Grande sertão: veredas: “uma máquina de moer ideologias”. Guimarães Rosa “libera as línguas aprisionadas na língua”, dando voz aos que não têm voz, ou seja, àqueles desqualificados pela cultura dominante, avalia João Adolfo Hansen.

Entrevista com João Adolfo Hansem por: André Dick e Patricia Fachin 

Guimarães Rosa “é um ator dotado de uma consciência antropológica finíssima e que, ao tratar de seus tipos sertanejos, evita falar por eles e sobre eles, como tinha feito toda a ficção regionalista anterior a ele.” A definição é de João Adolfo Hansen, professor de Literatura da Universidade de São Paulo (USP). Em sua obra, Rosa trata o sertão como um local quem tem historicidade própria, “o faz falar, mas não lhe concede exclusividade, pois também representa o seu outro, a cidade, que o propõe como objeto”, explica. Nessa mescla de realidades, as falas sertaneja analfabeta e a urbana letrada se encontram, “sem que nenhuma delas prevaleça, o que produz vazios quando as representações de uma e outra se chocam e se anulam reciprocamente”. O diálogo entre esses dois mundos, segundo Hansen, “indetermina as versões sertanejas e as versões citadinas sobre o sertão, impedindo que sua identidade se fixe como ‘identidade brasileira’”. 

Hansen é mestre e doutor em Literatura Brasileira, pela Universidade de São Paulo (USP). Entre seus livros, destacamos O o: a ficção da literatura em Grande sertão: veredas (São Paulo: Hedra, 2000), A sátira e o engenho (São Paulo: Ateliê Editorial, 2004) e Alegoria. Construção e interpretação da metáfora (São Paulo: Hedra, 2006). Confira a seguir, a entrevista concedida à IHU On-Line, por e-mail.

IHU On-Line – O senhor tem um estudo sobre Grande sertão: veredas, que lida sobretudo com a linguagem e o universo utilizados por Guimarães. De que modo eles são construídos e por que, na sua visão, permanecem tão atuais, instigando sempre novos debates e estudos?

João Adolfo Hansen – Como Mallarmé  e Joyce,  Rosa se recusa a escrever numa  língua degradada como é a língua instrumental da sociedade de massas. Ao mesmo tempo, ele detesta o racionalismo cartesiano e também não gosta de Aristóteles  e Hegel.  Vamos dizer, sinteticamente, que ele recusa os padrões da representação clássica e realista, e que passa ao lado do par formalismo/conteudismo que pressupõe justamente a representação. Sua ficção é dupla: é a ficção de uma região, “sertão”, e de seus tipos humanos, mas também é a ficção de uma língua que deve compensar os desgastes ideológicos dos usos da língua liberando as línguas recalcadas na língua. Ele inventa essa língua, que ele dizia ser a “língua que se falou antes de Babel”, por meio de procedimentos técnicos – ele estiliza a oralidade do Centro-Oeste do Brasil, estiliza os padrões da língua portuguesa escrita desde o século XV, inventa neologismos, falsas etimologias, importa estrangeirismos, faz usos inusitados de prefixos e sufixos, recategoriza e reclassifica categorias e classes gramaticais etc. Sobre isso, o livro de Mary Lou Daniel é fundamental. Efetuada por meio de tais  procedimentos, a forma de seus textos produz o estranhamento e a indeterminação dos padrões habituais memorizados ou familiares do leitor, que se vê obrigado a ler decifrando seu estilo para preencher os vazios da intelecção. Com isso, Rosa sugere algo que escapa à determinação da forma mediada pela representação e que, para ele, devia dar-se na intuição do leitor, algo que ele chamava de “mel do maravilhoso”, “supra-senso” etc. Sua operação é política, no sentido do “dar um sentido mais puro às palavras da tribo” de Mallarmé, ou seja, no sentido de recusar a moeda corrente das palavras.
 
IHU On-Line – Existe uma ligação com metafísica, sob o ponto de vista filosófico, nas obras de Guimarães? Como ele visualiza as figuras de Deus e do diabo?

João Adolfo Hansen – Eu diria que ele tem uma metafísica do estilo que, ficcionalmente, aparece como metáfora da metafísica ou estilo da metafísica. Várias vezes, ele demonstra que prefere Platão,  Cristo, Plotino,  Bergson,  Berdyaev,  e que detesta Aristóteles, Descartes,  Hegel. Ou seja: afirma preferir autores que afirmam a superioridade das formas intuitivas do entendimento contra  autores intelectualistas e racionalistas. Com isso, afirma “Deus” e a contra-efetuação de Deus, o diabo, não-ser. Quando figura a experiência dos personagens sertanejos, Deus corresponde à Significação das significações e, diabo, à  negação dela. Pensemos, por exemplo, o que acontece com a vida de Nhô Augusto Matraga quando se decide a ir para o Céu mesmo que a porrete. Ao mesmo tempo, Deus/diabo também são metáforas de princípios  políticos aplicados à invenção do mundo social dos textos. Por exemplo, em Grande sertão: veredas, Deus fundamenta o imaginário da força no sertão, validando os códigos de honra dos coronéis e seus jagunços; o diabo, no caso, é a força do imaginário (lembremos que Riobaldo faz o pacto com ele para obter o poder para vencer o Hermógenes e seu bando). Também podemos pensar Deus/diabo retoricamente; assim, em Grande sertão: veredas, “Deus” é o interpretante dos sinônimos aplicados como significação da multiplicidade das coisas do sertão; e “diabo”, interpretante dos homônimos ou  potência do duplo ou duplicidade da linguagem que Rosa faz proliferar e misturar-se nas designações de coisas, homens e eventos. 
 
IHU On-Line – Em Guimarães Rosa, abre-se um espaço considerável para se abordar a fala (o popular, o oral) e a escrita, como o senhor já observou em seus estudos. Como entende, ligando também aos seus estudos, nesse sentido, a observação do crítico literário português Eduardo Lourenço, que afirma que “Guimarães Rosa desce ao porão do Brasil como língua, descobre-a, e, não por acaso, naquelas Minas sem as quais o Brasil como veio a existir nunca teria se feito nação”.

João Adolfo Hansen – Não sei se o Brasil nunca se teria feito nação sem Minas. Não me lembro se Eduardo Lourenço está se referindo à Inconfidência. Acho que Rosa libera as línguas aprisionadas na língua, fazendo falar o que não fala, dando voz ao que não tem voz,  tortas raças de pedras,  farfalhar do vento,  bois,  onças, montanhas e tipos humanos loucos, crianças, aluados, poetas, bêbados etc. que a cultura dominante desqualifica como incompetentes. Sabemos que ele pesquisou os falares do Centro-Oeste, constituindo-os como matéria da estilização artística.
 
IHU On-Line – Como é possível pensar uma identidade brasileira a partir dos personagens de Guimarães, ou essa identidade é absorvida pela criação literária, que não se prende exatamente a uma manifestação que pode ser vista como sociológica?

João Adolfo Hansen – A questão da identidade brasileira é complexa. Rosa dizia que “Riobaldo é somente Brasil” e, ao mesmo tempo, citando o sublime de  Longino e Kant,  que a “brasilidade” é a “língua do indizível”. Acredito que ele é um autor dotado de uma consciência antropológica finíssima e que, ao tratar de seus tipos sertanejos, evita falar por eles e sobre eles, como tinha feito toda a ficção regionalista anterior a ele, desde os românticos do século XIX. Nele, o sertão é um outro cultural que tem historicidade própria que passa ao lado dos códigos letrados da civilização do litoral. Quando figura o sertão, Rosa o faz falar, mas não lhe concede exclusividade, pois também representa o seu outro, a cidade, que o propõe como objeto. Assim, nos seus textos, sertão/cidade, analfabeto/alfabeto, oralidade/escrita, mito/Luzes etc. coexistem sem que nenhum dos termos das oposições suplante o outro. Veja, por exemplo, o que acontece no uso que faz do modo épico e dramático no Grande sertão: veredas. Dramaticamente, o texto é o diálogo continuado do sertanejo Riobaldo com o doutor ilustrado da cidade. O doutor está silenciado e suas falas só aparecem citadas na fala de Riobaldo. Esta é uma mescla de duas espécies de falas – a sertaneja analfabeta e a urbana letrada – que determina e avalia, como mescla, o sentido do modo épico,  a narração da história. A mescla avalia o que é dito por duas perspectivas simultâneas, sertaneja/urbana, sem que nenhuma delas prevaleça, o que produz vazios quando as representações de uma e outra se chocam e se anulam reciprocamente, “nonada”. Assim, o diálogo e a narração indeterminam as versões sertanejas e as versões citadinas sobre o sertão, impedindo que sua identidade se fixe como “identidade brasileira”. Grande sertão: veredas é uma máquina de moer ideologias, entre elas a ideologia da identidade nacional brasileira.
 
IHU On-Line – Há uma historicidade evidente nas criações de Rosa, no que se refere ao contexto em que foram criadas?

João Adolfo Hansen – Podemos falar de uma historicidade do ato da invenção de Rosa como um ato que é simultaneamente artístico e social, pressupondo diversos condicionamentos, como o estado da ficção brasileira anterior e contemporânea e, ainda, o estado geral das coisas no Brasil e no mundo no momento em que escreve. Por exemplo, em Primeiras estórias, há referências evidentes ao momento da escrita como o momento da construção de Brasília como projeto de integração do interior do país ao litoral.

Há também a historicidade das matérias sociais citadas, estilizadas e parodiadas por Rosa. Essas matérias são, por exemplo, padrões da linguagem oral do Centro-Oeste, que ele pesquisou. Também matérias sociais literárias, como os romances românticos, realistas e naturalistas brasileiros, a obra de Euclides da Cunha,  o modernismo de São Paulo, o romance nordestino de 1930, além da grande literatura universal, de Dante  a Thomas Mann,  de Marlowe a Goethe,  de Homero  a Joyce etc. E, ainda, as representações dos ideólogos do Brasil que, à direita e à esquerda, teorizaram a chamada “brasilidade” desde o século XIX. Em Grande sertão: veredas, Rosa os cita pela boca de papel de Riobaldo, geralmente como paródias que os esvaziam.

Além disso, há a historicidade particular do ato da  leitura. Em Rosa, esse ato não é o do simples reconhecimento do que as histórias contam, porque a forma do seu estilo é singular e corre paralelamente às fábulas, obrigando o leitor a lê-la de maneira não-usual que incide diretamente sobre a historicidade de seus hábitos perceptivos, chamando sua atenção para o artificial do arbitrário simbólico (o texto é ficção, obviamente) e para os processos de construção da verossimilhança.

IHU On-Line – Como Grande sertão: veredas, por exemplo, dialoga com outras obras, sobretudo estrangeiras?

João Adolfo Hansen – Grande sertão: veredas dialoga com muita coisa estrangeira. O que falo não é exaustivo e lembro o belo livro de Suzy Sperber  sobre isso. Lembro, por exemplo, Dante, citado várias vezes em Grande sertão em fórmulas, como “funil de final”, ou em personagens, como Diadorim, donna angelicata como Beatriz. E também, evidentemente, o diabo. Há também a tradição da novela de cavalaria – Amadis de Gaula, Palmeirim de Inglaterra, a Demanda do Santo Graal, a Mort d’ Artu, Roberto do Diabo etc. As epopéias antigas e do século XVI:  Homero, Virgílio,  Torquato Tasso,  Ariosto  etc. E a tradição do Fausto – o Fausto  medieval alemão, o Fausto de Marlowe, o Fausto de Goethe, o Fausto de Thomas Mann. E muita coisa oriental, hinduísta, budista etc.

Em geral, Rosa estiliza as referências, adaptando-as ao sertão. Por exemplo, textos gregos antigos chamam o Apolo de Delfos de “Lóxias”, skoteinos, “obscuro”, porque falava por enigmas através da Sibila. Em O recado do morro, Rosa cita esse Apolo quando o Gorgulho grita para a montanha: “Não me venha com lóxias!”.

Também Cervantes. No Dom Quixote, Sancho representa a cultura popular oral e Quixote, a cultura culta letrada, o que vemos reproduzido na posição do Riobaldo sertanejo conversando com o doutor ilustrado. Além disso, há citações de fórmulas.  Por exemplo, no  capítulo XXV da 2ª parte de Dom Quixote,  o diabo passa “levantando caramillos en el viento y grandes quimeras de nonada”, o que é estilizado várias vezes,  por exemplo, como  “O diabo na rua no meio do redemunho”.

IHU On-Line – O senhor observa, em seu estudo sobre Grande sertão, que Riobaldo é “uma espécie de Macunaíma a sério, por sua boca passa o mito como vontade de fundar uma origem a partir da qual representações imaginárias, formações ideológicas se intertextualizam e, fazendo-se como fala, dão-se como história na estória”. Riobaldo pode ser visto, a exemplo de Macunaíma, como um personagem que expressa o Brasil?

João Adolfo Hansen – Riobaldo expressa o Brasil não como unidade, mas como a mistura monstruosa e intotalizável que é. Lembremos que no presente da leitura do livro ele é fazendeiro, crente em Deus, casado, rezador, supersticioso, kardecista etc. E, no passado que conta, é raso jagunço atirador cachorrando pelo sertão, reproduzindo as leis da submissão à benevolência violenta de coronéis latifundiários e as crenças populares em Deus e no diabo etc. Sua fala é torta entortada, sem unidade, montada por paradoxos que esvaziam as representações que expressam o Brasil.  

Leia Mais…

>> João Adolfo Hansen já participou de outra edição da IHU On-Line. Confira a entrevista no sítio do IHU (www.unisinos.br/ihu).

Entrevista:

Vieira: múltiplo e contraditório. Edição nº 244, Antônio Vieira. Imperador da Língua Portuguesa, de 19-11-2007.

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Análise do fórum com o grupo Interseções no Circo Voador, RJ. Escrito de Peter Pelbart (Mídias autônomas ou era pós midiática?)

Com a disseminação dos computadores pessoais, minicâmeras, celulares, e com os meios tecnológicos à disposição de todos hoje em dia (e no grupo Intersecções esse tema foi retomado diversas vezes – “temos os meios de dominar todas as etapas da cadeia produtiva cultural”), segundo Guattari estaríamos entrando numa “era pós-midiática”. Através da multiplicação de focos de criação e de emissão e de irradiação, com a hibridação do computador, televisão, telefone, com as novas interações homem-máquina, e a partir da interconectividade horizontal e rizomática que ela propicia, já estamos em condições de liberar-nos da hipnose e do despotismo da mídia centralizada e piramidal. Uma era pós-midiática pode soar hoje um sonho utópico, mas a descrição feita abaixo, proveniente apenas de dois dias de encontro com uma dezena de pessoas proveniente dos mais diversos cantos do Brasil, não parece ser a ponta de um iceberg? Não assistimos, aí, a uma tendência crescente e esparramada, com desdobramentos imprevisíveis? Assim, a partir da sustentabilidade (econômica, pulsional, semiótica) das mídias autônomas, poderíamos retomar a intuição guattariana de uma era pós-midiática que se anuncia.

Mídias autônomas ou era pós midiática?

Quando fui convidado a esse encontro sobre sustentabilidade da mídia independente, de início tive dificuldade em compreender as razões desse gentil convite, tendo em vista minha incipiente familiaridade com o tema em questão. É verdade que já havia sido convidado como palestrante em eventos similares, seja um encontro sobre mídia tática organizado pelo saudoso Ricardo Rosas, seja um fórum sobre ativismo cultural promovido pelos coletivos de São Paulo, seja, enfim, meu interesse pelas iniciativas do gênero com as quais tenho um diálogo descontínuo porém fecundo. Nesse caso, porém, dado o lugar mais discreto, de mediador, que me foi reservado, e mobilizado sobretudo pelo interesse em me informar sobre os rumos desse meio entre nós atualmente, aceitei a incumbência razoável de coordenar um grupo  chamado de Intersecções. Segundo os organizadores do evento Onda Cidadã, esse grupo híbrido (pois teria gente proveniente de mídias as mais diversas) reunia os participantes mais “malucos” da empreitada, e dada minha experiência com loucos (a Cia Teatral Ueinzz, que coordeno há dez anos), eu certamente saberia lidar com eles. Ao começarmos os trabalhos sob a simpática tenda do Circo Voador, com vista para os arcos da Lapa e um céu especialmente límpido, ainda constrangido pela natureza insólita de minha tarefa, pedi inicialmente que cada qual apresentasse sua experiência. Confesso que logo de cara, no meu constrangimento, tive dificuldade em compreender até parte do vocabulário utilizado por alguns membros muito jovens, referindo-se por vezes à cena musical predominante, às correntes em voga, a siglas do MinC, mecanismos de captação, ou mesmo a nomes de banda e festivais multitudinários sediados em lugares longínquos (para mim) de cuja existência eu jamais havia ouvido falar. Uma vez passado o estranhamento inicial, com o linguajar, com o estilo, com as siglas, com algo, enfim, que eu atribuía (para facilitar minha posição) à distância geracional, fui percebendo, para retomar a expressão dos organizadores, que se eu estava diante de “malucos”, eram os malucos mais articulados que conheci na vida. Tudo ali parecia a mim novidade: a lógica de produção, de associação, de enunciação, de mobilização. Saía desses encontros com a sensação de ter sido levado por um tufão. Eu me dizia o tempo todo: serei incapaz de resumir o que ouvi, se mal entendo do que estão falando. Poucas vezes vi gente que tem a mão na massa e tamanha lucidez sobre nossa economia cultural, bem como sobre as mutações que ela implica, tanto nos processos de formação, de produção, de difusão e de consumo dos bens culturais. De fato, os meios de expressão ali apresentados eram os mais diversos, desde o saquinho de pão impresso, distribuído nas padarias de Vitória pelo Projeto Forninho e funcionando como um jornalzinho regional com impacto popular, até os saraus promovidos pela Cooperifa nos bares de Capão Redondo, na periferia de São Paulo (sendo o bar o verdadeiro “espaço público” das favelas), onde uma propagação imensa da poesia oral entrou em disputa até mesmo com o próprio tráfico, chamando a atenção dos jovens da comunidade (como dizia Genet, só a arte é mais excitante que o crime), e a idéia magnífica de uma Semana de Arte Moderna da favela, com direito a um Manifesto Antropofágico da Periferia. Para não falar das corajosas intervenções públicas e midiáticas do coletivo Bijari em áreas “gentrificadas” de São Paulo, contrapondo-se à limpeza étnica urbana em curso, ou sua associação com o movimento dos sem-teto das cidades numa imensa ocupação no centro de São Paulo, ou no T-bone Açougue Cultural  e suas atividades em Brasília (fundado por Amorim Lima, que chegou a ter dez mil livros em seu açougue para empréstimo gratuito à população), passando pela Eletrocooperativa e seu ativismo musical e poético na Bahia e em São Paulo, no campo da educação e da juventude, ou mesmo o grupo do Circo Voador, que de modo tão hospitaleiro abrigou o encontro, com a irradiação cultural que promove na cidade do Rio de Janeiro. Em todos esses casos, pode-se dizer que foram criados novos modos de cooperação e de associação e de afetação e de intervenção urbana. Das experiências relatadas no grupo Intersecções, talvez a mais surpreendente, em termos de reconfiguração do circuito de fluxos e trocas culturais, é o cubocard,moeda criada por iniciativa do Espaço Cubo, em Cuiabá. Embora seja difícil imaginar uma economia de escambo em nosso milênio cibernético, o seu inventor explicou seu surgimento com grande desenvoltura e naturalidade, descrevendo o circuito produtivo e expansivo que ali se constituiu, à revelia da grande mídia e da economia vigente. Uma cadeia de valoração autônoma, onde músicos, artistas, técnicos, trocam serviços e sustentam uma produção intensa e independente, praticamente sem depender de financiamentos externos ou patrocínios eventuais ou reconhecimento midiático. Tão forte se tornou esse mecanismo, e a tal ponto mudou o panorama cultural da cidade, que o poder público não pôde deixar de se interessar, percebendo que a produção vital dava-se justamente nessa zona de autonomia temporária. Assim, foi a reboque, inserindo-se no circuito, injetando recursos, mas também fazendo uso dos cubocards obtidos em troca para solicitar a presença das bandas em seus eventos. Do mesmo modo a iniciativa privada se inseriu, entendendo que a economia cultural aí emergente, e o público que ali circulava, reconfigurava a dinâmica local. De modo que esse circuito começou a ditar uma nova sensibilidade musical, uma nova sociabilidade associativa, um novo empreendedorismo biopolítico. Essa solução já se estende para outras cidades do país, e não há razão para que não seja transposta a nível nacional, como o propôs Pablo Capilé. Se acompanhamos a proposta de seu amigo, o poeta Makely Ka, juntamente com o espaço criado por ele em Belo Horizonte a partir de uma atividade associada aos catadores de papel, o desafio consiste hoje em criar uma “contra-indústria”, uma guerrilha cultural, circuitos paralelos, novas cadeias de valor, com o que, necessariamente, se desatam os nós da cadeia produtiva hegemônica, validando a autoprodução em todas as suas etapas. É a reatualização da consigna punk do “faça você mesmo”.

Como, no entanto, não deixar que essa autonomia do chamado “artista independente” se torne apenas um momento precário e oportunista em sua carreira, à espera do convite global vindo de longe? Pois é inevitável, e essa posição parece compartilhada pelo grupo inteiro: com tais iniciativas, desloca-se inteiramente o lugar do artista. O artista hoje já não pode deixar-se levar pelo mito romântico do ser solitário, à espera da inspiração divina – ao contrário, ele é uma espécie de operário, de carregador de caixas, de produtor com a mão na massa e inserido na mobilização coletiva. Também não cabe a ele desprezar a cena local, fixado no grande eixo cultural – cada ponto da rede é um foco de irradiação cultural soberano. Assim, muda a relação centro/periferia, a dependência em relação às instituições reconhecidas, bem como os clichês sobre inclusão social, precariedade, reivindicação, conflito. A meu ver, essa inteligência coletiva em ação, sem ingenuidade alguma, tem a clara consciência  de que o capital imaterial de que todos dispõem – isto é, a força de invenção ou força-invenção, que é patrimônio de todos e de qualquer um seja lá onde estiver, conforme o escreve Maurizio Lazzarato a partir de Gabriel Tarde, tem meios de negociar e de driblar os mecanismos de captura vários, provenientes do poder público, da iniciativa privada, bem como da máquina midiática. Ou seja, está a seu alcance a potência de reinventar a subjetividade coletiva, os meios de produção, de troca e de consumo, a própria mídia. Tenho a impressão que esse grupo vive na carne a constatação de que o capital maior é a própria vida, e que sua potência de expansão e de constituição extrapola o poder do capital e o sequestro da vitalidade social dali advinda. É uma pequena revolução biopolítica.

Quando o jovem criador do Cubo insistiu em que todos aqueles grupos se mobilizassem para estarem presentes no encontro dos pontos de cultura do Brasil em BH, a ser realizado em novembro por iniciativa do MinC, e que aproveitassem esse encontro como uma oportunidade a mais em vista desse projeto maior, e que não deixasse esse encontro esgotar-se nele mesmo, quando ele mencionou que era preciso aproveitar essa janela de ocasiões ainda aberta pela presença de Gilberto Gil, e quando o poeta mineiro insistiu que havia ao todo, espalhados pelo país, pelo menos 20 mil focos de guerrilha cultural, o que constituía um poder de fogo nada desprezível que era preciso fazer somar, e quando se propôs que saísse um ônibus do Capão Redondo, em plena “Semana de Arte Moderna” em direção ao encontro dos pontos de cultura em BH, tive a impressão de que se tudo aquilo, por um lado, ressoava inteiramente com o que eu andava trabalhando nos últimos anos em termos teóricos (com Negri, Hardt, Lazaratto, Levy, Deleuze-Guattari), ao mesmo tempo minha lentidão e reclusão acadêmica e enclausuramento no que eles chamavam de Eixo (não é o Eixo do Mal, mas o Eixo Rio-São Paulo, diante do qual eles criaram em Cuiabá o espaço cultural Fora do Eixo), me deixava a reboque dessa vitalidade estonteante. Os meninos (que eles perdoem essa designação carinhosa, embora alguns tenham mais do que a minha idade) têm plena consciência de que nas ultimas décadas houve uma pequena revolução que não é apenas tecnológica, e que colocou ao alcance de praticamente todos, por mais desvalidos e precários ou supostamente excluídos que possam ainda ser considerados ou se considerarem, a possibilidade de se munir dos meios técnicos e associativos, e de criar agenciamentos coletivos que os sustentem, numa guerrilha generalizada, guerrilha semiótica, afetiva, vital, econômica, num contexto em que o controle molar e o molecular se ajustam numa semiótica a-significante, e que portanto, é preciso revidar no mesmo plano sem descuidar do resto, e no limite, reinventar a própria moeda. Ou seja, um comum virtualmente presente é acionado e mobilizado e desdobrado, a partir do qual o jogo parece revirado. A clareza sobre o capital biopolítico, sobre a inteligência coletiva, sobre a potência performática e a propagação a-significante, a igual clareza com a qual avaliam as relações eventuais porém não imprescindíveis com o poder público e a iniciativa privada e as instituições ditas culturais, a astúcia com que usam os apoios e os driblam contra o contexto que os tende a capturar, jogando merda no ventilador o tempo todo (financiados por uma empresa de telefonia, fazem uma música que começa assim: desliguem seus celulares..), num misto de legalidade e ilegalidade que lembra a estratégia dos intermitentes do espetáculo com quem Lazzarato tem trabalhado na França (que ao empreenderem com grande engenho lúdico uma greve nacional de artistas, que esvaziou inteiramente a indústria do turismo no sul da França, obrigaram o governo a negociar a manutenção de um sustento para os períodos de entre-safra), enfim, a lucidez sobre o compartilhamento e também uma espécie de inconsciência mobilizada, que detecta os impasses e reinventa as saídas prováveis porém não necessárias, a antenagem ímpar para o bombardeio semiótico e os revides possíveis, testemunham no mais alto grau que os instrumentos de percepção e de desmontagem ao nosso alcance são por vezes de extrema pobreza quando comparados com tamanha inventividade micropolítica. Fiquei tão impressionado com tudo o que ouvia que depois de cada sessão precisava caminhar sozinho até o hotel e dormir uma boa hora, para retomar a sessão seguinte com a energia renovada. Não sabia como conseguiria escrever, o que quer que fosse, à altura da experiência relatada – e o grupo até cogitou de escrever um pequeno documento-manifesto, mas entendeu que a prioridade no momento era a mobilização mais geral dos outros grupos presentes, para um encontro futuro. Na ocasião, também eu estava às voltas com um texto a ser escrito para um Simpósio Nietzsche-Deleuze, em Fortaleza, cujo tema era “”vontade de potência” e “máquina de guerra”. Entendi subitamente que ali tinha um pequeno exemplo, porém talvez apenas um recorte minúsculo de uma fermentação generalizada, de um enxameamento onde o que poderíamos chamar de novos valores, ou novos modos de valoração (inclusive econômica), para usar termos próximos a Nietzsche, ou novas fontes de produção de valor, ou uma mutação na sensibilidade coletiva (Guattari), curto-cicuitavam o regime dito hegemônico sem perderem sua energia nos confrontos diretos e fadados ao fracasso. Desde o grupo de motoboys em São Paulo que usam seus celulares como câmaras indiscretas e jogam seus filmes diretamente na rede, driblando o olhar midiático sobre a cidade, com mais de cem mil visitas por dia em seu site, até aquele performer solitário que é um dos primeiros a chegar ao local do acidente da TAM em Congonhas e com seu celular se faz de representante da ABIN em voz alta em meio aos policiais e bombeiros, negando ou permitindo a aterrissagem de helicópteros e simulando que é ele quem monitora o território de pouso, enquanto com o outro ouvido vai captando as notícias da CNN que informam, entre outras coisas, a chegada iminente (de helicóptero) do governador Serra, ajudando-o na sua “performance”, vejo pequenas máquinas de guerra por toda parte, introduzindo um fator caos ou disseminando germes para uma nova sensibilidade. Loucos, ilegais, favelados, poetas, músicos, desempregados, precários, invisíveis de todo tipo percorrem nossas cidades e reivindicam outra coisa, para a qual não temos ainda um nome. Todos eles têm consciência da desproporção presente na relação de forças, dos biopoderes vigentes e seu racismo hegemônico e escravagista, para retomar os termos de Giuseppe Cocco e Toni Negri na sua análise da América Latina, da perversão das leis de incentivo e da manipulação do grande capital, da máfia que domina nosso Congresso, da servidão maquínica, das semióticas capitalísticas que se dirigem diretamente aos afetos, porém nada disso parece desmobilizá-los, ao contrário… e ao recusarem a designação de periferia, ou de excluídos, ou mesmo de minorias, ao rejeitarem o lugar de desvalidos nessa guerra desigual, ao evitarem a guerra frontal ou a militarização da luta ou o ressentimento lamuriento ou a reivindicação assistencialista da inclusão social, sem descuidarem do esforço de atingir, por pressão crescente, a própria legislação vigente, eles simplesmente reiteram a afirmação daquilo de que são portadores, emitindo torpedos de afeto, insistindo na constituição do comum e no jogo de singularidades que parece ser sua mais obstinada convicção, por mais que na boca deles isso leve outros nomes, menos nobres, ou filosoficamente incipientes. Todos eles são, a meu ver, máquinas de guerra que, segundo a própria definição de Deleuze e Guattari, não tem por objeto a guerra, e sim a criação. Mas por que, num contexto em que já não dispomos de qualquer exterioridade dada ou prévia que pudesse ancorar nossa resistência, como há décadas atrás poderia ser o caso do proletário, do marginal, do louco, do artista, num contexto em que todos eles foram devorados, num momento de tamanha homogeneização planetária, em que já não há fora algum e estamos todos dentro de uma megamáquina e seus mecanismos cada vez mais capilares de calibragem dos afetos, inclusive a calibragem do medo e da ameaça, para falar como Brian Massumi, por que justamente aí, nesse momento em que aparentemente a totalidade do planeta, do espaço, do tempo, da existência, do corpo e da subjetividade estão tomados de assalto, por que é justamente em meio a tal ambiência de controle maquínico, com seus efeitos niilísticos, que assistimos a esses revides improváveis e inusitados vindos dos lugares mais inesperados, reencontrando nos tchandalas(os “excluídos” da Índia, os sem-casta, banidos de todo comércio social) de hoje a imaginação biopolítica e a inteligência coletiva que desertaram inteiramente os espaços da representação política ou estética e sua estéril perversão? Uma coisa é certa: desafiando o sequestro do comum, disseminando seus focos autopoiéticos, de irradiação, contágio e propagação intensivos, subrepresentativos, pré-individuais, a-significantes, eles reconfiguram a subjetividade coletiva e sua potência de afetação… Eles não têm nome, não têm poder, não dominam as instituições, mal sabemos se existem e onde estão, mas é a partir desse limiar flutuante que constrém seu plano de consistência. Não quero idealizá-los, e se os uso de maneira um pouco similar ao modo em que Nietzsche usou os judeus de seu tempo (em quem via uma “promessa” de outra Europa), ou Deleuze usou os esquizos (para pensar numa força de desterritorialização do social), é apenas para dizer isto: talvez sejam uma entre as inúmeras máquinas de guerra do tempo presente, que se infiltram e desviam e deslocam a lógica brutal da guerra econômica e militar e cultural levada a cabo pelos poderes instituídos, fazendo valer seus estados de potência e sua força constituinte, recusando precisamente a vontade pelo poder.

Talvez caiba ainda uma última palavra, na esteira de uma intuição poderosa anunciada por Félix Guattari há alguns anos atrás. Com a disseminação dos computadores pessoais, minicâmeras, celiulares, e com os meios tecnológicos à disposição de todos hoje em dia (e no grupo Intersecções esse tema foi retomado diversas vezes – “temos os meios de dominar todas as etapas da cadeia produtiva cultural”), segundo Guattari estaríamos entrando numa “era pós-midiática”. Através da multiplicação de focos de criação e de emissão e de irradiação, com a hibridação do computador, televisão, telefone, com as novas interações homem-máquina, e a partir da interconectividade horizontal e rizomática que ela propicia, já estamos em condições de liberar-nos da hipnose e do despotismo da mídia centralizada e piramidal. Uma era pós-midiática pode soar hoje um sonho utópico, mas a descrição feita acima, proveniente apenas de dois dias de encontro com uma dezena de pessoas proveniente dos mais diversos cantos do Brasil, não parece ser a ponta de um iceberg? Não assistimos, aí, a uma tendência crescente e esparramada, com desdobramentos imprevisíveis? Assim, a partir da sustentabilidade (econômica, pulsional, semiótica) das mídias autônomas, poderíamos retomar a intuição guattariana de uma era pós-midiática que se anuncia

MOBILIZAÇÃO DA PUC-SP na Folha e a programação de Hoje.

Na capa da FS, chamada e foto sobre a intervenção de Zé Celso no Pátio da Cruz. Na pág. 3, longo artigo de Jeanne Marie G., Salma M.e  Carlos Arthur, sobre a legalidade, mas ilegitimidade da posse da nova reitora. No Cotidiano, página inteira sobre a performance do Zé Celso. Sem falar na entrevista da Salma  M.no programa de Alexandre Machado, ontem, e várias referências aos protestos em diversos sites na internet. Relembrando: Para assistir Celso Favaretto e Z.M.Wisnik tal como se apresentaram na segunda na PUC, ver agemt.org

Hoje se encerra esse pequeno ciclo intensivo de greve, com Vladmir Safatle no vão do Masp, às 17:00, e Marilena Chauí na PUC, em local a ser determinado, às 20:30.

DESASTRE (palavra de origem latina, que chegou até nós pelo provençal e significa sem astro, sem estrela, isto é, propenso à sorte, aos passeios ao léu, sem a proteção ou o parâmetro de uma estrela.)

Nas melhores cenas de Goya parece que vemos

…………………………………………….as pessoas do mundo
……..no exato momento em que
…………………..pela primeira vez elas ganharam o título
…………………………………………..de ‘humanidade sofredora’
……..Tais pessoas se contorcem na página
…………………………………………num verdadeiro acesso
…………………………………………………………de adversidade
……..Amontoadas
…………………..gemendo com bebês e baionetas
………………………………….sob um céu de cimento
…….pela paisagem abstrata de árvores bombardeadas
………………..estátuas decaídas asas bicos de morcegos
………………………………………………patíbulos escorregadios
………………………………….cadáveres galos carnívoros
…….monstros finais berrantes todos
……………………da
……………………………….‘imaginação do desastre’
…….tão danados de reais
…………………………….. que até parece que ainda existem
…….E existem mesmo

Só mudou a paisagem

 

Lawrence ferlinghetti

Coney Island of the Mind

 

 Viver é um desastre que sucede a alguns

 

 

https://www.youtube.com/watch?v=lkNaGEOda_k

 

 

 

Tudo Dói

 

(Caetano Veloso)

 

Tudo dói
Tudo dói
Tudo dói

Viver é um desastre que sucede a alguns
Nada temos sobre os não nenhuns
Que nunca viriam

As cascas das árvores crescem no escuro
As cascatas a 24 fotogramas por segundo
Os vocábulos iridescem
Os hipotálamos minguam
Tudo é singular

Dói

Tudo dói

 

Senhoras e senhores, vão embora por favores. A fera não tolera sofredores. A.A

Nietzsche é um filósofo do sofrimento, no sentido que uma das idéias instigantes de sua filosofia é a diferença entre tristeza e sofrimento e uma tentativa de poder conjugar sofrimento e alegria. E ele diz, por exemplo, na Genealogia da Moral: “Já que não podemos acabar com o sofrimento  objetivo, pelo menos acabemos com o sofrimento subjetivo, aquele sofrimento que a gente mesmo se dá, introjetando a dor”. E outra frase maravilhosa desse livro, quando ele diz: – “há mais sofrimento na noite de uma histérica do que em todos os animais que foram sacrificados pela ciência”. Então diz: – “quando se aponta o sofrimento como o principal argumento contra a existência, seria bom se lembrar dos tempos em que se via no sofrimento um verdadeiro encorajamento a viver”. R.M