Foi lançado o livro “Quatro novelas e um conto”. Com as traduções de Tomaz Tadeu, inéditas em português, das ficções do platô 8 de Mil platôs, de Deleuze e Guattari. São novelas e Contos de F. Scott Fitzgerald, Guy de Maupassant, Henry James, Jules Barbey d’Aurevilly, Pierrette Fleutiaux. 

Qual a diferença entre novela e conto? É a pergunta que se fazem Gilles Deleuze e Félix Guattari, filósofos franceses, no capítulo 8 do livro Mil platôs, v. 3 (Editora 34). Para eles, a novela está organizada em torno da questão “o que aconteceu?”. O conto se estruturaria por uma pergunta bem diferente: “o que vai acontecer?”. Nessas teses, eles operam com  quatro novelas (“Na gaiola”, de Henry James; “O colapso”, de F. Scott Fitzgerald; “História do abismo e da luneta”, de Pierrette Fleutiaux; “A cortina carmesim”, de Barbey d’Aurevilly) e de um conto (“Um jeitinho”, de Guy de Maupassant). Essas ficções são aqui reunidas pela primeira vez, permitindo que sejam consultadas enquanto se lê o instigante ensaio de Deleuze e Guattari. Nada impede, é claro, que sejam desfrutadas sozinhas.

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Enfim, um lance de craque na cracolândia paulistana! Antonio Lancetti* Programa Braços Abertos reduziu uso de crack dos participantes em 70%

O Programa Braços Abertos, da Prefeitura de São Paulo, é a boa nova nacional em matéria de enfrentamento ao fenômeno do crack. No centro do bairro da Luz, concentravam-se entre mil e 1,5 mil pessoas que chegaram a construir uma favela, que se tornou famosa por meio de páginas de jornais e telas de TV.O governo do Estado intentou com várias investidas dissolver a chamada cracolândia. Desde 2009 até 2013, por diversas vezes a polícia conseguiu limpar as ruas do bairro da Luz de fumadores de cachimbos, maltrapilhos e outras pessoas em situação de rua.Em 2012, ocorreu a famosa Operação Sufoco, que pretendia, com “crueldade e sofrimento”, tratar as pessoas que habitam e circulam por aquele território: homens e mulheres andando sem sentido e policiais conduzindo-os como gado, sem rumo pela cidade hostil. Essas procissões foram denunciadas pela Defensoria e Ministério Públicos e penalizada judicialmente. Centenas de pessoas foram presas e outras internadas em clínicas e comunidades terapêuticas. A opinião pública iludida aprovou a medida. Os semióticos ainda não decifraram o que revelam e manifestam essas imagens de miséria e fascínio.Ainda não foi estudada a razão salvacionista que movimenta os tantos grupos de pessoas que vão inutilmente tentar salvar essas almas desgovernadas. Grupos religiosos, ONGs e o próprio poder público.A ação higienista do Estado logo demonstrou seu fracasso, pois a maioria dos detidos e internados voltou às zonas de uso mais arredios e difíceis de abordar. A maioria das pessoas que habita e circula por lá já foi internada ou presa.Em 14 de janeiro de 2014, depois de meses de planejamento e discussão com a sociedade civil, foi deflagrada a Operação Braços Abertos. Meses antes, foi criado um ponto de apoio para as pessoas participarem de grupos, oficinas culturais, se alimentarem e para intensificarem o vínculo com os profissionais dos Consultórios na Rua. O espaço, situado na Rua Helvétia, no epicentro da maior zona de uso do Brasil, recebeu o nome Braços Abertos, escolhido pelos usuários e trabalhadores em assembleia.A Prefeitura, com participação de funcionários de várias secretarias, vários secretários e do próprio prefeito, contratou a desmontagem da favela e os passos seguintes. Pela primeira vez, o poder público desmontou uma ocupação irregular sem exclusão e sem violência. Com autoridade, inclusão e ação integrada.O poder público já ofertava saúde, pois equipes de médicos, enfermeiros e agentes de saúde ofereciam cuidados e encaminhamento para Unidades Básicas de Saúde, Ambulatórios de Especialidades Médicas (AMAS), prontos-socorros e comunidades terapêuticas. Mas as equipes de saúde só se relacionavam com uma minoria de pessoas, pois a maioria rejeitava ajuda.Como nas experiências de Housing First, realizadas em Nova York e em outras cidades, e já avaliadas positivamente, se ofereceu casa primeiro. Os programas Housing First já se demonstraram eficazes ofertando casa, sem exigir abstinência de usuários crônicos de álcool e outras drogas (parecidas com as usadas no Brasil).Embora oferecer moradia fez diferença, pois hoje, das aproximadamente 400 pessoas que aderem ao programa, 60% procuram algum tipo de tratamento de saúde, Braços Abertos oferece um pacote de direitos, segundo a expressão de Roberto Tykanori, coordenador nacional de Saúde Mental: casa, comida, trabalho e saúde.O Braços Abertos não foca na droga, mas nas subjetividades, nas biografias, na produção de novas grupalidades e na operação de contratualidades. O fato de as pessoas trabalharem inicialmente na varrição – hoje já está começando a funcionar uma fábrica verde para embelezamento da cidade e o comércio local está oferecendo vagas de emprego –, além do valor simbólico de os “sujos” estarem limpando e oferecendo algo à cidade, foi introduzido um novo fluxo no fluxo. Fluxo é o nome dado ao amontoamento de pessoas que fumam crack e que para se manter lá necessitam mendigar ou roubar para comprar e usar.O dinheiro recebido semanalmente pelo trabalho cria uma nova duração, força uma temporalidade distinta da do imediatismo do crack. A maior parte desse dinheiro é usada para comprar materiais de limpeza pessoal, roupas e injeta mais de R$ 30 mil a cada semana no comércio local.O conceito fundamental que orienta o programa é o de low threshold servisse, que significa baixo limiar de exigência e disparo. Na prática, essa nova metodologia é um mergulho ao fundo da complexidade.Depois de lançado o programa, muitos foram embora com seus familiares, outros usam menos, alguns estão morando em unidades de acolhimento, que são casas onde os usuários moram durante seis ou oito meses, para reorganizarem suas vidas. Das 15 crianças que lá estavam, cinco voltaram para as suas famílias, cinco estão morando nessas residências e cinco permanecem nas ruas da Luz. Mas a repetição das histórias é inevitável. Os conflitos dentro das moradias e o mercado negro das drogas, bem como dos adulterantes, são inevitáveis.Braços abertos é um trabalho em constante transformação. O território já é outro e muda a cada dia. A relação com a rede de unidades de saúde com os serviços de saúde mental, com a de assistência social e com o processo de trabalho das pessoas que já fracassaram no mercado formal é complexa e processual.Experiências como a de São Bernardo do Campo, que é exemplar no gênero, mostram-se de uma complexidade enorme. A menor exigência dos usuários e maior disponibilidade e inteligência dos operadores.Por tudo isso e pelo momento político que estamos vivendo, tudo pode ser atravessado por uma onda de ressentimento, de destruição e de produção de desesperança. Certamente, as críticas serão cada dia mais ácidas e deturpadoras.Tomara que esse período de Copa do Mundo e de eleições passe logo, para que o Programa Braços Abertos possa sofrer as críticas construtivas que merece e venha a ter a continuidade necessária para adquirir consistência.Assim como a ação higienista fracassada era inspirada na perigosa utopia da solução final, Braços Abertos é a solução inicial e, por isso, nos alegra como alegrara ao povo brasileiro a Copa Mundial de Futebol e tantas outras realizações que fazem do Brasil um País menos desigual e mais cidadão.

 

*Antonio Lancetti é psicanalista, autor de Clínica Peripatética (Editora Hucitec)

 

Um exercício com mapas e redes indeterminadas do comum

Um exercício com mapas e redes indeterminadas do comum[1]

Fernand Deligny[2] transcreve as linhas e trajetos das crianças autistas, faz mapas: distingue cuidadosamente as ‘linhas de errância’ e as ‘linhas costumeiras’. E isso não vale somente para os passeios, há também mapas de percepções, mapas de gestos (cozinhar ou recolher madeira), com gestos costumeiros e gestos erráticos. Deligny abriu suas linhas de escrita para linhas de vida. E constantemente as linhas se cruzam, se superpõem por um instante, se seguem por um tempo. Contra a insistência de alguns em ler o humano sob o signo das estruturas de parentesco, Deligny, tem a pachorra de querer lê-lo à luz da “estrutura da rede”, por assim dizer, e ele a descobre por toda parte, desde sua infância, na adjacência precisamente de espaços proibidos, ou interditados, ou vagos. Em todo o caso, os trajetos fazem uma rede apoiada no gesto, no corpo, no rastro (…) Para ele o homem-que-somos descenderia menos dos macacos do que das aranhas: a gestualidade primeva que consiste em tecer uma rede, ou traça-la através de uma mão que não pertence a quem parece possuí-la, é de uma gratuidade que não se inscreve na dialética da comunicação ou da finalidade. Deligny contrapõe “agir” e “fazer”. Fazer é fruto da vontade dirigida a uma finalidade, por exemplo, fazer obra, fazer sentido, fazer comunicação, ao passo que agir, no sentido muito particular que lhe atribui o autor, é o gesto desinteressado, o movimento sem intencionalidade, que consiste eventualmente em tecer, traçar, pintar, no limite até mesmo em escrever, num mundo onde o balanço da pedra o ruído da água não são menos relevantes do que o murmúrio dos homens (…) Se a analogia com a aranha tem seus limites, é por ser a teia a obra de uma só aranha, ao passo que precisamente a rede é obra de muitos, e, no caso humano, por exemplo, dispensa um mestre de obras, um autor que tivesse seu desenho previamente na cabeça. Quando há um claro desenho prévio almejado, presente na cabeça do autor, é aí que desaparece justamente a dimensão do “agir”, do “vagar”, em favor do “fazer”, portanto já finalizado, com o que desaparece o caráter da rede. Pois: “A rede está desprovida de todo “para”, e todo “excesso de para” a coloca em chamas assim que a sobrecarga do projeto é depositada sobre ela.(…) Em todo o caso, a dificuldade em Deligny é ter acesso ao que ele chama de agir. Como evitar que a rede seja engolida pelo projeto pensado, mesmo sabendo que a rede carregará algum projeto, eventualmente? (…) O que é mesmo que eles ligam, esses fios? Sim, referências, em meio aos trajetos de errância ou aos trajetos costumeiros (…) O que são para ele, então, as linhas de errância? São o traçado, sobre folhas de papel transparente, da equipe de adultos que acompanha as crianças, a partir dos trajetos feitos por elas ao longo de um dia, uma jornada. Em geral, sob a folha transparente há uma outra folha, como que um mapa físico do terreno percorrido. Então, trata-se de traçar os trajetos, das crianças autistas, dos adultos, em diferentes cores ou modos: o trajeto dos autistas às vezes em nanquim, com todos os seus desvios sutis, giros, escapadas, recorrências. Com outros meios ou cores, o trajeto dito costumeiro, feito pelos adultos que os acompanham, e do qual as crianças desviam amiúde. Deleuze e Guattari diriam: linha dura para o trajeto costumeiro, linha flexível para o trajeto errático, e linha de fuga para os desvios, as escapadas – tudo isso, grosso modo. Mas afinal, para que traçar tais linhas, fazer tais mapas? O mapa substitui a fala. É uma maneira de evitar o excesso de compreensão que tornaria invivível a existência do autista, e também aliviar o adulto desse desafio, sobretudo para aquele homem, por exemplo, que vem de uma fábrica de caminhões e “não sabe” o que é o autismo – não é “especialista”, e é isto o que o salva e salva o autista. Ao invés de querer compreender, e eventualmente significar, interpretar, cabe traçar, cartografar, diria Guattari, seguir o curso das coisas, como se diz, seguir o curso de um rio, e não fixar-se nas supostas intenções, sempre projetadas, pressupostas (…) Seguir os gestos, e nisso perceber o que isso tudo, essa transumância – cabras, adultos, autistas, em deslocamento, mas repassando pelas referências-, permite daquilo que Deligny chamaria de iniciativas. Não interpelar, mas permitir. Foi preciso então criar um espaço para isso, isto é, para o resto, ou seja, para aquilo que é refratário à compreensão, para esse domínio que um signo não recobre. Quando o vinham visitar, Deligny dizia: venha ver os acontecimentos a partir da minha janela. Mas acrescentava: Ora, se cada um vê os acontecimentos a partir de sua janela, pode ser que o autista não tenha janela. Mas ele traça. Trata-se, pois, de seguir esse traçado ..Dez anos depois de iniciada essa experiência por onde passaram sessenta crianças, pois elas vinham por um, dois meses, às vezes mais, trazidas pelas famílias, sobretudo durante as férias das instituições que frequentavam, com exceção daquelas poucas que viviam ali o tempo todo, Deligny relata o que ali importava, e falou dessa prática de inscrever, sobre folhas transparentes, os trajetos de uns e outros, linhas de errância, e de olhá-las, e elogiava o fato de que, acumuladas, já mal se sabia de quem eram , assim não importa o quem, e nesse esquecimento embaralhado era possível ver a sobreposição dos “restos” e a reiteração do refratário a toda compreensão. Ao invés do abraço compreensivo, ou do empreendedorismo do monitor, ou da maternagem, ou de qualquer traço de familiarismo que infantilizasse, ao invés disso, o respeito- mas do que? dos chevêtres, das madres-devigamento, das ligaduras, são os ai, pontos em que as linhas se cruzam no espaço e no tempo, pontos que por vezes são comuns nos diversos mapas. Há, por exemplo, nessas linhas erráticas, lugares de atração, por exemplo, a fonte de água, ou mesmo um lençol de água o outrora objeto de culto, já recoberto, que só os autistas detectam. O autista que Deligny adota em 1967, e com quem vive por anos, rebatizado janmari, curva-se diante da água, quase como numa reverência, e passa muito tempo ouvindo e contemplando, seu corpo em total vibração, exultação … a água, como diz Deligny, não é para ele uma coisa, pois ele não é um sujeito … a água, sem nenhuma utilidade, nenhuma serventia, nenhuma finalidade, nada tem a ver com a sede do animal, pois a atração pela água vem antes da sede, e é inesgotável. Eis uma ligadura, que não deveria ser rebatida sobre o discursivo (…) A imagem do bonhomme, do homenzinho, não deveria se sobrepor ao trajeto- é todo o perigo, que o trajeto seja “humanizado”. Nos primeiros mapas não se transcrevia o que se “fazia”, embora com o tempo fossem se agregando pequenos signos, ou palavras, tais como “arrumar, carregar, descascar, lavar”, e, com a multiplicação dessas palavras, depositou-se como que uma sobrecarga de fazeres, na contramão total daquilo que desde o início estava colocado, o agir contraposto ao fazer, o agir que abre para a iniciativa, para os gestos inadvertidos, sem finalidade (…) Por que Interessam linhas de errância, mapas e redes em Deligny? Por ser uma perspectiva reversa, que talvez fosse capaz de ler nossa excessiva impregnação de sentido e de intenções, cheia de eu e de palavras, de arrogância humanista (mesmo quando parecemos não tê-la), em suma, a partir da dimensão que Deligny chamaria de inata ou humana-inumana. Um agir que pode permitir e acompanhar desvios e errâncias. Vagar e rastrear o campo. Silenciar (…) Há uma retroescavadeira, uma pedra, um mangue, um barbante, uma certa fonte (…) Pois são os pontos a partir dos quais pode tecer-se uma teia, são as referências que despertam um apego extremo, onde a coisa e o lugar da coisa são o mesmo, e a partir das quais se pode estender fios, invisíveis para nós, mas que deveríamos conseguir imaginar, ou supor, em todo o caso respeitar, pois é com esses fios invisíveis estendidos em meio a um espaço que se constituiu uma teia, uma rede na qual a vida é possível e cuja destruição pode desencadear um desastre, mesmo e sobretudo quando alguém cruza os fios com seus tamancos profissionais (…) Abaixo estão algumas questões experimentais, provisórias e ou descartáveis para um exercício com mapas e redes.  Há nelas certa preponderância do “fazer” sobre o “agir” ainda que um possa auxiliar na prospecção do outro: Diariamente, em que lugares você mais passa – qual o caminho que você mais faz no dia-a-dia – seja para ir ao trabalho, almoçar, ir à casa de parentes e ou amigos? Tem um lugar que você nunca vai aqui à região? Você poderia indicar um ou mais desses lugares? E quando você está alegre (ou quer ficar), tem algum lugar aonde você vai, seja para andar, dançar, passear, visitar alguém? Tem algum lugar (ou mais de um) de que você tem medo, e ou não gosta, acha perigoso ou coisa assim? Quando está mal, com dor e precisa de ajuda, faz o quê? Vai onde? Tem mais algum lugar que você procura quando não está bem? Essas são apenas ideias iniciais, talvez ajudem para um começo. Observação: Para cada questão, montar um percurso no mapa, produzindo um itinerário, quadra a quadra, uma linha com uma cor específica. Pedir para o acompanhado dizer o percurso com detalhes e refazê-lo no mapa com ele.. Podem ser diferentes mapas ou utilizar o mesmo. Na conversa evitar termos que possam conduzir excessivamente como “saúde’, “cuidado” e outros termos afins.. ficar à espreita para outros percursos que o acompanhado queira contar.. há também mapas de percepções, mapas de gestos..podemos inventar outros mapas.. Nos mapas atuais e GPSs – cada um se vê mas não vê a comunidade dos que traçam (…), não se cria o comum , contrariamente aos mapas de Deligny. Mesmo o tempo global não é um tempo comum, os trajetos individuais jamais são clandestinos, essa localização contemporânea cria sua própria ideologia do “saiba onde você está”(…) e as linhas contemporâneas têm por finalidade otimizar e controlar a performance urbana e social, tornar os fluxos mais eficazes e mais fluidos, ao passo que para Deligny tratava- se de traçar um comum impossível, salpicado de desvios, de gestos, de temporalidades, de Nós, de atratores estranhos. Há, para Deligny, não uma greve de fome, mas de fim, a greve da finalidade, do objetivo (terapêutico, pedagógico, ocupacional, político), daí o ritornelo tão provocativo: para que isso tudo? Para Nada ou  seja, para preservar o Resto do Tudo, sabendo que o Tudo é desde sempre já uma truculência, e a totalização, violência.

 

[1] Esse material é uma recolha supersônica com interferências e pequenas inflexões no artigo de PELBART, Peter. “Linhas Erráticas” In: O avesso do niilismo: cartografias do esgotamento. São Paulo: N-1 Edições, 2013.

[2] Fernand Deligny (1913-1996) é um educador, escritor e cineasta francês.

Roteiro social da felicidade. A cultura da autenticidade e da confissão leva os homens a atitudes tolas e insensatas

Vamos ao tesouro da sabedoria popular. Conta-se que um louco procurava algo sob o facho de luz de um poste. Outro louco se aproxima, pergunta o que ele estava procurando e obtém como resposta uma chave! O segundo louco pergunta se ele tem certeza de que perdera a chave naquele lugar. O primeiro diz que não, mas só ali havia bastante luz para que se pudesse ver alguma coisa. O segundo, espantado, diz que o primeiro é louco e propõe que ambos procurem a chave no escuro.A emenda é tão ruim quanto o soneto. Procurar o que se perdeu no lugar errado, só porque está iluminado, ou no lugar certo, mas onde nada se pode enxergar, são duas saídas insensatas, pois ou nunca encontraremos o que queremos achar, ou, se acharmos, não poderemos reconhecer o que encontramos.A anedota pode metaforizar, para alguns, a cegueira do destino humano, às voltas com o malogro inelutável da ilusória realização do desejo. Entre o desejo e o objeto existe sempre o empecilho da luz que nada ilumina ou da escuridão que nos impede de reconhecer, quando encontramos, aquilo mesmo que estamos procurando.Mas, como disse Henry James, “nosso destino jamais se frustra”. A idéia do insucesso “intrínseco” à natureza do desejo pode ser temperada com uma dose salutar de pragmatismo. Em vez de sucumbir à sedução da impossibilidade, por que não experimentar outra saída? Por exemplo, no caso da anedota, por que não pensar em usar uma boa e simples lanterna? É isso o que William James dizia, ao evocar o adágio escolástico: “Onde encontrar uma contradição, faça uma distinção”. Feita a distinção, o enigma ganha outra descrição, e, quem sabe, virão a surgir novos fachos de luz, novas lanternas e novos parceiros na busca do que desejamos.A impressão que fica, ao se assistir ao filme de Todd Solondz, “Felicidade”, é a de “loucos em busca de uma chave”. O diretor evita, com inteligência, a atitude de palmatória do mundo diante dos personagens. Não se trata de afirmar que os adultos se infantilizaram, que as crianças perderam a infância ou que as famílias de hoje, artificiais como bonecos playmobil, perderam o script do que fazer ou dizer. Trata-se de mostrar o novo roteiro social da “felicidade”: a confissão e a autenticidade. Em nome da “autenticidade”, os indivíduos se sentem autorizados a confessar tudo o que sentem ou pensam, pouco importa o que decorra da confissão.À primeira vista, tudo parece uma honesta reação à hipocrisia dos velhos tempos. No novo código moral, toda ocultação é mentira, portanto qualquer sandice dita vale cem sabedorias caladas. De fato, é possível que algo de honesto exista em tudo isso. Mas entre o compromisso com a verdade e a compulsão da confissão existe um formidável abismo moral. No filme, o que é sobremaneira constrangedor não é a desenvoltura com que os personagens expõem as fantasias sexuais ou agressivas: é a incapacidade de dizerem “não” à ordem cultural de confessar! Fazer das relações humanas cópias de confessionários religiosos ou divãs de psicoterapias não é ser mais honesto, sincero ou autêntico: é desistir do exercício da autonomia.Há 20 anos, mais ou menos, a psicanalista Piera Aulagnier dizia que o direito ao segredo é a condição de se poder pensar. Pensar é buscar a coerência consigo e, a partir disso, julgar o que é justo ou injusto, em decorrência do contexto em que se pensa. Ao renunciarmos ao direito de pensar e julgar, em favor da confissão compulsória, renunciamos ao poder de selecionar o que é relevante para a vida moral.Como qualquer forma de consciência de si, a “verdade sentimental obtida por confissão” se apóia em crenças e regras de conduta que não revelam, de imediato, seus objetivos morais implícitos. A primeira dessas crenças é de que, ao confessarmos o que sentimos, estamos “descobrindo” algo sobre nós mesmos, até então enterrado pela dissimulação social ou pela covardia emocional. Quem confessa o que sente, mesmo ao preço de sofrimentos, sente o alívio heróico de padecer pela “justa causa”. Ora, a confissão sentimental não descobre nada. Ela inventa, isso sim, uma identidade pessoal que, sem a prática da confissão, deixaria de existir. Assim como a confissão religiosa criava a identidade do pecador, a confissão sentimental cria a identidade do “sujeito emocionalmente maduro”, essa pífia figura da cultura do narcisismo. Para um budista, um estóico, um Padre do Deserto ou um vitoriano esclarecido, dedicar-se a confessar as esquisitices da vida íntima seria não apenas despudor, mas estupidez.A segunda crença é de que, ao confessarmos o que julgamos indecente, podemos nos tornar totalmente transparentes à nossa consciência e à consciência do outro. O mito racionalista da onipotência cognitiva, no ato mesmo de idolatrar o pretenso “irracional” humano, recalca o que os moralistas franceses disseram há muito tempo, e que pode ser sintetizado na máxima de Pascal: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”. Não precisamos recitar Freud para mostrar quão caricato é o saber psicanalítico usado como aval científico para a orgia da confissão leiga atual.A terceira crença, enfim, é de que a verdade de nossos desejos, impulsos ou inclinações é “mais verdadeira” do que a verdade da sensibilidade à dor e à humilhação do outro. Em uma cena do filme, o aspecto grotesco da cultura da confissão aparece em toda violência: diante do filho (Rufus Read), preocupado com os mistérios da sexualidade masculina, o pai (Dylan Baker) não hesita em dizer o que lhe vem à cabeça. A “autenticidade” de seus sentimentos tem mais valor moral do que a delicadeza para com o sofrimento e a perplexidade afetiva do filho criança.Os personagens de “Felicidade” não são maus, perversos ou “seres reprimidos” ávidos por liberação; são, pura e simplesmente, indivíduos inconsequentes e irresponsáveis, em relação às atitudes morais que reclamam para si. Ou seja, todos querem ser compreendidos, tolerados, perdoados e inocentados no que sentem e dizem, mas nenhum, exceto o personagem de Joy Jordan (Jane Adams), duvida que a prática da boa vida consiste, exclusivamente, em saber e dizer “quem se é” em matéria de sexo e agressividade. Passamos da hipocrisia vitoriana, em que o inferno era o outro, para o vaudeville nova-iorquino ou californiano da auto-ajuda, em que o inferno está dentro de nós, até que venhamos a cuspi-lo na cara dos outros.Não temos por que nos sentir obrigados a escolher entre um ou outro desses cacoetes mentais. Se escutarmos William James, entre outros, podemos jogar fora a “chave dos loucos” e tentar viver outras felicidades menos tolas e infelizes.

Jurandir Freire Costa é professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e autor de “A Inocência e o Vício” (Relume-Dumará) e “Sem Fraude Nem Favor” (Rocco) entre tantos.FSP -13-06-99