Agora FHC é imortal da academia de letras. João Ubaldo AVISOU, FHC: Você é um medíocre ! João Ubaldo Ribeiro escreveu em 1998: “ E, falando na Academia, me ocorre agora que o senhor venha a querer coroar sua carreira de glórias entrando para ela. Sou um pouco mais mocinho do que o senhor e não tenho nenhum poder, a não ser afetivo, sobre meus queridos confrades. Mas, se na ocasião eu tiver algum outro poder, o senhor só entra lá na minha vaga, com direito a meu lugar no mausoléu dos imortais

MANIFESTO POR UM MEMORIAL DA AMNÉSIA E O VÍDEO A MARÉ SANGRA (com Marcelo Freixo)

Vamos fazer o trabalho de luto dos mortos.

Estamos indignados. Saímos às ruas.

Somos diferentes, mas de todos lados irrompe algo que parece ser da mesma ordem: algo que vimos chamando de “violência”. Homens armados pelo Estado contra os corpos das pessoas que soltam suas vozes e caminham pelas ruas. A mídia criminosa que desqualifica as ações justas dos movimentos sociais e mentem sem a menor vergonha. As Mães das Favelas não conseguem enterrar tantos filhos. Jovens cooptados para o tráfico a cada dia. A Comissão da Verdade abre a caixa preta das torturas e dos assassinatos da ditadura. Os líderes indígenas de todo o país, e sobretudo os do Mato Grosso do Sul, músicos e agricultores da multiplicidade de grãos, que atravessam pacíficos e corajosos um estado devastado pela fúria do agronegócio, recebem há décadas contra si tiros de pistoleiros, injúrias, atropelamentos. Os sistemas ecológicos — rios, cachoeiras, florestas, peixes — são destruídos com o apoio da força bélica, produzindo mais pobreza. No cotidiano, o racismo que construiu uma arraigada hierarquização na sociedade, na exclusão dos negros para as periferias e os cárceres.

Violência após violência. Naturalizamos a violência. Torturadores andam soltos nas ruas, no Congresso, nos ministérios, nas polícias, no exército, utilizando os mesmos métodos. Alguns homens fortes da Ditadura pretendem não se lembrarem ou não terem tido conhecimento dos crimes das torturas e assassinatos. Cada indígena morto e negro favelado é apenas um a mais nos noticiários.

Caminhamos sobre mortos. Fomos construídos sobre cadáveres. Tropeçamos sobre os cadáveres mal enterrados. Fomos erguidos sobre a maior catástrofe demográfica do planeta: o genocídio dos povos indígenas. Vivemos como zumbis andando sobre estes escombros.
É hora de parar e enterrar estes cadáveres. Expurgar o holocausto. Saber que ele existe. Temos milhares de mães nas favelas chorando seus mortos, pelos cantos dos hospitais onde trabalham como faxineiras, nas casas como domésticas, nas ruas como garis. Temos milhares de mães com os filhos encarcerados. Temos centenas de indígenas chorando seus filhos atropelados, seus pais assassinados. O que fizemos com tudo isto? Como podemos aspirar à tranquilidade burguesa nos bairros da classe média se negamos que esta violência existe?

Como, enfim, pensar o futuro se não acompanhamos estes cadáveres em nosso trabalho de luto?

Vamos marchar pelas ruas levando em nossos braços a memória de cada um destes mortos da história de cada família, disso que vimos chamando de “Brasil”. Deixemos de aclamar este país como o do povo pacífico.
(Rosângela Pereira de Tugny, professora da Escola de Música da UFMG)

BALAIO – SESC SANTOS HOJE ÀS 21H

A figura paterna, o artista à margem e a angústia da memória são alguns dos temas evocados por Balaio, espetáculo composto por três cenas autorais e independentes, que se deixam alinhavar por um fio tênue de sentidos e propostas cênicas. A peça é fruto de uma pesquisa estética promovida pelo Centro de Pesquisa Teatral (CPT), coordenado pelo diretor Antunes Filho, incentivando a busca de uma nova expressão teatral. Teatro. Livre. Grátis.

 

Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas as margens que o comprimem, dizia uma faixa na manifestação desta quinta, citando Brecht em meio ao indizível. Quando a vi, acabávamos de sair do Teatro Municipal, caminhávamos juntos pelas ruas do centro, chegávamos à Consolação e nos púnhamos a subir em bloco, sempre tranquilos, firmes, quase em silêncio, entoando de vez em quando algum canto disperso. Era uma marcha, mais que um protesto. O que parecíamos querer era apreciar aquela possibilidade de estarmos juntos, de usarmos a primeira pessoa do plural que tantas vezes a cidade bane. Diria até que nos faltava eloquência. Os cantos eram todos simples, duas ou três palavras em sequência, e não sabíamos, embora fosse tão óbvio desde sempre, que aquilo que Brecht nos dissera iria se converter em profecia.

Foi então que se converteu em profecia. As margens feitas de escudos e cassetetes começaram a comprimir aquele rio calmo feito de gente. O que era lento virou correria, em solavancos ditados pelo ritmo das bombas de gás lacrimogêneo. Sem violência era tudo o que gritávamos agora, e recuávamos ainda incrédulos, para nos abrigarmos, como achávamos que poderíamos, no espaço tão público da Praça Roosevelt. O rio já não fluía avenida acima, o rio viraria uma lagoa na praça, tão pacífica, mas as margens quiseram continuar comprimindo e a polícia não parou ali: continuou arremessando bombas no próprio gramado da praça, em suas escadarias, vindo cada vez mais para cima, com suas armas tão inverossímeis, seus tiros na água tão efetivos, nos afugentando também dali. Para onde?, nos perguntávamos. Por onde querem que sigamos o caminho? 

Por aí foi que entendi melhor o sentido do protesto, embora tantas causas justas se professassem desde o início. Protestávamos por transporte, pelo direito de fluir nesta cidade supostamente livre, mas protestávamos também pelo direito de protestar, pelo direito de existir. Direito de existir a pé, de existir com voz, e não como uma caixa metálica dotada apenas de buzina, essas caixas metálicas que inundam a cidade todos os dias.

Foi triste o protesto de ontem, protesto de tantas lógicas invertidas. Ontem Brecht esteve mais certo do que gostaria: as margens comprimiram as águas até não haver mais água, até não haver mais rio, e os gritos que ainda pensávamos foram afogados garganta adentro. Fica sempre a certeza, no entanto: por algum lugar a água sempre há de fluir.”

Escrito de Julián Fuks.