No séc. XVII Vieira disse (veja o trecho do filme de Julio Bressane – 4 minutos – abaixo): “Faltam poucas letras a Adão para ladrão, e ao fruto para furto não lhe faltava nenhuma. Nem os reis podem ir ao paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar consigo os reis. Mas o que vemos praticar em todos os reinos do mundo é tanto pelo contrário que, em vez de os reis levarem consigo os ladrões ao Paraíso, os ladrões são os que levam consigo os reis ao inferno. (…) prosseguirei tanto com maior esperança de produzir algum fruto, quanto vejo enobrecido o auditório presente com a autoridade de tantos ministros de todos os maiores tribunais, sobre cujo conselho e consciência se costumam descarregar as dos reis. (…) No Brasil conjugam por todos os modos o verbo rapio (…) tanto que no Brasil quando (…) chegam, começam a furtar pelo modo indicativo, porque a primeira informação que pedem aos práticos é que lhes apontem e mostrem os caminhos por onde podem abarcar tudo. Furtam pelo modo imperativo, porque, como têm o mero e misto império, todos eles aplicam despoticamente às execuções da rapina. Furtam pelo modo mandativo, porque aceitam quanto lhes mandam, e, para que mandem todos, os que não mandam não são aceitos. (…) Furtam pelo modo permissivo, porque permitem que outros furtem, e estes compram as permissões. Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem o fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes em que se vão continuando os furtos. Estes mesmos modos se conjugam por todas as pessoas, porque a primeira pessoa do verbo é a sua, as segundas os seus criados, e as terceiras quantas para isso têm indústria e consciência. (…) Finalmente, nos mesmos tempos, não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos, plus quam perfeitos, e quaisquer outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse. Em suma, que o resumo de toda esta rapante conjugação vem a ser o supino do mesmo verbo: a furtar para furtar.(…) Antigamente os que assistiam ao lado dos príncipes, chamavam-se laterones. E depois (…) chamaram-se latrones (…) Os teus príncipes são companheiros dos ladrões. — E por quê? São companheiros dos ladrões, porque os dissimulam; são companheiros dos ladrões, porque os consentem; são companheiros dos ladrões, porque lhes dão os postos e os poderes; são companheiros dos ladrões porque talvez os defendem, e são, finalmente, seus companheiros, porque os acompanham e hão de acompanhar ao inferno, onde os mesmos ladrões os levam consigo.

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Eduardo Viveiros de Castro: As Universidades não existem mais, praticamente – isso está chegando aqui também (…) em função da demolição da Universidade, em particular nos países Anglo-saxões, em que a filosofia analítica controlava as Universidades.. Acho que isso, do ponto de vista da filosofia, é muito bem-vindo. Enfim, que a filosofia não se faça mais dentro da Academia, porque a Academia acabou…e ir para outros lugares. A internet é um ótimo lugar pra ela ser praticada. […] Talvez a a Universidade seja a instituição mais antiga depois da Igreja – ou melhor, dentro da Igreja. A Universidade é uma forma de monasticismo leigo que está acabando. Finalmente, o mercado tomou a Universidade. É um fato. Eu acho que nós temos que passar a dar aula em casa.

OBS.: Este post é a transcrição de partes de respostas de Eduardo Viveiros de Castro a questões do público durante a mesa de abertura (Modos de Existência) do evento Informação, tecnicidade, individuação: a urgência do pensamento de Gilbert Simondon, ocorrido no IFCH/Unicamp entre 2 e 4 de abril de 2012.

Repentinamente, as pessoas se deram conta de que a metafísica tinha voltado. Ela, na verdade, voltou antes. Talvez seja o Deleuze a pessoa que ousou retomar a metafísica, recolocar a questão da metafísica em um momento em que nós estávamos dominados pela filosofia da linguagem ou por uma antropologia filosófica geral (enfim, uma celebração da linguagem, o Heideggerianismo frenético). Talvez Deleuze tenha sido o sinal inicial “precursor” (para usar uma linguagem dele), dessa renovação da metafísica.

O Meillassoux vai numa direção muito diferente. Ele é um Badiouiano. Mas é um autor muito interessante pela ousadia, pela coragem de retomar o argumento ontológico, a seu modo (não é assim que ele diz, mas é assim que ele faz), de retomar questões medievais. Eu acho que esse pulo pra trás é um pulo pra frente também. E, sobretudo, atravessar o Canal da Mancha: é uma coisa nova que está acontecendo esse encontro das filosofias de língua inglesa com as filosofias, chamadas, “continentais”. Em parte, eu acho que é em função da demolição da Universidade, em particular nos países Anglo-saxões, em que a filosofia analítica controlava as Universidades.

As Universidades não existem mais, praticamente – isso está chegando aqui também. Acho que isso, do ponto de vista da filosofia, é muito bem-vindo. Enfim, que a filosofia não se faça mais dentro da Academia, porque a Academia acabou. É hora de a filosofia ir para outros lugares. A internet é um ótimo lugar pra ela ser praticada. De preferência, no twitter.

[…]

Talvez a a Universidade seja a instituição mais antiga depois da Igreja – ou melhor, dentro da Igreja. A Universidade é uma forma de monasticismo leigo que está acabando. Finalmente, o mercado tomou a Universidade. É um fato. Eu acho que nós temos que passar a dar aula em casa. Cobrando, é claro.

GAZA – Cinemateca em parceria com a UNIFESP promove sessão especial e debate sobre conflito de Gaza

SAIBA MAIS:

CINEMATECA BRASILEIRA REALIZA SESSÃO ESPECIAL EM SOLIDARIEDADE ÀS VÍTIMAS DO CONFLITO EM GAZA

Em parceria com a UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo, a Cinemateca Brasileira (Largo Senador Raul Cardoso, 207, próximo ao Metrô Vila Mariana, São Paulo) exibe uma sessão dupla especial em solidariedade às vítimas do conflito em Gaza, na Palestina, no dia 9 de agosto.

 

Às 17 horas, será exibido o documentário “Ocupação 101″ (2006), de Abdallah Omeish e Sufyan Omeish. Após a sessão, será realizado o debate “O massacre de civis em Gaza”, com Antônio Roberto Espinosa, da Escola Superior Diplomática, Rodrigo Medina Zagni, da UNIFESP, Reginaldo Mattar Nasser, da PUC-SP, e Luciana Garcia de Oliveira, da USP, como moderadora.

 

O filme “Intervenção divina”, de Elia Suleiman, vencedor do prêmio do júri e FIPRESCI no Festival de Cannes, tem sessão marcada para 20h30.

 

As sessões e o debate são gratuitos.

 

Comunicado dos alunos do Núcleo de Subjetividade da PUC-SP

Caros alunos, ex-alunos, frequentadores e amigos do Núcleo de Estudos de Subjetividade da PUC-SP:
A PUC-SP, importante espaço de sustentação das lutas democráticas no Brasil durante os anos de chumbo, tem sido desafiada em sua vocação libertária nos últimos anos.
Este desafio se materializou em grave ameaça a toda a comunidade acadêmica neste mês de agosto de 2014, quando veio a público uma investigação desencadeada pela Reitoria sobre suposto envolvimento dos professores de filosofia Jonnefer Barbosa, Yolanda Gloria Gamboa Muñoz e Peter Pál Pelbart na encenação protagonizada por José Celso Martinez Corrêa no Pátio da Cruz, em 2012 – evento de iniciativa dos alunos, como José Celso já esclareceu em entrevista à Folha de São Paulo (link abaixo).
O processo corre no âmbito de uma “Comissão Processante Permanente” instaurada pela reitora Ana Cintra e chega a cogitar a expulsão dos docentes, num caso de política policial em uma instituição que se pretende voltada para a formação. Temos motivos para crer que nosso caro professor Peter pode ser tomado pela Reitoria como caso de punição exemplar, detonando o medo na comunidade docente.
Jonnefer, Yolanda e Peter foram intimados a depor nesta sexta-feira, dia 8 de agosto de 2014, na Reitoria. Os depoimentos acontecem às 10, 10h30 e 11hs, em audiências privadas, sendo o último a depor o professor Peter Pelbart.
Nós, alunos do Núcleo de Subjetividade da PUC-SP, convidamos todos os que prezam a liberdade de pensamento e em especial a preciosa contribuição desses três filósofos à construção intelectual, a se fazerem presentes em frente à Reitoria neste dia, a partir de 10 horas. A ideia é nos reunirmos numa manifestação discreta, silenciosa, mas muito atenta aos desdobramentos de um procedimento cujo potencial persecutório não podemos desprezar.
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PUC apura papel de professores em ato contra reitora em 2012

Se for comprovada a responsabilidade dos docentes, eles poderão ser advertidos e até expulsos

José Celso Martinez Corrêa, que encenou o ato, foi convidado a depor; PUC e Igreja não quiseram se manifestar

THAIS BILENKY DE SÃO PAULO

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