Lourau-Foucault com a Profa. Dra. Heliana de Barros Conde Rodrigues* (UERJ)

seguida do lançamento dos livros

ESTUDOS COM MICHEL FOUCAULT: transversalizando em psicologia, história e educação. Flávia Cristina Silveira Lemos, Dolores Galindo  e outros (Orgs). Editora CRV, Curitiba, 2015

com a presença da Profa. Dra. Flávia Cristina Silveira Lemos  (UFPA)

24 de junho, 13h30-16h, auditório 100, PUC-SP, Campus Perdizes

Atividades da Jornada Análise Institucional e práticas de pesquisa: dialogando com René Lourau.

Organização: Programa de Estudos Pós- graduados em Psicologia Social da PUC-SP; ProPetSaúde III PUC-SP, Laboratório de Saúde Mental e Coletiva (LASAMEC) da Saúde Pública/USP e Psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie.  

O PALHAÇO, O INTELECTUAL E O PEIDO

Se tivesse uma voz, quem é que fala assim, dizendo que sou eu?

S.B

[BARULHO DE PEIDO]

– Que é isso!?! Não pense que sou palhaço!

– Não, senhor. Não penso isso.

– E mais respeito comigo!

– Sim, senhor.

– Quem você pensa que é pra andar aqui desrespeitando todo mundo? Já não chega o governo fazendo isso com a gente?

– Sou um palhaço, senhor! Só isso. Vim só ver como é que é aqui.

– Você me assustou, sabia? Aqui não é um bom lugar pra ficar soltando peidos tão altos.

– Sei disso, senhor. A gente sofre muito aqui na universidade. Tem muita res cogitans e res extensa. É tanta resextensia que já me sinto expulso só de chegar perto. Só me resta então a res pirança e a res peitança. Então eu peido e peito muito porque a res peitança e a res peidança é muita também, graças a Deus! Se não a gente mal consegue res pirar. Morro de medo disso!

– Sim. Acho que tô entendendo você. Só que não sou como esses que você fala. Eu tô justamente batendo de frente com esse cartesianismo todo. Sou um pesquisador do humor e da ironia. Por isso procure outro professor pra fazer suas intervenções. Aquele ali da sala ao lado é bem durão. É um casca grossa! Ele bem que merece a sua intervenção.

– Certamente, senhor! Somos dois pobres miseráveis! Ninguém mais acha graça no que dizemos. Aqui, então!!! Pessoal leva tudo muito a sério por aqui.

– É. Mas eu não sou cristão e não fico buscando graça divina. Sou um espinosista.

– Saúde! Nem eu, senhor. Graças a Deus!

– Também não sou pobre e miserável. Não ouviu direito o que eu disse?

[BARULHO DE PEIDO]

– De novo! Esse barulho de peido é muito inconveniente, sabia? Olha, minha aula já vai começar e você não tem o direito de fazer isso aqui.

– Direito?

– É! Direito.

– Viu só? É disso que eu tô falando!

– Você não vê que esse seu riso não é bom?

– Não?

– Não! É cheio de ironia e rancor e…

– E…?

– Você tem que ler o Espinosa, o Deleuze e o Serres e aí vai começar a entender o que eu tô dizendo. O caminho é longo! Começe lendo o meu último artigo sobre a genealogia do humor e da ironia em Michel Foucault. Você vai entender melhor o que é…

[BARULHO DE PEIDO]

– Desculpe! Sou palhaço. Não dá pra evitar.

– Claro que dá! É só querer.

-Dá não! É involuntário. Além do mais se eu prender vou ter dor de barriga. E depois vou ficar triste e mal humorado. O senhor prende sempre?

– Prendo sim. Mas não é verdade isso! Você precisa é de um pouco mais de civilidade. Só um pouquinho faz bem, sabia?

– Viu só? É diiiisso que eu tô falaaando!

– Olha, o que você faz é legal, mas pode melhorar bastante. Essa sua ironia não é legal. Agora tenho que começar minha aula e não posso mais ficar na porta. Tenho que entrar.  Você pode entrar se quiser.

– Não, obrigado! Se eu entrar aí não vou parar de peidar. É muita pressão, entende?

– Ok. Se você não aguenta a pressão é melhor não entrar mesmo. Mas você precisa entender melhor a diferença entre a alegria do humor e a tristeza da ironia. Minha agenda tá cheia, mas posso indicar uma das minhas mestrandas.

– É aquela ali, que tá rindo à toa?

– Não. Aquela ali é uma caloura da graduação. Ela ainda vai ter que suar muito até chegar na pós.

– Coitadinha!

– A mestranda que eu falei já entende um bocado sobre humor e ironia. Já leu muito e já tem até um artigo publicado comigo. Ela pode ajudar você, se quiser.

– Não senhor! Obrigado! Já tive um mestre. Um mestre palhaço. E ele sempre dizia que se você não ri à toa você tem que peidar. Que tá cada vez mais difícil rir à toa. Então a gente tem que peidar muito. Coisa mais rara é achar um mestre por aqui! Ainda mais um que peida! Já nem espero mais um que ri à toa! O último que vi por aqui já faz muito tempo e já nem peidava mais. Tava triste e mal humorado. Devia tá com a barriga cheia de gás. Tinha Phd e tudo, o tadinho! Todo doente! Morro de medo disso aqui! O senhor é feliz?

– Se eu sou feliz? Apesar de tudo acho que sim! Vou entrar, tá?

– Certamente que é! Jamais duvidaria disso. Queria muito saber como é que faz pra ser feliz sem peidar nem rir à toa.

– Olha, suei muito pra ser um professor universitário e tô realizado com isso. Vou aos congressos, converso com gente do mundo todo, tenho muitas publicações, um grupo de pesquisa no CNPq e muitos orientandos bolsistas. Sou cada vez mais reconhecido no meu meio e sou realizado com o que faço, sim!

– Certamente que é, senhor! Longe de mim duvidar disso tudo. Hoje em dia a gente tem que res peitar muito tudo isso. Mas muito mesmo! O tempo todo só na res peitança. Se não a gente não res pira mais. Só vive cansando. E num sobra tempo nem pra peidar! É um sinal dos tempos. Morro de medo disso!

– Já falei pra você parar com essa ironia. Sou realizado e respeitado. E já formei muitos pesquisadores. Tenho certeza que eles serão também professores universitários respeitados e realizados. Serão felizes como eu também sou!

– Certamente, senhor! E o senhor também ensina a peidar?

– Não!!! Olha, você não vai encontrar o que tá procurando aqui. E meu tempo já deu.

– Desculpe, senhor! Mil desculpas, mesmo! Só queria conversar um pouquinho.

– Isso que você faz não é humor. É ironia. É sarcasmo. Irrita a gente e é tão desrespeitoso quanto o seu peido! E dá licença que eu vou fechar a porta.

– Deve ser assim como o senhor disse, mesmo. A ironia é que nem um peido. Assim, que nem um peido rebelde, né? Nem avisa nem pede licença.

P.e. C.N