Cabeça Dizpensa, corpo desvago: experimentações de um Laboratório de Sensibilidades

Grupo de articulação e estudos do Laboratório de Sensibilidades

Escrito coletivo publicado na Fractal: Revista de Psicologia, v. 29, n. 2, p. 96-102, maio-ago. 2017.

http://www.periodicoshumanas.uff.br/Fractal/article/view/2156/1436

Resumo

O Laboratório de Sensibilidades da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) é uma tentativa de construir experimentos abertos às alteridades, com ações em diversas superfícies que podem reverberar dentro e fora de seu lugar material. Neste artigo expomos algumas experiências que transversalizam o corpo desvago do Laboratório e suas incidências nos corpos que o compõem e decompõem. Narramos uma experimentação com uma comunidade-corpo, que se modulou em uma performance que nomeamos coletivamente de “Cabeça Dizpensa”. Discutimos, dentre outras, as noções de intervenção e interferência, e um itinerário de problematizações e pequenas narrativas com ecos do laboratório.

Palavras-chave: Laboratório de Sensibilidades; corpos; experimentação; interferência.

Lo(o)se-Head, diffuse body:

experimentations with a Sensitivities Laboratory

Abstract

Sensitivities Laboratory at Federal University of São Paulo (UNIFESP) is an attempt of creating experiments that are open to alterities, with actions in many different surfaces which can reverberate into and out of its material place. In this paper we expose some experiences that transversalize the Laboratory’s diffuse body and their incidences in the bodies that compose and decompose it. We report an experimentation with a community-body, which has shaped into a performance we collectively named “Lo(o)se-Head”. Among others, we bring the discussion of the notions of intervention and interference, as well as an itinerary of questionings and short narratives that bring echoes from the Laboratory.

As conchas são os ossos do oceano, disperso esqueleto, desvago.

Guimarães Rosa

Preliminares

Num dia desses, entrando em um shopping qualquer, noto que minha passagem para dentro do prédio era marcada por uma cortina de ar, tão sorrateira quanto constante. Senti-me entrando em um laboratório daqueles brancos, com um cheiro amargo de limpeza, onde todo tipo de ruído permitido parece surgir de caixas de som instaladas: objetos metalizados, animais farfalhando em gaiolas, jaleco raspando pelos cotovelos. Era como se as condições fossem milimetricamente filtradas para que tivesse início algum experimento sem fim. Controlam-se os microrganismos no ar, a iluminação, a alimentação, o tempo de permanência em frente aos vidros, o limite dos espaços, a cintilância dos objetos. Durante a dita purificação corporal, tornar-nos-íamos livres para medir e consumir os valores segundo nossas vontades mais conscienciosas. O ar-condicionado mantém a temperatura constante, há uma miríade de silenciosos aparelhos que detectam, acompanham e aplainam oscilações conforme as várias médias definidas e modificáveis. Nossos órgãos se adaptam a tais modulações tendendo a avaliar as oscilações a partir dessas médias do que já estamos acostumados e do que vai se acostumando em nós. Os corpos se tornam lâminas em justaposição, havendo sempre uma superfície a ser conquistada e modulada; multiplicam-se as taxas, o leque de controle segue seu desdobramento, média ao lado de média: ar-condicionado, colesterol-condicionado, lactobacilos-condicionados, investimento-retorno-condicionados, serotonina-condicionada, hora-de-acordar-condicionada, número-de-palavras-em-uma-frase-condicionadas, satisfação-própria-condicionada etc.

Mas há um outro tipo de experimento em laboratório em que se tenta habitar, algo como um estúdio de produções abertas. Uma faixa sonora se desprende com a fricção entre focos de alteridade impossíveis de identificar, as oscilações são elas mesmas avaliações, quem experimenta é intérprete de uma música que não se sabe de onde veio nem quando se iniciou. Essas fugas sonoras não respeitam as paredes cronológicas, muito menos as de concreto e provocam descompassados. Uma síncope dos sentidos acompanha a aparição de corpos em nós: nossos corpos tornam-se possuídos por movimentos inusitados, o pensamento dispensa coisas imprescindíveis para um tipo de vida, a língua arrisca-se em gestos no limite do suportável, contornando desconcertada as beiradas do menos de tudo que se é. Aqui a alma é um estômago[1] e seu regime é uma brincadeira séria.

Ao engendrar performances, perturbações, ambiências, o Laboratório de Sensibilidades (LS) procura ser um lugar para estas possibilidades, de modo a criar espaços de germinação e espraiar-se. O LS tem se constituído em um folheado: ensaios e oficinas de dança, experimentos e oficinas abertas com performance, o grupo de estudos (GELS), o grupo de articulação do LS – que agencia ações no campus, em estágios e com coletivos de artistas – um blog com efeitos dentro e fora da UNIFESP e ações nos módulos de graduação e seminários de pós-graduação com incidência na formação de profissionais da rede de assistência social, saúde, saúde mental e educação. Alguns egressos, por exemplo, que passaram pelo Laboratório, referem as marcas das experimentações com o Clube dos Saberes,[2] de que agora lançam mão nos serviços das redes da Saúde Mental e Assistência Social, em proposições intergeracionais e com agenciamentos entre profissionais e movimentos sociais.

Reunimos narrativas recortadas e espalhadas que aqui arranjamos em um conjunto heterogêneo. Por isso, diferentes tempos verbais podem se misturar, sem linearidade ou sequência cronológica. Passado e presente, juntos na mesma folha, orientam-se pelos fluxos de pensamento e das experiências que nos atravessam, permitindo entrever espaços-tempos que nos acompanham.

 

Cabeça dizpensa

 

como dizer – ao ver –

entrever –

crer entrever –

querer crer entrever –

isto de querer crer entrever o que onde

Samuel Beckett

 

Era início de 2012, e ocorria a desocupação do prédio da Ponta da Praia – uma das unidades do campus Baixada Santista, espaço em que estava o Laboratório de Sensibilidades. A mudança ocorreria para o prédio na rua Silva Jardim, recém-construído para abrigar aulas e diversos laboratórios (dentre eles o LS), bem como a biblioteca e o restaurante universitário. Após a saída do prédio da Ponta da Praia, soubemos que o andar da Silva Jardim em que ficaria o Laboratório ainda estava em obras e levaria algum tempo para ficar pronto. Um incidente com a cobertura de gesso do teto, após um dia de chuva, mostrou que havia readequações estruturais que precisavam ser feitas para que fosse seguro habitá-lo. O LS ficou, então, sem espaço físico por alguns meses.

Nesse meio tempo, começamos[3] a pensar em uma reinauguração para quando o Laboratório estivesse pronto. Durante a preparação, lembrávamos que ocorrera uma performance inaugural[4] em 2007. Nesse recomeço pensávamos que uma produção coletiva poderia marcar esta nova chegada. Alguém trouxe a foto da obra de Lygia Pape, O Divisor, que é a montagem de um corpo coletivo público. Um tecido com fendas na superfície com muitas cabeças, um corpo aberto andando sem uma cabeça única guiando.

Em outra semana, assistimos o vídeo da bailarina e coreógrafa portuguesa Vera Mantero: Vamos sentir falta de tudo aquilo que não precisamos em que os participantes apareciam com cabeça de manequim de onde retiravam coisas em silêncio. Também a problemática do “comum” como uma espécie de categoria política e clínica estava presente em nossas problematizações. Ao mesmo tempo, vínhamos trabalhando com a noção nietzschiana de que A alma é um estômago, isto não é uma metáfora (LS, 2012) e com as antropofagias. Interessaria uma seleção nutricional, ético-política, que experimenta e interfere com diferentes regimes: comer certas coisas, outras não, privar-se do que nutre alguns tipos de órgãos, arriscar o paladar com pratos atípicos, abster-se do cardápio do dia, exercitar músculos em jejum etc.

Isso tudo foi se recombinando em nós ao modo da estratégia de William Burroughs (1994, p. 57) que anotava no que mais apreciava, as iniciais GETS, de Good Enough to Steal: bom o bastante para roubar, pois apostávamos no roubo de partes, de fragmentos criteriosamente rapinados que constituíram os elementos pelos quais, ou que em seus intervalos, tivemos acesso a sons e imagens que interessavam.

Parecia-nos boa a cena de tirar coisas das cabeças; as do vídeo eram grandes, semelhantes a de manequim. Pensamos que cabeças de boneca de tamanho grande, de plástico e porcelana, funcionariam para a nossa performance – embora ainda não a chamássemos assim. Aos poucos começaram a habitar o Laboratório cabeças de boneca, que iam fazendo parte de uma decoração algo bizarra: cabeças, cabeças, muitas cabeças. A foto de O Divisor também ficava à vista. No processo da produção da performance, a ambiência do Laboratório sofreu torções: virou depósito de bonecas, panos variados, cozinha improvisada, materiais de umbanda etc. Surgiu a ideia de uma espécie de cortejo com o longo pano branco translúcido, com aberturas para deixarmos as cabeças de fora, em que carregássemos as outras cabeças.

O tempo que levamos digerindo nossas múltiplas questões e gestando a reinauguração não nos é claro, mas a lembrança que acessamos é de que o caminhar foi lento. Muitas vezes parecíamos falar novamente as mesmas coisas: “será que entramos em looping?” Alguém dizia ou trazia algo inédito, ou ainda alguém ouvia como inédita alguma coisa já diversas vezes enunciada. Produziam-se então diferenças. Retornávamos.

Num dado momento, decidimos uma data. Isto ajudou a trazer a produção para um plano de atualização – de quais agenciamentos precisamos para que aconteça? Definimos quais objetos sairiam das cabeças; pensamos em convidar a bateria da UNIFESP – Repicapau – para acompanhar; “que tal um bolo-intestino? Vi ontem à noite na TV Folha”. Resolvemos usar TNT branco e translúcido emendado com cola quente para fazer o nosso Divisor e pensamos em grudar pegadas no chão, mostrando o caminho do saguão até o LS, no terceiro andar. A reinauguração tomava delineamentos, e seguiu se formando até o momento de acontecer.

05 de dezembro de 2013: Em uma das paredes do saguão da Universidade, um pano anunciava o nome da produção: Cabeça Dizpensa.

Cabeça-despensa com ‘s’, é um verso, slogan, verbete, anti-slogan de Palavra Desordem de Arnaldo Antunes (2002). O enunciado pairou na conversa conseguindo reunir tantos sentidos daquilo que estávamos construindo, gestando, ruminando há tempos. Essa performance também carregava marcas de ações anteriores do projeto de extensão Literatura e Clínica,[5] ligado ao Laboratório. De início se chamava “Palavra”, em seguida Despalavra. A brincadeira ressoava com um movimento nosso de esvaziar, de dispensar, tirar o excesso daquilo que não precisamos e sentiremos falta, como diz o subtítulo do trabalho de Mantero.

Corpos quaisquer disponíveis à experimentação: uma aposta política. Tomando emprestada uma frase de Deleuze e Guattari (1966) ainda que um pouco modificada,[6] poderíamos dizer que antes do corpo há a política e que o corpo é político. O divisor de Lygia Pape parece ser um experimento desta ordem, talvez uma comunidade-corpo provisória e acéfala.[7] Um devir imperceptível, experimentado em algum momento pelos corpos abertos, na condição de acéfalos.

Na performance brincamos com trocadilhos e ditos populares como “está faltando um parafuso na sua cabeça” ou “limpar a mente” ou ainda “lavar a alma”. Retiramos das cabeças signos e objetos: dinheiro, moedas, uma pequena cabeça de Barbie (extraída com uma pinça); também remédios, farinha, carrinhos, cruzes, até minhocas. Por fim, uma cabeça de boneca de porcelana escapa das mãos e se estilhaça.

Assim, nessa performance que engendramos, cada um carregava sua cabeça paradoxalmente, debaixo do pano. Não ocupamos todos os buracos para poder receber quem quisesse entrar. Cada um ocupou um espaço e outros se uniram a nós em dissonâncias, mantendo um fluxo de movimento com o tecido numa espécie de composição com os corpos; era preciso perceber o tempo e o ritmo do outro para juntos avançarmos. A pequena caminhada pelo saguão da universidade exigiu um exercício de perceber as temporalidades, as respirações, ajustes de alturas e distâncias, a partir de uma certa negociação coletiva silenciosa. Era preciso acionar sentidos do corpo, tatear com os poros, os fluxos e a cadência da Bateria.[8]

Um a um se retirava da comunidade-corpo provisória e acéfala e se deslocava à sua maneira até onde iria fazer sua ação. As cabeças, então esvaziadas de suas coisas, eram deixadas no chão e cada um seguia o percurso até retornar ao pano, onde reinseria sua própria cabeça. Uns cambalearam, outra foi lentamente, uma se arrastando, alguns firmes em seus passos, cada passada ia à sua batida de pisada. Tantas cabeças esvaziadas, corpo desvago, era um. No chão, ia se formando uma espécie de despacho de tudo aquilo que não precisamos e, entretanto, sentiremos falta. Retiramos o pano branco dos ombros e estendemos por cima do feito, minhocas, farinha, espuma e todos os outros objetos retirados. A bateria silenciou seu batuque e seguimos nos misturando aos que assistiam; mais um, “qualquer” um que deixa seu feito e continua no jogo do comum.

Bastidores: A feitura do artigo

Existe a procura por um autor e existe a procura do-(s) autor – (es)[9].

Peixoto

No decurso de um tempo fizemos reuniões, percorremos juntos piscinas de silêncio, produzimos narrativas que contornaram e irrigaram algumas experiências do Laboratório dentro da sala e fora em seus transbordamentos sutis. Um dos primeiros movimentos foi cada um enviar para os outros fragmentos de narrativas, ao mesmo tempo coletivas e singulares relacionadas às experiências do Laboratório, e, então, foram se delineando diferentes encontros de textos que por fim se apresentaram neste artigo, dispersos, desvagos.

Integram o escrito alunos da graduação, egressos, professores, residentes, mestrandos, trabalhadores da rede; juntos, pesquisadores. Todos pondo a mão na massa, aquela do bolo antropofágico, feito de açúcar impalpável,[10] trazendo ideias, autores, contaminações, imagens, instantâneas comunicações, cadernos de anotações, envio de problemas e silêncios.

Nos bastidores deste escrito, produziu-se uma zona intermediária, uma meticulosa e paciente tentativa de preensão das nuvens de experiências do Laboratório em lugares em que dele nunca se escutou falar. O coletivo de escrita, em deambulação, trabalhou ao modo de um sismógrafo sondando cenas que eram ondas que estavam no Laboratório e mais, em egressos, estágios, módulos de graduação, pós-graduação e serviços, de forma menos direta e explícita. Eram intervenções e interferências e foi preciso trabalhar com fragmentos narrativos editados, embaralhados, riscados, várias vezes reescritos.

Percebemos que nem todas as experiências que aparecem no artigo se deram no espaço do Laboratório. Inversamente, nem todas as inquietações políticas e conceituais dos grupos de Estudo e Articulação, que comparecem nesse escrito, ganharam ecos em experimentações, instalações, dispositivos ou performances.

Tomamos as experiências estéticas, as experiências com as artes como produtoras de pensamento, operadores de pesquisa, em contraste com a distinção hierarquizada entre a área da ciência como um bloco (sério e de valor) e o setor da arte-cultura que seria outro bloco, ligado à fruição.

Interferências e intervenções

            Partimos de uma distinção entre a noção de intervenção e a de interferência (INFORSATO, 2010). Seria preciso pensar as interferências ao modo das ondas de rádio, ondas curtas,

no sentido de uma intromissão: uma onda que, eventualmente, em suas oscilações, frequenta outra onda, ao estar, por instantes, na mesma frequência que a outra. É uma relação não programada e inevitável, tanto quanto o é o fim inesperado desta justaposição. Um ocupa o outro: simplesmente ocupação, porque seus movimentos ondulatórios assim o exigem (INFORSATO, 2010, p. 198).

A intervenção pode supor a aplicação de certos modelos, ideologemas, simbolizações definidas. Nesse jogo, a intervenção procuraria transformar as experiências numa determinada direção. Tende-se a querer subir a um patamar elevado, a querer luz, a realizar uma missão. Em contraste, interferências podem lidar com delicadezas, sutilezas que tentam não se sobrepor às situações, abrindo-se a direções não pré-estabelecidas (ORLANDI, 2012).

Uma intervenção simplificadora pode ser aquela que incide “sobre” a complicação dos casos, das experiências, dos equipamentos, das ruas; incide ali uma ordenação que acachapa as complexidades. Outro problema: um voluntarismo pode enredar as intervenções e interferências. Daí a questão do “dar certo” – sempre ligada a modelos e parâmetros – e uma demanda de controle do resultado, como imaginar que se possa preparar uma interferência com um tiro único, sem agenciar de novo, escavar mais embaixo, e, se não “deu agora”, desconfiar de sua estratégia, e, se deu bem demais desconfiar também. Lawrence (2012, p. 37), em seu Estudos sobre a literatura clássica americana, escreveu: “o que achamos que fazemos não importa muito. Na verdade, nunca sabemos realmente o que estamos fazendo. […] Somos os atores, nunca inteiramente os autores de nossos próprios atos ou obras”.

As interferências não reivindicam total compreensão. Interferência é produção de subjetividade – conhecimento vivo que não passa necessariamente pelo “espelho da consciência” (NIETZSCHE, 2001, p. 248-249). Interessa um rigor nas ligações e montagens das interferências vindas de curadorias que criem um campo de gestão e gestação coletiva, espaços para fazer e desdobrar juntos ideias, mixá-las e recombiná-las.

            Interferência e produção de pensamento pedem um “para nada” que é insuportável na ambiência universitária ou na dos serviços. Pedem que se faça um exercício, uma tentativa-experiência de “desastre”, de perder o astro – no sentido de algo que guia -, não se tratando das chamadas experiências exitosas, demasiadamente predeterminadas. Isso envolve ligações complexas, experimentações sem garantias, não necessariamente projetos com suas intencionalidades. Pede talvez uma leveza e inteligência de outra ordem que não compõem com o arrivismo e a meritocracia – podendo implicar uma gratuidade que não se inscreve na lógica da comunicação ou da finalidade; um jogo esvaziado precisamente da finalidade, uma espécie de “para nada” que não lhe retira, mas justamente imprime intensidade. Na ausência de finalidade podem instaurar-se experiências que ativam o corpo-desvago como possibilidade de invenção de si.

Um exemplar:

[…] interferência em uma aula, um auditório foi interditado; todos ficaram fora, as cadeiras foram empilhadas, livros foram congelados dentro de enormes barras de gelo – era possível vê-los por fora, inclusive uma revista Mente e Cérebro -, baldes de areia, um rebanho pastando foi projetado o tempo todo em que circulávamos pelos espaços, o auditório estava com pouca luz, um homem chafurdava no chão em uma espécie de chiqueirinho tão feito de jornais quanto ele; duas moças dançavam e não cansavam de cortar e ajustar os cabelos; outro passeava ao léu, de sunga; sons de bocas e gemidos, murmúrios. Houve sustos, não houve conversa ao final.

Trata-se paradoxalmente de um trabalho e desobra (não fazer obra) (INFORSATO, 2010): nada de sucesso, de convocar sentimentos ou de fazer analogias. Também nada de “distraídos venceremos” – não se tratava de vencer ou chegar lá – talvez, sobretudo, falhar, falhar de novo, falhar melhor.[11]

 

A verdade do corpo

A experiência se deu no Laboratório de Sensibilidades. Era um dia atípico de avaliação conduzida por um grupo de egressos e alunos de quarto e quinto ano, cada qual vinculado de uma forma às aulas que, em um dado momento de suas graduações, lançaram-lhes problematizações com as artes, subjetivação contemporânea, pondo em xeque construções naturalizadas: o psicológico e a própria noção de homem.

De antemão esclarecidos sobre a proposição mais “corporal” do dia, ocorreram experimentações que envolviam desvios sensoriais e formas inauditas de se relacionar com os conceitos e questões tratados no decurso do semestre. Essa aposta fugia à lógikca cerebral já tão exercitada no meio acadêmico. Houve desinteresse e pouca receptividade. Para muitos, o tempo gasto com essas oficinas poderia ser melhor empregado. Outros relatavam um desconforto com atividades que envolvessem corpos.

Em um meio em que a preocupação majoritária era produzir um material[12] que conciliasse boas articulações e demonstrasse domínio acerca das ligações conceituais, eis que irrompe uma provocação que, ainda que pouco ou nada tenha servido como argumento favorável à experimentação, remeteu a algo para além daquela sala e do motivo da reunião.

Disseram: “Alguém tem experiência fora do corpo?”

Um atlas anatômico é uma produção estética e ética, politicamente determinada. Um atlas anatômico parece algo neutro e útil; ao mesmo tempo ele não é a verdade de um corpo. É produção de uma certa realidade operando com um modelo de corpo.  E ela não é sem direção e/ou efeitos ético-clínicos, e implica as terapêuticas. Não é um corpo no atlas anatômico, é o corpo estilo greco-romano dos desenhos da biomedicina, obviamente uma representação que também nos auxilia e leva em certa direção.

As imagens do artista Walmor Corrêa,[13] impressas em tamanho A3 e expostas no campus da universidade, apresentam minuciosos mapas anatômicos com um grau enorme de detalhamento, utilizando os signos e verdades da anatomia para criar uma imagem verossímil, isto é, plausível, com efeito de verdade. E sempre temos isso, tão-somente, o verossímil – que parece verdadeiro, que produz efeito de verdade. Walmor Corrêa produz um mapa anatômico de uma sereia com os órgãos descritos em detalhe, descrições de um bebê-sereia no útero, a panturrilha descrita e aberta do Curupira.

A palavra alemã Unheimlich, título desta série de imagens, tem sido traduzida como “o inquietante” ou ainda “o estranho-familiar”, dentre outras possíveis. Com Freud (1919/2010), ela comparece em discussões a respeito da sensação de assombro ou estranheza que por vezes envolve coisas conhecidas e familiares. Na série de Walmor Corrêa, as imagens da exposição – dissecações de seres inventados, aliás, como todos – não se separam dos processos artísticos, científicos e metodológicos que constituem as próprias figuras, o que, no limite, possibilita colocar em jogo noções e imagens de todos os corpos, corpos quaisquer – também produzidas. O desencaixe que pode provocar essas imagens ajuda a pensar: “O que é que junta em mim as coisas que leio e vejo? Que forças em mim me fazem ver isso? Que forças em mim me fazem expressar ‘assim o que estou pensando’? Que forças já me dominam? Com que forças me alio?” (ORLANDI, 2012, online).

 

 Interferir-se

Em que medida as interferências – que exigem um rigor e tentativas – deslocam percepções, produzem micropercepções? Nas interferências estético-políticas pode haver um apelo fácil ao já sabido, ao sensacional, ao espetacular ou sentimental. Interessa considerar o convite forte à autopromoção, à busca de sucesso e “gerenciamento empresarial de si” na universidade, nas artes, nos serviços etc.; são musculaturas que podem ser acionadas com as experimentações, sustentando modos de trabalhar e pesquisar. Hoje a lógica da empresa – que não está em um único lugar – é um gás espalhado que coloniza o que chamamos de nosso desejo. É antes de tudo um modo de fazer que tenta tomar o que é federal, estadual e municipal com incidências as mais diversas nas artes, na pesquisa, na saúde e na clínica com seus prêmios, excitações e saudáveis motivações. Sobretudo é um fluxo de jogo metaestável espraiado na tessitura subjetiva. Nesse jogo de interferências estéticas pode haver uma espécie de “guerrilha contra nós mesmos” ou melhor,

[…] a guerrilha contra as potências maiúsculas – sejam automatismos, empreendedorismos, partidarismos, missionarismos laicos ou quaisquer proeminências transcendentes – que nos invadem, que nos habitam ou que nos habilitam na sacanagem muito contemporânea de certo servilismo (ORLANDI, 2006, p. 66).

Finalmente   

Pesquisar contra si e encontrar o que não aceitamos na experiência do método

GELS

Meus ombros pesados adentram a sala. Colocam-se ao lado de muitos outros ombros e nucas cheios de nós. Costumamos carregar todas as aulas e trabalhos acima dos membros, por aqui. Uma biopolítica. As testas estão enrugadas. Silêncio. Blablablá e… “podemos escolher os campos, então?” Sim! As testas se dobram ainda mais. Penso na política das testas enquanto a discussão se desenrola. Uma voz enuncia, como cenário possível de ação “Arte no Dique”[14] e também enrugo a testa. Dois braços se erguem. Duas vagas disponíveis. Cada braço ocupa uma vaga e resolvemos. Ombros e testas, agora tranquilos, se levantam e seguem rumos.

No primeiro encontro do grupo de estudantes[15] do terceiro ano, ocorrido no LS, levo os sentidos às sensibilidades. Espaço que produz corpos. Cria outros órgãos e desorganizações. Lá, o tempo é outro e as pessoas não são as mesmas. Piso e meu passo já muda de jeito, recordando as lembranças daquela sala vazia e, por isso mesmo, cheia de tudo. Sala de mundos que, fora de lá, são mudos. Quase inaudíveis. Imperceptíveis. Sensíveis. Encontro-me com mais uns doze pares de olhos. “Vocês por aqui?!” Coexistimos, ainda preservando distâncias. Até que uma chegada se anuncia. Movimentos. Correria. Vapt-vupt. Todo mundo se apronta para a recepção. As luzes se apagam e é dada a largada.

A convidada começa seu caminho com pés de pesquisadora e nós permanecemos grudados ao chão, como se nos fundíssemos ao piso e incorporássemos obstáculos. Que momento delicado. Inicia-se a dança de bambolês, cones, braços, ouvidos. Percursos sonoros. Percalços. Vou me aproximando mais de cada vida ali presente. E somos povoados, finalmente, e de luzes acesas, de novos sentidos nos olhos. Veio-me uma frase: “o olho pensa”. E quantos impensados compartilhamos. Teve verde, preto, castanho, azulzinho. Histórias azuis, sentimentos castanhos. Duas pequenas bolinhas logo acima do nariz que me sorriam. Sorri de volta um sorriso que me veio do estômago. E seguimos ouvindo e dizendo histórias, ao mesmo tempo em que gestávamos novas contações. Geríamos, girávamos. Escutei-me falando de minha história com a arte pela primeira vez na vida. Primeira vez que absorvia isso pelos ouvidos. Entrava pelo ouvido e saía não sei por onde.

Jogamos mais algumas palavras na roda e descobrimos que tudo o que dissemos não escapou pela porta nem pelas janelas da sala. Continuaram pairando pelos vãos dos nossos dedos, pelas brechas entre uma perna e outra, preenchendo todos os espaços vazios dos corpos.

Há, então, que se tomar cuidado com as palavras mortas. Mas como é que se vivifica uma escrita, uma frase, um ponto? Talvez perfurando com perguntas.

Estou disposta a encontrar aquilo que não aceito?

 

O fim está no começo e, no entanto, continua-se.[16]

No dia seguinte à segunda votação favorável à Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 241[17] na Câmara dos deputados federais, que congela por 20 anos os gastos públicos (saúde e educação inclusos), uma lona preta de vinte metros atravessou corredores do edifício central do campus universitário como uma onda de ressaca, levada pelas bordas por professores e estudantes.[18] Ruidosa, sem palavras, descia e subia escadas, mar indócil, revolto, inconformado.

No princípio era a ação:[19] acéfala, desvaga.

 

Referências

ANTUNES, A. Palavra Desordem. São Paulo: Iluminuras, 2002.

BECKETT, S. Três diálogos com Georges Duthuit (1949). In ANDRADE, F. S. Samuel Beckett: o silêncio possível. São Paulo: Ateliê editorial, 2001. p. 173-182.

BECKETT, S. Fim de partida. São Paulo: Cosac e Naif, 2002.

BURROUGHS, W. A Revolução Eletrônica. Lisboa: Vega, 1994.

CASETTO et al. Laboratório de Sensibilidade, Inteligência coletiva e Clube dos saberes. In: COLÓQUIO DE PSICOLOGIA DA ARTE, 2., 2007, São Paulo. Mesa X – Trânsito do Sensível. São Paulo: USP, 2007. Disponível em: <http://www.ip.usp.br/laboratorios/lapa/versaoportugues/2c78a.pdf>. Acesso em: 7 out. 2016.

DELEUZE, G.; GUATARRI, F. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1996. v. 3.

FERRAZ, M. C. F. Nietzsche: esquecimento como atividade. Cadernos Nietzsche, Porto Seguro, n. 7, p. 27-40, 1999. Disponível em <http://gen.fflch.usp.br/sites/gen.fflch.usp.br/files/upload/cn_07_02%20Ferraz.pdf>. Acesso em 17 set. 2016.

FREUD, S. O inquietante (1919). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Obras completas, v. 14.

FREUD, S. Totem e tabu (1912-1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2012. Obras completas, v. 11.

HENZ, A. O. et al. A compreensão é um dos níveis de leitura: experimentações e sensações – itinerários de literatura e clínica. Interface (Botucatu), Botucatu, v.16, n. 40, jan./mar. 2012. CrossRef.

INFORSATO, E. A. Desobramento: constelações clínicas e políticas do comum. 2010. Tese (Doutorado em Eduação)-Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/48/48134/tde-22042010-104547/en.php>. Acesso em 17 09 2016.

LABORATÓRIO DE SENSIBILIDADES. Laboratório de Sensibilidades 2007: primeiro dia. 7 dez. 2011. Disponível em: <https://laboratoriodesensibilidades.wordpress.com/2011/12/07/laboratorio-de-sensibilidades-2007-primeiro-dia-4/>. Acesso em: 17 set. 2016.

LABORATÓRIO DE SENSIBILIDADES. A alma é um estômago, isto não é uma metáfora: comidas, digestões alegres, dispepsias políticas-ressentimentos e a saúde de certas anorexias. 7 ago. 2012. Disponível em: <https://laboratoriodesensibilidades.wordpress.com/2012/08/07/a-alma-e-um-estomago-isto-nao-e-uma-metafora-comidas-digestoes-alegres-dispepsias-politicas-ressentimentos-e-a-saude-de-certas-anorexias/>. Acesso em: 18 set. 2016.

LABORATÓRIO DE SENSIBILIDADES. A alma é um estômago: relato de um visitante (instalação). 29 abr. 2016a. Disponível em: <https://laboratoriodesensibilidades.wordpress.com/2016/04/29/no-laboratorio-de-sensibilidades-a-instalacao-a-alma-e-um-estomago-relato-de-um-visitante/>. Acesso em: 17 set. 2016.

LABORATÓRIO DE SENSIBILIDADES. Cabeça Dizpensa: grupo de articulação do laboratório de sensibilidades. 27 set. 2016b. Disponível em: <https://laboratoriodesensibilidades.wordpress.com/2016/09/27/cabeca-dizpensa-grupo-de-articulacao-do-laboratorio-de-sensibilidades/>. Acesso em: 8 out. 2016.

LABORATÓRIO DE SENSIBILIDADES. Manifestação Hoje: Comum da Lona Preta com Luiz Orlandi na UNIFESP-BS. 26 out. 2016d. Disponível em: <https://laboratoriodesensibilidades.wordpress.com/2016/10/26/manifestacao-hoje-comum-da-lona-preta-com-luiz-orlandi-na-unifesp-bs-veja-os-micro-videos/>. Acesso em: 8 nov. 2016.

LAWRENCE. D. H. Estudos sobre a literatura clássica americana. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2012.

MANTERO, V. Vamos sentir falta de tudo aquilo que não precisamos. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=ojtD-31hinw>. Acesso em: 25 set. 2016. 1 vídeo.

NIETZSCHE, F. Gaia Ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

ORLANDI, L. B. L. Reich em “O Anti-Édipo”. Revista Reichiana, São Paulo, n. 15, p.56-66 2006.

ORLANDI, L. B. L. Orlandi & Giacóia. 18 mar. 2012. Disponível em:  <https://www.youtube.com/watch?v=Hem6s9cvJKI>. Acesso em: 17 set. 2016. 1 vídeo.

PAPE. L. O Divisor. Disponível em: <https://youtu.be/pipCLdQS7to>. Acesso em: 20 out. 2013. 1 vídeo.

SERRES, M. Polegarzinha. Trad. Jorge Bastos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013.

[1] Acerca de essa questão ver também a instalação “A alma é um estômago: relato de um visitante” (LABORATÓRIO DE SENSIBILIDADES, 29 abr. 2016a). Cf. Ferraz (1999, p. 32, grifo do autor), “o tema da função digestiva do esquecimento se relaciona diretamente à seguinte afirmação do parágrafo 16 do capítulo ‘Das velhas e novas tábuas’ de Assim falou Zaratustra III: ‘o espírito é um estômago’, em que o ‘é’ foi destacado por Nietzsche. Trata-se, também nesse trecho, de enfatizar que, mesmo em um texto como o Zaratustra, não se trata aqui de uma metáfora, de uma simples analogia. O espírito não é semelhante a um estômago; espírito e estômago se fundem: [A alma é um estômago]”.

[2] O trabalho com o Clube dos Saberes foi sustentado pelo laboratório e é atualmente um dispositivo utilizado por egressos da UNIFESP em equipamentos da Assistência Social e Saúde Mental da Baixada Santista. As primeiras experiências do Clube na UNIFESP e do próprio Laboratório foram analisadas no escrito: Laboratório de Sensibilidade, Inteligência coletiva e Clube dos saberes (CASETTO et al., 2007).

[3] A narrativa segue na primeira pessoa do plural, que se refere ao coletivo que compõe o grupo de articulação do Laboratório de Sensibilidades.

[4] Ocorrida em 12/03/2007, a inauguração do Laboratório de Sensibilidades abriu o espaço com uma performance. Os registros em vídeo e uma narrativa deste momento estão disponíveis em Laboratório de Sensibilidades 2007: primeiro dia (LS 2011).

[5] Houve um período em que o Laboratório de Sensibilidades foi um projeto de extensão articulado com outros projetos, como o Cinema e Saúde e o Literatura e Clínica. Acerca da experiência do Literatura e Clínica ver especialmente Henz et al. (2012).

[6] A frase referida é “antes do ser há a política” (DELEUZE; GUATTARI, 1996, p. 78).

[7] Várias manifestações contemporâneas contra o golpe de 2016 no Brasil têm uma configuração acentrada e acéfala sem o grande líder encabeçando ou o partido-guia. Nessa questão há também ecos da revista Acéphale publicada (originalmente em janeiro de 1937) por Georges Bataille, Pierre Klossowski, André Masson, Jean Wahl, Jean Rollin, bem como do escrito Polegarzinha de Michel Serres (2013, p. 37) com a cabeça fora do pescoço: “Agora, a cabeça decapitada da Polegarzinha se diferencia das antigas, podendo ser mais bem-constituída do que cheia. Não tendo mais que se esforçar tanto para armazenar o saber, pois ele se encontra estendido diante dela, objetivo, coletado, coletivo, conectado, totalmente acessível, dez vezes revisado e controlado; ela pode voltar sua atenção para a ausência que se mantém acima do pescoço cortado. Circula por ali o ar, o vento”.

[8] A Bateria RepicaPau da UNIFESP pode ser vista e ouvida no registro em vídeo intitulado Cabeça Dizpensa: grupo de articulação do laboratório de sensibilidades (LS, 2016b). A performance durou cerca de 20 minutos.

[9] O plural foi adicionado pelos autores do texto.

[10] O Grupo de Articulação do LS agradece a presença generosa da professora Maria Fernanda Petroli Frutuoso, do curso de nutrição da UNIFESP que, além de várias interferências no LS, integrou o coletivo de curadoria, trabalhou ativamente em montagens, atuou no Cabeça Dizpensa, no projeto A alma é um estômago, além de fazer conosco o bolo antropofágico recheado com açúcar impalpável que é o nome de um tipo de açúcar geralmente feito com açúcar de confeiteiro moído com maisena.

[11] Referindo-se a expressividade romântica nas artes, Samuel Beckett afirma que o pintor Bran Van Velde foi o primeiro a desistir desse automatismo estetizado denominado expressão, o que ele considerou uma fidelidade ao fracasso, um falhar como ninguém mais ousou falhar (BECKETT, 1949/2001).

[12] O referido material é um diagrama produzido na avaliação dos módulos Constituição e emergência do psicológico que integram o curso de graduação em Psicologia da UNIFESP.

[13] Algumas destas imagens da série Unheimlich estão disponíveis no blog do Laboratório de Sensibilidades (2016c).

[14] Trata-se de uma ONG da Zona Noroeste de Santos, que promove atividades com as artes e os moradores do bairro, e, especialmente das palafitas do Dique da Vila Gilda.

[15] Estudantes que cursavam o módulo Práticas Clínica Integrada do Eixo Trabalho em Saúde no ano de 2016.

[16] Cf. Beckett (2002, p. 128).

[17] A PEC 241 foi aprovada na câmara de deputados em 26/10/2016. Acerca da aprovação da proposta de Emenda à Constituição nº 241/2016, ver: <http://www.redebrasilatual.com.br/politica/2016/10/pec-do-teto-dos-gastos-publicos-e-aprovada-em-2o-turno-falta-votar-destaques-3820.html>.

[18] Confira os vídeos da interferência Comum da Lona Preta com Luiz Orlandi na UNIFESP–BS (LS, 2016d).

[19] Ver especialmente a referência de Freud (1912-1913/2012, p. 157) ao Fausto de Goethe na última frase de Totem e Tabu.

 

 

 

 

Anúncios

Uma breve genealogia do militante moderno em nós no escrito de Luiz Claudio Figueiredo de 1993. Incontornável.Militância como sintoma da modernidade sem Deus e de determinados sofrimentos datados. Depois desse escrito do início dos anos 90, quais mutações operam na militância/ativista contemporaneamente? 

No link abaixo uma breve radiografia do militante moderno em nós no escrito de Luiz Claudio Figueiredo de 1993. Incontornável.

Miltancia como modo de vida um capitulo dos costumes conmteporaneos LCF cadernos-de-subjetividade_n-2_linguagens_1993 (1)

(…) a militância, mesmo quando exercida no contexto das lutas pelo poder, não é mais interessante (nem o oposto) do que poderíamos conceber como “participação” ou implicação política, é mais precisamente uma certa inflexão política com determinados “artigos de fé” (convicções).

Isto significa que a crítica à militância não coincide com a crítica à participação política propriamente dita, pois ambas são modalidades de ação política.

Finalmente, ao caracterizar o modo de vida militante como ‘sintoma’ estou adotando como plataforma crítica uma concepção da modernidade e do modo de subjetivação nela dominante, segundo a qual o militante constitui uma versão extremada desta subjetividade; nesta medida, a militância figura como sintoma de toda uma época e de todo o sofrimento que lhe é inerente.

Quais mutações operam na militância/ativista hoje?

Se apoderar do pesadelo, e não apenas sofrê-lo. Los FriDOS voltam a ensaiar semanalmente no Laboratório de Sensibilidades, também com proposições abertas à comunidade

Vídeo reportagem com momentos da residência no laboratório de sensibilidades em 2013

Acerca de outros trabalhos de Los Fridos ver:

http://alasrotas-fridakahlo.blogspot.com.br/

Os fins do mundo de Santos — catálogo em cinco partes

Escrito de Alessandro Atanes, ensaísta, guitarrista, historiador e performer da dupla LOS FRIDOS,

Os fins do mundo de Santos — catálogo em cinco partes

I Ressacas
Não é a primeira vez, mas foi de novo forte. Ressaca tão forte quanto o calor agoniante que a precedeu. Com a multiplicação dos aparelhos, vimos todos nas redes sociais pequenos vídeos de variados ângulos com as ondas castigando as muretas da orla, este novo símbolo do pedaço de Santos voltado para o mar.

Mas o que caiu era uma reconstrução, as muretas já caíram antes. Na ressaca de 2005, no mesmo pedaço da Ponta da Praia, quando as ondas arrebentaram também o asfalto como se fosse de papelão, deixando à mostra os paralelepípedos do calçamento original. Creio que a mureta ainda não era o símbolo de hoje, com direito a lembrancinha e tatuagem. Até então, ela havia sido usada na primeira edição do Curta Santos em 2003. Com o tempo, o próprio Festival passou a adotar a mureta em sua identidade visual por causa da analogia de seu desenho com um fotograma. Com os anos, as IOIIOIIOIIOIIOI acabaram sendo adotadas por fotógrafos, lojas de presentes turísticos, pinturas e instalações artísticas.
Não importa, em todos os casos é a sociedade se apropriando do bem público comum. A coisa toma outra dimensão quando a Administração percebe a passa a valorizar a mureta como símbolo. Talvez — quem sabe? — a partir da reconstrução de 2005, quando houve uma expansão significativa de sua extensão pois a erosão acabou por reduzir a praia e pedras foram colocadas para proteger a calçada dos açoites diretos das ondas, e a mureta cresceu seguindo as pedras ao longo da calçada e nunca mais parou. Eu vejo muretas, o tempo todo, na reconstrução dos pontilhões nos canais, nas laterais dos bancos calçadas dos jardins da praia e nos tijolinhos que ladeiam as alamedas entre os jardins. No totem da Ana Costa, nos sebos da Praça dos Andradas e agora nas bancas da Praça Mauá. Um símbolo em construção, assim como hoje as próprias muretas e rampas, por mais de meio milhão de reais.
A própria ficção já se apropriou da mureta sendo destruída. É o que faz Gustavo Duarte em sua novela visual Monstros (2012), em que três gigantescas criaturas marinhas, como na Tóquio nos seriados japoneses, atacam Santos.

Cenas de Monstros
No mundo da invenção de Monstros, ao invés da ressaca, é um polvo gigantesco que esmigalha as muretas com os tentáculos se enrolando por entre os vãos dos IOI. No Gonzaga, um lagartão bem Godzila — um Gonzaguizila — sai do mar e passa por cima da Praça das Bandeiras como se nem visse onde pisa (aliás, Godzilas é como têm sido chamados os edifícios de dezenas de andares que vêm tomando a cidade).
Pelo estuário, é uma imensa tartaruga que avança sobre o porto, passando pelo cais como se fosse uma pequena mureta. Tão grande que lhe parecem miniaturas os navios de carga, guindastes e demais mecanismos da operação portuária, eles mesmos monstros mecânicos para a escala humana. A tartarugona parte um navio ao meio e acaba por experimentar o óleo pesado e grosso que move a embarcação. O resultado é uma cusparada de fogo sobre as instalações retroportuárias maior — ainda bem que fictícia — do que aquelas que vêm nos aterrorizando como agora em janeiro na margem esquerda do Porto com vazamento de materiais e morte ou as explosões dos tanques de combustível na entrada da cidade no ano passado. São dois episódios recentes que ecoam os incêndios em tanques da Ilha Barnabé em 1991 e 1998, o descaso trágico de Vila Socó em 1984 ou mesmo o desmoronamento do Monte Serrat em 1928.
Pontos turísticos e o porto atacados por monstros. Que sacada, não?
II Nostalgia
A tristeza pelo fim do que as muretas representam talvez alimente esta força simbólica na qual se transformaram. Pelo andar da carruagem em que o mar vem tomando a praia nas proximidades do Aquário, aquilo tudo que caiu ali de novo não tem mais do que um século pela frente, será reconstruído a cada 12 ou 13 anos, cinco, seis ou sete vezes mais. E um dia isso já não terá mais sentido; o mar avança e continuará a avançar, pois assim sempre foi. Isso sem levar em consideração a mão humana e seus efeitos [ (-; antropocena].
Então, todas essas lembrancinhas e tatuagens são suvenires das ruínas futuras da parte da cidade sob as águas, assim como bancas e tijolinhos se tornarão bustos em sua homenagem. Sobrarão muretas aqui e ali nos canais, mas quem mora em frente à praia sabe que não é a mesma coisa.
O alarmismo não é meu, o painel internacional de cientistas que investiga as mudanças climáticas — IPPC — prevê uma elevação mínima do nível do Oceano Atlântico de 18 centímetros até 2050. As possíveis consequências do avanço das águas sobre Santos formam um dos estudos de caso do grupo. As informações são de reportagem de Eduardo Geraque publicada em 30/9/15 na Folha de S. Paulo. Em estudo de 2009 baseado em informações do mesmo IPPC, o Núcleo de Pesquisas Hidrodinâmicas (NPH) da Universidade Santa Cecília considera que as ressacas mais fortes das marés mais altas devem chegar pelo menos meio metro mais altas nos próximos 80 ou 90 anos. Ninguém que conhecemos verá isso, mas o avanço é perene, está em cada fraca onda da baía de Santos que nem criança derruba.

Imagem do estudo da Unisanta
Não importa o cenário, somos testemunhas do avanço do mar engolindo areia na Ponta da Praia e cuspindo entre o Canal 2 e o Canal 1, canais cujo concreto desaparece a cada dia imerso em areia e maresia sob o peso da água salgada.
Milhares serão afetados na Ponta da Praia, Aparecida, em torno dos canais, Paquetá, Valongo, praticamente toda a Zona Noroeste e área retroportuária. O que fazer? Dique, contenção, mais concreto? Evacuação de áreas alagáveis? Adaptação ao meio, venezizar-se com canoas no lugar de gôndolas? O que fazer com o trânsito? Abandonar os carros? “Não! Abandonar os carros, nunca!” — dirão, mas talvez seja um bom primeiro passo. Desvalorização de imóveis e demanda por mais obras públicas em áreas alagáveis, reorientação dos fluxos urbanos e nova disposição dos locais de trabalho e moradia, socialização e exclusão.
Como ficarão os artistas, fazedores de cultura e o público de Santos tendo que chegar de balsa para participar de alguma atividade no Sesc? No mapa do cenário mais crítico do estudo da Unisanta, nos dias de maré alta com ressaca — que serão muitos — o barqueiro do Sesc teria que buscar o público ali na Oswaldo Cochrane junto com a Avenida Pedro Lessa e cruzar ruas inundadas com postes e árvores com água pelas canelas por uns bons 20 minutos. No cenário menos grave, voltaríamos ao problema dos carros, pois o estacionamento se tornaria um risco a cada nova ressaca. O que fazer com as garagens e estacionamentos subterrâneos da cidade? Onde serão guardados os carros? Novamente, os carros.
Com praticamente toda a área afetada, cabe-se também perguntar — entre os assuntos urgentes — como ficará a circulação das pessoas e também de arte e cultura pela Zona Noroeste. Enquanto o projeto Novos Tempos é desmontado — aí não acham importante que se fale de ficção nesses tempos — a maior força das ressacas e das marés fará da Avenida Nossa Senhora de Fátima um rio mais largo a cada dia.
III Ruínas
Lembram-se da piscadela antropocena? É para trazer para a reflexão que as ideias de hoje sobre o fim do mundo lidam com o fato de que o fim do mundo também — e talvez sobretudo — seja responsabilidade humana. Inclusive geólogos e cientistas outros nos consideram responsáveis por uma era geológica desde a revolução industrial, o tal do Antropoceno. Ainda que — até mesmo por premissa científica — se aceite o ceticismo em relação ao tamanho do impacto da ação humana frente às mudanças geológicas, não há como negar nossa capacidade de destruição. O poeta mexicano Octavio Paz escreveu em O arco e a lira que a humanidade voltou a acreditar em fim do mundo desde a explosão das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki.
Navios, realizado pelo Lab Corpo e Arte do campus da Universidade Federal de São Paulo na Baixada Santista (atual Núcleo Interdisciplinar de Dança-NiD), é um trabalho artístico que pergunta o que faremos após o fim do mundo, em que a figura do Navio torna-se um lugar de sobrevivência — talvez exílio ou fuga se considerarmos o contexto científico sobre as ressacas do futuro próximo em Santos. O título Navios segue a sugestão do filósofo francês Michel Foucault, para quem navio significa a heterotopia por excelência, sendo heterotopia o espaço das alteridades, que não está nem aqui nem lá, que é simultaneamente físico e mental, como o espaço de uma chamada telefônica ou o momento em que alguém se vê no espelho. Não seriam os próprios portos e aeroportos, espaços nem aqui nem lá — eles também heterotopias?
E as ruínas, espaços nem aqui nem lá no tempo?
Navios estreou em 2014 e, no ano seguinte, com recursos do Fundo Municipal de Cultura, promoveu uma série de debates sobre o tema, seguidos por apresentações no terreno do Colégio Docas, hoje parte das instalações da Unifesp. Por mais que se dê por catastróficas as previsões de inundações e ressacas godzilas sobre Santos, não se pode negar que o Docas já teve seu próprio fim do mundo. Fiz a sexta série ali, numa daquelas classes que hoje sobrevivem em outra heterotopia que é a memória. Meu primo foi artilheiro naquele ano, eu fiz uns bons lançamentos. Agora há pouquíssimo teto, restos de parede no tijolo cru, cores antigas que sobrevivem em algumas armações de madeira, nos azulejos encardidos e na cerca que separa o conjunto ruinoso da parte utilizável do terreno — um estacionamento, lógico (de novo os carros e a inviabilidade deles) — e, mais à frente, da calçada da Campos Melo.

As ruínas do Docas
Os tijolos do Colégio Docas não têm formato de mureta, não serão reerguidos, nunca mereceram.
Parêntesis ideológico
(O nome da escola: Docas. As Docas — como ainda muita gente fala — não é só o nome da companhia que administrou por concessão pública o porto por quase um século. As Docas são as escolas, as vilas, os ambulatórios e demais serviços e toda a vida urbana em torno disso. A sede do Clube Portuários onde hoje passa um trecho da Avenida Perimetral (eu e meu primo também jogamos bola ali).
A queda do Docas apresenta o fim do mundo que é a separação contínua entre a vida do porto e a vida da cidade que começa com o Império tomando o porto para o governo central, seguindo com o monopólio da Companhia Docas de Santos, a ascensão dos mecanismos que substituem a mão humana na atividade portuária, a produtividade dos contêineres, a automatização e agora o loteamento neoliberal para operadores globais à moda tucano-lulista-cleptofinanceira — e nem vou dizer o nome de quem tem ascensão sobre a administração do porto desde o governo Sarney, é pior que o Valdemort.)
IV Desolação
Todos os que cresceram após os anos 50, cresceram ouvindo histórias sobre a Ilha Barnabé, que vivemos em um barril de pólvora, nosso filme-catástrofe em forma oral por dificuldade de orçamento. Neste momento mesmo começamos a falar sobre a novidade das águas que vão tomar parte da cidade nos próximos 100 anos. Essas histórias formam os mitos da cidade, são contos de horror, o horror industrial de uma modernização sem modernidade, como vemos nas cenas de trabalho da turma de estivadores em Navios Iluminados (1937), em que as máquinas e guindastes do cais são comparadas a dragões de mandíbulas medonhas e bestas de formas demoníacas ou o guindaste que baixa um mecanismo em forma de mandíbula — a grab — em direção aos ventres de um navio, como imaginou o artista plástico Raphael Morone — lindo cartazista — na capa de meu Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos — publicado também por meio do Fundo Municipal.

Esse cidade tomada pela destruição está no verso de Alberto Martins Triste cidade litorânea! / Meus olhos mal te distinguem / do mar da terra da lama, do livro Cais (2002), em que a palavra ferrugem se espalha pelas páginas. Desse clima que chamei de desolação são também testemunhas literárias o poeta Flávio Viegas Amoreira,autor de A Biblioteca Submergida (2003), Maralto (2004) e Escorbuto — Cantos da Costa (2005), três títulos que ecoam as previsões de alagamento; um clima que ronda também Costa a Costa (2012), de Ademir Demarchi, do volume Pirão de Sereia (também Fundo Municipal) e cujo marco aponto o poema Raízes, de Madô Martins, do livro Doce Destino (1999), de verso final… mas só encontro conchas e maresia.
Desolação! Se houvesse dinheiro para a produção, poderíamos rodar um filme-catástrofe com os prédios tortos tombando em efeito dominó uns sobre os outros com efeitos especiais de última geração, inclusive com tomadas feitas a partir das varandas gourmet atingidas pelos destroços.
FIM ou TEVE MAIS UM VAZAMENTO DE GÁS ANTEONTEM!
Mas fim do mundo é o que não falta, o catálogo santixta do fim do mundo é farto, está no cotidiano, gotejando dia após dia, o desmoronamento na Serra, o desmanche dos casarões da cidade e dos universos de seus objetos e memórias pessoais; o fim dos clubes e dos prédios das universidades, a dúvida sobre o que virá à superfície com a dragagem das entranhas do canal do Porto.
O certo é que partes da cidade se tornarão ruínas (e não foi sempre assim?). Outras irão se transformar. O fim do Docas é uma casa mais que cai em uma cidade que mata suas casas e prédios para dar lugar aos godzilas — acho que foi de Zéllus Machado que tomei a expressão. A ficção está atenta. As personagens de A História dos Ossos (2005) e de Lívia e o cemitério africano (2013), também de Alberto Martins, andam por uma Santos em que o Teatro Coliseu está em ruínas e o Cemitério do Paquetá será derrubado para ser transformado em um pátio de contêineres.
Santos é o porto, é o que nos dá vida. Pouso de âncoras nos versos de Roldão Mendes Rosa, de gente que tem no sangue o amor dos estrangeiros e das nações. É também o que nos traz a morte, como nos alertam os incêndios, colunas de fumaça e explosões e poemas. Pablo Neruda escreve sobre o suor negro e do eterno suor de homens que já morreram / e foram substituídos para continuar suando. Em Navios Iluminados, o escritor e médico Ranulfo Prata conta a tragédia do estivador tuberculoso José Severino de Jesus, migrante do sertão da Bahia, e seu calvário pelas pedras do cais de Santos. É interessante notar como a obra literária mais bela e significativa sobre Santos não reúne um santista. O autor é sergipano, o protagonista é baiano, seu amigo também, o dono do chalé é português, tem o espanhol do sindicato, o bar Ao Gaiato de Lisboa e por aí vai. Para muita gente, isso que é o fim o mundo!
Além da piada, queria encerrar com uma reflexão da ensaísta argentina Beatriz Sarlo que move muito do meu pensamento e a quem sou muito grato pelas aulas em seus livros.
A literatura, é claro, não dissolve todos os problemas colocados [pela reflexão sobre a sociedade], nem pode explicá-los, mas nela um narrador sempre pensa de fora da experiência, como se os humanos pudessem se apoderar do pesadelo, e não apenas sofrê-lo.
Bom fim do mundo.

View story at Medium.com

Pensamento vem de fora e pensa que vem de dentro.Erro do livre-arbítrio

Hoje não temos mais compaixão pelo conceito de ‘livre-arbítrio’: sabemos bem demais o que é – o mais famigerado artifício (…) de “sacerdotes” que há, com o objetivo de fazer a humanidade ‘responsável’ no sentido deles, isto é, de torná-la deles dependente… Apenas ofereço, aqui, a psicologia de todo ‘tornar responsável’. – Onde quer que responsabilidades sejam buscadas, costuma ser o instinto de querer julgar e punir que aí busca. O vir-a-ser é despojado de sua inocência, quando se faz remontar esse ou aquele modo de ser à vontade, a intenções, a atos de responsabilidade: a doutrina da vontade foi essencialmente inventada com o objetivo da punição, isto é, de querer achar culpado. Toda a velha psicologia, a psicologia da vontade, tem seu pressuposto no fato de que seus autores, os sacerdotes à frente das velhas comunidades (e hoje há sucessores científicos), quiseram criar para si o direito de impor castigos – ou criar para Deus esse direito…Os homens foram considerados ‘livres’ para poderem ser julgados, ser punidos – ser culpados: em consequência, toda ação teve de ser considerada como querida, e a origem de toda ação, localizada na consciência (assim, a mais fundamental falsificação de moeda in psychologicis [em questões psicológicas] transformou-se em princípio da psicologia mesma. Hoje, quando encetamos o movimento inverso , quando nós, imoralistas, buscamos com toda a energia retirar novamente do mundo o conceito de culpa e o conceito de castigo, e deles “purificar” a psicologia, a história, a natureza, as sanções e instituições sociais, não existem, a nossos olhos, adversários mais radicais do que os “novos sacerdotes”, que, mediante o conceito de ‘ordem moral do mundo’ (tudo é natural e já sabido ), continuam a empestear a inocência da vida com ‘culpa’ e ‘castigo’ (…) O que podemos aprender neste ponto? Que nada dá ao homem suas qualidades, nem Deus, nem a sociedade, nem seus pais e antepassados, nem ele mesmo. Nada é responsável pelo fato do homem existir, seja desta ou da outra maneira, encontrasse em tais condições em tal meio. A fatalidade de seu ser não pode separar-se da fatalidade de tudo o que foi e será. O homem não é a conseqüência duma “intenção própria”, duma “vontade”, dum fim; com ele não se fazem ensaios para obter-se um ideal de humanidade; um ideal de felicidade ou um ideal de moralidade; é absurdo desviar seu ser para um fim qualquer. Nós inventamos a idéia do fim; na realidade não existe o fim … Somos necessários, somos um fragmento do destino, formamos parte de um todo aberto, estamos no todo; não há nada que possa julgar, medir, comparar e condenar nossa existência, pois isto eqüivaleria a julgar, medir, comparar e condenar o todo. E não há nada fora do todo aberto! Nada pode ser responsabilizado: as categorias do ser não podem ser referidas a uma causa primeira, o mundo não é uma unidade, nem como mundo sensível, nem como inteligência; apenas esta é a grande questão, deste modo a inocência do devir fica[1] (…)

***

Durante[2] a era mais longa da “história humana” — a pré-história — o valor ou não valor de uma ação era deduzido de suas consequências. O próprio ato importava tão pouco quanto suas origens, mais ou menos como acontece, hoje em dia, na China, onde os filhos recebem honra ou vergonha como herança dos pais; era o efeito retroativo do êxito ou do fracasso o que induzia a pensar bem ou mal de uma ação. Convenhamos, pois, que aquele foi o período pré-moral da humanidade. O imperativo “conhece-te a ti mesmo” era, pelo contrário, desconhecido. No decurso dos últimos dez milênios, em largas regiões da terra, mudou-se o caminho e agora, o valor é atribuído não às conseqüências da ação, mas à sua origem (INTENÇÕES). Isto representa um acontecimento importante, produto de um grande refinamento do juízo, o efeito distante e inconsciente dos valores aristocráticos, da crença na “origem”, o sinal distintivo de um período que poderíamos denominar de período moral no senso estrito, definitivamente o primeiro passo para o conhecimento de si mesmo (autoconhecimento). Por isso a ação ocorre ao inverso e em lugar de se procurarem as conseqüências, trata-se de encontrar a origem. Que inversão de perspectiva! Uma inversão que é fruto de longos combates e hesitações, na verdade, uma nova superstição de funestas consequências, uma singular estreiteza de interpretação, que chegou para dominar atravessando este caminho. Atribuiu-se a origem de um ato, no sentido mais estrito do termo, a uma intenção e se esteve de acordo com a crença de que o valor de um ato reside no valor de sua intenção (ORIGEM NA DELIBERAÇÃO). A intenção era por si só a origem e a pré-história da ação; e por este preconceito se diferenciou até nossos dias o louvor e a censura, formularam-se juízos e inclusive se filosofou moralmente. Hoje não deveríamos sentir a necessidade de uma inversão total dos valores, graças a um novo retorno sobre nós mesmos, a uma nova sondagem do homem? Não chegamos ao princípio de um novo período ao qual se qualifica, negativamente desde o começo, de extramoral, posto que entre nós, pelo menos, imoralistas, se começa a entrever que o valor decisivo de uma ação reside naquilo que nela é não-intencional, precisamente no que tem de não-intencional, e que tudo o que tem de intencionalidade, tudo o que se pode ver ou saber dela (tornado consciente), pertence ainda à superfície, à sua pele que, como toda pele, revela algo, mas sobretudo esconde? Resumindo, vemos que a intenção nada mais é que um signo e um sintoma que tem necessidade de ser interpretado, um signo carregado de demasiadas significações para ter uma única para ele. Mantemos a opinião de que a moral, tal como foi concebida até hoje, a moral das intenções foi um preconceito, um juízo precipitado e provisório que a coloca no mesmo lugar que a astrologia e a alquimia e em todo caso, algo que deve ser superado. A superação da moral e o triunfo desta sobre si mesma, seria a denominação da larga e misteriosa tarefa reservada às consciências sutis e honestas e também às mais maliciosas da atualidade, na condição de viventes pedras de toque da alma.

***

“Que é que junta em mim as coisas que leio e vejo? Que forças em mim me fazem ver isso? Que forças em mim me fazem expressar assim o que “estou pensando”? Que forças já me dominam? Com que forças me alio?”

NIETZSCHE, Friedrich.

Ucroniatibus Historiis

O relato a seguir tenta ser una sinopse dos acontecimentos mais transcendentes da segunda década do século XXI. Este resumo tem como objetivo situar aproximadamente os textos que virão depois. A localização temporal é imprecisa e capciosa, em virtude da própria imprecisão da paisagem que os textos tentam construir.

 

 

O primeiro dos escritos, o Relatório Cacete Vil, recria o espírito dos comunicados internos das forças de segurança do partido. A organização em questão não é outra que o Partido do Sagrado e Obsessivo Povo Trabalhador (P.S. & O.P.T.), movimento ultrafascista simpático ao nazifascismo, embora crítico de algumas “tendências social-democratas do Terceiro Reich”. As fronteiras começam ser questionadas em sua legitimidade, o qual produz conflitos com os países vizinhos, criando um clima de tensão e desconfiança entre os governos da região, que têm como caraterística comum a intolerância.

O contexto global não é mais reconfortante. As principais nações são monárquicas ou profundamente conservadoras, e se encontram em estado de beligerância constante por razões comerciais, raciais e religiosas. O único território livre de guerra, terrorismo de Estado e outras calamidades, é o Istmo ‒ situado na antiga Península Ibérica (depois unida ao continente africano) ‒, que goza de um status diplomático especial, sendo o local onde se concretizam armistícios e tratados de comércio, bem como pode se passar uma boa vida. Tal o caso do Plenipotenciário, que escreve de lá, refletindo, entre a culpa e o cinismo, sobre o estado de coisas que vigora na Pátria, dominada pelo Partido, que só se interessa no Estado para cumprir com excelência o seu papel de polícia, deixando o restante em mãos de companhias como a aí citada, que instaura um monstruoso sistema bioquímico de pedágio nas vias públicas.

O terceiro escrito é, talvez, o mais pobre em aparência ‒ e o mais delirante, com certeza ‒ e ainda assim, o mais rico, dado o seu valor arqueológico, já que constitui uma amostra fiel do núcleo da visão paranoica do Partido; visão que fez os seus teóricos embarcarem na febril e demencial tarefa de reescrever (e não apenas reinterpretar) a história do mundo ocidental desde os seus inícios, reduzindo tal interpretação a uma sucessão inesgotável de conspirações disparatadas, as quais seriam responsáveis do caos herético mundial.

Porém esses três excertos são insuficientes; apesar de estarem atravessados pela linguagem da época, permeada de falsos latinismos utilizados com boa vontade e pouca erudição pelos membros do Partido, e de ilustrar o fanatismo fundamentalista e a religiosidade exacerbada, que pode se apreciar nos nomes próprios, no retorno de práticas inquisitoriais e nas frágeis teorizações dos ditos “sábios” do Partido, que majoritariamente são teólogos de solvência duvidosa.

São insuficientes para dar conta, sequer, de uma pequena parte das iniquidades daquele período de obscurantismo, com pseudocientistas que desvariam sobre línguas, ou “descobrem” ‒ já que tudo estava maliciosamente oculto e precisava ser descoberto ‒ uma equação que relaciona “a altura das calças no corpo” com o “índice de convicção fascista”. Isso fará com que uma geração inteira se veja obrigada a usar as calças quase à altura do pescoço. Tudo guiado pelo amor ao trabalho, que faz da pertinácia o seu valor-emblema, e da procrastinação do prazer a essência da vida, promovendo a culpa e a punição numa proposta pedagógica resumida no bordão dos educadores do P.S. & O.P.T.: “A letra com sangue entra”.

Acrescentar-se-á a isso o ódio visceral diante de qualquer ação cultural (…) que exceda as habilidades de um operário metalúrgico em funções” (extrato do discurso do Caudilho por ocasião da Queima do Teatro Nacional); a desconfiança infundada em relação aos intelectuais (que em grande maioria teriam vendido de bom grado suas habilidades ao Partido); e, finalmente as inevitáveis purgações internas que acabaram com a metade da nata do Partido ‒ sob acusações inacreditáveis, tais como heresia, maçom, jesuíta, intelectual e mariquinhas (ou artista).  

continuará

O Autor.


Álvaro Labarrère.

Tradução Damian Kraus

 

________________________________________________

Imagem:
40’s original painting presenting Benito Mussolini, made during the Greek Italian war. It is hand painted by I. P. Argyroulis (Ι. Π. Αργυρούλης) but it is unsigned. Measures 19.8 x15.8 cm (7.8×6.2 inch). In: goo.gl/74GiuA

É a vida que justifica, ela não precisa ser justificada. Vidas conservam seu mistério até o fim e desafiam a lógica e a psicologia

Por que o romancista se consideraria obrigado a explicar o comportamento de seus personagens e a lhes dar razões se a vida por sua vez nunca explica nada e deixa nas suas criaturas tantas zonas obscuras, indiscerniveis, indeterminadas, que desafiam qualquer esclarecimento?

O romance inglês, e ainda mais o romance francês, sempre tem a necessidade de racionalizar, ainda que nas últimas páginas, e a psicologia constitui sem dúvida a ultima forma do racionalismo: o leitor ocidental espera a última palavra.

A psicanálise, a esse respeito, relançou as pretensões da razão. Mas, se ela quase não poupou as grandes obras romanescas, nenhum grande romancista de sua época conseguiu se interessar muito pela psicanálise.

O ato fundador do romance americano, o mesmo que o do romance russo, consistiu em levar o romance para longe da via das razões e dar nascimento a esses personagens que estão suspensos no nada, que só sobrevivem no vazio, que conservam seu mistério até o fim e desafiam a lógica e a psicologia.

Crítica e Clínica