Eduardo Viveiros de Castro: prefiro viver em um mundo que as pessoas esquecem, mas não perdoam do que em um mundo que as pessoas perdoam, mas não esquecem. Eu lembrava de que estava tendo uma conversa com um colega ontem à respeito da questão do esquecimento no mundo indígena que é muito interessante que é o seguinte… Existe uma frase que eu acho, particularmente, sinistra, terrível na nossa cultura que é a frase: “Eu perdoo você, mas não esqueço. Eu posso perdoar, mas não vou esquecer.” Que se diz muito. É na verdade o principio do perdão nosso, da economia do perdão cristão. Perdoar, mas não esquecer. “Perdoar sempre, esquecer jamais”. O que eu acho absolutamente apavorante. O mundo indígena de certa maneira é um pouco o contrário, se você foi ver o que acontece. Não é que eles perdoam, é que eles esquecem, eles não perdoam. E quando eles lembram de novo, quando alguma coisa acontece que faz voltar a memória do mau que eles fizeram, da vingança que eles tem que cumprir, volta tudo de novo, mas em compensação eles esquecem. Eu prefiro viver em um mundo que as pessoas esquecem, mas não perdoam do que em um mundo que as pessoas perdoam, mas não esquecem. Porque um mundo que as pessoas perdoam mas não esquecem, você está prisioneiro eterno da memória dos outros e isso é terrível. Sobretudo, quando você está prisioneiro das pessoas que te perdoaram, porque não há nada pior do que ser perdoado e não ser esquecido. Então, acho que essa diferença explica certas coisas muito surpreendentes no mundo indígena que, de repente, os índios estão muito bem, recebendo convidados, em uma festa e acontece uma briga, uma morte, porque alguém lembrou que aquele cara matou o… Ele não perdoa, ele só está esquecido, você vê é gente feliz, são pessoas que tem capacidade de esquecer, mas é gente humana que não tem a capacidade de perdoar. Como a gente sabe essa história de “perdoo, mas não esqueço” é mentira. É nem perdoo, nem esqueço. Essa é uma das mentiras piedosas que contamos, perdoa coisa nenhuma, se tivesse perdoado teria esquecido. O esquecimento é mais importante que o perdão, na verdade. O único perdão possível é o esquecimento. E isso é algo que teremos muito tempo para aprender.

EVC

Anúncios

“Continuamos dormindo? Até quando?” – Orlandi

Continuamos dormindo? Até quando?

Pessoas amigas, desculpem-me as longas ausências. O paradoxo é que minha idade avança enquanto aumentam as tarefas. Hoje, entretanto, nosso amigo uruguaio, Eduardo Galeano, diz pra gente umas verdades. Por força das quadrilhas parlamentares, executivas, judiciárias, financistas, golpistas etc, que continuam rindo de nós todos e se aproveitando de nossa histórica lentidão, as verdades galeanas ligam nossa tristeza de hoje àquelas de mais de dois séculos e meio atrás. O nome dessas verdades é este: “Dormia o Brasil em leito de ouro”. E o texto é este: “Brotava da terra, como se fosse capim. Atraía multidões, como se fosse imã. Brilhava, como se fosse ouro. E era ouro. Os banqueiros ingleses celebravam cada novo achado, como se o ouro fosse deles. E era deles. Lisboa, que não produzia nada, enviava a Londres o ouro do Brasil, em troca de novos empréstimos, roupas de luxo e todos os consumos da vida parasita. Ouro Preto era o nome do centro dos esplendores do ouro, porque negras eram as pedras que continham o ouro, noites com sóis guardados lá dentro, embora também pudesse muito bem ter esse nome porque negros eram os braços que arrancavam o ouro das montanhas e das margens dos rios. Aqueles braços custavam cada vez mais caro. Os escravos, ampla maioria na região mineira, eram os únicos que trabalhavam. E muito mais caros eram os alimentos. Ninguém cultivava nada. Nos primeiros anos da euforia mineira, o preço de um gato equivalia ao ouro que um escravo recolhia em dois dias de trabalho. A carne de galinha era mais barata: custava o ouro de um dia. Após mais de um século, continuavam sendo astronômicos os preços da comida e dos esbanjamentos das festas dos ricos, que viviam em farra contínua, mas o manancial do ouro, que parecia inesgotável, brotava cada vez com menos força. E cada vez era mais difícil cobrar os impostos que espremiam as minas para financiar as fadigas da corte portuguesa, cansada de tanto descansar ao serviço dos banqueiros ingleses. Em 1750, quando morreu o rei de Portugal, as arcas reais estavam vazias. Foram eles , os banqueiros ingleses, que pagaram os funerais”. (Espelhos. Uma história quase universal. Tr. br. de Eric Nepomuceno. L&PM Editores, 3ª ed. 2015. p. 156-157).


Aí estão, meus amigos, aquilo que, na minha juventude, lendo o historiador Caio Prado Junior, aprendi como sendo efeitos do sentido da colonização brasileira, o sentido que reiteradamente nos infesta, aquele que recoloca nosso povo a serviço de minorias assaltantes dos poderes de uma república esfarrapada.


Abraços do Orlandi

IMPRESSÕES DE MICHEL FOUCAULT. Vídeo com Roberto Machado que não foi apenas o “amigo brasileiro” de Foucault, porém um de seus mais agudos intérpretes, além de responsável por sua recepção entre nós. Neste vídeo, através de uma narrativa saborosa, Roberto nos conduz à atmosfera parisiense que rodeava Foucault, povoada de cineastas, escritores, polêmicas e anedotas. Pelas lentes desse filósofo nascido no Recife e radicado no Rio, apreendemos fragmentos da vida pública e privada de um dos mais importantes pensadores do século XX. O que surge daí não é um monumento, mas uma aventura intelectual e vital, graças à capacidade que Foucault possuía de se deslocar, se desprender de si, mudar, surpreender. Suas impressões não são só o retrato de um pensador europeu através do olhar de um admirador, interlocutor e amigo; é o testemunho vivo do encontro entre nossos trópicos nem sempre tristes e a efervescência intelectual de uma geração radical de pensadores franceses que marcou definitivamente nossa própria maneira de viver e de pensar. (PPPM)

Bifo: “A política está morta”

Diego Sztulwark ‒ Que significa uma vida anafetiva e por que você afirma que vivemos num tempo em que um diagrama de poder conectivo dessensibiliza a vida?

Bifo ‒ Bem, quando falo em dessensibilização no tempo, na época digital, não é a minha intenção definir de maneira rigorosa ou dogmática uma forma estabelecida categoricamente. O que me interessa é mais denunciar, e isto é importante, uma tendência que tento definir no livro [Fenomenología del fin. Sensibilidad y mutación conectiva, Caja Negra, Buenos Aires, 2017]. Dessensibilização. A tese essencial desse livro é que na transição da esfera da comunicação alfabética, da comunicação corporal, à esfera da comunicação digital, algo muito profundo acontece na disposição física dos corpos, mas também na geração do significado, do sentido. É o próprio processo de significação que está mudando. Por falar isso de uma maneira rápida e simples, eu diria que é o corpo da mãe a questão central do meu interesse. A formação das gerações alfabéticas, das gerações do passado, do tempo pré-digital, era uma formação linguística baseada, fundada sobre a voz, a voz da mãe, a voz de um ser humano, não interessa se é a mãe biológica. É a voz que, segundo Agambem, é o ponto de conexão, de conjunção entre o sentido e a carne.

Pois bem, hoje vivemos num tempo em que está crescendo uma geração que aprendeu umas palavras por meio de uma máquina e não pela voz de uma mãe, pela voz de um ser humano. Algo muito profundo está mudando. E o que está mudando é que a geração do sentido, a geração de significado, não mais acontece no interior de uma relação corporal, física, singular, mas acontece cada vez mais em termos digitais, portanto dessingularizados.

Natalia Gennero ‒ Bifo, e nessa substituição da voz pelas imagens, nesse processo de desfeminização que pressupõe a cultura digital, o que perdemos?

Bifo ‒ Eu não gosto muito de apresentar o problema em termos do que ganhamos e o que perdemos. O que me interessa é, sobretudo, individuar, definir uma nova forma da comunicação entre os seres humanos. Isto é, cada vez mais, a formação do sentido acontece através de uma correspondência sintática, que é o que chamamos de pattern recognition, é o reconhecimento de um modelo abstrato que contém em si o sentido. Na comunicação pré-digital, a produção de significado era algo absolutamente singular, estava ligada a um contexto, a uma relação de natureza pragmática, erótica, carnal, situacional de alguma maneira. É a situação que é cancelada na comunicação de tipo digital. Naturalmente, isto não acontece de maneira abrupta, não passamos de um dia para o outro de uma forma humana a uma outra forma humana. O que me interessa é a emergência de uma nova forma do processo de significação.

Diego Scliar ‒ Bifo, diante dessa mudança no processo de significação e dessa situação cancelada, como modo do aprendizado também, como você contava, a pergunta é: que patologias aparecem nessa transição de uma língua materna para a outra, por dizer, nessa mudança para essa língua materna digital?

Bifo ‒ Cada mutação implica um sofrimento, implica uma patologia. Há algo que se torna difícil, doloroso na relação comunicacional, na dimensão existencial. E o que está acontecendo? Está acontecendo que o nosso tempo fica dedicado cada vez mais à conexão sintático-digital e menos, cada vez menos, à conjunção de corpos num espaço singular e contextualizado. Isso se manifesta numa espécie de rarefação, de um devir raro, de um fluxo menos cotidiano da relação entre os corpos. Os corpos perdem a empatia que tinham no tempo presente. Vivemos, estamos vivendo, acredito eu, uma espécie de enfraquecimento da empatia. Isso pode ser observado na dimensão da política, na dimensão da sociedade. A solidariedade social, que se torna tão rara, tão difícil, é uma manifestação da empatia que a raça humana está perdendo; ou talvez esteja redefinindo-a, pode ser.

Não posso saber como essa mutação se manifestará no tempo. Eu acredito que essa mutação se manifesta hoje em patologias da solidão, por exemplo, ou patologias da depressão, ou  patologias do pânico. Porque a infosfera, o universo próprio da informação que há ao redor de cada indivíduo, essa dimensão se acelera e se torna cada vez menos sensual. É a sensualidade o que estamos perdendo.

Este livro de que estamos falando, Fenomenología del fin, é um livro sobre a sensibilidade. Essencialmente o que me interessa é a evolução e a mutação da sensibilidade. Mas o que significa a palavra sensibilidade? Eu diria que a sensibilidade é a capacidade de entender algo que não dá para falar com palavras. Isso é a sensibilidade. Também na vida cotidiana, falamos que uma pessoa é ou não é sensível quando é capaz, ou não é, de entender a ironia, de entender as alusões, de entender o que não falamos, ou que falamos sem palavras. É isso o que se está perdendo, pois a digitalização implica um processo de sintatização da comunicação ‒ cada vez entendemos menos as nuances da comunicação, e cada vez mais, temos de reconhecer um padrão, reconhecer uma forma sintática. A mutação implica, necessariamente, uma plasticidade do cérebro, da mente, e uma plasticidade da própria linguagem. Mas essa plasticidade não pode ser desenvolvida plenamente sem sofrimento. O tempo em que vivemos é o tempo em que a mutação se manifesta de uma maneira essencialmente patológica.

Diego Sztulwark ‒ Agora, em seu livro, Franco, você também faz uma genealogia dessa vontade de abstração, e vai identificando, na cultura ocidental anterior, no puritanismo norte-americano e na história das religiões, por exemplo, toda uma espécie de história desse ideal da percepção digital. Então, eu me pergunto se não há em seu modo de construção desse argumento uma espécie de idealização ou nostalgia dessa sensibilidade do passado E isso também me leva a te perguntar o seguinte: no momento atual, que você caracteriza como de dessensibilização, não aparecem também algumas possibilidades de ir identificando novas formas de sensibilização ou de contrassensibilização? Quer dizer, seria uma dupla pergunta, como fazer para não situar um passado demasiadamente idealizado, um passado onde houve o nazismo, onde houve todos esses precedentes religiosos reacionários que já estavam atuando, onde a política tinha também momentos extremamente obscuros…Ou seja, nem tudo o que fica para trás é de um humanismo brilhante, por um lado e, por outro lado, como podemos fazer para tentar entender, nessa nova situação, quais os signos de sensibilidades novas?

 Bifo ‒ Essa é uma pergunta muito rica enquanto às suas implicações, mas muito difícil de ser respondida, pois tem vários lados. Primeira questão: o perigo de uma nostalgia da dimensão cultural, comunicacional do passado. Reconheço que para mim é quase que inevitável a referência ao passado da comunicação humana, como uma referência que pode parecer, que pode ser talvez nostálgica. Mas no plano teórico, minha tentativa é evitar, de ser possível, uma tonalidade saudosa nas considerações, pois o que me interessa é avaliar, é analisar as diversas formações culturais e comunicacionais em sua complexidade. Por exemplo, você diz que há uma referência ao humanismo do passado, que pode ter um elemento de mistificação, de ideologia. Tentarei explicar. O que foi o humanismo?  O que foi a política que o humanismo moderno tornou possível na história da modernidade? Estou falando, por exemplo, de um texto de Maquiavel, não lembro se o citei no livro, mas acho que é muito útil para entender. Maquiavel, n’O Príncipe, seu livro mais conhecido, onde ele fala da própria fundação da política, em certo ponto, ele diz que o príncipe, o político, é alguém que tem a capacidade de submeter, de subjugar a fortuna, que é fêmea, que é caprichosa, que é como uma mulher, caprichosa, e que deve ser submetida à vontade masculina. Nesse sentido, esse texto de Maquiavel é extremamente importante, pois, por um lado, permite entendermos que na história da política moderna há um elemento de violência machista muito profundo, muito determinante. Não é possível cancelar essa ideia machista da dominação sobre o caráter feminino da natureza, e o caráter feminino do que Maquiavel chama de fortuna. E o que é a fortuna? A fortuna é a imprevisibilidade dos acontecimentos, a imprevisibilidade da vida cotidiana. Essa imprevisibilidade, para Maquiavel, é o objeto da dominação masculina e política. Então, você pode ver que quando falamos em humanismo, precisamos também falar de uma forma que é essencialmente machista. O homem do qual fala o humanismo é um macho, é um homem no sentido sexual, no sentido marcado pela cultura masculina moderna. A política é a capacidade masculina de dominar, de submeter a infinita imprevisibilidade da fortuna, isto é, dos acontecimentos, do événement de sentido, como falam os franceses. Então você pode ver que humanismo e dominação estão estreitamente vinculados na história da modernidade. Porém, e ao mesmo tempo, o humanismo significa a potência da vontade. Só no interior da dimensão humanista moderna é possível imaginar que o homem possa dominar a natureza e conhecer a natureza de maneira redutiva, de maneira útil a uma redução e a uma potência. No tempo digital, na época da mutação digital, quando a infosfera se torna infinitamente veloz, infinitamente complexa, nesse ponto, a fortuna não pode ser dominada. Ou seja, a riqueza, a imprevisibilidade dos acontecimentos, das informações, do possível, torna-se infinita. E a potência humana, isto é, masculina, no sentido de Maquiavel, fica enfraquecida, incapaz de elaborar esta hipercomplexidade. Aí se encontra o sentido, a razão principal da crise contemporânea da política. A política como força de dominação, como capacidade da vontade de dominar a riqueza infinita da natureza, torna-se impotente. A impotência da política contemporânea, nesse sentido, é a impotência de um conhecimento que não consegue conhecer o bastante, que não consegue conhecer no tempo acelerado da digitalização. Nesse ponto, o humanismo perde a sua vitalidade. É uma crise que é a crise também da política. Temos que ser nostálgicos da política? Temos que ser nostálgicos do humanismo? Não. A nostalgia não se justifica nesses casos e, sobretudo, nunca é uma potência do conhecimento. Precisamos reconhecer a ruptura radical que está acontecendo e acompanhar a mutação que estamos vivendo. Mas para acompanhar, nesse sentido, o ponto de vista mais útil é a sensibilidade e não a política, e não a redução cognitiva.

(Transcrição e tradução: Damian Kraus)

 

Parte 1

 

 

**************

Continuar ouvindo em espanhol:

Parte 2

 

***************
Entrevista realizada no programa radial La Mar en Coche

In: https://marencoche.wordpress.com/2017/07/25/bifo-la-politica-esta-muerta/

BIFO: “LA POLÍTICA ESTÁ MUERTA”

25 de julio de 2017

“Fenomenología del fin: sensibilidad y mutación conectiva” es el último libro del filósofo italiano editado en Argentina.

¿Cómo atraviesan nuestros cuerpos la revolución informática y qué implica la pérdida de sensibilidad? ¿Dónde queda nuestra capacidad de entender aquello que no se puede decir en palabras?

En esta charla, Bifo se pregunta: “¿Cómo podemos escapar de esta alternativa mortal entre la conexión financiera y el retorno agresivo del fascismo? La posibilidad de salir está en una dinámica del deseo que sea capaz de tomar la forma de la ironía. Nos encontramos en un túnel. Estamos atravesando una mutación y no podemos saber cómo saldremos. Sí sé que la definición de movimiento no puede ser solo política. Es un desplazamiento que nos permite ver la realidad desde un punto de vista diferente”.

Luiz Orlandi (7 minutos e 57 segundos): abrir a caixa preta das políticas de cuidado, manejos e o ineludível morrer

abrir a “‘caixa preta'” das ‘”políticas de cuidado'”. Trata-se de um pertinente trabalho de pesquisa, de sondagem e determinação de “linhas de força” que tentam moldar os cuidados em saúde, isto é, que, a seu modo, tentam influir nos “encontros entre profissional e usuário de saúde”. Pois bem, dentre as várias políticas, mas sem entrar na história de suas sucessivas incidências e nem na sondagem de suas mútuas interferências numa mesma espaço-temporalidade, eu gostaria de destacar o nome de uma delas, apenas o nome, a dos manejos, e dizer livremente certas coisas, livremente, por duas razões: primeiro, por ser apenas um dos viventes e, portanto, de estar sujeito a cuidados; segundo, falarei livremente por não ter a competência e nem a pretensão de pesquisador nessa área tão difícil e importante. Minha sensibilidade avisa-me que há uma pluralidade de sinais e graus de poder de manejos envolvidos com saúde. Eles se apropriam variadamente de questões de saúde. É inevitável, portanto, que eles explorem aspectos de um tipo de cortejo fatalmente colado aos viventes, estejam eles gozando ou não de melhor ou pior nível de saúde. Qual é esse cortejo? É o cortejo de um ineludível morrer . As infiltrações operadas por manejos — sejam as do tipo das sociedades de soberania, das sociedades disciplinares ou das sociedades de controle — são inevitavelmente acolhidas ou repudiadas em diversos graus pelos viventes. Não sou suficientemente dotado de conhecimento ou de confiança em mim mesmo para avaliar se esta ou aquela infiltração, comandada por este ou aquele manejo, seja capaz de injetar mais ou menos alguma saúde no meu próprio cortejo. É que nós, viventes, somos quase sempre capturados por estratégias e táticas que cada manejo emprega em conformidade com uma rede de operações não suficientemente explicitadas ao vivente. Então, se não se abre a caixa preta, fica mais difícil ainda a explicitação. Sendo assim, com suficiente serenidade em prol de um realismo saudável, trata-se de pensar ‘cuidados em saúde’ como ações que interfiram nesses cortejos. Para quê? Para que, do interior do seu próprio cortejo, o vivente esteja em condições de perguntar: que pode este ou aquele paliativo fazer com que meu cortejo, unindo-se ao cortejo de outros viventes, eleve a potência do questionamento vital que nos diz respeito….