Universidades ou fábricas?

Pesquisadores da Holanda criticam a introdução de práticas empresariais no ensino superior

Na edição de abril da revista científica Minerva, os pesquisadores Willem Halffman e Hans Radder publicaram texto contundente e provocativo. Sob o título “O Manifesto Acadêmico – Da universidade ocupada para a universidade pública”, os autores analisam criticamente a modernização do ensino superior holandês, frequentemente citado como exemplo de superação do anacrônico modelo torre de marfim. O tom é desinibido e panfletário, e conclama acadêmicos para uma ação transformadora.

Segundo Halffman e Radder, as universidades holandesas foram invadidas e ocupadas. O ocupante, no caso, não é uma força fardada ou milícia religiosa. Afinal, trata-se dos Países Baixos. Os autores referem-se a um verdadeiro lobo mau, o Lobo do Management. Segundo eles, o management é um regime obcecado com medições, controles, competição, eficiência e a ideia tortuosa de salvação econômica. Para expulsar a invasora e devolver as universidades aos cidadãos, os autores propõem que os próprios acadêmicos assumam o controle de seu destino e construam uma nova universidade pública, alinhada com o bem comum e com uma proposta de geração de conhecimento socialmente engajado.

Halffman e Radder advogam que o Lobo do Management invadiu a academia com um “exército mercenário de administradores profissionais, armados com planilhas, indicadores de desempenho e procedimentos de auditoria”. Seu inimigo são os acadêmicos, esses seres egocêntricos e autocentrados, pouco confiáveis, que precisam ser monitorados e controlados. As universidades foram conquistadas e colonizadas. Projetos de alta visibilidade e indicadores manipulados mostram para o público externo o sucesso do novo modelo. Entretanto, há uma sensação de revolta no ar: no “chão de fábrica”, o clima é tóxico e o moral é baixo.

O Lobo do Management cultua índices e rankings. Faz inventários de artigos publicados e comemora com champanhe cada posição galgada nas listas internacionais. A posição nas planilhas determina a sorte de pesquisadores e de departamentos. Vence a quantidade, pouco importa o conteúdo. Na batalha dos números, acadêmicos criam fábricas de artigos, assinam trabalhos uns dos outros, citam-se mutuamente e correm o mundo para promover seus textos. O que vale é a performance.

Enquanto isso, no mercado acadêmico, multiplicam-se os eventos e as revistas científicas. Sobram escritores e faltam leitores. Halffman e Radder argumentam que o fetiche dos indicadores está transformando a ciência, destruindo tudo que não é mensurável. Sob o

ocupador, a massa de acadêmicos comporta-se como um rebanho de ovelhas, mantido sob vigilância e controle.

O novo mantra é a busca da eficiência. Em lugar de recursos, as universidades ganham gestores. Resultado: nos orçamentos, recursos migram de laboratórios para serviços de relações públicas, da pesquisa para a contratação de consultores de marketing. A nova universidade aparece em anúncios de página inteira nos jornais, mantém websites atraentes e garante uma presença constante nas mídias sociais. Seus professores e pesquisadores devem tornar-se celebridades nos jornais, na tevê e, claro, nas palestras TED.

Com as práticas empresariais, o Lobo do Management impõe uma nova cultura. A busca da excelência, que flagelou empresas nos anos 80 e 90, chega décadas depois à universidade. É preciso ser “de topo”, publicar artigos em um seleto grupo de periódicos, ter os coautores certos, conseguir proeminência nos círculos mais prestigiosos, ser um hábil captador de recursos e gerenciar uma dócil equipe de pesquisadores juniores. Para se manter na ribalta, os tais pesquisadores “de topo” terceirizam o ensino para doutorandos e coagem orientandos a lhes conceder coautorias.

A história holandesa repete-se em diferentes latitudes e longitudes. Muitas universidades públicas tropicais são antediluvianas. Elas continuam a seguir o anacrônico modelo da torre de marfim e lutam para preservar pequenos privilégios. São perdulárias, ineficientes e ineficazes. São autocentradas e ignoram o mundo ao redor. Porém, começam a sentir os efeitos do “choque de gestão” descrito por Halffman e Radder. E, assim, somam às suas antigas patologias, o autismo e o imobilismo, as mais novas: produtivismo, exibicionismo e comportamentos para inglês ver. Algumas ovelhas exauridas e irritadas balem aqui e acolá. Porém, faltam-lhes direção e união.

http://www.cartacapital.com.br/revista/850/universidades-ou-fabricas-253.html

por Thomaz Wood Jr. — publicado 25/05/2015 03h00

Samuel Beckett no SESC – ocupação “Sozinhos Juntos” (teatro, dança, performances e encontros com pensadores)

Programação especial com espetáculos de teatro e dança, performances e encontros presenciais com pensadores contemporâneos, em torno da obra de Samuel Beckett

Cada encontro trará uma discussão de um aspecto diferente a cerca da temática. O formato da conversa é em torno de uma grande mesa, onde será servido café, chá e biscoitos. Dia 27/05 com Marília Panitz, dia 03/06 – Luiz Fernando Ramos, 10/06 com Fábio Souza de Andrade, e dia 17/06 com Cassiano Sydow Quilici.

Grátis – Distribuição de ingressos 1h antes da apresentação

Mais informações no site:

http://www.sescsp.org.br/programacao/61042_OCUPACAO+SOZINHOS+JUNTOS#/content=programacao

http://www.sescsp.org.br/programacao/61061_CICLO+DE+PALESTRAS+A+MATERIALIDADE+DO+AUSENTE#/content=saiba-mais

VÍDEO da luta contra o veto à Cátedra Michel Foucaullt pela mantenedora da PUC-SP (Fundação São Paulo). Participaram do debate noturno Salma Tannus Muchail (Faficla), Edson Passetti (Facsoc) e Peter Pál Pelbart (Fachs). Em 13/05/15.

Trecho final da fala de Peter Pál Pelbart:

“A morte, porém, como a de Deus, aliás, só é um espetáculo melancólico aos olhos daqueles que não apreenderam o que aí se prenunciava. Para os demais, é motivo de serenidade, ou ‘serenidade jovial’, como dizia Nietzsche. No avesso do ocaso niilístico, uma outra figura se insinua, e nada sombria. Se niilismo há aí, é preciso tomá-lo segundo a mais alta definição de Nietzsche. Como no caso do eterno retorno, também o niilismo pode ser lido numa dupla acepção, como a mais desprezível das formas de pensamento, mas também como a mais divina. Depende, diz Nietzsche, em última instância, de quem a enuncia; ou, depende ‒ ainda Nietzsche ‒ da força acumulada, da matéria explosiva das novas necessidades e dos novos insatisfeitos que reivindicam essa doutrina.

 

Eu vou para minhas considerações finais. No primeiro grande encontro internacional em torno do pensamento de Foucault, organizado em Paris depois da sua morte, coube a Paul Veyne o encerramento, com sua comunicação intitulada ‘Foucault e o ultrapassamento no niilismo’. E a definição de niilismo é curiosa. Diz Paul Veyne: ‘Chamemos niilismo os momentos da história em que os pensadores têm o sentimento de que as verdades são sem verdade e sem fundamento. Do niilismo deveria dizer-se o mesmo que das faces norte dos Alpes: só se pode sair delas por cima. Em suma ‒ ainda Paul Veyne ‒, se nada pode ser fundado, resta-nos, nós. A obsessão em fundar caracteriza a idade antropológica, de Kant a Husserl. Cabe-nos fazer outra coisa: viver e querer o que se quer’. Estonteante simplicidade a de Paul Veyne. Eu a traduziria assim: com a morte de Deus, ou do homem, ou das instâncias que pareciam oferecer-lhes alguma perenidade, resta-nos nossa atualidade; resta-nos nossa vida na sua indeterminação errática, mas ao mesmo tempo, resta-nos, talvez, tomar posse de nossa vontade. O riso ou a equanimidade de Foucault na esteira da serenidade jovial de Nietzsche tem a ver com isso. É preciso que venha abaixo tudo aquilo que amarra o homem à sua imagem, e tudo aquilo que o impede de despregar-se dela ou de si. Não é outro o sentido da genealogia do sujeito, da historicidade que Foucault lhe atribui. O sentido ético de seus últimos trabalhos teóricos fica mais claro, conforme as suas próprias palavras: uma análise que tenha um sentido para o que queremos aceitar, recusar, mudar de nós mesmos em nossa atualidade. Trata-se, em suma, de partir em busca de uma outra filosofia crítica, uma filosofia que não determina as condições e os limites de um conhecimento do objeto, mas as condições e as possibilidades indefinidas de transformação do sujeito.”

 

“A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte…É ela o suspiro indefinível que exalam ao luar as nossas noites do norte. “ Essa letra e música abaixo: