Conferência Políticas da vida e produção do comum…e a vida em jogo com Peter Pál Pelbart

Domingo, 01 de setembro de 2013. Conferência de abertura do 13º Congresso Paulista de Saúde Pública, que será realizado de 31 de agosto a 04 de setembro de 2013, na cidade de São Paulo. O congresso tem como eixo central “O Público na Saúde Pública – A produção do (bem) comum”. Centro de Convenções Rebouças.
http://www.congressoapsp.com.br/programacao/index.php#2013-09-01

Terceira Perna e perda da montagem humana

Perdi alguma coisa que me era “essencial”, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar, mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar. Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? Nesta minha nova covardia – a covardia é o que de mais novo já me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la -, na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir. É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter uma ideia de “pessoa” e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver. A ideia que eu fazia de “pessoa” vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora? estarei mais livre? Não. Sei que ainda não estou sentindo livremente, que de novo penso porque tenho por objetivo achar – e que por segurança chamarei de achar o momento em que encontrar um meio de saída. Por que não tenho coragem de apenas achar um meio de entrada? Oh, sei que entrei, sim. Mas assustei-me porque não sei para onde dá essa entrada. E nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que soubesse para o quê. Ontem, no entanto, perdi durante horas e horas a minha montagem humana. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida (…) Foi como adulto então que eu tive medo e criei a terceira perna? Mas como adulto terei a coragem infantil de me perder? Perder- se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando. As duas pernas que andam, sem mais a terceira que prende. E eu quero ser presa. Não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. Mas enquanto eu estava presa, estava contente? Ou havia, e havia, aquela coisa sonsa e inquieta em minha feliz rotina de prisioneira? Ou havia, e havia, aquela coisa latejando, a que eu estava tão habituada que pensava que latejar era ser uma “pessoa”. É? Também, também. Fico tão assustada quando percebo que durante horas perdi minha formação humana. Não sei se terei uma outra para substituir a perdida. Sei que precisarei tomar cuidado para não usar superficialmente uma nova terceira perna que em mim renasce fácil como capim, e a essa perna protetora chamar de uma verdade Mas é que também não sei que forma dar ao que me aconteceu. E sem dar uma forma, nada me existe. E – e se a realidade é mesmo que nada existiu?!Quem sabe nada me aconteceu? Só posso compreender o que me acontece mas só acontece o que eu compreendo – que sei do resto? O resto não existiu. Quem sabe nada existiu! (…) Terá sido o amor o que vi? Mas que amor é esse tão cego como o de uma célula-ovo? foi isso? aquele horror, isso era amor? amor tão neutro que – não, não quero ainda me falar, falar agora seria precipitar um sentido como quem depressa se imobiliza na segurança paralisadora de uma terceira perna (…) Quem sabe me aconteceu apenas uma lenta e grande dissolução? E que minha luta contra essa desintegração está sendo esta: a de tentar agora dar-lhe uma forma? Uma forma contorna o caos, uma forma dá construção à substância amorfa – a visão de uma carne infinita é a visão dos loucos, mas se eu cortar a carne em pedaços e distribuí-los pelos dias e pelas fomes – então ela não será mais a perdição e a loucura: será de novo a vida humanizada. A vida humanizada. Eu havia humanizado demais a vida. C. L.

BIENAL SESC DE DANÇA 2013

 


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Sobre a Bienal SESC de Dança 2013

Lampejos no mar escuro

“Contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro. Todos os tempos são, para quem deles experimenta a contemporaneidade, obscuros. Contemporâneo é, justamente, aquele que sabe ver essa obscuridade, que é capaz de escrever mergulhando a pena nas trevas do presente.”

Giorgio Agamben

O que a seleção de coreógrafos e bailarinos reunidos em Santos para a oitava edição da Bienal Sesc de Dança diz sobre o estado atual da dança contemporânea? Falar de “estado da dança” não é a melhor estratégia, pois implicaria em fossilizar algo que, por definição, não cessa de mover-se. Como afirma Agamben, ver com nitidez o contemporâneo é tarefa tão impossível quanto enxergar os contornos de um objeto imerso na escuridão. Cada uma das companhias tem sua própria definição da atividade que desenvolve; os caminhos que as levam ao litoral paulista são tão díspares quanto seus anseios para o futuro.

Os espetáculos, vindos de cidades brasileiras tão diversas quanto Belo Horizonte, Curitiba, Florianópolis, Fortaleza, Rio de Janeiro, São Paulo, Teresina e Uberlândia, e de países como Bélgica, Chile, França e Uruguai, são de um modo geral fruto de aprofundadas reflexões teóricas. As criações dialogam com um largo espectro de disciplinas: história da arte, filosofia, literatura, música, cultura popular, sociologia, antropologia, arquitetura… No que talvez seja um paradoxo, à complexidade do pensamento corresponde uma cena simples.

Nela, o corpo existe em sua concretude, mas é menos uma superfície lisa de mármore sob os holofotes do que uma presença que respira mistério e transformação.

Não se trata de uma dança contemporânea hermética, destinada a um reduzido público de iniciados. O encanto e a graça acontecem de maneira muitas vezes lúdica, como resultado tanto do que é mostrado como do que está escondido. A palavra e o humor têm vez, provando que o que se vê em cena são, sim, corpos de bailarinos, abertos às mais diversas influências, interessados pelo legado do teatro, da arte contemporânea, da poesia… A reprodução de movimentos decorados pode eventualmente fazer parte do repertório. Já o gesto de se pensar e pensar a própria dança, dele nunca se abdica.

 

Programação completa: http://bienaldanca2013.sescsp.org.br/