uma jangada não é uma barricada e é preciso de tudo para que eventualmente um mundo se refaça.

Você compreende que um percurso como o nosso não pode se basear em uma certa ideologia de (a) liberação. Trata-se de um desvio em relação ao qual não se devem temer os aspectos um tanto ‘retrógrados’, ao menos aos olhos daqueles que buscariam um ‘progresso’. Do momento em que há ‘tentativa’, trata-se de ‘outra coisa’, e ‘outra coisa’, isso se busca, isso não cai do céu ideológico. Não é por acaso que eu falo de jangada. Esses que nos procuram fazem esqui náutico, arrastados que eles são por qualquer projeto que os concerne, os leva ou os passeia. E uma jangada não é uma barricada, para voltar àquelas de 68. Mas você escuta bem que eu não digo nem um pouco: ‘Jangadas, eis o que se deve fazer, e não barricadas’. Eu realmente não digo isso. Talvez eu diga: ‘Com aquilo que sobra das barricadas, ter-se-ia podido fazer jangadas…’ Mas eu não digo nem isso. Eu digo simplesmente que uma jangada não é uma barricada, e que é preciso de tudo para que eventualmente um mundo se refaça.

F.D.

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A comunicação vem sempre cedo demais ou tarde demais, e a conversação está sempre em excesso, com relação a criar.

Fazemos, às vezes, da filosofia a ideia de uma perpétua discussão como “racionalidade comunicativa” ou como “conversação democrática universal”.(…) São animados pelo ressentimento, todos esses discutidores, esses comunicadores. Eles não falam senão deles mesmos, confrontando generalidades vazias. A filosofia tem horror a discussões. Ela tem mais que fazer. O debate lhe é insuportável, não porque ela é segura demais de si mesma: ao contrário, são suas incertezas que a arrastam para outras vias mais solitárias (…)a filosofia não encontra nenhum refúgio último na comunicação, que não trabalha em potência a não ser de opiniões, para criar o “consenso” e não o conceito. A ideia de uma conversação democrática ocidental entre amigos não produziu nunca o menor conceito (…)A contemplação, a reflexão, a comunicação não são disciplinas, mas máquinas de constituir Universais em todas as disciplinas. Os Universais de contemplação, e em seguida de reflexão, são como duas ilusões que a filosofia já percorreu em seu sonho de dominar as outras disciplinas (idealismo objetivo e idealismo subjetivo), e a filosofia não se engrandece mais apresentando-se como uma nova Atenas e se desviando sobre Universais da comunicação que forneceriam as regras de um domínio imaginário dos mercados e da mídia (idealismo inter-subjetivo). E contemplar, refletir, comunicar não são outra coisa senão opiniões que se faz sobre o pensamento, a tal época e em tal civilização? A imagem do pensamento só retém o que o pensamento pode reivindicar de direito. O pensamento reivindica “somente” o movimento que pode ser levado ao infinito. (…). O construtivismo desqualifica toda discussão, que retardaria as construções necessárias, como denuncia todos os universais, a contemplação, a reflexão, a comunicação, como fontes do que se chama de “falsos problemas”, que emanam das ilusões que envolvem o plano. É tudo o que se pode dizer de antemão.(…) os conceitos filosóficos reproduzem figuras toda vez que a imanência é atribuída a algo, objetividade de contemplação, sujeito de reflexão, intersubjetividade de comunicação: as três “figuras” da filosofia.(…) Os direitos do homem são axiomas: eles podem coexistir no mercado com muitos outros axiomas, especialmente na segurança da propriedade, que os ignoram ou ainda os suspendem, mais do que os contradizem: “a impura mistura ou o impuro lado a lado”, dizia Nietzsche. Quem pode manter e gerar a miséria, e a desterritorialização-reterritorialização das favelas, salvo polícias e exércitos poderosos que coexistem com as democracias? Que social-democracia não dá a ordem de atirar quando a miséria sai de seu território ou gueto? Os direitos não salvam nem os homens, nem uma filosofia que se reterritorializa sobre o Estado democrático. Os direitos do homem não nos farão abençoar o capitalismo. E é preciso muita inocência, ou safadeza, a uma filosofia da comunicação que pretende restaurar a sociedade de amigos ou mesmo de sábios, formando uma opinião universal como “consenso” capaz de moralizar as nações, os Estados e o mercado Os direitos do homem não dizem nada sobre os modos de existência imanentes do homem provido de direitos. E a vergonha de ser um homem, nós não a experimentamos somente nas situações extremas descritas por Primo Levi, mas nas condições insignificantes, ante a baixeza e a vulgaridade da existência que impregnam as democracias, ante a propagação desses modos de existência e de pensamento-para-o mercado, ante os valores, os ideais e as opiniões de nossa época. A ignomínia das possibilidades de vida que nos são oferecidas aparecem de dentro. Não nos sentimos fora de nossa época, ao contrário, não cessamos de estabelecer com ela compromissos vergonhosos. Este sentimento de vergonha é um dos mais poderosos motivos da filosofia. Não somos responsáveis pelas vítimas, mas diante das vítimas. E não há outro meio senão fazer como o animal (rosnar, escavar o chão, nitrir, convulsionar-se) para escapar ao ignóbil: o pensamento mesmo está por vezes mais próximo de um animal que morre do que de um homem vivo, mesmo democrata. Se a filosofia se reterritorializa sobre o conceito, ela não encontra sua condição na forma presente do Estado democrático, ou num cogito de comunicação mais duvidoso ainda que o cogito da reflexão. Não nos falta comunicação, ao contrário, nós temos comunicação demais, falta-nos criação. Falta-nos resistência ao presente. A criação de conceitos faz apelo por si mesma a uma forma futura, invoca uma nova terra e um povo que não existe ainda. A europeização não constitui um devir, constitui somente a história do capitalismo que impede o devir dos povos sujeitados. A arte e a filosofia juntam-se neste ponto, a constituição de uma terra e de um povo ausentes, como correlato da criação. Não são autores populistas, mas os mais aristocráticos que exigem esse porvir. Esse povo e essa terra não serão reencontrados em nossas democracias. As democracias são maiorias, mas um devir é por natureza o que se subtrai sempre à maioria. É uma posição complexa, ambígua, a de muitos autores com relação à democracia (…)A opinião é um pensamento que se molda estreitamente sobre a forma da recognição: recognição de uma qualidade na percepção (contemplação), recognição de um grupo na afecção (reflexão), recognição de um rival na possibilidade de outros grupos e outras qualidades (comunicação). Ela dá à recognição do verdadeiro uma extensão e critérios que são, por natureza, os de uma “ortodoxia”: será verdadeira uma opinião que coincida com a do grupo ao qual se pertencerá ao enunciá-la. Vê-se bem isso em certos concursos: você deve dizer sua opinião, mas você “ganha” (você disse a verdade) se você disse a mesma coisa que a maioria dos que participam desse concurso. A opinião, em sua essência, é vontade de maioria, e já fala em nome de uma maioria. Mesmo o homem do “paradoxo” só se exprime com tantas piscadelas, e tanta bobagem segura de si, porque pretende exprimir a opinião secreta de todo mundo, e ser o porta-voz do que os outros não ousam dizer. Mas este é apenas o primeiro passo no reino da opinião: esta triunfa quando a qualidade retida deixa de ser a condição da constituição de um grupo, quando não é mais do que a imagem ou a “marca” do grupo constituído, que determina ele mesmo o modelo perceptivo e afetivo, a qualidade e a afecção, que cada um deve adquirir. Então, o marketing aparece como o próprio conceito: “nós, os conceituadores…”. Estamos na idade da comunicação, mas qualquer alma bem nascida foge e se esquiva, cada vez que lhe é proposta uma pequena discussão, um colóquio, uma simples conversa. Em toda conversa, é sempre do destino da filosofia que se trata, e muitas discussões filosóficas, enquanto tais, não vão mais longe do que aquela sobre o queijo, com suas injúrias e confrontos de concepções do mundo. A filosofia da comunicação se esgota na procura de uma opinião universal liberal como consenso, sob o qual encontramos as percepções e afecções cínicas do capitalista em pessoa. Diríamos que a luta contra o caos implica em afinidade com o inimigo, porque uma outra luta se desenvolve e toma mais importância, contra a opinião (comunicação) que, no entanto, pretendia nos proteger do próprio caos. Num texto violentamente poético, Lawrence descreve o que a poesia faz: os homens não deixam de fabricar um guarda-sol que os abriga, por baixo do qual traçam um firmamento e escrevem suas convenções, suas opiniões; mas o poeta, o artista abre uma fenda no guarda-sol, rasga até o firmamento, para fazer passar um pouco do caos livre e tempestuoso e enquadrar numa luz brusca, uma visão que aparece através da fenda, primavera de Wordsworth ou maçã de Cézanne, silhueta de Macbeth ou de Ahab. Então, segue a massa dos imitadores, que remendam o guarda-sol, com uma peça que parece vagamente com a visão; e a massa dos glosadores que preenchem a fenda com opiniões: comunicação. Será preciso sempre outros artistas para fazer outras fendas, operar as necessárias destruições, talvez cada vez maiores, e restituir assim, a seus predecessores, a incomunicável novidade que não mais se podia ver. Significa dizer que o artista se debate menos contra o caos (que ele invoca em todos os seus votos, de uma certa maneira), que contra os “clichês” da opinião). O pintor não pinta sobre uma tela virgem, nem o escritor escreve sobre uma página branca, mas a página ou a tela estão já de tal maneira cobertas de clichês preexistentes, preestabelecidos, que é preciso de início apagar, limpar, laminar, mesmo estraçalhar para fazer passar uma corrente de ar, saída do caos, que nos traga a visão.

Deleuze, G. & Guattari, F. O que é a filosofia? Tradução Bento Prado Jr., Alberto Muñoz. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.

 

Caos

Gilles Deleuze e Félix Guattari

Pedimos apenas um pouco de ordem para nos proteger do caos. Nada é mais doloroso, mais angustiante que um pensamento que escapa de si próprio, idéias que fogem, que desaparecem mal são esboçadas, já roídas pelo olvido ou que se precipitam sobre outras que tampouco dominamos. São invariabilidades infinitas cuja desaparição e aparição coincidem. São velocidades infinitas que se confundem com a imobilidade do nada incolor e silencioso que elas percorrem, sem natureza nem pensamento. É o instante que não sabemos se é demasiado longo ou demasiado curto para o tempo. Recebemos golpes de chicote que batem como artérias. Perdemos sem parar nossas idéias. É por isso que queremos tanto nos apegar a opiniões fixas.

[…]

Num texto violentamente poético, Lawrence descreve o que a poesia faz: os homens não param de fabricar um guarda-sol que os abriga, sob o qual desenham um firmamento e escrevem suas convenções, suas opiniões; mas o poeta, o artista abre uma fenda no guarda-sol, ele rasga até o firmamento, para fazer passar um pouco do caos livre e ventoso e enquadrar numa luz brusca uma visão que aparece através da fenda, prímula de Wordsworth ou maçã de Cézanne, silhueta de Macbeth ou de Ahab. Então segue-se a multidão de imitadores que consertam o guarda-sol com um remendo que se assemelha vagamente à visão, e a multidão de glosadores que preenchem a fenda com opiniões: comunicadores. Sempre haverá necessidade de outros artistas para abrir outras fendas, fazer as destruições necessárias, talvez cada vez maiores, e restituir assim a seus predecessores a incomunicável novidade que não se sabia mais ver. Quer dizer que o artista bate-se menos contra o caos […] do que contra os “clichês” da opinião. O pintor não pinta sobre uma tela virgem, nem o escritor escreve sobre uma página em branco, mas a tela ou a página já estão tão cobertas de clichês preexistentes, preestabelecidos, que é preciso, primeiro, apagar, limpar, laminar, até mesmo retalhar para fazer passar uma corrente de ar saída do caos que nos traga a visão.

[Qu’est-ce que la philosphie?, Minuit, p. 191-2].

 

O caos na poesia

D. H. Lawrence

A poesia, dizem, é uma questão de palavras. E é verdade, tanto quanto a pintura é uma questão de tinta e o afresco, uma questão de água e ocra. Mas isso está tão longe de ser toda a verdade que soa um tanto simplista quando dito secamente.

A poesia é uma questão de palavras. A poesia consiste em combinar palavras para fazê-las ondular e vibrar e colorir. A poesia é um jogo de imagens. A poesia é a iridescente sugestão de um idéia. A poesia é todas essas coisas e, contudo, é algo mais. […]

A qualidade essencial da poesia consiste em que ela exige um esforço renovado da atenção, e que “descobre” um mundo novo no interior do mundo conhecido. O homem, e os animais, e as flores, vivem todos dentro de um caos estranho e permanentemente revolto. Chamamos cosmo ao caos ao qual nos acostumamos. Chamamos consciência – e mente, e também civilização –  ao indizível caos interior de que somos compostos. Mas trata-se, em última instância, do caos, iluminado por visões, ou não iluminado por visões. Exatamente como o arco-íris pode ou não iluminar a tempestade. E, tal como o arco-íris, a visão perece.

Mas o homem não pode viver no caos. Os animais podem. Para o animal tudo é caos, havendo apenas algumas poucas e recorrentes agitações e aparências em meio ao tumulto. E o animal fica feliz. Mas o homem não. O homem deve envolver-se em uma visão e construir uma casa que tenha uma forma evidente e que seja estável e fixa. No pavor que tem do caos, começa por levantar um guarda-chuva entre ele e o permanente redemoinho. Então, pinta o interior do guarda-chuva como um firmamento. Depois, anda à volta, vive, e morre sob seu guarda-chuva. Deixado em herança a seus descendentes, o guarda-chuva transforma-se em uma cúpula, uma abóbada, e os homens começam a sentir que algo está errado.

O homem ergue, entre ele e o selvagem caos, algum maravilhoso edifício de sua própria criação, e gradualmente torna-se pálido e rígido embaixo de seu pára-sol. Então ele se torna um poeta, um inimigo da convenção, e faz um furo no guarda-chuva; e oba!, o vislumbre do caos é uma visão, uma janela para o sol. Mas depois de um certo tempo, tendo se acostumado à visão, e não lhe agradando a genuína golfada de ar do caos, o homem do lugar-comum rascunha um simulacro da janela que se abre para o caos, e remenda o guarda-chuva com o remendo pintado do simulacro. Isto é, ele se acostumou à visão; ela faz parte da decoração de sua casa. De maneira que o guarda-chuva finalmente parece um amplo e brilhante firmamento, de vistas variadas. Mas, que pena!, é tudo simulacro, feito de inumeráveis remendos. Homero e Keats, cheios de anotações e acompanhados de um glossário.

Esta é a história da poesia em nosso tempo. Alguém vê Titãs no ar selvagem do caos, e o Titã torna-se uma parede entre as sucessivas gerações e o caos que elas deveriam ter herdado. O céu selvagem pôs-se em movimento e cantou. Até isso torna-se um grande guarda-chuva entre a humanidade e o céu de ar fresco; ele tornou-se, então, uma abóbada pintada, um afresco num teto abobadado, sob o qual os homens empalidecem e se tornam infelizes. Até que um outro poeta faça um buraco no amplo e tempestuoso caos.

Mas finalmente nosso teto não nos ilude mais. É gesso pintado, e nem todo o engenho de todas as épocas da humanidade conseguirá mais nos enganar. Dante ou Leonardo, Beethoven ou Whitman: oba!, pintaram no gesso de nossa abóbada. Como São Francisco pregando para os pássaros em Assis. Maravilhoso, como o ar e o espaço passarinheiro e o caos de muitas coisas – em parte porque o afresco desbotou. Mas ainda assim, ficamos felizes em sair daquela igreja, e entrar no caos natural.

Esta é a grave crise para a humanidade, quando temos que voltar ao caos. Enquanto o guarda-chuva servir, e o poeta fizer furos nele, e a massa de gente puder ser gradualmente educada para a visão no furo: o que significa que eles o remendam com um remendo que se parece com a visão no furo: enquanto esse processo puder continuar, e a humanidade puder ser educada, e assim encaixada, a civilização continuará mais ou menos feliz, completando sua própria e pintada prisão. Isso chama-se completar a consciência.

A alegria que os homens tiveram quando Wordsworth, por exemplo, fez um furo e viu uma prímula! Até então, os homens tinha visto uma prímula apenas obscuramente, na sombra do guarda-chuva. Eles a viram por meio de Wordsworth no pleno brilho do caos. Desde então, gradualmente, acabamos por ver na primavera nada mais do que prímulas. O que significa que remendamos o furo.

E a grande alegria quando Shakespeare fez um grande rasgo e viu o homem emocional e desejoso ao desabrigo, no caos, para além da idéia convencional e do guarda-chuva pintado das imagens morais e dos rígidos paladinos, que foram instituídos na Idade Média. Mas agora, que pena!, o teto de nossa abóbada está simplesmente todo pintado de Hamlets e Macbeths, as paredes laterais também, e a ordem está fixada e completa. O homem não pode ser absolutamente diferente dessa imagem. O caos fica inteiramente do lado de fora.

O guarda-chuva ficou tão grande, os remendos e o gesso estão tão rígidos e duros que ele não pode ser mais furado. Se fosse furado, a abertura não seria mais uma visão, mas apenas uma afronta. Deveríamos borrá-lo todo de uma vez, para combinar com o resto.

Assim, o guarda-chuva torna-se absoluto. E assim o desejo do caos torna-se nostalgia. E isso continuará até que algum vento terrível parta o guarda-chuva em tiras, e destine a maior parte da humanidade ao esquecimento. O resto gelará em meio ao caos. Pois o caos está sempre ali, e sempre estará, não importa como armemos guarda-chuvas de visões.

E que dizer dos poetas, então, nesse intervalo? Eles revelam o desejo interior da humanidade. O que eles revelam? Eles mostram o desejo de caos, e o medo do caos. O desejo de caos é o sopro de sua poesia. O medo do caos está em seu desfile de formas e técnica. A poesia é feita de palavras, dizem eles. Assim, eles sopram bolhas de som e imagem, que logo explodem com o sopro do desejo de caos de que estão plenos. Mas os poetastros podem fazer reluzentes bolhas para a árvore de Natal, que nunca explodem, porque não existe qualquer sopro de poesia nelas, mas elas ficam lá até que as derrubemos.

 

[Selected Critical Writings, p. 234].

 

 

 

Terceira Perna e perda da montagem humana

Perdi alguma coisa que me era “essencial”, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar, mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar. Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? Nesta minha nova covardia – a covardia é o que de mais novo já me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la , na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir. É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter uma ideia de “pessoa” e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver. A ideia que eu fazia de “pessoa” vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora? estarei mais livre? Não. Sei que ainda não estou sentindo livremente, que de novo penso porque tenho por objetivo achar – e que por segurança chamarei de achar o momento em que encontrar um meio de saída. Por que não tenho coragem de apenas achar um meio de entrada? Oh, sei que entrei, sim. Mas assustei-me porque não sei para onde dá essa entrada. E nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que soubesse para o quê. Ontem, no entanto, perdi durante horas e horas a minha montagem humana. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida (…) Foi como adulto então que eu tive medo e criei a terceira perna? Mas como adulto terei a coragem infantil de me perder? Perder- se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando. As duas pernas que andam, sem mais a terceira que prende. E eu quero ser presa. Não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. Mas enquanto eu estava presa, estava contente? Ou havia, e havia, aquela coisa sonsa e inquieta em minha feliz rotina de prisioneira? Ou havia, e havia, aquela coisa latejando, a que eu estava tão habituada que pensava que latejar era ser uma “pessoa”. É? Também, também. Fico tão assustada quando percebo que durante horas perdi minha formação humana. Não sei se terei uma outra para substituir a perdida. Sei que precisarei tomar cuidado para não usar superficialmente uma nova terceira perna que em mim renasce fácil como capim, e a essa perna protetora chamar de uma verdade. Mas é que também não sei que forma dar ao que me aconteceu. E sem dar uma forma, nada me existe. E e se a realidade é mesmo que nada existiu?!Quem sabe nada me aconteceu? Só posso compreender o que me acontece mas só acontece o que eu compreendo – que sei do resto? O resto não existiu. Quem sabe nada existiu! (…) Terá sido o amor o que vi? Mas que amor é esse tão cego como o de uma célula-ovo? foi isso? aquele horror, isso era amor? amor tão neutro que – não, não quero ainda me falar, falar agora seria precipitar um sentido como quem depressa se imobiliza na segurança paralisadora de uma terceira perna (…) Quem sabe me aconteceu apenas uma lenta e grande dissolução? E que minha luta contra essa desintegração está sendo esta: a de tentar agora dar-lhe uma forma? Uma forma contorna o caos, uma forma dá construção à substância amorfa – a visão de uma carne infinita é a visão dos loucos, mas se eu cortar a carne em pedaços e distribuí-los pelos dias e pelas fomes – então ela não será mais a perdição e a loucura: será de novo a vida humanizada. A vida humanizada. Eu havia humanizado demais a vida.

C. L.

Espinosa e o problema da expressão

Espinosa e o problema da expressão

Gilles Deleuze

Tradução de GT Deleuze – 12
Coordenação de Luiz B. L. Orlandi

 

As definições correntes da filosofia não se aplicam a Espinosa, pensador escandaloso e solitário, que concebeu a filosofia como uma empresa de liberação e desmistificação radicais, cujos únicos paralelos talvez sejam Lucrécio e Nietzsche. Em Espinosa e o problema da expressão, Gilles Deleuze (1925-1975) mapeia, no pensamento do filósofo holandês, as relações entre teoria da substância, teoria da ideia e teoria das paixões e das ações, pondo em destaque, particularmente, as conexões entre substância e a composição dos modos finitos de existência.
Apresentado originalmente como tese complementar de doutorado e publicado na França em 1968, quase simultaneamente a Diferença e repetição, este é um livro fundamental na trajetória do autor de O anti-Édipo. Aqui, ao mesmo tempo em que discute o conceito de “expressão” e apresenta de forma sistemática o pensamento de Espinosa, o texto põe em evidência a operação deleuziana de leitura, suas maneiras de agir e de saber.
Traduzido com rigor pelo coletivo GT Deleuze – 12, sob a supervisão de Luiz B. L. Orlandi, este é um livro raro, no qual – como deixa entrever o posfácio de François Zourabichvili – Deleuze ilumina Espinosa e Espinosa ilumina Deleuze.


Sobre o autor

Gilles Deleuze nasceu em 1925, em Paris. Estudou no Liceu Carnot e depois filosofia na Sorbonne, onde obteve o Diploma de Estudos Superiores em 1947. Entre 1948 e 1957 lecionou nos liceus de Amiens, Orléans e no Louis-Le-Grand, em Paris. Trabalhou como assistente em História da Filosofia na Sorbonne entre 1957 e 1960, e foi pesquisador do CNRS até 1964, ano em que passou a lecionar na Faculdade de Lyon, lá permanecendo até 1969. De 1969 a 1987, deu aulas na célebre Universidade de Vincennes, um dos polos do ideário de Maio de 1968, quando firmou a sólida e produtiva relação com Félix Guattari de que resultaram os livros O anti-Édipo (1972), Kafka (1975), Mil platôs (1980) e O que é a filosofia? (1991). É autor também de obras fundamentais como Diferença e repetição (1968), Lógica do sentido (1969), Cinema 1: a imagem-movimento (1983), Cinema 2: a imagem-tempo (1985) e Crítica e clínica (1993), além de estudos sobre Hume, Kant, Bergson, Nietzsche, Espinosa e Foucault, entre outros. Faleceu em Paris, em 1995.

 


Sobre o tradutor

O GT Deleuze – 12 é um coletivo coordenado por Luiz B. L. Orlandi e integrado por doze professores e pós-graduandos da Unicamp, Unesp e Unifesp: Adriana Barin de Azevedo, Alexandre Piccini Ribeiro, Diogo Gondin Blumer, Guilherme Ivo, Janir Batista, José Luiz Pastre, Laisa Blancy de Oliveira Guarienti, Luiz B. L. Orlandi, Marcus Pereira Novaes, Maria Fernanda Novo, Roberto Duarte Santana Nascimento e Vivian Marina Redi Pontin.

CRISE DA MEDIDA, DECLÍNIO DA OBEDIÊNCIA VOLUNTÁRIA AO SABER entre presunção de competência e incompetência

Utilizando a velha presunção de incompetência, grandes máquinas públicas ou privadas, a burocracia, a mídia publicidade: a tecnocracia. as empresas, a política, as universidades, as estruturas administrativas, às vezes até a ciência… impõem seu poderio gigantesco se dirigindo a supostos imbecis, denominados de público e desprezados pelos meios de comunicação de massa. Na companhia de semelhantes que eles supõem competentes, mas nem tão seguros

(…)

As grandes instituições declinam.

(…)

No final da faculdade, aos 20 e poucos anos, me tornei epistemólogo, palavra pomposa para dizer que estudava os métodos e os resultados da ciência, tentando, às vezes, julgá-los. Àquela época, éramos poucos no mundo inteiro e nos correspondíamos. Meio século depois, qualquer um da rua com o celular decide sobre energia nuclear, sobre barrigas de aluguel, sobre transgênico, sobre quimica, sobre ecologia. Hoje, que não me filio mais àquela disciplina, todo mundo se torna epistemólogo. Há presunção de competência. Não riam, dizem: quando a chamada democracia deu direito de voto a todo mundo, precisou fazer isso contra quem gritava ser um escândalo tal direito ser dado de maneira equivalente aos ajuizados e aos doidos, aos ignorantes e aos instruídos. É o mesmo argumento que retorna

M.S

 

A desmedida se travestindo de medida.

A desmedida das novas dores que requerem de nós outra coisa para a qual ainda não temos nomes adequados.

Talvez as crianças sejam aquelas que vivem na carne o fato de que a medida voôu pelos ares, de que a medida que regula nossa vida é desmedida, caduca, mortífera.

No trabalho e na formação há uma relação com a incomensurabilidade da dor e sua desmedida.

Com a corrosão do costume se põe cada vez mais em xeque a medida do trabalho, da razão, da razão de Estado.

É a crise da medida.

Há talvez uma desmedida pressentida, que extrapola os recursos expressivos disponíveis por crianças, precisando, portanto, enunciar-se na linguagem da desatenção e agitação sem medida ou no polo do autismo.

Aqui a dor nunca é exclusivamente individual, ao contrário, ela é uma chave que abre a porta para o comum e também vem dele.

A desmedida se travestindo de medida.

No contemporâneo a hybris (desmedida) é o que pode dar também o caráter desmedido do próprio pensamento quando confrontado à “desmedida absoluta dos acontecimentos”.

É possível que estejamos em um momento assim, em que voam pelo ar muitas “medidas”, do valor, do trabalho, do tempo, do sujeito, do Estado, da governança global, do controle da vida, e vem à tona, por toda parte, a desmedida dessa medida do poder, a desmedida das novas dores que requerem de nós outra coisa para a qual ainda não temos nomes adequados, e que as agitações, autismo, desatenções, cansaço, hiperconexões, adoecimentos do presente deixam apenas entrever, a seu modo.

MPPPAH