DICAS DE LIVROS DE PETER PÁL PELBART

“Acho que só devemos ler a espécie de livros que nos ferem e trespassam. Se o livro que estamos lendo não nos acorda com uma pancada na cabeça, por que o estamos lendo? Porque nos faz felizes, como você escreve? Bom Deus, seríamos felizes precisamente se não tivéssemos livros e a espécie de livros que nos torna felizes é a espécie de livros que escreveríamos se a isso fôssemos obrigados. Mas nós precisamos de livros que nos afetam como um desastre, que nos magoam profundamente, como a morte de alguém a quem amávamos mais do que a nós mesmos, como ser banido para uma floresta longe de todos. Um livro tem que ser como um machado para quebrar o mar de gelo que há dentro de nós. É nisso que eu creio.”
Franz Kafka, carta a Oscar Pollak, 1904

1. Conversas com Kafka, de Gustav Janoush

Impressão de ouvir ao vivo a voz de quem captou os movimentos subterrâneos do século. Puras pérolas. Para se ler em paralelo com os diários de Kafka e, obviamente, com o conjunto de sua obra única.

2. À Sombra do Vulcão, de Malcolm Lowry

A embriaguez vertiginosa, para dar conta daquilo que corta ao meio e irremediavelmente o fio de uma vida. Velocidade comparável ao Moby Dick, de Melville. O tema principal, como diz o autor, é o terror que inspiram ao homem suas próprias forças interiores.

3. O Sobrinho de Wittgenstein, de Thomas Bernhard

Um livro sobre amizade e inveja, escrito num ritmo ofegante, alucinatório. O autor austríaco aciona sua metralhadora giratória contra a sociedade burguesa -e como em toda sua obra, é a literatura a serviço da extinção, isto é, da salvação.

4. A Conversa Infinita, de Maurice Blanchot

A voz quase inaudível que devolveu à escrita sua natureza descontínua, fragmentária, impessoal, plural. Com seu estilo evanescente e inimitável, que marcou a geração do pós-guerra francês, Blanchot inaugurou uma modalidade de pensamento.

5. É Isto um Homem?, de Primo Levi

O mais digno testemunho literário sobre os campos de extermínio nazistas. Para se ler em paralelo com a tese recente de Giorgio Agamben sobre o campo como paradigma político da atualidade, em Homo Sacer I: O Poder Soberano e a Vida Nua (UFMG, 2002).

6. Théorie du Bloom, Tiqqun (Mille et une nuits, 2001)

Espécie de manifesto pós-situacionista, traça um dos mais cáusticos retratos do homem comum contemporâneo em seu ocaso niilista. Assinado pelo coletivo anônimo (recusam-se a indicar o nome dos autores) da quase inencontrável revista “Tiqqun”.

7. Puissances de l´Invention, de Maurizio Lazzarato (Les Empêcheurs de Penser en Rond/ Seuil, 2002)

Leitura originalíssima das mutações na produção e sociabilidade contemporâneas, a partir de um teórico quase esquecido: Gabriel Tarde. Pode ser lido como complemento (e contraponto) ao portentoso Império, de Negri e Hardt -ambos instrumentos preciosos para se pensar a resistência hoje.

8. Mil Platôs, de Gilles Deleuze e Félix Guattari

Minha “caixa de ferramentas” predileta, fonte inesgotável de conceitos e associações. A filosofia transversalizando múltiplos campos, vampirizando-os e os fecundando. Como toda a obra de Deleuze, é a liberdade do pensamento em ato.

9. Ditos e Escritos, de Michel Foucault

Os pequenos textos sobre loucura, prisões, medicina, poder, literatura, homossexualismo, revolução -escrita cintilante e generosidade ímpar, para deliciar-se e usar.

10. Fragmentos Póstumos, de Friedrich Nietzsche (na edição de Colli e Montinari, em francês ou alemão)

Mina de ouro, filosófica e literária, onde o pensador vai até o limite de suas intuições -um experimento transfigurador.

11. Ética, de Baruch de Espinosa

O livro mais ilegível e arrebatador da história da filosofia. Sibilino, diamantino -o pensamento em estado puro. O ápice inassimilável da filosofia -a imanência.

Peter Pál Pelbart
É doutor em filosofia e professor na PUC-SP. É tradutor e estudioso da obra de Gilles Deleuze (traduziu para o português “Conversações”, “Crítica e Clínica” e parte de “Mil Platôs”). Escreveu sobre a concepção de tempo em Deleuze (“O Tempo Não-reconciliado”, Perspectiva, 1998), sobre a relação entre filosofia e loucura (“Da Clausura do Fora ao Fora da Clausura: Loucura e Desrazão”, Brasiliense, 1989, e “A Nau do Tempo-rei”, Imago, 1993) e publicou, mais recentemente, “A Vertigem por um Fio: Políticas da Subjetividade Contemporânea”, Iluminuras, 2000.

“A Privataria Tucana”, em PDF

O livro “A Privataria Tucana”, do jornalista Amaury Ribeiro Jr., já esgotou os 15 mil exemplares em apenas um dia e tem gerado repercussão nas redes sociais desde que foi lançado, na sexta-feira (9). A obra relata irregularidades durante o processo de privatizações de empresas públicas durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. O personagem central dessa história é o ex-governador de São Paulo José Serra, então ministro do Planejamento de FHC. O sucesso da publicação é tamanho que a versão em PDF já está disponível na web e o assunto ganhou a hastag #PrivatariaTucana no microblog Twitter.
Uma das maiores polêmicas que envolve a obra é a falta de atenção dada pelos grandes veículos de comunicação, com exceção da revista “Carta Capital”. A falta de credibilidade de Amaury Ribeiro Jr. seria o argumento para não divulgar as denúncias publicadas pelo jornalista. No ano passado, ele foi indiciado pela Polícia Federal sob a acusação de espionar José Serra e família durante a campanha eleitoral à presidência da República.

“Os citados no livro  ‘A Privataria Tucana’ seguem em profundo silêncio. A mídia, sempre pronta para investigar e manchetar [como é do seu ofício], também segue em silêncio. Um silêncio estrondoso. Se continuar assim, um silêncio estremamente revelador”, disse o comentarista político do Jornal da Gazeta Bob Fernandes.

 

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