Educações para nada: A educação pela pedra, de João Cabral de Melo Neto

A educação pela pedra

Uma educação pela pedra: por lições;

para aprender da pedra, frequentá-la;

captar sua voz inenfática, impessoal

(pela de dicção ela começa as aulas).

A lição de moral, sua resistência fria

ao que flui e a fluir, a ser maleada;

a de poética, sua carnadura concreta;

a de economia, seu adensar-se compacta:

lições da pedra (de fora para dentro,

cartilha muda), para quem soletrá-la.

*

Outra educação pela pedra: no Sertão

(de dentro para fora, e pré-didática).

No sertão a pedra não sabe lecionar,

e se lecionasse, não ensinaria nada;

lá não se aprende a pedra: lá a pedra,

uma pedra de nascença, entranha a alma.

 

[Deligny rabiscando tartaruga elemental de Lawrence]

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Amkel Zu Nord

A química como controle social

Pretensiosa como poucas é a cidade alpina de Amkel Zu Nord. Tudo nela reluz, e tudo está organizado à exasperação. Seus habitantes dispensam ao estrangeiro uma cortesia empolada que, vista com bons olhos, assemelha-se mais ao desdém que à hospitalidade, tendo a capacidade de inibir qualquer aproximação factual possível. Fora isso, os amkelinos são bastante honestos em suas transações comerciais. Em Amkel tudo ocorre em tempo e forma, nada fica fora do tom e nem tampouco há surpresas. No entanto, essa ordem impoluta responde menos à natureza de seus habitantes e mais ao monstruoso sistema de segregação de classes que condiciona todos os aspectos da vida por lá. Pode-se afirmar que em Amkel Zu Nord funciona o mais bem-sucedido sistema de apartheid jamais imaginado.

Tal sistema passa despercebido para a maioria dos visitantes, tamanha a sua eficácia. A primeira coisa que costuma atiçar a curiosidade dos forasteiros mais ou menos sensíveis é que eles nunca ‒ isso apesar de Amkel ser una cidade pequena ‒ poderão, ao passearem pelas suas avenidas principais, achar algum nativo executando funções subalternas. Muito pelo contrário, nesses passeios, será inevitável deparar repetidamente com o gerente do banco local, com quadros do alto escalão da Prefeitura e com prósperos comerciantes. Tais encontros não são casuais, já que, em Amkel, o sistema social encontra-se organizado a partir de grupos que dependem da renda e da atividade que cada um executa. A rígida estrutura amkelina desconhece o conceito de “mobilidade social” e, de quebra, segrega geograficamente às pessoas conforme tais grupos, impedindo de um jeito truculento e ao mesmo tempo original a confraternização entre os vários existentes.

Com base nesse arranjo, aos serventes é concedida a Zona Sul, território sugerido a eles pelas autoridades locais como área de residência e lazer. À proibição tácita de acesso à Zona Norte é acrescido um engenhoso sistema de pedágio bioquímico: as calçadas, as ruas, as construções e as árvores de Amkel Nord estão impregnadas de substâncias hiperalergênicas. Todos os residentes do Norte são medicados desde que nascem, de forma que são absolutamente imunes a tais substâncias. Os amkelinos da classe baixa, pelo contrário, precisam tomar anti-histamínicos providenciados pelos seus patrões para ter acesso à Zona Norte e nela trabalhar. Quando acabam suas tarefas, os amkelinos do Sul se retiram rapidamente, para não ficar expostos às consequências de um choque alérgico severo. Qualquer amkelino do Sul que tente visitar Amkel Nord sem a proteção do remédio adequado sofrerá transtornos respiratórios severos e urticárias furiosas, o que colocará a sua vida em risco e evidenciará a sua condição de invasor indesejável. Em caso de sobreviver, o transgressor será preso pela polícia e expulso da cidade. Os amkelinos do Norte, pelo contrário, não têm restrições e, teoricamente, podem visitar o setor Sul da cidade. Mas só fazem isso muito de vez em quando ‒ e sempre por motivos de caridade.

Álvaro Labarrère,

do livro Las ciudades invivibles

Tradução: Damian Kraus

CFP/CRPs: Prefeitura de SP afronta direitos humanos e luta antimanicomial

http://site.cfp.org.br/prefeitura-de-sao-paulo-afronta-direitos-humanos-e-luta-antimanicomial/

 

22/05/2017 – 11:48

Prefeitura de SP afronta direitos humanos e luta antimanicomial

Desmantelamento do programa “De Braços Abertos” desampara população atendida

 Os Conselhos Regionais e Federal de Psicologia, reunidos no dia 21 de maio de 2017, em Brasília/DF, na Assembleia das Políticas, da Administração e das Finanças (Apaf), repudiam a violência empregada pela gestão da Prefeitura de São Paulo na remoção da população atendida pelo “De Braços Abertos” e o desmantelamento do programa.

Assim devem ser compreendidas as atrocidades cometidas neste domingo (21/5), pela Prefeitura de São Paulo, em parceria com o governo estadual, sob o discurso de “fim da Cracolândia”: a ação afronta os 30 anos de história da luta antimanicomial no Brasil, recém-celebrados em 18 de maio, e os princípios internacionais dos direitos humanos. A violência policial ostensiva foi o expediente utilizado para promover a remoção e a internação forçadas da população em situação de rua que habitava a área do centro de são Paulo conhecida por “Cracolândia”.

Essa ação truculenta e absurda desmontou, arbitrariamente, uma política pública destinada a usuárias (os) de drogas, fundamentada nos princípios da atenção integral à saúde, do cuidado em liberdade, da redução de danos e voltada à ampliação da autonomia do sujeito, por meio da redução gradual do uso de substâncias e da promoção do acesso à assistência social, ao atendimento em saúde, e a oportunidades de emprego e moradia.

Assistimos indignados e apreensivos ao fim do programa “De Braços Abertos”, construído no diálogo com órgãos, entidades e coletivos atuantes no campo da política pública sobre drogas e direitos humanos, e sua substituição por um “novo programa”, batizado de “Redenção” pela gestão municipal.

Esse “novo programa” repete fórmulas ultrapassadas, inadequadas e ineficientes do ponto de vista da saúde mental. Repete o “Programa Recomeço”, do governo estadual, e a “Operação Sufoco”, da gestão municipal. As três iniciativas têm como princípios o tratamento por internação, inclusive involuntária, em parceria com comunidades terapêuticas mantidas por entidades confessionais, não sendo coincidência o nome “Redenção”.

A demolição dos hotéis que serviam de moradia e a remoção das tendas de acolhimento e atendimento social e de saúde concretizam o desrespeito sumário aos trabalhos e aos fluxos desenvolvidos por trabalhadoras (es) das políticas públicas de saúde e assistência social. O cuidado com a vida dá lugar a um programa de reurbanização da região da Luz, centro de São Paulo, com forte significado histórico e cultural, que reforça projeto higienista de cidade voltada ao setor imobiliário, não às pessoas, com grande risco de gentrificação da área.

A “São Paulo Cidade Linda” do prefeito João Dória é a cidade sem políticas públicas que atendam de maneira eficiente as demandas da população em situação de rua, entre elas, usuárias (os) de drogas. É a cidade na qual não há espaços para dialogar com as diferenças que São Paulo apresenta e que merecem não tratores, mas sim estratégias de cuidado que reconheçam todas as questões históricas e sociais que antecedem e resultam na vulnerabilidade de parcelas da população.

A barbárie deste 21 de maio de 2017 é inaceitável. A ação do prefeito João Dória viola a Constituição Federal no direito cidadão de ir e vir e fere o princípio da laicidade do Estado. Representa ainda uma afronta aos direitos humanos e à luta antimanicomial.

Brasília, 21 de maio de 2016.

Sistema Conselhos de Psicologia