INTERESSA. Boris Schnaiderman, quase 100 anos. Tradução, ato desmedido na mão.

Boris Schnaiderman, tradutor desmedido

Perfil

TEXTO E FOTOS Josias Teófilo

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A caminho de completar 100 anos, Boris Schnaiderman mantém a firmeza intelectual e a precisão nas palavras, além do profundo entusiasmo pela tradução, atividade que o ocupou durante décadas, tornando-se a principal referência na tradução dos autores russos no Brasil. Nas palavras de Irineu Franco Perpétuo (que recentemente publicou pela Editora 34 sua tradução do livro Memórias de um caçador, de Ivan Turguêniev): “Boris é o pai fundador da escola moderna da tradução de literatura russa no Brasil. Em um tempo em que as distâncias maiores, e que ambos os países viviam regimes ditatoriais, foi fundamental ter um mediador cultural com sua cultura enciclopédica, paixão infatigável, gosto amplo e rigor científico. Graças a ele, demos um salto qualitativo decisivo: do diletantismo disperso ao profissionalismo sistemático. E, graças a seus ensinamentos essa mudança de paradigma hoje parece irreversível. Se hoje a literatura russa ocupa um lugar especial na cultura brasileira, isso é devido não apenas à qualidade intrínseca da obra, mas ao tipo altamente qualificado de defesa e difusão que ela vem recebendo de Boris e seus seguidores”. O tradutor Paulo Bezerra, autor da tradução de Crime e Castigo publicada pela Editora 34, se refere a Boris como “herói fundador no campo da literatura russa”. Mas Schnaiderman, para além das suas realizações e méritos, tomou um vulto mítico, talvez pela sua fascinante história: este senhor simpático, com a voz solene que parece pesar cada palavra, nasceu em 1917, ano da Revolução Russa, na cidade de Úman, na Ucrânia, e logo foi morar em Odessa. Lá, aos 8 anos de idade, ele viu ser filmada uma das cenas mais famosas do cinema: a da Escadaria de Odessa do filme O encouraçado Potemkin, de Serguei Eiseinstein. É que ele morava em frente à escadaria, e costumava brincar livremente onde foi filmada a cena ontológica: viu todos aqueles atores vestidos com roupas de época e tudo mais. Em 1925, imigrou para o Brasil. “Naquela época quem queria emigrar não tinha muita escolha. Não era fácil conseguir um visto de entrada. Nós conseguimos porque um tio nosso já tinha vindo a São Paulo, estava trabalhando aqui. Meu pai queria sair da Rússia, era comerciante, não se adaptava ao sistema comunista, mas era estranho porque ele era muito bem relacionado e nós saímos legalmente, o que era muito raro”, relata Boris. Chegando aqui teve a oportunidade de ver no cinema O encouraçado Potemkin cuja filmagem ele havia visto. Formou-se engenheiro-agrônomo em 1940 e na Segunda Guerra Mundial lutou ao lado do Brasil na Itália pela Força Expedicionária Brasileira, onde perdeu vários companheiros e viu a morte de perto quando o exército americano atacou seu agrupamento por engano. Viu as balas passando perto de si. Essa experiência inspirou sua obra de ficção Guerra em surdina, publicada pela Cosac Naify, resultado de uma elaboração de 16 anos sobre os traumas da guerra.

Apuro e autonomia

Em 1943 ofereceu a várias editoras brasileiras uma tradução direto do russo do romance Os Irmãos Karamasov, que ele na verdade nunca tinha lido. “Se tivesse, não aceitaria de jeito nenhum”, diz ele. Porém, ele atribui um papel importante dessa tradução na sua história: “Traduzir os Irmãos Karamazov foi uma revelação. Eu era novato, não em termos de idade mas em termos de conhecimento. E no entanto foi um acontecimento na minha vida. Eu acabei quase decorando o romance”. Ainda hoje de tempos em tempos é possível encontrar essa edição em sebos. Boris, entretanto, a renega. Usou o pseudônimo Solomonov, que na verdade é o seu nome patronímico, nessa e em outras traduções até se sentir seguro. Em 1960, foi o primeiro professor de língua e literatura russa da USP, onde ficou até 1979, e traduziu escritores como Doistoévski, Tolstói, Tchekhov, Gorki, Paternak, poetas como Pushkin, Maiakovski. Suas traduções ficaram conhecidas pelo apuro e pela autonomia. Na época da ditadura militar brasileira, Schnaiderman chegou a ser preso em sala de aula por sua aproximação com a cultura soviética. Ele esteve na URSS em 1965, 1972 e 1977, mas deplorava o realismo socialista, estética oficial soviética que impunha padrões para todas as manifestações artísticas. Para Boris “o realismo socialista foi uma deformação total. Querer que a literatura se encaixe em normas ético-políticas é um absurdo”. Entretanto, ele simpatizava com o comunismo, o que hoje vê como uma contradição: “Era uma contradição completa, eu não aceitava o realismo socialista mas era a favor do comunismo”. Escritores foram perseguidos por não se adequarem ao realismo socialista, mas, para Boris, a grande literatura subsistiu com os autores que escreviam mas não publicavam. O caso mais curioso foi o de Bulgákov, autor de O mestre e a margarida: “Bulgákov é um caso muito estranho, é um caso de alucinação mesmo. Ele foi tão atacado que no final da vida ele queria fazer realismo socialista, queria exaltar Stalin. É a identificação da vítima com o carrasco. E foi um grande escritor que passou anos e anos sem poder publicar nada”. A larga experiência de tradução de Boris Schnaiderman foi resumida num livro, Tradução, ato desmedido, publicada pela editora Perpectiva naquela famosa coleção Debates. No livro, ele trata da importância da autocrítica constante na tradução – Boris não raro revisa suas traduções antigas quando da sua nova publicação – “pois é muito fácil resvalar na autoflagelação e o autocompadecimento, e desta forma incorrer numa das piores formas de exibicionismo”, como ele escreve no livro. Autocrítica constante, sem autoflagelação ou autocompadecimento, são elementos indispensáveis para um tradutor, mas existe também um elemento central para o ato de traduzir: a ousadia. “Traduzir é uma ousadia. Quem sou eu para traduzir Dostoievski? No entanto é preciso ser feito. Eu tenho que aplicar toda a minha capacidade e fazer o melhor que eu posso. Mas é uma ousadia tremenda”, diz Boris, com toda a sua lucidez aos 96 anos. De aparência frágil, ele recebeu a CONTINENTE no seu apartamento no bairro de Higienópolis e tratou de corrigir à mão pequenos erros da edição do seu livro Tradução, ato desmedido na mão. “Acontece nas melhores editoras”, disse ele. Um gesto incansável na busca pela perfeição.

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Com a LIBERDADE DE EMPRESA, chamada de imprensa– sempre parcial e em luta contra todos que não obedecem aos seus interesses -, não pense que morreu somente o cinegrafista Santiago Ilídio Andrade nas manifestações. Antes morreram, pelo menos:

1. a gari Cleonice Vieira de Moraes, em Belém (PA), vítima do gás lacrimogêneo lançado pela polícia militar;

 

2. 13 mortos na favela Nova Holanda, no Complexo da Maré (RJ) – neste caso, a imprensa sequer se deu ao trabalho de informar todos os nomes;

 

3. o estudante Marcos Delefrate, de 18 anos, em Ribeirão Preto (SP), atropelado por um carro que furou um bloqueio de manifestantes;

 

4. Valdinete Rodrigues Pereira e Maria Aparecida, atropeladas em protesto na BR-251, no distrito de Campos Lindos, em Cristalina (GO);

 

5. Douglas Henrique de Oliveira, de 21 anos, que caiu do viaduto José Alencar, em Belo Horizonte (MG), por ter sido acuado pela polícia militar. Luiz Felipe Aniceto, que saiu do mesmo viaduto, ficou um mês em coma e também acabou morrendo. No mesmo dia, depois de um toque de recolher ilegal, o morador de rua Luiz Estrela foi espancado até a morte.

 

6. o marceneiro Igor Oliveira da Silva, de 16 anos, atropelado por um caminhão que fugia de uma manifestação, numa ciclovia próxima à Rodovia Cônego Domênico Rangoni, na altura de Guarujá (SP);

 

7. Paulo Patrick, de 14 anos, atropelado por um táxi durante manifestação em Teresina (PI);

 

8. Fernando da Silva Cândido, ator, por inalação de gás lançado pela polícia, no Rio de Janeiro.

 

9. o senhor que foi atropelado por um ônibus, ao tentar fugir da polícia, na mesma manifestação em que o cinegrafista Santiago foi atingido – sobre esta outra vítima, nenhuma linha na imprensa. Chamava-se Tasman Amaral Accioly e era vendedor ambulante.

 

Texto de Eduardo Sterzi