Kafka por Juliano Pessanha – A Exclusão Transfigurada

Anúncios

Laboratório de Sensibilidades 2007 – Primeiro Dia

“Tomei consciência de que na medida em que quase todos os artistas hoje vomitam a si mesmos em um processo de grande extroversão eu, solitária, engulo cada vez mais em um processo de introversão para depois realizar a ovulação que é miseravelmente dramática, um ovo por vez. Depois é um engolir novamente, um introverter-se quase até a loucura, para colocar um único ovo que não tem nada de inventado mas sim de engendrado… loucura? Não sei. Só sei que minha maneira de atar-me ao mundo é sendo fecundada e ovular.”

Lygia Clark

 

Após a apresentação de um clown, que permaneceu ali, irrompe pela porta um homem de calça jeans, bolsa e camisa brancas. Passa entre os presentes com um peixe numa das mãos e um copo d’água na outra. Direciona-se pra um dos lados do espaço. Burburinho e risadas de estranhamento vão se dando enquanto o homem de branco, silenciosamente, se prepara para o que quer que seja. Sabemos apenas que envolve um peixe e um copo d’água.
Ele para e fica de joelho, sentando em seguida nos calcanhares, sobre um craft lançado no chão. Deposita o peixe ao centro, bem em sua frente. Coloca o copo d’água ao seu lado. Tenta tirar algo da bolsa. Parece ter problemas na tarefa. Um dos presentes grita:

Precisa de ajuda?
Ajuda ele vai

Ele não reponde. Parece indiferente às falas e risos, que aumentam e diminuem a cada segundo.
Um braço aproxima-se e se estende em direção à bolsa para auxiliá-lo, sem que ele solicite ajuda. Antes do auxílio tocar a bolsa, ele retira dela uma faca. O braço se recolhe rapidamente.
Após a faca, ele retira uma um pequeno rolo de faixa para gesso e posiciona ao lado do copo. Com a coluna ereta, respira fundo, olha pra frente por um instante. Desce o olhar para o peixe. Pega-o pelo rabo e o acaricia. Passa as mãos lentamente num dos lados do peixe. Neste instante, alguém grita em forma de gemido:
Ahhiiiiiihhh….Shshshshhsh
De súbito pega a faca e começa a esfregá-la rapidamente e com força, no peixe. Escamas voam por todo lado, acompanhadas pelo grito e risos de muitos.
Falatório. Impossível entender as falas que se atravessam e se sobrepõem neste instante. No calor santista, o cheiro de peixe passeia pelo local…
Hummm que cheiro…
Noossaa
Lentamente, ele vira o peixe para o outro lado. Respira fundo novamente, olha por um instante para frente. Repete o ritual.
Neste instante alguém grita:
Chama as moça da limpeza
Entre falas e risos que não cessam, ele continua limpando cuidadosamente todas as escamas do animal, agora mais lentamente.
Um dos presentes questiona: Que que você está fazendo aí? Que você tá fazendo?
O artista responde, calmamente:
Que que eu tô fazendo? Eu tô limpando o peixe…
E outra:
Pra quê?
Resposta:
Para que o trabalho seja feito
Continua a pergunta:
Alguém vai comer?
Performer :
Depende de que alimento você tá falando. Que tipo de alimento você tá falando?
Expectadora:
Espiritual
Performer :
Aí eu não sei
E mais uma:
Ahhh, se temperar legal eu como ( risos)
Em meio a risos, ora baixos, ora mais altos, ele pega a faixa de gesso e merguha na água que está no copo.
É gesso?
Performer: Isso.
Você tá enterrando o bichinho ( risos)
O performer continua engessando o peixe.
Eu não como mais ( risos dos presentes)
Você bateu tanto no coitado que o “esfraturou”
Com bastante seriedade, o homem de branco engessa, da cauda ao “pescoço”, o animal.
“Não vai engessar a cabeça?”
Levantando-o até a altura do peito responde:
“Geralmente a cabeça é um lugar que a gente… nunca engessa… geralmente…”
Pega os materiais, que nesse momento estão espalhados, arruma, e, leva o copo com água que serviu para mergulhar a faixa de gesso até a boca e bebe:
Ahhhhrghhhh ( risos)
Gemem em coro os presentes.
Ele retira o papel craft para o lado, tendo logo abaixo um outro.
No craft ao lado se encontra o peixe, agora secando o gesso.
Ainda de joelhos e sentado nos calcanhares o performer limpa as mãos nas calças e se dirige aos presentes:
Enquanto eu espero que o trabalho seque, pra gente nomear ele. Porque a gente geralmente só nomeia as coisas quando elas estão prontas. Eu vou colocar aqui cinco alternativas, pra quem eu escolher nomear…

Ele vai escrevendo no craft. Neste momento os presentes ficam quietos, poucos falam algo com quem está ao lado, ou esboçam algum sorriso. No craft são escritos os nomes:
Sensibilidade Acadêmica
Sistemática sensível
Sub -missão artística
e… Alguém na plateia pergunta qual a formação do artista…

Ele é TO, Terapeuta Ocupacional
Como você foi psicóloga.
Você sabe como é TO né…
(…)
Um dos presentes nomeou o trabalho: Sensibilidade Acadêmica.

Veja o vídeo no link: http://www.youtube.com/watch?v=8L4LQ3jpSv4