História e desnaturalização do amor e do desejo como falta: Platão, Shopenhauer e Nietzsche.Nada falta ao desejo, não lhe falta o seu objeto. É o sujeito, sobretudo, que falta ao desejo, ou é ao desejo que falta sujeito fixo (…) A falta não é constitutiva. A falta é produzida. O desejo é positivo e não negativo (falta). O desejo tem a ver com a potência, com a produção com a criação, com a conexão. Percurso que começa em Platão (emergência do negativo) vai a Schopenhauer (radicaliza o negativo) e termina em Nietzsche lendo tudo isso de outra maneira.

Abaixo transcrição de texto gravado.

Platão que é do séc. IV a.C., ou seja, 2500 anos atrás, Platão para quem não sabe foi discípulo de Sócrates, Sócrates falava e Platão de algum jeito transcrevia. E Platão teve esta generosidade de deixar pôr escrito os diálogos de Sócrates. Então quando eu falar de Sócrates ou de Platão é a mesma coisa, porque um falou e o outro escreveu, mas é num certo sentido para nós aqui um mesmo personagem. E o diálogo que me interessa é um diálogo Socrático de Sócrates, chama-se: O Banquete que alguns de vocês certamente já tiveram a curiosidade de freqüentar. Eu vou situar brevemente este diálogo para a gente poder introduzir a questão, olha, eu estou falando de 2500 anos atrás mais eu estou falando de hoje, então não é história, não é arqueologia, depois até eu vou, no final, tentar mostrar o quanto eu estou falando de hoje.
Então a cena do Banquete é a seguinte: tem um jantar comemorativo na casa de um poeta que acaba de ganhar um prêmio num concurso de tragédias. É um jantar e neste jantar estão todos os convidados comemorando e eles resolvem instituir ali outro concurso no meio do jantar e então não é mais um concurso de tragédia mais sim um concurso de oratória, cada um deles então faria um discurso ao amor, quem fizer o discurso mais belo vencerá este concurso.
Um dos convivas presentes neste jantar conta tudo o que aconteceu neste banquete a outra pessoa (depois que ele já aconteceu), que conta a outra pessoa, um amigo, e este amigo depois de alguns dias conta o que ele ouviu a um grupo de amigos e isso que está transcrito no banquete é um relato indireto de terceira mão. Então nós não temos acesso diretamente ao banquete, mas ao relato que um amigo está fazendo a um grupo de amigos e neste relato ele conta os vários discursos feitos ao amor durante este jantar e que são em número de 7, eu vou falar só de 2 entre eles que a meu ver são os mais significativos para os meus propósitos aqui, um deles é de Aristófanes e o outro do próprio Sócrates.
Então Aristófanes é um autor de comédias e de sátiras políticas muito conhecido na época e o Aristófanes conta um mito ancestral para falar do amor, diz ele o seguinte: “No início havia três gêneros, um masculino, um feminino e um terceiro andrógeno, cada indivíduo, no início, era uma espécie de duplo, ou seja, ele tinha o dobro do nosso tamanho, ele era constituído como que pôr duas pessoas acopladas de costas, digamos que eu e Margarete fossemos, estivéssemos de costas assim e colássemos um ao outro, esse seria um indivíduo. Então o indivíduo masculino era constituído pôr duas partes masculinas, o feminino pôr duas partes femininas e o indivíduo andrógeno é constituído pôr metade masculina e metade feminina.
Então imaginem cada indivíduo com 4 pernas, 4 mãos, 4 olhos, 4 orelhas, 2 bocas, etc. E também com 2 sexos, obviamente e esses indivíduos eram muito grandes e muito fortes, e diz Aristófanes – aqui eu vou ler um trechinho só para vocês sentirem um pouquinho a sonoridade mítica do texto: “…E quanto ao seu andar era também ereto como é agora em qualquer das duas direções que quisesse, mais quando se lançavam a uma rápida corrida como os que cambalhotando e virando as pernas para cima, fazem uma roda, do mesmo modo apoiando-se nos seus 8 membros de então, rapidamente eles se locomoviam em círculo eram pôr conseguinte de uma força e um vigor terríveis e uma grande presunção eles tinham”. E então vocês imaginem 2 palhaços que se juntam pelas costas e vão girando, eles tem uma mobilidade muito grande porque eles podem virar de qualquer lado, é uma roda, e diz Aristófanes, que se atribuía a estes indivíduos tamanha presunção que eles tentaram fazer uma escalada ao céu, e obviamente isso encheu os deuses de ira,então depois de muita reflexão Zeus que é o rei dos deuses resolve o seguinte, tendo em vista a presunção destes seres que querem subir aos céus diz ele e ai também eu leio um trechinho: “Acho que tenho um meio de fazer com que os homens possam existir, mas parem com a intemperança, tornando-os mais fracos, agora EU (Zeus) os cortarei a cada um em dois, ao mesmo tempo eles serão mais fracos e também mais úteis para nós pelo fato de terem se tornado mais numerosos e eles andarão eretos sobre 2 pernas e se aí, ainda pensarem em arrogância e não quiserem acomodar-se de novo eu os cortarei em 2 e assim sobre uma perna só eles andarão saltitando”. Olha que ameaça terrível transformar todo mundo em Saci-pererê para não terem a presunção de quererem tomar de assalto o céu que é domínio exclusivo dos deuses. E Aristófanes continua o seu relato dizendo que a cada um que Zeus cortava ele mandava Apolo (que é outro deus) voltar-lhe o rosto e a banda do pescoço para o lado do corte, afim de que contemplando a própria mutilação fosse mais moderado o homem. Apolo torcia-lhes o rosto, é como se no começo, digamos o indivíduo seria 2 acoplados 1 de costas para o outro, mais com a cabeça virada para o lado, então cortou ali, é um pouco tem de imaginar que a cabeça vira para o lado do corte, então nem é de costas na verdade seria de frente e diz Aristófanes que virando a cabeça para o corte cada um se tornaria mais moderado e Apolo repuxaria a pele de todos os lados no corte pra que o que agora se chama “ventre” ali se faça uma amarração da pele como se fosse uma trouxa e nesta ligação da pele toda cortada que se amarra surge o umbigo. Ele dá uns outros exemplos um pouco mais macabros de como Apolo lixou o peito de cada um, que estava em carne viva, como faz um sapateiro, etc. Muitos exemplos curiosos um pouco anedóticos, mais o que me interessa deste mito do Aristófanes é o desfecho. Diz Aristófanes, por conseguinte, desde que a nossa natureza se mutilou por 2, ansiava por sua própria metade e a ela se unia envolvendo-se com as mãos e enlaçando-se um ao outro num ardor de se confundirem, morriam de fome e de inércia, em geral, por nada quererem fazer longe um do outro. Então vocês vejam que é uma espécie de teoria sobre a fusão e seus efeitos mortíferos, corta-se um ser em 2 e cada metade anseia por inatividade. E ai é que Zeus tomado de compaixão por esse destino dessa espécie que iria fatalmente acabar, resolve então mudar o sexo deles para frente (até então tinham o sexo virado pro lado) e aí eles se reproduziriam um ao outro quando se juntassem. E não mais como faziam os seres anteriores, aqueles outros redondos e duplos que tinham uma relação erótica com a terra e não entre si. Tem um livro para quem…
…A antiga natureza una, o amor é a tentativa de reencontrar o complemento perdido, o amor é a tentava de curar a ferida do corte, curar a ferida do corte. Nisso consiste o amor, nesta procurar pela restituição de uma inteireza originária, de uma completude, o que moveria os seres segundo Aristófanes seria esta busca de um estado primitivo. Esta nostalgia pela integridade primeira, esta saudade daquela unidade originária daquela totalidade que foi rompida, o mito é tanto mais curioso quanto nós, por mais que o achamos meio grotescos nós de alguma maneira nos reconhecemos plenamente nele, vejam o amor instaurando a partir do corte, ao mesmo tempo o amor, uma nostalgia dessa inteireza primeira, mas também a impossibilidade dessa restauração integral, essa incompletude constitutiva, quem não sente a que ponto nossas teorias modernas sobre o desejo giram entorno desta temática, o corte, a nostalgia pela integridade a impossibilidade de restaurar essa inteireza primeira, a incompletude constitutiva, são definições completamente contemporâneas sobre o desejo, são elementos que queiramos ou não compõe o nosso imaginário do desejo.
Tem um outro elemento nesse mito que me interessa muito, esse de que esta tal completude originária dos seres duplos geravam uma grande força, isso está no texto do Aristófanes, né? Eles eram muito fortes, eles tinham uma potência extraordinária, eles tinham uma arrogância até, uma soberbia, uma presunção que culminou na tentativa desses seres, de tomarem de assalto o próprio céu. Olha só, é diante dessa força, dessa potência e dessa presunção que a estratégia de Zeus é extraordinariamente simples: enfraquecer os insurretos humanos, quebrar-lhes o orgulho, olha só vou até carregar nas tintas: o propósito de Zeus é tornar os humanos impotentes, feridos, mutilados, doentios, cada um carregando a sua ferida, torná-los carentes (cada um carente de sua metade), e nada melhor do que o desejo para realizar tal projeto; Zeus instaurou ai um corte que deu lugar a este desejo e que torna os humanos fracos, então vocês vejam que curioso isso mereceria uma reflexão muito mais detida, eu vou passar aqui supersonicamente sobre este tema, mais vocês vejam que tem aqui articulada uma certa idéia sobre a fraqueza política que Zeus quer introduzir nos homens, uma fraqueza política, uma idéia sobre a incompletude do homem, essa incompletude intrínseca ao desejo e em suma uma relação entre desejo e docilidade, porque o desejo é uma incompletude e a incompletude é uma fraqueza por que torna os homens mais servis e mais enfraquecidos. Então eu não quero forçar muito este texto do Banquete para além da conta, embora eu não tenha nada contra usar mitos e viajar através deles para poder pensar, mas é evidente que tenha aqui um misto de uma determinação política por parte dos deuses, de prolongarem sua dominação sobre os homens e ao mesmo tempo de produzir nos humanos uma insuficiência, uma fraqueza, uma debilidade chamada desejo.
Disso nós poderíamos ao menos extrair uma lição muito geral que nós aprendemos também com Michel Foucault, que o poder nos quer fracos, já não estou mais falando de Zeus, é de hoje, o poder nos quer fracos, impotentes, doentios, o poder nos que insuficientes, incompletos, inquietos com esta incompletude e esta estratégia do poder passa pelo desejo. O poder nos quer fracos e usa o desejo para conseguir esta impotência. O que eu quero dizer com este mito do Aristófanes é que nele fica claro a que ponto a fundação do desejo e a constituição de uma insuficiência vão de par com a manutenção de um poderio. Em outras palavras para ser muito mais simples eu diria: a questão do desejo e a questão do poder são indissociáveis, este mito mostra isso 2500 anos antes de Foucault ter formulado isso ao seu modo de que a questão do desejo e a questão do poder são indissociáveis.
Aí acabou esse discurso de Aristófanes que é divertido que é estranho e entra o de Sócrates, vocês vão ver o que é que ele aporta de novo ou de diferente disso que nós vimos com Aristófanes. Não é bem um discurso que Sócrates faz na sua maneira, ele faz assim um diálogo, para quem já leu um diálogo Socrático, é um gênero muito curioso, ele vai fazendo perguntas a um interlocutor e ele extrai desse interlocutor uma espécie de sabedoria, de revelação, ou pôr exemplo ele pergunta ao interlocutor o que você acha que é a justiça, e aí o interlocutor vai falando e Sócrates vai mostrando como tudo o que ele diz entra em contradição com ele mesmo, o cara começa a fazer um discurso pomposo e Sócrates vai minando esse discurso pomposo, Sócrates finge uma espécie de ignorância de não saber e devagarzinho vai levando o interlocutor a um beco sem saída a um impasse até desmontá-lo inteiramente e faze-lo ver a que ponto ele não dizia coisa com coisa. Então tem em Sócrates uma fineza, uma ironia e ao mesmo tempo um rigor, mais tudo assim num zig-zag curioso em que ele vira e mexe interrompe o raciocínio para introduzir um mito que vai ilustrar e fazer saltar o pensamento para outro nível e isso eu vou ter que mostrar um pouquinho agora, não é difícil é mais estranho para nós, mais tem sempre um frescor impressionante, então no caso do “Banquete” o interlocutor de Sócrates é Agatão, é Agatão que veio antes dele com seu discurso e a quem Sócrates vai fazendo pergunta do seu estilo tão inconfundível onde cada pergunta já é um filete cortante.
Para Sócrates saber qualquer coisa é saber definir esta coisa. Quem não sabe definir, fala sem saber, não sabe o que fala, não diz coisa com coisa e acaba discordando de si mesmo e dos demais e definir uma coisa é atingir a sua essência. Então ao invés de Sócrates arranjar argumentos sobre o amor ou de florear os méritos ou as características do amor o que importa a ele é definir o amor, examinar a sua essência a sua natureza para depois verificar os seus efeitos.
Olha só a perguntinha que faz Sócrates para Agatão
– O amor é amor de nada ou amor de algo? (repete)
E Agatão responde:
– É amor de algo.
Eu vou deformar um pouquinho as frases do diálogo para ficarem um pouco mais simples, assim numa disposição oral. E Sócrates pergunta então:
– E o amor deseja e ama quando ele tem isto que ele deseja e ama ou quando ele não o tem? (repete)
Agatão responde:
– Quando não o tem.
Então olha só são duas frases, Sócrates é terrível, terrível, com 2 frases olha só o que ele montou: “O amor é amor de alguma coisa, (parece truísmo, isso totalmente óbvio), o amor só existe em relação a alguma coisa que está fora de si, coisa esta que o amor não possui”. Aí Sócrates arremata (aí já é ele que fala) e essa frase marcou o Ocidente inteiro até os nossos dias: “Quem deseja, deseja aquilo de que é carente” (repete). Sendo que não deseja se não é carente, Sócrates então introduziu aqui a noção de objeto da relação intrínseca do desejo com o seu objeto, com algo que está fora daquele que deseja. Mas, pondera Sócrates, acontece de se desejar aquilo que já se tem. Por exemplo: digamos que eu amo Teresa e eu tenho Teresa, como pode ser então que eu desejo aquilo que eu já possuo? Neste caso diz Sócrates: “O que se deseja é simplesmente prolongar no futuro isso que se tem hoje”.
Amar então seria neste caso querer o que se tem agora também no futuro. Querer que no futuro se conserve isso que se tem no presente e então Sócrates resume ao definir este tipo que tem o que deseja -é o sujeito que tem o que deseja- e no entanto continua desejando diz ele: “Este então como qualquer outro que deseja, deseja o que não está a mão nem consigo”. O que é que não está à mão nem consigo? O futuro. Ele deseja o futuro, se eu tenho Teresa e a desejo eu a desejo no futuro, o futuro dela eu não tenho, eu tenho ela no presente. Desejo então este desejo, esse então como qualquer outro que deseja, desejo o que não está à mão e nem consigo, o que ele não tem que é o futuro, o que não é ele próprio e o de que é carente. Tais são mais ou menos as coisas de que há desejo e amor, mais uma dificuldade se impõe – eu vou pular esta dificuldade, não é muito substantiva, para gente tornar claro o que esta idéia essencial do Sócrates. Olha só, o que Sócrates fez foi definir o amor e ele o definiu da maneira mais simples e cortante: “O amor é pôr natureza carência, carência de um objeto, objeto que viria suprir esta carência”. No entanto nós vimos agorinha que é impossível. Essa carência não pode ser sustada nem preenchida, visto que no mesmo quando se tem o que se quer não se o tem para sempre porque não se tem o futuro de modo que o amor segundo Sócrates é sempre escavado por uma certa falta de ser objeto ou pela falta desse objeto no futuro. Vocês percebem que nós não saímos da lógica anterior do discurso do Aristófanes simplesmente Sócrates dá a ela uma definição mais rigorosa, a saber, a lógica da incompletude. E Sócrates nesse momento do diálogo introduz mais um personagem é aí que ele faz um pequeno desvio para contar uma estória meio mítica sobre uma tal de Diotima que era uma parteira e que ela era muito entendida de assuntos do amor e tudo o que ele sabe sobre o amor ele aprendeu dela e Diotima, essa parteira que ele conheceu a muito tempo atrás, Diotima contou para ele qual era a proveniência do amor, como nasceu o amor.
Eros é um deus. Como nasceu o amor, ele nasceu da seguinte maneira: “Um belo dia teve uma festa na casa de Afrodite que é a deusa da beleza, aliais foi no nascimento de Afrodite que se fez uma festa, os deuses fizeram um banquete para comemorar o nascimento da deusa da beleza: Afrodite e tinha nesta feita um sujeito, um deus chamado Poros que a gente pode traduzir pôr esperteza, astúcia ou recurso ou experiente, vamos ficar com esperteza. Então estão lá os deuses no banquete, está a Esperteza comemorando e depois do jantar aparece na soleira da porta um mendigo chamado Pênia pobreza e que aliais é uma indigente ela fica ali plantada na porta, o Esperto o Esperteza vamos chamar de espertinho, está ali embriagado com o néctar e pelo visto ele não ficou muito esperto porque pobreza o atacou e fez com ele um filho no terraço. Então o filho de pobreza com esperteza chamou-se “Eros”. Como isso se deu na festa de Afrodite que é a deusa da beleza, daí a relação de Eros – amor com a beleza. Mais o que me interessa sobre tudo é que o amor é filho de pobreza Pênia.
O amor é sempre pobre, em que sentido ele sempre é um mendigo e um indigente como esta Pênia que era uma indigente na festa, ele é sempre carente, isso pelo lado da mãe, pelo lado do pai ele é espertinho, ele é insidioso, ele é maquinador, cheio de estratagemas, recursos, mais logo em seguida ele perde tudo e de novo ele está na indigência e ele oscila entre a abundância e a pobreza. Bom tudo isso tem muito desdobramento, eu não vou expor aqui o desdobramento platônico, que é mais complexo, e que tem mais haver com a filosofia. O que me interessa aqui é esta idéia de que o amor busca algo de que ele carece, o amor então ele mesmo já não é um deus, ele já não é auto-suficiente mais ele também não é um mortal, ele é filho de uma mortal com um deus, se ele não é um deus ele é esse intermediário entre deuses e homens que serve para transmitir aos homens o que vem dos deuses e para transmitir aos deuses o que vem dos homens. O amor tem uma função de complementação entre a terra e o céu, entre os homens e os deuses, entre aquilo que se separou.
Bom com os elementos colhidos até agora nós já podemos ao menos amarar algumas pequenas coisa: o amor busca algo que ele não tem, o amor busca algo que ele carece, o amor busca algo que está fora dele, o amor busca algo que o preencha, o amor busca algo que o preencha sempre, e lembra a estória de querer o futuro, o amor busca então algo que seja perene, eterno, imortal…
FITA 2 – LADO A

…como incompletude, como precariedade pôr um lado, por outro o desejo como essa aspiração ao divino, ao eterno, ao imortal. Em termos menos gregos e mais modernos eu diria há aí uma relação em que a imortalidade almejada no objeto compense a mortalidade do sujeito percebem a imortalidade que se espera que o objeto possa dar sempre compensa a mortalidade do próprio sujeito, percebem, a mortalidade que se espera que o objeto possa dar sempre compensa a mortalidade do próprio sujeito. A eternidade que o objeto lhe promete deve compensar a minha precariedade, a perfeição do objeto deve compensar a minha imperfeição. O divino do objeto deve compensar a minha condição humana. O que é que me interessa nesses pares, da perfeição, imperfeição, eternidade, mortalidade, completude, incompletude, o que me interessa é esta dialética da dependência, eu dependente disso que eu almejo, eu dependente desse preenchimento, eu dependente desta compensação que o objeto pode me oferecer em relação as minhas insuficiências, carências, precariedades, etc. É essa dinâmica que eu chamaria de religiosa, essa dependência e essa promessa que o objeto me oferece e a minha vida em função desta dependência e desta promessa é uma estrutura religiosa, então é aí que eu vejo nesta dinâmica religiosa e que alguns dizem que constituem um componente do psiquismo humano, essa dialética dizem que o psiquismo humano é isso mais valeria a pena pensar que esta dialética, esta forma que tomou o desejo é um forma histórica que assumiu o amor, ou melhor, é uma concepção do amor que surgiu lá entre os gregos que marcou a história do ocidente, mais é uma concepção do amor, não necessariamente a única. Pra Platão isso tudo não é nenhum problema essa polaridade, imperfeição, perfeição, precariedade, perenidade, incompletude, completude, isso tudo para Platão não é problema porque para ele isso apenas serve como uma espécie de propulsor que eleva os homens a uma esfera inteligível em que eles contemplam a idéia e isso só estimula a conversão para a filosofia onde pela filosofia nós sim poderíamos encontrar estabilidade, inteireza, perenidade que a nossa condição mortal nos nega. Para as religiões tampouco há aí qualquer problema, por quê? Porque essa polaridade entre a nossa finitude e a infinitude de Deus para as religiões essa polaridade entre a nossa finitude e a infinitude de Deus, ela apenas garante o nosso desejo de Deus, as religiões reafirmam essa polaridade, porque isso garante o nosso anseio pôr Deus então o problema é quando já não se trata das idéias de Platão ou quando já não se trata do Deus das religiões, o problema é quando nós evacuamos esta paisagem Socrática ou cristã e quando nós admitimos que afinal fomos reconduzidos a esfera das coisas terrenas, o problema então é quando nós não falamos nem de alma, nem de Deus e nem do mundo das idéias percebem? No entanto quando nós não falamos nem de alma, nem de Deus e nem do mundo das idéias porque nós somos moderninhos, no entanto nós continuamos funcionando com a mesma matriz de um desejo concebido como carência, como dependência, como insuficiência de ser, desejo como insuficiência de ser, desejo como incompletude, desejo como nostalgia pôr uma inteireza perdida e o objeto continua a ser concebido como promessa de completude que vem de fora como uma miragem de preenchimento que supriria a minha falta. É dessa matriz que eu estou falando. Essa matriz atravessou os tempos, nós deixamos cair o mundo das idéias, deixamos cair Deus, deixamos cair a própria idéia de alma, no entanto conservamos a matriz o modo de funcionamento, é uma matriz que nós podemos batizar de Transcendente, em que sentido transcendente? Algo que vem de fora que vem de cima e que vai suprir a minha falta, eu repito essa matriz transcendente diz respeito a alguma coisa que vem de fora que vem de cima ela me transcende assim-é um uso restrito, transcendente poderia ter outros aí de sentidos também, mais é que eu estou usando para isso – algo que está fora ou acima e que vai suprir a minha falta, essa matriz está inteiramente intocada ela permeia nossos discursos e nossa vivência do desejo. Agora claro nós somos mais sofisticados, nos já não acreditamos neste objeto salvador, tal como fazia Platão pôr exemplo ao propor a contemplação das idéias e da beleza em si. Nós não acreditamos mais neste objeto que viria nos salvar. Eu diria que nós somos até mais tristes, por quê? Porque nós fazemos da resignação a esta carência uma nova religiosidade. Eu vou explicitar um pouquinho: eu disse o desejo foi definido como carência, então neste sentido essa carência sempre anseia pôr uma completude e esse anseio é religioso na sua matriz, mais eu disse também que agora nós somos mais sofisticados do que isso que nós já não acreditamos que algum objeto qualquer possa suprir nossa carência nem Deus nem o outro, etc.; Então nós incorporamos a resignação sobre esta impossibilidade e fizemos da resignação uma nova religiosidade, a religiosidade não é só o anseio pôr uma completude mais e mais sofisticadamente a resignação da impossibilidade de superar esta incompletude, então o que eu queria mostrar é que isso não muda nada essa sofisticação nova não muda ela apenas produz nesta matriz da transcendência uma dobra suplementar que interioriza ainda mais esta matriz, porquê? Porque interioriza, porque o desejo passa a ser visto não mais como uma carência a ser suprida mais como uma carência a ser interiorizada, como uma carência a ser assumida, não sei se fica claro este ponto que já fica mais sofisticado, nosso desejo sofreu esta transformação curiosa e que não é mais visto como uma carência a ser suprida mais como uma carência a ser assumida, interiorizada, é uma religiosidade ainda maior porquê? Porque nós continuamos com isso na mesma concepção do desejo como indigência, como mendicância com toda a lamúria que decorre daí, é uma concepção lamurienta do desejo, chorosa, chorona e se isso não fosse suficientemente entristecedor é preciso lembrar que a carência, a lamúria são o terreno mais fértil para os sacerdotes exercerem o seu poder, a carência e a lamúria são o terreno mais fértil para os sacerdotes. O sacerdote precisa da lamúria, ele cultiva a lamúria alheia, ele aprofunda esta lamúria. Veja todas as igrejas concretas, os reinos universais, as igrejas universais do reino de Deus, etc. Eles cultivam a lamúria, aprofundam a lamúria, é aí que eles são chamados para aliviar a dor eles aliviam, porém, intensificam a dor, eles intensificam, porém, aliviam, vivem disso é esse o comércio deles. Mais eu estou falando não dos padres agora, para a gente ampliar a visão de sacerdócio do meio psi, temos muitos sacerdotes, muitíssimos sacerdotes.
A transcendência, essa matriz que eu estou tentando mostrar, a matriz transcendência e sacerdócio vão junto e quando o desejo se desdobra sob o signo da transcendência e do sacerdócio ele vira uma paixão triste, ele vira uma impotência. Quem melhor analisou esta dialética da transcendência e essa tática do sacerdote, essa de produzir carência olha só o que eu estou falando: “produzir carência” e explorá-la em proveito próprio, quem melhor analisou isso foi Nietzsche. Então eu diria para concluir esta conversa: todo o discurso sobre a carência, o desejo como carência, todo o discurso da carência é o pântano onde vicejam os sacerdócios, já não é Zeus são os nossos sacerdotes e esse pântano onde vicejam os sacerdotes é um pântano que o poder cultiva e que ele explora, é onde ele deita suas raízes pôr isso que eu mostrei lá atrás a relação de Zeus com a instauração da carência. Então para poder livrar o desejo da garra do sacerdote para poder livrá-lo, livrar o desejo dessa marca da carência é preciso operar uma conversão e esta conversão consiste em desvincular o desejo da impotência, desvincular o desejo da idéia de carência, idéia essa que foi definida já pôr Sócrates há 2500 anos e essa conversão consiste não só em desvincular o desejo da impotência e da idéia de carência, mas também conectar o desejo com a idéia não de impotência mais sim de potência desejo, como potência não como impotência.
Antes de iniciar Nietzsche, eu preciso falar de outro autor que é Schopenhauer. Eu vou falar um pouco dele. Se eu tivesse uma lousa aqui eu escreveria como é Schopenhauer.
Schopenhauer é um filósofo alemão do século passado. Este filósofo disse uma coisa muito surpreendente. Ele disse que a Essência do mundo é a vontade, ou seja, a essência de tudo e qualquer coisa, é o que a gente também poderia chamar, com outro termo, o “querer”. Pôr exemplo: Eu. Através do meu corpo, diz Schopenhauer. Sinto que há em mim, um querer que me impele. Me impele para n coisas. Me impele para comer, para falar, me impele para amar, etc.,. O querer, diz Schopenhauer, domina todas as demais funções. É o querer que faz o meu corpo tender para as coisas.
Então, eu vou adiantando quando eu digo Vontade ou, quando, eu digo Querer. Poderíamos entender de uma maneira mais moderna, Desejo. Então, Schopenhauer, está dizendo que o Desejo é a essência do mundo. E todos os seres, diz Schopenhauer, de alguma maneira participam de um mesmo e único e universal Querer. Isso significa que existiria entre nós todos, uma identidade de fundo. Uma espécie de união indissolúvel, que liga cada um de nós a esse Querer Universal. Então, para Schopenhauer, existe um único Querer. E todos nós somos que encarnações individualizadas deste Querer Universal, desta Vontade Universal ou desse Desejo Universal. Então, se por um lado, nós vemos pessoas muito diferentes, corpos muito distintos tendendo para coisas muito diferenciadas, Schopenhauer, diz que isso é um pouco uma ilusão. Porque todos nós somos parte de um único querer que pulsa uniformemente. É uma idéia um pouco brâmane oriental que diz, o mundo é uma espécie de ilusão. Porque nós vemos muitos seres. No entanto, isso, é uma espécie de véu de maia. Se a gente rasga o véu a gente vê que todos somos um único ser. E para Schopenhauer é isso. Todos somos um único querer, uma única vontade. O que interessa nessa idéia de Schopenhauer é que, nós, somos a expressão deste querer e a questão é o que quer este querer, que quer através de nós. Nós queremos o tempo todo. Querendo uma idéia… Um café, etc. Querer todos queremos o tempo todo. E a questão é para Schopenhauer, por exemplo, é uma prova de que nós somos expressão de um querer incessante. E o que é que nós queremos, ou melhor, o que é que o querer quer? Nós temos objetivos precisos, mas, o que é que no fundo o querer quer, quando ele quer? Já que ele quer o tempo todo. E Schopenhauer vai dar uma resposta absolutamente espantosa. Ele vai dizer: “O querer quer querer”. Claro, ele usa pequenos objetivos, eu quero agora um cigarro depois eu quero outra coisa. O fato é que eu vou mudando de objeto, porque no fundo o que eu quero é querer. O que o querer visa é a própria repetição de si mesmo. Então, percebe-se aí, uma idéia um tanto absurda… O querer não tem causa e o querer não tem finalidade. Não é que eu quero porque alguém disse. Não. E não é que eu quero para. Não. Eu quero! Eu quero querer. Então, o querer não tem causa nem finalidade e também não tem limite. O querer é insaciável. Ele nunca descansa. Por mais que ele atinja o seu objetivo manifesto ele nunca está satisfeito. Eu quero uma coisa, logo que eu atinjo essa coisa eu quero uma outra coisa e logo que eu atinjo esta outra, eu quero uma terceira. E assim, sucessivamente. Segundo Schopenhauer, o homem só faz passar de uma insatisfação para outra. Ele passa de uma inquietude de não ter o que ele quer ainda, para logo tendo o que ele quer sofrer uma insatisfação de tédio e logo em seguida então, ele passa a querer outra coisa. Então, de novo, vem a insatisfação de ainda não ter o que se quer. E aí, ele consegue o que ele quer e novamente vem o tédio. A idéia de Schopenhauer alucinante é, de que nós passamos constantemente da dor do desejo, porque dor, do que nós ainda não temos o que nós queremos, ao tédio, porque tédio nós já temos o que nós queremos. E nós oscilamos então, entre o desprazer daquilo que nos falta ao desprazer do fastio. E essa é a nossa roda de suplícios.
Então, nós vamos da falta ao tédio, do tédio a falta. E assim percebe que tem aqui em Schopenhauer, uma idéia de que o querer é absurdo. Porque ele nunca para, porque ele nunca se sacia. Ele nem mesmo tem objetivo, o objetivo dele é ele mesmo. Então, ele é absurdo. Esse querer não tem sentido. E nós que somos expressão desse querer, nós o tempo todo nos enganamos. Nós achamos que queremos alguma coisa pôr ela mesma. Mas, Schopenhauer diz, nós nos iludimos. Porque assim que nós atingimos essa coisa… Sem descanso, desfecho.
Maior exemplo para Schopenhauer é nossa vida sexual. Em que nós estaríamos tiranizados. Por um apetite incessante, repetitivo, que jamais descansa. Nós perseguimos um objeto, que logo em seguida nós nos cansamos dele e assim sucessivamente. E nisso nós só obedecemos a um decreto da espécie, que é reproduzir. Nós achamos que queremos, porque nós queremos alguma coisa. Mentira. Nós queremos porque o querer quer querer e, nós somos meros escravos do querer. É uma idéia do Schopenhauer muito pessimista e que identifica o querer com um eterno sofrimento. Como a espécie de lassidão. E aí toda a pergunta de Schopenhauer será a seguinte: como interromper este suplício do querer? Como agüentar esta vontade insaciável, como apaziguar este monstro, como liberar-se desse círculo infernal do querer? Eu obviamente não posso desenvolver a resposta que dá Schopenhauer a esta pergunta, que é muito complexa. Eu só vou dizer o que está na conclusão dele. O que tem como conclusão para Schopenhauer é um ideal de arquitetamento deste querer. Na verdade, Schopenhauer, está tentando sugerir um bálsamo para esse querer ou para essa vontade. E qual seria este bálsamo? Seria uma espécie de renúncia, de ascese. É um ideal um pouco nirvânico. Não querer para não sofrer. Um grau zero de querer para não ter tensão nenhuma. É uma concepção de felicidade. Felicidade seria o grau zero de tensão. Quando eu tenho alguma tensão, alguma inquietude, alguma vontade, já tenho sofrimento. Então, que estranho é o ideal do Schopenhauer … Querer o não querer. Não querer, querer. Renunciar o querer para não sofrer, com tudo aquilo que o querer implica de sofrimento.
Então… Olha a diferença com Platão. Em Platão, o desejo quer aquilo de que ele carece. E esse aquilo promete preencher esta lacuna. Esse objeto desejado promete completar aquele que deseja.
Então, tá aí uma definição de desejo. Desejo quer aquilo de que ele carece. Para Schopenhauer o querer nem mesmo visa a algum objeto a algum preenchimento. O querer é mais radicalmente ainda, ele é constitutivamente uma insaciabilidade irremissível porque o querer nem mesmo quer um objeto. Ele usa um objeto apenas para continuar querendo. Uma coisa é querer um objeto outra é, querer o querer e usar um objeto apenas para alimentar essa roda do querer, essa roda que gira pôr conta própria, num movimento frenético, porém, vazio.
Então, percebe-se em Schopenhauer, essa carência ou essa insaciabilidade é muito mais radical do que em Platão. Nem mesmo sobra um objeto que eu queira, é o querer como um movimento eterno, vazio e sem sentido. E daí, essa solução que dá Schopenhauer: Querer não querer ou não querer, para se libertar dessa tirania, desse despotismo do querer. Formulando modernamente, seria desejar o não desejo. Querer um nada de querer.
Então, nessa concepção do Schopenhauer, o querer já é um cansaço. Querer é um sofrimento que cansa. Tem um esgotamento suscitado dessa roda de querer que nos inferniza. E tem uma tentativa de buscar aquele nirvana que é como uma abolição de todo o querer. Eu diria é um nada de querer, é uma espécie de niilismo. Niilismo como um desejo de nada. E um niilismo do desejo. E uma espécie de suicídio do desejo.
Nietzsche leu Schopenhauer e leu muito profundamente. Qual o problema Nietzsche, com Schopenhauer é que Nietzsche não podia aceitar esse caráter sofredor, pessimista, negativista, suicidário da vontade. Ao invés então de discutir, se a vontade e ou querer, essa definição do Schopenhauer, Nietzsche, acabou entendendo essa teoria do Schopenhauer sobre a vontade como um sintoma. Essa vontade assim, concebida com absurda, como insaciável, como querendo sua própria anulação. Nietzsche viu aí, o sintoma de uma doença. Viu aí o sintoma de uma morbidez. Ele viu nisso uma espécie de fraqueza vital. Só uma vontade extenuada identifica querer e sofrer. Só uma vontade débil quer não querer, só uma vontade degradada na sua força, quer suicidar-se como vontade. Porque para Nietzsche, pôr definição, a vontade é outra coisa. A vontade não quer abolir-se. A vontade quer a potência e não o suicídio.
Daí vem esse conceito fundamental em Nietzsche que é a vontade de Potência. Esse é um conceito central em Nietzsche. Chamado a Vontade de Potência.
A vida diz Nietzsche, é vontade de potência. É uma definição. Mas se a vida é vontade de potência, como explicar que Schopenhauer quer o nada, como explicar que tantos querem não querer e é essa idéia do Nietzsche, de que essa é a doença da civilização Ocidental.
Um belo dia nossa cultura com uma vontade já muito enfraquecida resolveu reverenciar coisas que lá do alto lhe dessem sentido. Pôr exemplo Deus, Pôr exemplo a verdade, pôr exemplo as idéias, ou seja, num certo momento a vontade, a vida muito enfraquecida resolveu que ela mesma não tinha mais sentido. E que o sentido sempre lhe viria de alguma outra instância, superior e transcendente. E a partir deste momento a vida mesmo foi desvalorizada e foi privada do seu sentido. E aí então, uma vida fraca enfraquecida quer o mínimo de tensão.
Para Nietzsche, diferentemente de Schopenhauer, não existe uma vontade una da qual nós seríamos cada um expressão individualizada. Para Nietzsche o que existe são múltiplas forças em luta. Uma pluralidade. O mundo não é uma vontade, o mundo é uma pluralidade de forças em luta. E essas forças se juntam, se aglomeram, criam aglutinações de forças. Pôr exemplo: O meu corpo. O meu corpo é uma aglutinação de forças, é um agregado de força. E o meu corpo não é bonzinho, o meu corpo quer dominar aquilo que está a sua volta. Ele quer impor o seu domínio ao seu entorno. O meu corpo cria uma certa perspectiva do mundo, organiza esse mundo, em função da sua atividade, da sua força, da sua potência. Ele hierarquiza os seres de acordo com a sua perspectiva. Ele submete tudo o que está a sua volta, a sua vontade. E essa vontade, quer aumentar o seu poderio, a sua influência e a sua extensão. O mundo para Nietzsche é a uma pluralidade de forças em combate. E tem fundamentalmente, dois tipos de força para Nietzsche: Primeiro tipo de força quer apenas preservar o que tem. Manter a vida intacta. É um tipo de força conservadora. Essa força quer conservar o que tem. Todos nós temos esse traço; conservar o que nós temos. Nossas relações, nossas riquezas, nossas lembranças, nossos bens. Mas tem um outro tipo de força que é totalmente diferente. Não é uma força de conservação, esse outro tipo de força tem pôr objetivo, não conservar o que tem. Mas sim, ir além do que é. Superar-se. Superar-se a si mesma. Esse segundo tipo de força quer ampliar o que tem não conservar o que tem. Não conservar o que tem, ampliar o que tem. Ampliar a própria perspectiva. Experimentar a própria potência. Experimentar, ir além daquilo que atualmente, faz, pensa, e pode. É um tipo de força ativa. A característica dela é arriscar tudo. Característica da outra força é conservar tudo. Então, essa força que se arrisca, que vai além, ela não quer submeter-se a nada. É uma força mais agressiva, mais espontânea, mais conquistadora. O quê quer essa força? Esta força quer sempre novas direções. Esta força é uma força não de conservação, mas sim de metamorfose. Força de metamorfose é uma força plástica (plástica no sentido de mudança).Ela quer a mudança, ela quer a mudança e a transformação. É nisto que ela quer a mudança e a transformação. Ela se apropria de tudo o que pode a sua volta, com esse objetivo.
Se aquela primeira força quer conservar-se e manter tudo como está, esta força, quer criar. É uma força criadora. Esta força quer produzir. O quê? Novas direções, novos sentidos, novas conexões de vida, novos valores, novas percepções novas sensações, novas perspectivas de vida, novas conexões, novos sentimentos.
O modelo aqui para Nietzsche é o artista. O artista diante da sua matéria prima. Vocês imaginem um pintor, um escultor, o que ele faz com essa matéria prima? Ele domina essa matéria prima. Mas, em que sentido é dominar aí? É dar uma nova forma. Exemplo: se a matéria prima é a pedra – uma escultura, o que, que significa dominar a pedra? Não significa mandar nela, significa com ela construir uma nova forma, uma nova sensibilidade, uma nova percepção, uma nova perspectiva. Um artista se apropria da pedra, nesse sentido ele metamorfoseia a pedra. E, então, ele cria algo inédito. Isso que é a dominação. A força dominando o seu entorno. Percebe que dominação aqui, tem esse sentido plástico de metamorfose, o sentido em que um artista domina a sua matéria prima. Então, Nietzsche, vai dizer que a vida tem essa característica também, de uma força que se apropria do mundo para inventar novos sentidos e novas perspectivas e novas direções. Olha, claro que as primeiras forças, chamadas forças de conservação são muito importantes. Se a gente não conservasse o que a gente tem, seria muito difícil de inventar qualquer coisa. A gente precisa conservar o nosso corpo, a nossa memória. Então, as forças de conservação são como patamares de estabilização, necessários para a vida. Porém, se fosse só isso estaríamos fritos. Porque para Nietzsche, a vida também é isso, mas, também, aquela outra força. Força ativa, força inventiva e força criadora. Força de metamorfose cria novas formas. Então, para Nietzsche, potência é isto. Ser potente não quer dizer ser poderoso, mandar em alguém. Não. Ser potente significa ter a potência de criar. Não é ser poderoso acumular coisas. Acumular é força de conservação. Ser potente é ter potência de inventar. Olha, quando uma força inventiva irrompe no mundo. Pôr exemplo: Um artista faz uma obra que ninguém entende. O que aconteceu aí? Aconteceu que ele inventou algo que os medíocres rejeitam. E os medíocres são sempre a maioria, e os medíocres são regidos pela força de conservação, tudo manter como está. Aí, vem um e lança uma direção nova, criadora, diferente. Mais, ninguém quer saber daquilo. E na história humana, diz Nietzsche, em geral, vencem os medíocres, vence a força de conservação, de manutenção de estocagem. E, em geral, os poderosos são aqueles que melhor usam tudo aquilo que já está. Eles não inventam nada. Os poderosos usam todos os valores, dinheiro, prestígio. Todos os valores morais estabelecidos em favor próprio e mandam nos demais. Pôr isso que eles são considerados poderosos.
A história então geral é a vitória dos poderosos, e a derrota dos potentes. É que eles não são os hegemônicos. Os hegemônicos em geral, os que dominam o mundo, são aqueles que e apenas usam tudo aquilo que já existe, em benefício próprio e para mandar nos outros. Pôr exemplo: alguém muito rico, ele é poderoso, mais ele está inteiramente submetido ao valor dinheiro. Ele é escravo de um valor hegemônico. Ele não inventou absolutamente nada. Ele acumulou desse valor consagrado, uma quantidade suficiente para poder mandar nos outros. Mas, inventar, ele não inventou nada. Então, ele é vencedor, mas, ele não é criador. Ele é vencedor no mundano digamos assim. Mas, ele aqui vem essa diferença fundamental. No sentido mais rigoroso do termo, ele não é forte. Ele é fraco. Ele é escravo do dinheiro. Então, forte para Nietzsche, não é quem tem o poder e que manda nos outros, forte é aquele capaz de criar algo novo.
Diferenciar o forte do poderoso. Poderosos são os que mandam neste mundo. Mas, fortes, são aqueles que estão inventando o mundo de amanha. E esses nós não vemos, ou vemos pouco. Não temos atenção para eles. Daí essa idéia do Nietzsche, que é preciso defender os fortes contra os fracos. O que quer dizer isso? E preciso defender esses que estão gestando coisas novas. É preciso defender estes daqueles outros que são fracos, porém, detém o poder e querem esmagar estes. É uma arte finíssima, política no sentido mais amplo da palavra. Porque os fracos se unem. Os impotentes sempre se juntam gregariamente, para abortar tudo o que nasce de novo. Para Nietzsche, então, tem toda uma valorização desta força criadora e afirmativa, uma força que afirma algo novo. Uma força que afirma uma vida nova, uma maneira diferente de viver, de pensar, de sentir, de perceber de relacionar-se. Tem toda uma valorização da afirmatividade. Então, forte para Nietzsche, é aquele que vai ao limite do que ele pode. Ele vai e desdobra toda a sua potência, isto que é o forte. O fraco é aquele que está separado da sua força.
O que é a vontade de potência? A vontade de potência é a paixão pela diferença. Por quê? Diferença do quê? É o que Fernando Pessoa chamou de um jeito tão bonito, “Outramento”. Outramento é outrar-se. Outrar-se é tornar-se outro. Eu sou uma coisa e eu me torno outro. Eu me outro. Eu embarco num outramento, ou seja, numa metamorfose. Então, será que eu tenho a força de me outrar? Será que eu tenho a força de abandonar o que eu tenho? Aquela tal da conservação. Será que eu tenho a força de arriscar tudo o que eu tenho e que eu sou e o que eu conquistei, e o que está muito estabilizado? Será que eu tenho a força de abandonar esta forma já cristalizada para inventar uma outra forma? Para me tornar outro, para me outrar diferente do que eu sou? Só tem a força de abandonar a própria forma, em proveito de alguma outra forma. Através da qual ele se outra. Pôr exemplo: Eu. Se quero mudar de forma; (mudar de forma quer dizer mudar de maneira), de maneira de sentir, de pensar, de perceber, de amar, de viver. Se eu só tenho, só teria força de abandonar esse meu jeito agora, se eu tiver a força de criar este outro jeito para o qual eu estou me metamorfoseando.
Em outras palavras, a vontade para Nietzsche, quer potência. Mais, a potência é a potência de criar. A vontade quer potência de metamorfose. Não que a vontade quer querer, a vontade quer criar. É totalmente diferente. A vontade quer querer, quer dizer, ela, quer a si mesmo, num momento auto-referente, e, totalmente entrópico que só pode dar em suicídio. Mas, a vontade querer criar, é uma vontade totalmente arriscada, aventurosa, atirada e, sobretudo, uma vontade expansiva. É um querer expansivo. É a potência de experimentar. Experimentar o que pôr exemplo? Todas aquelas coisas que me habitam e que eu nem seu que elas me habitam. Todas as potencialidades que estão presentes. .Mas, que eu só vou saber que elas estão presentes no momento em que eu as desdobrar de dentro de mim, ou seja, essa potência ela quer ultrapassar-se. É vontade de ultrapassamento. É vontade de ser diferente de si mesmo. Tornar-se diferente de si. É uma potência de experimentação em que eu me lanço para além desta forma humana, que é a minha.
Daí, que Nietzsche, vai usar o termo Além-do-Homem, uns traduzem pôr Super Homem. O Além do Homem não é Nietzsche pregando alguém forte, feito super man. Nada disso. É alguém, criador o suficiente a ponto de largar esta forma humana, demasiadamente humana e medíocre que é a nossa; para então, experimentar uma potência desconhecida.
Eu acho que a consigna do Nietzsche, poderia ser resumida numa frase muito contemporânea que seria a seguinte: Viver não é sobreviver. Porque sobreviver é conservar-se. Conservar o que tem. E viver para Nietzsche, seria precisamente, ultrapassar-se. Não conservar-se. Ultrapassar-se, experimentar outras perspectivas, outras maneiras de ser, de sentir, de pensar, de relacionar-se, de perceber, etc.. Então o que quer a vontade par Nietzsche? Ela quer ultrapassar-se. Não é que ela quer querer. Não é que ela quer o nada. Não é que ela quer um objeto. Ela quer criar. Nesta criação ultrapassar a forma vigente. Ela, num certo sentido quer abandonar a si mesma para ultrapassar. Inventar-se, reinventar-se, recriar-se. Criar novos valores toda questão é saber se nós estamos ou não em condições de criar novas direções, novos valores, novas conexões. Se nós estamos em condições de criar o novo, e não, de conservar o velho.
Colaboram para outra concepção do desejo.
Participante: – Se a vida é uma força que se apropria do mundo, para inventar novos sentidos, novas compreensões. Se a vontade segundo ele quer reinventar-se, retraduzir, quer refazer, por que então, a vida sede ao que tu chama de poderosos e não os potentes? Se tem essa potência na própria vida por quê? Pôr que essa explicação do poder criou um estranhamento mesmo lendo Nietzsche, e lembrando a genealogia da moral pôr exemplo onde ele explora um pouquinho mais esse poder, mas, mesmo assim eu queria que tu colocasse isso, porque ela sede? Se ela tem essa vontade, se a vontade quer isso?
Pelbart: – A resposta mais imediata seria que a vida enfraquecida. Porque a vida enfraquece e porque a vida enfraquecida delega aos demais tudo. Porém, essa é uma resposta um tanto metafísica. Seria preciso dar uma resposta mais histórica, ou seja, ver porque na história do ocidente, na Grécia Antiga, Porque num certo momento a vida funcionava diferente e porque naquele momento os gregos que o Nietzsche admira tanto, os gregos antes de Sócrates, os gregos tinham uma maneira de se enfrentar com a dor e com a morte e eles não fugiam da dor e da morte. Os gregos na época trágica que é essa época que Nietzsche valoriza tanto, eles tinham a compreensão profunda de que a vida quando se enfrenta na maior intimidade com a dor e a morte, extrai deles uma vitalidade ainda maior. Uma espécie de volúpia. Mas, a partir de certo momento os gregos começaram a fugir da dor e da morte e resolveram então, dizer: Viver é sofrer, então, basta de vida, que é o que Schopenhauer realiza teoricamente. Nesse momento eles desertam o mundo concreto, constrói uma instancia transcendente, Deus, as idéias inteligíveis, a verdade etc., a moral. E se protegem contra o sofrimento e a dor, jogando fora a própria vida. Então, eu diria assim: Que se a gente pudesse buscar uma explicação, esta explicação residiria numa recusa em lidar com a dor e com a morte na sua intimidade maior. Quer dizer que o quê o Nietzsche está pregando no fundo, a dor faz parte da vida, e isso não é um argumento contra a vida. Porque para Schopenhauer, a dor é parte da vida e isso é um argumento contra a vida. Então chega de vida. A dor faz parte do desejo, chega de desejo, a dor faz parte do querer, joga fora junto com a água suja o próprio bebê. É uma recusa em aceitar a dimensão dolorosa e também mortífera da vida, mas, Nietzsche, vê na História dos gregos como quando eles tinham com a dor uma relação diferente, ou seja, na arte trágica eles aceitavam o lado mais obscuro e tenebroso da vida, isso lhes dava uma força ainda maior. E depois veio uma tentativa de assepsia, nada de dor, nada de morte. Limpeza. Limpeza quer dizer grau zero de tensão, grau zero de vida. E aí, todas as construções transcendentes.
Participante: – Numa certa forma, essa é uma atitude de covardia?
Pelbart: – Sem dúvida.
Participante: – E assinatura de minha própria menoridade?
Pelbart: – Sem dúvida.
Participante: – E daí esclarecimento, “Aufklarung”?
Pelbart: – Sim. Corretíssimo. É uma certa covardia é uma fraqueza, uma debilidade vital, que foge da dor e da vida junto. Exatamente. Foge da tensão, do caráter paradoxal da vida; da vida que se mistura sempre com a morte também. Mas, tem uma maneira de se misturar coma a morte, que não é de evitamento, que é de extrair até disto uma vitalidade superior. Só para dar um exemplo, falar sobre a peça que eu falei tem essa relação trágica, ou seja, a própria dor e o horror, numa certa intimidade estética com elas podem se transmutar numa vitalidade superior.
Participante: – Que momento de transição que se passava onde no momento existia esta intimidade com a dor, existia esta aceitação e num outro momento não houve mais esta aceitação? Quer dizer, que fatos? O que quê aconteceu nesta realidade, para acontecer esta transformação? Que dor tão insuportável que aconteceu para haver esta mudança? Em que momento houve esta mudança, Por quê?
Pelbart: – Nietzsche, vai detectar a dois momentos, que um tem haver com uma mudança na tragédia grega e um outro momento que tem à ver com o pensamento de Sócrates. Como Sócrates inventa uma desqualificação do mundo ao postular uma instância transcendente, que ele chamou de mundo das idéias, cuja contemplação nos dá uma certa beatitude. Esta contemplação do mundo das idéias nos dá uma perfeição que compensa nossa imperfeição, nos dá uma imortalidade que compensa nossa finitude, nos dá o esplendor que compensa nossa miséria. Eu acho que Nietzsche, não tem uma explicação, ele tem uma descrição muitíssimo aguda dessa passagem. Um momento em que a vida em que a força, em que a potência deixou de ir até o limite dela para então, fazer uma inversão do mundo. Eu acho que é mais uma descrição rigorosíssima do que propriamente uma explicação. De qualquer maneira, a própria obra do Nietzsche é um esforço de reverter esse percurso do ocidente.
Participante: – Se essa vontade de potência às vezes ele não provoca algum risco do indivíduo se tornar narcisante? Pôr exemplo: O ex-presidente Fernando Collor de Melo, ele era potência ou era medíocre?
Pelbart: – A resposta é inequívoca. Medíocre. Que não inventou absolutamente nada, mas, usou tudo o que estava vigente no mercado da política brasileira. Desde a demagogia, o dinheiro, o prestígio, relações, tudo. Usou tudo em favor de um poder. Mas, aí não tinha nenhuma potência. Então, você me dá a oportunidade de esclarecer um pouco um certo mal entendido que as vezes ronda o nome de Nietzsche, porque de fato as vezes, confundem essa vontade de poderio com a vontade de potência. E isso pôr “n” razões. Eu acho que uma das razões mais tristes é que o nazismo usou a obra de Nietzsche. Distorceu seu próprio sentido em proveito próprio, e usou a idéia de vontade de potência, como a vontade de dominação do mundo para justificar seu próprio domínio, porém, os nazistas não criaram nem inventaram absolutamente nada no sentido Nietzschiano da palavra. Eles eram poderosos, mas não potentes.
Esse culto todo da força física, ou do mais raso na cultura, a cultura nazista e a mediocridade elevada a enéssima potência. Então, tem aí, absoluta, hostilidade. A qualquer criação, a qualquer invenção, a qualquer expansão das maneiras de viver, a única maneira expansão que eles conheciam era a expansão do território da própria Alemanha. Isso não tem nada a ver com o que Nietzsche tá falando. Então, vontade de potência não é vontade de ter poder sobre os outros, Não é nada disso. Os nazistas interpretaram assim, porque eles acabaram então querendo usar o nome de Nietzsche para justificar a sua devastação. E depois foi tudo um trabalho, depois da segunda guerra mundial poder reler Nietzsche, tirando esta camada, retirando de cima do livro de Nietzsche, esta poeira nazista que se depositou ali.
Participante: – Eu vejo que os poderosos tem a hegemonia. Então, eu gostaria de saber se o Nietzsche apontou algumas possibilidades que os potentes poderiam conseguir uma hegemonia sobre os poderosos? Se apresentou algum caminho nesse sentido?
Pelbart: – Não tem fórmula nenhuma. E talvez nem seja a questão dos potentes serem hegemônicos. Pôr que a própria idéia de hegemonia já é a de um consenso uniforme, que contraria um pouco essa idéia de Nietzsche, da diferença, essa paixão da diferença. Paixão da diferença é criar algo diferente no meio daquilo que é tudo igual, e não só criar algo de diferente, mas, também acabar sendo diferente de si mesmo. Tanto, criar algo diferente que se difere de si mesmo. Então, é totalmente contraditório isso com a idéia de uma hegemonia. Porque a hegemonia é primeiro um consenso, todo mundo igual. Essa idéia do consenso é terrível. A ditadura do consenso. Ela aborta qualquer invenção, qualquer produção marginal, singular, etc.. Então, essa idéia de hegemonia e, exercer a hegemonia já é ao mesmo tempo estar grudado em si mesmo. Para exercer a hegemonia sobre vocês, eu preciso ser reconhecido pôr vocês de certo jeito numa certa forma eu acabo grudado em mim mesmo. Não quero perder a hegemonia, então, não arrisco nada. Então aí, novamente, estou preso ao mesmo.
Participante: – Eu queria não só falar no sentido da hegemonia, mas no sentido pode ser individual, uma pessoa, enfim, não precisa ser uma hegemonia, mas, no sentido de como agir. Porque os poderosos estão dominando, eles têm uma influência que eu posso perceber, hoje em dia também como antigamente, eles influem muito. Eles conseguem controlar essas pessoas que querem criar essas novas idéias e como burlar essa fronteira, essa barreira?
Pelbart: – Já é uma pergunta mais ampla, que eu não poderia responder só com Nietzsche, eu precisaria fazer uma extrapolação de outros autores mais contemporâneos que beberam muito na fonte nietzschiana, e que pensaram isso, em termos mais políticos mais contemporâneos. Isso nos levaria um pouco mais longe. Eu até posso falar disso tranqüilamente, mas aí eu precisaria fazer um longo desvio. Por exemplo, G. Deleuze, que é um filósofo francês, o Félix Guattari que é um psicanalista francês. Eles trabalharam juntos. Eles pensaram muito essa questão; como ir abrindo brechas, criando espaços, furando a hegemonia. Então, tem toda uma maneira de pensar também que pode colaborar. Como pensar essa multiplicidade de forças em guerra e em batalha, como pensá-las já de maneira muito múltipla. Você quando pensa pôr exemplo: uma coisa é dizer aqui é um grupo de pessoas é um jeito de pensar, já um pouco hegemônico, um grupo, mas, se eu conseguir pensar isso aqui como uma multiplicidade enorme de modos, de maneiras, de tendências, de implicações tudo isso se multiplica. Então é obvio que eu favoreço a emergência de outras coisas.
Bom, podemos tentar concluir alguma coisa sobre o desejo. Então vou fazer isso e depois a gente abre para “n” questões também sobre a primeira parte lá do Platão ou sobre a questão do desejo em geral. Eu vou então dizer no que consiste a meu ver o pensamento do desejo, segundo essa matriz que vai de Platão a Schopenhauer.
Primeiro Ponto: O desejo concebido como uma incompletude, como uma carência, como uma indigência.
Segundo Ponto: Essa indigência torna o desejo dependente daquilo que lhe falta. E essa dependência gera uma grande lamúria. Pôr isso, que o desejo é lamuriento, chorão, ele tá o tempo todo pedindo a mamadeira.
Terceiro Ponto: Essa falta, desejo como falta é a mesma coisa que dizer como carência. Essa falta pode querer ser interiorizada e assumida enquanto tal. Tudo bem, me falta e eu assumo o que me falta. Eu faço disso uma espécie de devoção interior, da renúncia, da falta e dá carência. Mas, também pode isso desembocar uma outra solução, que essa que a gente viu em Schopenhauer, que eu posso até querer suprimir esta carência e esta falta, suprindo o próprio desejo. Esse é o desfecho suicidário do desejo. Agora se a gente toma o desejo a luz do que foi dito sobre Nietzsche, a gente deve admitir que o ponto de partida e o ponto de chegada são inteiramente diversos. Primeiro: Nietzsche, não parte de indivíduos tomados como incompletos, mas, ele parte de agregados de força e luta. Agregados de força que brigam entre si. Olha, para um agregado de força não falta nada. Se eu sou um indivíduo incompleto me falta tudo sempre. Se eu sou um agregado de força numa constelação móvel não me falta alguma coisa.
Daí, o segundo ponto. A falta não é constitutiva. Quer dizer, ela não está dada desde o início desde a origem. A falta é produzida.
Os sacerdotes precisam para exercer seu sacerdócio dizer que para os outros falta muita coisa. O sacerdote precisa dizer, você esta angustiado, você está alquebrado, você não tem isto, não tem aquele outro. Por quê? Pôr que isto tudo eu posso lhe oferecer.
Então, eu se sou um sacerdote preciso convencer vocês que vocês são carentes de tudo. Faz parte da dinâmica, da dependência que eu quero instaurar de vocês em relação a mim, como sacerdote. O sacerdote precisa de um povo carente de tudo para depositar a esperança nele sacerdote. Então, o sacerdote produz a carência, ele vive essa carência alheia. O sacerdote se incumbe de separar de qualquer pessoa, daquilo que ela pode. O sacerdote precisa dos fracos. O sacerdote precisa das pessoas fracas.
Terceiro Ponto _ Desejar não significa almejar algo que não se tem, porém, afirmar uma diferença. Olha só, desejar não é só desejar uma coisa que eu não tenho, como em Platão, mas, é afirmar alguma coisa que eu posso. Afirmar uma força que eu tenho e através desta força e desta afirmação criar conexões, formas, perspectivas, valores etc.. Daí então, eu parto para meu último ponto em Nietzsche, o desejo tem a ver com a potência, com a produção com a criação, com a conexão. Não é com a dependência. Vejam só, com esses poucos elementos tudo muda em Nietzsche, em relação a Platão ou Schopenhauer. E é com isso que eu vou concluir o desejo. Tem a ver com a força, não com a fraqueza, ele tem a ver com a potência não com a impotência, ele tem a ver com a produção e não com a complementação. Uma coisa é complementar, uma coisa que complemente a minha metade insuficiente. Não. É produção. O desejo tem a ver com a conexão, não com a dependência. Então, disso se seguem algumas coisas. Pôr exemplo: o desejo é afirmativo, não é indigente. Ele é ativo e não passivo no sentido de quem está esperando alguma coisa. Ele é criador e não imitativo, ele é inventivo. Ele é plástico, plasticidade não é plasmado no objeto ele é plástico em relação a qualquer objeto com o qual ele se conecte. Em uma palavra eu diria: o desejo é positivo e não negativo. É uma concepção positiva do desejo que dá para extrair de Nietzsche, uma concepção afirmativa, uma concepção produtiva, uma concepção plural do desejo que o coloca a mil léguas de distância daquela matriz platônica, de um desejo lamuriento ou mesmo, niilista como eu mostrei no Schopenhauer. Quer dizer que toda a concepção platônica eu falei que ela era religiosa e também a concepção de Schopenhauer, tem essa matriz religiosa. Para concluir, eu vou utilizar a anedota para concluir sobre essa diferença. Utilizar a anedota de um cachorro correndo. E a pergunta é o que quer o cachorro? A resposta platônica é o cachorro está atrás do osso. Porque ele que saciar a sua fome, ele busca o que lhe falta, ele quer suprir a sua carência. Resposta Nietzschiana a essa mesma pergunta… O que quer o cachorro que está correndo? Ele esta experimentando a sua força, ele está exercitando a sua potência, ele está desdobrando a sua vontade de potência. E com isso eu concluo esse percurso sobre o desejo.

PPP

Desconstruir é resistir

Derrida-by-Pablo-Secca

 

“Utilizado pela primeira vez por Jacques Derrida em 1967 na Gramatologia, o termo ‘desconstrução’ foi tomado da arquitetura. Significa a deposição ou decomposição de uma estrutura. Em sua definição derridiana, remete a um trabalho do pensamento inconsciente (‘isso se desconstrói’), e que consiste em desfazer, sem nunca destruir, um sistema de pensamento hegemônico e dominante. Desconstruir é de certo modo resistir à tirania do Um, do logos, da metafísica (ocidental) na própria língua em que é enunciada, com a ajuda do próprio material deslocado, movido com fins de reconstruções cambiantes.”

 

 

DERRIDA, Jacques; ROUDINESCO, Elizabeth. De que amanhã . . . diálogo. Trad. André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.

 

 

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Imagem: Derrida by Pablo Secca CC BY 3.0. In: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jacques_Derrida#mediaviewer/File:Derrida-by-Pablo-Secca.jpg

Interferências estético-conceituais em ambiências e questões para pensamento-pesquisa .

Algumas notas abertas – sem muita pretensão didática porque as frestas foram costuradas na conversa – são pequenos problemas desdobrados em um encontro com a linha de pesquisa Micropolítica do Trabalho e o Cuidado em Saúde (UFRJ) em setembro de 2014. As discussões arrastaram o tema: Interferências estético-conceituais em ambiências e questões para pensamento-pesquisa[1]. As anotações podem, talvez, ajudar em um começo de conversa acerca destes problemas. Parti de uma distinção – que não é uma oposição, trata-se de uma tensão – entre a noção (Erika Inforsato) de intervenção e a de interferência[2]. Seria preciso pensar as interferências ao modo das ondas de rádio, ondas curtas. No trabalho pensamos e “queremos intervenções, processos e produtos – ainda que o privilégio ora esteja no processo ora no produto – e acontecem tantas interferências, em muitas direções..no sentido de uma intromissão: uma onda que, eventualmente, em suas oscilações, frequenta outra onda, ao estar, por instantes, na mesma frequência que a outra – ela pode gerar ressonâncias, contágios, acordes acordos fugidios.. Episodicamente.. É uma relação não programada e inevitável, tanto quanto o é o fim inesperado desta justaposição. Um ocupa o outro: simplesmente ocupação, porque seus movimentos ondulatórios assim o exigem.”. A dificuldade da ideia de intervenção, como tradicionalmente pensada, é amarrotar, aplicando certos modelos, ideologemas, verdades, simbolizações, vontades. Há também uma função missionária, sacerdotal na universidade e nos serviços que pretendem levar a luz civilizatória.. Nesse jogo a  noção de intervenção convoca e pode amarrotar os casos, as experiências. Há delicadezas, principalmente iniciais, há também sustos que interessam, precisa ver a cada vez.. Interferências podem invocar, são elementos fortemente críticos, já são plásticas, podem ser flexíveis, no sentido que elas podem se colocar a serviço do caso, não amarrotar o caso, elas podem, interessam, quando procuram os diferenciais da situação. (Luiz Orlandi) Uma intervenção simplificadora, simplista, pode ser aquela que incide sobre a complicação dos casos, das experiências, dos equipamentos, das ruas, incide ali uma ordenação que acachapa a complicação. Então o que faço? Vou agir e ao mesmo tempo sustentar uma espécie de dúvida metódica (termo de Descartes) acerca do modo mais interessante de interferir.. Outro problema: Há todo um voluntarismo que pode enredar as ações ou interferências. Há a também a questão do “dar certo”  – sempre ligados a modelos e parâmetros que são postos mais ou menos, mas não muito, fora de foco –  e uma demanda de controle da interferência. Quantas vezes um suposto domínio de si nos levou a situações pouquíssimas interessantes?. Como imaginar que se possa preparar, uma interferência com um tiro único, sem agenciar de novo, escavar mais embaixo, e, se não “deu agora”, desconfiar de sua estratégia, e, se deu bem demais também desconfiar.. D.H. Lawrence em seu livro Estudos sobre a literatura clássica americana escreveu: “(…) o que achamos que fazemos não importa muito. Na verdade nunca sabemos realmente o que estamos fazendo. (…) Somos os atores, nunca inteiramente os autores de nossos próprios atos ou obras..” . Isso pode se relacionar com a máxima: “interferir” para conhecer – ao modo de Lourau e Lapassade – em espaços e equipamentos.. Interferir também nas nossas frequências e frequentações habituais (ideias, hábitos e..) e produzir pensamento. Produzir pesquisas compartilhadas com serviços, trabalhadores e co-produzir rebatimentos inesperados sobre nós mesmos. Não se trata de um leviano vale tudo, ainda que a leveza não esteja excluída, ela é imprescindível, mas, sobretudo há a necessidade de permanecer na superfície, na dobra, na pele, acompanhar os efeitos de verdade, o verossímil (não se trata da verdade) acreditar em forças na experiência, em tons, ser superficial por profundidade (Nietzsche).

QUESTÃO – Há certo INVOLUNTARISMO que interessa e dificuldades nas INTERFERÊNCIAS.

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Outra questão correlata: Nas interferências estético-políticas pode haver um apelo fácil ao “já sabido”, sensacional, ao espetacular ou ao sentimentalismo. Interessa falar também do convite forte à autopromoção, à busca de sucesso e “gerenciamento empresarial de si” na universidade, nas artes, nos serviços e etc – que podem ser diferentes (interessa interferir com essa diferença) das experimentações, de sustentar um trabalho e pesquisar. Hoje a lógica da empresa (que não está em um único lugar) é um gás espalhado que coloniza o que chamamos de “nosso desejo”. É antes de tudo um modo de fazer que coloniza o que é federal, estadual e municipal com incidências as mais diversas nas artes, na pesquisa, na saúde e na clínica com seus prêmios, excitações e “saudáveis motivações”. Sobretudo é um fluxo de jogo metaestável espraiado na tessitura subjetiva. Nesse jogo de interferências estéticas – pode haver uma espécie de “guerrilha contra nós mesmos” (Luiz Orlandi) na esfera pública que não é sinônimo de estatal – há uma constituição em tensão que enreda saltos ínfimos e decisivos, mas, sobretudo reversíveis e difíceis..

QUESTÃO: O sensacional e o modo-empresa-em-mim nas interferências e intervenções  

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Há um problema recorrente: A distinção altamente hierarquizada entre a área ou terreno da ciência como um bloco (sério e de valor) apartado da chamada área ou setor da arte-cultura que seria outro bloco ligado à fruição. Uma departamentalização, setorização da dita categoria de “produtos artísticos e culturais”.

As experiências estéticas, as experiências com as artes produzem pensamento, são operadores de pesquisa e produção de pensamento. Não se trata de diversão, prazer, lazer ou mesmo de montar uma bienal de arte sociológica que “reflete sobre[3]”. Podem auxiliar interferências que possam produzir despiramidalização, riso e humor – não ironizar ou desqualificar olhando desde cima. Ou ainda o problema da diversão como narcótico[4]. Frequentemente certos espaços ligados as artes são uma espécie de Disneylândia. Não se trata de “fruição, divertimento e prazer, essas doenças e narcóticos dos nossos tempos” diz D.H. Lawrence em O amante de Lady Chatterley. QUESTÃO – SEÇÃO DA CIÊNCIA, SETOR DA ARTE-CULTURA (conceito reacionário), diversão e outras setorizações do bom senso-senso comum.

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Na sequencia apresentarei alguns exemplares, na forma de notas, de interferências-intervenções – que são ao mesmo tempo formação, pesquisa e produção de conhecimento compartilhado, bem como questões que as enredam.  Algumas produzem pensamento e pedem tempos dilatados, às vezes, muita coisa se dá longe e fora das exigências burocráticas de pesquisa que prestam contas à CAPES, FAPESP.. (Leon Kossovicth).

Nas interferências não há necessidade de total compreensão. Há outros níveis que você carrega e que lhe carregam sem compreender muito bem.. Interferência é produção de subjetividade – comentar “do gênio da espécie” aforismo de Nietzsche acerca de um conhecimento vivo que não passa necessariamente pelo “espelho da consciência”. Interessa um rigor nas ligações e montagens das interferências, curadorias coletivas, criar um campo de gestão e gestação coletiva, espaços para fazer e desdobrar juntos ideias, mixá-las e ou recombiná-las. Um exemplo, interferência CABEZA DISPENSA, vídeo no youtube como o nome: “reinauguração do Laboratório de Sensibilidades”. Quais elementos foram recombinados? Ligia Pape, divisor, Vera Mantero, “vamos sentir falta de tudo aquilo”.. tínhamos precariedades – TNT, mas não tínhamos o lençol branco da Ligia – , problemas interessantes como a demanda contemporânea que tudo seja translúcido, nada de opacidade, cabeças..bonecas.. Quais objetos foram tirados das cabeças.. cruzes, carros, dinheiro, minhocas retiradas de umas cabeça e colocadas em outras, uma mini cabeça de Barbie (retirada com uma pinça), duas cabeças lavadas por dentro com sabão.. “dizpensa” a cabeça, raspar para abrir..espaço.. Também as manifestações acéfalas, sem um líder ou ‘o cabeça’ guiando.. Foi um trabalho feito no decurso de um tempo.. Foi também um despacho anti-cabeça-lotada (não quer dizer contra a cabeça, foi um despacho em favor de pensar), dentro da universidade.. Interferência no pático (sensações, atmosferas, ambiências, percepções desfocadas) entendido como não discursivo, que joga com subjetividades absorvedoras (Guattari), com o que é dado de imediato em sua complexidade. Guattari diz que o: “paradoxo consiste no fato de que a subjetividade pática tende a ser constantemente evacuada das relações de discursividade, mas é essencialmente na subjetividade pática que os operadores discursivos se fundam.” In GUATTARI, FELIX. Caosmose – um novo paradigma estético. 1992. p.39.  Tem uma polinização..Uma “multiplicidade que se desenvolve para além do indivíduo junto ao socius, assim como aquém da pessoa, junto a intensidades pré-verbais derivando de uma lógica dos afetos mais do que de uma lógica dos conjuntos bem circunscritos” GUATTARI, F. Da produção da subjetividade, inédito, 1990. QUESTÃO – A “COMPREENSÃO É UM DOS NÍVEIS DE LEITURA”.

Interferência e produção de pensamento pedem um “para nada” que parece insuportável na ambiência universitária ou dos serviços. Pedem que se faça um exercício, uma tentativa  –  experiências de des-astre, de perder o astro, não se trata das chamadas “experiências exitosas” demasiadamente predeterminadas – , isso envolve agenciamentos complexos, experimentações sem garantias, não necessariamente um projeto de sucesso com suas intencionalidades.. pede talvez uma leveza e inteligência de outra ordem que não compõem com o arrivismo e a meritocracia – ao contrário, até os desinvestem e perturbam –  ela pode implicar uma gratuidade que não se inscreve na dialética da comunicação ou da finalidade.. um jogo esvaziado precisamente da finalidade..uma espécie de ‘para nada’ que não retira nada a intensidade. Um exemplar: Interferência em uma aula, um auditório foi interditado todos ficaram fora, as cadeiras foram empilhadas, livros foram congelados dentro de enormes barras de gelo (era possível vê-los por fora, inclusive uma revista mente e cérebro), baldes de areia, um rebanho pastando foi projeto o tempo todo em que circulávamos pelos espaços (o auditório estava com pouca luz), um homem chafurdava no chão em uma espécie e chiqueirinho tão feito de jornais quanto ele.. duas moças dançavam e não cansavam de cortar e ajustar os cabelos.. outro passeava ao léu, de sunga.. sons de bocas e gemidos, murmúrios. Houve sustos,  não houve conversa ao final.. QUESTÃO – UMA INTERFERÊNCIA PARA NADA pode até produzir pensamento. Trata-se paradoxalmente de um trabalho e desobra (não fazer obra), nada de sucesso, convocar sentimentos ou fazer analogias. Também nada de: “distraídos venceremos” (Leminski) – não se trata de vencer ou “chegar lá” – é, sobretudo, “’falhar, falhar de novo, falhar melhor” (Beckett).

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Fala-se muito em linguagem artística e expressiva, linguagem do corpo, cinematográfica, linguagem das artes, verbais e não, linguagem cênica, linguagem corporal, outra linguagem..e aí vai..para muitos não há arte fora da linguagem e ela foi se tornando  um ideologema ou uma espécie de ídolo ideológico incontornável para pensar as artes. E nisso haveria um certo imperialismo da linguagem problematizado por autores como Nietzsche, Deligny, Deleuze, e, para eles, interessa forçar a linguagem até um limite, limite que separa a linguagem da animalidade, do grito, do canto, levar a linguagem a esse limite que separa o homem do animal. (Pelbart) Será que a própria ideia de linguagem não poderia ser uma limitação? Será que interessa nas artes, na universidade, nas pesquisas, na aprendizagem os excessos do querer, da vontade consciente cujo combustível frequentemente é a linguagem? O trabalho com as artes na universidade, nos serviços  (e fora deles) não seria então uma exploração das intensidades puras, ali onde é preciso fazer buracos na linguagem, já que as palavras carecem de aberturas, de “desligamento” que vem de uma onda de fundo própria as artes? QUESTÃO – IDOLO IDEOLÓGICO CHAMADO LINGUAGEM DAS ARTES.

O riso. Imprimir as páginas iniciais dos facebooks de todo mundo do grupo, do equipamento, daquela parte do campus, de vários, eram inscrições institucionais e de poder distintas, estudantes, professores, tios, vizinhos, diretora, gentes de dentro e de fora. Uma coisa é na rede da internet – outra é materializar em papel a rede (que sempre pode mudar, ser alterada).  É remontar a rede, alterá-la nas paredes ao longo de escadarias, corredores, ligando os dados e fotos de cada página impressa do facebook com linhas de lã. Entre vários trechos das linhas de lã fragmentos da paixão segundo G.H acerca do inumano, das ondas hertzianas e ligações. Problematizações: Publico e privado já estão reconfigurados hoje.. já estão.. e ali havia uma nota a mais..uma questão viva, uma experiência produzida e acompanhada nas paredes por duas semanas (produziu humor, pudor, embaraço e outras conexões), cultivo de sensações, pensamentos que interfere nas percepções habituais, produz percepções, visões em lugares inesperados, um condensado de sensações. Alguns sempre poderiam achar estranho, exótico ou ter uma gavetinha para classificar isso na normopatia cotidiana  – às vezes o estranho é que ninguém estranhe mais certas coisas do dia a dia ou que o  “mais espantoso é que o espantoso não espanta mais ninguém” (Kafka). Há muitos amortecedores, a “linguagem” nas artes pode ser um deles… Também está em jogo o riso e humor. Interferência pode compor com o humor, pode produzir humor (não interessa a pose da ironia). Na série 19 acerca do Humor e arredores em Lógica do Sentido.(…) interferência para aterrar, rir, é preciso saber “descer” – o humor, contra a ironia socrática ou a técnica da ascensão. Certas pesquisas e pesquisadores querem subir, querem luz, tudo muito elevado. Interferência para possibilitar uma descida aos corpos.. sujidade da vida.. Quando der, até o fundo dos corpos e ao sem-fundo de suas misturas (…) QUESTÃO – INTERFERÊNCIA DE RISO E HUMOR (despiramidalização) não interessa a pose da ironia.

Imagens-Interferências expostas no caminho. Um atlas anatômico é uma produção estética e ética, politicamente determinada. Você encontra uma imagem assim… de Walmor Correa.. pensar com ela é uma interferência no jogo da chamada realidade cientifica e da saúde.. Um atlas anatômico parece algo neutro e útil, ao mesmo tempo ele NÃO É A REALIDADE de um corpo. É PRODUÇÃO DE UMA certa REALIDADE operando com um modelo de corpo.  E ela não é sem direção e ou efeitos ético-clínicos, e, implica as terapêuticas. Não é um corpo no atlas anatômico, é o corpo estilo greco-romano dos desenhos da biomedicina, obviamente uma representação que também nos auxilia e leva em certa direção.. As imagens do artista Walmor Correa apresentam minuciosos mapas anatômicos com um grau enorme de detalhamento, utilizando os signos e verdades da anatomia para criar uma imagem verosímil, isto é, plausível, com efeito de verdade, e sempre temos isso, tão-somente o verosímil – “que parece verdadeiro”, que produz efeito de verdade. Walmor correia produz um mapa anatômico de uma sereia com os órgãos descritos em detalhe, descrições de um bebê no útero, a panturrilha descrita e aberta do curupira.. (ver na rede imagens de Walmor Correa. ). Com essas interferências podemos pensar: “Que é que junta em mim as coisas que leio e vejo? Que forças em mim me fazem ver isso? que forças em mim me fazem expressar assim o que “estou pensando”? Que forças já me dominam? Com que forças me alio?”  (…) Frases de Luiz Orlandi transcritas do vídeo Orlandi e Giacóia. Acesso em 18/03/2014, Disponível in:  http://www.youtube.com/watch?v=Hem6s9cvJKI

 

QUESTÃO – DA VERDADE, DO VEROSIMIL DA CIÊNCIA E AFINS

 

Em vários âmbitos. Uma enfermeira que trabalha com captação e transplantes de órgãos..(imunitas, comunitas, autoimunitas). A produção de um kit para oficinas chamado “corpo, recombinação”. São pequenos vídeos quase asignicos (são mais variações e produção de micropercepções,  não mensagens). Animações ou fragmentos de filmes que podem produzir pensamento. Enunciar ou mostrar.. Um pequeno vídeo de 5 minutos “dimensões do diálogo” de Jan Svankmajer, animador Tcheco. Vídeo que é uma pintura de Arcimboldo, pintor do século XVI em movimento..um concepção de corpo (Concepção contemporânea do corpo?), corpo como todo aberto (distinta da concepção romântica e liberal de corpo como um todo coeso…) Somos todos constituídos de peças e pedaços ajuntados de maneira casual e diversa, e cada peça funciona independentemente das demais. Daí ser tão grande a diferença entre nós e nós mesmos quanto entre nós e outrem. Montaigne, M. Ensaios. São Paulo, Nova Cultural. (Os Pensadores). 1987. pp. 159-161.Outro exemplar: Na universidade, um homúnculo foi montado, todo feito de diferentes frutas e legumes ao lado de um espaço destinados ao refeitório da UNIFESP BS, um homúnculo em pé (o coração era um sandwisch do Macdonald), ao lado dele límpido estava um manequim de loja de roupas.. ao longo de alguns dias o ser de frutas e legumes se degradava a olhos vistos..Uma pintura de Arcimboldo do século XVI, uma problematização  com a máxima de Montaigne. Um incômodo que instiga a pensar ao lado do refeitório. Agora temos rodas de conversa para pensar juntos, por exemplo, essa noção contemporânea e antiga de um corpo, desregulado, proliferante, recombinante,  talvez finito-ilimitado,  aberto. Isso pode ajudar pensar inclusive no câncer e nas células tronco (G.B)[5]: “Tendo a fazer um paralelo, talvez um pouco apressado. Qual é o nosso maior sofrimento, nossa maior ameaça na medicina hoje? O câncer, apesar de que se diagnostica mais rapidamente e o índice de cura é maior (…). Mas qual é nesse momento a nossa maior esperança? As células tronco. Resulta que o câncer e as células tronco tem o mesmo princípio que é a proliferação celular, só que uma tem uma proliferação celular incoercível, indirigível que acaba com o corpo e a outra tem uma proliferação que se adapta ao tecido  lesionado para reconstituí-lo. Então esses dois tipos de células e de funcionamento celular, essas duas são parte de um corpo (…) elas não obedecem aos tecidos, aos órgãos, aos sistemas, a todo o mapa organizativo do organismo, elas funcionam por conta própria. ”

Essa ideia de partes que podem funcionar por conta própria em distintas composições, ressoa com os corpos errantes, abertos, desconectados do conjunto, bem como podem se relacionar com as produções biotecnológicas, os transplantes de órgãos e órgãos intrusos.

 

QUESTÃO – DISTINTOS MATERIAIS E TEMPOS DE UM CORPO ABERTO (NÃO UM TODO COESO E HARMONICO)

 

Em que medida as interferências – que exigem um rigor e precisão – deslocam percepções, micropercepções…Depois de um semestre em que discutíamos um certo apagamento da experiência do “cuidado humanista” esse olhar ao sofrimento individual na clínica (isso sem demonizar ou dicotomizar)..um grupo trabalhou com precisão. Foram penduradas por fios na entrada do saguão quatro letras enormes, em três dimensões, cada uma tinham uma boa espessura e mais ou menos dois metros cada, eram em cartão, pintadas de cor preta. Estava lá impressionante, um D bem grande, depois E,U essas duas letras cravejados com facas (muito bem esculpidas em cartão e salpicadas de vermelho sangue) e depois a letra S.. DEUS..o EU do meio de DEUS estava esfaqueado e sangrando!!

QUESTÃO – DESLOCAMENTO DE PERCEPÇÕES E PRODUÇÃO DE MICROPERCEPÇÕES

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Uma espécie de “panfletagem não apenas voluntarista”.. também por contágios, alguns talvez mais previsíveis e outros menos..Nas aulas do mestrado profissional, no LEPTS, na residência interprofissional.. (pode ecoar em outas ambiências) blog do L.S. Experiências com folhas portáteis quase panfleto, uma folha impressa frente e verso. São recolhas montagens entorno de uma noção, interferências montadas ao modo de pequenos mosaicos, elas precisam de uma sensação de começo – precisam de início desdobrar algo eminentemente voltado para as práticas e ou que faça chiado no modo habitual de pensar. Tem uma dessas folhas (que está em obras) acerca da noção de competência que começará assim: “a invenção da ideia de competência tem como alvo criar os incompetentes”. É uma frase da Marilena Chauí que ajuda a pensar. Outra se chama: Análise da oferta precede a análise da demanda; Comunitas, imunitas e saúde frágil; Contemporâneo é aquele que deserta a cegueira da luz da época atual; Clínica médica da doença, do doente e outra clínica se constela com possibilidades inauditas, a noção de recognição, a noção de comum, e, e, e.. Estão em obras uma folha-interferência-portátil-panfleto acerca da noção de “normatividade vital” –  conceito do Canguilhem que desloca o que em geral se pensa acerca do normal em saúde e as normas. São experiências com leituras breves, e, a sugestão é que primeiro se leia em silêncio com o lápis ou caneta na mão, anotando, pondo interrogações, sublinhando, isso leva pouco tempo e pede intensa concentração, acontece em rodas, com estagiários, técnicos da prefeitura, grupo de pesquisa, em sala de aula, em que somente após esse momento, se faz uma leitura em voz alta e aí a palavra circula. Em geral pontos são destacados por interesse, valor, objeção, incidência nas práticas e etc.. Diria que são fragmentos de textos anzóis eles ajudam a pescar questões para conversar com o que está se passando nos vários espaços, serviços, na vida mais amplamente.. Naquele momento todos leem inclusive os que supostamente coordenam a reunião, nisso há uma espécie de imersão coletiva, uma “experiência sob nós mesmos” uma “guerrilha contra nós mesmos”, ou melhor, “a guerrilha contra as potências maiúsculas – sejam automatismos, partidarismos, missionarismos laicos ou quaisquer proeminências transcendentes – que nos invadem, que nos habitam ou que nos habilitam na sacanagem muito contemporânea de certo servilismo.” (Luiz Orlandi)

QUESTÃO – PEQUENAS GUERRILHAS contra nós mesmos COM MATERIAIS CURTOS E INTENSOS.  Folha-interferência-portátil-panfleto.

 

LEMBRAR  DESSE PONTO. Uma interferência no jogo pode ser a produção de uma noção que não dominamos, só conhecemos parcialmente, sabemos lacunarmente do que se trata, e, ainda queremos fazer e pensar com ela, por exemplo, a noção de CLÍNICA COMUM que emergiu de um coletivo de pesquisa, que gerou artigos, um livro e que somente agora começamos a pensar que a clínica comum não é apenas algo que é o almejado como a clínica interessante na saúde… (AQUI PRECISARIA CONVERSAR MAIS DETIDAMENTE). Em todo caso, a noção continua interferindo no campus, nas pesquisas, nas turmas, em nós (é uma tensão em nós), nos serviços.. na residência..no mestrado profisional, com as secretarias, saúde, assistência..um clínica que pode não se esquivar às complicações do comum. De uma consignia meramente interdisciplinar, instalamos um conceito que AINDA PULSA.

 

QUESTÃO- PRODUZIR UMA NOÇÃO (Clínica comum) QUE SÓ DEU UM PASSO E CONTINUA..

[1] Antes de tudo uma questão: Qualquer interferência ganha força se emergir de um problema muito concreto. O problema é o fio condutor. Isso pede uma certa imersão. Também é necessário ler, estudar e um conjunto de materiais, ideias, textos, imagens para roubar questões.

[2] Acerca dessa questão distinção proposta por Inforsato (2010) ver a tese “Constelações clínicas e políticas do comum” .

[3] A filosofia, a psicologia, a sociologia, a saúde coletiva não ocupam um nível superior aos outros saberes, elas são do mesmo nível. Portanto, não há reflexão sobre, o que há é pensamento a partir, pensamento com. Há criação de conhecimentos – sem a dicotomia sujeito e objeto – ou ainda criação de pensamentos, existe criação de conhecimento não somente nas ciências, mas nos outros saberes. Há pensamento em várias formas de saber, poético, literário, jurídicos. Não é só na ciência que você encontra criação de pensamento. As interferências estéticas estão no mesmo nível e podem produzir pensamentos.

[4] (…) “homens” sem Deus superavam o tédio pelo prazer e o brilho. Divertimento! A sutil doença dos novos tempos (…) as pessoas com os estômagos colados umas às outras nas noites quentes, os gelados para refrescar, tudo era um narcótico. Todos queriam a mesma coisa: droga. A água lenta era droga; o sol era droga; o Jazz, os cigarros, os cocktails, os gelados, os vermutes, tudo droga.  Trecho de D.H. Lawrence, O amante de Lady Chatterley.

[5]  BAREMBLITT, G. Entrevista em vídeo Acerca de Deleuze e Guattari. Trecho transcrito. TV –PUC- Minas. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=8FgLBsTwoJA.Acesso em 02/01/2014.

 

Alexandre Henz.

Não à diminuição da maioridade penal. Diminuir a maioridade penal é combater pela sua servidão como se se tratasse da sua salvação.

Espinosa e a Reich para exprimir o que chamam de “problema fundamental da filosofia política”, aquele que Espinosa “soube levantar”, e que Reich “redescobriu”.

Eis a pergunta que exprime esse problema:

“por que os homens combatem pela sua servidão como se se tratasse da sua salvação?”.