“Simondon trata da problemática econômica quando diferencia trabalho de invenção”. Frase transcrita da aula de Laymert Garcia dos Santos em 30/03/2011 acerca de Gilbert Simondon. Leia a transcrição da aula abaixo:

Inicia com Imagem de tecido Jalq’a obtida na Internet. Na aula, Laymert usou este tipo de tecido como exemplo de técnica artesanal, apontando sua especificidade frente à tecnologia industrial do tear de Jacquard.

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Este é o resultado de minhas anotações durante a terceira aula do professor Laymert Garcia dos Santos na disciplina de pós-graduação SO141 – Tópicos Especiais em Trabalho, Cultura e Ambiente II, ocorrida no dia 30 de maio de 2011, na sala 13-B do prédio da pós-graduação do IFCH/UNICAMP.

Desta vez, além das limitações de sempre, foi a intensidade da discussão, da qual eu mesmo tentava participar, que muitas vezes me obrigou a deixar a digitação de lado. Com isso, muitas idéias discutidas em sala não foram registradas aqui, e alguns lapsos acabaram ficando.

:::::::::: REGISTRO :.

Na última aula havíamos combiando de ler, de Du mode d’existence des objets techniques (MEOT), o segundo capítulo da primeira parte (“Evolução da realidade técnica; elementos, indivíduo, conjunto”) e o primeiro capítulo da segunda parte (“Os dois modos fundamentais da relação do homem ao dado técnico”). Laymert começa a discussão perguntando se houve dificuldade na leitura, comentando que ele próprio teve dificuldades na leitura do segundo capítulo da primeira parte.

Laymert: Houve dificuldades? Eu tive dificuldades para reler ontem. Mais dificuldades com o primeiro (“Evolução da realidade técnica; elementos, indivíduo, conjunto”) do que com o segundo, que trata de coisas mais próximas, do campo da cultura. Inclusive por isso, acho que deveríamos começar colocando este capítulo em cima da mesa hoje, pois são as categorias fundamentais: elemento, indivíduo e conjunto. É inclusive significativo que o próprio Simondon nos mostre que evolução técnica é superação de obstáculos. É a superação de obstáculos, transformação do negativo em positivo, que está no coração da operação técnica. Então, começo meio brincando, dizendo que a discussão aqui será “técnica” pois começaremos com as dificuldades para entender esses dois capítulos, principalmente o primeiro (“Evolução da realidade técnica; elementos, indivíduo, conjunto”).

Pedro: É curioso, eu tive a impressão oposta. Tive mais facilidade com o primeiro do que com o segundo. Acho que principalmente pois o conceito de cultura com o qual ele trabalha me é estranho, ligado à literatura e à erudição, talvez muito “francês”. Em outros lugares, nos Estados Unidos por exemplo, é diferente.

Laymert: Mas nós aqui temos essa cultura bacharelesca. Essa é a cultura de muita gente. Aqui na sala mesmo deve ser. Além disso, a permeabilidade da técnica na sociedade já era grande nos anos 1950, mas ainda não tinha adquirido a dimensão que teria posteriormente. Estranho um pouco o seu comentário, pois a cultura é tão dissociada da técnica que são dois ministérios separados no governo brasileiro. Gil foi gênio por tentar aproximar os ministérios da cultura e da tecnologia. Depois que Gil e Juca saíram do ministério tudo se separou novamente. Simondon percebe como a concepção francesa de cultura separa técnica de cultura e é importante notar como ele volta para a enciclopédia e faz uma leitura muito especial dela, mostrando o seu papel e o seu valor político e social. É um corte com o Antigo Regime.

Rodolfo: É, meu conceito é de fato mais velho (literário). No primeiro capítulo (“Evolução da realidade técnica; elementos, indivíduo, conjunto”) os exemplos são mais difíceis. Exigem já uma “cultura técnica”.

Léo: Simondon é físico e filósofo, por isso ele pode dar esses exemplos. Tem partes do texto que eu não tenho a menor idéia do que ele está falando, nem uma imagem mental do que ele está falando. Por exemplo, “diodo”, “triodo”, eu tive que ir na internet ver o que é isso que ele está falando. Daí eu vi que era uma válvula que tem em amplificadores etc. Peguei um manual de eletrônica e comecei a entender o que ele está falando. Mas tem coisas que eu não consigo encontrar e aí eu não entendo. A primeira vez que eu li eu passava batido por essas partes. Mas tem certos exemplos que ajudam muito a entender o argumento, como o exemplo do motor para falar da relação do objeto técnico com o meio ambiente.

Laymert: Ou seja, quando você consegue entender o exemplo, fica muito claro o argumento. Quando você não conhece o mecanismo e passa batido, aí tem um problema. Eu passo batido, não tenho o menor saco para ler esse pedaço. Eu não tenho cultura técnica. Eu precisaria prestar atenção nisso. Colocar o motor em cima da mesa e ver isso direito. Os exemplos são centrais.

Guilherme: Eu tive a mesma impressão. Os exemplos me são opacos. Não tenho como avaliar todo o raciocínio baseado nessa realidade. Pensei até em perguntar a um técnico ou fazer um curso de mecatrônica.

Léo: Não temos uma cultura técnica e portanto não conseguimos entender a relação entre cultura e técnica. Daí a idéia simondoniana de que precisamos de uma educação técnica desde criança.

Laymert: Além disso, ele extrai pensamento do objeto técnico. É porque ele conhece bem o modo de funcioanmento e as transformações nesse modo de funcionamento que ele pode passar de um mecanismo “x” para um “y” e dizer se tem ruptura ou continuidade, e enumerar toda uma série de nuanças e singularidades sobre essa passagem. É uma questão de falta de culturade nossa parte, mas é também um efeito do aparente absurdo que é extrair pensamento do funcionamento. Isso, do ponto de vista metodológico, é fantástico. Apesar de ser chato para nós que assumimos o ponto de vista humanístico e não enfrentamos o obstáculo, é preciso atentar para o fato de que é só por se interessar pelo funcionamento que Simondon extrai dele um pensamento. Esse pensamento não é, em termos simondonianos, a priori. O pensamento é construído junto. Não existe nada dado previamente. É da relação, do agenciamento (no sentido de Deleuze e Guattari), da articulação, que ele tira o pensamento. Para fazer isso, ele precisa ter um olhar retrospectivo sobre a técnica anterior, olhando para trás, e perceber o que é continuidade e o que é ruptura, quais são as categorias com as quais pensar o objeto técnico. Ele extrai isso do próprio modo de existência, do funcionamento do objeto.

Seria interessante compararmos a metodologia do Simondon para pensar a evolução dos objetos técnicos com a do Buckminster-Fuller no livro Critical path, livro este fundamental para pensar sobre tecnologia. Não poderemos explorar esse paralelo aqui, mas é bom indicar que os dois estão olhando a questão da evolução, só que de maneiras diferentes. Os dois estão interessados em ver essa evolução a partir da questão da informação, e Buckminster-Fuller também vai se interessar profundamente pela cibernética. Mas Simondon é um pensador, um filósofo, enquanto Buckminster-Fuller é um inventor. Ele fez muitas invenções, algumas que só estão sendo concretizadas agora. Ele sabia que cada ramo de tecnologia (linhagem tecnológica) tem um tempo de gestação e que havia um hiato entre a invenção e o seu “nascimento social”. Ele se interessou por monitorar esse hiato, e percebeu que, na década de 70, tudo dispara. Não deve ser por acaso que Buckminster-Fuller e Simondon são dessa mesma época, quando tudo dispara, quando a informação se torna mais uma dimensão da matéria, quando a informação dispara a tecnologia. O pensamento de Buckminster-Fuller é diferente, paralelo ao do Simondon. Acho que Simondon vai pensar de um jeito mais rigoroso, cartesiano, do que o Buckminster-Fuller. É legal ver como dois grandes pensadores da tecnologia pensam esse movimento.

Quem tem 30 anos de idade hoje deveria ler esses dois caras para adquirir um arsenal teórico para pensar as questões atuais sobre tecnologia. Eu não conheço outro pensamento mais potente e valioso sobre tecnologia do que o de Buckminster-Fuller e o de Simondon. Buckminster-Fuller tem ainda um lado artista que é fundamental. Critical path era livro de cabeceira de John Cage. Buckminster-Fuller teve uma crise aos 20 anos de idade, tentou se matar, ficou dois anos isolado estudando Einstein e Leonardo da Vinci, para depois influenciar toda a ciência contemporânea, como no caso das “Bucky balls” em nanotecnologia.

Pedro: Fico pensando se Buckminster-Fuller e Simondon experimentaram as drogas típicas da contra-cultura dos anos 1960-70, e se isso teve alguma influência no seu pensamento.

Laymert: Buckminster-Fuller logo percebeu que, para mudar as pessoas, é mais fácil mudar o ambiente no qual elas estão do que a consciência delas. Você muda a cabeça das pessoas mudando o ambiente, a transformação do ambiente transforma o homem. Quando ele descobriu isso, ele deixou de lado a política e focou na tecnologia. Não sei se Simondon experimentou drogas, mas nos anos 1960-70 havia um consenso sobre o valor da alteração da consciência para pensar questões ligadas às tecnologias da informação. O exemplo mais famoso é o Thimothy Leary. Podemos também lembrar do papel da cocaína para Freud e Jung pensarem o inconsciente e do ópio para Baudelaire pensar a modernidade. O Sloterkjik atualmente fala sobre como o primado da ciência hoje desqualifica outros modos de conhecimento.

Léo: Acho que o uso de Ritalina como droga acadêmica para aumentar a produtividade tem a ver com isso. A droga começa a mudar de função quando fica careta. Aqui não se trata de ampliar a visão da realidade e sim de acompanhar a pressão da produção.

Laymert: Isso é um efeito de um tipo de relação ciência-mercado. O Pedro falou sobre o uso de drogas para pensar novas realidades, alcançar novos conhecimentos. Mas, fazendo ainda outras relações, pensei no caso do delírio do presidente Schreber, analisado por Freud, e que até muito recentemente era visto como um exemplo de um grande delírio psicótico cujo interesse principal era a patologia. Mas há poucos dias fiquei sabendo que as memórias de Schreber começaram a ser lidas como altíssima poesia, e quando isso acontece ele é tirado da dimensaõ patológica e passa a ser lido como uma percepção cósmica absolutamente fantástica. O interesse vai se voltar para o uso da linguagem, para o tipo de percepção está sendo desenvolvido ali. Mudou o registro. Puxo este exemplo pela questão da ampliação dos estados alterados.

Rafael: O Deleuze não fazia experimentos com álcool?

Laymert: Deleuze fazia muitas experiências com estados alterados de consciência. Sartre tomou anfetaminas para escrever O ser e o nada. Há toda uma linhagem de filósofos que só pensavam o que pensavam por conta dessas experiências. É comum também que surja um interesse pelo selvagem, pelo primitivo, como no caso do Artaud, que foi tomar peyote com índios mexicanos. O interesse pela Arte Bruta (art brut), que voltou a crescer, também está ligado a isso.

Emerson: O uso de drogas não pode ser uma tecnologia?

Laymert: Esses agenciamentos aberrantes dizem alguma coisa sobre um plano da realidade que escapa à percepção habitual. Existem artistas que trabalham apenas com o desvio de função de máquinas. Elas funcionam, mas de um jeito outro. As máquinas fazem coisas absurdas. Tingely fez isso. Pegou seu grande conhecimento de mecânica para fazer dele a não-produção. Ele produz não-produção. O interessante é o barato das maquinações. É como se ele pegasse todos esses agenciamentos e os enlouquecesse. Isso não é contrário ao que estamos estudando aqui. Desvio de função é justamente a invenção, descontinuidade, reconfiguração do conjunto, um salto.

Rodolfo: O Simondon vai pensar o funcionamento imanente da máquina para depois chegar à descrição filosófica. Como passar disso para o simbólico? Como a técnica vai entrar na cultura?

Laymert: Acordei essa noite com isso na cabeça, pensando sobre a aula. O objeto técnico tem uma existência real, mas esta existência é ao mesmo tempo concreta e pensada. É um pensamento concretizado. A técnica é a interface entre o abstrato e o concreto. O pensamento está dos dois lados. Minha sensação ao ler Simondon é de ser, ao mesmo tempo, uma coisa muito concreta e muito abstrata. Como? Ora a própria máquina é abstrata e concreta, simultânea e sucessiva, existe dentro de mim (na minha cabeça) e fora de mim (no mundo). O que existe objetivamente lá fora só existe pois foi pensado. Para pensar toda a complexidade objetiva da técnica é preciso pensar sobre esse pensamento. É completamente objetivo, mas é meta-objetivo. É preciso pensar sobre o modo de pensar sobre o objeto. Então, é comum na leitura de Simondon, você começar a ler a frase, mas depois precisar recomeçar por não ter ficado concreto para você. Aí está o obstáculo.

Emerson: É a falta de cultura técnica. Se já é difícil pensar no caso da termodinâmica, quando pelo menos podemos colocar um motor em cima da mesa, fica mais difícil ainda pensar no contexto da informática. Considerando o estágio de desenvolvimento da informática na época do livro, é impressionante a capacidade de Simondon de, como Marx, pensar sobre aquilo que ainda estava se gestando.

Laymert: Ele percebeu que havia uma nova revolução em andamento. Ele pensou o que hoje é banal quando ainda não existia.

Pedro: Eu tenho uma pergunta específica. Queria saber porque no MEOT ele fala de “individualização” do objeto técnico enquanto em L’individuation à la lumière des notions de forme et d’individuation (ILNFI) ele usa o termo “individuação”. É a mesma coisa ou são coisas diferentes?

Laymert: Até onde sei é a mesma coisa. Entendo que Simondon usa o termo “individualização” quando adota a perspectiva da relação com o indivíduo humano, e “individuação” quando adota a perspectiva da relação com a informação. São dois recortes específicos, mas o processo é o mesmo.

[Tenho a impressão de ter perdido alguma coisa aqui na continuidade da fala do professor]

Em MEOT, Simondon fala de recalque, que é diferente de repressão. Na repressão você sabe que está sendo afetado e sabe quem está afetando. No recalque não. É da natureza do recalque que este seja ligado a algo desconhecido, obliterado, mas existente – existente mas inconsciente. O retorno do recalcado é o retorno de algo que existia, que estava maquinando (no sentido de Deleuze e Guattari), produzindo efeitos, mas que estava oculto. Simondon está falando do retorno do recalcado. A importância da distinção elemento-indivíduo-conjunto é trazer à tona o recalcado. Temos uma relação mal resolvida com a técnica. Há um iluminismo-enciclopedismo no Simondon, mas também há no Freud. Retorno do recalcado, iluminismo.

ALUNA: Tenho uma dúvida sobre a distinção entre conhecimento prático e conhecimento teórico, que Simondon liga, respectivamente, à criança e ao adulto. O conhecimento prático não é também reflexivo? Como no caso do computador yanomami que você mencionou na última aula?

Laymert: É um bom exemplo. Aquele canudo funciona como um agenciamento técnico. O xamã incorpora imagens, que ele aprendeu a sintonizar. Ele percebe as imagens passando e consegue descrevê-las, narrá-las. Eles vêem como nós vemos TV – uma TV fantástica, não a “Grôbs” [risos]. É uma questão de resolução. O conhecimento que existe aí é aprendido. O xamã sabe acessar o virtual. Eles compartilham essas imagens captadas. E há perigo nessa captação.

Se os Yanomami são “crianças” na terminologia de Simondon, isso não é um julgamento de valor, e sim uma distinção conceitual. É de uma passagem do conhecimento operatório para um conhecimento teórico que se trata. O que veio antes não é pior do que o que veio depois. Tudo é fundamental.

Sabemos que a história da computação começa com Jacquard, que inventou um sistema de tecer. É programação digital. O tear é praticamente um computador. Pois bem, vejamos o caso do povo Tarabu da Bolívia. Quando veio a colonização espanhola, eles se dividiram em Tarabuco e Jalq’a, tornando-se aquele o povo do dia e este o povo da noite. Esses povos são conhecidos pelo tecido que eles produzem. Os Tarabuco, que ficaram com o dia, tramam a vida cotidiana. Suas estampas seguem um padrão fixo, que pode ser lido como uma estória em quadrinhos. Eles usam isso na roupa, que assim os identifica a um dos dois povos. Já o povo da noite só usa preto e vermelho e tece o invisível. É o mundo das sombras, monstros desenhados em todas as direções, uns dentro dos outros, de forma que não se sabe o que é figura e o que é fundo. Quando você vê a mulher Jalq’a tecendo, nota que ela decide na hora o que vai tecer. A figura sai do fundo e volta. É altíssima computação. É como se ela tivesse um software fabuloso na cabeça dela. Como o cartão perfurado do Jacquard, só que mais complexo, porque no Jacquard a imagem é parada, figura e fundo são destacados. Quando não há essa distinção, há um vai-vem constante. A passagem da imagem está acontecendo na mão, na cabeça e no tecido, tudo junto no momento em que ela está sendo feita. Há aqui uma complexidade operatória. Isso estava em desaparecimento e uma antropóloga chilena viabilizou um atelier para manter a prática, no qual pessoas podem comprar esses tecidos. A iniciativa foi bem sucedida, e é interessante notar que, diante da maior independência econômica das mulheres (tradicionalmente, apenas as mulheres se dedicam a essa atividade), os homens começaram a tentar produzir estampas também, mas eles não conseguem juntar figura e fundo. Fica tudo separado.

Emerson: Aproveito para lembrar que a primeira programadora era mulher.

Laymert: O tecido Jalq’a é considerado artesanato. Ninguém considera isso arte elaborada. Ademais, a tecelã terá que usar as mãos se quiser explicar o que faz. Ela é uma artesã, no sentido simondoniano. No entanto, a questão da oposição entre um saber já teorizado e o saber do artesão (ligado diretamente ao conhecimento da matéria, operatório) é equivocada. Não é oposição, mas sim modos de relação com a técnica. Se estamos na terceira revolução industrial, precisamos pensar as relações entre técnicas e tecnologias. A sistematização abstrata dos conhecimentos e das técnicas agenciados hoje já fundam uma tecnologia que precisa ser pensada.

Thiago: Eu gostaria de fazer uma pergunta sobre o tema da imprescindibilidade ou não do humano. Na última frase do último capítulo discutido na última aula (“Gênese do objeto técnico: o processo de concretização”), Simondon diz: “Sem a finalidade pensada e realizada pelo ser vivo, a causalidade física não poderia, sozinha, produzir uma concretização positiva e eficaz.” (p.49) Isso para mim complica a idéia de que a máquina possa substituir o humano e existir independentemente dele.

Laymert: O humano nunca será supérfluo, mas ele muda de função, de papel. O humano não é da mesma natureza do técnico. A evolução vital é paralela à técnica, mas não há analogia. A confusão entre essas duas evoluções foi justamente o erro da cibernética.

Pedro: Mesmo assim, a idéia de uma diferença radical entre o ser vivo (natural) e o ser técnico (artificial tendendo à naturalização) parece não ter permitido que Simondon pensasse toda a artificialização do humano que vem ocorrendo cada vez mais. Por exemplo, quando Simondon compara os órgãos no indivíduo vivo aos elementos no indivíduo técnico, ele faz questão de acrescentar a ressalva de que, enquanto podemos usar livremente elementos de um conjunto dado na composição de novos indivíduos, não podemos transplantar órgãos entre indivíduos de espécies diferentes. Ora, atualmente isso é comum, e junto com outras diversas práticas, vai na direção de uma artificialização do humano com a qual Simondon parece não ter se preocupado.

Thiago: Sim, me parece que o problema maior não é a humanização das máquinas, mas sim a mecanização do humano.

Laymert: Mas essa é a mesma questão invertida, coisa sobre a qual já falamos na última aula.

Thiago: Mas precisamos pensar sobre a questão.

Laymert: Certamente, o problema é a concepção da natureza humana. Simondon realmente não previu a crescente artificialização. Mas também está havendo uma extrema concretização. Estamos indo para ambos os lados. Talvez isso implique numa implosão do enciclopedismo ao qual se refere Simondon. Mas isso não torna Simondon ultrapassado, inclusive pois, na minha opinião, sua obra maior (ILNFI) supre essas possíveis limitações de MEOT quando pensa a individuação a partir da informação.

Rafael: A meu ver, o capitalismo exige a artificialização.

Laymert: De fato, se eu posso fazer uma transformação genética (somática ou generativa) que me permita melhorar meu desempenho em alguma área na qual eu possa me destacar, eu faço. Um filme que tratou dessas questões é GATTACA.

Aluno: Existem também casos [ele cita alguns exemplos, entre eles o marcapasso] em que há hibridismo homem-máquina, quando não se pode saber se o que ocorre é uma artificialização do humano ou uma naturalização da técnica.

Laymert: Simondon permite entender o que é exclusivo do ser vivo, o que é exclusivo do ser técnico, e o que é comum a ambos. O que ambos compartilham é a informação. Esse compartilhado pode ser orientado rumo à concretização ou rumo à artificialização. O importante é ver a tecnicidade e o papel da informação na concretização dessa tecnicidade, e isso do ponto de vista humano e não-humano. O problema não é a artificialização, mas sim as implicações não pensadas dessa artificialização. Se é o capital que está mandando no processo, então não se trata mais de concretização técnica. Se a melhoria genética tem uma finalidade exterior, então não se trata de uma questão de coerência interna. A finalidade precisa ser interna ao objeto técnico, e não externa. A crítica não deve ser dirigida à técnica, mas sim à relação entre as acelerações tecnológica e econômica capitalista, ao fato de que esta está comprometendo aquela. É o feitiço-fetiche da mercadoria.

Diego: Então, em lugar de pensar a diferença entre o vivo e o técnico, temos que pensar o que eles têm em comum.

Thiago: Mas isso é possível dentro do capital? O capital permite essa nova relação com as máquinas?

Laymert: O capital tende a orientar a nossa percepção. Mas isso não quer dizer que nada escape dele. Na verdade, escapa para todo lado. Esse é o problema do capital. Não se trata de perguntar o que o capital permite ou não permite. O capital quer controlar para apropriar. É preciso encontrar uma maneira de tirar o corpo fora. Para isso, precisamos alcançar uma compreensão de nosso lugar nessa trama. Não devemos esperar nada do capital, exceto a lógica da valorização. Walter Benjamin já dizia que o capitalismo é “a liquidação de todos os valores”, exceto do valor abstrato, do “valor + valor”. O caráter incontornável do Marx é ter revelado que o fetiche da mercadoria rege a sociedade capitalista. Não existe outro valor além do econômico.

Pedro: Aproveitando o assunto, queria comentar que a relação entre técnica e economia não parece ter merecido a atenção de Simondon. Ele faz algumas menções a Marx em MEOT, mas ele geralmente coloca de lado qualquer problemática econômica dizendo que ela é extra-técnica e, portanto, inessencial ao seu objeto.

Laymert: Simondon trata da problemática econômica quando diferencia trabalho de invenção. Podemos dizer que existem dois movimentos imanentes: o do capital e o da técnica. Parece-me que Simondon trata apenas do movimento imanente da técnica, ao passo que Marx reificou o trabalho pois não se interessou pela invenção. Se quisermos encontrar esses dois movimentos imanentes sendo bem trabalhados em conjunto, teremos que ler o “Tratado de nomadologia” de Deleuze e Guattari (em Mil Platôs).

Emerson: É possível dizer quem surge antes, se é o objeto técnico ou o conjunto técnico?

Laymert: Essa é uma pergunta do tipo “o ovo ou a galinha”. Mas o problema da invenção embaralha as causalidades pois o objeto concretizado é a condição de sua própria concretização. Todas as condições para uma concretização do movimento imanente da técnica só estarão presentes quando surgir uma configuração que permita essa concretização. É uma conjunção. O problema da técnica não é técnico, é social (num sentido amplo). As condições objetivas de concretização técnica são extratécnicas.

Diego: Estou pensando sobre o problema da porção humana e da porção técnica do objeto técnico. No caso do motor parece mais fácil fazer essa distinção do que no caso das redes informacionais. Qual é o papel do humano numa rede informacional?

Laymert: É preciso olhar não para os humanos e os hão-humanos, mas para as maquinações que passam de um para o outro. O fato de que podemos pensar em maquinações diferentes para humanos e não-humanos não significa que não possamos pensar ao mesmo tempo num nível comum a ambos.

Aluno: Um software também pode ser pensado em seu processo de concretização.

Laymert: Sim, evidentemente, e aí está o interesse dos movimentos de software livre nas suas diversas variantes mais ou menos radicais. O software livre busca o movimento da tecnicidade, em oposição à lógica do capital.

Aluna: Mas Simondon supõe uma filosofia não-autocrática das máquinas dentro do capitalismo?

Laymert: Sim, pois o capitalismo não será superado sem uma conscientização dos modos de existência dos objetos técnicos. As máquinas não podem ser tratadas como escravas, o que foi feito tanto pelo capitaliso quanto pelo comunismo.

Emerson: É importante notar que Simondon nunca fala de “inovação”, que é o termo privilegiado pelo capitalismo contemporâneo, ele fala apenas de “invenção”.

Laymert: Sim, o inventor é aquele que olha para um incompatível, vê a articulação de forças, e imagina uma alternativa, outra configuração, que promova consistência e coerência interna.

[Após mais alguns comentários que infelizmente escaparam ao redator, Laymert encaminha o encerramento da aula e combina a leitura para a próxima aula]

Laymert: Buckminster-Fuller percebeu muito cedo que teria que escolher entre fazer dinheiro ou fazer sentido. Ele escolheu fazer sentido. Se você quiser se revoltar contra uma ordem social, primeiro precisa saber como funciona esta ordem. Daí a importância contemporânea de Simondon para nós que vivemos em um mundo cada vez mais controlado por meio das tecnologias da infornação. Para a próxima aula, proponho discutirmos o segundo capítulo da segunda parte (“Função reguladora da cultura na relação entre o homem e o mundo dos objetos técnicos: problemas atuais”).

Redator: Pedro P. Ferreira

 

UNIFESP -BS. Saiba mais acerca da emergência do CLUBE DOS SABERES que continuamos e inventamos na UNIFESP.

O CLUBE DOS SABERES

DE S A P R ENDE R V E LHA S R E L A Ç Õ E S ?

 

ANTES DE ENTRARMOS diretamente em nossas considerações

sobre o Clube dos Saberes, tomo a liberdade de fazer um parêntese
que, embora não muito breve, poderá, espero, nos auxiliar.
Tentarei localizar alguns elementos que, nos dias de hoje, permeiam
fortemente as relações entre as pessoas, grupos, organizações as mais
variadas e, portanto, os equipamentos de saúde mental. Refiro-me
a todo um movimento que se tem desenvolvido em torno da criação
do conhecimento e de sua otimização em prol das comunidades
em geral, denominado Gestão do Conhecimento.
Muito embora as questões relativas ao conhecimento não sejam
em absoluto algo de novo, um intenso esforço tem sido dedicado a
elas, ocupando espaço privilegiado no universo das preocupações
mais candentes das organizações, principalmente nos últimos quinze
anos, sob o nome de Gestão do Conhecimento.
Qual seria a razão, ou melhor, as razões pelas quais o conhecimento
e a sua gestão estejam sendo considerados como tão importantes
nestes últimos anos? Seguramente não seria aqui possível
enumerar todas elas, mas talvez seja interessante nos determos em
algumas.
Assim, dentro dos limites de nossa visão, poderemos enumerar
alguns elementos que contribuíram para que a Gestão do Conheci-
122
O CLUBE DOS SABERES 123
mento, entendida como uma sucessão de diligências visando a criação
e o compartilhamento das riquezas humanas, embora com sua
perspectiva sobretudo pragmática, tenha adquirido tal prioridade nas
organizações de nossos dias.
Um dos fatores importantes para este interesse cada vez maior
pelo conhecimento e a sua gestão foi o enorme incremento dos serviços,
que começou a acontecer mais perceptivelmente no final da
Segunda Guerra. Uma pesquisa, feita em 1988 por James Brian
Quinn, constatou que naquele ano os serviços estavam tornando-se
dominantes na economia americana e nos países desenvolvidos.
Naquela época eles já eram responsáveis por 77% dos empregos e
pela maior parte do PIB americano.
Uma das razões para este incremento da importância dos serviços
foi o desenvolvimento das tecnologias manufatureiras, que havia
possibilitado uma automação intensa dos processos produtivos
e de gestão, bem como levado os custos e padrões de qualidade dos
produtos a um patamar bastante comum entre as empresas. O resultado
disto foi uma alta padronização das ofertas e um baixo nível
de competitividade quanto ao que elas poderiam oferecer aos seus
clientes. Isto fez que os serviços e, em conseqüência disto, o conhecimento,
passassem a ocupar o lugar de destaque na diferenciação
entre essas empresas, fossem elas manufatureiras ou apenas de
serviços (Quinn, 1996).
Aliado a essas mudanças, surgia o avanço rápido, e até mesmo
vertiginoso, das tecnologias da informação, com uso cada vez maior
de redes de computadores e de transmissão eletrônica de dados.
Além disso, houve um verdadeiro salto no ritmo das mudanças nos
transportes e nas tecnologias em geral, servindo como suporte para
a globalização, trazendo esta efeitos positivos e deletérios, como todos
sabemos.
Houve, assim, um reconhecimento crescente da contribuição do
conhecimento para a efetividade das empresas e, ao mesmo tempo,
a constatação da precariedade dos modelos tradicionais de gestão
para lidar com a sua força, cada vez mais perceptível.
124 O CLUBE DOS SABERES
Um outro fenômeno importante veio a reforçar este estado de
coisas. As empresas, em sua maioria as grandes corporações, haviam
investido (e muitas ainda investem) pesado em processos e tecnologia,
empurrando as pessoas mais ainda para um segundo plano.
A década de 1980 foi povoada de experiências de automação, de
processos de reengenharia, downsizing etc., tentando ao máximo fazer
que a empresa se tornasse uma máquina de processamento inteligente
e impessoal. Era, de certo modo, uma tentativa de incrementar
ao máximo a produtividade, prescindindo sempre que possível da
presença das pessoas. Estas passaram, por conseguinte, a ter muito
menos possibilidade de serem realmente reconhecidas pelo seu potencial
de criação e de contribuição nos processos organizacionais
em geral.
No entanto, os fracassos deste tecnicismo rompante foram incontáveis.
1 Um problema veio, ao mesmo tempo, somar-se a esses fatores.
É o fato de que muitos se obstinavam (e ainda o fazem em
nossos dias) em não reconhecer que as tecnologias em geral, e a
tecnologia da informação em particular, aplicadas isolada e impessoalmente,
sem consideração às pessoas e à cultura das organizações,
não conseguem em absoluto trazer benefícios sensíveis para elas.
Nessa ressaca dos sistemas de engenharia e de reengenharia,
começou-se a admitir o óbvio. A pessoas, até então tratadas como
recursos e despesas, começaram a ser reconsideradas como as verdadeiras
fontes de riqueza das empresas, pelo fato mesmo de seus conhecimentos.
Constatações como essas, aliadas às rápidas mudanças tecnológicas
das quais falamos, reforçaram aquilo que alguns sociólogos, eco-
1 Uma das conseqüências disto foi uma séria mudança, como uma espécie de refluxo,
nas relações de comprometimento dos empregados com as suas empresas.
“Mercados em rede podem mudar de fornecedores da noite para o dia. Os trabalhadores
em rede podem mudar de empresa durante o almoço. Suas próprias
«iniciativas de downsizing» nos obrigaram a fazer a pergunta: «Lealdade? O que
é isto?»” Esta é uma das 95 teses da Cluetrain, in: http://www.cluetrain.com, último
acesso 26 de julho de 2000.
O CLUBE DOS SABERES 125
nomistas e teóricos da administração já anunciavam, havia algum
tempo, sobre um processo de descontinuidade em andamento, nas
últimas décadas, entre a Economia Industrial e a que tem sido chamada
atualmente de Economia do Conhecimento.2
Em cada momento de descontinuidade acaba-se por se rever ou
desaprender, como dizem alguns, os valores e pressupostos pelos quais
até então nos pautávamos (Savage, 1996). São novos modos de subjetivação
que surgem e vão expandindo-se. Assim foi também na passagem
da Era Feudal para a Era Industrial, que começou a se dar a
partir do final do século XVIII. Esta passagem foi lenta e, apesar de
alguns dizerem o contrário, certos valores da época feudal ainda persistem,
mesmo em nossos dias, haja vista algumas relações de vassalagem
que ainda existem em algumas empresas ou regiões do país.
Isto apenas nos ajuda a lembrar o que já sabemos, ou seja, que uma
Era – como também um modo de produção – não elimina necessariamente
a outra, podendo haver uma espécie de interpenetração e
assimilação mútuas, ora predominando características de uma, ora
da outra ou, até mesmo, a sua coexistência como tais em um mesmo
momento histórico.
De qualquer modo, é preciso afirmar que essas novas tendências
a se lidar com o conhecimento, no seio das organizações, têm, como
um de seus alicerces, a preocupação com o modo como este é criado,
mantido, transmitido e/ou compartilhado, tornando-as mais competitivas
(Nonaka & Takeuchi, 1997). Dito de outra maneira, essas
diligências não deixam de ser, em sua grande maioria, uma tentativa
de apropriação da riqueza das pessoas, por meio do domínio de
seu processo de produção de conhecimentos. Ou seja, elas acabam
sendo, o mais das vezes, um tipo de engenharia a mais, elevando as
pessoas do status de mão-de-obra ao de mente-de-obra. Assim, temos
expressões de cunho aparentemente novo, tais como profissionais
do conhecimento e gerentes do conhecimento, cuja definição confirma a
2 Cf. Castells, 1999a, 1999b, 1999c; Quinn, 1996; Drucker, 1997, 1997a; Hardt &
Negri, 2001.
126 O CLUBE DOS SABERES
nossa impressão. Podemos constatar isto em Nonaka & Takeuchi
(1997, p. 176-81), por exemplo, que consideram que os profissionais
do conhecimento têm como função básica incorporar o conhecimento,
“agindo quase como «arquivos vivos» no dia-a-dia”. Já os
gerentes do conhecimento – principalmente os gerentes de nível
médio – são também considerados pelos autores como engenheiros
do conhecimento, que “servem como ponte entre os ideais visionários do
topo da empresa e as realidades de mercado freqüentemente caóticas
dos que estão na linha de frente”.3 A relação entre os dois pode ser
entendida da seguinte maneira, segundo os autores: “Se a tarefa
dos profissionais do conhecimento é saber «o que é», então a tarefa
dos gerentes do conhecimento é saber «o que deve ser»” (Ibidem).
Vemos, com este pequeno exemplo, que a situação não muda assim
tão facilmente, como alguns autores o preconizam.
As empresas têm de fato muito se empenhado no desenvolvimento
de estratégias para a Gestão do Conhecimento. Mas elas
experimentam um problema fundamental: para que um trabalho baseado
no conhecimento tenha sucesso, é imprescindível introduzir
mudanças em suas estruturas organizacionais, em seus processos,
enfim, em sua cultura. Muitas delas já despenderam milhares, senão
milhões de reais, ou de dólares, e não têm obtido o sucesso perseguido,
4 pelo fato de que tratar o conhecimento exige mudança
coerente com um novo tipo de relacionamento com e entre os seus
empregados,5 reconhecendo a real importância ligada ao seu conhecimento,
coisa que não é muito fácil, dadas as tradicionais relações
de trabalho.6 Uma evidência facilmente perceptível é o próprio denominativo
Gestão do Conhecimento que, a se levarem realmente a sério
as suas implicações, deveria de fato ser Co-Gestão do Conhecimento.
3 O grifo é nosso.
4 Cf. o relatório da KPMG (KPMG Consulting, 2000).
5 Mantenho aqui o termo empregado, propositadamente. Muito embora as empresas
o tenham substituído ultimamente por colaboradores, esta parece ser somente
uma mudança de nome e não de relação.
6 Cf. o relatório da KPMG Consulting, op. cit., Nota 4 deste capítulo.
O CLUBE DOS SABERES 127
Apesar de tudo, no entanto, este novo patamar de reconsideração
da importância do conhecimento tem aberto algumas possibilidades
de se repensar o quanto os conhecimentos das pessoas, além
dos oficializados e burocratizados pelos sistemas formais de certificação,
têm sido reconsiderados em sua importância na contribuição
para o crescimento não só das organizações, mas também das coletividades
em geral.7 Um exemplo disto são as comunidades de práticas,
8 que sofreram uma verdadeira explosão a partir dos crescentes
avanços das tecnologias da informação, principalmente da internet
e das intranets.
Essas comunidades de práticas têm como motor o compartilhamento
e a produção do conhecimento, tanto dentro das organizações
quanto fora delas. São formadas por pessoas ligadas entre si
por interesses e práticas comuns, em campos problemáticos afins. Estas
comunidades podem tanto constituir-se em um pequeno número
de pessoas de uma organização ou de uma coletividade, quanto
em grandes redes de relacionamento extraterritoriais por meio da
internet, as chamadas redes virtuais. A maioria dos textos que tratam
deste tema enfatizam a característica essencialmente informal
e flexível dessas comunidades, apoiando-se fundamentalmente na
confiança mútua e no compartilhamento de suas experiências. Daí
decorre um outro aspecto dessas comunidades: elas são um forte
meio de fortalecimento de redes de relacionamentos, no qual o que
adquire importância são as trocas de experiências e conhecimentos
em torno de questões comuns, pautadas por relações de confiança e
que escapam dos modelos típicos baseados na hierarquia e no controle
tradicionais.
7 Quanto a isto, Arie de Geus (1998), Goldfinger (1994); e Authier (1998, p. 200)
nos fornecem algumas pistas.
8 As ditas comunidades de práticas não são, na realidade, algo de novo. Haja vista
as guildas, que se desenvolveram fortemente na Idade Média, com a finalidade
de ajuda e proteção mútuas. A sua razão de ser era, de um certo modo, próxima
de uma comunidade de práticas, tal como entendida nos dias de hoje. Para maiores
informações, cf. “Práticas, comunidades de” na Bibliografia.
128 O CLUBE DOS SABERES
Poder-se-ia objetar estas observações e apontar que elas estão ligadas
a um universo que diz respeito principalmente a pessoas que
têm a possibilidade de um emprego, que têm uma formação básica
etc., e que não nos podemos esquecer de uma outra multidão anônima
e distante deste universo. Quanto a isto não podemos em absoluto
discordar. Este processo não deixa de ser ainda muito incipiente,
se considerarmos os modelos predominantes das relações
de trabalho e das relações com os saberes.
Entretanto já se pode, ao mesmo tempo, observar os germes de
mudança, presentes neste novo movimento que se insinua paulatinamente
no mundo atual. Embora estas questões relativas à Gestão
do Conhecimento tenham ficado praticamente restritas às empresas
públicas e privadas, pelo menos no Brasil, o que já tem dado
alguns frutos, alguns de seus efeitos já começam a ser sentidos no
campo das práticas sociais e da educação.9
Concluo aqui estas rápidas observações, ciente de ter apenas tocado
algumas questões em torno da Gestão do Conhecimento, lembrando
que este assunto é relativamente recente, altamente complexo
e controverso. Embora o tenha estudado ultimamente, e já
tenha um volume razoável de informações a seu respeito, não seria,
neste momento, pertinente fazê-lo objeto de um estudo mais aprofundado.
A sua função é tão-somente a de ser mais um elemento de
suporte às nossas reflexões no âmbito do presente trabalho, na tentativa
de melhor mostrar o quão importante poderia ser, para o tratamento
em um equipamento de saúde mental, a instauração de
um Clube dos Saberes, sobre o qual falaremos a seguir.
9 Tenho tido, até mesmo, a oportunidade de assessorar um programa do Governo
de São Paulo, o Acessa São Paulo. Este programa tem como objetivo “Criar espaços
públicos de facilitação de acesso a novas Tecnologias de Informação e Comunicação
e ao compartilhamento de saberes e conhecimentos”, in: http://
http://www.acessasaopaulo.sp.gov.br. Cf. também o site da Socinfo – Sociedade da Informação
(http://www.socinfo.org.br), e o site da Association Arbor & Sens, (http:
//www.globenet.org/arbor).
O CLUBE DOS SABERES 129
CULTI VA R E COLHER RIQUEZ A S
Mais do que nunca é preciso reafirmar que um clube é pra valer,
e poderia ser uma contribuição incomensurável aos processos existentes
em nossos equipamentos de saúde mental.
Mas, como dizíamos há pouco,10 a experiência do clube, tal como
desenvolvida na França, não poderia ser considerada como um modelo
a ser simplesmente aplicado, ainda mais em nossa cultura. O
que não quer dizer, entretanto, que alguns de seus aspectos não
possam muito bem nos servir de referência se, de fato, assumirmos
a sua importância para o tratamento.
Levando em consideração as mudanças que têm acontecido nos
últimos anos quanto à assistência ao doente mental, talvez fosse
oportuno tentarmos mais alguma estratégia para fortalecê-las, privilegiando
práticas que, ao mesmo tempo que contribuíssem para o
tratamento, servissem como uma espécie de inoculação na cultura
do equipamento de saúde mental, nestes momentos em que vivemos
um turbilhão de mudanças que atingem a sociedade global,
numa renovação das formas sociais.
Quanto a isto, existe um conjunto de elementos que têm atraído
em especial a atenção de numerosos pensadores e pesquisadores,
no que diz respeito a esse processo de renovação das formas sociais.
Estes elementos são os saberes, os conhecimentos e as informações.
A sua importância tem sido reconhecida de uma maneira tal, que
não é de se espantar que a nossa sociedade atual esteja sendo chamada
de Sociedade do Conhecimento.11
Estas mudanças, essas renovações, têm seguramente uma profunda
repercussão nas subjetividades, entendendo-as, aqui, no sentido
em que Jean-Claude Polack & Danielle Sivadon (1988, p. 3) as
10 Cf. p. 106, acima.
11 Quanto a isto, cf. Drucker, 1997; Nonaka&Takeuchi, 1997; Authier, 1998; Goldfinger,
1994; e Castells, 1999a, 1999b, 1999c. Cf. também Nota 2, deste capítulo.
130 O CLUBE DOS SABERES
conceituam, ou seja, como “formações particulares e datadas sobre
o fundo de processos maquínicos heterogêneos (técnicos, econômicos,
políticos, estéticos, semióticos, sexuais etc.). E esses processos,
longe de serem sistematicamente ligados por leis dialéticas ou estruturais,
se revelam o mais das vezes por suas proliferações e suas
rupturas, seus agenciamentos e suas «esquizes», em um desafio permanente
às lógicas discursivas”.
Tendo como pano de fundo esta importância dos conhecimentos
e saberes, toda uma série de iniciativas têm sido disparadas para se
prevenir um tipo de exclusão que se soma às várias outras, e que
tende cada vez mais a se expandir. É um tipo bastante especial de
exclusão que se refere diretamente às dificuldades de acesso aos
saberes e informações que se multiplicam a cada ano, bem como à
dificuldade de reconhecimento daqueles saberes que não são valorizados
pelos meios tradicionais de validação.
Mas o que nos interessa mais de perto neste momento é o que se
passa no universo do nosso equipamento de saúde mental. O que
acontece aí quanto a este tipo de exclusão? O que podemos dizer é
que os pacientes, além de sofrerem um processo de exclusão, em
conseqüência de sua própria doença, são igualmente excluídos pelo
não-reconhecimento de seus saberes que, muito freqüentemente,
não são do tipo oficial.
É que existe um aspecto quase que pactuado entre os que cuidam
e os que são cuidados, aspecto já apontado também por Simon.12
Trata-se de um certo conformismo do pessoal de tratamento ao preconceito
da precariedade e da incapacidade dos doentes, sentimento
este que os põe em uma posição de extrema dependência, anonímia
e derrelição.13
12 Cf. p. 46-7, acima.
13 Conhecemos, todos os que trabalhamos em equipamentos de saúde mental, as
inúmeras manifestações, dos pacientes, de queixas insistentes ou mesmo a exacerbação
de sintomas, fora do contexto da terapia individual ou de grupo. Não
temos como não entendê-las, como o indício de uma demanda desesperada por
reconhecimento.
O CLUBE DOS SABERES 131
Outro dia, vim a saber de uma situação muito especial, e bem a
propósito, por intermédio de uma profissional da administração de
um hospital psiquiátrico onde dou supervisões. Contava-me ela terlhe
chamado a atenção um paciente em estado bastante comprometido,
sem se comunicar com os técnicos que, por sinal, já estavam
um pouco cansados com a sua precariedade de relacionamento. Ele só
fazia choramingar. Se alguém se endereçava a ele, não obtinha resposta.
Esta profissional, vindo a saber que ele tinha formação em
medicina, se aproximou e pediu-lhe que ele lhe desse uma dica quanto
a uma micose no braço, que ela havia pego recentemente na praia.
Ele continuou a choramingar e não emitiu sequer uma palavra.
No dia seguinte, ao passar por ele, ela foi surpreendida pela sua
atitude. Ele se dirigiu a ela, desculpando-se pelo fato de que havia
muito tempo que não lidava com aquele tipo de afecção, e deu-lhe
algumas orientações quanto ao seu tratamento.
Este pequeno relato nos indica o quanto é preciso estar atento
para os processos de aproximação e de endereçamento14 entre as pessoas.
É neste sentido que podemos dizer que a função de acolhimento
não se limita à recepção do doente, tampouco a uma equipe
de referência ou ao tratamento terapêutico especializado que eventualmente
ele venha a receber. Muitas vezes, uma simples presença,
um simples reconhecimento do outro pode ter efeitos com os
quais até mesmo o especialista pode surpreender-se.15 É o que Oury
(1992, p. 146) denomina “qualidade de presença”, um “estar aí”.
Acolher é também ajudar a cultivar e colher as riquezas de cada
14 Noção apontada por Michaud (1977, p. 97), sobre o plano em que o sujeito se
dispõe para uma eventual comunicação, e que “exige, no momento da comunicação
entre dois sujeitos, que seja diferenciado em qual plano de troca irá se
fazer a comunicação, como se desenvolve uma comunicação onde esta distinção
não é feita, e qual é o papel da instituição na resolução de conflitos que esta
confusão faz nascer”.
15 Esta profissional, atualmente alocada no setor administrativo-comercial do hospital,
não tem formação psi. O curioso é que ela, por não ser da área psi, costuma
afirmar-se como uma pessoa que não tem capacidade para lidar com os pacientes.
No entanto, pelas suas experiências, das quais tenho tomado conhecimento, ela
tem demonstrado uma sensibilidade terapêutica muito especial.
132 O CLUBE DOS SABERES
um e de todos. É tornar mais visíveis os diversos elementos do grande
mosaico que somos, sem segregá-los, e ir além dos elementos tradicionalmente
realçados – em geral focados na doença – no equipamento
de saúde mental e no próprio contexto do tratamento. É dar
a ver os outros e aos outros, fertilizando o solo para que novas
potencialidades possam florescer.
Então, por que não criarmos um clube diferente onde, à parte da
liberdade de circulação, de se poder ir e vir, se acrescentasse igualmente
a liberdade de circulação dos conhecimentos, experiências e
saberes? Por que não colocarmos este mosaico mais à vista? Por que
não abrirmos um espaço para ele, criando uma espécie de clube,
um Clube dos Saberes?
A V IDA A S S O C I AT I VA
Gostaria de retomar aquilo que dizíamos anteriormente com relação
à importância da vida associativa na saúde mental, o quanto
ela pode vir a fortalecer a capacidade dos doentes de se inserirem
ativamente na vida social, desde o seu processo de internação até à
sua passagem para outros sistemas de cuidados fora do hospital. Lecarpentier
(1999, p. 30) aponta a vida associativa como fundamental
no processo do tratamento, chegando a considerá-la literalmente
como uma “ferramenta de desalienação”.
Levando em consideração a condição específica do doente em
um equipamento de saúde mental, ressalta-nos logo à primeira vista,
além do sofrimento inerente ao seu momento crítico, um tríplice
processo de alheamento, de distanciamento quanto à sua vida corrente.
Em primeiro lugar, nesta sua condição, ele geralmente se vê
distanciado do convívio com o seu grupo mais próximo de relacionamentos
(parentes, vizinhos, amigos etc.), vivendo uma espécie
de cross-psychosocial shock,16 uma síndrome de retirante. Em seguida,
16 Este termo não está colocado aqui com um estatuto de conceito teórico. Colocoo
como uma carona na expressão cross-cultural shock (choque intercultural), relaO
CLUBE DOS SABERES 133
não bastasse isso, ele costuma ficar apartado de sua rede social mais
ampla e de trabalho, permanecendo – e este é terceiro processo –
quase sempre excluído da participação nas decisões quanto à gestão
do dia-a-dia do equipamento, o que vem a agravar ainda mais o
seu processo de alienação.
Além disso, nos lembra Lecarpentier (1999, p. 31), “a precariedade
social e econômica atual, o acesso cada vez mais difícil ao mundo
competitivo do emprego e do trabalho, fatores há muito determinantes
de integração e de reconhecimento para os doentes, a perda
do laço social que daí resulta, tornam impossíveis inscrições, pertenças
ativas que seriam essenciais para todos e cada um”.
Muito embora este quadro descrito por Lecarpentier se refira às
condições dos doentes franceses, ele não nos é em absoluto desconhecido.
Padecemos de problemas muito semelhantes, sem contar
que parte muito significativa da população presente nos equipamentos
conveniados ao SUS – Sistema Único de Saúde é de origem
socioeconômica desprivilegiada, com baixo nível de escolaridade e
de condições de emprego, o que se constitui em mais um dos agravantes
no dificultoso processo de retomada de sua vida social.
Mas esta retomada, como já sabemos, não se faz simplesmente
tendo em vista um lá e então, ao porvir de uma pós-crise. Poderíamos
dizer que, assim como o psicanalista faz parte do sintoma do analisando
(Nasio, 1993), o próprio equipamento de saúde que se encarrega
dos cuidados do paciente em crise é também parte integrante
desta crise. Acrescentaríamos, ainda, que o caráter patoplástico do
equipamento, ao produzir novos sintomas, contribui para o que poderíamos
chamar de um surplus de crise.
O trabalho é aqui, agora e sempre, é preciso afirmar, mesmo que
isto possa ser óbvio. As sementes do fortalecimento do paciente para
essa retomada de sua vida social não esperam por um depois. E quanto
a essas sementes, deve-se também levar em conta o trabalho com
cionada a certas revoluções pelas quais passa uma pessoa ao viver em contextos e/
ou culturas muito diferentes.
134 O CLUBE DOS SABERES
as resistências do próprio pessoal de cuidados pois, assim como o
analista resiste à análise (Cottet, 1982; Lacan, 1978), poderíamos
também dizer que o equipamento igualmente resiste ao tratamento
do doente mental como Simon, de um certo modo, nos indica.
IR MAI S ALÉM DOS POSTOS E DAS CLAS SES
INS T I T U C I ONA I S
É preciso, como já vimos, um cuidado muito especial quanto aos
processos que levam às cristalizações identitárias ligadas às classes
institucionais, bem como às impregnações de imagem ligadas aos diagnósticos
dos doentes no equipamento. Tanto o pessoal de tratamento
quanto o doente acabam por hipostasiar o diagnóstico deste último,
esquecendo-se de que um diagnóstico é relativo, temporário e suscetível
de evolução.17 Dependendo do nível desta hipóstase, o paciente
é tomado e se toma por um estado permanente que o aprisiona
nos constrangimentos de sua classificação, dificultando a
exploração de seus recursos e de sua potência, que não se reduzem
aos seus males, nem aos limites estabelecidos pelo próprio diagnóstico.
Excluído pelo fato da própria doença e pela impossibilidade de
participação, ele perde o seu papel operativo, ele tende a se tornar
simplesmente objeto e não sujeito do tratamento. Este é um dos aspectos
nucleares daquilo que chamamos de alienação nas estruturas
de tratamento ou, tomando de empréstimo uma observação de Peter
P. Pelbart, lembrando Deleuze, separação da própria potência.18
Dentre as inúmeras perguntas que sempre nos fazemos em nosso
trabalho no equipamento de saúde mental, uma delas sempre se
17 “Assim é que se vê em prontuários ostentando, ao longo dos anos, até decênios,
diagnósticos sucessivos percorrendo largamente a nosografia. . .” (Kammerer &
Wartel, 1989, p. 32). O diagnóstico é um tema bastante polêmico e não o trataremos
de perto aqui. Para maiores esclarecimentos, cf. Mannoni; 1982; Lacan et al,
1989.
18 Expressão utilizada por Peter, por ocasião de uma discussão sobre a questão da
alienação.
O CLUBE DOS SABERES 135
me insinuou. Como fortalecer a parte saudável do doente, como alguns
dizem, como ir à cata de suas potencialidades e ajudá-lo a
localizá-las, reconhecê-las e lançar mão delas nos caminhos de sua
vida, dentro e além do equipamento? Com quais meios se poderia
contar para se desenvolver processos que incentivassem este movimento?
São vários os processos, alguns já deles abordados anteriormente
neste texto e, como o próprio exemplo da psicoterapia institucional
nos mostra, é preciso procurar criar sempre outros, para que seja
possível uma perspectiva mais ampla na lida com estes estados
críticos e maior enriquecimento dos próprios territórios existenciais.
Cabe aqui lembrar, neste sentido, a Grade.19 Um de seus aspectos
mais importantes é justamente, como já havíamos dito, a promoção
da desterritorialização relativa de cada um no equipamento,
tanto do pessoal quanto dos pacientes, ocasião propícia para uma
desidentificação com os postos e especializações institucionalizadas.20
Resultado disso seria um provável aumento das condições para experiências
diversificadas que incidiriam na produção de novas relações
consigo mesmo e com os outros, bem como no incremento da
visibilidade acerca dos variados processos que ocorrem no equipamento.
Em resumo, um aumento do coeficiente de transversalidade
e de um certo coeficiente de desalienação, para usar uma expressão de
Gastão W. S. Campos.21
Mas, continuando com a pergunta que se me insinuou, quando
estamos diante de alguém que ocupa o lugar de um faxineiro, de
um médico, de um enfermeiro, de um psicótico, um alcoolista etc.,
o que mais podemos ver além e ao lado desses rótulos identificató-
19 Cf. p. 86 e ss.
20 Utilizo a expressão especialização institucionalizada para, com isto, abranger tanto
as especializações formais quanto aquelas que estão ligadas ao que denominamos
signature skills. Quanto a isto, cf. p. 87, acima.
21 Expressão utilizada por Gastão, quando da mesma discussão sobre a questão da
alienação.
136 O CLUBE DOS SABERES
rios? Ou melhor, que outros aspectos desta pessoa não conseguimos
ver, ou aos quais não dedicamos a devida atenção?
Seguramente não poderia dizer com precisão e de antemão o que
existiria neste além das identidades institucionais. Poderíamos, talvez,
tentar uma pequena resposta a essa pergunta por outra via, se
voltássemos as nossas atenções para os saberes, conhecimentos e
experiências de cada um, à parte daqueles que fazem com que se
esteja ocupando este ou aquele posto específico. Se propiciássemos
um contexto voltado para esses saberes e conhecimentos, eles talvez
conseguissem se desentocar, sair à luz, e as conseqüências disto poderiam
ser as mais variadas, como bem pudemos ver pela passagem
do paciente médico.
Considero os saberes e conhecimentos como um componente
essencial do humano mas, como conseqüência de uma série de impedimentos
relacionais e discriminatórios, terminam, como vimos,
por não aparecer, tornando-se quase imperceptíveis e até esquecidos
pelas próprias pessoas que os possuem. Sejam oficiais ou não, costuma-
se passar batido por eles. É que eles geralmente não são considerados
como sinais fortes o suficiente para se articulá-los com um
diagnóstico ou uma evolução. O mais das vezes, eles ficam simplesmente
no limbo dos sinais fracos, sinais de pouca pertinência nas
classificações gerais do âmbito tradicional do tratamento.
Em decorrência disto, como dissemos, não nos é facilitado ver
a complexidade e a riqueza de cada um e de todos, mergulhados
que muitas vezes estamos no meio de gabaritos simplificadores que
filtram a relação com o outro e consigo mesmo. Quando muito, no
que diz respeito ao paciente, a percepção desta riqueza se dá em
uma situação circunscrita de terapia dual, de grupo ou mesmo familiar.
Quanto ao pessoal de tratamento, a situação tampouco é muito
diferente. Os filtros institucionais, mormente os de status e de função,
regulam em geral as relações e as percepções, não obstante haja
alguma pequena ampliação do reconhecimento recíproco entre as
pessoas de uma mesma equipe ou de equipes que se inter-relacioO
CLUBE DOS SABERES 137
nam com uma determinada freqüência. Mas, mesmo assim, o relacionamento
costuma pautar-se principalmente pelo que cada um
sabe e deve saber fazer em seu trabalho, que permanece sendo quase
sempre o mesmo, devido às alocações fixas de funções, típicas das
estruturas dos nossos equipamentos. Ou seja, conhecimentos e experiências
pessoais que porventura venham a aparecer caem igualmente
no porão da baixa pertinência.
É bom lembrar que, ao me referir aos processos terapêuticos,
como há pouco o fiz, não quero dizer que eles não sejam necessários
ou efetivos. O que acontece, muito freqüentemente, é que eles
ficam restritos aos seus atores e encapsulados no seu próprio âmbito,
não indo além de suas fronteiras. Isto vale, a meu ver, tanto para os
pacientes quanto para o pessoal de tratamento.
Ora, não nos podemos esquecer de que a vida no equipamento
de saúde mental não se limita a esses processos, é preciso mais. Existe
aí uma pequena sociedade em que todos estão inseridos, e cuja
historicidade não se restringe à historicidade das relações que se
dão nesses processos terapêuticos específicos que são, de sua parte,
inegavelmente importantes. É preciso um além deles, caso contrário
se correria o risco de cair em uma serialização de pequenas ilhas de
relacionamentos, alheias ao universo complexo da multirreferencialidade
e da transferência multifocal.22
A PEDAGOGI A, DE NOVO
Era o início dos anos de 1970, em um bairro da periferia de Orly.
Claire Heber-Suffrin, professora primária de uma classe de alunos
com dificuldades escolares, estava ainda no início de sua carreira
profissional. Claire ainda não tinha muita familiaridade com a técnica
Freinet naquela época, muito embora a escola onde trabalhava
já utilizasse alguns procedimentos desta técnica.
Foi assim que, ao levar a sua classe para uma exploração do meio
22 Cf. p. 40, acima.
138 O CLUBE DOS SABERES
em uma pequena aldeia afastada de Orly, ela teve a sua primeira
experiência com aquilo que ela chamaria mais tarde de trocas de
saberes. Num dado momento da excursão, algumas crianças se dirigiram
a ela, animadas e cheias de curiosidade, pedindo-lhe a autorização
para aprenderem a ordenhar vacas, com a ajuda de um fazendeiro
da região. Embora se perguntando em quê aquilo iria ajudar
as crianças a passarem de ano, Claire se deu conta da intensidade
do anseio das crianças e de como isto repercutia nela mesma. Esta
pequena negociação das crianças com o fazendeiro entusiasmou-a a
tal ponto, que ela não só lhes deu permissão para que fossem aprender
a ordenha com o fazendeiro, como também começou a procurar
na aldeia por outras pessoas que pudessem ter outras coisas para
ensinar às crianças. Aconteceu que nos dias seguintes, algumas das
crianças da classe foram aprender a ordenhar, outras foram construir
a maqueta de um chalé típico da região, com um marceneiro local,
e outras foram escutar estórias de alguns idosos da aldeia.
A partir desta experiência e de outras que se seguiram, nas quais
algumas pessoas que se dispuseram a ensinar o que sabiam, passaram
também a aprender com outras, Claire se pergunta: ”Como fazer
um projeto suportado coletivamente, como uma outra maneira
de fazer a escola? Isto me parecia ser da ordem do sonho e do impossível”
(Heber-Suffrin, 1992, p. 18). Procurando instrumentar-se
melhor para lidar com a sua questão, Claire passou a pesquisar alguns
pensadores e educadores, dentre os quais Ivan Illich, Paulo
Freire, Freinet, Laborit e Edgar Morin e, em seguida, desenvolveu
seu primeiro projeto, a que chamou de Redes de Trocas de Saberes
na Escola.
Claire continuou a investir em seu sonho e, alguns anos mais tarde,
esta experiência das redes foi expandida para as comunidades
em geral, sendo criada na década de 1980 uma associação à qual foi
dado o nome de Redes de Trocas Recíprocas de Saberes.23
O ponto de partida das redes é que cada um sabe alguma coisa e,
23 O nome original é Réseaux d’Échanges Réciproques de Savoirs.
O CLUBE DOS SABERES 139
por menor que seja este saber, ele pode ser valorizado e transmitido
a alguém que deseje adquiri-lo. Neste sentido, há aí uma estreita
concordância com a posição de Bleger (1972, p. 60-1): “Não há ser
humano que não possa ensinar algo, quando mais não seja pelo simples
fato de ter certa experiência de vida. Esclareçamos, além disso,
que não se trata somente de aprender no sentido limitado de recolher
informação explicitada, mas de converter em ensino e aprendizagem
toda conduta e experiência, relação ou ocupação”.
Como nessas redes cada pessoa é considerada ao mesmo tempo
ofertante e demandante de saberes, as relações se estabelecem em um
nível de paridade e reciprocidade. Aquele que aprende, por exemplo,
alguns conceitos de matemática com alguém, poderá ensinar o
tricô a um outro que, por sua vez, irá ensinar a um terceiro como
trabalhar com um processador de textos no computador, e assim por
diante, em uma rede que pode expandir-se interminavelmente.
Neste intercâmbio, as pessoas aprendem um saber que desejam
adquirir e, ao mesmo tempo, aprendem a ensinar o que sabem, através
da difícil experiência de partilhar com o outro o que se sabe.
Voltaremos a isto.
Este é um pequeno exemplo para mostrar rapidamente qual é o
espírito presente em uma rede de troca de saberes. Como também
pudemos ver aí, esta rede opera de modo flexível e não entra em
considerações de hierarquia de saberes ou de status. Aqui existe algo
que nos interessa sobremaneira, quanto a essas trocas. O valor é o
próprio saber tramitado, além do fato de que aquele que se encontra
na posição de ensiná-lo, é ele próprio, valorizado, o que fortalece,
assim, as bases para uma verdadeira sociabilidade.
Finalmente, todo e qualquer participante das redes, além de ser
um ofertante e um demandante de saberes, é encorajado a ser também
um participante na construção e na manutenção de sua rede,
ou mesmo na construção de novas redes. Este é um dos aspectos
que contribuem para existam atualmente mais de setecentas dessas
redes espalhadas pela Europa, África e América Latina.
140 O CLUBE DOS SABERES
E O CLUBE DOS SABERES ?
Voltemos aos primórdios das Redes de Trocas Recíprocas de Saberes.
Claire Heber-Suffrin (1992, p. 12) assim comenta a experiência
que teve durante a temporada em que esteve com as crianças,
naquela pequena aldeia: “Alguma coisa se passou de muito forte,
em parte inconscientemente com as minhas crianças e talvez comigo
também: isto fazia parte da vida que circulava. As crianças vinham,
durante a hora do estudo, contar, escrever e redigir. E, sem o
ter ainda teorizado, me parecia já naquela época, que só temos saberes
para comunicá-los, e, para comunicar, é preciso por conseguinte
que o saber circule. O saber é feito para criar a relação, e comunicando-
o, nos apropriamos dele”.
Isto mesmo. Aconteceu, deu um clique! “A consistência precede a
existência. O acontecimento singular da «tomada de consistência»
gera os tempos, os espaços e as substâncias próprias dos agenciamentos”,
nos diz o amigo Guattari (1981, p. 163).
“[. . .] só conhecemos alguma coisa à condição de nos reconhecermos
e de reconhecermos alguém; aprender depende de relações
e de tramas que traçam a rede desses deslocamentos, mas também
se mistura às cadeias circunstanciais da amizade”,24 também nos diz
Michel Serres (1998, p. 12).
De um lado, crianças com dificuldades de aprendizagem e, de
outro, as dificuldades de comunicação e de relacionamento nos nossos
equipamentos. Nada mais próximo do universo de nossas preocupações.
As questões relativas à aprendizagem e à comunicação
estão na base dos problemas psicopatológicos, já nos apontava Pichon-
Rivière.
Este me parece ser um argumento sólido para que pensemos em
um empreendimento que possa fortalecer em especial estes dois
processos. Um coletivo concreto, voltado para a criação de redes de
24 Grifo nosso.
O CLUBE DOS SABERES 141
relacionamentos que privilegiem o ensino e a aprendizagem, promovendo
uma intensificação na qualidade de presença de cada um.
Criar mais um espaço que possa ser freqüentado livremente, sem
distinção, assim como uma espécie de clube, cuja jóia de associado
fosse composta tão-somente dos saberes, aonde se pudesse ir, estar
com os outros e simplesmente fazer conhecidos, fazer conhecimentos.25
É neste sentido que pensamos na criação de um Clube dos Saberes.
Sem distinção! Já falamos algumas vezes sobre a hierarquia – talvez
melhor dizer hierarquias – no equipamento de saúde mental e
as dificuldades que essas assimetrias trazem. Existe, porém, mais
um ponto que me parece ser digno de nota quanto a isto. É a presença,
em geral, de uma assimetria bastante acentuada e, até mesmo
contrafóbica, entre o dito normal e o doente do qual ele cuida.
Mas, não seríamos todos normopatas, inseridos que estamos “na
trama mesma do tecido e do discurso social”?26 O que há de mais
transversal – e sem distinção de classes – em todas as pessoas que
convivem nessas assimetrias, senão o desejo, os saberes e a linguagem?
Novamente o acolhimento, os encontros e o reconhecimento
Se dermos uma rápida olhada no verbete acolher, no Aurélio ou
no Michaëlis, poderemos encontrar aí vários sentidos como, por exemplo,
hospedar, receber, aceitar, tomar em consideração, dar crédito a alguém.
Pois, a meu ver, é de tudo isto que se trata. Acolher, nunca é
demais reiterar este tema, é aceitar e tomar em consideração o outro,
reconhecendo-o em seu estilo e em suas riquezas. Ao ser “reconhecido
por outros, cada um aumenta a sua implicação quanto à sua
relação com os outros”, nos lembra Authier (1998, p. 267).
Mas, para que se dê o reconhecimento, é preciso que haja encontros.
E no entanto, o encontro não é programável, como já vi-
25 Cf. Nota 29, adiante.
26 Cf. p. 45, acima.
142 O CLUBE DOS SABERES
mos. O encontro, propriamente dito, simplesmente acontece. Por esta
razão, quando se fala em programar o aleatório, deve-se levar em
conta que isto significa criar planos que comportem um possível dos
encontros, que criem condições mínimas para que o reconhecimento
e o desejo possam ter a sua expressão. É preciso promover mais
espaços potenciais27 que possam conter os investimentos de cada um,
sempre à sua medida.
Nesta perspectiva é que penso, teimando, caber um clube voltado
para o universo dos saberes, que possa acolher tantos quantos ali
queiram ir, à medida de seu desejo, abrindo um espaço para o reconhecimento
de suas riquezas: seus conhecimentos, suas experiências,
suas histórias. Um espaço onde haja uma ambiência tal que a
comunicação não se fundamente nas nossas assimetrias tradicionais.
Por que não criar mais um espaço que possibilite uma justificação
para se estar aí? Por mais fugidio que seja este momento de presença,
pode haver algo que se comunique, algo que se comunique na
“dimensão da existência a mais sufocada na vida corrente. . .” (Oury,
1992, p. 146), ou seja a dimensão pática. Contar para o outro, ser reconhecido,
é o desejo mais fundamental do homem28 e a base mesma
da transferência. Agregaria a estas observações uma contribuição preciosa
de Authier. É que, um conhecimento, além do seu sentido voltado
para o saber, é também e, sobretudo, um conhecido:29 “Conhecimentos:
pessoas que têm relações entre si” (Authier, 1998, p. 266).
A mutualização dos conhecimentos e a ensinagem
Antes de continuarmos, é preciso lembrar que o saber de que
falamos não é somente um saber-fazer ou um saber a respeito das coi-
27 Cf. p. 80, acima.
28 Cf. p. 87, acima.
29 “Connaissances: personnes qui ont des relations entre elles”. A palavra conhecimento
tem também o significado de conhecido, tanto no francês quanto no português.
Portanto, em nossa língua, quando dizemos conhecimento, podemos também
nos referir a uma “pessoa com quem travamos relações” (Aurélio).
O CLUBE DOS SABERES 143
sas. Como nos dizem Mony Elkaïm & Isabelle Stengers (1994), o
saber é “ontológico”, ele é “produção e especificação recíprocas daquele
que sabe e daquilo que é sabido”.30 Estamos, portanto, falando
de um processo de autoprodução e de produção do outro.
Um dos aspectos fundamentais daquilo que gostaríamos que ocorresse
no Clube dos Saberes é a sustentação da reciprocidade, na qual,
como dissemos, cada um é ao mesmo tempo ofertante e demandante
de saberes.
Além da especificação recíproca do que sabe e daquilo que é sabido,
apontada por Elkaïm & Stengers, seria importante também
podermos produzir uma transformação na dissociação formal entre
o que ensina e o que aprende, dissociação esta cuja estrutura é muito
semelhante, senão igual, à que existe entre o que cuida e o que é cuidado.
Lembremos que esta dissociação, em nosso contexto, adquire um
caráter eminentemente forte, como obstáculo ao tratamento.
Constituindo-se como um espaço de mutualização dos saberes,
este clube pode vir a promover condições para novos modos de relação,
introduzindo alguns re-arranjos nessas dissociações. Aquele
que aprende, ensina ao que ensina, pelas próprias dificuldades ou
questões que ele lhe aponta. Dependendo da qualidade de presença,
ao acolher as questões daquele que aprende, o que ensina aprende
mais sobre si e sobre ele, além de aprender mais sobre aquilo que
sabe. E algo mais acontece, um outro saber aparece naquele que
ensina: ele aprende mais a ensinar.
Sabemos, de Michel Polanyi (1983), que o conhecimento explícito,
aquele que temos condições de transmitir a um outro, está sustentado
por um outro tipo de conhecimento, que é ainda mais fundamental,
o conhecimento tácito.31 O conhecimento tácito é o que
subjaz ao explícito e sobre o qual não temos palavras para dizer, não
30 Estas palavras dos autores se referem ao conceito de enaction, desenvolvido por
Francisco Varela. Quanto a isto, cf. Varela, 1989 e da Costa, 1993.
31 Em seus trabalhos iniciais, Polanyi utilizava conhecimento (Knowledge) e conhecer
(Knowing) praticamente como sinônimos. Mais tarde, ele prefere considerar o
conhecimento como o processo de conhecer (Knowing) – atente-se para a forma ge144
O CLUBE DOS SABERES
o reconhecemos conscientemente. Ao tentarmos organizar o nosso
conhecimento para partilhá-lo com outrem, tomamos consciência
de mais alguns aspectos daquilo que conhecemos tacitamente.32 Com
isto, produz-se um maior auto-reconhecimento e um fortalecimento
do próprio conhecimento, não só explícito como também tácito:
“sempre se aprende mais do que se crê, do que se pode demonstrar
verbalmente ou acusar conscientemente” (Bleger, 1972, p. 78).
Concebendo desta maneira este processo de compartilhamento
dos saberes e todas as suas implicações, podemos dizer que aquilo
que chamamos de mutualização não se restringe à interação entre
duas ou mais pessoas, mas inclui igualmente uma relação consigo
mesmo. Existe aí uma inextricabilidade do ensinar, do aprender e,
portanto, do comunicar. Há aí, para usarmos um neologismo de
Bleger, uma ensinagem.
“Ensino e aprendizagem constituem passos dialéticos inseparáveis,
integrantes de um processo único em permanente movimento,
porém não só pelo fato de quando há alguém que aprende tem
que haver outro que ensina, mas também em virtude do princípio
segundo o qual não se pode ensinar corretamente enquanto não se
aprende durante a mesma tarefa de ensino” (Bleger, 1972, p. 58).
Despiramidalizar os saberes e os lugares
No âmbito do Clube dos Saberes estamos, portanto, falando mais
de pessoas do que de personagens da pirâmide das identidades.
Poderíamos dizer que uma de suas referências básicas é a posição
de Tosquelles (1995, p. 38), em sua afirmação de que “permanecemos
mais ligados à pessoa e suas transformações, do que à personalidade
dos doentes, ou à nossa”.
rundiva deste termo, que, em uma tradução literal, poderia ser conhecendo. Quanto
a este processo do conhecimento, cf. Polanyi, 1974, e Polanyi, 1983, especialmente
o capítulo “Tacit Knowing”, p. 1-25.
32 É o que alguns autores denominam conversão do conhecimento. Quanto a isto, cf.
Nonaka & Takeuchi, 1997.
O CLUBE DOS SABERES 145
Uma outra preocupação do Clube dos Saberes é também a promoção
da retomada e do incremento do papel operativo do paciente,
como também das classes institucionais mais intimidadas diante
da caixa preta do saber terapêutico piramidalizado. A possibilidade
do exercício de diferentes papéis33 e funções, em diversas situações
e por todos os que participam do clube, deve também ser uma
preocupação permanente. Criar esta diversidade, é abrir possibilidades
de mudanças no “conjunto de experiências, conhecimentos
e afetos” (Pichon-Rivière) com os quais cada um pensa e age, ou
seja, nos esquemas referenciais de cada um e, conseqüentemente, nos
esquemas referenciais do conjunto dos participantes, mediante uma
operatividade relacional consigo mesmo, com o outro e com os objetos.
As suas práticas, portanto, poderiam inocular a cultura do equipamento,
como dissemos há pouco, por meio de novas qualidades
de relacionamentos e de investimentos, abrindo espaço para um aumento
das relações complementares e, conseqüentemente das constelações
de conhecimentos (nos dois sentidos), desafogando o universo
de cada um para aquilo que Deleuze e Guattari chamam de multiplicidades
transversais.
REVENDO O COLETIVO
Mas o que é que faz que as pessoas freqüentem um clube? Várias
razões, certamente. Vamos tentar circunscrever uma situação específica,
para melhor nos localizarmos.
Quando alguém vai ao clube jogar vôlei, por exemplo, ele terá
uma razão, uma justificação, para se encontrar com os seus companheiros
de time, os jogadores do time oponente, o juiz etc. Quando
a partida está rolando, todos concentram as suas ações e suas relações
em torno de um objeto concreto que é a bola. No momento do
jogo, cada um mantém a sua atenção voltada para ela, tendo como
pano de fundo os outros, suas posições e as possíveis relações que
33 Cf. Nota 13, Capítulo 5.
146 O CLUBE DOS SABERES
daí advirão. A bola está no centro da atenção de todos, e as regras
do jogo, das relações, a tomam como referência básica. Ganhará o
jogo o time que tiver dominado mais a bola e feito o maior número
de pontos, de acordo com as regras.
Entretanto, se eventualmente retirarmos esta bola da quadra, o
jogo é interrompido imediatamente, não chegando ao seu final esperado.
Só restará aos jogadores, caso a bola não volte, desistirem
de jogar e se retirarem. A bola mantém os jogadores na quadra e num
espaço de relação.
Utilizamos esta imagem para introduzir a visão de Authier no que
diz respeito ao coletivo, apoiada em uma noção muito particular,
desenvolvida por Serres,34 que é a noção de quase-objeto. No nosso
exemplo do vôlei, a bola ocupa o lugar deste quase-objeto. “A hipótese
proposta por Michel Serres é que a vida do coletivo necessita
da presença de um quase-objeto”, nos diz Authier (1998, p. 214).
A bola é como o capital, aponta Authier (1998, p. 218). Pare ele,
o capital “é o quase-objeto do mundo material. Cada um tem dele a
mesma visão, qualquer que seja seu ponto de vista ele pode depositálo,
ele pode retirá-lo, nada a mais, nada a menos; as quantidades
dependerão de sua potência.”
A TRÍADE DO COLETIVO
Temos, então, um quase-objeto que, no dizer de Authier, é necessário
para a vida do coletivo. Mas o que é um coletivo, para ele?
Um coletivo é uma tríade composta de “comunidade de atores, território
e quase-objeto” (Authier, 1998, p. 242). Neste coletivo, cada
um desses componentes tem a própria constituição.
Na ausência de quase-objeto, por exemplo, falta ao território um
limite significativo e, aos atores, lhes falta alguma coisa para fazerem
circular. Sem território o grupo, por sua vez, fica imobilizado, e
o quase-objeto impedido de circular.
34 Serres, M. Le Parasite. Paris: Grasset, 1980.
O CLUBE DOS SABERES 147
“O quase-objeto não pode ser um pedaço do território, do contrário
é a guerra; ele não pode ser um ator, do contrário o coletivo se
torna vitimário.35 Ele deve ser não-humano como o território, e não
inerte como os atores. Ele deve deslocar-se com os atores sem ter
nenhuma aptidão autônoma ao movimento, como o território. A
cinemática dos movimentos do quase-objeto determina ao mesmo
tempo o tamanho do território e as dinâmicas do coletivo”, afirma
Authier (Ibidem), concluindo: “Nosso quase-objeto deverá, portanto,
ser suscetível de alcançar todas as regiões do conhecimento, sem
ser o conhecimento; e aderir o máximo possível aos atores sem ser
um sujeito sábio”.
E A TRÍADE DO CLUBE DOS SABERES ?
O território
A partir da nossa imagem do jogo de vôlei, e do que foi apresentado
por Authier, gostaria de propor uma compreensão de território.
Proponho que entendamos este território como um espaço. Um espaço
que se constitui juntamente com os atores e o quase-objeto.
Este espaço entretanto não é, a meu ver, simplesmente um espaço
físico, mas um campo de relações, do qual igualmente fazem parte
as regras do jogo e a própria quadra onde se joga o vôlei. Quanto à
quadra, podemos dizer que ela se presentifica como a base material
deste espaço, no momento específico deste jogo. Tendo em vista
esta proposição, quando porventura aqui falarmos de território, estaremos
nos referindo a esta compreensão de espaço, ou seja, a um
35 Exemplo disto, é um tipo de jogo de futebol, praticado em algumas regiões brasileiras,
chamado de açougue. A sua característica principal é uma regra selvagem,
que incentiva que se chute, não só a bola, mas principalmente aquele jogador
que está com ela no momento, operando uma espécie de deslocamento do quaseobjeto.
Podemos também verificar um certo tipo de deslocamento de quaseobjeto
no plano do tratamento, ou seja, a centralização da atenção predominantemente
sobre si mesmo (pessoa ou grupo) e sobre o outro, mais do que sobre o
entre os dois. Por exemplo, o processo autístico e/ou grupista de certas equipes,
conforme comentamos acima (p. 111).
148 O CLUBE DOS SABERES
conjunto composto de um campo de relações, um suporte material
e eventuais regras de relações.
Voltando ao nosso exemplo, na eventualidade de não haver mais
o jogo de vôlei, de as pessoas se irem, este espaço se desfaz. Se a
base material deste espaço tiver sido construída como uma quadra
poliesportiva, por exemplo, quando ela vier a ser utilizada por times
que queiram jogar futebol de salão, a nossa quadra estará fazendo
parte de um outro território, de um outro espaço.
Tentarei seguir em frente, trazendo para as nossas considerações
um outro tipo de jogo, a pelada. Quantas vezes já não assistimos, ou
mesmo jogamos, uma pelada em um lote vago, que poderia algum
dia vir a ser o espaço sobre o qual se ergueria um condomínio, uma
casa ou fábrica? Entretanto, no momento deste jogo, este lote vago
é parte do território da pelada, depois ele poderá vir a pertencer a
um outro tipo de território. Poderíamos fazer aí uma festa de São
João, um campo de bolinha de gude, de finca etc. Por conseguinte,
este espaço a que nos referimos pode adquirir uma constituição específica
em um dado momento, desfazer-se em seguida e mais adiante
reconstituir-se como outro que não o anterior, à medida dos movimentos
dos atores e do quase-objeto.
Mas, e o nosso caso do Clube dos Saberes? Como fica? Qual poderia
ser o seu território?
Vamos nos arriscar a dizer que o lote vago, no nosso exemplo, é o
suporte material de um espaço, de um território local, um suporte
para algo que sustenta as relações em um determinado coletivo, que
poderíamos igualmente chamar de local (os dois times, os que assistem
o jogo etc.).36 Em outras palavras, este território local, este espaço
local, é o subconjunto em ato de um outro conjunto, de um
espaço que o subsume, o espaço do jogo.
Assim, penso igualmente que o território de um Clube dos Saberes
é um espaço local, dentro de um espaço muito mais amplo, o
espaço dos saberes. Espaço local, ele abrigará um jogo especial, ou
36 “Coletivo não coincide pois exatamente com social; ele é, além do mais, atingido
por um índice local” (Recherches, 13, 1973, p. 200).
O CLUBE DOS SABERES 149
seja, o jogo local dos saberes e tudo aquilo que daí advém: o compartilhamento
dos saberes, mas também o desejo, as constelações afetivas,
o reconhecimento, as demandas. . . as redes de transferências.37
Os Atores
Para podermos localizar quem seriam os atores do Clube dos Saberes,
precisamos ver um pouco mais de perto este jogo.
Voltemos à pelada.
Antes de mais nada, precisamos fazer alguns esclarecimentos. Para
aqueles que nunca viram ou jogaram uma pelada, o Aurélio explica:
“Jogo de futebol ligeiro, sem importância, em geral entre garotos
ou amadores, e que se realiza em campo improvisado” ou “Partida
de futebol mal jogada ou sem maior interesse”.
Tomarei uma licença para algumas observações, do ponto de vista
do vivido e não do definido pelo dicionário. De fato, a pelada é
um “futebol ligeiro”, talvez principalmente pelo fato de que o “campo
improvisado”, o suporte material do território criado para que
ela aconteça, é geralmente muito menor do que o campo de futebol
oficial, permitindo mais velocidade de acesso à bola e ao gol. O termo
improvisado, embora possa estar negativamente contaminado por
estar próximo, na mesma frase, a “sem importância”, “garotos” e
“amadores” é justamente, a meu ver, uma das características fortes
da pelada. “Se não temos um campo oficial, não importa, este é o
nosso campo”, “lidamos com os recursos que temos, para fazer o
que desejamos” é o que esses jogadores – ou mesmo nós, quando
jogávamos – talvez pudessem dizer. Quanto a “garotos” e “amadores”,
tocamos justamente na questão da qual temos falado, isto é,
da oficialidade, do reconhecimento formal e hierárquico de uma capacidade,
de um conhecimento, sem o qual ele é considerado literalmente
menor, laico, sem importância.
37 “Lá onde a fala falha ou se faz rara, é a imagem e o espaço, inscritos ou virtuais,
que se tornam o relé de uma manifestação e conferem os meios para uma «relação
»” (Polack & Sivadon, 1991, p. 131).
150 O CLUBE DOS SABERES
As regras. Bem, as regras da pelada são muitas vezes estabelecidas
de acordo com as condições do campo, do tipo de bola, do número
daqueles que estão a fim de jogar e do tempo de que dispõem para
se dedicarem ao jogo.
Mas uma coisa é certa. Estas regras, em sua grande parte, não são
extrínsecas, elas são geralmente construídas ad hoc e assumidas por
todos, sendo modificadas à medida da mudança do contexto (diminuição
do tempo, saída de alguém etc.). Além disso, muito freqüentemente,
não se tem sequer uma pessoa no posto específico do árbitro;
ao contrário, todos assumem compartilhadamente este papel.
Poderíamos dizer que a pelada é um bom exemplo de grupo sujeito.38
Aqueles que já tiveram a oportunidade de participar deste tipo
de jogo, talvez se lembrem de um aspecto importante. No momento
do jogo, não há propriamente uma distinção de classes, de cor, de
religião etc., entre os jogadores. Nem mesmo o dono da bola ocupa
um lugar especial. Caso ele queira utilizar esta propriedade como
privilégio, o jogo fica impossibilitado. A diferenciação principal está
apoiada na possibilidade de cada um em contribuir para o sucesso
do seu time, jogando nas posições mais indicadas, posições estas
que são intercambiadas, dependendo do andamento do jogo.
38 Grupo sujeito e grupo sujeitado são duas noções muito presentes na obra de Guattari,
e têm estreita relação com os conceitos de “grupo em fusão” e “prático-inerte”
avançados por J.-P. Sartre. Estas duas noções estão presentes em vários textos de
Guattari, e têm muitos desdobramentos importantes; porém não trataremos delas
aqui. Para os nossos propósitos, no momento, poderíamos dizer, segundo observação
de Suely Rolnik (Guattari, 1981, nota 6, da trad., p. 103), que “o grupo
sujeito tem por vocação gerir, na medida do possível, sua relação com as determinações
externas e com sua própria lei interna”. É preciso ainda lembrar que
Guattari, a partir de certo momento de suas elaborações teóricas-práticas prefere,
entretanto, não mais falar de grupo sujeito e o substitui por processo, “que é
exatamente o oposto de um estatuto ou de uma função. É por isso que eu não
retomaria absolutamente essa minha antiga formulação de «grupo sujeito». Falaria
«processos de subjetivação» ou de «processos de semiotização», os quais não
coincidem nem com um grupo nem com um indivíduo, envolvendo tanto elementos
infrapessoais, orgânicos, perceptivos, fisiológicos, ideais etc., quanto processos
econômicos, maquínicos, extrapessoais. É esse tipo de agenciamento que
pode, num dado momento, tomar a dimensão de processo analítico” (Guattari,
1986, p. 264).
O CLUBE DOS SABERES 151
Para concluir, se observarmos uma pelada, não podemos deixar
de ficar impressionados com o engajamento, a garra, o e o empenho
com que os jogadores participam. Mas, gostaria mais uma vez
de sublinhar, na definição do Aurélio, os termos “sem importância”,
“mal jogado”, “sem maior interesse”, “garotos” e “amadores”, para
lembrar que, quanto a isto tocamos justamente na questão da qual
temos falado. Estas adjetivações são feitas a partir de que avaliação,
de que reconhecimento? De um reconhecimento oficial? De uma
avaliação – com o perdão da palavra – arbitrária? A pelada é rica e
pra valer, o diriam Pelé e os Ronaldos! A isto acrescentaria que a
pelada é um jogo menor, meio assim como uma literatura menor.39
Voltando ao Clube dos Saberes, poderemos agora melhor nos indagar
quem seriam os seus jogadores, os seus atores. A esta pergunta,
talvez pudéssemos responder com outra: quem não poderia sêlo?
Uma resposta se impõe: somente alguém que não o desejasse!
Por princípio, o Clube dos Saberes deve estar aberto à freqüentação
de toda e qualquer pessoa, independente de sua classe, patologia,
status ou função, etc. Ou seja, ele está aberto tanto para os
ditos doentes quanto para os ditos normais. Todo mundo sabe alguma
coisa e, se assim o desejar, pode ensiná-la. O mesmo vale para quem
quiser aprender algo. A única condição para alguém poder participar
é estar a fim e, naturalmente, ter conhecimento das regras do
jogo que, por sinal, devem ser construídas coletivamente e discutidas
sempre que necessário.
Para dizê-lo em outras palavras, assim como o lote vago, o Clube
dos Saberes deve estar aberto o suficiente para que dele possam
participar aqueles que quiserem jogar, ou seja, aqueles que desejarem
apresentar suas ofertas ou demandas de saberes e estarem abertos
para os relacionamentos, para os conhecimentos que, muito certamente,
surgirão.
39 “Uma literatura menor não é a de uma língua menor, mas antes a que uma minoria
faz em uma língua maior” (Deleuze & Guattari, 1977, p. 25) Segundo os
mesmos autores, na literatura menor, onde o político tem uma presença intensa
e onde tudo assume um valor coletivo, existe um forte coeficiente de desterritorialização,
modificando a língua maior.
152 O CLUBE DOS SABERES
Mas, neste ponto, faz-se necessário indicar uma diferença entre
este jogo dos saberes e os jogos de bola sobre os quais falamos. O
espaço do Clube dos Saberes, embora delimitado pelos movimentos
do quase-objeto, embora um espaço local, tem um caráter difuso
de tal ordem, que permite a presença de vários grupos jogando ao
mesmo tempo. Nessas condições, torna-se possível a sua expansão
à medida do engajamento de novos atores e dos movimentos do
quase-objeto, num processo de compartilhamento dos saberes que
pode atingir uma escala incomensurável. Torna-se, assim, possível
a existência de um espaço, embora local, complexo o suficiente para
conter interjogos, numa rede ilimitada de redes.
Assim, se este território local não vier a sofrer constrições advindas
das fronteiras do equipamento, ele poderá acolher atores os mais variados,
em vários grupos simultâneos. Esses atores poderão ser, repito-
o, desde o pessoal de tratamento e pacientes do equipamento,
como também de outros equipamentos, até mesmo familiares, expacientes,
a comunidade do entorno etc., desde que estejam a fim
de participar deste espaço local do saber, e que exista um quaseobjeto
que possa circular entre eles.
Eu tomaria a liberdade de chamar a este processo de acolhida de
todos quantos desejarem participar do Clube dos Saberes, de movimento
de difusão micropolítica, difusão entendida aqui em dois sentidos.
De um lado disseminação dos conhecimentos e saberes entre
todos quantos investirem nesses encontros. De outro, propagação
do caráter múltiplo das pessoas,40 verdadeiros conjuntos difusos41 cujo
contorno impreciso não permite jamais dizer terminantemente o que
elas são, e nem classificá-las em uma identidade: “[. . .] eu oporia à
idéia de reconhecimento de identidade uma idéia de processos transversais,
de devires subjetivos que se instauram através dos indivíduos
e dos grupos sociais (Guattari, 1986, p. 74).
40 “Portanto, fundar, emoutras bases, uma micropolítica de transformação molecular
que passa por um questionamento radical dessas noções de indivíduo, como referente
geral dos processos de subjetivação” (Guattari, 1986, p. 32).
41 Cf. p. 72, acima.
O CLUBE DOS SABERES 153
Penso que poderíamos considerar o Clube dos Saberes igualmente
como um espaço de dessedentarização do Eu (Tosquelles, 1995),
como um canteiro de experiências e transformações, como um espaço
transicional, uma rede simbólica “na qual nos inscrevemos, e
que dá aquilo que chamamos o estilo de cada um”.42
O quase-objeto
Mas qual seria a bola, o quase-objeto deste nosso jogo? À primeira
vista, ela poderia parecer serem os conhecimentos e experiências
de cada um. Mas os conhecimentos são parte integrante de quem
os possui. Além disso, conhecimentos são também outras pessoas;
quando eu conheço alguém, ele passa a fazer parte de meus conhecimentos.
Portanto o conhecimento não pode ser o quase-objeto,
uma vez que este não pode ser um ator.
O quase-objeto tampouco pode ser uma parte do território, como
vimos acima, caso contrário, haveria uma disputa por ele, talvez até
ferrenha, tendendo para um caráter excludente. Ele teria de ser de
fácil acesso a todos, uma vez que estaria fazendo o papel de mediador,
possibilitando o reconhecimento de si e dos outros e, por conseguinte,
abrindo condições para uma estruturação do mim, uma
estruturação do próprio papel operativo singular.43
Introduzo aqui um parêntese. Authier certa vez comentara, de
passagem e em conversa informal, sobre a construção de mapas na
42 Cf. citação de Oury, p.107, acima. Danièlle Roulot (1999, p. 174), lembra as palavras
de Winnicott sobre o espaço transicional, como “área intermediária que se
situa entre o subjetivo e aquilo que é objetivamente percebido, e que constitui
um lugar de repouso para o indivíduo engajado nesta tarefa humana interminável
que consiste em manter, ao mesmo tempo, separados e ligados, um ao outro,
realidade interior e realidade exterior.”
43 Em um time de futebol, nos diz Pichon-Rivière (1975, p. 127), “[. . .] o jogador,
ao mesmo tempo que internaliza os membros de seu time, realiza o mesmo com
a equipe contrária, configurando o que George Mead chama «o outro generalizado
», com o objetivo de chegar a uma operatividade máxima (a partida se joga
primeiramente no campo interno). Na interação do self com o outro generalizado
se estrutura o mim (papel operativo diferenciado)”.
154 O CLUBE DOS SABERES
Escola de Sagres, na época dos descobrimentos. Aproveito este comentário
para introduzir mais algumas observações sobre o quaseobjeto
que, a meu ver, são bastante pertinentes.
Diz-se, da Escola de Sagres, que cada navegador, ao retornar de
viagem, depositava aí novos relatos e mapas, elaborados durante a
sua última exploração. Tenha ou não existido esta Escola,44 uma coisa
é certa: os portugueses inovaram a cartografia daquela época. A consolidação
dos diferentes relatos e mapas dos exploradores foi possibilitando
uma precisão cartográfica cada vez maior. Isto teve várias
conseqüências, mas indicarei apenas duas. Este aumento constante
da precisão cartográfica contribuiu para uma diminuição surpreendente
dos naufrágios dos navegadores daquela época. Mais ainda, o
compartilhamento dos conhecimentos dos navegadores atingiu um
estágio tal que se chegou a calcular a circunferência da Terra em
léguas, numa época em que a maioria ainda acreditava que o nosso
planeta não fosse redondo.
Mas o que nos importa aqui é sublinhar, a respeito desse processo
de compartilhamento da Escola de Sagres, o fato de que, além
de depositar os seus conhecimentos, cada navegador também retirava
do mapa consolidado aquilo que lhe era importante para sua
nova viagem. Para usar as nossas palavras, cada navegador era simultaneamente
ofertante e demandante de conhecimentos, além
de ser também um mantenedor do crescimento do mapa consolidado,
nesta verdadeira rede de compartilhamentos de saberes. O mapa
funcionava mesmo como um quase-objeto dos navegadores e dos pesquisadores
da época.
Se entendermos o espaço do saberes como um mar sem fim, “um
imenso continuum no qual se passa de um saber ao outro, por variações
contínuas de estados de conhecimentos” como nos diz Authier
(op. cit. p. 71), o quase-objeto de nosso Clube dos Saberes deve ser
preferivelmente um mapa. Um cartograma dando a ver os conhecimentos,
possibilitando navegações e encontros, descobertas e explora-
44 A existência da Escola de Sagres é controversa, sendo considerada por alguns
historiadores como uma lenda. Quanto a isto, cf. Marques; 1989.
O CLUBE DOS SABERES 155
ções, fortalecendo igualmente os seus membros na lida com as problemáticas
dos naufrágios que, por sinal, não lhes são desconhecidos,
ajudando-os a prosseguir em suas jornadas.
Considerando ainda que o conhecimento não é estático, que ele
está em constante mudança, o quase-objeto do Clube dos Saberes
deve ter a propriedade de igualmente mudar concomitantemente
às transformações do coletivo. Ele deve ser transmutativo e, ao mesmo
tempo, poder circular nos agenciamentos de encontros que vierem
a surgir, mantendo a sua função primordial de mediador. Neste
sentido, podemos considerar, em uma primeira aproximação, que o
quase-objeto do Clube dos Saberes é um parente da Folha do Dia,
tal como a descrevemos acima.45
Ainda mais uma observação. Na condição de mapa de um espaço
em que conhecimentos e atores estão sempre imbricados, o nosso
quase-objeto, precisa também deixar visíveis a imagem de cada um,
mediante o conjunto de seus saberes, bem como a imagem do conjunto
maior, do todo local, composto pela reunião das riquezas de
todos quantos participam do clube.
Assim, o membro do clube pode localizar-se neste mapa, aí se
reconhecer e ser reconhecido por aquilo que ele possui, por aquilo
que ele é, além daquilo que geralmente se diz que ele é. Ao mesmo
tempo, ele poderá ver o contorno de sua imagem ressaltada no mapa
dos saberes deste coletivo. Ao ter a sua riqueza localizada e reconhecida
pelo coletivo, ele poderá, quem sabe, revalorizar aquilo que
o afunilamento identitário não permite nem mesmo ver, e retomar
um pouco mais o seu próprio auto-reconhecimento, a sua autovalorização
e a reestruturação de si, imprescindíveis no processo de
ser sujeito, e de se apropriar de seus próprios caminhos.
Constituir um quase-objeto para o Clube dos Saberes
Até aqui, penso termos conseguido fazer uma série de aproximações
àquilo que poderia ser um quase-objeto do nosso Clube dos
45 Cf. p. 117, acima.
156 O CLUBE DOS SABERES
Saberes. No entanto, me parece que seria importante trazer alguns
exemplos mais concretos de como ele poderia ser. Prosseguiremos
ainda um pouco mais.
Voltando ao jogo de futebol, sabemos que quando ele não é um
jogo oficial, a bola tampouco precisa sê-lo. Ela pode perfeitamente
ser uma bola de pano, de borracha, até mesmo um coco ou uma
lata, contanto que ela role, que ela se movimente, que ela cumpra a
sua função. Além disso, o fato de o jogo não ser oficial, não impede,
dependendo das condições dos jogadores, que ela possa ser uma
bola de couro, seja ela um modelo amador ou oficial. O importante,
como dissemos, é que ela cumpra a sua função.
No entanto, o tipo de bola que for utilizada incidirá diretamente
nas características e na fluência do jogo. Não é o mesmo ter uma
lata ou uma bola de couro como quase-objeto. Mas, de qualquer
modo, qualquer que seja o tipo de bola, o jogo poderá perfeitamente
realizar-se, contanto que os times estejam acordados quanto a isto.
Assim é com o Clube dos Saberes. Um mapa pode ser, desde um
simples quadro sinóptico ou um conjunto de listas descritivas, até
um cartograma sofisticado, que acompanha em tempo real as transformações
no espaço que ele representa.
Podemos muito bem citar, como exemplo de quase-objeto, a Grade
ou a Folha do Dia, como já o fizemos há pouco. Levando em
conta o modo como elas são utilizadas, tal como as descrevemos anteriormente,
elas ocupam claramente o lugar de um quase-objeto.
No caso do Clube dos Saberes, podemos perfeitamente utilizar
um mapa, composto por um conjunto de listas para indicar a posição
de cada participante e as diferentes atividades das quais ele
porventura estiver participando.
Desse modo, podemos ter, por exemplo, uma lista contendo o
conjunto das ofertas de saberes, com os nomes de seus respectivos
ofertantes. Uma outra lista apresentaria todas as demandas de saberes
e os nomes daqueles que as depositaram. Uma terceira lista poderia
ainda indicar todas as atividades em torno do compartilhamento
dos saberes existentes em um determinado momento do clube. O
O CLUBE DOS SABERES 157
conjunto dessas listas desempenha, portanto, o papel de um mapa
que indica todos os atores, conhecimentos e as diferentes atividades
de compartilhamento existentes, mostrando, ao mesmo tempo,
os contornos deste espaço local de saberes.
Dentre várias outras alternativas de construção de mapas voltados
para este nosso contexto, gostaria de indicar mais um outro tipo.
Trata-se de um mapa bem mais complexo, cuja constituição só foi
possível com o avanço das tecnologias da informação. Ele é bastante
flexível e tem a capacidade de se modificar em decorrência de
qualquer mudança, por menor que seja ela, nas jogadas dos atores.
À medida dos movimentos dos atores ele muda imediatamente a
sua imagem, como se fosse uma espécie de filme, deixando ver aquilo
que se passa, tanto no âmbito do espaço, quanto do tempo. Ao
deixar visível a imagem global de todos os atores, conhecimentos e
atividades, indicando as proximidades entre eles, ele também permite
que cada ator veja a sua própria imagem destacada da imagem
global. É uma espécie de cinemapa, como Pierre Lévy (1998) costuma
denominá-lo. O exemplo que melhor conheço de cinemapa, é
justamente aquele em cuja elaboração o próprio Lévy contribuiu,
juntamente com Michel Authier, ou seja, as Árvores de Conhecimentos,
e sobre o qual passarei a introduzir algumas informações.
AS ÁRVORES DE CONHECIMENTOS
Um breve histórico
As experiências em torno das Árvores de Conhecimentos, tiveram
como conseqüência uma série de desenvolvimentos conceituais e
estratégicos, aliados aos recursos das novas tecnologias da informação.
Estes desenvolvimentos levam em consideração o surgimento
no mundo atual, como já dissemos, de uma nova economia baseada
no conhecimento,46 em que a criação de espaços de saberes e o fortalecimento
dos coletivos, apoiados na criação, no reconhecimento e
no compartilhamento desse saberes, ocupam um lugar central.
46 Cf. p. 125-6, acima.
158 O CLUBE DOS SABERES
Para Michel Authier, um dos pesquisadores mais atuantes neste
campo de experiências, a sociedade atual, e futura, encontra “o seu
sentido e a sua coesão na circulação e na acumulação coletiva e individual
do saber” (Authier, 1998, p. 243), considerando ele, ainda,
que “a verdadeira riqueza do mundo está ligada à relação com o
conhecimento e à capacidade de ativar rapidamente os homens que
são os seus portadores” (op. cit., p. 38).
A história das Árvores de Conhecimentos tem o seu início, em
1991, a partir da encomenda de uma pesquisa feita ao filósofo Michel
Serres pela então primeira-ministra francesa Edith Cresson, movida
por uma preocupação que se voltava para o risco de que os métodos
oficiais de reconhecimento dos saberes – diplomas, certificados
etc. – viessem a ser uma fonte de exclusão social.
A encomenda foi aceita por Serres, acompanhada por uma decisão
que já obedece a um posicionamento pessoal, condizente com
o tema de trabalho, ou seja, o fato do reconhecimento dos saberes.
Ele declara aos participantes, logo nas primeiras reuniões, que somente
havia aceito esta missão, pelo fato de que ela seria ocasião
para que aqueles que já trabalhavam com ele havia alguns anos,
pudessem exercer as várias competências que ele reconhecia neles.
As primeiras discussões foram longas e difíceis, tendo em vista a
tarefa a ser efetuada. “O problema genérico era filosófico e sociológico,
pois ele demandava ao mesmo tempo uma certa compreensão
das interações dos indivíduos e de seus saberes”, nos diz Authier
(1998, p. 26).
Entretanto, isto trazia consigo outras questões. Nessas interações
das pessoas e de seus saberes, inevitavelmente coletivas, era preciso
poder ouvir simultaneamente o conjunto e a expressão de cada
um ou, como o temos dito, ouvir o coletivo e a singularidade. Ainda
um outro aspecto importante precisava ser levado em conta. O conhecimento,
como sabemos, é dinâmico, ele está em permanente
rearranjo e progressão. Seria problemático, portanto, apreendê-lo de
modo isolado e estático, além do quê, cada um expressa a sua relação,
não só com um coletivo, mas com inúmeros outros coletivos.
O CLUBE DOS SABERES 159
Como o diz Authier, cada um no coletivo é, não um indivíduo, mas
“um conjunto, constituído de interseções de diversos coletivos que
ele teve a possibilidade de criar com os outros, no seio de uma determinada
multidão” (op. cit., p. 29).
Uma pessoa tem sempre experiências, relacionamentos e conhecimentos
que vão muito além de um determinado laço social, ou
seja, há sempre algo a mais que não se conhece no outro, ou mesmo
que não se reconhece em si,47 sem falarmos ainda nas produções
inconscientes. Encontramos aí, sempre presente na relação com o
outro, uma zona de incerteza, para usar uma expressão de Authier,
que considera o conhecimento como “espaço de liberdade inalienável”
(op. cit., p. 176).
Mas este espaço de liberdade, ou esta zona de incerteza, pode
custar muito, se ele é simplesmente assumido como tal e se transformar
em apenas um desconhecimento do outro, o que produziria um
estado de congelamento, uma espécie de zona de certeza ao contrário,
que reduziria o outro a somente aquilo que se conhece dele, àquilo
que não é incerto sobre ele. Este seria o caso, no equipamento de
saúde mental, de um saber teórico e assegurado de antemão acerca
de um paciente. O apoio excessivo em um diagnóstico estabelecido
sobre este paciente, por exemplo, não lhe daria muita saída a não
ser confirmar esta certeza, em detrimento daquilo que ainda não é
conhecido dele, e que, caso o fosse, poderia ser um fator de fortalecimento
da sua imagem e de sua potência.
Retornando à encomenda feita a Serres, o desafio maior com que
se defrontava a sua equipe era como criar um espaço de localização
e de reconhecimento dos saberes das pessoas, independentemente
de seus diplomas, de sua condição social, cultural ou econômica e,
eu acrescentaria, psíquica.
Era preciso criar condições para o reconhecimento dos saberes,
cuja transformação e crescimento se dão em um tal nível de imprevisibilidade
e velocidade, que os sistemas tradicionais para a sua
47 Cf. p. 144, acima.
160 O CLUBE DOS SABERES
transmissão e validação – escolas, universidades, centros de formação
e de certificação etc. – não conseguem acompanhá-los. A morosidade
desses sistemas culmina na dificuldade da disseminação dos
saberes e, de acréscimo, cria todo um processo burocrático de segregação,
de exclusão, tanto de novos saberes quanto daqueles que
eventualmente ainda não tenham sido formalmente legitimados.
Com a proximidade do século XXI e com o aumento cada vez
maior da exclusão social, tornava-se necessário “confiar a priori nas
capacidades de inovação de coletivos” e “fazer tudo para favorecer
uma boa sinergia entre todos os dispositivos de formação possíveis
e imagináveis” (Authier, op. cit., p. 239).
Tratava-se, portanto, de favorecer a sinergia, mas não de criá-la, o
que provavelmente não teria sucesso, além de custar muito tempo,
dinheiro e comprometer tudo aquilo que já operava no campo da formação.
Enfim, não se tratava de destruir o que já existia, mas de construir
novas condições de potencialização coletiva dos saberes, possibilitando
uma formação que não se restringisse a um lugar ou a um
tempo específicos, mas uma formação permanente. Como diz Authier
(op. cit., p. 240), “a regra é simples: as novas formas so- ciais se desenvolvem
onde não há ainda legislação suscetível de cerceá-las”.
Mas, como possibilitar o fortalecimento desta riqueza inalienável
das pessoas? Como promover, ao mesmo tempo, o seu compartilhamento
e desenvolvimento? Para isto, era preciso justamente fortalecer
os coletivos, para que eles pudessem se apropriar dos próprios
meios de crescimento, de modo transparente e sem detrimento de
quem quer que fosse.
Mas, para que este fortalecimento de fato se desse, era necessário
que ele não ficasse por conta de um agente externo, como é o
caso dos sistemas tradicionais de formação e avaliação. Era preciso
que os coletivos pudessem desenvolver os próprios meios locais de
reconhecimento e legitimação.
O problema estava inicialmente posto. Era preciso procurar os
melhores meios de se elaborar uma solução minimamente razoável,
à condição de que ela levasse em consideração as características próO
CLUBE DOS SABERES 161
prias de cada comunidade envolvida, tendo como base as relações
que os atores estabelecessem entre si. Authier (2002, p. 1) nos dá
mais um elemento desta história: “Eu então estudei, naquele momento,
um problema teórico, que é o da representação coletiva de
um conjunto de conhecimentos e da visualização da posição de cada
indivíduo neste conjunto coletivo”.
Cabe aqui um rápido esclarecimento. Ao se debruçar sobre a questão
dos coletivos, Authier havia fisgado um de seus antigos conhecimentos,
decorrentes de sua experiência como professor de liceu no
ensino da matemática, área que lhe é muito cara. Esta sua observação,
que acabamos de citar, tem estreita relação com um problema
apontado por Condorcet, no século XVIII, e que recebeu o nome
de paradoxo de Condorcet. O paradoxo de Condorcet aponta para um
problema político e social, mais particularmente o da representatividade
no sistema democrático, ou seja, a dificuldade de se escutar
a opinião de todos de modo tal que ela contrarie o menos possível
a opinião de cada um.48
Mas voltemos ao fio da nossa discussão. Foram vários os esforços
em torno desta questão, em cujos detalhes não entraremos aqui.49
O resultado final destes trabalhos da equipe de Serres, a alternativa
que melhor se aproximava desta solução procurada, foi aquilo a que
deram o nome de Árvores de Conhecimentos.
48 Trata-se de Marie-Jean-Antoine-Nicolas de Caritat, o Marquês de Condorcet
(1743-1794). A expressão paradoxo de Condorcet foi cunhada a partir de uma de
suas obras, publicada em 1785, o Essai sur l’application de l’analyse à la probabilité
des décisions rendues à la pluralité des voix. Mais tarde, este problema foi abordado
por Kenneth Arrows, economista agraciado com o prêmio Nobel em 1972, procurando
justamente tratar dos processos presentes na decisão coletiva a partir do
conjunto das decisões individuais. Quanto a isto, cf. Rashed, 1974; Arrows, 1974;
Granger, 1956 (apud Jacob, 1989).
49 A história das Árvores de Conhecimentos e o modo como elas foram desenvolvidas
e passaram a operar, estão muito bem detalhados em Authier & Lévy, 1998
e, principalmente, em Authier, 1998.
162 O CLUBE DOS SABERES
A solução Árvores de Conhecimentos
Oprimeiro fundamento das árvores é, pois, segundo Authier (2000,
p. 1), “se cada um chega a ver onde se situam os seus conhecimentos
no espaço dos conhecimentos de todo mundo, então ele se sentirá
implicado, e uma parte do problema começará a ser resolvida, pois o
excluído se dará conta de que ele faz parte de uma comunidade”.
As primeiras árvores eram suportadas por um software, articulado
com um banco de dados. Este software era denominado GINGO,50 e
tinha uma interface gráfica, em forma de árvore, com uma estrutura
de apresentação em hipermídia, que permitia uma visualização global
e, ao mesmo tempo, detalhada dos registros de conhecimentos,
arranjados quanto a proximidade lógica.50
Para melhor entendermos alguns aspectos iniciais do funcionamento
de uma Árvore de Conhecimentos, introduzo dois termos
relacionados a esses registros, e muito correntes no seu vocabulário.
São eles o brevê e o brasão.
A imagem da árvore é composta pelo conjunto de uma série de
pequenas unidades discretas, cada uma delas indicando a área de
um conhecimento em particular, fazendo a função de uma espécie
de átomo de informação nesta árvore. A estas unidades costuma-se
dar o nome de brevê. Como um conhecimento pode ser possuído
por mais de uma pessoa, dizemos que ele é partilhado entre elas,
que esta área está ocupada por mais de uma pessoa. Quanto mais
um brevê é partilhado, quanto mais ele é comum às pessoas, mais
a sua cor irá mudando na imagem, mais ela tenderá para o ver melho.
Por outro lado, quanto menos ele é partilhado, mais sua cor tenderá
para o verde claro. Podemos ver isto mais claramente na Figura 2.
50 Nos últimos anos o Gingo sofreu várias modificações, ficando bem mais potente
e de manejo mais fácil. O nome do software atual, já não é mais Gingo, mas See-
K, que mantém várias outras funcionalidades, além das que o Gingo já possuía.
51 Esta proximidade lógica é possibilitada através de um algoritmo muito especial,
articulado por Authier, voltado justamente para a problemática relacionada ao
paradoxo de Condorcet. Quanto a isto, cf. Authier, 1998b.
O CLUBE DOS SABERES 163
Figura 2
Conjunto dos brevês de todos os participantes.
A árvore representa o mapa do
território e as áreas ocupadas pelos atores.
Os brevês mais partilhados aparecem em
vermelho escuro e o menos partilhados
em verde claro. Os diferentes níveis de
partilha entre estes dois extremos (vermelho
escuro e verde claro) aparecem
através de uma gradação das cores. Assim,
a gradação das diferentes cores indica
o grau de densidade maior, ou menor, de
partilha de um brevê.
Quanto ao conjunto de brevês relativos a cada um dos participantes,
convencionou-se dar-lhe nome de brasão. O brasão de uma pessoa,
portanto, indica o conjunto de brevês relacionados a ela, e que
aparecem na imagem da árvore (Figura 3).
Figura 3
Cada etiqueta branca representa um brevê.
O brasão é o conjunto dos brevês de uma
pessoa.
164 O CLUBE DOS SABERES
O brasão legitima a competência de cada, em um dado momento,
competência, neste nosso contexto, entendida como uma capacidade,
uma aptidão reconhecida pelo coletivo. Ou seja, o brasão,
no nosso caso do Clube dos Saberes, retrataria os conhecimentos
que uma pessoa possui, sem ter como referência maior o sistema
tradicional de qualificação deles.
A árvore também apresenta, por meio de consultas específicas,
quais são os saberes que as pessoas da comunidade estão oferecendo
para compartilhamento, e quais aqueles que estão sendo demandados
no momento (Figuras 4 e 5, respectivamente). Seguindo os
links relacionados a estes saberes, pode-se localizar quais pessoas
são as ofertantes e quais são as demandantes de saberes.
Figura 4
Ao ser consultada, a árvore apresenta
todas as ofertas de saberes existentes no
momento. Pode-se também saber
quem os está ofertando.
Na instauração do processo das Árvores de Conhecimentos, são
oferecidas, a título de orientação, algumas regras genéricas, a serem
Figura 5
Uma outra consulta, e a árvore indica
os saberes demandados. Com mais uma
consulta, aparecem os nomes das pessoas
que os demandam.
O CLUBE DOS SABERES 165
particularizadas por cada comunidade, ou substituídas, caso encontrem
outras mais condizentes com a sua realidade.
Estas são, em linhas bem gerais, algumas características das Árvores
de Conhecimentos, cujo objetivo é funcionar como um quaseobjeto
para uma dada comunidade, e propiciar uma autonomia suficiente
para que as pessoas possam engajar-se em uma espécie de
pesquisa-indagação acerca daquilo que melhor faz sentido para o
seu processo de aprendizagem e formação. Mediante esta solução,
as pessoas podem visualizar, por este verdadeiro cartograma:
– o espaço do saber de sua comunidade
– a sua localização neste espaço
– os diferentes saberes disponíveis (através dos brevês)
– as diferentes possibilidades de compartilhamento, em função
de seus projetos, sejam eles de aprendizagem ou de ensino.
Atualmente o processo das Árvores de Conhecimentos tem sido
aplicado nos mais diferentes campos de atividade, tais como escolas,
projetos educacionais, programas sociais, projetos de desenvolvimento
local e de formação profissional, para citar alguns. Entrar
em detalhes sobre essas diferentes aplicações, nos tomaria um espaço
que não seria pertinente no momento.
Árvores no Clube dos Saberes? Experimentações
Nas nossas experiências com o Clube dos Saberes, utilizamos as
árvores para fazer o mapeamento dos conhecimentos dos pacientes
e de alguns dos membros do grupo fundador, além de outros pacientes
que se prontificaram a participar. A experimentação confirmou a
fineza da solução, e pudemos fazer uma análise conjunta dos primeiros
resultados, análise ainda restrita ao grupo fundador. Ficava confirmada
a possibilidade de se localizar a imagem de cada um que havia
inscrito seus saberes, o quanto isto repercutia nele, e a possibilidade
de vermos o conjunto de conhecimentos daquela comunidade.
Mas ficou confirmado, antes de tudo, quão fértil é este terreno da
rede de compartilhamento de saberes em um equipamento de saú166
O CLUBE DOS SABERES
de mental. Era possível ver claramente o interesse de todos os
que puderam participar daquele embrião de clube, e a disponibilidade
das pessoas que aderiram para contribuir nas pesquisas de saberes.
Os mapeamentos mostravam os mais diversos saberes que as pessoas
possuíam e que estavam guardados em algum porão qualquer.
A reconsideração do valor desses saberes incidia indubitavelmente
no auto-reconhecimento e nas relações entre essas pessoas, como
poderemos ver nos fragmentos de história, logo adiante.
Foram localizados saberes e experiências nos mais diversos campos
como, por exemplo, higiene pessoal, particularmente importante
no equipamento, leitura e escrita, atividades de escritório, informática,
culinária, serviços gerais etc., onde cada saber já não passava
despercebido, e adquiria um valor diferenciado.
Foram feitas, também, algumas incursões em alguns dos serviços
do equipamento, por pequenos grupos formados por pacientes
e um membro do pessoal, para mapear as atividades. O interessante
é que alguns dos funcionários responsáveis por estes serviços, e um
exemplo disto foi a rouparia, acabaram reconhecendo que não se
davam conta da quantidade de atividades que eles tinham de fazer
e, de fato, sabiam fazer nestes serviços.52
É necessário, porém, apontar algumas dificuldades no uso das
Árvores de Conhecimentos em nossos equipamentos de saúde mental.
A primeira refere-se ao aspecto financeiro, por várias razões nas
quais não nos deteremos aqui, mas que estão principalmente ligadas
ao seu custo e às condições financeiras dos equipamentos. A
sua implementação acaba por ficar onerosa para o equipamento, razão
pela qual as árvores não foram definitivamente instauradas por
ocasião dessas nossas primeiras experiências.
Um outro aspecto que dificulta o processo é o próprio fato da
cultura destes equipamentos, que não está ainda familiarizada com
o uso mais extenso das tecnologias da informação, tornando a solu-
52 Cf. nota 57, a seguir.
O CLUBE DOS SABERES 167
ção das árvores um pouco avançada demais intimidando, de um certo
modo, os jogadores. Esta é uma questão apenas de tempo, uma vez
que essas tecnologias não tardarão a fazer parte do dia-a-dia de qualquer
comunidade.53
Esta questão da intimidação dos jogadores me parece ser importante.
Talvez tivéssemos de fato trazido uma bola (um quase-objeto)
muito estranha aos nossos times, sofisticada demais para o nosso
lote vago e que, muito embora ela seguramente facilitasse enormemente
as jogadas, as pessoas ainda vacilassem em utilizá-la. Além
do mais, considerando-se as dificuldades financeiras em adquiri-la,
ela não pôde rolar no campo o tempo suficiente para que todos a
dominassem de fato.54
Isto, no entanto, não quer dizer que as árvores não possam ser
utilizadas em um Clube dos Saberes. Já se encontra em andamento
uma outra experiência, na qual se está planejando usá-las, após uma
melhor introdução do clube na cultura do equipamento.55 Enquanto
isto, estamos utilizando uma outra bola, perfeitamente condizente
com os nosso recursos atuais, ou seja, o conjunto de listas do qual
falamos acima.
Ao mesmo tempo que desenvolvemos a atual experiência, iremos
procurar introduzir gradualmente novas bolas que possam facilitar
cada vez mais o jogo. Tendo isto em vista, estamos pesquisando
algumas experiências educacionais francesas, que utilizaram uma
árvore em papel.56 Este tipo de árvore, apesar das suas limitações,
53 Cf. nota 9 deste capítulo, p. 128, acima.
54 Este foi um sério problema no desenvolvimento desta experiência. Como não
havia condições de aquisição do software, ele foi utilizado em um notebook, no
qual estava instalado o sistema, para se fazer as experiências com as árvores; este
notebook, no entanto, não permanecia no hospital, e era utilizado somente em
algumas ocasiões específicas. Com este limitador, as pessoas não puderam ter
acesso livre e freqüente às arvores. Ou seja, a bola não pôde rolar o suficiente para
que houvesse um jogo livre.
55 Trata-se da instauração de um Clube dos Saberes, em andamento no Centro de
Atenção em Saúde Mental Vera Cruz, em São Paulo.
56 Quanto a isto, existe um relatório muito interessante. Cf. Bresson, 2001.
168 O CLUBE DOS SABERES
consegue manter em boa parte alguns princípios das Árvores de Conhecimentos,
funcionando bem, à condição de que seja utilizada
por pequenos grupos, uma vez que, com maior número de pessoas,
seria inviável a manutenção das proximidades lógicas e da clara visualização
dos brevês e brasões.
Como podemos ver, existem várias alternativas de mapas, de quase-
objetos, para o nosso Clube dos Saberes. O mais importante é
que os seus membros possam utilizar a sua criatividade para construir
uma bola possível e levar adiante o seu jogo, à medida de suas
possibilidades.
A única condição básica, no entanto, é que este mapa, qualquer
que seja a sua constituição, possa funcionar como um quase-objeto.
Em outras palavras, é preciso que ele esteja sempre ao alcance de
todos, de modo a permitir-lhes consultá-lo e inserir nele novas informações
atualizadas, possibilitando a cada um aí se localizar, se
integrar, e fazer as suas jogadas.
Aprendemos, com as nossas primeiras experiências, sobre um
outro aspecto, para o qual devemos estar muito atentos. Refiro-me
à importância da implicação daqueles que têm o papel de tomar decisões,
ajudando de fato a procurar condições para o incremento do
clube. Seria importante que eles pudessem lançar mão de suas prerrogativas,
que lhes são dadas pela piramidalização, mas que devem
estar a serviço do equipamento, para tornar possíveis e duradouras
experiências desta ordem.
A P R ENDEMOS MA I S A LGUMA S COI S A S . . .
As surpresas do compartilhamento
Considerando tudo aquilo que já afirmamos até este momento e,
embora possa parecer repetitivo, gostaríamos de reafirmar a importância
do fato de que o Clube dos Saberes é um espaço de relações
transversais, corporificando-se no dia-a-dia do equipamento, e onde
todos os conhecimentos, não importando a sua classe, possam estar
presentes com os seus respectivos atores.
O CLUBE DOS SABERES 169
Como nos dizem Authier & Lévy (1995, p. 49), “uma infinidade
de conhecimentos, que todos podem possuir em um momento ou
em outro, aqui e ali, sua pertinência econômica, lúdica, social, científica
etc. circulam clandestinamente, crescem em silêncio, invisíveis,
atuantes, prontos para servir”.
R, paciente, já trabalhou como pedreiro e entende do riscado. Acontece
que L, um outro paciente, gostaria de aprender o serviço de
pedreiro. Numa pequena pelada, num embrião de Clube dos Saberes,
improvisado num espaço do hospital,57 R se prontifica a lhe ensinar
um pouco deste ofício, embora vacilante, uma vez que diz ter pouca
paciência para ensinar. L, de bom grado, se prontifica a jogar. A
experiência não é fácil. Ao fim e ao cabo, L consegue aprender, muito
satisfeito, a fazer massa e assentar tijolos, e acaba participando, com
R, numa pequena reforma de uma das dependências do hospital,
onde justamente se localiza a nossa sede improvisada do clube.
R e L reúnem-se com alguns outros pacientes e, com a ajuda de
um monitor, constroem um vitral para a nova porta, a ser instalada
na reforma. Este vitral traz, como imagem, justamente uma Árvore
de Conhecimentos.
Algo também bastante interessante se passa durante uma das
discussões sobre esta reforma. R acaba por mostrar, por ensinar a
alguns membros do pessoal presentes na reunião, alguns detalhes
sobre que tipo de parede se poderia derrubar, onde estavam as vigas
de sustentação etc., coisas sobre as quais estas pessoas não tinham
muita idéia.
Surpreso, R se dá conta de que aprendeu a ter paciência para ensinar,
e toma gosto. Quer continuar em campo. Começa a se lembrar
de outras coisas que sabe fazer. Lembra-se do tempo em que aprendeu
a fazer tapetes com trapos. Constrói uma espécie de tear rústico,
57 O que se segue são apenas alguns fragmentos de uma pequena experiência, feita
no Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira, em Sousas, subdistrito de Campinas.
Aqueles que tiverem interesse em conhecê-la mais de perto, poderão obter informações
no Cândido Ferreira, onde há um vídeo, bastante informal, sobre o
surgimento desta experiência.
170 O CLUBE DOS SABERES
com uma tábua e alguns pregos, ensaia suas jogadas e começa a ensinálas
a outros companheiros, fazendo outros conhecimentos.
R e L, juntamente com H, um outro paciente, que também sabem
ler e escrever, começam a aprender a usar o computador com o
auxílio de uma funcionária do hospital. H desiste no meio do caminho,
mas R e L continuam.
L, por sua vez, afirma que sabe fazer bolinhos de arroz. O grupo
combina o dia e a hora e prepara o material. L está particularmente
agitado no dia do encontro, na cozinha do hospital. As pessoas chegam
a pensar que o encontro não será possível, pois L não se acalma!
Pensam em adiar o encontro, mas decidem conversar com ele.
L, num senta-levanta, num anda para lá e para cá, diz, entre gracejos
e risos, que poderá fazer os bolinhos, contanto que R fale por
ele na hora da explicação. O grupo decide dar um crédito (pático?),
embora vacilante, e opta por prosseguir.
L faz os seus bolinhos, explicando passo-a-passo, do seu jeito,
como se deve fazê-los, sem recorrer a R para falar por ele. M parece
não acompanhar a aula de L; embora presente, parece ausente, perdida
não se sabe onde; no entanto ela participa, embora sem falar,
na hora de saborearem os bolinhos, a obra de L!
R, em um dado momento, chega até a ensinar a algumas crianças
de uma escola próxima a fazerem objetos com papel de jornal, habilidade
aprendida com uma voluntária. As crianças, ao aprenderem
a confeccionar os objetos, decidem fazer um objeto-presente e
o ofertam a R.
Durante uma feira de saberes, onde pacientes e membros do pessoal
se empenham em compartilhar saberes com os interessados, lá
está L, fazendo os seus bolinhos de arroz, ofertando explicações e
os próprios bolinhos. Pode-se também ver M, por ali, no meio de
todos, ainda calada, parecendo perdida, mas ela está ali!
São algumas poucas atividades que se desenrolam, mas são vários
os acontecimentos que surgem nestes primeiros tateamentos.
As pessoas começam a aparecer, curiosas, na pequena salinha vaga,
agora sede do clube. Algumas se engajam nas atividades, seja como
O CLUBE DOS SABERES 171
ofertantes, seja como demandantes de saberes. Alguns ajudam, além
disso, a criar mais condições para que outros possam aproximar-se e
participar dessas atividades, ou mesmo criar outras. Alguns vêm e
se vão sem se envolverem, outros ficam e participam.
Pesquisa, formação e. . . tratamento
Aprendemos mais alguma coisa com as nossas experiências, e
gostaríamos de trazê-las rapidamente.
O Clube dos Saberes, pode ser uma oportunidade para se explorar
a tríade fundamental na qual se deveria apoiar o equipamento
de saúde mental, tal como indicada por Simon, a saber, o tratamento,
a pesquisa e a formação.
Haveria, no entanto, uma diferença significativa. Esta tríade não
ficaria restrita a um caráter oficial, em que as tarefas da formação, da
pesquisa e do tratamento ficariam limitadas à alçada do pessoal de
tratamento. Essas tarefas seriam de todos.
Ao ensinar, ao transmitir um saber a um outro, ou a outros, toda
uma série de processos poderá aí ocorrer, tanto do lado daquele que
ensina, quanto daquele que aprende. Se apenas considerarmos a
necessidade de uma mínima qualidade de presença na relação entre
as pessoas envolvidas, um mínimo de cuidado com o outro, para
que possa acontecer um processo de transmissão, de aprendizagem,
ou melhor, de ensinagem, algo importante pode aí ocorrer.
Já abordamos os diferentes elementos que incidem no processo
de comunicação e nas modificações dos esquemas referenciais, isto
é, no “conjunto de experiências, conhecimentos e afetos” (Pichon-
Rivière) de cada um e do conjunto dos participantes. Nesta rede de
compartilhamentos, verdadeiro processo de formação, cada um estaria
igualmente excercendo um papel de agente de mudança. Cada
um, seja ele membro do pessoal ou um paciente, estaria, operativamente,
responsabilizando-se, tomando para si um «coeficiente psicoterápico
»,58 à sua maneira.
58 Cf. p. 39, acima.
172 O CLUBE DOS SABERES
Guattari (2001, p. 20), falando sobre a genealogia de Foucault,
diz algo que podemos, talvez, tomar de empréstimo, à nossa maneira,
neste momento. Para ele, um grande interesse da genealogia é
que “ela não fazia exatamente a história, mas retomava elementos
de arquivos, elementos do passado para recompor alguma coisa que
nos lançava, literalmente, sobre as situações atuais”.
Pois bem, vejo a pesquisa possibilitada pelo Clube dos Saberes,
não como uma pesquisa do tipo tradicional, mas uma pesquisa como
indagação sobre si, sobre o outro e sobre o próprio coletivo, num
contínuo processo mutualizante do aprender a estar aí, no mundo,
qualquer que seja ele. Uma pesquisa-indagação, não como uma retomada
do passado, num trabalho típico de cura, mas como um trabalho
onde cada um pode ter mais uma oportunidade de recuperar
o seu papel operativo. Uma pesquisa como uma retomada de si, e
um possível reposicionamento já, no aqui e agora, e não no lá e então,
seja este passado ou futuro

O texto é de ARTHUR HYPOLITO DE MOURA no seu livro A PSICOTERAPIA INSTITUCIONAL E O CLUBE DOS SABERES .

 

O gerânio vermelho e o divino resedá – D. H. Lawrence

Imaginar que alguma mente tenha alguma vez pensado um gerânio vermelho! Como se o vermelho de um gerânio vermelho pudesse ser outra coisa que não uma experiência sensual
e como se a experiência sensual pudesse vir antes dos sentidos.
Sabemos que nem Deus podia ter imaginado o vermelho de um gerânio vermelho nem o perfume do resedá
Quando ainda não havia gerânio nem resedá.
E mesmo depois, quando já havia, até Deus tinha que ter um nariz pra cheirar o resedá.
Não dá pra imaginar o Espírito Santo aspirando o violácio heliotrópio.
Ou o Supremo Ser, na era do carvão, quebrando sua potente cabeça, se tivesse alguma, pondo-a a trabalhar,
em meio ao musgo e à lama de lagartos e mastodontes,
para sair-se, no abstrato, quando tudo era verde crepuscular e pantanoso, com o pensamento:
“Agora teremos, tam-tam-tam-tam,
voilà, presto!: gerânio escarlate!”
Sabemos que não daria certo.
Mas imagine-se Deus, em meio ao lodo e aos mastodontes,
No profundo verde-escuro daquela confusão toda,
suspirando, ai!, cheio de desejo, de um enorme e criativo desejo,
pela existência de mais uma beleza, e outra mais,
até que elas acabassem por desabrochar: o gerânio vermelho e o resedá

O jogo do mundo mudou

O jogo do mundo mudou singularmente, pois deveio o jogo que diverge. Os seres estão esquartejados, mantidos abertos pelas séries divergentes e pelos conjuntos incompossíveis que os arrastam para fora, em vez de se fecharem sobre o mundo compossível e convergente que eles exprimem de dentro. É, sobretudo, um mundo de capturas, mais do que de clausuras

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Alegre mensagem – pensamento é uma agressão

Há sempre algum outro sopro no meu, algum outro pensamento no meu, outra posse no que possuo, mil coisas e mil seres implicados nas minhas complicações: todo verdadeiro pensamento é uma agressão. Não se trata de influências que sofremos, mas de insuflações, flutuações que somos, com as quais nos confundimos. Que tudo seja tão “complicado”, que Eu seja outro, que algo de outro pense em nós numa agressão que é a do pensamento, numa multiplicação que é a do corpo, numa violência que é a da linguagem, é esta a alegre mensagem”

LÓGICA DA SENSAÇÃO