Carta de Samuel Beckett a Carlheinz Caspari (Bonn, 25 de julho de 1953)

Caro senhor,

Agradeço sua carta amável e peço desculpas pela demora em responder.

Para mim, é muito difícil explicar meu trabalho. E não quero influenciar sua direção. Não tentarei, portanto, aprofundar as questões que você levanta, ainda que elas o mereçam. De todo modo, como o senhor já percebeu, a vontade de ir fundo demais aqui traz um risco. Eis, então, tão simples quanto possível, a minha maneira de sentir as coisas.

Se minha peça tem elementos expressionistas, não fiquei a par disso. De qualquer modo, sobre o estilo tenho apenas noções confusas. Tampouco é, para mim, uma peça simbolista, eu não insistiria nisso. Trata-se, primeiramente, e mais importante que tudo, de algo que acontece, quase uma rotina, e é essa cotidianidade e materialidade que, em minha opinião, devem ficar visíveis. Que em todo momento Símbolos, Ideias, Formas se mostrem, isso para mim é secundário – não há por detrás nada que não se mostre? Realçar as coisas, em todo caso, não trará nenhum ganho.

Os personagens são seres vivos, queiramos ou não, não são emblemas. Compreendo bem seu embaraço diante da pouca caracterização deles. No entanto, peço que veja neles menos o resultado de esforços de abstração – da qual não sou capaz – que uma recusa a atenuar tudo aquilo que eles têm de complexo e amorfo de uma só vez. Além disso, se eu puder julgar a partir de nossa experiência aqui em Paris, o senhor notará as identidades tomarem forma na medida em que o trabalho avança. O próprio Godot não é de uma espécie diferente daquele que não pode ou não quer ajudar. Eu próprio o conheço tão mal quanto qualquer outra pessoa, e nunca soube, nem vagamente, do que eu precisava. Se seu nome sugere o paraíso, é o mesmo que um produto para fazer crescer cabelos parecer divino. Cada um dá a ele o rosto que bem entender. Outros, mais afortunados, verão nele a figura de Tânato.

Em relação à montagem alemã em geral, temo a simplificação metafísica e o recurso aos símbolos. O grande mérito de Roger Blin foi evitá-los, e é por isso que sua produção, que naturalmente podemos discutir em outros aspectos, me parece exemplar.

O tempo estagnado, que salta vidas inteiras, e o espaço impossível de percorrer, tal qual uma cabeça de alfinete, esses talvez sejam os verdadeiros falsos deuses da peça, caso seja absolutamente necessário que eles existam. Falsos tarde demais. Os gritos que eles exteriorizam, primeiro Estragon (páginas 99 e 100), depois Pozzo (página 155), são renúncias de homens sacrificados. O que o senhor diz sobre isso é muito bonito, mas ainda não tinha me ocorrido. E o que tenho a dizer não é nada convincente. Nesse aspecto da peça, assim como infelizmente nos outros, não podemos afirmar nada para tentar satisfazer a mente, podemos apenas adicionar ou extrair.

O lado farsesco me parece indispensável tanto do ponto de vista técnico (como forma de relaxamento), quanto do ponto de vista do espírito da peça. Portanto, não se deve escamoteá-lo, nem exagerá-lo. Aqui, a infelicidade é a medida do grotesco, e todo ato é clown. Rir e então fazer rir, da infelicidade e do ato, mas não o tempo todo, seri muito bom, e sempre um pouco mais radiante.

De tudo o que foi dito, que me parece um dever de casa, temo que o senhor não consiga aproveitar grande coisa. Leve em conta apenas o que lhe disser respeito. Sou o primeiro a sentir a inutilidade disso. Em um trabalho em que há tão pouco da minha cabeça, minha cabeça jamais encontrará nada que sirva.

Eu lhe agradeço imensamente, e também a Herr Rose, pelo amável convite. Adoraria estar entre vocês na noite da estreia, mas ainda não sei se vou poder. De todo modo, mantenho-o informado.

Eu acharia melhor, se não for incomodar, que seu programa não tivesse nenhum texto meu. Para a foto, por favor entre em contato com meu editor, sr. Jérôme Lindon, Editions de Minuit, 7 rue Bernard-Palissy, Paris 6.

Receba, caro senhor, minhas cordiais saudações.

Samuel Beckett

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K. Marx e L.Orlandi. Uma tentativa (à moda Deligny)

A palestra do prof. Luiz Orlandi, anteontem, me sugeriu uma leitura nova da famosa última tese de Marx sobre Feuerbach, e eu senti que eu poderia começar assim, que me seria concedido começar assim e que haveria mesmo de ser conveniente se eu o fizesse, já que o Diego, também anteontem, nos leu e nos explicou de forma muito clara e charmosa, um texto seu que é verdadeiramente polêmico, e acredito que isso seja um elogio. Muito bem, “Os filósofos têm apenas interpretado o mundo diferentemente; é chegada porém a hora de transformá-lo”, “Die Philosophen haben die Welt nur verschieden interpretirt; es kommt aber darauf an, sie zu verändern”. É uma frase problemática. A começar por essa a hora que chega, esse a partir de agora, esse darauf, que carrega uma longa memória, marcada por um traço predominante, senão absolutamente definidor de uma ineficiência em lidar com os problemas do mundo, de que os filósofos haveriam sido os principais protagonistas. É a denúncia geral, a denúncia a todos os filósofos, a todos aqueles que pensaram e todos aqueles que a partir de então pensem sob a égide do idealismo, ou seja, que inventem, ainda que partindo de um campo de imanência, do mundo, que inventem a transcendência. No entanto, o que mais fascina é esse “transformá-lo”. Em alemão o verbo verändern é um tornar completamente outro, transformar é fazer a transformação radical, o completamente outro. No contexto da filosofia marxista, isso significa afirmar o materialismo como concepção total do pensamento emancipador, e vinculá-lo ao movimento de blocos históricos fundados nos modos de produção a eles relativos, o materialismo histórico. Todos sabem das aventuras dessa filosofia, de suas metamorfoses, das notáveis traições cometidas contra ela, e do completo descrédito a ela conferido, se não a partir da derrocada do projeto soviético, certamente quando se viu, com a revolução chinesa de Mao, o quão difícil é anular efetivamente a presença do chefe, e daí todas as suas derivações tentaculares inevitáveis : a manutenção de um aparelho de Estado, fortemente centralizado e sub-hierarquizado dentro de um partido cuja capacidade de normatizar as várias formas de existência dentro do país foi impressionante (ainda é !). Esse descrédito só recentemente, na história da filosofia, pôde ser revisto e é finalmente possível pensar novamente com Marx ao levarmos em conta o que fez Althusser, reapropriando Marx ao eliminar a erva-daninha de nome Hegel, e nas palavras de Deleuze, Althusser descobre “mecanismos diferenciais e afirmativos em Marx”.

Ora, o que quer dizer transformar o mundo a despeito de interpretá-lo tão somente, à feição dos filósofos que agora sabemos serem os idealistas, os inventores da transcendência? Não é que se deva parar de filosofar, eu recupero a ressalva do Diego, mas o que não devemos fazer é filosofar a partir de uma forma ideologicamente dominante, e isso não é qualquer bobagem, qualquer filosofês chinfrim, não obstante essas palavras, assim todas juntas, vez e outra ressoem de um modo ardido e repelente pelos corredores, pelos jornalecos, mesmo na boca de supostos intelectuais: “forma ideologicamente

dominante”. Não é qualquer bobagem por quê? Porque temos um exemplo gritante ! Pensar sob a forma ideologicamente dominante é, por exemplo, pensar mediante a centralização de um sujeito livre, de um cogito transcendental, oriundo de um desenvolvimento teórico do Direito, ou seja, oriundo da noção jurídica de sujeito. Ora, o Direito tem a função de resguardar e subsidiar as formas de produção do sistema capitalista.1

Muito bem, me parece que a palestrinha do Orlandi tenha algo a dizer quanto a isso, quanto ao problema de “como pensar diferentemente?” Por que será que o Orlandi precisou daquele verbo tão interessante para cercear, para pontilhar o fazer filosófico, por que ele precisou do entrevaguear, como definição de um pensamento que é tomado por uma torrente de acontecimentos que não saíram dele e que todavia fazem-no trabalhar como que imediatamente? Por que ele precisou desse jogo de vagas, dessa alusão a ondas que batem e te jogam pra lá e pra cá e, assim brincando com você, impulsionam ao extremo esse negócio tão formidável que é o pensamento? Finalmente, por que levar o pensamento nisso que parece a aposta num indeterminado, num redemoinho de infinitas ocasiões que, oportunamente, não se pode saber como nem onde nem quando, te assaltam e te arrastam junto? Ora, exatamente por que não se trata de uma aposta. Toda aposta supõe um modelo que controle a sorte, com certeza não em todos os casos, pois isso é reconhecidamente impossível, mas toda aposta supõe um modelo implícito que “retenha o azar somente em certos pontos”. Com a aposta, portanto, o pensamento protege sua pré- eminência ao mundo, com a aposta continua legitimada a transcendência do sujeito, a possibilidade do julgamento. É subrepticiamente proibido modificar a velocidade da roleta uma vez que ela já foi girada. É um exemplo de Deleuze : “Se um jogador se inclinasse bruscamente e soprasse com todas as suas forças para precipitar ou contrariar a bolinha, ele seria preso, expulso, o lance anulado. Que teria ele feito, no entanto, além de reinsuflar um pouco de azar?” É preciso fazer da sorte um objeto de afirmação, afirmar a sorte, e não “dividi-la para dominá-la, para apostá-la, para ganhar”. Ora, segundo Deleuze, só o pensamento pode fazer isso.

A potência do pensar, com o estilhaço do sujeito, precisa criar a necessidade de si própria a partir daquilo que a desencadeia sem que ela se dê conta, como que subitamente, num de repente que passa,

1 É uma das provas da derrocada do projeto soviético, e não é necessário insistir contrariamente a esse ponto, depois que Pachukanis, segundo o estudo de Márcio Naves, mostra como o Capital de Marx atrela a forma mercantil à forma jurídica, e como conseqüência afirma a impossibilidade teórica de um “direito” socialista. A passagem do capitalismo ao socialismo se dá através de um período complicado de transição, em que o direito burguês perde suas categorias enquanto validações das formas de produção que nasceram com a burguesia, das formas de exploração do trabalho através da noção econômica, por conseguinte jurídica, de valor. Assim suprimido, o direito tem uma função no interior de um planejamento técnico-organizacional das relações de produção que permaneceriam vivas nessa transição; todavia trata-se de um direito burguês não-genuíno

que fulgura e pronto : tô pensando, tô pensando nonde encaixar essa novidade tão forte, ou seja, no termos deleuzeanos (e foucaultianos) que perambularam pelo auditório na segunda-feira, como pensar esse signo que despontou depois deste encontro? O pensar como necessidade do espanto que desencadeia o próprio pensamento, necessidade de algo que pegue o pensamento de calça curta, algo que pega o pensamento e o joga num movimento que já vinha, de que ele próprio não é o autor.

Muito bem, era assim que ia pra casa, depois de pensar em tudo isso, durante aquela segunda tão espantosomente filosófica. Cheguei em casa com um propósito, que era o de escrever tudo isso. Escrevi. Mas quero contar como consegui escrever. Ora, eu fui pedir ajuda pra quem sabe fazer isso, é claro. E peguei esse livrinho. Restif de la Bretonne, escritor francês, nasceu em 23 de Outubro de 1734, e morreu em 3 de fevereiro de 1806. Pensador interessantíssimo, que compõe com sua narrativa a cartografia ao mesmo tempo íntima, no nível dos afetos pessoais (histórias sobre o incesto, por exemplo), e social, ou talvez popular, quando faz do povo, da multidão (a foule) ela mesma um personagem. Ele era, além disso, uma figura da noite, da mais escura das noites, a noite dos libertinos, dos gatunos, das casas de prazer que ele freqüentava todas, e de todas as putas, que ele também freqüentava. Mas o que quero contar pra vocês é um pequeníssimo momento do Restif, quero usar o Restif para dar um exemplo de signo pra vocês. No preâmbulo dessas Noites revolucionárias, tendo chegado, como ele diz, clandestinamente, ao jardim do Palais-Royal, ele é pego de susto pela “agitação dos espíritos!” É o que ele diz : “Em nossa chegada clandestina a Paris, 23 de junho, ficamos assustados com a agitação dos espíritos!” Ora, já temos aí nosso signo, ele já fulgurou. Uma agitação de espíritos. Mas o que é uma agitação de espíritos? Ele continua :

«Nós esperamos que eles se acalmassem. Nos enganamos : a confusão esteve sempre crescendo… Na verdade, era uma febre salutar… mas era ainda assim uma febre. Vimos, sob a passagem do Circo, não ainda rematado, jovens, montados sobre barricadas, lendo escritos veementes, excitando a fermentação, ou alimentando-a… Hoje nós admiramos o que tínhamos então por extraordinário, estranho mesmo.

Informamo-nos do que se passava, do que havia precedido… Um jovem rapaz, que acabava de discursar e que, tendo uma mesa virado sob ele pela multidão de auditores, estava estropiado, nos abordou, sustentados por outros dois.

“Sois estrangeiro, senhor? ele nos disse. – Não; chegamos da Suíça. – Dá no mesmo. Vou instruir-vos… Que me levem sentado ao café de Foi!…” Nós o seguimos. Foi deixado ao bel prazer, e a vontade de falar sendo a mais urgente das necessidades, ele se exprimiu nesses termos», e Restif vai

contar a revolta popular conhecida historicamente como Affaire Réveillon. Crise agrícola na França a partir de 1784, o preço do pão aumenta absurdamente nos primeiros meses de 1789. Numa das seções dos cahiers de doléances, quando os três estados franceses, os Estados-Gerais, se reuniam em assembléia para dispôr as queixas e entregá-las diretamente ao rei, Jean-Baptiste Réveillon, proprietário de uma fábrica de papel, haveria de anunciar uma solução para que o preço abaixasse, mas sob a condição de que os trabalhadores tivessem seu salário também reduzido. Esses vinham sofrendo com racionamento de comida, alto desemprego, e já baixos salários após o difícil inverno de 1789, quando a crise atingiu seu pico. Pois bem, os rumores dessa idéia de Réveillon se espalha, e a revolta explode na véspera da assembléia dos Estados-Gerais. Os revoltosos levam efígies de Réveillon e de Henriot (dono de uma fábrica de salitre que havia defendido a proposta de Réveillon) até a praça de Grève, e queimam as efígies. As fábricas de ambos são destruídas, assim como a casa de Réveillon. 25 morrem, mais ou menos o mesmo número de feridos, isso acontece na noite de 28 de abril de 1789, dois meses antes da grande revolta popular que toma, em 14 de julho, a Bastilha. Restif conta tudo isso. Ele conta tudo isso, acompanha as linhas internas desses movimentos que seriam retomados pela história como precursores da Revolução Francesa. Essa praça de Grève (de onde tiramos nossa palavra greve) é onde quase todas as decapitações por guilhotina aconteceram. Um signo precursor, portanto, que apanha o Restif, que o assusta, e faz com que ele faça toda uma literatura extraordinária.

O que é transformar, pois, o mundo sem que se deixe de filosofar? Antes de tudo, é defender a existência da filosofia, defender sua razão de existir. A tolice que é uma tentativa de assassinato da filosofia só se descobre quando as coisas estão para acontecer, quando estão para dar o último golpe, tal é o teor de tais tentativas que não podem senão se imiscuir na própria filosofia para retirar-lhe o viço, para sugar a seiva, chupar seu sangue. São os momentos em que gritamos, pois o rebuliço é completo quando se topa com o perigo desse assassinato. A capacidade que ele tem de nos assustar só em aparência é comparável com o susto mencionado anteriormente. O susto ocasionado por aquele que pretende matar a filosofia nos pega, não de calça curta, despreparados, mas nos pega de lado, nos deixa a cicatriz do raspão. Eles nos deixam zangados o suficiente para podermos continuar fazendo filosofia, pois o ensejo foi alimentado. “Parem de falar besteira, caso contrário terei de considerá-las como besteiras que são e hei-de ser implacável ao defender-me delas, que tanto me agridem”. Há um belo trecho de Deleuze, numa entrevista, que prepara o susto do filósofo diante da besteira :

“A filosofia consiste sempre em inventar conceitos. Nunca tive preocupações concernentes a um ultrapassamento da metafísica ou a uma morte da filosofia. A filosofia tem uma função que permanece

perfeitamente atual, criar conceitos. Ninguém pode fazer isso em seu lugar. Com certeza, a filosofia sempre teve seus rivais, desde os “rivais” de Platão até o bufão de Zaratustra. Hoje, é a informática, a comunicação, a promoção comercial que se apropriam das palavras “conceito” e “criativo”, e esses “conceituadores” formam uma raça descarada que exprime o ato de vender como supremo pensamento capitalista, o cogito da mercadoria. A filosofia se sente pequena e sozinha diante de tais potências, mas, se lhe ocorre morrer, seria ao menos de rir.”

Então, defender a vida da filosofia. Isso só se faz por meio do pensamento, e fazendo do pensamento um conjunto de potências que se afirmam enquanto afirmantes desta vida. (…) É preciso fazer um descanso nesse momento, pois estamos a poucas palavras de dar um passo em falso. Afirmar a vida é problemático, no mesmo nível de problematicidade que a tese de Marx. Problemático é aqui uma enorme quantidade de pontos interconectáveis que se lançam por uma superfície que confunde qualquer determinação causal, e cada um desses pontos é o que Deleuze chama de singularidade, “essencialmente pré-individual, não pessoal, a-conceitual”. A singularidade é essencialmente neutra, ou antes as singularidades são todas neutras e cada uma é já muitas, na medida em que a superfície que elas “assombram”, que elas modificam ao penetrarem, não altera em nada a neutralidade que é a essência delas. Com isso podemos considerar a problemática da vida. Já foi dito que o susto como necessidade do pensamento dá a este o arrojo da criação, uma vida que é atravessada por outras, ela sofre a reviravolta inevitável, ela é um devir. Com efeito, a vida é sempre devir, pois caso contrário atribuiríamos a ela uma qualidade, ou ainda pior, tomaríamos a vida por uma qualidade que, por sua vez, determinaria seu devir. Por que Deleuze e Guattari apresentam uma série de lembranças estranhas para apresentar os modos de devir, no capítulo Devir-intenso, devir-animal, devir-impercetível dos Mil platôs? Lembranças de um espectador, de um naturalista, tudo bem, mas lembranças de uma molécula, lembranças de uma ecceidade, lembranças do segredo! É uma série que procede por deslocamentos de blocos de devires, e esses deslocamentos entretêm relações não-lineares entre os termos envolvidos, não há proporção entre o devir-animal do homem e o animal respectivo, e vice-versa. Tampouco se pode entender esses blocos de devires a partir de um conjunto de relações correspondentes que, por exemplo, Lévi-Strauss concebe para fundar o estruturalismo. Tanto não há proporção no funcionamento de um devir quanto não há correspondência de proporcionalidades. Não posso dizer que eu sou um boi ao participar fantasiado de uma festa do boitatá, com a mesma razão que não posso dizer que sou para minha mulher o que o touro é para a vaca. O devir é real na medida em que não tem sujeito ; ele não produz nada além de si próprio, caso contrário haveríamos de pré-dispôr um término a ele e a volta desse elemento teleológico configura

toda uma série causal que aceitaria arquétipos, essências imutáveis, naturezas duras : o reino dos céus. O conceito de devir consegue anular a causalidade linear que percorre todo a tradição idealista, e assim retomamos um ponto passado. Há uma vigilância em Deleuze contra qualquer manifestação dócil a uma causalidade linear, pois essa nasce a partir das formas de determinação da representação e do sujeito, formas da analogia e da generalização. É uma vigilância compartilhada por Althusser, novamente, quando define uma causalidade que ele denomina estrutural, em seu texto Sobre a gênese, como a “causalidade última de todo efeito”, ou seja, todo efeito é efeito de um efeito, ou ainda, todo efeito é efeito de uma causa que, do ponto de vista da estrutura, é tão somente causa na medida em que for efeito. É uma zona de indiscernibilidade, uma estrutura de quase-causas, efeitos de superfície. Se todo devir carrega consigo um bloco de devires, se devires-animais no homem afetam tanto quanto os animais, se há uma superfície na qual pululam esses devires indiferenciados enquanto singularidades, é preciso com a mesma força compôr uma multiplicidade, a existência de uma multiplicidade de devires. É assim que podemos entender a declaração de ofício de Deleuze : “Tudo o que eu escrevi foi vitalista, ao menos é o que espero”. Ver em cada vida um devir, ver na vida uma espessura que impossibilita a autodeterminação de um indivíduo livre, mas que se constitui em dinâmicas irredutíveis a si próprias, de forma alguma compreensível sob uma relação de contrários, mas através da idéia de uma coexistência de diferenças. Fazer a diferença não é destacar-se da superfície da vida, mas ficar imperceptível a ela, devir- imperceptível, comendo pelas beiradas. Fazer como Spinoza, cuja última recomendação, àquele a quem confiou sua Ética, foi de que a publicasse sem autoria – ainda que queimá-la fosse melhor. Anular o indivíduo com um ato de criação.

Um céu de tarde e um quadro de Mirò na sala fechada de um museu não disputam uma qualidade de cor que poderia ser dita, com todas as ressalvas,

azul, mas há um devir-azul do céu e do quadro, ou melhor um devir-azuláceo. O mulhatoun árabe (ملحة), segundo uma “cor branca intermisturada com preto; brancura sobrespraiando negror no cabelo humano, ou em qualquer coisa; ou uma cor branca empoeirada, ou uma cor branca clara, ou uma brancura inclinando para qualquer tipo de vermelhidão, como a cor do antílope” (Edward William Lane, p. 2733).

Ivo

Caos na Poesia por D. H. Lawrence

Num texto violentamente poético, Lawrence descreve o que a poesia faz: os homens não param de fabricar um guarda-sol que os abriga, sob o qual desenham um firmamento e escrevem suas convenções, suas opiniões; mas o poeta, o artista abre uma fenda no guarda-sol, ele rasga até o firmamento, para fazer passar um pouco do caos livre e ventoso e enquadrar numa luz brusca uma visão que aparece através da fenda, prímula de Wordsworth ou maçã de Cézanne, silhueta de Macbeth ou de Ahab. Então segue-se a multidão de imitadores que consertam o guarda-sol com um remendo que se assemelha vagamente à visão, e a multidão de glosadores que preenchem a fenda com opiniões: comunicadores. Sempre haverá necessidade de outros artistas para abrir outras fendas, fazer as destruições necessárias, talvez cada vez maiores, e restituir assim a seus predecessores a incomunicável novidade que não se sabia mais ver. Quer dizer que o artista bate-se menos contra o caos […] do que contra os “clichês” da opinião. O pintor não pinta sobre uma tela virgem, nem o escritor escreve sobre uma página em branco, mas a tela ou a página já estão tão cobertas de clichês preexistentes, preestabelecidos, que é preciso, primeiro, apagar, limpar, laminar, até mesmo retalhar para fazer passar uma corrente de ar saída do caos que nos traga a visão.

(…)

Pedimos apenas um pouco de ordem para nos proteger do caos. Nada é mais doloroso, mais angustiante que um pensamento que escapa de si próprio, idéias que fogem, que desaparecem mal são esboçadas, já roídas pelo olvido ou que se precipitam sobre outras que tampouco dominamos. São invariabilidades infinitas cuja desaparição e aparição coincidem. São velocidades infinitas que se confundem com a imobilidade do nada incolor e silencioso que elas percorrem, sem natureza nem pensamento. É o instante que não sabemos se é demasiado longo ou demasiado curto para o tempo. Recebemos golpes de chicote que batem como artérias. Perdemos sem parar nossas idéias. É por isso que queremos tanto nos apegar a opiniões fixas.

[…]

D.G

 

A poesia, dizem, é uma questão de palavras. E é verdade, tanto quanto a pintura é uma questão de tinta e o afresco, uma questão de água e ocra. Mas isso está tão longe de ser toda a verdade que soa um tanto simplista quando dito secamente. A poesia é uma questão de palavras. A poesia consiste em combinar palavras para fazê-las ondular e vibrar e colorir. A poesia é um jogo de imagens. A poesia é a iridescente sugestão de um idéia. A poesia é todas essas coisas e, contudo, é algo mais. […] A qualidade essencial da poesia consiste em que ela exige um esforço renovado da atenção, e que “descobre” um mundo novo no interior do mundo conhecido. O homem, e os animais, e as flores, vivem todos dentro de um caos estranho e permanentemente revolto. Chamamos cosmo ao caos ao qual nos acostumamos. Chamamos consciência – e mente, e também civilização – ao indizível caos interior de que somos compostos. Mas trata-se, em última instância, do caos, iluminado por visões, ou não iluminado por visões. Exatamente como o arco-íris pode ou não iluminar a tempestade. E, tal como o arco-íris, a visão perece. Mas o homem não pode viver no caos. Os animais podem. Para o animal tudo é caos, havendo apenas algumas poucas e recorrentes agitações e aparências em meio ao tumulto. E o animal fica feliz. Mas o homem não. O homem deve envolver-se em uma visão e construir uma casa que tenha uma forma evidente e que seja estável e fixa. No pavor que tem do caos, começa por levantar um guarda-chuva entre ele e o permanente redemoinho. Então, pinta o interior do guarda-chuva como um firmamento. Depois, anda à volta, vive, e morre sob seu guarda-chuva. Deixado em herança a seus descendentes, o guarda-chuva transforma-se em uma cúpula, uma abóbada, e os homens começam a sentir que algo está errado. O homem ergue, entre ele e o selvagem caos, algum maravilhoso edifício de sua própria criação, e gradualmente torna-se pálido e rígido embaixo de seu pára-sol. Então ele se torna um poeta, um inimigo da convenção, e faz um furo no guarda-chuva; e oba!, o vislumbre do caos é uma visão, uma janela para o sol. Mas depois de um certo tempo, tendo se acostumado à visão, e não lhe agradando a genuína golfada de ar do caos, o homem do lugar-comum rascunha um simulacro da janela que se abre para o caos, e remenda o guarda-chuva com o remendo pintado do simulacro. Isto é, ele se acostumou à visão; ela faz parte da decoração de sua casa. De maneira que o guarda-chuva finalmente parece um amplo e brilhante firmamento, Pagina 1/3 de vistas variadas. Mas, que pena!, é tudo simulacro, feito de inumeráveis remendos. Homero e Keats, cheios de anotações e acompanhados de um glossário. Esta é a história da poesia em nosso tempo. Alguém vê Titãs no ar selvagem do caos, e o Titã torna-se uma parede entre as sucessivas gerações e o caos que elas deveriam ter herdado. O céu selvagem pôs-se em movimento e cantou. Até isso torna-se um grande guarda-chuva entre a humanidade e o céu de ar fresco; ele tornou-se, então, uma abóbada pintada, um afresco num teto abobadado, sob o qual os homens empalidecem e se tornam infelizes. Até que um outro poeta faça um buraco no amplo e tempestuoso caos. Mas finalmente nosso teto não nos ilude mais. É gesso pintado, e nem todo o engenho de todas as épocas da humanidade conseguirá mais nos enganar. Dante ou Leonardo, Beethoven ou Whitman: oba!, pintaram no gesso de nossa abóbada. Como São Francisco pregando para os pássaros em Assis. Maravilhoso, como o ar e o espaço passarinheiro e o caos de muitas coisas – em parte porque o afresco desbotou. Mas ainda assim, ficamos felizes em sair daquela igreja, e entrar no caos natural. Esta é a grave crise para a humanidade, quando temos que voltar ao caos. Enquanto o guarda-chuva servir, e o poeta fizer furos nele, e a massa de gente puder ser gradualmente educada para a visão no furo: o que significa que eles o remendam com um remendo que se parece com a visão no furo: enquanto esse processo puder continuar, e a humanidade puder ser educada, e assim encaixada, a civilização continuará mais ou menos feliz, completando sua própria e pintada prisão. Isso chama-se completar a consciência. A alegria que os homens tiveram quando Wordsworth, por exemplo, fez um furo e viu uma prímula! Até então, os homens tinha visto uma prímula apenas obscuramente, na sombra do guarda-chuva. Eles a viram por meio de Wordsworth no pleno brilho do caos. Desde então, gradualmente, acabamos por ver na primavera nada mais do que prímulas. O que significa que remendamos o furo. E a grande alegria quando Shakespeare fez um grande rasgo e viu o homem emocional e desejoso ao desabrigo, no caos, para além da idéia convencional e do guarda-chuva pintado das imagens morais e dos rígidos paladinos, que foram instituídos na Idade Média. Mas agora, que pena!, o teto de nossa abóbada está simplesmente todo pintado de Hamlets e Macbeths, as paredes laterais também, e a ordem está fixada e completa. O homem não pode ser absolutamente diferente dessa imagem. O caos fica inteiramente do lado de fora. O guarda-chuva ficou tão grande, os remendos e o gesso estão tão rígidos e duros que ele não pode ser mais furado. Se fosse furado, a abertura não seria mais uma visão, mas apenas uma afronta. Deveríamos borrá-lo todo de uma vez, para combinar com o resto. Assim, o guarda-chuva torna-se absoluto. E assim o desejo do caos torna-se nostalgia. E isso continuará até que algum vento terrível parta o guarda-chuva em tiras, e destine a maior parte da humanidade ao esquecimento. O resto gelará em meio ao caos. Pois o caos está sempre ali, e sempre estará, não importa como armemos guarda-chuvas de visões. E que dizer dos poetas, então, nesse intervalo? Eles revelam o desejo interior da humanidade. O que eles revelam? Eles mostram o desejo de caos, e o medo do caos. O desejo de caos é o sopro de sua poesia. O medo do caos está em seu desfile de formas e técnica. A poesia é feita de palavras, dizem eles. Assim, eles sopram bolhas de som e imagem, que logo explodem com o sopro do desejo de caos de que estão plenos. Mas os poetastros podem fazer reluzentes bolhas para a árvore de Natal, que nunca explodem, porque não existe qualquer sopro de poesia nelas, mas elas ficam lá até que as derrubemos.

D.H.Lawrence

Tradução de  TT

Quando é endossada de forma irrestrita, a psicanálise não está sendo levada a sério, uma vez que o conhecimento da psicanálise encerra uma resistência contínua a ela. Aceitar a psicanálise, acreditar na psicanálise, é o mesmo que “não ter entendido nada”(…) A psicanálise – que, como tratamento, chega sempre tarde demais – não cura as pessoas, mas mostra a elas o que nelas é incurável. Mais exatamente, mostra a elas as áreas de suas vidas para as quais a palavra cura seria incorreta, para as quais temos que propor algo melhor do que “melhorar”.

Passagens do escrito de Adam Phillips (psicanalista inglês). Texto integral no link:  http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1304200305.htm  (desconsidere a frase do editor que encabeça o artigo, que parece falar de outro texto).

A Invenção do Psicológico – Quatro séculos de subjetivação – ( Luís Cláudio Figueiredo). Livro em pdf

produto_530684_1520072Clique abaixo e abra uma nova janela para acessar o download do livro em pdf:

https://geisamoterani.wordpress.com/2014/05/01/a-invencao-do-psicologico-quatro-seculos-de-subjetivacao-luis-claudio-figueiredo/

ou neste link do googledrive:

https://drive.google.com/open?id=0B6Dh2r0OH3TienNWZjZRV21jbU0

 

 

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