“o abandono correspondente de qualquer pesquisa na Universidade, a introdução da “empresa” em todos os níveis de escolaridade”.  Saturados que estamos pelas formas acabadas, paradoxalmente debilitados e potentes, a experimentar as fissuras, os desfazimentos, os esgotamentos.  Acompanhar dois movimentos: um primeiro daquilo que está desistindo em um grande cansaço, e um outro, por vezes concomitante, daquilo que está se gestando no registro do sensível e dos processos de aprendizagem. Isto exige um tanto de solidão e abertura, não só para as formas acabadas que parecem definitivas, mas especialmente para as forças do coletivo, que produzem outras formas vivas (esgotadas) de pensar, sentir e colaborar.

O leitor do qual espero alguma coisa deve ser calmo e ler sem pressa. […] que ele não se intrometa de modo algum, à maneira do homem moderno, e não traga para a leitura a sua “formação”, algo como uma medida, como se com isso possuísse um critério para todas as coisas. Desejamos que ele seja suficientemente formado para pensar em sua formação de modo restrito e até desdenhoso.

Nietzsche

As instituições de ensino, tal qual se erigem atualmente, têm muito para corroborar com uma demasiada formação/formatação, a partir do ideal de tornarem-se “centros de excelência”, em que se formem os ditos “melhores profissionais do país” e nos quais se produza o denominado “conhecimento de ponta”. Percebida como vocação natural, pouco se destaca que essa aspiração, entretanto, favorece um modelo terrível, pois os excelentes são – e devem ser – poucos (questão agudamente assinalada pelo professor Sidnei José Casetto do Departamento de Saúde, Clínica e instituições da Universidade Federal de São Paulo), a excelência nos campos de conhecimento encerra-se como valor em si, essencial, interessada no poder de capitalização e mercadologização das pesquisas, em formas mais explícitas e outras mais sutis, que redundam na possibilidade de tornarem-se excelentes, secundarizando os aspectos de formação crítica do pensamento, alçando um pensamento que não se pensa. Deleuze diz que no âmbito das sociedades de controle, isto implica “o abandono correspondente de qualquer pesquisa na Universidade, a introdução da “empresa” em todos os níveis de escolaridade”. Valorizam-se a especialização e, particularmente, a autoria de trabalhos como indicadores do desenvolvimento acadêmico, o que convoca à ininterrupta produção, inclusive na maneira de viver e nas relações com outrem. Nessa configuração, o científico tende a ser naturalizado; o ensino, mesmo o público, a operar na lógica da empresa; o cognitivo, a hipertrofiar-se, e o tempo, a acelerar-se de forma vertiginosa.

Um certo tipo de saber torna-se hegemônico, bem como a demarcação clara entre quem o domina (e pode transmiti-lo) e quem dele necessita (e precisa recebê-lo). A formação desenha-se nestas linhas, reforçando o ensino verticalizado, o preenchimento máximo da “grade horária”, a preferência por um perfil competitivo, e a impaciência dos estudantes com conteúdos que não tenham aplicabilidade imediata. Talvez na formação, contemporaneamente, não possamos falar tão-somente em moldes ou fôrmas, isto é, formatações rígidas de modos de sentir, pensar e fazer. Importa, hoje, ressaltar outros movimentos, espécies de modulações, ondas de autodeformação contínua, que se fixa ora em modos mais impermeáveis, ora em outros mais abertos e porosos. Com isso, haveria linhas de fuga, saídas, novos espaços de resistência e invenção. A todo o momento, nas salas de aula, nas intervenções, escavamos novas e difíceis saídas.

Saídas instaurando um espaço de ensino e partilha do sensível, numa espécie de paralelo à exigência da produção de papers e da contagem de pontos nos curricula e relatórios acadêmicos. Na lógica que articulamos na formação (de professores), se tivermos de contar pontos, será para preservar nichos de desregulagens: já que na formação temos a oportunidade de experimentações com sensibilidades in progress, podemos aproveitar para solapar alguns imperativos ditos racionais. E assim, desertarmos a pressa, a produtividade, a concorrência, a previsibilidade, a especialização. Podemos exercer, treinar, aproveitar para a sala de aula pequenas táticas não reificadoras, exercícios de invenção, de paciência, de lentidão, de gratuidade, de atenção, de angústia aceita, de dúvida, enfim, exercícios de resistência e largueza de alma.

Sabe-se que o fato de haver jovens estudantes, professores em formação, nas universidades não garante a possibilidade de uma configuração inventiva. Em muitas situações, a juventude também pode compor com a mais conservadora das culturas. Para uma grande parcela dos que ingressam na universidade, o que parece estar menos em questão é cuidar de sua formação, pois já chegam aos cursos demasiadamente formados: alguns, paradoxalmente, muito jovens e muito fechados em certezas. A questão não é apenas a da juventude; em alguma medida, trata-se do desafio de deformar, de abrir espaço na forma/fôrma, de tornar porosa a blindagem (mesmo aquela autodeformante e adicta de moralina) a que todos – não só os futuros professores – estamos submetidos.

De modo geral, estes professores em formação pouco têm inventado em termos de estratégias de resistência que permita introduzir mudanças nos funcionamentos conservadores. Há algumas décadas, havia a crença de que os jovens seriam capazes de produzir marcas ético-estético-políticas com suas mobilizações. Entretanto, isto se tornou gradativamente mais e mais difícil. Não é que a juventude tenha hoje se tornado menos interessante, mas as formas de ação que eram úteis no passado perderam sua efetividade. Muitas manifestações continuaram ocorrendo, em todas as grandes cidades do mundo, com milhões de estudantes nas ruas, sem serem consideradas seriamente pelas instâncias políticas, e menos ainda pelos meios de comunicação de massa, que preferem neutralizar o impacto destes protestos. Mesmo as pequenas rupturas são sentidas como profundas rachaduras num gigantesco iceberg flutuando no mar: alterar sua trajetória, para muitos, parece ser um projeto difícil, tendendo à rendição.

Pensar a formação de professores na chave da deformação pode ser uma estratégia eficaz para acompanhar dois movimentos: um primeiro daquilo que está desistindo em um grande cansaço, e um outro, por vezes concomitante, daquilo que está se gestando no registro do sensível e dos processos de aprendizagem. Isto exige um tanto de solidão e abertura, não só para as formas acabadas que parecem definitivas, mas especialmente para as forças do coletivo, que produzem outras formas vivas (esgotadas) de pensar, sentir e colaborar. Essa esfera do sensível é, paradoxalmente, invisível, imperceptível, impalpável, às vezes molecular. O que não significa que seja para iluminados ou videntes, nem que sejam segredos ocultos. São coisas para as quais, em geral, não estamos abertos, saturados que estamos pelas formas acabadas, paradoxalmente debilitados e potentes, a experimentar as fissuras, os desfazimentos, os esgotamentos.

Alexandre Henz e Sidnei Casetto

 

 

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CORRUPÇÃO GANHA UMA NOVA POTÊNCIA nas Sociedades de Controle

 

  • A sociedade de controle (imperial ou pós-moderna) se caracteriza pela corrupção. Já a sociedade disciplinar, como se sabe, se caracterizava pela crise, ou seja, por uma contradição bipolar e uma divisão maniqueísta. Pensem, se quiserem, na guerra fria ou no modelo moderno do racismo. A sociedade de controle, ao contrário, não se organiza em torno de um conflito central, mas em uma rede flexível de microconflitualidades.

 

  • As contradições, na sociedade imperial ou de controle, são múltiplas, e proliferam em todos os lugares. Os espaços dessa sociedade são impuros, híbridos. O conceito que a caracteriza, portanto, não é o de crise, mas o de oni-crise ou de corrupção

 

  • Não se deve dar aqui um sentido nem moral nem apocalíptico ao conceito de corrupção.

 

  • É preciso concebê-lo à maneira de Aristóteles, como o processo inverso ao da geração, como um devir dos corpos, um momento no vaivém da formação e deformação das subjetividades.

 

  • É necessário pensá-lo, portanto, segundo sua etimologia latina: com-rumpere, esfacelar-se. Se a máquina capitalista só funciona se esfacelando, como bem dizem Deleuze e Guattari, a sociedade de controle também se esfacela e só funciona se esfacelando. Eis sua corrupção.

 

  • [sem impor qualquer centro] vivem seus mundos e não existem outros acima história não conta para quem conta

 

  • A corrupção ganha aí uma nova potência e há uma zona de indiscernibilidade e indecidibilidade [entre microfascimo e aberturas]

 

  • criancinhas ligam qualquer coisa com qualquer coisa. Pretensão de incompetência e pretensão de competência, onipotência e impotência

 

  • gritos e protestos incondicionais sem clivagem

 

  • com-rumpere, esfacelar-se e todos os lugares  são “o lugar” e podem se tornar o fundamento, o centro de irradiação da verdade e dos direitos [algo como uma pretensa identidade fixa  individual/grupal rígida e ao mesmo tempo instável ]

 

  • nos contentamos em lembrar e recitar os direitos

 

  • Esfacelamento e exceção, todas as paredes são de cartão, as separações e limitações podem ser furadas por quem puder

 

  • Com essa corrupção meu caso é o centro, não devo sofrer qualquer consequência das condições acordadas anteriormente, me submeto se não puder surfar na exceção,  as rupturas de fronteiras são a regra..

 

  • falo taxativamente a partir de mim e de meu grupo de referencia.

 

  • recorremos aos estatutos, regimentos para impor uma direção, qualquer direção que puder ser imposta

 

  • ninguém é considerado e todos se autorizam a impor o que consideram

 

  • cega consideração pelo mais fixo e centralizador que passa a ser muito considerado.

 

  • são muitas verdades, versões e rápidas flutuações do que é e do que não é

 

  • credulidade e ao mesmo tempo em nada se acredita

 

  • seja por pretensa atenção as singularidades ou ausência de medida, tudo pode ser

 

  • o direito estabelecido, a lei, a saúde pretendem ser as últimas certezas.

 

  • as últimas certezas são frágeis e deveriam aplacar a grande desconfiança

 

  • pedimos para que nos digam como cada procedimento [mesmo os intervalos entre isso e aquilo] dever ser feito e isso fica na conta de quem ensinou

 

  • algo me diz respeito, só um pouco, foi o outro

 

  • tudo é mole e sem centro de certeza e frequentemente qualquer um se diz o centro da certeza.

 

  • se esfacelou o suposto centro, até em mim, nada me diz respeito

 

M.H.G.D.A.H