Música de fundo para qualquer festa animada

Charly García, Sui Generis, LP Pequeñas anécdotas sobre las instituciones, 1974.

Era uma vez, resultado de um juiz
Que era amante das quintas
Um grã-senhor que sofria o despudor
Das suas mucamas infiéis
E uma mulher neurótica servindo chá
Nos aposentos de algum juiz
Disponível na primeira quinta do mês
Era uma vez, uma casa com três
Pessoas em volta da mesa
Um em inglês, outro falava francês
E o outro falava quente
Cada um mantinha a sua conversação
Que girava em três temas em questão
Amor livre, propriedade e perversão
E na casa a noite se passa agradavelmente
O senhor com o juiz, e o juiz indiferente
Se alguém rir dele.
Era uma vez, um país ao revés
E tudo era diferente
Toda a dor, o ouro e o sol
Pertenciam às gentes
Naquela casa dividiram o bolo
E não deixaram nada sem comer
A mucama levou a bandeja

UMA DAS EXPLICAÇÕES PSICOLÓGICAS PARA ISSO

“Fazer remontar algo desconhecido a algo conhecido alivia, tranqüiliza, satisfaz e, além disso, proporciona um sentimento de poder. Com o desconhecido há o perigo, o desassossego, a preocupação – nosso primeiro instinto é eliminar esses estados penosos. Primeiro princípio: alguma explicação é melhor que nenhuma. Tratando-se, no fundo, apenas de um querer livrar-se de idéias opressivas, não se é muito rigoroso com os meios de livrar-se delas: a primeira idéia mediante a qual o desconhecido se declara conhecido faz tão bem que é “tida por verdadeira”. Prova do prazer (“da força”) como critério da verdade. – O impulso causal é, portanto, condicionado e provocado pelo sentimento de medo. O “por quê” deve, se possível, fornecer não tanto a causa por si mesma, mas antes uma espécie de causa – uma causa tranqüilizadora, libertadora, que produza alívio. O fato de ser estabelecido como causa algo já conhecido, vivenciado, inscrito na recordação é a primeira conseqüência desta necessidade. O novo, o não-vivenciado, o estranho é excluído como causa, – Portanto, não se busca apenas um tipo de explicações como causa, mas um tipo seleto e privilegiado de explicações, aquelas com que foi eliminado da maneira mais rápida e mais freqüente o sentimento do estranho, novo, não-vivenciado – as explicações mais habituais. – Conseqüência: um tipo de colocação de causas prepondera cada vez mais, concentra-se em forma de sistema e enfim aparece como dominante, isto é, simplesmente excluindo outras causas e explicações. – O banqueiro pensa de imediato no “negócio”, o cristão, no “pecado”, a garota, em seu amor.”

 

NIETZSCHE

 

 

 

 

 

 

 

Hotel Fraternité – Hans Magnus Enzensberger. Aquele que alimenta os esquilos Aquele que não tem um centavo Aquele que observa Aquele que dá socos na parede Aquele que grita Aquele que bebe Aquele que não faz nada

Hotel Fraternité
Arnaldo Antunes

Aquele que não tem com o que comprar uma ilha
Aquele que espera a rainha de sabá na frente de um cinema
Aquele que rasga de raiva e desespero sua última camisa
Aquele que esconde um dobrão de ouro no sapato furado
Aquele que olha nos olhos duros do chantagista
Aquele que range os dentes nos carrocéis
Aquele que derrama vinho rubro na cama sórdida
Aquele que toca fogo em cartas e fotografias
Aquele que vive sentado nas docas debaixo das gaivotas
Aquele que alimenta os esquilos
Aquele que não tem um centavo
Aquele que observa
Aquele que dá socos na parede
Aquele que grita
Aquele que bebe
Aquele que não faz nada

Meu inimigo
Debruçado sobre o balcão
Na cama em cima do armário
No chão por toda parte
Agachado
Olhos fixos em mim
Meu irmão

Hotel Fraternité, poema de Hans Magnus Enzensberger, a quem Habermas disse uma vez que ele tinha (tem) “o nariz do vento”, pela sua fina percepção de tendências políticas de nosso tempo. Arnaldo Antunes musicou o poema, que foi traduzido do alemão por Aldo Fortes.

Por que as massas desejaram o fascismo? [objetivo ou subjetivo — tanto faz. A distinção não está aí]. ABAIXO duas Páginas de O Anti-Édipo acerca do problema.

Uma única e mesma produção, social e desejante][1]coextensão do campo social e do desejo

“os estruturalistas buscam suas estruturas na cultura, eu as busco na realidade imediata. Meu modo de ver estava em relação direta com os acontecimentos de então: hitlerismo, stalinismo, fascismo… Estava fascinado pelas formas grotescas e terricantes que surgiam na esfera do inter-humano e destruíam tudo o que até então era venerável”

Witold Gombrowicz

Não há, de um lado, uma produção social de realidade, e, de outro, uma produção desejante de fantasma. Entre essas duas produções apenas se estabeleceriam liames secundários de introjeção e de projeção, como se as práticas sociais se duplicassem em práticas mentais interiorizadas, ou então como se as práticas mentais se projetassem nos sistemas sociais, sem que nunca chegassem a penetrar umas nas outras. Enquanto nos contentarmos em pôr o dinheiro, o ouro, o capital e o triângulo capitalista em paralelo com a libido, o ânus, o falo e o triângulo familiar, dedicamo-nos a um agradável passatempo, mas os mecanismos do dinheiro continuam totalmente indiferentes às projeções anais daqueles que o manejam. O paralelismo Marx-Freud permanece totalmente estéril e indiferente enquanto puser em cena termos que só se interiorizam e se projetam uns nos outros sem deixarem de ser mutuamente estranhos, como na famosa equação dinheiro = merda. Na verdade, a produção social é unicamente a própria produção desejante em condições determinadas. Dizemos que o campo social é imediatamente percorrido pelo desejo, que é o seu produto historicamente determinado, e que a libido não tem necessidade de mediação ou sublimação alguma, de operação psíquica alguma, e de transformação alguma, para investir as forças produtivas e as relações de produção. Há tão somente o desejo e o social, e nada mais. Mesmo as mais repressivas e mortíferas formas da reprodução social são produzidas pelo desejo, na organização que dele deriva sob tal ou qual condição que deveremos analisar. Eis porque o problema fundamental da filosofia política é ainda aquele que Espinosa soube levantar (e que Reich redescobriu): “por que os homens combatem por sua servidão como se se tratasse da sua salvação?”.nt[2] Como é possível que se chegue a gritar: mais impostos! Menos pão! Como diz Reich, o que surpreende não é que uns roubem e outros façam greve, mas que os famintos não roubem sempre e que os explorados não façam greve sempre: por que os homens suportam a exploração há séculos, a humilhação, a escravidão, chegando ao ponto de querer isso não só para os outros, mas para si próprios? nunca Reich mostra-se maior pensador do que quando recusa invocar o desconhecimento ou a ilusão das massas para explicar o fascismo, e exige uma explicação pelo desejo, em termos de desejo: não, as massas não foram enganadas, elas desejaram o fascismo num certo momento, em determinadas circunstâncias, e é isso que é necessário explicar, essa perversão do desejo gregário[3]. Todavia, Reich não chega a dar uma resposta suficiente, porque restaura o que pretendia demolir, ao distinguir a racionalidade tal como ela é ou deveria ser no processo da produção social, do irracional no desejo, situando apenas este como passível de psicanálise. Reserva então à psicanálise unicamente a explicação do “negativo”, do “subjetivo” e do “inibido” no campo social. Ele retorna necessariamente a um dualismo entre o objeto real racionalmente produzido e a produção fantasmática irracional[4]. Renuncia, pois, a descobrir a medida comum ou a coextensão do campo social e do desejo. É que, para fundar verdadeiramente uma psiquiatria materialista, faltava-lhe a categoria de produção desejante, à qual o real fosse submetido tanto sob suas formas ditas racionais quanto irracionais.

***

Frequentemente, os revolucionários esquecem ou não gostam de reconhecer que é por desejo que se quer e se faz a revolução, e não por dever. Aí como alhures, o conceito de ideologia é um conceito execrável, que oculta os ver- dadeiros problemas, sempre de natureza organizacional. Se Reich, no próprio momento em que levantava a questão mais profunda, “por que as massas desejaram o fascismo?”, se contentou com uma resposta que invocava o ideológico, o subjetivo, o irracional, o negativo e o inibido, foi porque permanecia preso a conceitos derivados que o fizeram executar mal a psiquiatria materialista com que sonhava, que o impediram de ver como o desejo faz parte da infraestrutura, e o encerraram na dualidade do objetivo e do subjetivo (e, assim, a psicanálise foi remetida à análise do subjetivo definido pela ideologia). Mas tudo é objetivo ou subjetivo — tanto faz. A distinção não está aí; a distinção a ser feita passa pela própria infraestrutura econômica e seus investimentos. A economia libidinal não é menos objetiva do que a economia política, e a política não é menos subjetiva do que a libidinal, se bem que ambas correspondam a dois diferentes modos de investimentos da mesma realidade social. Há um investimento libidinal inconsciente de desejo que não coincide necessariamente com os investimentos pré-conscientes de interesse, e que explica como estes podem ser perturbados, pervertidos na “mais sombria organização”, sob qualquer ideologia.

 

[1] Trechos do livro de DELEUZE, G; GUATTARI, F. O anti-Édipo. Tradução de Luiz. B. L. Orlandi. 1.ed. São Paulo: Editora 34, 2010.

[2]NOTA DO TRADUTOR [Cf. Espinosa (1632-1677), Tratado teológico-político (1670), prefácio, § 3. A passagem que inspira Deleuze e é por ele retida em Spinoza et le problème de l’expression (paris, Minuit, 1968, pp. 249-50) é esta: “O grande segredo do regime monárquico e seu interesse vital consistem em enganar os homens travestindo o medo sob o nome de religião, para mantê-los sob rédeas curtas; de maneira que eles lutam pela sua servidão como se fosse pela sua salvação”. pouco antes, salientando a tarefa espinosana “propriamente ética”, qual seja, a de “ir ao extremo do que se pode”, tarefa cujo modelo é o corpo, posto que “todo corpo estende sua potência tão longe quanto pode”, Deleuze extrai dessa “concepção ética” o “aspecto crítico fundamental” que determina “a tarefa prática do filósofo” como luta contra “tudo o que nos mantém separados de nossa potência de agir e a submete a uma constante diminuição” num angustiante “encadeamento de paixões tristes” (idem, pp. 248-9). Essa luta é inseparável dos combates contra toda forma de “servidão”, pois esta equivale ao “mais baixo grau da nossa potência de agir” (idem, p. 204).]

[3] Wilhelm reich [1897-1957], Psicologie de masse du fascisme (1933), tradução francesa, paris, payot, 1972.

[4] nos culturalistas encontra-se uma distinção entre sistemas racionais e sistemas projetivos, aplicando-se a psicanálise apenas aos últimos (por exemplo, Abram Kardiner [1891-1981]). Apesar da sua hostilidade ao culturalismo, Reich, assim como Herbert Marcuse [1898-1979], reencontram algo dessa dualidade, embora determinem e considerem diferentemente o racional e o irracional.

 

UM DESEJO DE HITLER. Alemanha perdeu a guerra mas Hitler triunfou, ele que surfou com o século XX em sua lógica diabólica, que fez da política essa arte das massas, esta obra de arte total. Hitler perdeu a guerra e algo do nazismo insiste em nós. Cartografias do nazismo hoje: “Hitler – Um filme alemão.” Direção de Syberberg (com legendas em português). Link do filme abaixo, imperdível nestes tempo difíceis.

Hans Jürgen Syberberg e seu filme grandioso, intitulado Hitler, um filme da Alemanha.  recusa qualquer ficção realista, qualquer representação do passado tal como ele foi, qualquer reconstrução no estilo “psicologia da pistola”, como ele diz. Também esse é um filme que se passa no presente, nesse nosso presente assediado pelos fantasmas do passado, pelas assombrações fantasmagóricas. Quase no início do filme, um diretor de circo anuncia o maior espetáculo do mundo, e acrescenta: “Temos que decepcionar a todos os que querem ver de novo Stalingrado ou o 20 de julho ou o lobo solitário no bunker do seu ocaso ou o Nuremberg de Riefenstahl. Mostramos a realidade, não os sentimentos das vítimas, tampouco a história dos especialistas, os grandes negócios com a moral e o horror, com o medo e a contrição e a arrogância e a cólera do justo. Isto é, nada de pornografia esquerdista de campos de concentração.” E seguem-se sete horas de um espetáculo fantasmal, verdadeiro teatro da mente alemã, onde comparecem no presente de um palco, de um estúdio, de um parque de diversões ou de um picadeiro tudo o que alimentou a aventura hitlerista, tudo o que a nutriu, a compôs, lhe deu sustentação, e também que lhe sobreviveu, numa rede imensa e complexa, apenas aparentemente disparatada: dos mitos à música, do Graal aos castelos da Baviera, De Ludwig II a Karl May, dos objetos de fetiche pertencentes ao Führer às obras de arte saqueadas por ele, figuras miniaturizadas, cães e águias gigantes, caixões fumegantes, cabeças boiando em águas borbulhantes, bonecos de toda sorte, manequins, marionetes, e ao fundo do palco projeções frontais de documentários da época nazista, slides, superposições, gravuras, projetos arquitetônicos, tudo ao som de marchas militares fusionadas à música de Wagner, entrecortadas pelos patéticos discursos de Goebbels, por manifestos futuristas, e a cada tanto a meditação sensual de um ator que representa o próprio Syberberg, e seguem as reflexões de Himmler deitado diante de seu massagista, um Himmler deslumbrado com a maneira pela qual os monges budistas levam amarrado um sininho para espantar os insetos e evitar pisoteá-Ios no caminho, ou um cosmólogo prevendo o surgimento de uma raça de gigantes e o fim do mundo pela Era Glacial, ou o camareiro de Hitler falando das cuecas do Führer, tendo ao fundo imagens gigantes da chancelaria, tudo sempre testemunhado por uma menina de nove anos, com fitas de celulóide escorrendo pelos cabelos. Grande filme audiovisual, uma inflação de camadas superpostas, as vozes de Hitler, os discursos de Hitler, filmes de propaganda de Hitler, filmes amadores sobre Hitler, fotos de Hitler, o cachorro com cara de Hitler, Hitler representado como Chaplin, Hitler vestido de Napoleão, Hitler como hipnotizador, Hitler como diabo, Hitler expulso do inferno, Hitler como ressuscitado, Hitler emergindo da tumba de Wagner vestido com toga romana, num grande monólogo em que conta a que ponto foi apenas o produto da civilização ocidental européia, a realização de necessidades privadas e de sonhos de uma época, Hitler como um boneco nos joelhos de um ventríloquo, defendendo sua grande obra e convencendo- nos de que ganhou a guerra, pois o III Reich não foi mais do que um prelúdio, do qual seríamos os herdeiros, em toda parte. E segue-se uma vasta lista de crimes e técnicas de massa aprendidas com ele, aperfeiçoadas pelos EUA, Argentina, África, a televisão, o cinema, a indústria de entretenimento, a política, a economia. Eis uma das teses do filme: a Alemanha perdeu a guerra mas Hitler triunfou, ele que impôs a este século sua lógica diabólica, que fez da política essa arte das massas, esta obra de arte total. Esta é a segunda tese do filme, benjaminiana: Hitler, o mais pretensioso dos cineastas. É preciso vê-lo como cineasta, é preciso julgá-lo como cineasta. A própria Alemanha como um filme de Hitler, ou Hitler como um filme da Alemanha.

 

 

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Um desejo de Hitler

Para os que acusam Syberberg de complacência com seu objeto (Hitler ou o nazismo), trata-se, obviamente, de um mal-entendido inevitável, já que Syberberg mergulhou no imaginário alemão, e encontrou ali o que nenhum cineasta ousou olhar de frente: um desejo de Hitler. Sem maniqueísmos fáceis, tão acusatórios quanto estéreis, ele enfrentou a dimensão desejante do nazismo, com seu teatro onírico, com seu repertório alucinatório, com sua carga de fascinação que nenhum reducionismo sócio-económico foi capaz de explicar – toda uma montagem complexa, um agenciamento subjetivo, mortífero e suicidário ao mesmo tempo. No romance de Klaus Mann chamado Mefisto, uma personagem sintetiza o espírito da época que corresponde a esse frenesi: “O heroísmo patético fazia cada vez mais falta a nossa vida… Na realidade, não marchamos no passo militar, avançamos titubeando… Nosso Führer bem-amado nos arrasta para as trevas e o nada… Como nós, poetas, que entretemos relações particulares com as trevas e o abismo, não o admiraríamos por isso? […) Clarões de fogo no horizonte, rios de sangue sobre todos os caminhos, e uma dança de possessos dos sobreviventes, desses que ainda foram poupados em torno dos cadáveres!”. Como não ver a paixão de abolição que atravessa tais textos, com seu fascínio mórbido e sua estética tentadora, ainda que o corpo-a-corpo com tal objeto monstruoso acabe respingando lama sobre quem se atreve a enfrentá-lo, fazendo incidir sobre o artista a suspeita de uma estranha perversão? Foucault comentou, a propósito, que Syberberg produziu um belo. monstro.

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Num comentário sobre esse filme de Syberberg, Michel Foucault escreveu que o sonho do cineasta, do intelectual ou do filósofo é que a memória das pessoas estivesse suficientemente desperta para que não fosse preciso apelar para as carpideiras, os guardiães de cemitério, os discursadores frente aos monumentos de mortos. Isso liberaria os criadores da tarefa ingrata de escavadores da memória, para que pudessem olhar para o futuro e usar a imaginação como criadores de utopia. Seria preciso perguntar a esse filme aqui abordado se nos ajuda a realizar essa passagem.

Caberia indagar se ele nos auxilia a enterrar o cadáver, se ele no permite descobrir o que é que buscávamos nele antes de nos irmos se o que esquecíamos, afinal, não era justamente de colher dele a Voz, e de levá-Ia conosco. Não será com ela que temos alguma chance de dar corpo a esse impalpável que somos depois de Auschwitz, almas penadas ou anjos errantes? Não será com a voz ali colhida que estaremos por fim em condições de escapar à sua assombração, emitindo outras vozes, inventando outras histórias, novos mitos e utopias?

 

PPP

 

 

 

 

 

Filme publicado por laboratoriodesensibilidades em 05/09/2016