O FILME DEAD MAN de Jim Jarmusch é a “morte do homem” do homem-branco-macho-racional-europeu, padrão majoritário da saúde e da cultura do Ocidente.

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FILME DEAD MAN

O filme pode perguntar: qual a forma dominante da qual os devires nos liberam? É a forma do homem-branco-macho-racional-europeu, padrão majoritário da saúde e da cultura do Ocidente. E como desfazer o Rosto do homem branco, bem como a subjetividade, a paixão, a consciência e a memória que o acompanham? Talvez a literatura e os devires que ela propicia recebam aí uma de suas funções “políticas”. É toda uma pregnância do modelo de “saúde” que a literatura deserta ao abandonar a Forma-homem, ao embarcar em devires minoritários, inumanos, plurais. Daí porque, diz Deleuze com tanta insistência, escrever não é contar suas lembranças, suas viagens, seus amores, seus fantasmas. Num certo sentido é todo o contrário. Pois escrever é desertar precisamente o eu, essa forma dominante, hegemônica, personológica, edipiana, neurótica, esse estado doentio através do qual uma certa literatura insiste em perpetuar-se. Escrever é abandonar esse cortejo mórbido, pois apenas assim pode a literatura responder à função proposta por uma linhagem de autores que Deleuze pretende alinhavar: a de liberar a vida por toda parte onde ela esteja aprisionada – e ela está aprisionada nas formas constituídas, sobretudo na forma dominante do EU E DA IDENTIDADE MODERNA. A literatura, portanto, para ser o que lhe cabe ser, isto é, vital, deveria, no que parece representar um paradoxo, tornar-se impessoal. Impessoal não quer dizer objetiva, mas alheia à forma pessoal do eu, aos seus draminhas psicológicos, às suas ladainhas sentimentais – é preciso que tudo isso seja varrido por algo mais sóbrio, mais invisível, mais impalpável, mais anônimo. Foi Blanchot, sem dúvida, quem melhor caracterizou a necessidade de um tal impessoal. Por exemplo, o uso do pronome pessoal se, o on francês, essa terceira pessoa que surge na escrita e que a abre para uma dimensão “neutra”, o COMUM, O GENÉRICO. O impessoal da escrita atrai o eu para uma esfera mais evanescente, plural, fragmentária, intensiva, onde podem  brotar devires outros que a forma do eu esconde ou soterra,.que ela espantaria com sua musculatura  e saúde por demais atléticas ou, ao contrário, excessivamente chorosas.

 

PPP.

 

Alguns “Provérbios do Inferno” do livro CASAMENTO DO CÉU E DO INFERNO de

William Blake que se relacionam com o filme DEAD MAN.

 

Conduz tua carroça e teu arado sobre a ossada dos mortos.

A Prudência é uma rica, feia e velha donzela cortejada pela

Impotência.

Aquele que deseja e não age engendra a peste.

O verme perdoa o arado que o corta.

Imerge no rio aquele que a água ama.

O tolo não vê a mesma árvore que o sábio vê.

A Eternidade anda enamorada dos frutos do tempo.

Ave alguma se eleva a grande altura, se se eleva com suas próprias alas.

Um cadáver não revida agravos. .

O manto do orgulho, a vergonha.

Nunca a águia perdeu tanto tempo quando quis aprender com o corvo.

Prisões se constroem com pedras da Lei; Bordéis, com tijolos da Religião.

A fúria do leão é a sabedoria de Deus.

Excesso de pranto ri. Excesso de riso chora.

O rugir de leões, o uivar de lobos, o furor do mar em procela e a espada destruidora são fragmentos de eternidade, demasiado grandes para o olho humano.

A raposa culpa o ardil, não a si mesma.

O tolo, egoísta e risonho, & o tolo, sisudo e tristonho, serão ambos julgados sábios, para que sejam exemplo.

O que agora se prova outrora foi imaginário.

A cisterna contém: a fonte transborda.

Dize sempre o que pensas e o vil te evitará.

Tudo em que se pode crer é imagem da verdade.

Jamais uma águia perdeu tanto tempo como quando se dispôs a aprender com a gralha.

De manhã, pensa. Ao meio-dia, age. Ao entardecer, come. De noite, dorme.

Quem consentiu que dele te aproveitasses, este te conhece.

Assim como o arado segue as palavras, Deus recompensa as preces.

Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução.

Da água estagnada espera veneno.

Jamais saberás o que é suficiente, se não souberes o que é mais que suficiente.

Ouve a crítica do tolo! É um direito régio!

Os olhos de fogo, as narinas de ar, a boca de água, a barba de terra.

O fraco em coragem é forte em astúcia.

A macieira jamais pergunta à faia como crescer; nem o leão ao cavalo como apanhar sua presa.

Quem reconhecido recebe, abundante colheita obtém.

Se outros não fossem loucos, seríamos nós.

Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para pôr seus ovos, o sacerdote lança sua maldição sobre as alegrias mais belas.

O melhor vinho é o mais velho, a melhor água, a mais nova.

Como o ar para o pássaro, ou o mar para o peixe, assim o desprezo para o desprezível.

O corvo queria tudo negro; tudo branco, a coruja.

Melhor matar um bebê em seu berço que acalentar desejos irrealizáveis.

A verdade jamais será dita de modo compreensível, sem que nela se creia.

 

***

“Toda noite e toda manhã
Uns nascem para o doce gozo ainda
Outros nascem numa noite infinda.”

Excerto do poema “Augúrios da Inocência” de William Blake. (1757-1827)

 

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Sonhos: sismógrafos do comum, das redes e políticas contemporâneas

Ainda que as narrativas e mapas afectivos não produzam nenhum espanto, recolher sonhos e pesadelos podem ser uma espécie de sismógrafos do que está aí e mais, está vindo.. É difícil “tomar o pulso” de um momento, suas redes, ainda mais em escala tão regional, planetária, contemporânea.. Penso em instrumentos atípicos, que medem deslocamentos tectônicos ou temperaturas subterrâneas. Charlotte Beradt uma amiga de Hanna Arendt recolheu minuciosamente sonhos de uns trezentos alemães comuns entre 1933 e 1939 e insistiu no seguinte: os sonhos das pessoas comuns deixavam entrever mecanismos que se instalavam cotidianamente na vida de milhões de pessoas, mas que ainda não eram visíveis. Mesmo campos de concentração surgem nos sonhos, muito antes que fossem construídos. Foram apenas o início do terror, mas justamente é o momento em que essa intimidação cotidiana já vem de toda parte e vai tomando a totalidade do espaço psíquico-político..(…) A questão cosmopolítica de hoje não poderia ser: qual é a dor que cada agente, humano ou não-humano, carrega? E quais dispositivos, expressivos ou não, é preciso ativar ou inventar para lhes dar voz? É o saber feito de fragmentos de mundo em colisão, das conexões que surgem, das forças em jogo; as coisas compreendidas como pássaros que não podemos enjaular. É que não se trata de esperar a música uníssona, o conhecimento apaziguado, o grande domingo da vida ou do mundo que abolirá a inquietude (…) Recolher sonhos pode integrar uma investigação-interferência que encontra – e também pode produzir outras redes partilhando esses sonhos – e ser um equivalente da ideia de Foucault “tornar as epidermes mais irritáveis para detectar o intolerável” com a partilha desses pequenos sismógrafos íntimos da atual política. (…) talvez respostas livres a uma situação de opressão em plena democracia (…) Para Charlotte, essa matéria impalpável era como um sismógrafo. Claro, enquanto transcrevia os sonhos, mudava os nomes que representassem algum perigo, caso fosse presa. “Partido” virou “família”, Hitler tornou-se tio João, “ser preso” era “pegar uma gripe” etc.Mas vários sonhavam apenas: “é proibido sonhar, e no entanto estou sonhando. “Sonhar com a proibição, mas no ato mesmo do sonho, transgredi-la. Já era uma forma de resistência. Um dirigente político havia anunciado, logo no início do regime: “a única pessoa na Alemanha que ainda tem uma vida privada é aquela que dorme.” Mas a sequência dos acontecimentos viria mostrar que nenhuma parcela de vida estava a salvo, nem a do sonho. Como no sonho de um médico que de repente vê desaparecerem as paredes de sua casa, e ouve os alto-falantes anunciarem o decreto que proíbe construção de paredes. É um mundo sem exterioridade, é toda uma nova topologia que se instala, não há dentro nem fora, não há exílio, nem sequer interior que garantisse algum refúgio, como se as casas se escancarassem a todos os ventos, as divisórias e muros caíssem, e um vento mortal varresse todos os escombros. É o mais cotidiano que bascula em uma feroz devastação, sem que nos relatos e narrativas pareça haver nada de anormal (…) ninguém deveria espantar-se com as desventuras de um homem sistematicamente excluído do mundo. Pensemos no sonho do advogado judeu que, diante de um banco de praça que lhe está interditado, se senta sobre uma lata de lixo e pendura sobre si um cartaz que diz: “se necessário, cedo lugar aos papéis”. É Beckett puro. Mas será que o historiador vê nesses sonhos um alerta, a premonição política, o prognóstico que antecipava o que naquele momento ainda parecia inverossímil? É todo o mistério, de uma desmedida pressentida, que extrapola os recursos expressivos disponíveis, precisando, portanto, enunciar-se na linguagem da sobriedade, na qual o espantoso é despojado de espanto, ou como em Kafka, onde o mais espantoso é que o espantoso não espanta mais ninguém. É a solução “realista”, seja ela defensiva ou cômica, diante do absurdo – a descrição neutra , quase displicente, sem pathos. Tal contraste entre o tom da descrição e seu conteúdo só nos dá, ainda mais fortemente, a medida da desmedida aí em jogo, se assim podemos nos expressar (…) o livro sobre os sonhos durante o III Reich, faz ver que os alemães sonhavam não com aquilo que pudessem desejar, pelo menos a nível coletivo, mas com aquilo que lentamente se ia instalando entre eles, o terror cotidiano, a maquinaria de sujeição, o descarte, a desmedida se travestindo de medida.(…) “desmedida absoluta dos acontecimentos”. É possível que estejamos em um momento assim, em que voam pelo ar muitas “medidas”, do valor, do trabalho, do tempo, do sujeito, do Estado, da governança global, do controle da vida, e vem à tona, por toda parte, a desmedida dessa medida do poder, ou do biopoder, a desmedida das novas dores que requerem de nós outra coisa para a qual ainda não temos nomes adequados, e que as revoltas e insurreições do presente deixam apenas entrever, a seu modo.

Recolha com pequenas interferências no artigo de PPP quando comenta o “O Terceiro Reich dos Sonhos” de Charlotte Beradt

ACERCA DESSA QUESTÃO SAIBA MAIS NA CONFERÊNCIA ABAIXO AOS 7 MINUTOS E 30 SEGUNDOS.

Não nos falta comunicação, ao contrário, nós temos comunicação demais (…) os Estados democráticos são ligados de tal maneira, e comprometidos, com os Estados ditatoriais (…) Que social democracia não dá a ordem de atirar quando a miséria sai de seu território ou gueto?

(…) os Estados democráticos são ligados de tal maneira, e comprometidos, com os Estados ditatoriais que a defesa dos direitos do homem deve necessariamente passar pela crítica interna de toda democracia. Todo democrata é também “o outro Tartufo” de Beaumarchais, o Tartufo (hipócrita) humanitário como dizia Péguy (…) Os direitos do homem são máximas: elas podem coexistir no mercado com muitos outros slogans, especialmente na segurança da propriedade, que os ignoram ou ainda os suspendem, mais do que os contradizem: “a impura mistura ou o impuro lado a lado”, dizia Nietzsche. Quem pode manter e gerar a miséria, e a desterritorialização-reterritorialização das favelas, salvo polícias e exércitos poderosos que coexistem com as democracias? Que social democracia não dá a ordem de atirar quando a miséria sai de seu território ou gueto? Os direitos não salvam nem os homens, nem um pensamento que se reterritorializa sobre o Estado democrático. Os direitos do homem não nos farão abençoar o capitalismo. E é preciso muita inocência, ou safadeza, a uma filosofia da comunicação que pretende restaurar a sociedade de amigos ou mesmo de sábios, formando uma opinião universal como “consenso” capaz de moralizar as nações, os Estados e o mercado .Os direitos do homem não dizem nada sobre os modos de existência imanentes do homem provido de direitos. E a vergonha de ser um homem, nós não a experimentamos somente nas situações extremas do nazismo e dos campos de concentração descritas por Primo Levi, mas nas condições insignificantes, ante a baixeza e a vulgaridade da existência que impregnam as democracias, ante a propagação desses modos de existência e de pensamento-para-o mercado, ante os valores, os ideais e as opiniões de nossa época. A ignomínia das possibilidades de vida que nos são oferecidas aparecem de dentro. Não nos sentimos fora de nossa época, ao contrário, não cessamos de estabelecer com ela compromissos vergonhosos. Este sentimento de vergonha é um dos mais poderosos motivos da filosofia. Não somos responsáveis pelas vítimas, mas diante das vítimas. E não há outro meio senão fazer como o animal (rosnar, escavar o chão, nitrir, convulsionar-se) para escapar ao ignóbil: o pensamento mesmo está por vezes mais próximo de um animal que morre do que de um homem vivo, mesmo democrata. Se a filosofia se reterritorializa sobre o conceito, ela não encontra sua condição na forma presente do Estado democrático, ou num cogito de comunicação mais duvidoso ainda que o cogito da reflexão. Não nos falta comunicação, ao contrário, nós temos comunicação demais, falta-nos criação. Falta-nos resistência ao presente.

D.G