Laboratório de Sensibilidades – 1° dia (12/3/2007)

No local, os presentes se ajuntam e se apertam: estudantes dos cinco cursos de graduação, técnicos, alguns professores e vários outros personagens que, por diversas motivações agruparam-se ali. Após a apresentação de um clown, que permaneceu ali, irrompe pela porta um homem de calça jeans, bolsa e camisa brancas. Passa entre os presentes com um peixe numa das mãos e um copo d’água na outra. Direciona-se pra um dos lados do espaço. Burburinho e risadas de estranhamento vão se dando enquanto o homem de branco, silenciosamente, se prepara para o que quer que seja. Sabemos apenas que envolve um peixe e um copo d’água. Ele para e fica de joelho, sentando em seguida nos calcanhares, sobre um craft lançado no chão. Deposita o peixe ao centro, bem em sua frente. Coloca o copo d’água ao seu lado. Tenta tirar algo da bolsa. Parece ter problemas na tarefa. Um dos presentes grita: Precisa de ajuda? Ajuda ele vai..Ele não reponde. Parece indiferente às falas e risos, que aumentam e diminuem a cada segundo. Um braço aproxima-se e se estende em direção à bolsa para auxiliá-lo, sem que ele solicite ajuda. Antes do auxílio tocar a bolsa, ele retira dela uma faca. O braço se recolhe rapidamente.Após a faca, ele retira um pequeno rolo de faixa para gesso e posiciona ao lado do copo. Com a coluna ereta, respira fundo, olha pra frente por um instante. Desce o olhar para o peixe. Pega-o pelo rabo e o acaricia. Passa as mãos lentamente num dos lados do peixe. Neste instante, alguém grita em forma de gemido: Ahhiiiiiihhh….ShshshshhshDe súbito pega a faca e começa a esfregá-la rapidamente e com força, no peixe. Escamas voam por todo lado, acompanhadas pelo grito e risos de muitos.Falatório. Impossível entender as falas que se atravessam e se sobrepõem neste instante. No calor santista, o cheiro de peixe passeia pelo local. Hummm que cheiro.. Noossaa.Lentamente, ele vira o peixe para o outro lado. Respira fundo novamente, olha por um instante para frente. Repete o ritual. Neste instante alguém grita: Chama as moça da limpeza!Entre falas e risos que não cessam, ele continua limpando cuidadosamente todas as escamas do animal, agora mais lentamente. Um dos presentes questiona: Que que você está fazendo aí? Que você tá fazendo? O artista responde, calmamente: Que que eu tô fazendo? Eu tô limpando o peixe…E outra: Pra quê? Resposta: Para que o trabalho seja feito Continua a pergunta: Alguém vai comer? Performer: Depende de que alimento você tá falando. Que tipo de alimento você tá falando?Expectadora: Espiritual. Performer: Aí eu não sei E mais uma: Ahhh, se temperar legal eu como (risos) Em meio a risos, ora baixos, ora mais altos, ele pega a faixa de gesso e merguha na água que está no copo. É gesso? Performer: Isso. Você tá enterrando o bichinho (risos). O performer continua engessando o peixe. Eu não como mais (riso dos presentes)Você bateu tanto no coitado que o “esfraturou”. Com bastante seriedade, o homem de branco engessa, da cauda ao “pescoço”, o animal. “Não vai engessar a cabeça?” Levantando-o até a altura do peito responde: “Geralmente a cabeça é um lugar que a gente… nunca engessa… geralmente…” Pega os materiais, que nesse momento estão espalhados, arruma, e, leva o copo com água que serviu para mergulhar a faixa de gesso até a boca e bebe: Ahhhhrghhhh (risos) Gemem em coro os presentes. Ele retira o papel craft para o lado, tendo logo abaixo um outro. No craft ao lado se encontra o peixe, agora secando o gesso. Ainda de joelhos e sentado nos calcanhares o performer limpa as mãos na calça e se dirige aos presentes: Enquanto eu espero que o trabalho seque, pra gente nomear ele. Porque a gente geralmente só nomeia as coisas quando elas estão prontas. Eu vou colocar aqui cinco alternativas, pra quem eu escolher nomear. Ele vai escrevendo no craft. Neste momento os presentes ficam quietos, poucos falam algo com quem está ao lado, ou esboçam algum sorriso. No craft são escritos os nomes: Sensibilidade Acadêmica, Sistemática sensível, Sub-missão artística..e… Alguém na plateia pergunta qual a formação do artista… Ele é TO, Terapeuta Ocupacional Como você foi psicóloga. Você sabe como é TO né..(…) Uma das presentes nomeia o trabalho: Sensibilidade Acadêmica. No corredor, o artista conversa com um professor: Sei quando funciona: ninguém aplaude.

Nascer

“Nunca se sabe quando se nasce: o parto é uma simples convenção. Muitos morrem sem terem nascido; outros nascem apenas, outros mal nascem, como abortados. Alguns, por nascimentos sucessivos, vão passando de vida em vida, e se a morte não viesse a interrompê-los, seriam capazes de esgotar o ramalhete de mundos possíveis à força de nascer uma e outra vez, como se possuíssem uma reserva inesgotável de inocência e de abandono.Enteado também, eu nascia sem saber, e, como o menino que sai, ensangüentado e atônito, dessa noite escura que é o ventre da sua mãe, não podia fazer outra cosa que começar a chorar.” Juan José Saer, O enteado, tr. br. de José Feres Sabino, São Paulo: Iluminuras, 2002, p. 41.

_______________________

“No se sabe nunca cuándo se nace: el parto es una simple convención. Muchos mueren sin haber nacido; otros nacen apenas, otros mal, como abortados. Algunos, por nacimientos sucesivos, van pasando de vida en vida, y si la muerte no viniese a interrumpirlos, serían capaces de agotar el ramillete de mundos posibles a fuerza de nacer una y otra vez, como si poseyesen una reserva inagotable de inocencia y de abandono. Entenado y todo, yo nacía sin saberlo y como el niño que sale, ensangrentado y atónito, de esa noche oscura que es el vientre de su madre, no podía hacer otra cosa que echarme a llorar.” Juan José Saer, El entenado, Buenos Aires, Seix Barral, 2002.

capa o enteado

[ Capa do livro, extraída de: http://iluminuras.com.br/v1/admin/imagens_capas/8573211784.jpg ]

Cada táuba que caía não doía no coração

Artigo publicado in: http://miud.in/1EBq

Na intervenção da Prefeitura de São Paulo na cracolândia não doeram porque foi a mais paulistana das lições de cidadania

Antonio Lancetti
ANTONIO LANCETTI 16 de Janeiro de 2014 às 19:41

Durante o cadastramento das pessoas que estavam morando na favelinha das Ruas Dino Bueno e Helvetia, um senhor disse: eu montei o barraco e eu quero desmontá-lo.

E foi assim que essas pessoas foram aceitando a ocupação desse território conhecido como cracolândia pelo poder local. A via pública foi liberada sem violência, sem expulsão: com diálogo e inclusão.

“Cada táuba que caía, disse Adoniran Barbosa, “doía no coração” e continua doendo a cada desocupação autoritária, expulsiva, a cada incêndio de favela.

Mas na intervenção da Prefeitura de São Paulo na cracolândia não doeram porque foi a mais paulistana das lições de cidadania.
Estão ainda na triste memória da cidade as intervenções policiais, com prisões, internações falsamente voluntárias (ou se interna ou vai preso por tráfico, dado que nossa lei não especifica a quantidade necessária para ser considerado traficante) e o retorno à zona de uso da maioria dos internados, cada vez mais arredios.

Estão ainda na memória da cidade o desfile de pessoas maltrapilhas sendo tocados como gado sem rumo para provocar a “crueldade e sofrimento” que iria provocar a vontade de tratamento, e os trabalhadores de saúde tendo que desfilar para mostrar serviço.

Essas ações truculentas, além de ser violadoras de direitos humanos, atrapalharam o trabalho das equipes de saúde e de assistência, além de provocar desânimos quando pela tradicional prática do “rapa” retiravam dessas pessoas seus pertences, incluindo documento, remédios e às vezes a única foto de um ser querido.

Quanto custa para que uma pessoa com tuberculose, por exemplo, e sem moradia, adira a um tratamento!

A intervenção do dia 14 de janeiro marca um ponto de inflexão no modo como são enfrentados problemas desse tamanho: passamos de operações urbanas e concepções simplificadas para resolução de problemas complexos a ações ousadas e complexas para o enfrentamento de problemas complexos.

Em primeiro lugar porque a intervenção foi amplamente discutida com os mais diversos fóruns. Vários secretários e até o prefeito, sem escolta, foi escutar as pessoas que ali moram ou transitam.

Em segundo porque a ação está intensificando os vínculos dessas pessoas com os médicos, psicólogos, agentes sociais e agentes comunitários dos consultórios de rua que operam na região.

O mutirão do dia 14 de janeiro deflagrou um processo de integração de trabalhadores da assistência social, com os da saúde, com os guarda civis metropolitanos, com os artistas, com os trabalhadores de ONGs etc.

Em terceiro lugar porque irá intensificar o processo de construção da Rede Atenção Psicossocial paulistana, que a prefeitura achou incompleta (apesar da pressão do poder Judiciário para sua construção) e desintegrada.

A secretaria de saúde está intensificando a construção de uma rede que conta com Centros de Atenção Psicossociais – CAPS, recentemente transformaram cinco – em serviços de 24 horas, já criaram 16 unidades de Acolhimento que são casas onde as pessoas com projeto terapêutico em curso podem morar por aproximadamente 6 meses para reorganizar suas vidas.

A pesquisa sobre crack recentemente concluída pela FIOCRUZ, recentemente publicada, mostrou que 80% dos usuários pesquisados nas zonas de uso são negros ou pardos, que 80% não chegaram ao ensino médio, que 50% estiveram presos e que em média usam há mais de oito anos.

O crack não mata imediatamente, como querem fazer crer. É um produto inerte que não se propaga por si mesmo como uma peste epidêmica, mas um organizador de vidas violentadas, não preparadas para viver em sociedade e que são alcançadas pelo mercado (negro) que organiza suas vidas.

A operação não tem nada de ingênua, como alguns acreditam, pois não será dando o que eles não têm – o que é impossível – que as coisas mudarão. As pessoas que conduzem o processo sabem que não será obrigando nem dando sermão que gerarão nesses usuários uma vontade de mudança. Daí a baixa exigência do serviço.

O programa “Braços Abertos” que está na rua Helvétia é um espaço paradoxal, um pouco serviço público, um pouco rua que ampliou e intensificou o vínculo com os usuários, ali foram criados grupos musicais e outras iniciativas culturais, fora os cuidados com a saúde.

Ou seja, a menor exigência maior complexidade.

As pessoas que operam na região esperarão conflitos, recaídas, novas demandas e irão se surpreender com a potencialidade de muitos deles.

O mutirão tem apoio do Ministério da Saúde, de vários organismos de direitos humanos, de voluntários e recebe o apoio crítico dos movimentos da população em situação de rua.

No dia 15 de passagem pelos Braços Abertos, encontrei o secretário de Segurança Urbana, Roberto Porto, a coordenadora de Saúde Mental, Myres Cavalcanti, e outros dirigentes municipais. Paulo Puccini, secretário adjunto de Saúde, estava com um sorriso a flor de lábios. Ele disse: você já viu eles saírem do hotel de banho tomado e roupas trocadas?

Autoridade, destemor e ousadia do prefeito e sua equipe. Eles estão propiciando um belo presente para o próximo 25 de janeiro: encontrar um modo, baseado em experiências eficazes do mundo contemporâneo, mas autenticamente paulistano de enfrentar um dos sérios problemas da cidade.