-nos de que estamos mortos. os mortos endinheirados. Vejo as artes como um resíduo, aquilo que resta de uma série de coisas que o ser humano gosta de fazer para manter o seu espírito num determinado ponto de possibilidade. talvez não só de possibilidade como de interesse. um ponto em que é possível e interessante existir. estas coisas que mantêm o espírito nesse ponto são coisas que algures, não sei se no tempo ou no espaço, estão espalhadas pela vida das pessoas, estão espalhadas pela existência em geral, e que aqui, ou agora, se confinaram a determinados locais, a determinados objectos, útimos redutos dessas coisas. O ser humano precisa de ler o mundo. precisa de ir fazendo leituras do mundo, provavelmente não para entendl2r, para explicar qualquer coisa, para arrumar de vez um assunto, mas simplesmente para se situar num ponto, para ter um ponto onde se possa estar, dos milhares de pontos possíveis onde se pode estar. a arte é pensar, é fazer uma leitura do mundo. (normalmente, a esta altura do campeonato, gosto sempre de citar um pedacinho da Marguerite Duras que diz assim: “nada se passa na televisão. ninguém fala na televisão. falar como falar. quer dizer: a partir de qualquer coisa, de seja o que for, um cão atropelado, por ex., repor em marcha o imaginário do ser humano, a sua leitura criadora do universo, esse estranho qénio, tão espalhado pelo mundo, e isto a partir de um cão que foi atropelado “). o ser humano precisa de não estar sempre no quotidiano, precisa de sair do quoti¬diano e entrar noutros níveis, noutra sensação do mundo. precisa de fazer coisas não produtivas, sair da lógica da produção, ter objectivos diferentes desses, precisa de voltar a saber que não há só um caminho entorpecedor e mecânico, que a vida é mais subtil do que isso, mais rica de redes e nós de sentidos e sensações, de linhas que se cruzam e que baralham e iluminam. é preciso reconhecer essas coisas, assiná-las, sublinhá-las, não só através do discurso mas também com o corpo, em acções, associando sentidos e elementos, virando de vez em quando as coisas ao contrário, desorganizando e reorganizando. é preciso olear o espírito, olear o ser. é preciso também pensar com o corpo, deixar o corpo falar, pobre corpo. é preciso sair de dentro do porta-moedas e entrar na associação, no delírio, na sujidade (é muito importante não termos medo da sujidade), na acoplagem, acoplagem de elementos ao nosso corpo, acoplagem de sentidos ao nosso corpo, ou acoplagem de objectos e sentidos entre si, é preciso entrar na transformação, é preciso não esquecer que há uma coisa que se chama êxtase, é preciso entrar no êxtase, na contemplação, na calma, nos sentidos do corpo, no corpo, na poesia, em visões, no espanto, no assombro, no gozo, no inconsciente, na perda, no esvaziamento, no desprendimento, na queda, é preciso tirar os sapatos, é preciso deitarmo-nos no chão, é preciso entrarmos na imaginação, nas histórias, no pensamento, nas palavras, no humor, no pensamento, nas palavras, no humor, no pensamento, na relação com os outros. nós precisamos muito disto, precisamos muito cisto tudo, e estamos a ter muito pouco disto e é por isso que, como disse no início, o espírito está em erosão, a cultura está em erosão e nós às vezes estamos muito tristes ou temos a sensação de que a vida desapareceu de cá de dentro .

Vera Mantero nasceu em Lisboa em 1966. Estudou dança clássica até aos 18 anos. Foi bailarina do Ballet Gulbenkian (1984/1989). Em Nova Iorque e Paris estudou técnicas de dança contemporânea, voz e teatro, fazendo então um corte com a sua formação clássica. Como bailarina trabalhou em França com Catherine Diverrès. Começou a coreografar os seus próprios trabalhos em 1987, e desde 1991 tem mostrado as suas peças em teatros e festivais na Europa, Brasil, EUA, Canadá e Singapura. No ano de 2002 foi-lhe atribuído o Prémio Almada (IPAE/Ministério da Cultura Português) pela sua carreira como criadora e intérprete

FELICIDADE PSICANÁLISE (certo psicanalista)

“A felicidade é uma besteira cultural. Um produto de mercado, ou pelo menos, tornou-se isso. Serve apenas para ajudar a vender uma série de coisas que prometem nos fazer felizes. Eu não quero ser feliz. A felicidade leva a uma série de paradoxos completamente intoleráveis. Não quero ser feliz porque prezo a experiência na sua variedade e intensidade. Interessa-me viver o que a vida me dá em sua plenitude. Quero poder me desesperar quando perco alguém que eu amo porque morre, me deixa, ou a vida faz com que a gente se separe. Eu quero ser infeliz. Quero viver a complexidade de emoções e sentimentos que faz a riqueza da experiência humana. Você vai querer se privar de uma experiência tão rica quanto a perda do pai ou da mãe? É doloroso, mas crucial e comum a todos. Quero viver com alegria, inclusive as dores que a vida me apresenta.”