UMA AMIZADE SEM INTIMIDADE. Como se pensa a dois ou mais? Os autores de “O que é a filosofia”? traçam a história de uma amizade sem intimidade, que funciona por “afinação” e “acoplamento”

No link abaixo:

http://tragica.org/artigos/v8n2/traducao.pdf

Amizade sem rivalidade, amizade sem efusão. “Gilles e eu temos uma certa propensão a tratar quase todo mundo de maneira informal. E, no entanto, há mais de vinte anos, tratamo-nos com formal polidez. Há uma verdadeira política do dissenso entre nós, não um culto, mas uma cultura da heterogeneidade, que faz com que cada um de nós reconheça e aceite  singularidades.

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Crianças da classe média – D.H.Lawrence

Posted by laboratoriodesensibilidades on 26/10/2012

Outra coisa curiosa sobre a classe média inglesa É como ela odeia seus filhos.

Aqueles abaixo de cinqüenta e, mais ainda-; os abaixo de quarenta

Instintivamente odeiam seus filhos Tão logo os têm.

Ao mesmo tempo, tomam o maior cuidado possível com eles – Enfermeiras, médicos, comida apropriada, higiene, escolas, tudo isso –

O maior cuiidado possível ­E os odeiam.

Eles parecem sentir os filhos como uma horrível limitação

– Se não fossem estas crianças eu seria livre –

Livre para que, ninguém sabe. Mas livre!

– Sinto muito, querida, mas não posso vir por causa das crianças.

As crianças, naturalmente, sabem que são cuidadas E odiadas.

Não existe, realmente, maneira de enganar uma criança.

Assim, elas aceitam o desamor dissimulado como o sentimento normal entre as pessoas

E atenção superficial e cuidado e cumprimento da obrigação Como atividade normal

Elas podem até, um dia, perceber a simples afeição como uma grande descoberta.

UM RELATÓRIO PARA UMA ACADEMIA , um conto de Kafka por Deleuze e Guattari (abaixo o conto)

UM RELATÓRIO PARA UMA ACADEMIA

Não adianta latir MELHOR IMAGEM

Só acreditamos numa experimentação de Kafka, sem interpretação nem significado, mas apenas protocolos de experiência: «Eu recuso a sentença dos homens, só procuro propagar conhecimentos, contento-me de relatar; mesmo convosco, Eminentes Senhores da Academia, contentei-me de relatar»; Um escritor não é um homem [forma-homem moderna] escritor, é um homem da micropolítica, e também é um homem experimental (que, deste modo, deixa de ser homem para devir-macaco[1], ou coleóptero, cão, rato, devir animal, devir inumano, porque, na verdade, é pela voz, é pelo som, é através de um estilo que se devém animal, e, seguramente, à força de sobriedade) Uma máquina de Kafka é constituída por conteúdos e expressões formalizadas a diversos graus, assim como por matérias não formadas que nela entram e saem, e que passam por todos os estados. Entrar e sair da máquina, estar na máquina, percorre-la ou aproximar-se dela, também faz parte da máquina; são os estados do desejo, independentemente de qualquer interpretação. A linha de fuga faz parte da máquina. No interior ou no exterior, o animal [2]. (…) no Relato, não se trata de um devir-animal do homem, mas de um devir homem macaco. Esse devir é apresentado como uma simples imitação; e, se se tratasse de encontrar uma saída (uma saída não é «a liberdade»), a saída, pelo contrário, não consiste de maneira nenhuma em fugir. Todavia, por um lado, a fuga só é recusada como movimento inútil no espaço, movimento ilusório da liberdade; esta é, em contrapartida, afirmada como fuga no mesmo lugar, fuga em intensidade (“foi o que eu fiz, esquivei-me, não tinha outra solução dado que excluímos a da liberdade”). Por outro lado, a imitação é só aparente, por não se tratar de reproduzir figuras, mas de produzir um continuum de intensidades numa evolução a-paralela e não simétrica, ou seja, tanto o homem devém macaco como o macaco homem. O devir é captura (…); nunca é reprodução ou imitação. «A ideia de imitar não me seduzia; imitava porque procurava uma saída e não por qualquer outra razão.» Com efeito, o animal capturado pelo homem encontra-se desterritorializado pela força humana. O início do Relato insiste bastante sobre este ponto. No entanto, a força animal desterritorializada, por sua vez, acelera e intensifica a desterritorialização da força humana desterritorializante (se assim se pode dizer). «A minha natureza símia escapava-se de mim a grande velocidade, partia de cabeça, às cambalhotas, de tal modo que o primeiro mestre-escola até ficou simiesco e teve mesmo de renunciar às lições para entrar para o asilo» . Deste modo, constitui-se uma conjunção de fluxos de desterritorialização que ultrapassa a imitação que é sempre territorial. Também é desta maneira que a orquídea tem ar de reproduzir uma imagem de vespa, mas mais profundamente sobre ela se desterritorializa, ao mesmo tempo que a vespa, por sua vez, se desterritorializa ao acasalar- se com a orquídea: captura de um fragmento de código e não reprodução de uma imagem[3].(…) Kafka faz dizer ao macaco em Relato para uma academia, não se trata do movimento vertical bem formado na direção do céu ou diante de si, não se trata de furar o teto, mas de «safar-se de cabeça em riste», para onde quer que seja, ou ficar no mesmo lugar, intensamente; não se trata de liberdade por oposição a submissão, mas apenas duma linha de fuga, ou melhor, duma simples passagem, «à direita, à esquerda, onde quer que seja», a menos significante possível[4]. Franz Kafka. Díárío de 1921: «As metáforas são uma das coisas que me fazem desesperar da literatura.» Kafka aniquila deliberadamente toda e qualquer metáfora, simbolismo, significação, assim como qualquer designação. A metamorfose é o contrário da metáfora. Já não há sentido próprio nem figurado, mas uma distribuição de estados no leque da palavra. A coisa ou as outras coisas são apenas intensidades percorridas pelos sons ou pelas palavras desterritorializadas conforme as suas linhas de fuga

[1] “Devir é nunca imitar, nem fazer como, nem se conformar a um modelo, seja de justiça ou de verdade. Não há um termo do qual se parta, nem um ao qual se chegue ou ao qual se deva chegar. Tampouco dois termos intercambiantes. A pergunta ‘o que você devém?’ é particularmente estúpida. Pois à medida que alguém se transforma, aquilo em que ele se transforma muda tanto quanto ele próprio. Os devires não são fenômenos de imitação, nem de assimilação, mas de dupla captura, de evolução não paralela, de núpcias entre dois reinos.”

UM RELATÓRIO PARA UMA ACADEMIA

Eminentes senhores da Academia:

Conferem-me a honra de me convidar a oferecer à Academia um relatório sobre a minha pregressa vida de macaco. Não posso infelizmente corresponder ao convite nesse sentido. Quase 5 anos me separam da condição de símio; espaço de tempo que medido pelo calendário talvez seja breve, mas que é infindavelmente longo para atravessar a galope como eu o fiz, acompanhado em alguns trechos por pessoas excelentes, conselhos, aplauso e música orquestral, mas no fundo sozinho, pois, para insistir na imagem, todo acompanhamento se mantinha bem recuado diante da barreira. Essa realização teria sido impossível se eu tivesse querido me apegar com teimosia à minha origem e às lembranças de juventude. Justamente a renúncia a qualquer obstinação era o supremo mandamento que eu me havia imposto; eu, macaco livre, me submeti a esse jugo. Com isso porém as recordações, por seu turno, se fecharam cada vez mais para mim. O retorno, caso os homens o tivessem desejado, estava de início liberado através do portal inteiro que o céu forma sobre a terra, mas ele foi se tornando simultaneamente mais baixo e mais estreito com a minha evolução, empurrada para a frente a chicote; sentia-me melhor e mais incluído no mundo dos homens; a tormenta cujo sopro me carregava do passado amainou; hoje é apenas uma corrente de ar que me esfria os calcanhares; e o buraco na distância, através do qual ela vem e através do qual eu outrora vim, ficou tão pequeno que eu me esfolaria no ato de atravessá-lo, mesmo que as forças e a vontade bastassem para que retrocedesse até lá. Falando francamente, sua origem de macaco, meus senhores, até onde tenham atrás de si algo dessa natureza, não pode estar tão distante dos senhores como a minha está distante de mim. Mas ela faz cócegas no calcanhar de qualquer um que caminhe sobre a terra – do pequeno chimpanzé ao grande Aquiles.No sentido mais restrito, entretanto, posso responder à indagação dos senhores e o faço até com grande alegria. Sem dúvida não poderia dizer nem a insignificância que se segue, se não estivesse plenamente seguro de mim e se o meu lugar em todos os grandes teatros de variedades do mundo civilizado não tivesse se firmado a ponto de se tornar inabalável.Sou natural da Costa do Ouro. Sobre como fui capturado, tenho de me valer de relatos de terceiros. Uma expedição de caça da firma Hagenbeck – aliás, com o chefe dela esvaziei desde então algumas boas garrafas de vinho tinto – estava de tocaia nos arbustos da margem, quando, ao anoitecer, eu, no meio de um bando, fui beber água. Atiraram; fui o único atingido; levei dois tiros. Um na maçã do rosto: esse foi leve, mas deixou uma cicatriz vermelha de pêlos raspados, que me valeu o apelido repelente de Pedro Vermelho, absolutamente descabido e que só podia ter sido inventado por um macaco, como se eu me diferenciasse do macaco amestrado Pedro – morto não faz muito tempo e conhecido em um ou outro lugar – somente pela mancha vermelha na maçã da cara. Mas digo isso apenas de passagem.O segundo tiro me acertou embaixo da anca. Foi grave e a ele se deve o fato de ainda hoje eu mancar um pouco. Li recentemente, num artigo de algum dos 10 mil cabeças-de-vento que se manifestam sobre mim nos jornais, que minha natureza de símio ainda não está totalmente reprimida; a prova disso é que, quando chegam visitas, eu tenho predileção em despir as calças para mostrar o lugar onde aquele tiro entrou. Deviam arrancar um a um os dedinhos da mão do sujeito que escreveu isso. Eu – eu posso despir as calças a quem me apraz; não se encontrará lá nada senão uma pelúcia bem tratada e a cicatriz de um tiro delinqüente. Se, ao contrário, aquele escrevinhador despisse as calças diante da visita que chega, isso sem dúvida teria um outro aspecto e quero considerar como sinal de juízo se ele não o fizer.Depois daqueles tiros eu acordei – e aqui, aos poucos, começa a minha própria lembrança – numa jaula na coberta do navio a vapor da firma Hagenbeck. Não era uma jaula gradeada de 4 lados; eram apenas 3 paredes pregadas num caixote, que formava portanto a quarta parede. O conjunto era baixo demais para que eu me levantasse e estreito demais para que eu me sentasse. Por isso fiquei agachado, com os joelhos dobrados que tremiam sem parar, na verdade voltado para o caixote, uma vez que a princípio eu provavelmente não queria ver ninguém e desejava estar sempre no escuro, enquanto por trás as grades da jaula me penetravam na carne. Consideram vantajoso esse tipo de confinamento de animais selvagens nos primeiros tempos e hoje, pela minha experiência, não posso negar que seja assim do ponto de vista humano.Mas então eu não pensava isso. Pela primeira vez na vida estava sem saída; ao menos em linha reta ela não existia; em linha reta diante de mim estava o caixote, cada tábua firmemente ajustada à outra. Sobrevivi a esses tempos. Surdos soluços, dolorosa caça às pulgas, fatigado lamber de um coco, batidas de crânio na parede do caixote e mostrar a língua quando alguém se aproximava – foram essas as primeiras ocupações da minha nova vida. Em tudo porém apenas um sentimento: nenhuma saída. Naturalmente só posso retraçar com palavras humanas o que então era sentido à maneira de macaco e em conseqüência disso cometo distorções; mas embora não possa mais alcançar a velha verdade do símio, pelo menos no sentido da minha descrição ela existe – quanto a isso não há dúvida.Até então eu tivera tantas vias de saída e agora nenhuma! Estava encalhado. Tivessem me pregado, minha liberdade não teria ficado menor. Por que isso? Escalavre a carne entre os dedos do pé que não vai achar o motivo. Comprima as costas contra a barra da jaula até que ela o parta em dois que não vai achar o motivo. Eu não tinha saída mas precisava arranjar uma, pois sem ela não podia viver. Caso permanecesse sempre colado à parede daquele caixote teria esticado as canelas sem remissão. Mas na firma Hagenbeck o lugar dos macacos é de encontro à parede do caixote – pois bem, por isso deixei de ser macaco. Um raciocínio claro e belo que de algum modo eu devo ter chocado com a barriga, pois os macacos pensam com a barriga.Tenho medo de que não compreendam direito o que entendo por saída. Emprego a palavra no seu sentido mais comum e pleno. É intencionalmente que não digo liberdade. Não me refiro a esse grande sentimento de liberdade por todos os lados. Como macaco talvez eu o conhecesse e travei conhecimento com pessoas que têm essa aspiração. Mas no que me diz respeito, eu não exigia liberdade nem naquela época nem hoje. Dito de passagem: é muito freqüente que os homens se ludibriem entre si com a liberdade. E assim como a liberdade figura entre os sentimentos mais sublimes, também o ludíbrio correspondente figura entre os mais elevados. Muitas vezes vi nos teatros de variedades, antes da minha entrada em cena, um ou outro par de artistas às voltas com os trapézios lá do alto. Eles se arrojavam, balançavam, saltavam, voavam um para os braços do outro, um carregava o outro pelos cabelos presos nos dentes. “Isso também é liberdade humana”, eu pensava, “movimento soberano”. Ó derrisão da sagrada natureza! Nenhuma construção ficaria em pé diante da gargalhada dos macacos à vista disso.Não, liberdade eu não queria. Apenas uma saída; à direita, à esquerda, para onde quer que fosse; eu não fazia outras exigências; a saída podia também ser apenas um engano; a exigência era pequena, o engano não seria maior. Ir em frente, ir em frente! Só não ficar parado com os braços levantados, comprimido contra a parede de um caixote.Hoje vejo claro: sem a máxima tranqüilidade interior eu nunca teria escapado. E de fato talvez deva tudo o que me tornei à tranqüilidade que me sobreveio depois dos primeiros dias lá no navio. Mas a tranqüilidade, por sua vez, eu a devo sem dúvida às pessoas do navio.São homens bons, apesar de tudo. Ainda hoje gosto de me lembrar do som dos seus passos pesados que então ressoavam na minha sonolência. Tinham o hábito de agarrar tudo com extrema lentidão. Se algum queria coçar os olhos, erguia a mão como se ela fosse um prumo de chumbo. Suas brincadeiras eram grosseiras mas calorosas. Seu riso estava sempre misturado a uma tosse que soava perigosa mas não significava nada. Tinham sempre na boca alguma coisa para cuspir e para eles era indiferente onde cuspiam. Queixavam-se sempre de que minhas pulgas pulavam em cima deles, mas nunca ficaram seriamente zangados comigo por isso; sabiam muito bem que nos meus pêlos as pulgas prosperam e que as pulgas são saltadoras; conformavam-se com isso. Quando estavam de folga, alguns sentavam-se em semicírculo à minha volta; quase não falavam, mas arrulhavam uns para os outros; fumavam os cachimbos esticados sobre os caixotes; davam tapas nos joelhos assim que eu fazia o menor movimento e de vez em quando um deles pegava um pau e me fazia cócegas onde me era agradável. Se hoje eu fosse convidado a fazer uma viagem nesse navio certamente recusaria o convite, mas é igualmente certo que lá na coberta da embarcação eu não me entregaria apenas a más recordações.A tranqüilidade que conquistei no círculo dessas pessoas foi o que acima de tudo me impediu de qualquer tentativa de fuga. Da perspectiva de hoje me parece que eu teria no mínimo pressentido que precisava achar uma saída caso quisesse viver, mas que essa saída não devia ser alcançada pela fuga. Não sei mais se a fuga era possível, porém acredito nisso; a um macaco a fuga deveria ser sempre possível. Com os dentes que tenho hoje preciso ser cauteloso até no ato habitual de quebrar nozes, mas naquela época decerto eu teria conseguido, com o correr do tempo, partir nos dentes a fechadura. Não o fiz. O que teria sido ganho com isso? Teriam me prendido de novo, mal a cabeça estivesse de fora, e trancafiado numa jaula pior ainda; ou então poderia ter fugido sem ser notado até o lado oposto, onde estavam os outros animais, quem sabe até as cobras gigantescas, e exalado o último suspiro nos seus abraços; ou então conseguido escapar para o convés e saltado pela amurada: aí teria balançado um pouquinho sobre o oceano e me afogado. Atos de desespero. Não fazia cálculos tão humanos, mas sob a influência do ambiente comportei-me como se os tivesse feito.Não fazia cálculos mas sem dúvida observava com toda a calma. Via aqueles homens andando de cima para baixo, sempre os mesmos rostos, os mesmos movimentos, muitas vezes me parecendo que eram apenas um. Aquele homem ou homens andavam pois sem impedimentos. Um alto objetivo começou a clarear na minha mente. Ninguém me prometeu que se eu me tornasse como eles a grade seria levantada. Não se fazem promessas como essa para realizações aparentemente impossíveis. Mas se as realizações são cumpridas, também as promessas aparecem em seguida, exatamente no ponto em que tinham sido inutilmente buscadas. Ora, naqueles homens não havia nada em si mesmo que me atraísse. Se eu fosse um adepto da já referida liberdade, teria com certeza preferido o oceano a essa saída que se me mostrava no turvo olhar daqueles homens. Seja como for, porém, eu os observava desde muito tempo antes que viesse a cogitar nessas coisas – sim, foram as observações acumuladas as que primeiro me impeliram numa direção definida.Era tão fácil imitar as pessoas! Nos primeiros dias eu já sabia cuspir. Cuspimos então um na cara do outro; a única diferença era que depois eu lambia a minha e eles não lambiam a sua. O cachimbo eu logo fumei como um velho; se depois eu ainda comprimia o polegar no fornilho, a coberta inteira do navio se rejubilava; só não entendi durante muito tempo a diferença entre o cachimbo vazio e o cachimbo cheio.O que me custou mais esforço foi a garrafa de aguardente. Que vitória foi quando então uma noite, diante de um círculo grande de espectadores – talvez fosse uma festa, tocava uma vitrola, um oficial passeava entre as pessoas -, quando nessa noite eu agarrei uma garrafa de aguardente, desarrolhei-a segundo as regras, sob a atenção crescente das pessoas, levei-a aos lábios e, sem hesitar, sem contrair a boca, como um bebedor de cátedra, com os olhos virados, a goela transbordando, eu a esvaziei de fato e de verdade; joguei fora a garrafa não mais como um desesperado, mas como um artista; na realidade esqueci de passar a mão na barriga, mas em compensação – porque não podia fazer outra coisa, porque era impelido para isso, porque os meus sentidos rodavam – eu bradei sem mais “alô!”, prorrompi num som humano, saltei com esse brado dentro da comunidade humana e senti, como um beijo em todo o meu corpo que pingava de suor, o eco – “Ouçam, ele fala!”Repito: não me atraía imitar os homens; eu imitava porque procurava uma saída, por nenhum outro motivo. Com essa vitória também não se tinha feito muita coisa. A voz voltou a me falhar imediatamente; só apareceu meses depois; a aversão à garrafa veio ainda mais fortalecida. Mas fosse como fosse a direção a seguir havia sido dada de uma vez por todas. Quando em Hamburgo fui entregue ao primeiro amestrador, reconheci logo as duas possibilidades que me estavam abertas: jardim zoológico ou teatro de variedades. Não hesitei. Disse a mim mesmo: empregue toda a energia para ir ao teatro de variedades; essa é a saída; o jardim zoológico é apenas uma nova jaula; se você for para ele, está perdido. E eu aprendi, senhores. Ah, aprende-se o que é pre­ciso que se aprenda; aprende-se quando se quer uma saída; aprende-se a qualquer custo. Fiscaliza-se a si mes­mo com o chicote; à menor resistência flagela-se a própria carne. A natureza do macaco escapou de mim fre­nética, dando cambalhotas, de tal modo que com isso meu primeiro professor quase se tornou ele próprio um símio, teve de renunciar às aulas e precisou ser internado num sanatório. Felizmente saiu logo de lá. Mas eu consumi muitos professores, alguns até ao mesmo tempo. Quando já havia me tornado mais seguro das minhas aptidões e o público acompanhava meus progressos, começou a luzir o meu futuro: contratei pessoalmente os professores, mandei-os sentar em cinco aposentos enfileirados e aprendi com todos eles, simultaneamente, à medida que saltava de modo ininterrupto de um aposento a outro. Esses meus progressos! Essa penetração por todos os lados dos raios do saber no cérebro que despertava! Não nego: faziam-me feliz. Mas também admito: já então não os superestimava, muito menos hoje. Através de um esforço que até agora não se repetiu sobre a terra, cheguei à formação média de um europeu. Em si mesmo talvez isso não fosse nada, mas é alguma coisa, uma vez que me ajudou a sair da jaula e me propiciou essa saída especial, essa saída humana. Existe uma excelente expressão idiomática alemã: sieh in die Büsehe sehlagen [desaparecer misteriosamente, cair fora]; foi o que fiz, caí fora. Eu não tinha outro caminho, sem­pre supondo que não era possível escolher a liberdade. Se abranjo com o olhar minha evolução e sua meta até agora, nem me queixo nem me vejo satisfeito. As mãos nos bolsos das calças, a garrafa de vinho em cima da mesa, estou metade deitado, metade sentado na cadeira de balanço e olho pela janela. Se vem uma visita, eu a recebo como convém. Meu empresário está sentado na ante-sala; se toco a campainha ele vem e ouve o que tenho a dizer; à noite quase sempre há representação e tenho sucessos com certeza difíceis de superar. Se chego em casa tarde da noite, vindo de banquetes, sociedades científicas, reuniões agradáveis, está me esperando uma pequena chimpanzé semi-amestrada e eu me permito passar bem com ela à maneira dos macacos. Durante o dia não quero vê-la; pois ela tem no olhar a loucura do perturbado animal amestrado; isso só eu reconheço e não consigo suportá-lo. Seja como for, no conjunto eu alcanço o que queria alcançar. Não se diga que o esforço não valeu a pena. No mais não quero nenhum julgamento dos homens, quero apenas difundir conhecimentos; faço tão-somente um relatório; também aos senhores, eminentes membros da Academia, só apresentei um relatório.

ANTES que vençam os que me convençam que antes mentir do que não ter razão antes que vençam os que ainda pensam que nunca entram em contradição

ANTES

 

https://www.youtube.com/watch?v=aPTX_K_eUNA

 

Antes insegurança

do que prepotência

antes o erro

que a indecisão

antes paciência

do que esperança

antes experiência

do que instrução

antes a dúvida

do que a desconfiança

antes a dívida

que a mesquinhez

antes a dor

do que a indiferença

antes ignorância

do que estupidez

e depois alegria

e depois alegria

e gratidão

e depois alegria

alegria alegria

alegria e gratidão

antes a perda

do que o desperdício

antes o risco

que a repetição

antes a margem

do que o precipício

antes a crença

que a convicção

antes o espaço

do que o território

antes a luz

do que a iluminação

antes o fim

do que o purgatório

antes surpresa

do que perfeição

e depois alegria

e depois alegria

e gratidão

e depois alegria

alegria alegria

alegria e gratidão

antes que vençam os que me convençam que antes mentir do que não ter razão antes que vençam os que ainda pensam que nunca entram em contradição

Deus sive natura, elemental de D.H Lawrence e Dança de Arnaldo Antunes

ELEMENTAL

 

D.H. Lawrence.

 

Porque as pessoas não deixam de ser amáveis ou de pensar que são amáveis, ou de querer ser amáveis, e não são um pouco elementais em vez disso?Desde que o homem é feito dos elementos fogo, e chuva, e ar, argila viva e nada disso é amável, mas elemental, o homem é inclinado para o lado dos anjos. Gostaria que os homens recuperassem seu equilíbrio entre os elementos e fossem um pouco mais ardentes tão incapazes de dizer mentiras como o fogo o é. Gostaria que eles fossem fiéis às suas próprias mudanças, como a água, que atravessa todos os estágios de vapor e fluxo e gelo sem perder a cabeça. Estou cansado de pessoas amáveis de certo modo elas são uma mentira.

Dança
Ela dança
quando bate o vento ela samba
samambaia folha de palmeira
muitas outras como ela dançam ao redor

galhos bons para subir criança
mangas penduradas nas mangueiras
brincos de princesa, cabeleiras
num emaranhado de cipós

vem vindo o vendaval
temporal
ventania
depois a luz do sol
céu azul
calmaria

mas a natureza não se cansa
nunca perde o passo dessa dança
sobre a minha rede que balança
vejo o pé de jaca se abraçar no flamboyant

eu queria ser como uma planta
eu queria ter a vida mansa
e me libertar de toda ânsia
me cobrir de orvalho de manhã

vem vindo o vendaval
temporal
ventania

depois a luz do sol
céu azul
calmaria

O mapa dos ilegalismos, trabalhar sob o modelo da legalidade. No gesto de “conquista de direitos” a lei integra uma gestão dos ilegalismos, interessa substituir a oposição, por demais grosseira, lei-ilegalidade por uma correlação final ilegalismos -lei. A lei é sempre uma composição de ilegalismos, que ela diferencia ao formalizar.

Basta considerarmos o Direito das sociedades comerciais para vermos que as leis não se opõem globalmente à ilegalidade, mas que umas organizam explicitamente o meio de não cumprir as outras. A lei é uma gestão dos ilegalismos, permitindo uns, tornando-os possíveis ou inventando-os como privilégio da classe dominante, tolerando outros como compensação às classes dominadas, ou, mesmo, fazendo-os servir à classe dominante, finalmente, proibindo, isolando e tomando outros como objeto, mas também como meio de dominação. É assim que as mudanças da lei, no correr do século XVIII, têm como fundo uma nova distribuição dos ilegalismos, não só porque as infrações tendem a mudar de natureza, aplicando-se cada vez mais à propriedade e não às pessoas, mas porque os poderes disciplinares recortam e formalizam de outra maneira essas infrações, definindo uma forma original chamada “delinqüência”, que permite uma nova diferenciação, um novo controle dos ilegalismos. Certas resistências populares à revolução de 89 se explicam evidentemente porque os ilegalismos tolerados ou promovidos pelo antigo regime tornaram-se intoleráveis ao poder republicano. Mas o que é comum às repúblicas e às monarquias ocidentais é terem erigido a entidade da Lei como suposto princípio do poder, para obterem uma representação jurídica homogênea: o “modelo jurídico” veio recobrir o mapa estratégicoO mapa dos ilegalismos, entretanto, continua a trabalhar sob o modelo da legalidade. E Foucault mostra que a lei não é nem um estado de paz nem o resultado de uma guerra ganha: ela é a própria guerra e a estratégia dessa guerra em ato, exatamente como o poder não é uma propriedade adquirida pela classe dominante, mas um exercício atual de sua estratégia. É como se, enfim, algo de novo surgisse depois de Marx. E como se uma cumplicidade em torno do Estado fosse rompida.

F.D