“Não cabe esperar, mas buscar novas armas”

“Pode ser que meios antigos, tomados de empréstimo às antigas sociedades de soberania, retornem à cena, mas devidamente adaptados. O que conta é que estamos no início da alguma coisa.”

G.D.

 

Foto: Mídia Ninja

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Micro fascismo contemporâneo (que está em todos nós) e guerrilha contra nós mesmos

Luiz Orlandi [Fragmentos]

 

Guerrilha contra nós mesmos, ou melhor, a guerrilha contra as Potências maiúsculas – sejam Partidos, Religiões, Mídias ou quaisquer proeminências transcendentes – que nos invadem, que nos habitam ou que nos habilitam na sacanagem muito contemporânea de certo servilismo Trata-se de um pensar desconfiado, desconfiado das coisas e dos seus próprios ardis: Um pensar forçado a desconfiar do seu distanciamento sobranceiro, de certo servilismo e andamento almejado.

 

Luiz Orlandi [Fragmentos]

 

“o fascismo”, não só o “histórico de Hitler e de Mussolini”, aquele mesmo que “soube tão bem mobilizar e utilizar o desejo das massas, mas também o fascismo que está em todos nós, que se apossa dos nossos espíritos e das nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos leva a amar o poder, a desejar essa mesma coisa que nos domina e nos explora (….) É interessante notar o quanto as frases de Foucault (por uma vida não fascista) suscitam o ódio dos candidatos a chefetes em todos os níveis do nosso universo de convivências. Não me refiro tão-só aos que se aproveitam das linhagens políticas ou ideológicas e nem apenas aos que se alimentam de disputas em suas respectivas profissões. E nem aponto apenas os violentos que massacram vidas alheias. A coisa é vasta e muito sórdida, é insidiosa e micro-penetrante: contamina modos de escrever e de falar, exala das posturas, insufla sonoridades invasivas, estufa imagens impositivas, cria pequenas ou grandes atmosferas propícias aos narcisismos de toda espécie. Um nojo. Uma vergonha. Às vezes, dá vontade de fugir para não reagir violentamente, reação que nos aproximaria em demasia da própria ressurreição do fascista que julgávamos eliminado para sempre das nossas entranhas machistas

 

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(…) O ardil desse comunicativismo parece consistir em levar cada eu, cada si, a viver com a impressão de ser pensado, visado, procurado, querido, bajulado, espelhado, biografado, noticiado, engrandecido, justiçado, cuidado, venerado, agraciado, compreendido, aplaudido, cumprimentado, velado, representado etc., tudo isso e muito mais compondo mil espelhos para um neo-narcisismo, esse do eu exposto a mil e uma visgo-ofertas que acabam separando-o daquilo que sobrava ao velho Narciso, o tempo da perigosa contemplação de si. Perigosa, porque o espelho d’água podia virar água viva ou tremer revelando a fragilidade da fisionomia. Talvez não se trate mais da velha ilusão da identidade própria, mas da ilusão de não se ter qualquer poder, ou de se ter um poder absoluto de controle sobre a multiplicidade de suas exposições. Sou aliciado por linhas que me tecem como meu próprio inimigo ou aliado .Chego até mesmo a viver intensamente ao sabor das vagas de comunicações e trocas, acostumando-me aos tipos de satisfação ou insatisfação que elas propiciam, mas fazendo-o de tal forma que o eu ou o pedaço de eu capturado se sinta valorizado ou deprimido em sua ego-referência e chegue mesmo a esquecer que essas vagas são o próprio hífen, são o traço traçando sua vidinha, são as vias que enredam a ligação de cada eu grande ou pequeno consigo próprio (…) Interessa o convite a sempre retomarmos a guerrilha contra nós mesmos, ou melhor, a guerrilha contra as Potências maiúsculas – sejam Partidos, Religiões, Mídias ou quaisquer proeminências transcendentes – que nos invadem, que nos habitam ou que nos habilitam na sacanagem muito contemporânea de certo servilismo.

 

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(…) Trata-se de um pensar desconfiado, desconfiado das coisas e dos seus próprios ardis: um pensar forçado a desconfiar do seu distanciamento sobranceiro em relação àquilo que sua prepotência neutralizava como impurezas ou restos, como estorvos ou entulhos dispensáveis ao bom deslocamento do fio condutor do exclusivismo de sua atenção; um pensar que não se livra da reflexão, é claro, mas que dela se avizinha para lhe transmitir sua espontânea ou forçada disponibilidade ao que pode haver de surpreendente ou contundente no bulício dos plexos, nas multilinhas que se intrometem como alternadores de intensidade, que atravessam o ligar e o desligar, que excitam bifurcações nos vincos das dobras, que vergam, encrespam, enlaçam ou torcem as fluências e cortes de um andamento almejado.

 

 

 

Spinoza e suas lentes por Borges

As translúcidas mãos do judeu
Lavram na penumbra os cristais
E a tarde que morre é medo e frio.
(As tardes às tardes são iguais.)
As mãos e o espaço de jacinto
Que empalidece nos confins do Gueto
Quase não existem para o homem quieto
Que está sonhando um claro labirinto.
Não o perturba a fama, esse reflexo
De sonhos no sonho de outro espelho,
Nem o temeroso amor das donzelas.
Livre da metáfora e do mito
Lavra um árduo cristal: o infinito
Mapa d’ Aquele que é todas as Suas estrelas.

Guattari – Ilha Deserta

É normal, numa prática de psicoterapia institucional, que o esquizofrênico o mais perdido nele mesmo libere inesperadamente as histórias mais inacreditáveis sobre a vida privada de alguém, coisas que se poderia acreditar que ninguém as soubesse, e que ele diz para você do modo o mais cru verdades que você acreditava serem secretas. Não é um mistério. O esquizofrênico tem acesso a isso de uma única vez, ele está por assim dizer ligado diretamente aos enganches que constituem o grupo em sua unidade subjetiva. Ele se encontra em situação de “vidência”, lá onde os indivíduos cristalizados na sua lógica, na sua sintaxe, nos seus interesses estão absolutamente cegos.