Encontro [Rencontre] [Tradução livre de Orl van Andi do verbete “Rencontre” escrito por Arnaud Villani em Le vocabulaire de Gilles Deleuze, organizado por Robert Sasso e A. Villani, Paris, Vrin, 2003, pp. 294-296].

No pensamento que já não pertence à representação tradicional, a idéia de encontro diz respeito ao processo que substitui a recognição e que põe em relação pelo menos duas séries heterogêneas. O objeto do encontro é a diferença na intensidade (o signo), isto é, o insensível que faz nascer a sensibilidade, levando-a a uma potência.

HISTÓRICO
Para compreender a importância do encontro no conjunto dos textos deleuzianos, é importante apreender seus efeitos: “se nós supomos que as séries entram em comunicação, isso produz acoplamento [couplage] entre séries heterogêneas, ressonância [résonance] interna no sistema, movimento forçado [mouvement force] cuja amplitude transborda as próprias séries de base” (DR: Différence et répétition, 1968, p. 154 – sublinhado por Villani).
Ou ainda:
(1) “Quando a comunicação é estabelecida entre séries heterogêneas, algo passa entre os bordos, explodem acontecimentos, fulguram fenômenos, sujeitos povoam o sistema, eus passivos, sujeitos larvares” (DR, p. 155).

Então, que deve ser o encontro para produzir tantos efeitos? O mais fácil é defini-lo por aquilo [ce que] que a gente encontra, pelo algo [quelque chose] que se encontra. Esse algo é o objeto de um encontro fundamental; situando-se na origem empírica de toda faculdade, esse algo toma o lugar da recognição que, em Kant, assegura a possibilidade de uma representação. Esse algo não identificável é “o ser do sensível, aquilo pelo que o dado é dado, o insensível” (DR, p. 187). É esse aistheteon (o que deve ser sentido, o virtual na sensação) e não o aistheton (o que é atualmente sentido) que força a sensibilidade a devir sensibilidade, elevando essa faculdade a um uso superior que, de próximo em próximo, como um rastro de pólvora, provoca as faculdades a “saírem dos seus eixos” (DR, p. 187). Nos termos de Empirismo e subjetividade, o sentiendum [o aistheteon, aquilo que só pode ser sentido intensivamente e não por mera afecção empírica, extensiva, digo eu, OrlvanAndi] provoca o memorandum [o que só lembrado intensivamente; OvA] que força o cogitandum [o pensar intensificado; OvA], ao contrário de uma “boa vontade de pensar”.

É que, assim como as sensações contraditórias analisadas por Platão, o objeto do encontro, dito também “signo” (como o deus de Heráclito) “faz signo” [dá sinal] põe problema. Ele é essa violência que nos põe em face do disparate (DR, p. 187). Assim, verdejar, esse incorporal, é uma singularidade-acontecimento na vizinhança da qual a árvore se desenha do ponto de vista da metamorfose; ao mesmo tempo, do ponto de vista do encontro, o verdejar é o próprio exercício da sensibilidade, é o insensível sensibilizando, ao passo que o sensível empírico é a árvore verde). Podemos concluir, então, por uma definição global:
(2) “ [“O intensivo,” A diferença na intensidade é o objeto do encontro, o objeto ao qual o encontro eleva a sensibilidade. O que é encontrado são os demônios, potências do salto, do intervalo, do intensivo ou do instante, que só preenchem a diferença com o diferente” (DR, p. 188-189).

CRÍTICA
Nesse sentido, todo encontro produz uma metamorfose, o que se pode verificar pela conjunção de duas definições da aprendizagem: aprender é se metamorfosear; e “aprender é elevar uma faculdade ao encontro” (DR, p. 251). Sobre esse ponto Deleuze é espinosista, e ele repete a quem queira ouvi-lo: “não se sabe o que pode o corpo”. Ao passo que, em Kafka, a metamorfose é a expressão de um humor superior, em Deleuze ela é verdadeiramente o que, a cada vez, lança o dado, cria blocos, extrai o novo da repetição habitual, e eleva o pensamento de Hume e de Ravaisson até sua fecundação superior no pensamento bergsoniano. Assim que compreendida, recorda-se durante muito tempo esta justa observação sobre o aprendizado da natação: trata-se de colocar certos pontos do corpo em ressonância, numa vizinhança de quase fusão, em metamorfose com certos pontos da vaga. [Recordar aula de 17/03/1981 de Deleuze a respeito de Espinosa; OvA] Assim, a implicação do encontro é infinita, consiste em todos os agenciamentos da história (homem+cavalo+estribo; nômade+metal+domínio do fogo); poder-se-ia também compreender um aspecto do aion ponderando que esses agenciamentos, que se situam em sobrevôo absoluto da história, são também o que abre o porvir a todos os novos agenciamentos, de modo que, do passado ao futuro, o tempo salta o presente e lança suas cintilantes estrias, que, em velocidade infinita, percorrem nos dois sentidos as dobras do homem “fundamente aberto”, como o diz tão bem Hölderlin.

Por outro lado, não se pode esquecer a extrema importância, na determinação da noção de encontro, da idéia espinosista e nietzschiana de “bom e mau encontro”, de encontro que fortifica e de encontro que envenena, em suma, a idéia de alegria e de tristeza, de aumento ou de diminuição da potência de agir. A esse respeito, embora se tenha pretendido durante longo tempo distinguir os dois aspectos da obra, Deleuze é indissociavelmente historiador da filosofia, (um entre todos os melhores, precisamente porque ele não é sempre somente “literalmente fiel”) e filósofo, entre os mais inovadores do século.

Referências: Différence et répétition (1968).
Conceitos conexos:
Dessubjetivação, Acontecimento, Fulgurar, Metamorfose, Problema, Singularidade, Vizinhança.
As. Arnaud Villani

Cidades

O Imperador Khan quer saber qual cidade nos espera no futuro, utopia ou Babilônia, a Cidade do Sol ou aquela do Admirável Mundo Novo, e lamenta que no final de tudo se insinue “a cidade infernal, que está lá no fundo e que nos suga num vórtice cada vez mais estreito”. Ao que Marco Pólo lhe responde: “O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.

CALVINO, Ítalo. As Cidades Invisíveis. São Paulo, Cia. da Letras: 1991. P.150.

Cidade de Leubann

Quanto às origens de Leubann, sabe-se apenas que foi, em tempos remotos, uma precária e mísera paragem onde as caravanas e carroças se detinham para carregar mantimentos e água; uma pausa obrigatória na rota comercial, um ponto na imensidade da planície, um local onde, ocasionalmente, os viajantes se encontravam e, após fugaz acasalamento, continuavam prontamente a jornada. Às vezes, alguns desistiam de chegar ao destino final. Outras, seus parceiros, cheios dos seus vícios, forçavam eles a desistir. Esses enjeitados, ou aqueles que desanimavam, essa caterva de renegados e criminosos foi o caldeirão no qual se forjou a população de Leubann.

 

Macau

 

Quando se faz uma análise detalhada do planejamento estratégico da Cidade de Leubann – de seu plano diretor (aliás, ele existiu, embora não pareça), surge uma viva impressão de se estar diante da obra de um demente. Unicamente a mania de um insano perigoso pôde idealizar tamanha concepção de cidade. Como qualquer obra humana, Leubann é mais horrorosa no conceito que na concretização efetiva, mais insidiosa na projeção no papel que na urbe física de materiais.

 

Sobre o pai de Leubann (como acontece com qualquer pai) pouco se sabe ao certo. Alguns pressupõem que foi um urbanista tomado por um delírio religioso, ou um ministro (da religião pretensamente reformada) rendido por suas convicções urbanísticas quem definiu os eixos do crescimento da cidade. Outros acusam um matemático digno de nota e alcoólatra inveterado, que perverteu à náusea (com auxílio dos diabos azuis da embriaguez recorrente) a loxodromia de Mercator (essa loxodromia seria a causa do traçado geodésico e enlouquecedor das avenidas de Leubann).

 

Resulta interessante destacar que, historicamente, a catástrofe – entendida como mal de muitos, ou mal urbano – tem sido a razão de alta política que norteia o crescimento e as vidas dos habitantes de Leubann. Todos os burgomestres – fora seus pitorescos vícios particulares – têm tido particular cuidado em respeitar aquilo que, na Escola de Assuntos Municipais de Leubann, é estudado como Gerenciamento Estratégico das Calamidades. Essa ousada concepção da política urbana e da paisagística social é implantada através da Secretaria de Randomização das Catástrofes. Como o nome indica, essa repartição tem como tarefa a distribuição aleatória das catástrofes, entendendo por tais quaisquer formas de desgraça que possam se abater sobre Leubann. A proposta da administração de Leubann sugere que “nenhum acontecimento (bom ou ruim) pode ser prevenido; portanto, resulta conveniente provocar artificialmente situações prejudiciais (as boas podem chegar por si sós), com o intuito de controlar as catástrofes e seus efeitos”.

 

A distribuição aleatória das catástrofes supõe planejar uma série de calamidades, como epidemias, crimes, acidentes viários, incendios etc. São estabelecidas cotas de mortalidade para cada ponto, de modo que o total chegue a 50% da taxa de mortalidade habitual em Leubann (excluída a catástrofe artificial). Assim, o Burgomestre e seus colaboradores se garantem um maior controle sobre o destino e sobre a desgraça.

 

“As catástrofes são um bem de uso comunitário”, afirma (sic) o estatuto da cidade. A saúde, muito pelo contrário, é considerada do foro íntimo, não sujeita à intervenção do Estado. A última vez que a questão foi discutida no âmbito comunal foi em 1664, quando o herético Doutor D.D. Van Driscoll foi julgado e condenado à fogueira, por defender até a morte que “a saúde é um direito que o Estado deve garantir etc…” A cultura de Leubann considera particularmente despudorado este conceito. Leubann é, por isso e por cima de qualquer outra consideração, uma cidade em secessão permanente: uma secessão, mil secessões; dos bairros entre si, dos quarteirões, das ruas de traçado diabólico ‒ tantas secessões quanto habitantes porventura venha a ter a cidade. Em suma, Leubann nasceu pelo e para o padecimento de seus habitantes. Como toda e qualquer cidade ‒ só que Leubann se mantém particularmente fiel a essa premissa.

 

Alvaro Labarrère. Psicólogo, psicanalista e escritor argentino-peruano. Originalmente, “Ciudad de Leubann” foi publicado em castelhano. In: La Libreta, Rosário: Ediciones de la Sexta, 1996, ano 3, nº 3.

 

 

Tradução de Damian Kraus. Psicólogo, psicanalista, tradutor. Doutor em Psicologia Clínica/Subjetividades pela PUC-SP.

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Imagem

Mapa de Macau, in “Monografia Abreviada de Macau”, Yin Guangren e Zhang Rulin, 1751. [Ying Guangren e Zhang Rulin, Aomen Jilüe (Monografia Abreviada de Macau), Guangzhou, Editora do Ensino Superior de Guangdong, 1988.]
Imagem do artigo “Cartografia antiga da cidade de Macau, C. 1600-1700: Confronto entre modelos de representação europeus e chineses”. In: Scripta Nova – Revista Electrónica de Geografía y Ciencias Sociales, Universidad de Barcelona, vol. X, núm. 218 (53), 1 de agosto de 2006. Disponível, in: http://www.ub.edu/geocrit/sn/sn-218-53.htm
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