L.S indica a leitura de “Desobramento: constelações clínicas e políticas do comum”

Em pdf no link: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/48/48134/tde-22042010-104547/pt-br.php

Anúncios

contemporâneo

“(…) contemporâneo é aquele que mantem fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro. Todos os tempos são, para quem deles experimenta contemporaneidade, obscuros. Contemporâneo é, justamente, aquele que sabe ver essa obscuridade, que é capaz de escrever mergulhando a pena nas trevas do presente.Mas o que significa “ver as trevas”, “perceber o escuro”? Uma primeira reposta nos é sugerida pela neurofisiologia da visão. O que acontece quando nos encontramos num ambiente privado de luz, ou quando fechamos os olhos? O que é o escuro que então vemos? Os neurofisiologistas nos dizem que a ausência de luz, desinibe uma série de celulas periféricas da retina, ditas precisamente offcells, que entram em atividade e produzem aquela espécie particular de visão que chamamos o escuro. O escuro não é, portanto, um conceito privativo, a simples ausência da luz, algo como uma não-visão, mas o resultado da atividade das offcells, um produto na nossa retina. Isso significa, se voltamos agora à nossa tese sobre o escuro da contemporâneidade que perceber esse escuro não é uma forma de inércia ou passividade, mas implica uma atividade e uma habilidade particular que, no nosso caso, equivalem a neutralizar as luzes que provêm da época para descobrir as suas trevas, o seu escuro especial, que não é, no entanto, separável, daquelas luzes.Pode-se dizer contemporâneo apenas quem não se deixar cegar pelas luzes do século e consegue entrever nessas a parte da sombra, a sua íntima obscuridade. Com isso, todavia, não respondemos a nossa pergunta. Por que conseguir perceber as trevas que provêm da época deveria nos interessar?  Não é talvez o escuro uma experiência anônima, e, por definição, impenetrável, algo que não está direcionado para nós e não pode, por isso, nos dizer respeito? Ao contrário, o contemporâneo, é aquele que percebe o escuro de seu tempo como algo que lhe concerne e não cessa de interpelá-lo, algo que, mais do que toda a luz, dirige-se direta e singularmente a ele.Contemporâneo é aquele que recebe em pleno rosto o facho de trevas que provém de seu tempo. No firmamento que olhamos de noite, as estrelas resplandecem circundadas por uma densa treva. Uma vez que no universo há um número infinito de galaxias e de corpos luminosos, o escuro que vemos no céu é algo que, segundo os cientistas, necessita de uma explicação. É precisamente da explicação que a astrofísica contemporãnea dá para esse escuro que gostaria de lhes falar. No universo em expansão, as galaxias mais remotas se distanciam de nós a uma velocidade tão grande que sua luz não consegue nos alcançar. Aquilo que percebemos como o escuro do céu é essa luz que viaja velocíssima até nós e, no entanto, não pode nos alcançar, porque as galaxias das quais provém, se distanciam a uma velocidade superior áquela da luz. Perceber no escuro do presente essa luz que procura nos alcançar e não pode fazê-lo, isso significa ser contemporâneo. Por isso, os contemporâneos são raros. E por isso, ser contemporâneo, antes de tudo, é uma questão de coragem: porque significa ser capaz não apenas de manter fixo o olhar no escuro da época, mas também perceber nesse escuro uma luz que, dirgida para nós, distancia-se infinitamente de nós. Ou ainda: ser pontual num compromisso ao qual se pode apenas faltar (…) apreender o nosso tempo na forma de um “muito cedo”, que é, também, um “muito tarde”, de um “já” que é também um “ainda não”. E, do mesmo modo, reconhecer nas trevas do presente a luz que, sem nunca poder nos alcançar, está perenemente em viagem até nós.”

 

AGAMBEN, Giogio.

Macumba Antropófaga 2012

Macumba Antropófaga 2012

Temporada: De 12 de maio a 01 de julho, sempre aos sábados e domingos.
Horário: 17h.
Ingressos dízimos: R$ 25,00 (meia) e R$ 10,00 (moradores do Bixiga, mediante comprovação de residência). Desconto de 50% para clientes do cartão Petrobras e acompanhante.
Local: Estação Primeira Estratoporto do Teatro Oficina (Rua Jaceguai, 520, Bixiga. Tel: 11. 3106-2818).
Capacidade: 350 pessoas.
Venda de Ingressos: Através do e-mail ingressosmacumba@teatroficina.com.br ou na bilheteria do Teatro Oficina (no dia das sessões, a partir das 16h).
Indicação etária: 16 anos.

 


CHORO DO POETA ATUAL – Murilo Mendes

Deram-me um corpo, só um!

Para suportar calado

Tantas almas desunidas

Que esbarram umas nas outras,

De tantas idades diversas;

Uma nasceu muito antes

De eu aparecer no mundo,

Outra nasceu com este corpo,

Outra está nascendo agora,

Há outras, nem sei direito,

São minhas filhas naturais,

Deliram dentro de mim,

Querem mudar de lugar,

Cada uma quer uma coisa,

Nunca mais tenho sossego.

Ó Deus, se existis, juntai

Minhas almas desencontradas.

A epiderme da alma…

Alma

Zélia Duncan

Alma!
Deixa eu ver sua alma
A epiderme da alma
Superfície!
Alma!
Deixa eu tocar sua alma
Com a superfície da palma
Da minha mão
Superfície!…

Easy! Fique bem easy
Fique sem, nem razão
Da superfície!
Livre! Fique sim, livre
Fique bem, com razão ou não
Aterrize!…

Alma!
Isso do medo se acalma
Isso de sede se aplaca
Todo pesar não existe
Alma!
Como um reflexo na água
Sobre a última camada
Que fica na
Superfície!…

Crise!
Já acabou, livre
Já passou o meu temor
Do seu medo sem motivo
Riso, de manhã, riso
De neném a água já molhou
A superfície!…

Alma!
Daqui do lado de fora
Nenhuma forma de trauma
Sobrevive!
Abra a sua válvula agora
A sua cápsula alma
Flutua na
Superfície!…

Lisa, que me alisa
Seu suor, o sal que sai do sol
Da superfície!
Simples, devagar, simples
Bem de leve
A alma já pousou
Na superfície!…