Coisas transformam-se em mim.Um corpo que serve como passagem de forças

Há uma grande diferença entre um corpo que ressoa “unicamente” para ele mesmo e um corpo que serve como passagem de forças, sem a preocupação de convergi-las unicamente para si. Há, em suma, uma imensa distância entre os corpos que somente passam por todos os lugares e aqueles, que realizando ou não tais viagens, se tornam eles mesmos passagens.

D.S

Coisas transformam-se em mim
É como chuva no mar
Se desmancha assim em
Ondas a me atravessar
Um corpo sopro no ar

Com um nome pra chamar
É só alguém batizar
Nome pra chamar de
Nuvem, vidraça, varal
Asa, desejo, quintal
O horizonte lá longe
Tudo o que o olho alcançar

E o que ninguém escutar
Te invade sem parar
Te transforma sem ninguém notar
Frases, vozes, cores
Ondas, frequências, sinais
O mundo é grande demais

Coisas transformam-se em mim
Por todo o mundo é assim

Isso nunca vai ter fim

 

ÉTICA EM DELEUZE vídeo da conferência com Luiz Orlandi (abaixo transcrição integral)

ÉTICA EM DELEUZE

Obrigado. O aplauso não precisa ser tão caloroso porque senão vou ter que corresponder a isso (risos). Bom, eu não vou poder olhar pra alguns lados deste espaço porque têm lados que são muito cúmplices por aqui.
E… O que será? (Orlandi está sentado com uma caixa de presentes) Eu imaginei o seguinte: abrir a caixa. Tem ninguém aqui atrás, eu vou me virar um pouco, pra ninguém ver o que tem aqui dentro (tira um pacote com bastante papel de dentro da caixa). Vocês vão ficar assustados porque o pessoal se cansa muito quando o conferencista fica lendo, e a dificuldade cresce quando a papelada é imensa.
Imagine um professor de filosofia que tem que não só orientar como ler teses dos alunos. E a doença é a do excesso. Isso aqui agora vai ficar escondido (guarda o plástico onde estavam os papéis). Agora eu vou ler algumas coisas. Imagine ler 400 páginas de uma tese, 200 de outra. Ora, aqui tem poucas (risos). Olha, isso não será lido assim, velozmente. E outra: rabisquei, apaguei… Só cometi um erro: o espaço é simples. Vai ser um inferno pra ler isso, então vou ter que arrumar de tal modo que meu critério de inteligibilidade… Eu preciso marcar algumas pessoas que me dêem um sinal – vocês não valem porque vocês são cúmplices. Embora eu tenha prometido que faria algo inteligível. Então eu vou ler uma coisa absolutamente inteligível. Um começo de coisa.
O título da primeira página: abrindo minha caixinha de segredos. Eu abri e peguei o primeiro segredo que é esse aqui (a folha que está lendo). Bom, como chama esse bichinho (aponta para o desenho da caixa)? Joaninha, não é? Coisa muito simples. Primeiramente, observe essa caixinha. Ela não é muito pequena, porque eu não consegui resolver esse problema. Tem uma superfície povoada por imagens, vocês disseram de joaninhas.
Agora, vejam o que está escrito aqui: imagens de besouros – todo mundo conhece um besouro – da família dos coccinelídeos. Então suponhamos que… que bicho é esse? O bicho Deleuze que é? Aí eu começo e já pego o primeiro coccinelídeo do Deleuze, então eu preciso ver o que é um coccinelídeo. Um coccinelídeo é um besouro da subordem dos polífagos. Polífagos é aquele que come demais, e isso nós conhecemos bastante – eu sou meio polífago.
Então, o besouro da família dos coccinelídeos, que tem aquele negócio de comer bastante, de pequeno tamanho, corpo semi-esférico, cabeça escondida pelo protórax – um bicho que esconde a cabeça (esconde a cabeça na frente do rotáx)- e élitros. O que é élitros? O élitro é esse agasalho de cores vivas em desenhos variados. Os apelidos: tartaruguinha, tatuzinho… Bom, assim vai…
Bom, então vocês sentem que todas as disciplinas têm a mania do vocabulário próprio, estão condenadas a isso. Aí dizem: “mas vocês, filósofos, não tem o direito a isso”. “Ah (cara de espanto)! Não temos direito a confusão?” – Não é confusão. Mas só vocês entendem o que estão dizendo? Agora o que o café filosófico deve fazer? Abrir uma Universidade pra preparar o pessoal pra vir me ouvir dar uma exposição de filosofia. Não seria uma beleza? Mais universidades e de preferência não cobrar muito como uma empresa particular, como vocês fazem aqui. Quem pagou para entrar? Ninguém, uma beleza.
Então, tudo isso que falei foi pra introduzir o seguinte: qual é o segredo do meu segredo? Não é segredo. Qual é a tentativa de me fazer entender? O que eu fiz? Eu me inspirei num filósofo que muita gente conhece que se chama Leibniz. Pois bem, não é bem Leibniz, vamos ser honestos, é a idéia de usar uma espécie de tabela de múltiplas entradas. Um quadriculado onde você tem uma casinha aqui, outra ali, como se fosse isso (aponta para o desenho da caixa), supondo que cada uma dessas joaninhas fossem algumas idéias.
Então eu faço um bloco aqui, tenho outro bloco ali, outro aqui. Blocos discursivos, um deles não é discursivo, vocês vão ver. E a esperança é que Deleuze seja sugerido por uma espécie de ressonância entre esses blocos. Mas o que de Deleuze? As idéias relativas ao tema do nosso encontro, a coisa da ética. Então, algo importante, relativo a esse tema vai passar de um bloco pro outro. Essa minha escolha, por que eu vou fazer isso? Por quê? Há sempre, com Deleuze, a mania da ressonância, quer dizer, ele não pensa algo sozinho. Está sempre em agenciamentos com outras coisas. Está sempre em conexão, é um mundo super-relacional. Então, se está pensando X, o Y já está junto. Nenhuma multiplicidade, que conte com o interesse de Deleuze, tem apenas um componente. Isto daí é o que todo mundo que estuda Deleuze já sabe. Toda e qualquer coisa é uma multiplicidade e nenhuma multiplicidade tem apenas um elemento, tem apenas um componente. E mais: mexeu um pouquinho e já é vira outra, mexeu um pouquinho e já vira outra, e assim por diante.
Imagina que um conceito pra ele já é uma multiplicidade. Ele não diz “é isso que estou dizendo”. Ele diz mais ou menos. Mas quem é que atrapalha o conceito pra ser categórico? É que atrapalha, é um campo problemático, é que tudo, é que qualquer conceito diz respeito a problemas. Ora, os problemas têm o estranho destino de perturbar as ordenações do tipo cartesianas. Eles sempre produzem e exigem novas criações.
Agora, essa minha escolha, de trabalhar por blocos, ela não é totalmente ingênua, embora ela iniba de certo modo o jogo infantil de ligar qualquer coisa com qualquer outra. Então, Deleuze e a criança, andam juntos nisso, Deleuze quer ligar qualquer coisa com qualquer outra. Basta que aconteça algo. Então a gente vai ter que ver que troço vai acontecer que me obriga a conectar. Não é uma mera arbitrariedade gozadora do filósofo, não é algo que o empurra, que exija dele uma tensão lateralizada e não apenas uma dedicação frontal ao objeto. Mesmo porque, a relação sujeito-objeto treme, treme, ao longo dos livros. Você não pode partir dessa relação – me desculpe o pessoal da epistemologia-, mas não pode, não basta. Não basta por quê? Nós vamos ver! Ver alguma coisa. Esse sujeito e esse objeto precisam ser pensados numa espécie de pré-sujeitos, ou numa espécie de pré-objetos, ou numa espécie de: o que é que faz esse sujeito? Quem é que cria esse sujeito? Que conexões criam esse objeto? Que relações criam esses objetos? Então o próprio sujeito e o objeto ficam numa espécie de, olhando um pro outro assim (assustados): “o que que esse cara ta fazendo conosco?” Vocês vão perder o emprego desse jeito. Não tem mais sujeito e objeto assim desse jeito, bonitinho.
Vocês têm essa experiência: vocês se pensam como fulana, que nasceu dia tal, e daí olha no espelho e vai fazer uma operação plástica, porque mudou, acabou. Mas isso é o mundo da forma. Deleuze vai mais fundo, porque vai ao mundo das partículas infinitesimais e mais, que forçam a pensar. E por outro lado, por que tabelas de múltiplas entradas?
Vocês vão reparar que a confusão é total, mas eu tenho um equilíbrio qualquer aqui. Me salva por outro lado o negócio do bloco porque, imagina se eu me metesse a fazer uma demonstração da possível veracidade das proposições do Deleuze. Se tiver algum deleuziano aqui ele vai me dar um tapa, porque você não pode nem falar isso, porque você não pode situar Deleuze no nível das proposições. O seu mundo de frases não constitui proposições cientificas. A ciência faz uma coisa. A ciência dá uma moradia ao caos, dá uma referencia ao caos, é um processo criativo de funções. A filosofia não faz isso, não tem competência pra isso. A filosofia pensa por conceitos. Pra quê? Esse é um outro problema – não deve ser tão irrisório porque vocês estão aqui (risos). A prova empírica. O movimento? Olha aqui o que é o movimento: Não posso sair andando por causa dessa articulação. O movimento é sair andando, vai em prol do movimento. Não, não é bem isso, é o movimento.. não, não é bem isso…
Torna-se fácil, pra mim, brincar com os blocos porque eu não preciso fazer uma exposição. Coitados daqueles que fizeram! Sofreram! Foram aplaudidos e depois… Você entendeu? Aliás, eu tive essa experiência ao longo da minha vida de professor, todos nós temos. Quantos alunos não entendem aquilo que a gente diz? E, todavia, nós os aprovamos (risos).Ah, vai, “quem sabe uma geração chegará aí e a minha frase será entendida” – é aquela esperança!
Uma vez, tinha uma reunião de ex-alunos, e aí: “puta, mas cada aula que você dava, cara!”. E eu já preocupado, velho, cansado, respondi: “então diga lá o conceito que eu passei pra vocês, algum conceito”. Foi um silencio! Então, eu evito uma tentativa de exposição “teoremática”. Deleuze não gosta, também, de exposição teoremática. Mas, ele era ele e dava aulas magníficas, dizem. Mas a gente tem os livros, estão na internet, estão publicadas as aulas e você assiste e é lindo, entende tudo! Daí você vai falar dele e ninguém entende. Tem alguma coisa errada! A gente precisa treinar essa coisa de expor um filósofo. Dizia Hegel com ferocidade: quem não consegue expor um filósofo é porque não sabe ainda, não aprendeu ainda. Essa frase eu ouvi uma vez, de um velho professor, belíssimas aulas.
Então, tá bom: “Hegel disse isso. Então, vamos aprender pra depois ensinar, o Hegel”. Então fomos fazer isso, lá em Araraquara, no curso de filosofia, roubando o tempo das outras disciplinas, porque não era bem filosofia stricto sensu. Bom, ficamos um ano pra estudar a primeira e a segunda página da Fenomenologia do Espírito. Eu aprendi o que é a primeira e a segunda página, direitinho, eu posso repeti-la (risos). Então veja, eu estou me defendendo porque eu posso, não consegui desenvolver teorematicamente, ou seja, com começo, meio e fim, coisas que se encadeiem como se fosse uma demonstração de um teorema. Eu posso não conseguir isso, e vocês dormirão ao longo da tarefa, da minha exposição.
Então com a minha escolha dos blocos eu escapo do meu problema de não expor teorematicamente o Deleuze, o que seria uma ofensa a ele – diga-se de passagem – E vocês podem se agarrar nesse ou naquele bloco. “- Ah, eu não entendi o bloco X, fiquei com Y.” Não ta bom? Tá ótimo!
Então o que eu fiz? Escolhi um primeiro bloco, eu vou ler a ementa pra vocês, pois vou falar a partir dela: O pensamento deleuziano tende a promover uma proliferação intensiva de bons encontros. Ele quer isso, sempre quis, fez isso ao longo da vida toda como filosofo e como sempre. Sempre investindo no bom encontro, colando ao bom encontro. Tanto é que se você for percorrer a vida, digamos, empírica de Deleuze, você não encontra Deleuze.
É muito difícil encontrá-lo numa situação mundana, é muito difícil. Está sempre ligado como se fora condenado por alguma coisa, a fazer a obra. A saúde foi fragilizando, e não tinha mais tempo, tinha que fazer a obra. Os últimos anos ainda, no começo da década de 90, até 95 quando ele… – não vou falar, porque depois alguém vai ter que levantar o problema – “você vai falar de ética em Deleuze e esse cara pulou da janela do quinto andar, e suicidou!”.
Então eu vou ler: “o pensamento deleuziano tende a promover uma proliferação intensiva de bons encontros” – e pula da janela (risos)! Foi um excelente encontro, eu posso provar isso mandando por e-mail, pra vocês, a prova. Precisa provar que ele até nisso ele foi coerente. Pular é um direito que eu tenho de administrar minha própria morte, e com isso eu crio um bom encontro com ela. Não pode é ficar “oh”, escapando disso quando o corpo empírico já não presta pra nada. Aliás, hoje até o Rubem Alves proclama o direito a eutanásia. Aliás, uma boa coragem nesse caso.
Então, o pensamento deleuziano tende a promover uma proliferação intensiva de bons encontros ao mesmo tempo em que assume o ponto de vista de saídas para a vida. Quando não dá mais, então entregue o corpo ao que for. Mesmo porque, segundo ele, ele diria, que “não há obra que não indique uma saída para a vida, que não trace caminho entre as pedras”.
Deleuze não ficou só na arte, todas as obras do espírito, seja filosofia, arte ou ciência. Então eu peço que vocês leiam a frase do Brecht: “Todas as artes contribuem para a maior de todas as artes, a arte de viver.”. Não sei se Deleuze leu essa frase, certamente não. Mas o que há entre a primeira frase – “não há obra que não apresente saída para a vida, que não trace um caminho entre as pedras” – e essa, as duas têm algo a ver uma com a outra. O que você diria? Houve influência? Não, houve ressonância.
Deleuze não vai criar relação de causa e efeito, isso não é problema de filosofia. Isso é problema de ciência, de história. “Ah, vamos procurar por toda a vida de Deleuze para ver se ele leu”. Mesmo assim, mesmo encontrando que ele leu essa frase em Brecht, não há como provar que ela criou para ele o caminho para outra frase que é dele. Então, o mundo mental de Deleuze e dos filósofos é um mundo de ressonância. Eles estão indiretamente ligados a qualquer coisa.
Bom, nessa ementa, eu dizia ainda o seguinte: trata-se de ver como Deleuze em seus encontros com Nietzsche e Spinoza pensa a favor de uma singular ética vitalista – não de um vitalismo doutrinário disso e daquilo. Não. É pura e simplesmente uma relação, uma atenção permanente ao que vem de tais ou tais idéias do ponto de vista dos modos de viver. É sempre assim. Não há nenhuma leitura que Deleuze faça de outros filósofos, deixa de transformar esses outros filósofos em filosofias práticas.
O que é uma filosofia pratica? O que lateja é a vida. É sempre isso. Você não tem uma idéia pronta da vida, mas você tem que procurar as conexões com ela, criar em função dela, por razões que precisamos ver. Trata-se de ver como ele distingue vontade de poder e vontade de potência, como isso atua como critério de seleção dos encontros. E com Spinoza, ele pensa em distinguir bons e maus encontros em função de duas dimensões: a da composição das relações constitutivas dos seres e a da variação do poder de afetar e de ser afetado.
Olha, só essa ementa, só essas duas páginas, já dariam pra gente ficar conversando. Vou provar isso: esse é o bloco 1, é um bloco mais ou menos pesado, vai exigir certo esforço. Depois o bloco 2 é leve, é de uma leveza espantosa. Tem uma dupla inveja: a de pensar por conceitos como Deleuze faz e a de fazer o que o segundo bloco vai fazer, que é pensar em função de outra coisa, a partir de outra coisa.
Eu vou destacar três pontos nessa ementa: o primeiro ponto é o seguinte – vou fazer isso em homenagem a alguns alunos que às vezes precisam disso – se eu fosse obrigado a dizer numa única frase aquilo que o pensamento deleuziano busca, eu diria que ele cria uma filosofia que desdobra conceitualmente a experiência de encontros intensivos. É só isso. Desdobra, seja onde for. Ele está lendo um romancista: desdobra. Tem um encontro intensivo com o romancista. Porque ele não faz como os intelectuais, que estamos obrigados a produzir para que os alunos não sejam prejudicados na sua reivindicação de bolsas. Nós somos os publicistas, nós publicamos em tempo integral e não pensamos porra nenhuma. Deleuze não faz isso, ele não precisou fazer isso. E um aposentado também não precisa (risos), é uma maravilha.
Aliás, o Deleuze num texto, isso daí pra quem chegou à terceira idade – que o poeta goiano chama de idade da criança – estude filosofia. Sem o dever de publicar. Já tem livro demais falando besteira.(risos) Uma biblioteca decente não precisa de mais de cem volumes. Veja você, acabei de repetir uma frase de um dos homens fortes das conexões dos “Cafés”. Janine – vamos falar direto. Parece um riso da vingança, não é (risos). Vocês me desculpem, mas a vida universitária é cheia de fofocas.
Pensamento deleuziano quer uma filosofia que desdobre conceitualmente a experiência de encontros intensivos. Claro, ele está lendo um romancista, ele está lendo um cientista.
Olha, você vai ficar orgulhoso do que estou fazendo aqui (diz em direção a um cientista que está assistindo). Está ouvindo? Tem um cientista aqui dentro (Orlandi passa a bater na caixa que ainda encontra-se em cima da mesa). Lendo um cientista, lendo um romancista, vendo filmes. Sai, brota… brota o que? Comentário? Não! Interpretação? Não! Resumo? Não! Tudo que é atividade intelectual? Não! Intelectual nesse sentido do ter que publicar, não!
O que sobra, o que vem? Só quando algo se passa entre o texto lido, a coisa vista, etc., e ele vai pra lá e a coisa vai pra lá. Isso que passa; isso que chama o devir. O devir não é eu me transformar em jovem pintando o cabelo. Não, o devir não é isso, não essas transformações horríveis. Devir é essa emoção que se passa entre, entre as coisas. Você não virou borboleta quando o cara passou a mão no seu peito jovem? Você não virou. Passou-se, e você já não é mais você. Ele está de olho é nisso! Então ele só fala quando isso acontece, e ele escreve e vive disso. Por isso no momento que ele chamou a aposentadoria, ele a chamou de “coisa maravilhosa”: porque então ele poderia entregar-se a isso. Não é aquela velha idéia horrível de “agora você vai parar de trabalhar e vai virar um defunto”. Não! Vamos estudar, vamos ler, assim. Encontrar aquilo que me faça viajar num devir. Algo que me faça outro, mas não em uma transformação. Agora vou andar com um livro debaixo do braço, “olha, agora eu sou um intelectual”, não é isso. Isso é transformação, é mera metamorfose; isso qualquer barata faz, qualquer bicho faz. Não é isso. É quando passa. É quando a vespa encontra a orquídea que algo se passa. É aí na passagem que algo acontece. Esse algo quase que não dá pra pegar.
São esses momentos que você não consegue pegar que constituem pra Deleuze uma dobra da vida. Um entretempo que vai durar mais eternamente que a sua vestimenta, que a sua riqueza. É isso que dura. É o entretempo intensivo que ocorre quando algo se passa. A cada caso você precisa desdobrar, estudar o caso. Então, quando é uma obra literária tem que descobrir – não posso falar a palavra porque ela está escondida (apontando para a caixa). Vamos chamar do que? O que é que está se passando? O que é que brota entre você e aquilo que está capturando a sua atenção, a sua sensibilidade? O que é que é?
A sua percepção já não é percepção. Você não consegue ver mais como estava vendo antes. Não é percepção pontual, você agora é um novo modo de ver coisas do mundo. Quando você lê fortemente Platão você começa a ver o mundo e diz “olha, que coisa fantástica”. É essa possibilidade de algo que se passa entre você, a obra de arte, a obra de ciência, a obra conceitual ou as pessoas. Ou um grilinho, ou uma joaninha, o que for que seja o seu encontro quando ele deixa de ser extensivo meramente, no sentido de falar assim: “que vinho é esse?” (bebe o vinho). “Ah, é português, é francês…”. Não, mas o meu encontro com o vinho não é esse. Com esse vinho agora, posso falar dele, se estou falando dele é porque eu estou percebendo ele no sentido extenso da palavra, no sentido de extensão, e não da intensão, com s, não da intensidade, é nesse sentido.
O encontro é extensivo, eu te cumprimento você cumprimenta… Ah, Clara, mas que gostosa que você é. – mudou o encontro, já é intensivo. Zildinha, você é fora do controle (risos).
Esses exemplos, a pornografia, é o melhor campo pra você sentir a passagem da percepção meramente frontal e quando você é tomado isso vira um conceito prodigioso, conceito dos encontros intensivos. É nesses encontros que o Deleuze aposta quando ele fala em vida. Vocês vão notar, não sei aonde, em que página, que há uma vida orgânica essa que me permite ver, e eu preciso cuidar disso – claro! Preciso comer e beber e etc. E todas as ciências que me ajudam a comer bem, etc., etc., são bem vindas, mas a vida não é feita apenas disso.
E é essa porcariazinha, é uma perda de tempo. Sim, perfeito. É perda de tempo cronológico. Mas eu ganho outro tipo de tempo, esse entretempo, esse entre – momento em que a intensidade “pensar” atinge coisas que você não imaginava ser capaz de pensar, quando você lê um filósofo. O seu entretenimento com a arte deixa de ser um entretenimento, dizia a Suely (Rolnik) há poucos dias. É uma efervescência que ocorre em você. A única riqueza que a ética spinozana que Deleuze aceita é essa. É a única riqueza. É pouco.
Precisa de dinheiro? Claro que precisa. Não é disso que se trata. É distinguir, é como se fosse Platão dizendo: “Precisa pegar o cavalo preto e o cavalo branco. Cavalo preto é o cavalo das paixões, o branco é o da razão”. E aí você vai a galope, no meio, porque você não consegue ficar nem em um, nem em outro. É isso. Você fica perdido, louco ali. Monta nos dois. Tem que ficar nos dois.
Ele, eu acho que é isso. Ou seja, a pergunta que inspira Deleuze, qual é? Isso é uma aventura, meus queridos alunos, vocês nunca ouviram essa frase. Já sabem, mas nunca ouviram essa frase, porque eu fiz essa frase ontem. Qual é a pergunta que, a meu ver, inspira Deleuze? Alguém esteve aqui na exposição do Daniel? Isso aqui não é panelinha deleuziana. Tem as panelinhas, Wittegenstein,.. mas esta não é panelinha. Eu brigo com a Suely, brigo com o Peter, brigo com o Daniel, brigo comigo.
Então, o Daniel jogou fora a noção de criação – alguém se lembra disso? Jogou no lixo -, e aí eu peguei do lixo. Não pode jogar assim. Precisa jogar de outro jeito. Precisa jogar no lixo, ir ao lixo, voltar e ver que você que estava no lixo.
Palavra criação, não é que ela é coisa sagrada, mas é que se você joga fora precisa de um conceito pra jogá-la. Deleuze não joga fora a palavra criação e muito menos o conceito. Há um jogo difícil de se entender entre a criação, e por quê? Por que é complicado para um filósofo não teista, um filosofo da imanência, um filosofo não transcedentalista, que não quer saber de se ajoelhar perante uma autoridade externa ao campo de imanência? Ler, conversar, tudo bem. Conversação, tudo bem. Então não podemos deixar a palavra criação ser monopólio de Deus.
“- Mas você não criou o universo!” – Tá certo, nós não criamos o universo. Mas entre não termos criado tudo, e atribuirmos a criação a Deus, tem um golpe aí. Eu não preciso atribuir a Deus. Eu sei que está tudo aí criado, mas eu não preciso atribuir a Deus. Não preciso atribuir a nenhum transcendente. Quem é obrigado a atribuir? Quem já está ajoelhado: o teólogo, o padre, mas o filósofo não. Filosofia nasceu pra pensar por conta própria.
Então, qual é a polêmica da palavra criação? É que ela é muito próxima do teísmo. Então como é que Deleuze evita e ao mesmo tempo fica com a palavra criação? Como é que evita o ente superior, evita o transcendente, e fica com a palavra criação? Como ele consegue? É muito simples: trata-se, para ele, e a pergunta é essa: como recomeçar o novo? Está criado, o começo foi dado, como recomeçar?
Você não pergunta da onde veio, porque isso é problema da ciência. “De onde veio esse universo?” – a ciência que fique procurando! Agora eu não preciso me antecipar em encontrá-la na explosão originária um…. O que? Não! Alguns até negam a explosão pra poder ficar com Deus sem qualquer contaminação. “Deus é ato puro” – está certo, então vamos lá. Deus é ato puro em Aristóteles. Porque se você pega o par potência e ato em Aristóteles, você fica com o seguinte: a potência ainda tem algo de negativo, e Deus não pode ter.
Se ele é um ente supremo, primeiro motor de tudo, ele é ato puro, está sempre movendo o universo. Aí o Deleuze chama um grande filósofo do século XVII de “anarquista napolitano”: Spinoza. Spinoza não é napolitano, antes fosse, pois aí teríamos um filósofo na Itália. O que é essa brincadeira? Spinoza fala assim: está certo, vamos aceitar essa dificuldade. Ato puro, não é? Tá bom. Mas está aqui embaixo o ato puro, é da natureza inteira. O ato puro é da natureza inteira. Não preciso botar o ato puro fora do campo de imanência de todas as relações com tudo isso que tem no universo inteiro.
Então o Spinoza cria o primeiro grande materialismo, moderno, não o grego e romano. Não de Lucrécio em Roma, ou de Epicuro e Demócrito, etc. Ele cria este universo, usando a palavra Deus. Deus é natureza.
E o que Deleuze quer? Você habita uma ilha, o que você faz? Mas uma ilha pressupõe um mar, pressupõe o resto. Ela está por aí. A única coisa que você pode fazer é recomeçar o novo. O novo não está feito de uma vez por todas nem pela natureza. Ela está toda hora recomeçando o novo. Cabe a ciência recomeçar o novo. Cabe as artes recomeçar o novo. E a filosofia também, precisa recomeçar o novo, a cada instante. Você pega um autor que te toma, tome aquilo como um estímulo para recomeçar o novo no pensamento conceitual, no caso da filosofia. No caso da pesquisa científica você encontra um tal de fenômeno e você vai estudar – isso é recomeçar o novo. Você vai depois conectar isso, transformar isso. Então a pergunta que toma Deleuze é essa: como recomeçar o novo? Porque já houve um começo, a natureza está começando toda hora. Você chega nela e fala assim: eu quero recomeçar com você! Você usa a força da gravidade pra fazer um moinho funcionar no seu terreno. Isso é recomeçar o novo. Ela já tá correndo por força da gravidade, sim, mas se eu não recomeço, eu não toco meu moinho!
É a mesma coisa em filosofia. Se eu não recomeço a linguagem, fica essa monotonia, repetição de um filósofo tido como o único no mundo. Em Deleuze não há morte da filosofia, ao contrário desse cortejo fúnebre que acompanha Heidegger: “- Morreu a filosofia” – morreu o catzo (risos)! Você precisa é definir a atividade do filósofo. Ele é criador de conceitos. Ele não. Sozinho, não. Porque precisa recomeçar. Então ele vai a Spinoza e recomeça. Vai a Nietzsche, e recomeça. Ou seja, ele tornou infinita a tarefa de recomeçar. Foi um achado maravilhoso! E é isso que os alunos têm que fazer: dada uma aula, recomece. Não fique com a aula. É o único recado deleuziano: não repitam o que eu disse; recomecem. Lá em outro lugar, aonde for.
O grande problema de ter sido aluno de Deleuze – eu não fui – era repeti-lo em demasia. Precisa pensar com ele. Ou com qualquer filósofo. Pro meu gosto, eu privilegio esta pergunta: como recomeçar o novo? O que me leva e me força a recomeçar o novo? Essa é a questão, porque eu posso não ter vontade pra fazer isso. O que me leva a isso? Os artistas sabem responder mais rápido do que nós. Eles fazem isso todo dia, porque eles não podem repetir, eles sabem que a coisa tá aí.
E o máximo de engano que pode ocorrer e assim mesmo é um bom engano, pro meu gosto, é que há um “novidadismo”, digamos, essa coisa pela novidade. Não tem importância. Porque de repente, nesse jogo da novidade, o novo aparece. Deixa fazer. Por exemplo: “- Estou mudando o botão, agora não ponho assim, ponho lá debaixo”, “- Ah, mas aí não vai nem dar pra por a blusa”. Mas tudo bem, você fez! É uma iniciativa no campo do recomeçar. Pelo menos isso. É preciso criar. Destruir a monotonia.
Em segundo lugar, já foi aquela idéia de ressonância. Em terceiro lugar, eu queria que vocês ficassem com a pergunta: como recomeçar o novo? Na ementa, eu disse que Deleuze tenta recomeçar o novo em algumas coisas – no campo da ética, por exemplo, que é o tema. Ele tenta recomeçar o novo na companhia daqueles que ele cria uma espécie de estranha identidade entre Nietzsche – século XIX – e Spinoza – século XVII. Por que ele pode falar em identidade? Porque ele pinça o que ele bem entende, independentemente das diferenças empíricas que separa os textos de Spinoza dos textos do Nietzsche. Ele cria uma tensão entre os dois e se alia aos dois, e apresenta um esboço de ética junto com os dois. Então, nós temos um triângulo, nada edipiano, entre Deleuze, Spinoza e Nietzsche.
E deixa Marilena dizer que Spinoza não é bem aquele, não tem importância. E não é mesmo, é ótimo que não seja: é mais um Spinoza. Spinoza agradece Deleuze. Bom, e dá pra provar que há razões pra isso, mas não é o caso. Eu vou só dar dois exemplos a respeito dessa – Suely (Rolnik) tem mania de falar em convocar, os espíritas falariam invocação, de invocar – sem desrespeito. Convocar parece algo militar. Invocar parece algo mais respeitoso, apesar de certas técnicas, a técnica da mesa. Uma vez nós estávamos invocando isso, e alguém mexeu na mesa. Aí deu aquele arrepio de conexão, mas é uma emoção interessantíssima (risos).
Então, tem uma palavra – sem pedantismo, não vamos fazer a declinação alemã da palavra, vamos usar tal como Deleuze a usa -, “vontade de potência”, em Nietzsche. Como é que fica essa palavra na épica? Vontade de potência. Não vou criticar certos amigos, mas os inimigos já sabem (risos). Pra Deleuze, vontade de potência corresponde ao que? O machismo sabe o que é vontade de potência sobre outros aspectos. Mas tira lá essa vontade de potência, porque toda vez que você aciona sua vontade e compra um produto que aumente sua potência sexual, o Nietzsche chegaria pra você e diria: “Companheiro, boa sorte, mas a questão não é essa sua vontade de comprar o Viagra.” Tudo bem você ter a sua vontade pessoal, psicológica, etc. de comprar o Viagra e levar a sua performance a pináculos jamais conhecidos (risos). Agora, o meu conceito – porque tem uns nietzschianos que acham que Nietzsche faz folclore com Dionísio e Apolo e fica só no folclore. Não! Tem conceito, não é idiota. Se alguém o chamou de filosofo é porque não é idiota. Que conceito de vontade de potencia? Essa vontade psicológica minha de melhorar minha performance pra não ser abandonado, seja lá para o que for, essa vontade legitima não é bem assim – diz Nietzsche – Você precisa perguntar o que em você está tendo essa vontade. O que, em mim, está me levando a ter essa vontade empírica agora? O que em mim quer, o que na minha vontade está querendo? É essa questão. Você já foi pra outro lugar. Com essa pergunta você é lançado para um lugar em que a psicologia imediata – não estou falando mal da psicologia -, em que a consciência imediata da sua vontade não funciona. O filósofo tem o direito de perturbar a nossa consciência, esse filho da puta. Estava tranqüilo, lembra de um quadro cômico? O sujeito estava tranqüilo, lendo alguma coisa, na praça antiga. Conversa com alguém que diz “olha esse livro, que acontece aquilo”, e o desgraçado te conta tudo!
Quando eu sei o que em mim quer, você tá com vontade de tomar esse vinho. Então, estou com vontade de tomar esse vinho. Então pergunto: o que em mim está querendo tomar esse vinho? A médica diz: “olha, você está viciado”. Já está atribuindo algum vício a minha vontade. Pode não este esse vício, pode não ser vicio, pode ser isso, pode ser aquilo. Não começa a reduzir também, mas o que eu estou procurando com a minha vontade imediata da minha consciência? Ou estou procurando algo oculto?
Não sei, conceito é o que interessa aqui, aí você vai fazer a sua ciência e é outro caso. Mas, vontade de potencia é uma disparação intensiva que não depende da sua consciência. Ela faz sua consciência, ela joga sua consciência. Disparação intensiva. Não é condicionamento social. Não é porque o Serra vai acabar com os fumantes que vocês não vão mais ter vontade de fumar. Não, não é isso. De repente, não quero mais fumar, a saúde gritou. Pode ser a saúde gritando mesmo assim. Um pânico da morte – pode ser. Mas são essas forças, essa agitação intensiva que força sua consciência, cria essa vontade empírica imediata da qual você tem consciência aqui agora.
Então, o que o Deleuze faz? Pega essa vontade de potência e como é que eu empurro a vontade de potencia pra idéia de ética, que é o nosso tema? – você vê que aos poucos a gente vai se esquecendo do tema, não é (risos)? Vamos fazer um trato, pra eu me sentir livre e vocês também, pode alguém recolher os emails que queiram o material inteiro garantido, bonitinho? O tema tratado, já tá hospitalizado direitinho. Lembra o Daniel? “- Está tudo escrito, compre o meu livro!”. Não, não precisa comprar. É email mesmo, vai direto. Então, quem quiser o tema, encaminhado direitinho, põe o e-mail que eu mando todo o material, até mais porque não daria para falar tudo que está aqui.
Mas deixa acelerar: essa vontade de potencia definida, caracterizada desse modo, não é uma definição nominal que basta. É uma disparação intensiva da qual depende a minha vontade consciente. Por que isso? Isso pressupõe a troca de modelo de filosofia. Eu não penso mais só a partir do que meu espírito domina, porque o que ele domina já foi disparado, já foi começado, já foi depositado, está na biblioteca. Eu sou obrigado a pensar a partir do contato com aquilo que não mereceu cuidado na historia da filosofia inteira. Nietzsche e Spinoza sabem disso. O que é, qual é o modelo dos dois? O que dispara afinal?
Vamos admitir que um espírito, espírita, de verdade, venha e passe aqui e me dispare. Aceita? Aceita, porque ele será intensidade. Mas o lugar que a gente conhece normalmente da intensidade, os choques intensos, é o corpo. Então, a troca de modelo foi essa: “tchau consciência!” Porque você é pequena. É pequena perante a quem? A consciência é pequena perante as forças que capturam e cruzam o corpo.
Spinoza então deu o grito, porque havia uma pretensão cartesiana de dizer: penso, logo existo. Você tá pondo o corpo ali! Eu domino as paixões através da razão – você não domina porra nenhuma! Você não sabe o que pode um corpo. A cada olimpíada você vê que não sabe o que pode um corpo! Spinoza falou “olha a olimpíada da China pra você ver!”. Esse modelo, que é o corpo, olha que estranho modelo, porque antigamente você pegava como modelo aquilo que era claro e distinto. Não, o modelo é aquilo que diz pra consciência – você é incompetente. Você só me pega uma pequena porcentagem.
E outra: o próprio pensamento, que é o que eu quero, ele precisa fazer muito esforço pra pesquisar o que um corpo pode. Então, a vontade de potencia tem a ver com intensidades cuja casa principal, cuja bagunça principal ocorre no corpo. É isso. Os encontros intensivos! Imagine os encontros intensivos sem corpo! Imagine vocês todos aqui sem corpo. Mas que encontro seria esse? Cada cadeira me olhando, eu olhando as cadeiras – por isso que eu gosto da Cecília, porque é capaz dela estar vendo o que eu não estou vendo. Um poder do corpo dela, ainda um poder do corpo ver coisas que os outros não estão vendo.
Então, mas como eu transformo ou ligo a idéia de vontade de potencia nietzschiana, através de Deleuze, com uma idéia ética? Como faço isso? Primeiro, desloca a tradução de vontade de potência por vontade de poder que é a tradução que os estudiosos de Nietzsche, em alemão, querem que a gente faça. Vontade de potência e vontade de poder ficariam a mesma coisa? Não, Deleuze não gosta disso. Vontade de poder é meu jogo de poder, eu consciente. Você não vai chegar pro Lula e perguntar se ele tem vontade de potencia ou vontade de poder. Ele vai responder vontade de poder. Serra? Também! Dilma, querida, você também? Aanh (risos), já votei nela! É mulher… vocês conhecem uma musiquinha? “Mulher é mais generosa”, nunca ouviram essa musiquinha? Ah, vou ter que mandar por email também (risos).
Então, em vez de vontade de poder, que é a mesma coisa – eu quero Viagra pra isso e pra aquilo -, eu quero poder. Quem em mim está querendo poder? É uma intensidade que pode ser a da filha da puta do Hitler. Intensidade está por toda a parte. Preciso perguntar quem é em mim quer poder? Tem um vereador, ele quer poder para de dentro do poder, criticar o poder. Já é uma potência diferente. É uma vontade de poder, correspondendo a uma vontade de potência agitadora, ou anarquista, qualquer palavra. Interessante, já mudou um pouco. O que é então essa vontade de potência, precisamente, do ponto de vista ético? Ao que corresponde? A um esforço, por desprender a forma superior de tudo que é.
Em Deleuze é isso: a vontade de potência pode trabalhar em você pra você tentar extrair de tudo que é a forma superior. Aí você pergunta: o que é a forma superior? A palavra superior é de uma sacanagem… superior, sobe? Não. Em Deleuze não! Ela fica na imanência. A forma superior de tudo que é, é a forma da intensidade. Você não quer verdadeiramente quando você não está tomado pela intensidade. Isso é impressionante. Platão dizia: “você só faz ciência quando você é tomado pela admiração de um fenômeno que te assusta”. Aí, você começa o trajeto do espírito cientifico. A forma superior de tudo que é, uma vibração. O corpo dá sinais da vibração, o espírito é encarregado disso no mundo das idéias, no mundo das criações.
Esse espírito – sabe-se lá o que é isso. Pra estudar, é o espírito, porque tem palavra. Como é que o corpo é capaz de ser espírito? É uma merda, o intensivo é uma palavra ambígua porque ela tira da carne seu grau de coisa podre na eminência da podridão, e bota numa vida que você não sabe bem o porquê. Eu vou dedicar a minha vida, ficar aleijado, ficar sofrendo, tuberculoso e estudar. Você é capaz de desprezar sua própria dor e fazer dela um instrumento de seu trabalho, como fazia Nietzsche. Como se consegue fazer isso? São casos excepcionais? É isso mesmo, nós vivemos desses casos. Isso é ética, ética na imanência, não é moral que procura filiar-se a dispositivos do dever. O dever é uma coisa consciente. Tem que funcionar, sim, como é meu dever não fumar aqui. Eu posso cumprir isso tranqüilo.
Sócrates dizia: eu cumpro a lei, embora dentro de mim eu não a respeite. Não respeitar a lei e cumpri-la. Pronto. Pega todos os mandamentos, não tem problema, isso é um jogo na consciência aqui, de convivência. Agora, além disso, é preciso criar uma ética. A moral te conecta com deveres, a ética te conecta com modos de vida, maneiras de estar – você está estudando, é pra radicalizar, é isso? É a moral de Nietzsche, e então entra agora a ética dele: o que você quiser, queira até a enésima potencia, custe o que custar, pra sua vida. Aí você está sendo ético. Claro, você pode ir pra pior ou pra melhor. Veja bem, não se trata de colocar a moral fora. A sua coexistência com as pessoas precisa das rédeas do direito e até de mandamentos, que o Spinoza muito atrevidamente transforma em receituário pra saúde.
Agora, a forma superior de tudo o que era a vontade de potência, a intensidade, é a forma superior de tudo que é, como é que fica do ponto de vista das nossas relações? Aqui, na imanência, eticamente falando, não moralmente falando. Zaratustra encontra o verdadeiro nome, a forma intensa no nosso convívio, na conviviabilidade humana. O que é que eu posso fazer para chegar perto desta forma superior da vontade de potência? Entregar-me a uma virtude que doa, a uma virtude que dá a essa forma superior, a virtude da doação nos encontros.
Compreender que os argumentos do outro são perfeitamente assimiláveis ou não assimiláveis, mas pode entrar em você e você ver de outro jeito – por que não? Lembra do filme do Woody Allen? Fica gordo perto de um gordo, magro dentro de um magro. Não tem importância, isso é ótimo. Essa doação é uma virtude. Zaratustra, porque eu quero tirar do chão de certos nietzschianos o jogo do eu – narcisista. A forma superior de tudo que é não é “viva eu!”. Eu não sou o faraó do grupo, eu sou colaborador do grupo. Tem que doar e não “viva eu!”. Muito nietzschiano confundiu Nietzsche com afirmação idiota de um eu que é mera consciência de si.
E na ética de Spinoza, o que eu tiro? O que Deleuze tira? Ele tira muita coisa! Vocês têm grandes livros, artigos, textos… Deleuze nunca abandonou o habitat spinozano dele. É um amor declarado, é um afeto, Deleuze diz que Spinoza é o cristo dos filósofos. É a criança fazendo filosofia, Deleuze é uma criança fazendo filosofia, ele recebe, ele se dá a Spinoza. Com o que ele nos brinda? Com vários pontos, mas o que importa é que você tem o jogo entre as pessoas, o jogo entre as coisas, o jogo que cada um de nós, cada indivíduo faz com o outro.
Por exemplo: você chega perto de uma vaca, e você de vez em quando não pratica aquela virtude que doa. Você dá comida, e de repente, meio escondido, mata a vaca e come a vaca. Claro, é tranqüilo isso, porque nós todos vivemos essa dimensão em que um tem que comer o outro. Se você não come a vaca, você vai comer a alface. É mais manso (risos). Vegetariano não escapa, porque é um jogo tal que você precisa insistir em seu próprio ser. É o conatos, ou seja, você vive e a vida mesmo que possa, insista em viver. Viver empírico mesmo. Tem que comer. Tem que beber. Aí, no convívio humano, geral, etc. eu rondo partes do mundo e ponho sob as minhas relações constitutivas. Eu como a carne, como o feijão, absorvo mundos, infinitos mundos. Se fosse contabilizar o que cada um de nós comeu.
E sou isso. De repente eu sou prendido também, seja por tarefa pelos outros – o Jean Carlos Augusto tem me dado trabalho também. Tudo isso é um jogo de combinações de relações constitutivas. Um pega um pedaço do outro, outro pega um pedacinho… Isso existe e então harmonizar isso é um problemão, porque cada um quer, por obrigação de insistir em sua própria existência, cada um é condenado a capturar partes do mundo pra viver, então é taxativo isso. Isso ocorre também nas idéias, você ensina pra criança a linguagem, ela está comendo a linguagem, absorvendo idéias. Então você vive também esse mundo, espírito é também comilão de sabedorias disso e de tudo o que for, sem o que não há progresso científico, etc. esse é o universo em que vivemos, um universo em que o corpo é esse conjunto; ele é formado, tem uma dimensão, que é de conjuntos infinitos, compostos de partes ao infinito, em que cada corpo combina-se dificilmente um com os outros. Esse é um mundo em que você recebe cargas perigosas pra sua própria existência. É um realismo absoluto o Spinoza, ele sabe que há um perigo permanente e é esse o problema: como eu posso ainda acreditar que seja possível estabelecer uma coexistência intensiva pra melhor, e não pra pior – porque também é intensivo comer o outro. Não tem facilidade. Como é possível?
Esse é um problema. Qual é o outro problema? Esse é o problema objetivo, lá do digamos, objetivo da problemática ética: nós temos que nos encontrar sem que você- Roseli (aponta para uma mulher) – pague todos os encontros daquelas mulheres daquelas quartas-feiras. Senão, você vai ser comida, seu dinheiro vai ser comido. Então é preciso haver um encontro, o qual precisa dividir os gastos. Todos esses cuidados são do mundo objetivo. Mas aí o Spinoza coloca outra questão: nós não somos feitos apenas de partes infinitas armadas por relações que combinam essas partes.
Eu vou dar um exemplo pra vocês pra deixar bem claro esse jogo entre o meu encontro com o outro como sendo um encontro que dá certo quando as partes constitutivas de um corpo combinam bem com as partes constitutivas de outro corpo. Quando, qual é o grande exemplo de Spinoza, e as aulas de Deleuze proliferam esse exemplo? É o aprendizado da natação. Você tem um corpo, que são as ondas, o mar todo. Isso porque o mar é sempre um problema da filosofia porque o mar revolto é o retorno: “oh, tu João que me perguntaste sobre o modo como há de portar o saber – Tomás de Aquino – dou-te a seguinte sugestão: primeiro é o mistério que te aventures ao grande mar..” – sim, aí o Leibniz pega também o grande mar, e todo mundo pega o grande mar, daí eu vou nadar e… (risos). Grande mar é sempre, você encontra grande mar numa pessoa, num grão de areia, até a religião sabe disso.
O grande mar, eu vou aprender a nadar, o que é esse aprendizado? Eu não posso impor ao grande mar os ímpetos dos meus braços e pernas, que aí eu afundo. Eu tenho que combinar minhas forças, meus gestos, com os gestos e movimentos das ondas. Essa é a idéia que eles têm de combinação. Eu preciso, além disso, dessas combinações de comer e beber e essas combinações dando certo e tal, eu preciso cuidar de uma coisa que varia em mim, que é um jogo intensivo que toda vez que passa, que toda vez que o cachorro do vizinho late, me dá uma tristeza. Não me deixa estudar. O que aconteceu? A essência singular que me constitui – olha a palavra spinozana – perdeu a potência. Porque nós, para Spinoza, antes de Nietzsche, somos graus de potência da natureza infinita. E cada grau tem uma variação, aumenta ou diminui essa potência. Quando aumenta a alegria vem, quando diminui, é a tristeza. São os dois grandes pólos das paixões: a tristeza, que me leva a perder potencia, é sinal de que estou perdendo a potência; e a alegria que é sinal que está elevando meu grau de potência. Potência é intensidade para baixo e pra cima, e o cachorro do vizinho late e eu pinto o vizinho como aquele que deve ser morto (risos). Aliás, o cachorro.
Bom, essa variação intensiva da essência singular que me constitui, essa pura intensidade, é isso que Deleuze chama de retomar o começo, recomeçar o novo. É ir lá. Então, a última parte seria a seguinte: existiria por aí, entre os corpos visíveis, palpáveis, visível etc. que pudesse ilustrar esse lugar privilegiado do recomeço do novo? É uma pergunta. Faz de conta que já é o debate (risos). Jean Carlos, vamos fazer como se fosse um debate, eu fiz uma pergunta, o pessoal responde, inverteu (risos).
Bom, existe um negócio que pudesse ilustrar – isso é contra Deleuze, que diz do pensamento sem imagem –mas eu pergunto: existiria algo que pudesse ilustrar?, que mostrasse “tá aqui, aí pulsa o recomeço do novo”. Que objeto teria esse poder ilustrativo? Que objeto? Uma caixa? Oh, uma caixa guardando coisa (pega novamente a caixa). Tem um cara que enfiou esse objeto na cabeça de Deleuze e ele nunca conseguiu evitar. Esse objeto, a referência a este objeto. Então eu espero que você dê… alguém me ajudaria? Olha (Orlandi tira um livro da caixa), “mas não me roube esse livro que eu ganhei do Aragon” Faz esse favor (entrega o livro pra uma mulher)? “Leva pra ele, o cientista ligado, mas deixa nessa posição e ele vira lá.”
Esse (autor do livro) é o cientista que enfiou esse objeto que eu estou perguntando pra vocês, enfiou esse objeto na cabeça de Deleuze, e esse objeto ilustra precisamente, como se você visse: é aí que eu devo ir pra recomeçar o novo. E todas as coisas eu tenho que botar algo ou encontrar essa coisa ali que fica pulsando – é o germe naquela obra, e aí eu capturo e recomeço na minha linguagem, porque eu não posso fazer a arte dele, eu tenho que fazer filosofia, e o artista olha o filósofo e faz a arte dele. Não é que um vá copiar o outro, é que um reencontra no outro a pulsação germinal. Que objeto seria esse, ilustrativo? Mas que depois vira, no discurso deleuziano, e essas páginas todas aqui mostram – ele vira, ele é como a filosofia, ele é como corpo sem órgãos, ele é como o mundo, o cosmo, ele é o cósmico.
Virou já o livro (pergunta para uma pessoa)? Vira, por favor, olha quem é! É o Dalc, grande pesquisador desse objeto, e qual é esse objeto? É o ovo! Aí eu me senti uma galinha (risos). Puxa, se eu carregasse isso em mim, heim. Se eu carregasse em mim, aí eu peguei a galinha pelo pescoço – você vai ter que vir aqui e mostrar do que você é capaz (tira um enfeite de galinha pelo pescoço), olha que beleza! Cuidado, cuidado… (vira de ponta cabeça e cai um ovo de dentro dela) . Pronto! Quem quer comer? Tá aqui, inteirinho. Eu destruí um pouco a germinação, eu vou comê-lo logo depois com vocês, se quiserem. Mas então, é o ovo, é esse o segredo da conferência. O ovo é a essência singular. Ele é? Não, ele tem. Ele tem o grande objeto, é esse. Então, tá cheio, na obra de Deleuze inteira, é um galinheiro, é a filosofia das granjas.
Preciso construir uma granja, passaria a comer ovo todo dia que estivesse estudando porque filosofia e ovo, o ovo cósmico do mito dogon– quem conhece? Está aí: o ovo! Tem um desenho aqui, olha, Mil Platôs está cheio de ovo. O corpo sem órgãos… o que Deleuze está fazendo então, uma metáfora? Não, Deleuze está vendo no ovo, tal como Dalc, esse grande pesquisador que defende da equipe americana e outros. Esse livro é de 41, Deleuze tinha 16 anos quando caiu o livro na mão dele e o ovo entrou na cabeça dele. Nunca mais ele abandonou o ovo, das obras todas. Década de 50 até a década de 90, desculpe o trabalho que estou dando. Bom, daí o que você encontra como essência singular? Eu volto a palavrinha, porque eu quero que vocês fiquem com ela em tempo integral, não dêem o conceito dela, tá ali, não dêem o conceito.
Eu agradeço então, mas vamos para a conversa porque o que é realmente então diferença intensiva? Essa que habita o ovo em qualquer lugar germinal, em qualquer passagem intensiva, o que é isso? Bom, vocês estão livres, tinha inclusive uma caneta para anotar perguntas.

(Organizador) – Bom, depois dessa introdução singular e prazerosa que tivemos agora com Orlandi, abrimos o debate com o público.

(Orlandi) – Não me faça pergunta difícil!

(Pergunta 1) – Boa noite, professor, eu gostaria que o senhor falasse um pouco da relação que a filosofia do Spinoza e do Nietzsche, transformada na ética que o Deleuze vai trabalhar, como é que a gente pode pensar a partir dessa perspectiva a morte, e aí o senhor instigou um pouco a própria morte do Deleuze.

(Orlandi) – Perfeito. Seguinte, o culto a morte é o inimigo número um da ética dos três. O culto a morte. Então, o que você tem pela frente é o seguinte: ela é inevitável? Sim. Você não pode antecipá-la sem necessidade. A morte não cultuada, é aquela que você deixa de lado mesmo com dor, transformar a dor em motivo de trabalho. Lembra da conferencia do Daniel, em que, até certo ponto, a morte vem chegando. Qual o antídoto? O antídoto é recomeçar o novo. Você não pode recomeçar o novo e continuar bebendo. O antídoto é trabalho, é a retomada, é o recomeçar o novo. Então não há morte para eles, do ponto de vista da expectativa da má consciência, afinal eu sou finito e tal. Não, filosofia da finitude não funciona na cabeça deles, principalmente Spinoza e Deleuze, porque Deleuze restaura o infinito em filosofia. Não é pra mim o infinito, não é pra nós, o infinito, a infinidade, tudo isso entra e cria inclusive dificuldades nas análises psicanalíticas, porque como ele restaura o infinito, toda vez que você encontra um esquizofrênico, você não tem paradeiro com a analítica. Você não consegue configurar um estado que explique o estado em que ele se encontra, você faz sempre conexões.
Então, é como se fosse o seguinte: é preciso rir da morte e essa peça nesse sentido, funcionou. Tem um cortejo fúnebre, numa das peças, e o pessoal começa a circular pelo palco como que carregando defunto e chorando, e chorando, e o choro vai gradativamente mudando e vai caindo numa gargalhada. É preciso rir da morte, isso do ponto de vista da sensibilidade. Do ponto de vista político, você precisa administrar o seu direito sobre a sua morte. Isso é terrível. Não há o porquê ser proibido o suicídio. Não há. Pode ser discutido, mas proibido é um abuso. Esse corpo é meu, é a única coisa que me resta e é a ultima coisa que posso fazer com ele, ao entender que ele não está mais me ajudando em nada. Se eu puder falar isso, se eu não puder falar é um problema, porque aí você vai ter que deixar por escrito e ter um amigo que te leve ao fim dos tempos.
Por que isso? Porque em nenhum dos três você encontra como principal o tempo cronológico. Não é o tempo cronológico que conta e sim os grandes entretempos que eu vivi. Pequenos ou grandes. Eu digo grandes no sentido intensivos. Pode ser uma pesca num lago, pode ser um traçado que você conseguiu fazer, um poeminha rápido, ou quando você passou e viu uma beleza passar. É ótimo, basta. É uma coleção, quanto mais – esse é ponto de vista ético- quanto mais entretempos você tiver, mais ética e mais forte foi sua essência singular, mais interessante. É nesse sentido, porque senão nós vamos enveredar numa analítica sem fim. Eu tenho que puxar sempre as perguntas, minhas respostas, que é pra vocês criarem uma dicotomia na cabeça, dicotomia meramente nominal porque o intensivo e o extensivo, não que sejam ontologicamente separados, não é isso, mas os encontros intensivos passando, enrolando, serpenteando os encontros extensivos como entretempos que tornam suportável o fato de existir. Senão, você é o cronômetro da burocracia, é a pulsação cronometrada e não a intensidade que faz viver.
Não se trata de um desprezo a quem é condenado a trabalhar e a viver apenas na extensão das obrigações. Um pobre diabo? Sim. Fodido da vida, uma merda. Mas ele também só vai se salvar, pra Spinoza, no céu da natureza inteira, se ele tiver entretempos. Como a arte é muito competente para explorar os entretempos, tem razão o pessoal que cria esses intervalos, digamos estéticos, aqui. Todo lugar você precisa do intervalo estético. Porque já que é difícil conviver com os outros, e encontrar nos encontros com os outros os entretempos, então que pelo menos a arte nos salve, nos crie esses entretempos. Então, a arte, ela é morticida. Ela mata a morte. E o dramático pra Deleuze, Guatari, Spinoza, Nietzsche, é você ver filósofos matando a vida, filósofos não, professores de filosofia matando a vida. Pô, eu tive professor que dispensava o conceito de vida. Aí eu peguei a língua dele e mandei ele enfiar naquele lugar. Aí ele encontraria a vida da merda no olho do cú dele (risos). Perdão.

(Pergunta 2) – Não chega a ser uma pergunta, mas eu fui tomada por uma intensidade. O meu pai, quando ele descobriu que estava realmente com câncer e a quimioterapia não estava ajudando, ele quis parar de fazer. E aí foi todo mundo contra, as tias, os médicos, e ele fez uma declaração: eu prefiro morrer vivendo do que viver morrendo.

(Orlandi) – Beleza, beleza. Eu vou anotar isso! Depois você me diz o nome direitinho dele. Lógico, não tem lógica nisso. Aliás, esqueci de falar, foi bom você ter falado. E essa obsessão pelo ovo – preciso fazer a conexão inevitavelmente, senão fica parecendo que Deleuze é o único galinha (risos). Essa galinha é engraçada, virou com o rabo virado pra cá (tira ela da caixa). Ela é bonitinha, vamos deixar aí (coloca em cima da caixa, a mostra). Olha, vida, por que? Tá anotado isso, os estóicos, essa é uma informação de um herói da história da filosofia, enfim. Herói, porque Diógenes Laércio, século III D.C., ele recolheu informações, fragmentos, pedaços, sentenças, dos filósofos da antiguidade. Entre esses filósofos, estavam os estóicos, que é outra das grandes paixões do Deleuze. Isso é importantíssimo pra idéia da morte. Os estóicos têm uma idéia do encontro dos corpos e outra coisa. Tem o encontro dos corpos e o que eles chamavam de os incorporais, que são acontecimentos que não se reduzem ao estado de coisas. De repente, você tem uma alegria que você explica pelo estado de coisas. Por exemplo, quando Proust mastiga a madeleine e tem uma alegria intensa, falava “porra, mas de onde é que vem essa alegria? Não pode ter vindo desse açúcar”. E aí faz toda aquela restauração do seu bloco de infância e retoma aquela virtualidade que passou por ele lá no passado. Então os encontros, que trouxe todo mundo, que não era nem o verdadeiro, mas que pulsava nele como aquilo que passa. São devires, blocos de infância que tomam a gente e fala “não vivi isso direito, não é bem isso que vivi”.
Então aí, o que os estóicos faziam? Isso é um acontecimento, é essa coisa que fica, que ocorre em você, não tem como explicar. Por exemplo, no caso deles, os estóicos, são filosofias, sistemas filosóficos menores que ocorrem no mundo grego assim que Macedônia vira o Grande Império. A Cidade-Estado acabando, e não tem mais lugar pro cidadão. Acabou. O seu mundo acabou, e isso é um acontecimento fortíssimo. E o que nós podemos fazer então? Bin Laden não tinha na época, revolta simples não tinha. Então você tem que aprender a acolher o acontecimento. Falo isso na subjetividade. A experiência de uma morte que os caras transferem para depois sem que a vida seja garantida, a vida de fato, a vida intensa de quem fala: isso não é viver! Então esse homem acolhe um acontecimento. Deleuze acolheu o acontecimento. Pode tomar iniciativa, pediu certamente para que a família, os dois filhos saíssem do apartamento, telefonou para o amigo e disse que já não agüentava mais, falou já sem voz. A última frase deu pro Pierre e cai certamente tomando cuidado para não cair em cima de uma criança que aí seria uma catástrofe, seria um horror pra filosofia dele (risos). Então, juntando as duas coisas, essa e coroando esse assunto, esse acolher o acontecimento, e o último acontecimento. Eu quero ser dono desse último acontecimento, acolher isso, veja só, coincidência: os estóicos tinham uma obsessão por um ovo. Na ética deles, eles distribuem a lógica casca. A lógica é a casca. Eles ensinavam os discípulos falando “olha, a lógica é a casca”. A física é o mais profundo da natureza, é a gema. E a clara é a ética pra eles. A ética é intensiva. Não é imoral, é amoral.Porque a clara é a ética pra eles. Por quê? Porque ela impregna as outras duas quando você quebra o ovo. Impregna tanto a física quanto a lógica, a linguagem. Isso daí é uma experiência limite.

(Pergunta 3) – Boa noite, professor. Sobre a frase “a literatura é uma saúde”.

(Orlandi) – Essa frase, você pegou aonde?

(Pergunta 3) – No Mil Platôs.

(Orlandi) – Você é leitor do Mil Platôs (risos). Você vê que engraçado? Você é leitor de Mil Platôs, é isso?

(Pergunta 3) – Eu sou um eventual leitor…

(Orlandi) – Você está escapando, porque uma vez eu perguntei um negócio pro Lapoujade, que é um grande estudioso do Deleuze, aliás, o herdeiro mental da biblioteca do Deleuze. O que me dá inveja, porque eu queria olhar os livros do Deleuze e ver aonde ele rabiscou, porque através dos rabiscos você encontra o germe, não é? Então, eu fiz uma vez uma pergunta a ele e ele falou “mas você já sabe! Por que eu vou ter que te responder se você já sabe?”. Por isso perguntei se você é leitor. Mas eu não sou estúpido que nem o Lapoujade (risos). Então, porque veja, a saúde… ah, sim, complemente por favor.

(Pergunta 3) – É uma proposição que..

(Orlandi interrompe) – uma frase.

(Pergunta 3) – É uma frase, não disse que promove a saúde, nem que…

(Orlandi interrompe) – É uma saúde, lapidar. Você encontrou o artigo definido “a” ou indefinido “uma”. Faz de conta que você é meu aluno, tem idade pra ser meu aluno? Você tem idade para ser meu aluno? Tem! Eu tenho idade pra ser seu professor. Você leu “a” ou “uma” saúde?

(Pergunta 3) – Uma.

(Orlandi)– Uma! Claro, é uma saúde. Por que é uma saúde? É outra coisa importante pra caramba. Você já leu bem essa relação entre “a” e “uma” em Deleuze? Você precisa ler isso, professor de literatura. Por quê? Porque a vida, quando digo “sua vida”, “minha vida”, entro numa narrativa que vem desde lembranças infantis e narro, e chego até hoje. É a vida empírica cronometrada, tal como aconteceu. Esse tipo de literatura que faz memorialismo, me desculpe as pessoas que foram iludidas por aquelas revistas ligadas a computador que falam “você aqui pode contar a sua história, com fotografias e tudo”. É lamentável, elas ficam contando e ficam chorando e ficam tristes. Tá vendo, um pedaço do culto a morte é essa tristeza. Aí você não fala nada, porque são pessoas idosas que estão contando as suas histórias. Isso é a vida. E toda a vida é uma tristeza. É muito difícil encontrar “a” vida de alguém que não seja lamentável. Lembranças infantis todo mundo tem, e fica uma coisa horrorosa, uma literatura de confessionário. “ah, meu pai, levantei, passou a mão na minha bunda.” (risos). A Simone de Beavouir, cuidado com os avós no “Memórias de uma Moça bem comportada”, é um escândalo. Primeiro, porque não tem novidade, todo velho é perigoso! Cuidado com os velhos quando tem criança perto, daqui a pouco ele tá lá passando a mão. O vovô é um perigo, o único avô que conheço que não é perigo é o avô da minha filha – assim mesmo, estou sempre de olho nele (risos).
Bom, a vida empírica, o literato que se entregar a isso, já morreu, já tá morto, perdeu isso. Ele tem que transformar alguma coisa. Pega a vida e esmigalha, trabalha até contra ela. Para extrair o que? Conceitualmente, no caso de Deleuze, extrair “uma”, nem que seja um acontecimento, esse vai valer! “Eu vi algo que não está na cronologia das vidas empíricas. Eu vi aquele touro, naquele lugar. Eu vi aquele rapto”. Não aconteceu com você, você vai inventar. Isso é triste para quem não é literário. Por isso que existem só poucos. O que o Guimarães viu e fez? Eu quero viver disso! Mas vem um cara contar a vida dele, não posso ouvir! A vida não é ali, a literatura é… (celular dele começa a tocar).
Então, a literatura é uma saúde, a saúde, uma saúde, é relativa a uma vida. E não a saúde é relativa ao corpo orgânico, a organicidade, ao meu modo de viver. Tudo bem, se me der uma receita para viver bem do ponto de vista alimentar, eu aceito, isso é legitimo, mas não é literatura. Então é um cardápio adequado para você não ficar tão gordo, tão isso, tão aquilo. “A literatura é uma vida”, nessa frase ele está pensando nos grandes encontros dele com aqueles literários que não fizeram das suas vidas empíricas uma narrativa, e sim pegaram suas vidas e fizeram obra. A saída pra vida é a obra. Tá na ementa aí. a saída pra vida é a obra. Mas que vida? Uma. Esse “uma” é a vida em intensidades que não são um contínuo, mas pinga de vez em quando, pulsa de vez em quando e esse estoque de acontecimentos que te faz suportar as pressões da vida empírica. Claro, senão não tem sentido.
Você percebe que é ético porque não está referido a uma remissão ao transcendente. “Olha, quanto mais eu sofrer aqui, mais eu ganho no reino do céu” – fudeu (risos)! Esse é o raciocínio que te leva ainda mais pra baixo. Você não será salvo, é preciso que as pessoas tenham certeza de que não serão salvas, e aí não vou militar contra as religiões. Outro dia eu tive uma experiência dramática, liguei a televisão e apareceu um sujeito gritando, gritando. A câmera virou e tinha uma população, eu fico abismado, uma população de crentes, pessoas humildes, pobres, ouvindo o discurso. Tudo perfeito do ponto de vista da saúde empírica. No discurso, sobreposto, o cara está armado num palanque das igrejas “X’, chega ao finalzinho dá o golpe. Qual o golpe? Enquanto a religião ensina fisiologia, que nem os anarquistas antigamente, que tinham livros bons sobre como alimentar, criar higiene publica, sabe essas coisas? Mas chega ao final do discurso, entre os itens que você precisa acionar para viver bem, é preciso abandonar a referência a conviviabilidade, que ele tinha sustentado num determinado item. Você, em vez de objetos prefira o corpo, saúde. Perfeito.
Em vez de só você, pense nos outros. Agora, em vez de pensar apenas aqui, pense lá. É o reino de Deus que é a garantia máxima. Pá! Deu um golpe. E o golpe, qual é o golpe? O golpe é que tá sendo dado aqui, agora. Pra você ir ao reino do céu, você tem que passar por mim, sou eu que… no fundo é isso. O golpe é aqui, na imanência. Pra você ir, passa pelo sistema religioso. Tudo bem, então, se você quiser ir, mas vá por conta própria (risos). Crie sua religião, e sem vender a ninguém. Dá irritação você ser o escravo – isso é um problema ético importante – o escravo que se auto-escraviza, é o escravo do padre, escravo do tirano. Você não precisa disso. Crie seu caminho pra um deus, e depois é claro que a cova vai te esperar e se você for, melhor, mas volte pra dizer como é que é (risos). É um absurdo não comunicar (risos). Juro, fico irritado.

(Organizador) – Passamos para a última pergunta, e lembramos a todos que o material da palestra do professor Orlandi estará a disposição no nosso site a partir de segunda-feira. Abra nosso site, pra quem não lembra é http://www.cpfl.cultura.com.br.

(Pergunta 4) – (trecho cortado) E uma outra…

(Orlandi) – Olha, ele faz a pergunta: quem veio antes?

(Pergunta 4) – Então, é uma curiosidade, gostaria de saber.

(Orlandi) – Você é espanhola?

(Pergunta 4) – Não, só se for muito dos meus antepassados. Sou baiana mesmo

(Orlandi) – Ah, pronto, então é espanhola também.

(Pergunta 4) – E uma outra pergunta, o que o senhor me diz da frase: nem só de pão vive o homem? Muito obrigada, parabéns.

(Orlandi) – não só de pão vive o homem. Claro! Claro! Bom, mas quem veio antes? O cientista é quem tem que responder. Mas, quando você viu essa galinha, ela sabe que ela não veio antes, porque o mundo da evolução, a pergunta suspende os trajetos, as complicações do mundo das diferenciações biológicas. Essa é a sacanagem da gente, quando faz essa pergunta. Porque ela bota, ela veio antes em relação a esse ovo, esse ovo veio antes em relação ao próximo pintinho, etc. Então, essa sequência mostra que não tem onde colocar pergunta. É um problema, diria Deleuze, mal formulado. E o Bérgson fala: “não entre, Deleuze, nos problemas mal formulados”. Não é mal formulado, é falso problema.
O dramático é esse: você pega a evolução, pega o elemento atual quando a complicação das diferenciações biológicas implica relações entre atualizações e virtualizações e individuações complexas e tudo mais. Então, isso é um assunto pra pesquisa. Teoricamente, é como se eu dissesse: são contemporâneos, Deleuze vai pegar a idéia do ovo e dizer que há contemporaneidade entre o ovo e o resto. Ou seja, eu sou contemporâneo aos ovos que me constituem. Os meus sonhos são ovos. Eu sou contemporâneo ao ovo. Mas em que sentido? As intensidades que constituem tanto os meus sonhos como meus próprios ovos. Então, o intensivo funciona no ovo, sem que – o que é esse intensivo do ovo? São dinamismos temporais, sem que não há, sem que ainda tenha virado braço, cabeça, etc. naqueles movimentos fantásticos que ocorrem na estrutura do ovo. Isso é intensivo ali, o intensivo em mim é outra coisa. Então, a contemporaneidade entre os ovos e a galinha.
Pronto, posso dizer isso. Mas não pode suspender, fazer abstração de um complexo de evoluções quando faz a pergunta. Faz abstração da coexistência do sistema de diferenciações. A idéia de evolução nos dá a ilusão de um inicio no individuo porque você vê pronto hoje, é uma complexidade só. O que pode a vida? Isso a ciência que tem que responder, senão a gente começa a inventar (risos). É uma delicia inventar. Temos que respeitar os limites, eles criam funções: se eu aperto tal coisa, vai acontecer tal outra. O conceito não pode acontecer assim, não é uma função cientifica. E veja, foi o primeiro livro de filosofia que não se meteu a colocar a filosofia acima das outras coisas, seja da arte, seja da ciência. É o livro chamado “O que é a filosofia?”, de Deleuze e Guatari. A mania era submeter um tipo de coisa ao outro. Eu penso filosofia através da ciência, alguns epistemólogos ainda pensam isso, que não é o caso do nosso amigo que fez epistemologia e que trabalha aqui, preciso puxá-lo pro meu lado. E nem a arte é inferior, por que? O que esse livro – alguns alunos meus vão estudar esse livro agora na graduação – pra Deleuze e Guatari existe um esforço da filosofia, das artes e da ciência em relação ao que? Qual é o grande barato dessas três formas de pensar, todas elas são maneiras de pensar, modos de pensar?
Você pensa por força de alguma coisa que te ataca. O que ataca essas três grandes formas do pensamento? É o caos, pra ele. Mas que caos? Não é a mera desordem como antigamente no mundo grego. O caos é um permanente, uma caótica de devires. É o sobe-desce, um aparece-desaparece de determinações. Uma mal aparece e a outra desaparece. Cada uma dessas disciplinas do caos, essas formas de pensar, disciplinas, cada uma delas do seu modo. A ciência faz uma coisa, no limite vai produzir funções que dão uma referencia a porções do caos. A arte vai duplicar o caos através das suas composições estéticas, ela aumenta. E a filosofia pensa por conceitos, segurando uma coisa que é própria do caos: que é infinatização permanente. Filosofia precisa manter a infinitização. Ela não pode se contentar com uma resposta da ciência, que senão ela embarca na ultima pesquisa da ciência, e daqui a pouco já vem outro cientista e diz não ser bem isso.
Ela trabalha em função da possibilidade que o caos lhe dá de infinitizar a criação conceitual. Porque pra cada caso que ela vai encontrar, ela tem que recomeçar a criação do novo. É nesse sentido de recomeçar o novo. Sem o caos, você não cria nada. Ele é o nosso pressuposto. Ele é entre o caos e essas disciplinas, você vai encontrar o ovo. As intensidades que variam pra funções em ciência, as intensidades que variam pra blocos de emoções, e as intensidades que investem na interioridade do conceito. O conceito, ele mesmo, tem um ponto vibrátil, vibra que é a pulsação dele em relação ao problema que precisa pensar.
É isso. Muito obrigado.

estações.guattari

“(…) A história nos dá, às vezes, alguns presentes, mas nunca sentimentos. Ela segue seu curso sem se preocupar com nossas esperanças e decepções. É melhor tomar desde cedo o partido dela e nunca apostar em um retorno obrigatório das suas estações. Pois, na verdade, nada nos garante que aquele inverno não seja seguido de um novo outono ou até mesmo de um outro inverno ainda mais rigoroso!”

Guattari de inverno

“O que há de milagroso nesse novo capitalismo, que encontramos tanto a leste quanto a oeste, é que ele conseguiu que seus valores, seus sistemas de sensibilidade opaca, suas concepções de mundo, completamente rasteiras, fossem interiorizados, assumidos por um máximo de pessoas. Isso propiciou esse ambiente desconfortável que se espalha por toda a parte e essa retomada maciça e repugnante de religiosidade. Feito isso, os mesmos sistemas maquínicos podem ser virados e revirados. É o que acontece quando surge uma linha de fuga criadora, que pode nascer em um nível muito molecular e se transformar em uma bola de neve. Podemos até imaginar grandes recriações do mundo! Mas, enquanto esperamos, é a infantilização que vai tomando imensas proporções. Ela tornou-se o empreendimento número um, a indústria de ponta.”

Confrontações

“Às vezes me vem esta imagem: vejo-me andando sobre uma prancha, acima de um abismo profundo, e digo para mim mesmo: mas o que está acontecendo? O que significa tudo isto? Como é possível que isto continue assim? Quem, dentre nós, nunca se deparou com tais evidências? Mas logo somos devorados, expelidos em dispositivos de comportamento teleguiados, tomados pelas urgências, pelos objetos em jogo, pelo próprio jogo. Como na roleta e no pôquer: mesmo mortos de cansaço, continuamos a nos agarrar com uma vitalidade surpreendente.”

 

F.G.

Ocasos e Travessias: Movimentos de Nietzsche em Deleuze

[versão revisada]

 

Um filete cortante, um fio tênue e potente que atravessa a obra de Gilles Deleuze se inscreve em uma das maneiras pelas quais ele leu Nietzsche. Na sensibilidade contemporânea, este fio diz respeito a muitas de suas configurações, em sobreposição. Essa linha de força é capaz de amarrar ou desamarrar muitos feixes de fenômenos atuais, problematizando quatro movimentos justapostos na alma dos tempos de agora, permitindo pensar coexistências e simultaneidades.

O primeiro movimento é o negativo, uma grande negação que se apresenta como uma desvalorização da vida em nome de valores supremos. Uma desvalorização criada pelo platonismo e reafirmada pelo cristianismo, os quais julgam e desqualificam a vida temporal a partir de um mundo supra-sensível e eterno, considerado como o bom e o verdadeiro. Uma pequena passagem da história da grande negação, um de seus sintomas, pode ser acompanhada na obra A República, de Platão. A leitura que Deleuze faz de Platão, atravessada por vetores de sua leitura de Nietzsche, desdobra-se numa importante análise, exposta em sua obra Lógica do Sentido.

Ao final do livro seis de A República, preocupado com a constituição de um fundamento, encontramos Platão tratando do que ele denominou a doutrina dos dois mundos. Ali, a partir de uma distinção, Platão instaura dois mundos: o mundo sensível e o mundo inteligível. O mundo sensível é o mundo dos corpos, das percepções, da sensibilidade. O mundo inteligível é o mundo dos modelos. Num topos inferior, de um modo menos valorizado, fica distribuído o que pertence ao mundo sensível e, de um modo superior, num espaço privilegiado, fica aquilo que pertence ao mundo inteligível. A constituição de um fundamento, conforme a preocupação de Platão, estabelece essa bipartição.

O mundo sensível é mutante e ziguezagueante, características que impedem Platão de constituir um fundamento estável sobre as coisas nesse nível, até que ele se evade deste mundo inferior e se dedica a construir um fundamento no mundo inteligível. Assim, é no mundo superior que vão aparecer os objetos matemáticos, as essências fixas e os modelos imutáveis. Tudo o que ali é edificado permanece estável e perene; é a fundação do eterno. O mesmo não pode ocorrer no mundo sensível, onde a vida se passa, e que é repleto de variação e estranheza. Para Platão, o que está no mundo sensível e variável pode se submeter aos modelos e essências estáveis que estão de um modo perfeito no mundo inteligível, deixando-se modelar pelos objetos desse mundo exemplar e ideal.

Nesta operação, o que é submetido a um modelo ideal torna-se cópia daquilo que é considerado original. Tudo o que está no mundo sensível e que se submete ao que está no mundo perfeito torna-se cópia. Más ou boas, as coisas do mundo onde se vive – o mundo sensível – são cópias. Pretendentes dos modelos do mundo inteligível, elas rivalizam para alcançar a maior proximidade com a perfeição. A cultura ocidental e a filosofia racional devem muito a esse momento. E tudo isso é problematizado por Deleuze.

Com efeito, este modelo apresenta a busca por fundamentos e segurança como uma questão antiga. A partir da leitura de Deleuze, poderíamos pensar que a pergunta pela verdade, pela essência, pelo fundamento das coisas, aquilo que supostamente elas são, é uma falsa questão, não no sentido de que haveria uma verdadeira, mas no de que ela não é o que importa. Quando Platão afirmava a divisão do mundo em dois – um, das essências; outro, das cópias -, postulava o primeiro como modelo para o segundo. Ao primeiro, habitado pelas idéias perfeitas, apenas poucos teriam acesso: os filósofos, principalmente. Para os demais homens, habitantes das aparências, estaria reservado o destino da falta, de tentar ser como o definido no mundo das essências, tarefa em que, jamais teriam êxito, permanecendo na carência de… Tentar ser como o modelo, identificar-se com suas características, retificar-se conforme suas formas, copiar sua perfeição: esses eram os desígnios a serem perseguidos pelos homens comuns, predestinados ao fracasso na empreitada.

O mundo sensível – das cópias (sempre em falta, imperfeitas) dos modelos (originais, autênticos) presentes no mundo inteligível – era um mundo de rivais. Identificar-se com os modelos era o almejado, o desejado acima de qualquer coisa. O mundo das aparências era, então, um mundo de máscaras que deveriam ser tiradas para se chegar às coisas em suas supostas pureza, essência e estabilidade. Com isso, seriam descobertas – no sentido de revelar o que está coberto – A Origem, O Bem, A Verdade, A Justiça etc., como se elas existissem como instâncias absolutas, e fossem sempre as mesmas. Por isso, aparecem acompanhadas por artigos definidos que as estabelecem como idéias exclusivas, pré-determinadas ou supra-determinadas, independentes das circunstâncias de seus usos.

É em relação a questões como estas que Deleuze avizinha seu trabalho ao de escritores da indeterminação que deixam em desuso as cansativas dicotomias, os usos imperativos de artigos definidos (o, a) e as relações de exclusão (ou… ou). Um deles é o escritor William Burroughs, que nesse pequeno trecho, versa pensamentos que poderiam compor com a crítica de Deleuze ao platonismo: “O É da Identidade. Tu és animal. Tu és um corpo. Ora sejas tu o que fores, não és um ‘animal’, não és um ‘corpo’, porque isso são rótulos verbais. O É da identidade compreende sempre a implicação disso e de mais nada e compreende também a afectação de uma condição permanente. Permanecer assim. Toda a apelação pressupõe o É da identidade. Este conceito é desnecessário numa língua hieroglífica, como o antigo egípcio, e é de facto freqüentemente omitido. Não é preciso dizer que o sol É do céu. Sol no céu basta. Podemos facilmente omitir o verbo qualquer que seja a língua, o que fizeram os discípulos do conde Korzybski eliminando o verbo ser em inglês. É contudo difícil pôr ordem na língua inglesa excluindo arbitrariamente conceitos que continuam vigentes enquanto se fala a língua inalterável. Os artigos definidos O A OS AS (the). O compreende a implicação de um só e único: O Deus, O universo, O caminho, O certo, O errado. Se existe um outro, então ESSE universo, ESSE caminho não são mais O universo, O caminho. O artigo definido será eliminado e substituído pelo artigo indefinido UM UMA. Todo conceito de OU/OU. Certo ou errado, físico ou mental, verdadeiro ou falso, todo o conceito de OU será eliminado da língua e substituído pela justaposição, por E. Numa certa medida fazemo-lo em qualquer língua pictórica em que os dois conceitos se mantêm literalmente lado a lado. Essas falsificações inerentes ao inglês e a outras línguas alfabéticas ocidentais dão às ordens de reação mental o seu poder opressor nessas línguas”[1].

O cristianismo encontra a cultura greco-romana num período em que esses ideais do modelo metafísico estão bem instalados, o que favorece que ele se assente neste solo. Após os primeiros séculos, o cristianismo se fortalece, tornando-se a versão popular do platonismo ao qual Nietzsche e Deleuze tecem críticas. Nelas, eles indicam a oposição criada pelo platonismo e pelo cristianismo entre um mundo sensível e mutante, mundo considerado aparente e, por outro lado ou acima, um mundo supra-sensível, eterno e imutável, considerado como mundo verdadeiro.

A concepção de Deus como sendo a verdade e o bem supremo, que se deve à filosofia de Platão e também ao cristianismo, é, para Deleuze e Nietzsche, uma negação da vida, a grande negação. Quer dizer, a negação da vida em nome da vida melhor, a negação do mundo/terra em nome de um certo mundo e a transformação do mundo em que vivemos em ponte para a vida verdadeira, para esse outro mundo melhor. Deleuze, assim como Nietzsche, considera que, para os gregos, anteriores a Sócrates e Platão, não existia uma doutrina dos dois mundos. Diferentemente do cristianismo, os gregos não propunham um transmundo, um mundo além deste mundo, considerado sob o critério do bem e da verdade, como recompensa depois da morte, como na versão do cristianismo.

Com o filete nietzschiano presente em Deleuze, pode-se dizer que houve um momento em que as coisas começaram a mudar para muitos. Os gregos, até um certo momento antes de Sócrates, tinham uma maneira de enfrentar a dor e a morte sem fugirem delas. Na época trágica, um momento bastante valorizado por Nietzsche, os gregos tinham a compreensão profunda de que a vida, no enfrentamento de maior intimidade com a dor e a morte, extrai delas uma vitalidade ainda maior. Uma espécie de força. No entanto, houve um momento em que eles começaram a se afastar da dor e da morte, e as insígnias que passaram a predominar aclamavam que: Viver é perigoso, é sofrer, então, basta de vida. É quando desertam desse mundo, constroem uma instância transcendente, o mundo inteligível. Depois, vêm Deus e o paraíso com o cristianismo, e mais tarde, num salto que com pouca consistência se pode ora apresentar, mas que pertence a essa série em sucessão, tem-se a verdade da ciência. Com efeito, essa deserção é apresentada por Deleuze em seus esforços por assepsia, por anestesia: nada de dor, nada de morte. Limpeza, isto é, grau zero de tensão, grau zero de vida. Com todas as construções metafísicas, uma das coisas mais fecundas que Deleuze nos ensina é que Platão não venceu. A agonística – o embate das forças sem expectativa de estabilização – permanece.

O segundo movimento do pequeno filete de que estamos tratando neste texto é o da grande reação que se esboça no século XVII e ganha força nos século XVIII e XIX. Reação a quê? Reação aos valores superiores, reação contra Deus e a religiosidade cristã na modernidade etc. Neste momento, há um enfraquecimento de Deus como norteador, e a invenção da forma-homem, esse homem moderno, é colocada no lugar do fundamento. Os antigos valores superiores enfraquecem, na medida em que outros valores emergem e passam a coexistir de forma concorrente a eles. O indivíduo passa a ser supervalorizado, inventam-se as marcas do individualismo burguês, do progresso e da ordem que aposta no futuro como uma compensação das fraquezas e imperfeições do presente e tem o homem consciencioso como mestre e dominador da natureza. Emerge a possibilidade de se pensar por influências.

Uma problematização pontual faz-se necessária: a palavra influência carrega a idéia de “sopro para dentro”, demonstrando que o termo influência é apassivante, posto que assenta tudo num suposto interior estabilizador. É um termo que deve muito ao romantismo, e é datado, estando implicado com a questão da interiorização. Com ele, ainda somos “falados” pelo idealismo e romantismo do século XIX. Quando operamos com este termo, ainda estamos inscritos na grande reação. A noção de influência cria um raciocínio de causa e efeito que comprometeria a fecundidade das relações que são sempre mais complexas, conforme nos ajuda a pensar Deleuze, propondo outras chaves de pensamento, sinalizando que há crenças que se impõem.

Nos séculos XX e XXI – mas com alguns começos entre escritores, políticos e filósofos do século XIX -, um outro e terceiro movimento emerge. Surge como uma modalidade passiva, um momento coexistente aos demais e, talvez, com o qual se pode pensar numa das formas de evasão do individualismo, do voluntarismo e do ressentimento. Esse momento é a modalidade passiva, pois é causado pela impossibilidade de suportar que não haverá um aperfeiçoamento do homem no sentido de um progresso. Com ele, é acentuada a descrença no melhoramento da humanidade; sua passividade é tanto a etapa dos mortos-vivos que se lamuriam pelo homem não ter dado certo, quanto a fase da ausência de esperança e de investimento no mundo interior (psicológico). Não se espera um mundo supra-sensível, um paraíso com Deus ou um futuro que virá a redimir essa vida. Também nele, pode irromper uma espécie de neo-narcisismo[2], conforme a distinção efetuada por Luiz Orlandi[3]. Nesta distinção, o narcisismo encontra-se inscrito na lógica da grande reação, e o neo-narcisismo refere-se a um certo gosto dominante na modalidade passiva: “O ardil desse comunicativismo parece consistir em levar cada eu, cada si, a viver com a impressão de ser pensado, visado, procurado, querido, bajulado, espelhado, biografado, noticiado, engrandecido, justiçado, cuidado, venerado, agraciado, compreendido, aplaudido, cumprimentado, velado, representado etc., tudo isso e muito mais compondo mil espelhos para um neo-narcisismo, esse do eu exposto a mil e uma visgo-ofertas que acabam separando-o daquilo que sobrava ao velho Narciso, o tempo da perigosa contemplação de si. Perigosa, porque o espelho d’água podia virar água viva ou tremer revelando a fragilidade da fisionomia. Talvez não se trate mais da velha ilusão da identidade própria, mas da ilusão de não se ter qualquer poder, ou de se ter um poder absoluto de controle sobre a multiplicidade de suas exposições. Sou aliciado por linhas que me tecem como meu próprio inimigo ou aliado”

Na modalidade passiva, paradoxalmente há excitação e um impessoal enclausurado pelo mercado turbo-capitalista, que acena com ele para uma vida que desliza no liso, uma subjetividade dissipada e superficial que mantém sua inscrição no cansaço. A ilusão de não ter qualquer poder, ou de ter um poder absoluto estão em tensão. Há um suposto controle, só que adicto, sobre a multiplicidade das exposições superficiais de si.

Para os antigos, a subjetividade se produzia na exterioridade. Os trabalhos de helenistas como Pierre Vidal Naquet e Jean Pierre Vernant sugerem que a noção de “eu” não era ensimesmada. Na Grécia pré-socrática, o “eu não é nem delimitado nem unificado: é um campo aberto de forças múltiplas, diz H. Frankl. Sobretudo, essa experiência é orientada para o exterior, não para o interior (…) O ‘sujeito’não constitui um mundo interior fechado, no qual deve penetrar para se encontrar, ou antes para se descobrir”[4]. A subjetividade era superficial no sentido mais fecundo do termo. Contemporaneamente, na modalidade passiva, podemos tender a uma subjetividade, superficial, neo-narcísica, rendida e adoecida. A ação é desinvestida. Paradoxalmente, isso pode ser o começo de uma saúde. A cultura somática, das bioidentidades e biossociabilidades, é produzida em uma ambiência de divíduos (não somente indivíduos e narcisistas como na grande reação), de desconfiança, de insegurança e insensibilidade. Predomina a sensação de “tudo é igual, nada vale a pena”. Busca de prazer a qualquer custo, infantilização, anestésicos para a dor, paz e segurança incondicionais. Paradoxalmente excitação e cansaço. Com o avanço do processo de medicalização e medicamentalização (que são apenas efeitos), e com a mutação da modalidade disciplinar em sociedades de controle[5], temos, grosso modo, esse “estado transitório patológico” em que o triste é depressivo, o travesso é hiperativo, e o indivíduo psicológico que emergiu com a cultura do sentimento (séculos XVIII e XIX) e a grande reação vão, pouco a pouco, se adelgando. Não há confiança no mundo, predominam restos de um pessimismo romântico. Isso não é somente ruim; é a última agonia da reação. Claro, sem confiança, há pouco investimento na ação, mais obediência e submissão. A modalidade passiva é o momento de um nada de vontade, de uma interioridade em erosão e de uma vontade e um eu que podem se tornar menos espessos (delgados, magros e fracos).

Voltando aos tópicos iniciais, são efeitos de uma cultura que, com uma vontade já muito enfraquecida, “resolve” reverenciar coisas que, do alto, dêem-lhe sentido, a saber, Deus, a verdade, o mundo das idéias..Sem vontade, a vida muito enfraquecida, resolve que ela mesma não tem mais sentido, e que o sentido sempre deveria vir de alguma outra instância, superior e transcendente. A partir deste ponto, a vida mesma fica desvalorizada e privada do seu sentido.

Com o ocaso da grande reação humanista dos séculos XVIII e XIX, resta uma vida fraca, uma modalidade passiva, enfraquecida, que quer o mínimo de tensão em meio a doses de excitantes -mais luzes, emoções, consumo, visibilidade – cada vez maiores. É um instante aflitivo, patológico e paradoxal. É também a oportunidade de uma reviravolta, de uma deserção do ressentimento e do ensimesmamento produzido na grande reação, reviravolta complexa e reversível, mesmo em seu grande cansaço.

Cansaço com o jogo da esperança e do depois que vão nos salvar, mas desta vez no futuro. Cansaço da aposta na interioridade recôndita do exílio no psicológico, dentro do eu. Cansaço do isto ou aquilo que se desgasta. É um caminho de consumação, uma possibilidade de passagem do negativo ao afirmativo. Uma possibilidade, sem garantias ou determinismo. Uma certa descrença até mesmo no intimismo, que agora se mostra estranho, quando não reagimos mais com esperança, quando alguns velhos hábitos não nos impelem mais. Em seu limite extremo (caducando), o negativo pode tornar-se o trovão e o relâmpago, no sentido daquilo que anuncia uma possível atividade (modalidade ativa), uma potência de afirmar[6]. O acesso ao fio de metamorfose pode se dar, acesso a um senso da exterioridade aberta, uma travessia do passivo ao ativo.

É interessante acompanhar as possibilidades de passagem do reativo ao passivo, mas é preciso não se deter nesta passagem, para proceder à análise de uma espécie de vontade enfraquecida e suas aberturas. A vontade do eu, típica do romantismo e do liberalismo, gagueja, perde força e pode tornar-se frágil de um modo interessante. Na travessia dos dois movimentos, no jogo das modalidades reativa e passiva definham as disciplinas e instalam-se as sociedades de controle. Com elas, desinvestimos a interioridade psicológica e acompanhamos o crepúsculo do humano (indivíduo), trata-se da formação histórica além-do-homem. Nesse tempo histórico somos muito mais divíduos, isto é, índices, amostras, dados, cifras e fluxos. Estão dadas as condições para uma medicina baseada em evidências laboratoriais e computacionais, no limite, como referiu Deleuze, sem médico e sem paciente. É um movimento de corrupção do humano entendido como forma-homem interiorizada que foi constituído a ferro e fogo na grande reação moderna. Reação que começou a perder força em meados do século XX, ou que, pelo menos, passou a coexistir com um outro movimento.

No século XXI, a modalidade passiva aumenta sua força. Esse esboroamento do homem, entendido como homem psicologizado e interiorizado, nunca foi lamentado por Deleuze, e muito menos, tratado como um ápice. Nestas passagens, cujos sinais indicam a possibilidade de um quarto movimento, é necessária uma aguda sobriedade. Implicada com traços da grande reação, a modalidade passiva pode se articular nas sociedades de controle com um desfundamento. É o enfraquecimento dos fundamentos em desastre e invenção, sem relação necessária ou triunfalismo. Tanto na esfera dos valores platônicos, transcendentais, Forma-Deus, quanto no fundamento ancorado no homem da grande reação, Forma-Homem, todos esses artigos de fé, inclusive a crença na interioridade, se abalam.

Deleuze sugere que, nas sociedades de controle/formação histórica além-do-homem/modalidade passiva/ativa, tudo que tem um interior está em crise e perde a capacidade de reunir o seu ser. Com isso, podem ser colocados em xeque os fundamentos que persistem. Há uma espécie de saída dos valores superiores, metafísicos e especialmente da aposta na interioridade, do corpo como lugar da unidade do ser, e a sociabilidade desliza para a biologia molecular[7], como refere Paul Rabinow[8]. O agrupamento dos indivíduos/divíduos, ao invés de se dar tão-somente por valores tradicionais, transcendentes, ideológicos ou características psicológicas interiores, passa a tomar traços biológicos como referência. A biologia molecular, na segunda metade do século XX e início do XXI, é o que a física foi no início do século XX, isto é, a grande produtora de vetores que marcam as maneiras de pensar, sentir e fazer, demonstrando a aguda divinização da ciência, a intensificação da fé em sua verdade, ao mesmo tempo em que – paradoxalmente explosivo – tem seus fundamentos corrompidos por múltiplos centros e genes, sinapses, hormônios etc. Há coexistência de verdades sem nenhuma unidade ou centro estável, os fundamentos se esburacam o que também pode gerar reações de medo e fundamentalismo.

São traços biologicamente compartilhados e marcas corporais que indicam as novas redescrições de si e impõem algo da ordem do impessoal. Há pelo menos uma tensão entre o pessoal e o impessoal. É a crença nas bioidentidades, isto é, na produção de subjetividades articuladas não somente com a forma-homem da grande reação, mas a itens, dados, cifras ligadas ao infra-organismo, ao registro microbiológico. Coexiste uma promessa de utopia indolor, um grande sonho de limpeza que poderíamos chamar de paz dos contentes. A bioidentidade referida por Rabinow não é apenas individualista, ela é mais precisamente dividualista, é a própria agonia da noção de identidade, seu último e raso fundo. Ela produz e opera uma certa política, portanto não é apolítica. Uma política do grande cansaço do homem.

Há um reducionismo ao mínimo biológico em tudo isso? Certamente, e ao mesmo tempo, a perda do fundamento ancorado no homem. Grande cansaço, em que a fé na ciência e a divinização da verdade, levadas ao extremo – em meio ao impacto das biotecnologias entre tantas forças em jogo – , produz um esgarçamento do homem (da forma-homem da grande reação). Momento de forças em multiplicidade, pois há nesse movimento a oportunidade, não a garantia de uma reviravolta, na medida em que, com a modalidade passiva, pode se dar a falência de alguns clichês e voluntarismos românticos, liberais, nacionalistas e disciplinares.

A vida pode parecer um filme ruim, permitindo-nos reagir menos, estarmos em menor prontidão e voluntarismo para lubrificar as articulações que mantém vivos os automatismos. As maneiras hegemônicas de sentir, pensar e fazer que asseguravam e, muitas vezes, asseguram o laço orgânico, por vezes adoecido (nós e/versus mundo) secam, vão sendo trincadas. Não há esperança. Nada há pelo que se esperar. Após séculos e um grande cansaço, resta-nos a possibilidade de um esgotamento vital[9]. Poder dizer sim – sem qualquer otimismo moral, linearidade, circularidade ou determinismo, pois trata-se de um jogo complexo e reversível – um sim à vida, tal como ela seja. Um sim que possui vizinhança com o amor fati, nos votos de feliz ano-novo de Nietzsche, em primeiro de janeiro de 1882, quando afirmava: “Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas: – assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas. Amor Fati (amor ao destino): seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que a minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!”[10]

[1] BURROUGHS, William. A Revolução Eletrônica. Tradução de Maria Leonor Telles e José Augusto Mourão. Lisboa: Vega, s/d. p. 87-9.

[2] ORLANDI, Luiz Benedicto Lacerda. “Marginando a leitura deleuzeana do trágico em Nietzsche”. In SANTOS, Volnei Edson dos (org.). O trágico e seus rastros. Londrina-PR: Eduel, 2002. p.15-53.

[3] Idem

[4] VERNANT,J. P. “O Indivíduo na cidade” in: VEYNE, Paul et all. Indivíduo e Poder. Lisboa: Edições 70, 1988. p.38

[5] DELEUZE, Gilles “Pós Scriptum Sobre as Sociedades de Controle”. In: Conversações. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992. p. 219-226.

[6] DELEUZE, Gilles. Nietzsche, Lisboa: Edições 70,1985, p.28.

[7]Acerca da lógica da biologia molecular, a formação histórica além-do-homem (super-homem) e as sociabilidades em ressonância com esse campo, ver especialmente DELEUZE, Gilles. Sobre a Morte do Homem e o Super-Homem In: DELEUZE, Gilles. Foucault. São Paulo, Brasiliense, 1988. Disponível em: https://laboratoriodesensibilidades.wordpress.com/2016/07/25/sobre-a-morte-do-homem-e-o-super-homem/. Acesso em 27/07/2016 e SERRES, Michel. Polegarzinha. Rio de Janeiro. Editara Bertrand Brasil. 2013. Disponível em pdf: https://laboratoriodesensibilidades.wordpress.com/2016/07/18/polegarzinha-de-michel-serres Acesso em 22/07/2016

 

[8] Ver especialmente RABINOW, P. Artificialidade e Iluminismo: da sociobiologia à biossociabilidade. In: RABINOW, P. Antropologia da razão: ensaios de Paul Rabinow. Organização e tradução de João Guilherme Biehl. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999. Disponível em: https://laboratoriodesensibilidades.wordpress.com/2016/09/13/escritos-que-abrem-a-caixa-preta-da-vida-benilton-bezerra-jr-e-paul-rabinow/ Acesso em 15 02 2017.

 

[9] DELEUZE, Gilles. L`épuise, que se segue a Quad et autres pièces pour la telévision, de Samuel Beckett. Paris: Minuit, 1992.

[10] Cf. Para o Ano Novo – Aforismo 276. In NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Cia das Letras, 2001. p.187.

A.O.H.