Luiz Orlandi. REPENSAR ABSTRAÇÕES (vídeo da conferência). “Tem situações de difícil respeito, como é que eu posso respeitar a humanidade de um golpista. Não é fácil”.

Anúncios

Quem, em mim, vive querendo piorar as vidas? Seria um decisivo benefício a nos todos a cotidiana retomada dessa pergunta por juízes, parlamentares, governantes, poluidores, policiais, chefetes, mas também por mim e vocês, a cada vez que uma abstração nos atinge. Quem, em mim, está se deliciando ou se prejudicando com tal ou qual abstração?

Imaginemos um rato que, descuidado, escolha a vereda que o levará ao alcance do bote da calma serpente: ele precisa selecionar detalhes sonoros e odoríferos promissores ao bom andamento de sua existência. É possível polemizar isso, dizendo, por exemplo: as abstrações, as seleções abstrativas que a gente faz ao longo de um percurso dependem daquilo que, previamente, se quer. Nesse sentido, o rato polêmico diria: quero suicidar, portanto pegarei o caminho que, mesmo ao léu, acabará me levando à serpente. O que esse rato está esquecendo é que seu prévio querer suicidar já é uma abstração. Esse rato não está fazendo a pergunta nietzschiana: quem, em mim, está querendo meu suicídio? É essa a pergunta que a mente escravocrata deveria fazer a si própria, ganhando, assim, a possibilidade de confrontar-se com o inquilino nazista que a habita: quem, em mim, vive querendo piorar as vidas? Seria um decisivo benefício a nos todos a cotidiana retomada dessa pergunta por juízes, parlamentares, governantes, poluidores, policiais, chefetes, mas também por mim e vocês, a cada vez que uma abstração nos atinge. Quem, em mim, está se deliciando ou se prejudicando com tal ou qual abstração?

L.B.O

Nietzsche (em 1 página) escreve acerca da produção do ‘mundo interior’ (interiorização) no homem do século XIX. Um episódio!

Neste ponto já não posso me furtar a oferecer uma primeira, provisória expressão da minha hipótese sobre a origem da “má consciência”: não é fácil apresentá-la, e ela necessita ser longamente pensada, pesada, ponderada. Vejo a má consciência como a profunda doença que o homem teve de contrair sob a pressão da mais radical das mudanças que viveu – a mudança que sobreveio quando ele se viu definitivamente encerrado no âmbito da sociedade e da paz. O mesmo que deve ter sucedido aos animais aquáticos, quando foram obrigados a tornar-se animais terrestres ou perecer, ocorreu a esses semi-animais adaptados de modo feliz à natureza selvagem, à vida errante, à guerra, à aventura – subitamente seus instintos ficaram sem valor e “suspensos”. A partir de então deveriam andar com os pés e “carregar a si mesmos”, quando antes eram levados pela água: havia um terrível peso sobre eles. Para as funções mais simples sentiam-se canhestros, nesse novo mundo não mais possuíam os seus velhos guias, os impulsos reguladores e inconscientemente certeiros(24) – estavam reduzidos, os infelizes, a pensar, inferir, calcular, combinar causas e efeitos, reduzidos à sua “consciência”, ao seu órgão mais frágil e mais falível! Creio que jamais houve na terra um tal sentimento de desgraça, um malestar tão plúmbeo – e além disso os velhos instintos não cessaram repentinamente de fazer suas exigências! Mas era difícil, raramente possível, Ihes dar satisfação: no essencial tiveram de buscar gratificações novas e, digamos, subterrâneas. Todos os instintos que não se descarregam para fora voltam-se para dentro – isto é o que chamo de interiorização do homem: é assim que no homem cresce o que depois se denomina sua “alma”. Todo o mundo interior, originalmente. delgado, como que entre duas membranas, foi se expandindo e se estendendo, adquirindo profundidade, largura e altura, na medida em que o homem foi inibido em sua descarga para fora. Aqueles terríveis bastiões com que a organização do Estado se protegia dos velhos instintos de liberdade – os castigos, sobretudo, estão entre esses bastiões fizeram com que todos aqueles instintos do homem selvagem, livre e errante se voltassem para trás, contra o homem mesmo. A hostilidade, a crueldade, o prazer na perseguição, no assalto, na mudança, na destruição – tudo isso se voltando contra os possuidores de tais instintos: esta é a origem da má consciência. Esse homem que, por falta de inimigos e resistências exteriores, cerrado numa opressiva estreiteza e regularidade de costumes, impacientemente lacerou, perseguiu, corroeu, espicaçou, maltratou a si mesmo, esse animal que querem “amansar”, que se fere nas barras da própria jaula, este ser carente, consumido pela nostalgia do ermo, que a si mesmo teve de converter em aventura, câmara de tortura, insegura e perigosa mata – esse tolo, esse prisioneiro presa da ânsia e do desespero tornou-se o inventor da “má consciência”. Com ela, porém, foi introduzida a maior e mais sinistra doença, da qual até hoje não se curou a humanidade, o sofrimento do homem com o homem, consigo: como resultado de uma violenta separação do seu passado animal, como que um salto e uma queda em novas situações e condições de existência, resultado de uma declaração de guerra aos velhos instintos nos quais até então se baseava sua força, seu prazer e o temor que inspirava. Acrescentemos, de imediato, que com uma alma animal voltada contra si mesma, tomando partido contra si mesma, algo tão novo. surgia na terra, tão inaudito, tão profundo, enigmático, pleno de contradição e de futuro, que o aspecto da terra se alterou substancialmente. De fato, necessitava-se de espectadores divinos, para fazer justiça ao espetáculo que então começava e cujo fim não se prevê – espetáculo demasiado fino, portentoso e paradoxal, para que pudesse acontecer absurdamente despercebido, num astro ridículo qualquer! O homem se inclui, desde então, entre os mais inesperados e emocionantes lances no jogo da “grande criança” de Heráclito, chame-se ela Zeus ou Acaso – ele desperta um interesse, uma tensão, uma esperança, quase uma certeza, como se com ele algo se anunciasse, algo se preparasse, como se o homem não fosse uma meta, mas apenas um caminho, um episódio..

Go

“Os peões do go (…) são grãos, pastilhas, simples unidades aritméticas, cuja única função é anônima, coletiva ou de terceira pessoa: ‘Ele’ avança, pode ser um homem, uma mulher, uma pulga ou um elefante. Os peões do go são os elementos de um agenciamento maquínico não subjetivado, sem propriedades intrínsecas, porém apenas de situação.

O próprio do go (…) é uma guerra sem linha de combate, sem afrontamento e retaguarda, no limite sem batalha: pura estratégia, enquanto o xadrez é uma semiologia.

É que o xadrez codifica e descodifica o espaço, enquanto o go procede de modo inteiramente diferente, territorializa-o e o desterritorializa (fazer do fora um território no espaço, consolidar esse território mediante a construção de um segundo território adjacente, desterritorializar o inimigo através da ruptura interna de seu território, desterritorializar-se a si mesmo renunciando, indo a outra parte…). Uma outra justiça, um outro movimento, um outro espaço-tempo.”


Deleuze & Guattari, Mil Platôs