Espinosa e o problema da expressão

Espinosa e o problema da expressão

Gilles Deleuze

Tradução de GT Deleuze – 12
Coordenação de Luiz B. L. Orlandi

 

As definições correntes da filosofia não se aplicam a Espinosa, pensador escandaloso e solitário, que concebeu a filosofia como uma empresa de liberação e desmistificação radicais, cujos únicos paralelos talvez sejam Lucrécio e Nietzsche. Em Espinosa e o problema da expressão, Gilles Deleuze (1925-1975) mapeia, no pensamento do filósofo holandês, as relações entre teoria da substância, teoria da ideia e teoria das paixões e das ações, pondo em destaque, particularmente, as conexões entre substância e a composição dos modos finitos de existência.
Apresentado originalmente como tese complementar de doutorado e publicado na França em 1968, quase simultaneamente a Diferença e repetição, este é um livro fundamental na trajetória do autor de O anti-Édipo. Aqui, ao mesmo tempo em que discute o conceito de “expressão” e apresenta de forma sistemática o pensamento de Espinosa, o texto põe em evidência a operação deleuziana de leitura, suas maneiras de agir e de saber.
Traduzido com rigor pelo coletivo GT Deleuze – 12, sob a supervisão de Luiz B. L. Orlandi, este é um livro raro, no qual – como deixa entrever o posfácio de François Zourabichvili – Deleuze ilumina Espinosa e Espinosa ilumina Deleuze.


Sobre o autor

Gilles Deleuze nasceu em 1925, em Paris. Estudou no Liceu Carnot e depois filosofia na Sorbonne, onde obteve o Diploma de Estudos Superiores em 1947. Entre 1948 e 1957 lecionou nos liceus de Amiens, Orléans e no Louis-Le-Grand, em Paris. Trabalhou como assistente em História da Filosofia na Sorbonne entre 1957 e 1960, e foi pesquisador do CNRS até 1964, ano em que passou a lecionar na Faculdade de Lyon, lá permanecendo até 1969. De 1969 a 1987, deu aulas na célebre Universidade de Vincennes, um dos polos do ideário de Maio de 1968, quando firmou a sólida e produtiva relação com Félix Guattari de que resultaram os livros O anti-Édipo (1972), Kafka (1975), Mil platôs (1980) e O que é a filosofia? (1991). É autor também de obras fundamentais como Diferença e repetição (1968), Lógica do sentido (1969), Cinema 1: a imagem-movimento (1983), Cinema 2: a imagem-tempo (1985) e Crítica e clínica (1993), além de estudos sobre Hume, Kant, Bergson, Nietzsche, Espinosa e Foucault, entre outros. Faleceu em Paris, em 1995.

 


Sobre o tradutor

O GT Deleuze – 12 é um coletivo coordenado por Luiz B. L. Orlandi e integrado por doze professores e pós-graduandos da Unicamp, Unesp e Unifesp: Adriana Barin de Azevedo, Alexandre Piccini Ribeiro, Diogo Gondin Blumer, Guilherme Ivo, Janir Batista, José Luiz Pastre, Laisa Blancy de Oliveira Guarienti, Luiz B. L. Orlandi, Marcus Pereira Novaes, Maria Fernanda Novo, Roberto Duarte Santana Nascimento e Vivian Marina Redi Pontin.

CRISE DA MEDIDA, DECLÍNIO DA OBEDIÊNCIA VOLUNTÁRIA AO SABER entre presunção de competência e incompetência

Utilizando a velha presunção de incompetência, grandes máquinas públicas ou privadas, a burocracia, a mídia publicidade: a tecnocracia. as empresas, a política, as universidades, as estruturas administrativas, às vezes até a ciência… impõem seu poderio gigantesco se dirigindo a supostos imbecis, denominados de público e desprezados pelos meios de comunicação de massa. Na companhia de semelhantes que eles supõem competentes, mas nem tão seguros

(…)

As grandes instituições declinam.

(…)

No final da faculdade, aos 20 e poucos anos, me tornei epistemólogo, palavra pomposa para dizer que estudava os métodos e os resultados da ciência, tentando, às vezes, julgá-los. Àquela época, éramos poucos no mundo inteiro e nos correspondíamos. Meio século depois, qualquer um da rua com o celular decide sobre energia nuclear, sobre barrigas de aluguel, sobre transgênico, sobre quimica, sobre ecologia. Hoje, que não me filio mais àquela disciplina, todo mundo se torna epistemólogo. Há presunção de competência. Não riam, dizem: quando a chamada democracia deu direito de voto a todo mundo, precisou fazer isso contra quem gritava ser um escândalo tal direito ser dado de maneira equivalente aos ajuizados e aos doidos, aos ignorantes e aos instruídos. É o mesmo argumento que retorna

M.S

 

A desmedida se travestindo de medida.

A desmedida das novas dores que requerem de nós outra coisa para a qual ainda não temos nomes adequados.

Talvez as crianças sejam aquelas que vivem na carne o fato de que a medida voôu pelos ares, de que a medida que regula nossa vida é desmedida, caduca, mortífera.

No trabalho e na formação há uma relação com a incomensurabilidade da dor e sua desmedida.

Com a corrosão do costume se põe cada vez mais em xeque a medida do trabalho, da razão, da razão de Estado.

É a crise da medida.

Há talvez uma desmedida pressentida, que extrapola os recursos expressivos disponíveis por crianças, precisando, portanto, enunciar-se na linguagem da desatenção e agitação sem medida ou no polo do autismo.

Aqui a dor nunca é exclusivamente individual, ao contrário, ela é uma chave que abre a porta para o comum e também vem dele.

A desmedida se travestindo de medida.

No contemporâneo a hybris (desmedida) é o que pode dar também o caráter desmedido do próprio pensamento quando confrontado à “desmedida absoluta dos acontecimentos”.

É possível que estejamos em um momento assim, em que voam pelo ar muitas “medidas”, do valor, do trabalho, do tempo, do sujeito, do Estado, da governança global, do controle da vida, e vem à tona, por toda parte, a desmedida dessa medida do poder, a desmedida das novas dores que requerem de nós outra coisa para a qual ainda não temos nomes adequados, e que as agitações, autismo, desatenções, cansaço, hiperconexões, adoecimentos do presente deixam apenas entrever, a seu modo.

MPPPAH

 

maturidade significa encontrar uma seriedade de criança ao brincar

Há um preconceito infantil, segundo o qual o mestre apresenta um problema, sendo nossa a tarefa de resolvê-lo e sendo o resultado desta tarefa qualificado de verdadeiro ou de falso por uma autoridade poderosa. E é um preconceito social, no visível interesse de nos manter crianças, que sempre nos convida a resolver problemas vindos de outro lugar e que nos consola, ou nos distrai, dizendo-nos que venceremos se soubermos responder: o problema como obstáculo e o respondente como Hércules. É esta a origem de uma grotesca imagem da cultura, que se reencontra igualmente nos testes, nas instruções governamentais, nos concursos de jornais (em que se convida cada um a escolher segundo seu gosto, com a condição de que este gosto coincida com o de todos). Seja você mesmo, ficando claro que este eu deve ser o dos outros. Como se não continuássemos escravos enquanto não dispusermos dos próprios problemas, de uma participação nos problemas, de um direito aos problemas, de uma gestão dos problemas. (G. D. D R)

Devir-adulto: um certo aborrecimento responsável, uma bondade exagerada, o recalcamento dos afetos vitais que habitam a infância, a saber, uma determinada disposição para o jogo e o conflito. A apologia da sociedade civil não faz mais do que voltar a jogar em escala global o ideal da passagem a uma idade adulta onde poderíamos por fim dispensar o nosso tutor – o Estado, porque teríamos finalmente compreendido; seríamos finalmente dignos de nos governar a nós próprios. Esta ladainha põe às suas costas tudo o que se liga tristemente ao devir-adulto[1]. (C. I)

Pensar sem princípios, na ausência de Deus, na ausência do próprio homem, tornou-se a tarefa perigosa de uma criança-jogadora que destrona o velho Mestre do jogo e que introduz os incompossíveis no próprio mundo estilhaçado (a mesa quebra-se… ). Porém, nessa longa história do “niilismo”, que ocorreu antes de o mundo perder seus princípios? Mais perto de nós, foi preciso que a Razão humana desmoronasse como último refúgio dos princípios, o refúgio kantiano: ela morre de “neurose”.   (G D. A D.)

um inacabamento próprio à vida, ali onde ela se encontra em estado mais embrionário, onde a forma ainda não ‘pegou’, é a atração irresistível que exerce esse estado de Imaturidade, onde está preservada a liberdade de “seres ainda por nascer”… Isso poderia ser especialmente marcante no âmbito da educação, se soubéssemos enxergar esses “seres ainda por nascer” no tateamento que lhes cabe viver, na experimentação que deveria ser seu direito, na aposta em sua indeterminação, sem coibi-los ou apenas domesticá-los, sem insensibilizá-los para tudo aquilo que não serve a nossos desígnios de poder, de pressa, de produtividade, de institucionalidade, com todas suas blindagens e formatações[2] (P P P)

Será que de vez em quando saberemos nos tornar como as crianças que constroem na praia o dia inteiro castelos de areia e, com a mesma alegre excitação, veem a maré da tarde destruí-los?” (H de É)

Na Literatura, de tanto forçar a linguagem até o limite, há um devir animal da própria linguagem e do escritor e também há um devir criança, mas que não é a infância dele. Ele se torna criança, mas não é a infância dele, nem de mais ninguém. É a infância do mundo. Os que se interessam pela sua própria infância que se danem e que continuem a fazer a Literatura que eles merecem. Se há alguém que não se interessa por sua própria infância, este alguém é Proust. A tarefa do escritor não é vasculhar os arquivos familiares, não é se interessar por sua própria infância. Ninguém se interessa por isso. Ninguém digno de alguma coisa se interessa por sua infância. A tarefa é outra: devir criança através do ato de escrever, ir em direção à infância do mundo e restaurar esta infância. Eis as tarefas da literatura . (G D)

[1] https://laboratoriodesensibilidades.wordpress.com/2016/06/17/devir-adulto-um-certo-aborrecimento-responsavel-uma-bondade-exagerada-o-recalcamento-dos-afetos-vitais-que-habitam-a-infancia-a-saber-uma-determinada-disposicao-para-o-jogo-e-o-conflito-a-apologi/

[2] https://laboratoriodesensibilidades.wordpress.com/2016/05/08/depoimentos-das-ocupacoes-dos-secundaristas-onde-a-forma-ainda-nao-pegou-inteiramente/

GATOS EM ISTAMBUL. É curioso, pois muita gente, muitos humanos não têm mundo. Vivem a vida de todo mundo, ou seja, de qualquer um, de qualquer coisa, os animais têm mundos. Geralmente as pessoas que gostam dos animais não têm uma relação humana com eles, mas uma relação animal. Animais domésticos não-familiares, não-familiais são o esqueleto desvago de Istambul (legendas em português)

“Não há mais o que esperar. É preciso reagir a partir de onde estamos, com as armas de que dispomos. É preciso fazer proliferar as iniciativas, mesmo que no plano micro, para afirmar que não aceitamos a investida criminosa contra o povo brasileiro e o próprio país”.

Por Laymert Garcia dos Santos*, na revista Brasileiros

 

Laymert GarciaLaymert Garcia

Como nos tempos do fascismo, o intolerável se infiltra aos poucos. Mas já está nos nossos bairros, na nossa porta (na periferia do Rio, de São Paulo e outras grandes cidades faz tempo que ele enegrece e enluta a vida dentro das casas). Foi essa pulsão de morte, explodindo na nossa cara, que levou um grupo de moradores de Pinheiros a reagir à execução à queima-roupa do catador Ricardo Nascimento pela Polícia Militar, sem razão alguma.

O que esse acontecimento nos ensina? Que a política de extermínio dos pobres no Brasil se intensificou e que, a partir de agora, a “limpeza” étnica e social passa a ser feita abertamente, à luz do dia, com requintes de sadismo. “Cidade Linda” quer dizer especificamente isso: extermínio dos pobres, de todos os que “sujam” a beleza da paisagem da capital. “Cidade Linda” é a eliminação de tudo o que não se identifica com a Berrini, a Avenida Paulista e a Faria Lima, e os mafiosos projetos de privatização e venda dos “ativos” da metrópole.

Nessa estratégia, governo Dória e governo Alckmin mais do que convergem: há conluio e intensa cooperação (apesar da briga de foice entre os “líderes” pela candidatura à Presidência). Polícia Militar e Guarda Civil Metropolitana são os braços armados para a execução da “limpeza” – contando com o endosso do Judiciário e do Ministério Público, é claro.

Mas não são só eles os executantes: desde que Dória assumiu a Prefeitura, multiplicam-se as ações sádicas contra os pobres – da violência explícita na Cracolândia aos jatos de água nos moradores de rua, nas noites geladas de São Paulo, da invocação da “lei” para proibir a distribuição de sopa às intervenções constantes do rapa, tirando os míseros pertences para inviabilizar o povo de rua, passando pelo enlamear sistemático da praça que os craqueiros ocupavam…

À execução de Ricardo Nascimento, como sempre impune e acobertada pelas autoridades, seguiu-se a morte, por AVC, de Piauí, companheiro de rua do catador. No dia seguinte à morte de outros três moradores de rua mortos de frio, um deles, ironicamente, na frente da Faculdade de Saúde Pública, na avenida Doutor Arnaldo.

Têm razão os militantes do movimento que protesta contra o genocídio dos jovens negros – é política de extermínio, mesmo! Assim como no Brasil rural, proliferam os assassinatos de líderes camponeses, quilombolas e indígenas (nesta mesma semana, o “Presidente” Temer entregou aos ruralistas, na bandeja, a inviabilização de novas demarcações de terras indígenas, caracterizando, além de mais uma violação da Constituição de 1988, um crime humanitário e ambiental que já está sendo avaliado no exterior).

Não é mais possível tolerar o intolerável. A corda rompeu-se, a paciência acabou. Desde a deslegitimação programada do governo Dilma Rousseff assistimos diariamente à escalada da violência fascista em todos os níveis e esferas – a começar pelo Judiciário, que viola as leis, acoberta os desmandos e colabora na instauração do Estado de Exceção em nome de uma suposta luta “contra a corrupção”.

Não há mais o que esperar. É preciso reagir a partir de onde estamos, com as armas de que dispomos. É preciso fazer proliferar as iniciativas, mesmo que no plano micro, para afirmar que não aceitamos a investida criminosa contra o povo brasileiro e o próprio País. É preciso articular tais iniciativas até que elas se tornem um tsunami que estoure a muralha de impunidade a proteger governos ilegítimos, elites corruptas e corruptoras, juízes produtores de injustiça – pulsão de morte a sugar a vida de brasileiros como a do catador Ricardo Nascimento, cujo único “crime” foi exercer uma profissão que, segundo a BBC, é responsável pela parcela mais decisiva da reciclagem do lixo urbano, e que seria extremamente cara se fosse remunerada como deveria.

Ricardo Nascimento foi executado porque sua vida de brasileiro super-explorado não valia nada, mesmo sendo ele extremamente produtivo.

*Laymert Garcia dos Santos é professor titular do departamento de Sociologia/IFCH da Universidade Estadual de Campinas e bacharel em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

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