GENEALOGIA DO NORDESTE. A noção de NORDESTE é uma invenção reacionária, identitária, saudosa, uma crença histórico-política que interessa à quem? INTERESSA DISSOLVER ESTE CONCEITO PARA FAZER APARECER OUTRAS ARTES E IMAGENS. Vídeo entrevista com Durval Muniz Albuquerque Júnior que escreveu o livro A INVENÇÃO DO NORDESTE.

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Go

“Os peões do go (…) são grãos, pastilhas, simples unidades aritméticas, cuja única função é anônima, coletiva ou de terceira pessoa: ‘Ele’ avança, pode ser um homem, uma mulher, uma pulga ou um elefante. Os peões do go são os elementos de um agenciamento maquínico não subjetivado, sem propriedades intrínsecas, porém apenas de situação.

O próprio do go (…) é uma guerra sem linha de combate, sem afrontamento e retaguarda, no limite sem batalha: pura estratégia, enquanto o xadrez é uma semiologia.

É que o xadrez codifica e descodifica o espaço, enquanto o go procede de modo inteiramente diferente, territorializa-o e o desterritorializa (fazer do fora um território no espaço, consolidar esse território mediante a construção de um segundo território adjacente, desterritorializar o inimigo através da ruptura interna de seu território, desterritorializar-se a si mesmo renunciando, indo a outra parte…). Uma outra justiça, um outro movimento, um outro espaço-tempo.”


Deleuze & Guattari, Mil Platôs

 

Nietzsche e a Epopéia. Vídeo da conferência de Roberto Machado e transcrição integral.

Nietzsche e a Epopéia [1]

Roberto Machado

Uma das constantes da filosofia de Nietzsche é o cristianismo, é o aparecimento do cristianismo como alvo principal, e uma crítica é a crítica nietzscheana a uma interpretação moral da existência. A base desta postura crítica, que relaciona tão intimamente o cristianismo ao platonismo a ponto de uma de suas obras definir o cristianismo como sendo o platonismo para o povo, portanto, a base desta postura nietzscheana é a crítica à oposição criada pelo platonismo e pelo cristianismo entre um mundo sensível e mutante, mundo considerado aparente e, por outro lado ou acima, um mundo supra-sensível, eterno imutável, considerado como mundo verdadeiro, portanto, um dos pontos críticos base da filosofia de Nietzsche é a crítica do cristianismo e do platonismo considerado como doutrina dos dois mundos. Esta concepção de Deus como sendo a verdade, como sendo o bem que se deve a filosofia de Platão, que se deve ao cristianismo é, para Nietzsche, uma negação da vida, quer dizer, negação da vida em nome de uma vida melhor, negação do mundo em nome de um outro mundo e a transformação desse mundo em que vivemos em ponte para a vida verdadeira, para esse outro mundo melhor. Um dos motivos que não é o cristianismo que eu vou falar para vocês, um dos motivos do elogio nietzschiano dos gregos, especificamente, que é o tema de hoje dos gregos homéricos é a inexistência justamente de uma doutrina dos dois mundos. Diferentemente do cristianismo, os gregos homéricos não propõem um transmundo, um mundo do além como considerado como critério do bem e da verdade, não propõe um mundo do além como recompensa depois da morte, a religião grega homérica, a religião grega olímpica, a religião dos deuses olímpicos, essa religião apresentada na Epopéia, é intramundana, e não transmundana, é um termo que Nietzsche usa no Zaratustra, é uma religião intramundana que tem como objetivo, e é sobre isso que eu quero falar, despertar o desejo, aumentar o desejo do homem por este mundo que vivemos o outro mundo que era chamado de Hades, mundo infernal, é o mundo da noite, mundo das trevas, de onde está ausente qualquer idéia de perfeição, não existe mundo perfeito para os gregos. Quando no canto 11 (onze) da odisséia, talvez vocês já tenham lido este livro que é um dos livros mais bonitos da história da humanidade, quando do canto 11, Ulisses, ainda vivo, desce ao HADES porque ele quer voltar à Ática, desce ao Hades porque ele quer voltar à Ítaca para consultar o adivinho Tirésias sobre seu regresso, ele encontra Aquiles, o maior dos gregos que tinha morrido durante a guerra de Tróia, pois bem, encontrando Aquiles morto, Ulisses vivo lhe diz em tom de consolação, ouçam as palavras de Ulisses: Aquiles, ninguém até hoje foi mais feliz do que tu, nem será no futuro. O Epitafio que reconhece Aquiles na Ilíada é o melhor dos gregos, ele era o maior indubitavelmente, havia uma disputa para saber se o segundo era Ajax ou Ulisses, portanto ninguém até hoje foi mais feliz do que tu nem será no futuro. Outrora, enquanto vivia te honrávamos como um deus, agora que estais aqui no Hades reinas sobre os mortos. E Ulisses conclui: por isso não deves afligir-te por haver morrido. A resposta de Aquiles, a meu ver, deixa claro que a única realidade que tem valor para um grego homérico é a vida antes da morte. Diz Aquiles: ilustre Ulisses, não tentes consolar-me a respeito da morte ( e aí esse argumento para um grego assim é destruidor, preferiria trabalhar como servo, como escravo às ordens de um homem sem patrimônio, de um homem de baixos recursos do que reinar sobre os mortos que já nada são). Eu diria que para o saber veiculado pela Epopéia homérica, a imortalidade, a sobrevivência gloriosa, e é sobre isso que eu vou falar, não está localizada em outra vida, não está, como no cristianismo, localizada num paraíso celeste; é nesta vida, neste mundo que ela tem de acontecer para dar testemunho da super abundância de forças do homem. Quer dizer, o tema da minha palestra hoje vai ser este, é uma sugestão que eu vou fazer a todos vocês, é um conselho: como ser imortal na própria vida? Contra o amolecimento, contra o enfraquecimento do homem moderno. Essa é uma idéia básica da filosofia de Nietzsche. O homem moderno não é melhor do que o homem que já existiu, ele é simplesmente mais fraco. Nietzsche pensa a modernidade como sendo uma intensificação do niilismo, de negação da vida temporal, que começou a vingar, segundo ele, a partir do cristianismo. Pois bem, contra esse enfraquecimento do homem moderno, homem moderno que segundo Nietzsche se comporta como um escravo, embora tenha horror a palavra escravidão, embora se console com as célebres idéias oriundas da revolução burguesa, da revolução francesa, as idéias humanistas, dignidade do homem, igualdade universal, direitos humanos, Nietzsche que sempre foi o crítico inclemente da piedade, tanto que o Epitato do Zaratustra é o ímpio; Nietzsche é um filósofo trágico, sempre considerou a vida terrível, tenebrosa, cruel. Nietzsche não é um filósofo do melhoramento da humanidade; ele se diferencia bastante dos filósofos modernos que desacreditando na promessa de uma vida futura, num outro mundo, na eternidade, propuseram uma vida futura como realização do homem do presente. Nietzsche jamais propôs uma utopia da realização do homem. Essa que eu chamaria, esse elogio da crueldade, que é uma coisa, digamos que, a burguesia que o capitalismo faz questão de esconder embora ela esteja presente na nossa vida cotidiana, está exposta com um brilhantismo no livro chamado “A Genealogia da Moral”. Para dar um gostinho e a vontade de um dia vocês lerem esse livro maravilhoso darei algumas frases sobre a crueldade: “A crueldade consistia ou constituía o grande prazer festivo da humanidade antiga, era o ingrediente de quase todas as sua alegrias, “sem crueldade não há festa” é o que ensina a mais antiga e mais longa história do homem. E esta aqui é maravilhosa: “nos tempos em que a humanidade ainda não tinha vergonha da sua crueldade, a vida era mais feliz”. Ou então: “hoje, quando não se cessar de apontar o sofrimento como principal argumento contra a existência; se há sofrimento a vida é castigo, então é preciso que haja uma outra vida para nos redimir”. Nietzsche é um filósofo do sofrimento, no sentido que as idéias básicas da sua filosofia é a diferença entre tristeza e sofrimento e uma tentativa de poder conjugar sofrimento e alegria. E ele diz, por exemplo, neste livro: “Já que não podemos acabar com o sofrimento objetivo, pelo menos acabemos com o sofrimento subjetivo, aquele sofrimento que a gente mesmo se dá, introjetando a dor. E é uma frase maravilhosa desse livro, quando ele diz: – há mais sofrimento na noite de uma histérica do que em todos os animais que foram sacrificados pela ciência. Então ele diz: – quando se aponta o sofrimento como o principal argumento contra a existência, seria bom se lembrar dos tempos em que se via no sofrimento um verdadeiro encorajamento a viver. Esta questão, e eu citei alguns textos da genealogia da moral que é do último período da vida criativa de Nietzsche, está presente desde o início de sua reflexão filosófica, entre os escritos do primeiro Nietzsche. (Que era o Nietzsche estudioso dos gregos, que vocês sabem que Nietzsche não era filósofo de profissão, ele era filólogo, era o filólogo que ousou pensar filosoficamente, mas é daí que ele vem, e você tem aspectos filológicos, filosóficos no seu primeiro livro chamado “O nascimento da tragédia” que é sobre a questão do Apolínio, do Dionizíaco ou da arte homérica e da arte trágica na Grécia antiga, na Grécia arcaica. Eu dizia que, entre os escritos do primeiro Nietzsche, aquele em que a questão da crueldade, e é daí que eu vou partir, está presente da maneira mais interessante, que permite compreender em que consiste a singularidade da poesia épica, que é dela que eu vou falar, é um texto chamado “O Agon e Homero”. Agon é uma palavra grega que significa disputa, que significa justa, que significa rivalidade. Vou dar uma idéia deste texto que vai me servir de introdução a esta questão da relação do Nietzsche com Homero. Estruturando este texto, está a distinção entre Titãs e Olímpicos, entre dois tipos de teogonia, uma teogonia titânica dos terrores e uma teogonia olímpica do júbilo, vejo de um lado o terror, de outro lado, o júbilo, a alegria. Dito de um outro modo, estruturando este texto “O Agon e Homero” se encontra a distinção entre o mundo pré-homérico e o mundo homérico. Vou falar pouco sobre isso. De onde parte Nietzsche em sua argumentação, da premissa de que os gregos que ele consideva os homens mais humanos da antigüidade possuem um caráter cruel, trazem a marca de um desejo selvagem de destruição. O interessante, no entanto, segundo minha leitura, é que, ao registrar o ódio, a cruel volúpia presente no grego, Nietzsche não está querendo fazer um elogio da maldade, da vingança, esse mundo cruel é, para ele, o mundo pré-homérico que nos dá uma imagem da vida dominada por aquilo que Ezildo chamou na teogonia que é o seu livro, de Filhos da noite, quer dizer, um mundo dominado pela discórdia, dominado pela velhice, dominado pela dor, dominado pela morte e assim por diante. Essas forças primordiais que aparecem personificadas na teogonia de Ezildo. O objetivo do Nietzsche ao falar desta teogonia é marcar como os gregos lidaram com a questão da crueldade, de um modo bastante específico, para se protegerem de um mundo sombrio, para se proteger de um mundo atroz, aterrador, que Nietzsche jamais negou que o mundo fosse assim. Então, como é que o grego se protegeu do aspecto sombrio da vida, é o que Nietzsche chamaria de primeiro milagre grego, e é através da criação de uma ilusão, Nietzsche é um filósofo da ilusão; é através da ilusão artística; Zaratustra diz: – Todo poeta é um mentiroso – está retomando uma caracterização que Platão fez de homero, valorizando, justamente, a mentira em detrimento da verdade racional, científica e filosófica, quer dizer, através da criação de deuses olímpicos, provenientes desta mentira poética, homérica, Nietzsche vai mostrar uma maneira de o grego se proteger do caráter aterrador, terrível da vida, que é esse lado da vida como sofrimento e morte e, ai, ele faz, a partir de Ezildo, já outro livro de Ezildo chamado “Os trabalhos e os Dias” uma distinção entre duas Eres, que é a palavra grega para a discórdia, os males da vida são os filhos da discórdia e aí, Ezildo diz:               – Existem duas discórdias, uma que é filha da noite, má, perniciosa, cruel, que fomenta a guerra, a dissensão, que leva os homens a se matarem dominados pelo ódio. Mas há uma segunda discórdia, é a boa discórdia, aquela que foi colocada por Zeus, o olímpico por excelência, foi colocado por Zeus entre os homens com o objetivo de incitá-los à origem, de estimulá-los justamente para a disputa, para a justa, quer dizer, para o Agon. A boa Eres transforma, transfigura esta crueldade odienta num estímulo através da disputa ou da justa, o Agon. Essa noção fala um pouco sobre isso, de Agon, de Justa, de disputa, de combate, de rivalidade e são vários sinônimos para traduzir. Essa noção é considerada por Nietzsche como a mais nobre e fundamental das idéias gregas, ele chega a dizer, um dos pensamentos mais importantes, mais notáveis da ética grega; por que? Justamente por libertar o grego do abismo pré-homérico feito de ódio e prazer destruidor. Logo no início desse texto sobre Agon, que eu estou comentando, Nietzsche se perguntava: porque o mundo grego – pergunta interessante para quem já leu, sobretudo um dos livros mais cruentos da humanidade que é a Ilíada, história da guerra de Tróia. Quem já leu a Ilíada pode entender melhor o sentido desta questão nietzscheana: porque o mundo grego exultava com as cenas de combate na Ilíada?, que são sangrentas, se você lê, você vê que é porque o ensino, a formação do homem grego se dava a partir de livros como a Ilíada, como a Odisséia (estão entendendo?), por exemplo, Aristóteles que, já na Macedônia, ensinou Alexandre. O trabalho dele, diz até que ele teria feito um comentário da Ilíada, era a partir do exemplo destes heróis gregos, então se apreendia tudo como poeta, era um tipo de educação totalmente diferente, pois bem, a impressão que eu tenho é que era assim que eles estudavam anatomia, porque era o golpe da espada que entra por aqui, ai ele descobre o órgão, depois sai por aqui, quebra tal osso, ai você tinha a descrição perfeita, detalhada do corpo humano. Mas haja fôlego para você agüentar, sem ficar sufocado com aquelas descrições terríveis, entende, sem complacência que você encontra. Pois bem, a constatação que o Nietzsche faz, o grego exultava com essas cenas de combates, então ele pergunta, por quê? A resposta seria a seguinte: Porque a Epopéia é uma apologia do Agon. Porque a Arte Épica, porque as poesias épicas são justas, são combates contados, porque a Arte Épica transforma a crueldade em disputas, a má na boa Eres. Cito Nietzsche, em outro texto chamado “Estado Grego” que trata desta questão, se a repetição incansável das cenas de combate e de horror da guerra de Tróia é contemplada por Homero com delícia, ele fala: os gregos ouviam aquelas histórias exultando e aquelas histórias são contadas por Homero se deliciando. Razão: – É porque a Epopéia é uma legitimação do combate e da alegria de combater. Vejam bem, os deuses homéricos são deuses de alegria, e logo mais nós veremos, são deuses da beleza, não são nem bons, nem verdadeiros, mas são belos. Essa noção de Agon, resposta épica à questão do sofrimento e da crueldade, pode, a meu ver, ser explicitada a partir de uma noção importantíssima na Epopéia; é a noção de individualidade. Vou lançar uma hipótese que, pedagogicamente, a Epopéia homérica é um processo de criação do indivíduo; a justa, a disputa é um combate individual. Se vocês já leram a Ilíada, vão entender; todo o combate na Ilíada é individual, não existe a Falange, que é uma figura posterior, que é uma figura romana, onde um exército se defronta com outro e avançam um sobre o outro e lutam no conjunto. Na Ilíada, o grego vai para um combate no carro, desce do carro e um grego desafia o outro, o mundo grego é um mundo profundamente hierarquizado. Você sempre sabe em relação a quem você é maior e com relação a quem você é menor, então quando um grande herói se apresenta para a luta é necessário que apareça outro grande herói para enfrentá-lo. E você tem duelos famosos na Ilíada, que inclusive não foram resolvidos, porque veio a noite e a noite é uma deusa que tem que ser respeitada, e se respeita a noite; interrompemos os combates, levamos os mortos e assim por diante, incinerando. Pois bem, é um grande combate, é um dos momentos importantes de Ajax, o maior dos gregos na Ilíada depois de Aquiles e do maior dos Troianos que é Heitor, do qual todos vocês devem gostar e gostarão se um dia lerem este livro que é uma das maravilhas, uma das pérolas da literatura mundial. Pois bem, eu estou querendo chamar a atenção para isso, o Agon é o combate individual que dá brilho à existência, é através do Agon que a vida se torna digna de ser vivida, não pela busca da felicidade, isso é uma coisa que existirá a partir de Platão, a partir de Sócrates, não para um grego arcaico, homérico. Portanto, a Justa é o combate individual, tornando a vida digna de ser vivida pala busca da glória, para usar a palavra grega, pela busca do Cleos nas ações. Veja bem, estou tentando mostrar como é que para o grego o homem mortal pode ser imortal na própria vida, como ser imortalizado, é a questão pedagógica que interessava a um grego, o resto não interessava; como ser glorioso e não como ser feliz, que é a idéia burguesa que nasce com a Revolução Francesa. Nietzsche não é um filósofo da felicidade, só para contar uma piadinha nietzscheana. Seria como o discípulo e o mestre. Um mestre Zen e um discípulo Zen. O discípulo perguntava ao mestre:- mestre, o que devo fazer para ser feliz? E o mestre pensa e responde:- Isso eu não sei, mas lhe digo uma coisa: “seja feliz e faça você tem vontade, faça o que você quer”; quer dizer, a questão da felicidade, para Nietzsche, não é uma boa questão, a felicidade é sempre uma coisa que é prometida, e prometida no fim. Aristóteles mesmo se perguntava: – será que a gente pode dizer que o homem é feliz antes de morrer? Porque ele sempre pode perder a felicidade, e daí? O Nietzsche diz, (eu que estou dizendo por ele), a questão da felicidade não é uma boa questão, porque quando você pergunta a alguém, ao mestre ou a outra pessoa: “O que devo fazer para ser feliz? “Uma coisa eu posso saber de você, é que você é infeliz”; está querendo ser feliz, então, você está começando mal, já está começando da infelicidade e quer chegar lá. Então Nietzsche inverte: “seja feliz”, quer dizer, não é uma coisa que você deve almejar, você já deve partir daquele princípio. Pois bem, nas ações heróicas do indivíduo que conquista a glória e aí que a vida atinge a perfeição. Olha o que eu disse: – Na Epopéia, a arte homérica é um processo de individuação que cria o indivíduo através da competição pela glória. Dito em outros termos: – O indivíduo Homérico se caracteriza (e é uma palavra importante) pela Aristéia. O indivíduo homérico se caracteriza pela série de fatos, pela série de façanhas heróicas. Se vocês já leram a Epopéia, vocês sabem; um livro como a Ilíada, cada capítulo, cada canto, dedica a contar as façanhas heróicas, as façanhas gloriosas de um determinado herói. Então tem o capítulo sobre Agamenon tem um capítulo sobre Diomédis, tem um capítulo sobre Ajax, (Ulisses não é importante na Ilíada) e tem os vários capítulos, que é justamente o ápice, sobre Aquiles, o melhor dos gregos. Então eu dizia, este indivíduo heróico se caracteriza pela Aristéia, pela série de façanhas heróicas que eles trazem à glória e o renome, que é a maneira grega de escapar do anonimato, melhor ainda, que é o que interessava aos gregos, escapar do esquecimento. Viver, afirmar-se como individualidade, é querer ser lembrado; olha a questão da imortalidade simbólica, da imortalidade literária. O que interessa ao grego, ao grego nobre, aristocrata, guerreiro, é ser cantado pelo Aedo, ser cantado pelo poeta. Uma cena muito bonita da Ilíada, é quando depois de anos vivendo com uma deusa numa ilha, Ulisses não esquece Penélope; ele quer voltar, porque ele quer contar suas histórias. E essa cena é extraordinária porque ela lhe oferece a imortalidade, e ele prefere voltar, ele prefere a pátria, ele prefere contar suas aventuras e vocês sabem que é uma das maravilhas deste livro; o próprio poeta aparece contando as histórias, é o próprio Aquiles, na Ilíada, é poeta; pense no canto 9 (nove), quando a embaixada vai chamar Aquiles de volta a luta; ou então, pense no capítulo em que o próprio Ulisses conta suas aventuras. Portanto, eu dizia, imortalidade poética, ser imortalizado pelo poeta, aí a grande importância que tem o poeta nesse tipo de sociedade, a glória é fruto do canto glorificador e esse canto glorificador celebra o que? Justamente aquilo que eu chamei de Aristéia, ou seja , os feitos gloriosos dos heróis; em suma, a Ilíada, a Odisséia, proclamam que a vida dos homens vai para o pó, vai para o pó esquecido, a não ser que lhe seja conferido imortalidade pela canção de um poeta. Vou dar alguns exemplos para ver se eu motivo vocês, os que não leram a um dia lerem esses livros, que foi os que me deram mais prazer. É curioso, eu me sinto profundamente apolínio, eu tenho mais prazer na epopéia do que na própria tragédia, até hoje, a coisa mais extraordinária que eu li foi Homero, imaginem se eu lesse em grego. Vou dar alguns exemplos disso: Agamenon, que é rei dos arqueiros, que é o comandante da luta contra Tróia, mas que não é o mais heróico, e justamente toda a polaridade é entre Agamenon, de um lado, e Aquiles, um pouco como Deleuze depois trabalhou, super interessante, é um homem de estado como Agamenon, como Ulísses. Ulísses é um homem de estado. E por outro lado o guerreiro, que Deleuze gosta de chamar de máquina de guerra, e justamente Aquiles era capaz de contestar a força de Agamenon, mas ele é contido pela deusa Atenas, que não queria romper com esse princípio da superioridade do rei, isso desagregaria aquela função de tribos que estão combatendo um inimigo comum que é Tróia. Então, há um princípio da unidade que precisa ser salvo, mas facilmente Agamenon seria destruído pelo Aquiles. Eu não tenho muito tempo de falar sobre isso, é um simples parêntese para quem não está familiarizado com essa questão e imagino, eu sei que vocês todos devem conhecer, mas eu parto do princípio que ninguém conhece, porque eu não quero que ninguém de vocês pegue meu bonde andando, eu quero que vocês entrem nele enquanto está parado para ninguém se arriscar a cair. Pois bem, Agamenonn exorta no capítulo 5, no canto 5, os gregos à luta, do seguinte modo: – meus amigos, sedes bravos, tende coragem no coração, e olha o argumento: e pensai em nossa reputação quando estiverem na luta encarnecida. Posso dar o exemplo também do maior dos Troianos, Heitor, que desafia ao gregos para um combate individual, um duelo do seguinte modo (veja como é que o grego pensava): – se eu o matar e Apolo conceder-me a glória, e a glória sempre vem dos deuses; depois eu falarei sobre os deuses para vocês verem o que são estes deuses; se eu o matar, algum dia alguém, mesmo os homens que nascerem muito depois, a gente por exemplo ainda hoje, 28 séculos, ainda falamos deles, algum dia um homem dirá: aquele é o túmulo de um guerreiro que morreu a muito (veja o final) um campeão morto pelo glorioso Heitor e ele conclui: – e minha glória jamais morrerá. Eu acho que essas citações, eu fiz três, também mostram que, para atingir, e isso é importante, e tudo isso tem respeito a nossa vida, isso tem respeito a vida de qualquer homem até hoje, que para atingir a glória é preciso enfrentar a prova da luta e da morte, provando que, o que os gregos chamavam de Arete, provando a sua excelência, o que interessava ao grego era a sua excelência, porque sem excelência não há glória, não há renome, não há imortalidade. Para obter a imortalidade, para obter a glória imorredora é preciso arriscar heroicamente a vida, agora imagina o que é um povo criado nesse espírito, isso dito e inculcado na cabeça dele como se um poeta alisasse a sua cabeça com as palavras divinas. Portanto, e é isso que interessa a Nietzsche, a Epopéia é uma das resposta gregas ao problema da dor, problema do sofrimento. O Nietzsche passou a vida inteira preocupado com isso e sabe que o Nietzsche era um grande sofredor, ele teve sífilis, morreu, dizem, de paralisia geral progressiva e tinha dores terríveis, ele vomitava dias e dias seguidos, quase não enxergava, passava dias com as cortinas, não sei nem se existia cortinas no lugar onde ele morava, fechadas porque a luz incomodava, ele não podia ver, era quase cego, dores de cabeça terríveis. Então, Nietzsche foi sempre muito sensível a esta questão da dor, do sofrimento, e o que me impressiona na filosofia do Nietzsche é como ele nunca foi reativo com isso, como o pensamento dele sempre foi afirmativo da vida, mesmo se a vida fisicamente lhe deu tão pouco; pois bem, a Epopéia é uma das maravilhosas resposta gregas ao problema da dor, do sofrimento e da morte; eu dizia que, para Nietzsche, o problema da dor é tão importante que para ele, por exemplo, o Deus Cristão nasceu de uma incapacidade do homem lidar com a dor, do fraco lidar com a dor, é isso que ele diz: A dor torna-se um argumento contra a vida, contra esse tipo de existência, se há dor, logo a vida é imperfeita e é necessário que haja o mundo perfeito sem dor, é o paraíso celeste. Então eu dizia, esta resposta da Epopéia ao problema da dor é inteiramente diferente. Vou dar alguns exemplos. Há um troiano chamado Sarpedo que diz por exemplo a Glau, o seu amigo, veja o argumento; se fugindo da guerra já era terrível, já era o nono ano da guerra, estava louco para voltar, se fugindo dessa guerra pudéssemos nos tornar imortais não lutaria entre os mais destacados, é nas primeiras fileiras onde estão os mais destacados, é nas primeiras fileiras onde estão ao mais bravos, mas agora quando 10.000 ameaças de morte se erguem diante de nós, vamos a luta, seja para glorificar alguém, seja para que alguém nos glorifique. Posso dar outro exemplo: Aquiles no conto nove (9) anunciando que ele pode ter duas mortes ; veja bem: Aquiles era um grego que o tempo todo ele sabia o seguinte, se ele lutasse na guerra de Tróia ele seria o mais glorioso dos gregos, mas ele morreria lá, não sei como é que vocês escolheriam, antes de fazer alguma coisa que poderia lhes dar a glória, se você fizer isso terá a glória, mas morrerá durante esta luta, se não lutar, não terá glória mas vai viver até os últimos dias de sua velhice. Pois bem, nesse capítulo 9 Aquiles diz o seguinte: se eu aqui ficar e combater entorno da cidade de Tróia não regressarei à Pátria, mas a minha glória será imperecível, se porém, eu regressar à querida pátria, minha fama gloriosa estará perdida, mas minha vida será longa e tão cedo a morte me dominará. Na verdade, é minha interpretação essa egunda alternativa, é exposta aos chefes gregos e é que sem embaixada no capítulo 9, um dos mais bonitos do livro, chama-se justamente A Embaixada, onde três guerreiros vêem pedir a Aquiles que volte, porque Homero diz: a vingança é doce como mel. Toda a história da guerra de Tróia e eu faço esse parêntese para dizer isso, é que Aquiles afrontou Agamenon. Agamenon, então, para se vingar, porque teria que devolver uma presa de guerra, uma mulher que ele roubou numa das rapinas que os gregos fizeram numa das cidades, somente que essa mulher era filha de um sacerdote de Apolo e o sacerdote reclamou, fez uma oferenda, como se faz no “Xangô”, como se faz na região africana, a mesma coisa, e Apolo resolveu punir os gregos por aquela afronta a sua pessoa, pois bem, e enviou a peste, e o adivinho grego, formulou em assembléia escudado por Aquiles, que deu força de palavra a ele, que aquela peste só terminaria, quando Agamenon devolvesse Cruseida que era filha de Criserdes. Agamenon, que era autoridade máxima, depois daquela feita disse: o deus quer eu devolvo Criseida, mais eu não vou ficar sem presa de guerra, eu sou rei supremo, vou pegar uma de vocês, resolveu pegar a de Aquiles e é a hora que quase Aquiles desembainha a espada para matá-lo e sem a deusa e diz, você não pode fazer isso, os deuses não gostaram, ele deixa a espada, mas a mãe dele é deusa, ele apela para a mãe, a quem Zeus devia algum favor, e ela com artimanha de uma nereida, de uma deusa do mar, consegue convencer Zeus a vingar a afronta que Aquiles recebeu, e é quando, por que deuses são enganadores também, Zeus manda Agamenon um sonho, e é lindo, é um sonho enganador, em que Agamenon aparece a si mesmo tomando Tróia no dia seguinte. Então entusiasmado com aquela idéia, um presságio dos deuses ele resolve investir contra Tróia, só que isso era uma cilada armada por Zeus, justamente para um afrontamento com os troianos, sem Aquiles, para os gregos começarem a perder, perder terreno, até o momento da perdição em que os troianos vão incendiar os navios e ai os gregos não poderiam mais voltar e estariam perdidos ali e seriam destruídos. Então naquele momento, voltaria à luta, Aquiles que mostraria que os gregos, olhe ai a vingança doce como mel, e mostraria que os gregos não são nada sem ele. Portanto, ele é o melhor dos gregos como ele sempre soube desde o início, mas que o Agamenon não quis ver; estou dizendo com as minhas palavras, assim, a idéia central que é a história da Ilíada. Pois bem, nesse canto 9, os troianos já estão pertíssimos dos navios e alguns gregos vão como emissários pedir a Aquiles para voltar a lutar, Aquiles não quer voltar e não voltará por esse motivo, ele só voltará porque seu amigo Patruco foi morto, e então ele formula essa idéia de que ele vai voltar; ele vai voltar porque ele quer ter uma vida, não está ligado para a imortalidade, mas quer ter uma vida longa, isso para amedrontar mais ainda os gregos, porque o que a gente vê é que ele não voltará à pátria e a gente pode ler; logo depois, porque o que acontecerá será narrado por Homero com essas palavras: Aquiles, filho de Pereu avançava para conquistar a glória e suas invencíveis mãos estavam cheias de sangue e pó, ou capítulo 21, uma fúria terrível ainda dominava o coração de Aquiles e ele almejava conquistar a glória; gostaria de dar um exemplo que, a meu ver, são das palavras mais tocantes a respeito da glória em toda a Ilíada, que são ditas para esse personagem apaixonante, que é Heitor, Heitor o melhor dos troianos, Aquiles o melhor dos gregos. Pois bem, num determinado momento, capítulo 22, um dos mais bonitos, são 24 capítulos ao todo na Ilíada, quando a fúria sanguinolenta de Aquiles está destruindo totalmente os troianos e os troianos que só depois que Aquiles tinha saído da batalha, saem das muralhas, naquele momento estão voltando todos para a muralha, Heitor resolve ficar na frente das muralhas, sem obedecer ao pedido de seu velho pai que está encima da muralha, dizendo:     “Heitor você não é homem capaz de enfrentar essa fera”, Heitor resolve ficar, mas é super interessante e eu vou falar sobre essa idéia de luminosidade do herói, quando Heitor vê Aquiles, a luminosidade que sai dele, o incêndio que vem daquele homem é tão grande e esta metáfora de luz que se vocês algum dia lerem o Zaratustra de Nietzsche, ele retomou bastante para caracterizar o lado que eu chamo de Apolínio em seu personagem, faz com que Heitor não agüente e corra, imagine o maior dos troianos correndo do maior dos gregos, imagine aqueles homens pesados com aquelas armaduras de ferro, diz o texto que eles dão três voltas em torno da cidade de Tróia, até o momento em que a deusa Atenas (os deuses são traiçoeiros) convence Heitor que ele deve enfrentar Aquiles, aparecendo a Heitor como se fosse o seu irmão. Heitor fica maravilhado, infinitamente agradecido ao irmão, como você ousou sair das muralhas para me ajudar; disse: “vamos eu estou a seu lado”. Vamos combater Aquiles. Pois bem, e é aí que aparece a balança pela primeira vez como símbolo da justiça, em toda a história da humanidade. Zeus resolve pesar o destino dos dois e a alma de Heitor vai para os ares, então Zeus ordena os deuses que estão ao lado dele, porque cada grande herói tinha seus patronos, seus protetores, seu deus, seu sonho protetor, e aí Heitor imagina, (imagine para nós aqui se sentir só, abandonado pelos deuses no momento da sua luta mais importante, que é aquela contra seu pior inimigo); o Nietzsche fala da morte de Zaratustra , como a melhor das minhas inimigas. Pois bem, o que Heitor, e essa é que é a grande lição que eu acho que a gente tem que tirar da Epopéia; Heitor diz o seguinte: agora o destino encontrou-me, mas que eu não pereça docilmente, que eu não pereça sem bravura e sem glória, e sim praticando um grande feito para os ouvidos das gerações que hão de vir. Olha, 28 séculos e eu ainda estou elogiando estas palavras inesquecíveis. Vejam, é uma maneira da gente se comportar diante da morte, Nietzsche não gostava das palavras de Sócrates diante da morte, não sei se vocês já pensaram o cenário da morte, a de vocês, porque é o momento mais difícil das nossas vidas, né, e morrer bem é fundamental; Nietzsche diria “só morre bem quem vive bem”; Deleuze se matou a poucos dias, pensei numa frase fundamental do Nietzsche, ele dizia no Zaratustra: “Uns morrem cedo demais, outros morrem tarde demais”, o Zaratustra diz: morra a tempo, nem cedo demais nem seja um morto vivo, se você já morreu não tem sentido continuar, mas é difícil saber a hora de morrer e ele diz: mas só morre a tempo quem vive a tempo, bonito. O que Sócrates diz, vocês sabem que Nietzsche não gostava do platonismo, quais foram as últimas palavras, que segundo Platão, Sócrates disse antes de morrer: devo um galo a Esculápio, Asclépio, era o deus da medicina e os gregos sacrificavam, ofereciam um galo a Esculápio quando eles tinham sido curados de uma grave doença. Pois bem, segundo interpretação do Nietzsche, Sócrates mandando o discípulo fazer oferenda a Esculápio porque ia morrer, isso teria significado: que a vida é uma doença e, agora, que a morte vai levá-lo para a verdadeira vida, ele foi curado dessa doença; deve, portanto, pagar esse ato de cura ao deus da medicina que é o Esculápio. Nietzsche diz: péssima palavra, eu acho que ele preferiria essa de Heitor, bom, vocês podem escolher, comecem já a pensar na de vocês para esse momento, que é a única certeza que a gente não vai escapar dele? O que eu acho que evidenciam essas citações é que o saber da Epopéia, a verdadeira morte é ser esquecido, é o esquecimento, ser indivíduo heróico é superar a morte, é se proteger contra o monstruoso da morte, de que modo, pela idéia de uma glória imorredoura, tornando-se vivo na memória dos homens, mesmo que se tenha de morrer em combate. Um helenista francês, muito importante chamado Vernant (Jean Pierre) tem um artigo extraordinário sobre a Epopéia, que se chama justamente “A morte gloriosa e o cadáver ultrajado”; quem se interessa, leia, é uma maravilha, ele comenta esse grande duelo entre Aquiles e Heitor. Vejam, quero dizer que, partir da crueldade, partir dessa idéia de que, para Nietzsche, a vida é cruel, a vida é tenebrosa e todos nós já devemos ter mais ou menos experiências disso. A crueldade, os terrores, as atrocidades mostradas na Ilíada, visam o que? Visam a ressaltar as dificuldades de se atingir a vida gloriosa. Mas, o que é interessante neste milagre grego, nesta saída poética, é que a questão do sofrimento, da dor e da morte aparecem pela criação deste mito da imortalidade simbólica porque, afinal de contas, você já morreu, o que adiante ser cantado pelo Haedo, isso faz com que na vida, o perigo, o medo da morte seja neutralizado, o medo da morte seja anestesiado pela figura do indivíduo heróico. Quer dizer, há várias maneiras de lidar com a morte, de lidar com este lado tenebroso da vida, a saída da epopéia foi esta, de glorificação da vida através da construção do indivíduo heróico. Portanto, a minha idéia é esta: apresentar a Epopéia como um processo de produção da individualidade – o indivíduo é o ideal, o modelo, é um exemplo de um sistema de valores a ser perseguido pelo grego, todo o grego ouvindo fascinado os efeitos dos heróis do passado lendário, o que acontece com ele, devia o olhar do que há de mais sombrio, do que há de mais tenebroso na vida cotidiana, mas dou outro passo na minha exposição, esse indivíduo heróico tem um modelo; o grego comum, real tinha como modelo o grego heróico, cantado pelo poeta; mas na própria poesia heróica, o grego heróico tem como modelo os deuses, a criação do indivíduo e é disso que eu vou falar agora, é uma conseqüência da criação dos deuses olímpicos. Como os homens, os deuses são indivíduos; só que entre homens e deuses há uma intransponível distância. É que os deuses são imortais enquanto que o gênero humano, a expressão é de Homero – muda e passa como as folhas – Nietzsche retoma estas palavras pensando na beleza da metáfora vegetal, porque na Ilíada, este troiano Glauco constata o fato terrível e ao mesmo tempo natural da morte. É bonito, ele diz: como as folhas assim também são os homens; Compara homens a folhas, por quê? As folhas, os ventos atiram ao solo sem vida, e outras brotam na primavera por toda a floresta, assim também, nascem e desaparecem os homens; queria chamar a atenção para isso. Estão diante de um mundo poético, isso inspirou Nietzsche em dois sentidos; é o mundo sem conceito, não existia o conceito ainda porque o conceito é uma invenção platônica, não existe sistema de pensamentos, não existia definição, tudo era apresentado metaforicamente, por imagem e assim por diante. São as imagens poéticas. Segundo, não existia culpa, é um mundo sem culpa, quer dizer, é um mundo pré cristão. Então Nietzsche, que é um crítico do platonismo e do cristianismo, por isso ele valorizou tanto o grego, eu hoje só estou falando de uma parte e disso ainda não a mais importante, mais importante ainda é a tragédia. Mas não vou falar dela, eu escolhi o início justamente dessa problemática que é da epopéia. O que é que esse texto diz, que os deuses são modelos inacessíveis, modelos dos quais os homens devem se esforçar o mais possível para se aproximar, mas dos quais deve sempre guardar a devida distância. Isso é ensinado na Ilíada, abram o conto 5 e vocês vão ver o momento em que Apolo vai ensinar a Diomédis (é o capítulo sobre o Diomédis, o mais enfurecido dos heróis gregos), Diomédis, que nesse momento da estréia da sua série de fatos heróicos, ele combate até os deuses, ele dá um pau em Áries, que sai correndo chorando, Áries, o deus da guerra, curiosamente não vale muito coisa na Ilíada. Ele perseguiu também Afrodite, fere Afrodite na mão, imagine, um homem ferindo uma deusa, e ela vai se lamuriar a seu pai que é Zeus. “Pai, os homens agora ferem até os deuses? E que é que Zeus diz? – sai daí minha filha, você foi feita para as coisas do amor não para as artes da guerra, não está no lugar correto! Que maravilha, então você veja como é que se pensa, o que é um pensamento poético. Pois bem, e nessa fúria Diomédis chega a Apolo, o deus grego por excelência. Tanto que Nietzsche priviligiou Apolo quando falou de Apolínio, é o modelo desse mundo. Vou falar sobre isso já, quem é Apolo. Pois bem, Diomédis quer enfrentar até Apolo, quer dizer enfurecido na sua aristéia, perseguindo um inimigo troiano, Enéias, ele não mostra reverência nem ao grande Deus, que ele quer de todo modo matar, ter essa glória de matar Enéias. Que por sinal, talvez vocês saibam, é o único troiano que não morreu, porque ele não morreu? Quando ele foi fundar Roma, ele foi cantado pela Eneida, ele é o único que ninguém sabe do destino dele. Então o poeta retomou a figura, e ele queria justificar a origem divina do imperador. Pois bem, Diomédis, vai matar Enéias, mas Apolo estende sobre Enéias os seus braços protetores e diz para o herói grego: cuidado Afasta-te e não procures medir-te com os deuses; vou falar depois, Apolo é o deus da medida. A questão de medida é o conceito mais importante e é por isso que não cheguei lá ainda, estou deixando para o final. Afastas-te e não procures medir-te com os deuses, pois de modo algum se assemelham a raça dos deuses imortais e a dos homens que caminham na terra, e que cai como as folhas. É justamente Apolo, Deus que Nietzsche, privilegia, por considerar que o mesmo impulso que se materializou em Apolo, engendrou todo o mundo apolínio, todo o mundo olímpico. Pois bem, é exatamente Apolo que melhor personifica a idéia de indivíduo, Apolo é a expressão, é a representação, é a imagem divina daquilo que Nietzsche, usando a expressão do seu mestre Schopenhauer e que ele seguia nesta época ainda, chamou de “Principium” (em latim) iondividuaciones quer dizer, Apolo representa para Nietzsche o princípio de individuação. Vou falar um pouco sobre isso, essa idéia de indivíduo apolínio, é introduzida por uma consideração sobre o sonho. Para Nietzsche a arte grega homérica, veja que maravilha, aparece como um jogo com um sonho; por exemplo: é um sonho que o escultor esculpiu a imagem dos deuses, foi em sonho que os poetas viram imagem dos deuses, foi em sonho que os poetas viram os deuses, o que significa que os deuses são imagens oníricas, são figuras sonhadas. A Epopéia, portanto, nos transporta para um estado de sonho, por quê sonho? Eu acredito que ao salientar o caráter onírico da Epopéia, Nietzsche quer priviligiar na arte apolínica, o que? O olho, a imagem, a figura, a forma, veja que idéia maravilhosa, vocês sabem para Nietzsche não foi Deus que criou o homem, foram os homens que criaram os deuses, então a grande pergunta de Nietzsche com relação a essa Grécia arcaica é: porque os gregos criaram esse tipo de Deus? Que são esses deuses para os gregos? Veja que idéia maravilhosa que interpretação fina, os deuses homéricos para Nietzsche são espelhos, são espelhos em que os homens se olhavam e se viam nas imagens divinas, se viam transfigurados nas imagens dos deuses, se viam transformados, eles também, em figuras de sonho. A função educativa, se eu ouso dizer, da Epopéia era fazer o grego viver no mundo de sonhos. E essa idéia é muito interessante: olha ai, essa idéia foi algo que nos ameaça e vocês vão ver na imagem que logo depois eu vou citar, que é contra essas ameaças terríveis, sobretudo, no alto mar, onde você não tem terra firme, que os deuses foram criados, esses deuses da beleza, não estou brincando não.

(Ø Fala sobre a experiência no México de um terremoto durante uma palestra).

Então eu estava querendo chamar a atenção para isso, que esses deuses homéricos aparecem para os gregos como espelhos. Veja o que é a idéia de reflexão para os gregos, nós estamos acostumados a ligar reflexão ao conceito de subjetividade, no sentido de uma interioridade, não há sentido de uma profundidade. Eu queria dizer que esses gregos homéricos são pura superfície sem profundidade psicológica, não existe noção de livre arbítrio, não existe noção de vontade, isso são idéias posteriores na história da humanidade, não existe interioridade, não existe introspeção, em suma, não existe ainda consciência reflexiva. Então, o reflexo ou a reflexão é justamente essa imagem dos homens projetadas nos deuses, ou a imagem dos homens projetadas como deuses. Que fazia com que os homens se olhassem e se vissem nessas imagens divinas. O mundo Olímpico é um espelho transfigurador, esta é a idéia de reflexão. Eu vou explicitar essa idéia a partir de Apolo, como individualidade por excelência, como princípio de toda a individuação, na etimologia de Apolo, Nietzsche vai encontrar, esse primeiro Nietzsche, esse momento do nascimento da tragédia, vai encontrar duas características dessa imagem na qual o homem se projeta; é sobre isso que eu vou falar agora, o brilho e a aparência. Apolo é a divindade da luz, Apolo é fébu, o que significa fébu, é o resplandecente, Apolo é o brilhante, Apolo é o solar. Toda a teogonia é estruturada a partir destas metáforas do dia e da noite, da luz e da sombra; se vocês algum dia lerem o Zaratustra do Nietzsche, vocês vão encontrar esta idéia poética ali presente, eu tenho uma hipótese sobre isso de que o Zaratustra começa como apolínio, leiam a primeira coisa que o Zaratustra faz, no início do prólogo, é uma oração ao sol, é uma saudação ao sol. E ele desce para os homens para que? Para iluminar, até o momento, mais ou menos na metade da segunda parte do livro, em que ele vai cantar uma canção solitária, chamada “O canto noturno”, ele vai ter o desejo do outro lado, o desejo do que ele ainda não é, que é a sombra, ele vai ansiar por isso, vai desejar esse mundo sombrio, o mundo das trevas ele começa a se tornar dionisíaco mais do que Apolinio (corte / pop ). Pois bem, essa luminosidade predicada de Apolo, não é apenas propriedade sua, para Nietzsche ela pertence aos deuses olímpicos em geral. Esse brilho, essa luminosidade, ilumina os homens mesmo que os homens sejam reflexos imperfeitos dos deuses quer dizer, mesmo que, como lembrou Apolo a Diomédis na cena que eu narrei, mesmo que os homens não tenham o brilho que os deuses têm, que eles caem como folhas, então precisam secar. Olha, o interessante e essa seria a grande lição da Epopéia com relação a intensidade da vida, e é sobre isso que nós estamos falando o tempo todo, é que quanto mais gloriosos os indivíduos são, mais brilhantes eles estão. Pois bem, na Epopéia, a vida no apogeu da super abundância de forças é apresentada sobre a luz clara e ensolarada dos deuses, (mas o tempo que faz lá fora mostrou explicitamente , melhor que minhas palavras a todos vocês, que luz obviamente se opõe a trevas), conceber o mundo apolínio como brilhante é a estratégia grega homérica para lidar com o sombrio, para lidar com o tenebroso da vida; como diz o nascimento da tragédia, Apolo ultrapassa o sofrimento do indivíduo pela glória da luz. Essa idéia que sofrimento e morte está ligada a trevas é uma idéia bastante comum que há na teogonia grega. Quer dizer a visão onírica, essa visão de sonhos, esta visão é estática, ela é um protetor, um abrigo que permite olhar com a mesma alegria, o grave, o melancólico e o sombrio. Mas aí falta a última idéia: de que tipo é essa proteção? Lembra, acabo de dizer isso, os deuses olímpicos foram criados para proteger o homem contra o que existe de aterrador, tenebroso na vida. A proteção da epopéia (sobre a qual vou falar hoje) é um tipo de proteção, então, qual é a especificidade dela? Essa singularidade só pode ser entendida quando a gente falar do segundo aspecto da figura de Apolo, da imagem apolínia (não sei se vocês anotaram, eu disse luz e aparente). Apolo é o brilhante e Apolo é o aparente, é exatamente a temática da ilusão ou da ilusão artística, quero dizer, intrinsecamente ligada a idéia de brilho está a da aparência. Sabe-se que Nietzsche é marcado no nascimento da tragédia pelo pensamento de Schopenhauer. Era um Nietzsche jovem de 25 – 26 anos, que está escrevendo sobre idéias maravilhosas. Sabe-se, então, que o nascimento da tragédia se estrutura ou estrutura sua argumentação a partir de categorias, que eu poderia chamar platônica como aparência-essência Kantianas como fenômeno-coisa em si, ou então propriamente Schopenhauriana. Que é representação e vontade. Inclusive uma das originalidades do primeiro livro de Nietzsche com relação à crítica da metafísica racional é a valorização do termo que foi desvalorizado na correlação com o outro, não é, a metafísica valoriza a essência em detrimento da aparência. O que faz o Nietzsche? Valoriza a aparência, valoriza o fenômeno, valoriza a representação, através justamente de sua interpretação das figuras de Apolo e dos deuses olímpicos considerados como criações luminosas e aparentes de uma arte apolínia. Os deuses gregos são frutos de uma mentira poética, de uma ilusão artística, Nietzsche não era contra a ilusão, nem acha que em geral nós somos contra a ilusão, nós somos contra a ilusão que nos desfavorece, mas não contra a ilusão que nos permite viver (vocês se lembram de uma música do Caetano que diz, acho que é a Betânia que canta “Feia ou bonita ninguém acreditam na vida real”). A gente esta sempre criando a ilusão para o poder viver. O problema para Nietzsche é que ilusão você vai criar para dar sentido à sua vida, porque em si mesmo a vida não tem sentido, numa perspectiva nietzscheana, a vida é aquilo a partir do que você pode pensar o sentido, mas isso é uma outra questão. O que eu quero dizer é o seguinte, o que é a relação tão intima que ele estabelece entre brilho e aparência, que permite a Nietzsche pensar a proteção apolínia como; olhe aqui de que tipo é? Digo agora: a proteção que dá a arte homérica é do tipo de uma ocultação, de um encobrimento, quer dizer, se atormenta, pode nos ser aniiquiladora, destruidora, a gente faria o que vocês estão fazendo e delicadamente, ignora o que está acontecendo, põe uma cortina, põe um anteparo, põe o escudo de Aquiles para o que está atrás, que pode ser mortal, que é uma figura da morte. Portanto, essa proteção apolínia é ocultação, encobrimento, mascaramento, dissimulação. Segundo Nietzsche, a luz é uma ilusão, os deuses e heróis épicos são como que fantasmas, são miragens, miragens artísticas. (Corte na fita) Isso é que é interessante, que tem como função tornar essa vida desejável, (falei isso logo no início da minha palestra) não é uma religião de uma outra vida, é uma religião que tem como função trazer o gosto desta vida. Como? Ao transformar em fugas sensação de aparência, não só o que é agradável (isso é fácil), como também o que é sombrio, o poeta épico, o que é que faz? Isso é que é importante, alivia a vida, traz à vida prazer e alegria. Então retorna aquela idéia, os deuses são espelhos luminosos que os gregos colocaram entre eles e as atrocidades da vida. Já estou usando a metáfora que a própria natureza está nos oferecendo. Quer dizer se o insuportável do sofrimento exige a proteção da arte, como meio de tornar a vida suportável. Qual é a solução homérica? A solução homérica é velar, a solução homérica é encobrir o sofrimento criando uma ilusão (ilusão de beleza) que protege do caótico e do informe que é destruidor. E o que os gregos chamavam de dionisíaco bruto, selvagem, asiático, que eles temiam porque seria a dissolução de todo aquele projeto de constituição da família, do estado, da sociedade, da cultura e assim por diante, que é um projeto apolínio e que foi retomado, segundo Nietzsche, depois pela racionalidade metafísica, socrática e platônica; que ilusão é essa? É o princípio da individuação. O que é que eu estou querendo dizer e nesse sentido essa presença forte da natureza na manifestação de suas forças vai me servir a entender que essa criação luminosa e aparente de Homero que é o indivíduo, é o modo de aliviar a atmosfera opressora da existência, é o modo de triunfar do sofrimento apagando seus traços, ou então deles se esquecendo. Como Nietzsche escreve em um texto chamado “A visão dionisíaca do mundo”, o mundo brilhante do Olimpo só venceu porque era preciso ocultar pelas figuras luminosas de Zeus, Apolo, Hermes, etc. A sombria atividade de Meira, quer dizer, olha aí a metáfora, a sombria atividade do destino. É o grande problema, nós sofremos, nós vamos morrer e faz parte do destino e o melhor dos gregos, Aquiles, sabia que seu destino era ser glorioso, mas era morrer na guerra de Tróia. Esse mundo épico criador do indivíduo como luminosidade e aparência, possui (e essa vai ser minha conclusão) possui, solidamente unidas duas dimensões, uma eu chamaria de dimensão estética e a outra de dimensão épica e eu acho que a gente pode ter acesso a essa dupla dimensão através da noção mais importante, a meu ver, e é isso que eu deixei para o final, que é a noção de medida, e você tem duas noções importantes. Você tem a noção de medida e a noção de Híbris, a Híbris grega / vou falar sobre ela amanhã em Pelotas quando mostrar como Foucault retomou o trágico do Nietzsche para aceitar a razão e a loucura, nessa relação razão e loucura; pois bem, a Híbris é o que, a desmesura, então toda a problemática que está presente aqui é a da relação entre medida e desmesura ou desmedida, como equacionou essa relação, a epopéia equacionou de um modo, a tragédia equaciona de um modo diferente, como ter acesso a essa idéia de medida, na sua dimensão estética é a beleza, o grego é que inventou a idéia de beleza; e o que é beleza no sentido apolínio? Apolo é o deus da beleza, não sei se vocês já viram, quem já não ficou apaixonado, homens ou mulheres, pela imagem de Apolo, vejam as esculturas que sobram de Apolo. O que é que nós temos ali? A beleza no sentido de apolínio, de medida, de harmonia, de ordem, de proporção, de limitação. Apolo, deus da beleza, quer dizer, símbolo do mundo considerado como belo, o que significa dizer, como ilusório. Porque justamente a criação da beleza é a criação de uma ilusão. O poeta, esse mentiroso. Portanto, criação da beleza, criação do mundo da arte. O elemento de Apolo é a beleza, a bela aparência dos sonhos é o seu reino, significa dizer que Nietzsche, que mesmo irado, mesmo de mau humor, mesmo triste, a graça da bela aparência não o abandona. Portanto, é nesse espelho apolínio que se constrói a imagem dos homens como belos reflexos dos deuses, é isso que interessa a um grego homérico, ser belos reflexos dos deuses. Essa concepção apolínica da beleza é uma marca do estilo, é por isso que eu disse, leiam Homero, é uma marca da forma de expressão da Epopéia. Nietzsche não insiste, é verdade, muito neste aspecto, mas ele dá uma indicação importante a meu ver, quando no nascimento da tragédia, ele diz que a precisão, a clareza, olha a questão da luz, a clareza Épica, são efeitos do Apolo intérprete de sonhos. E neste texto que já citei a Agon em Homero, ele diz que nós somos transportados a esse mundo homérico graças a extraordinária precisão estética, como aqueles fatos são contados. Então veja, lembro que eu falei, da crueldade das lutas da espada que ultrapassa, que entra no maxilar e sai no olho e assim por diante, mas aquilo é contado com uma clareza e uma precisão tal que aquilo deleita o grego fazendo com que anestesie todo o sofrimento que está ali presente. Vejam o que é transformar realidade em sonho. Quer dizer, graças a essa precisão estética, quer dizer, graças a harmonia do estilo, graças a pureza de linhas da descrição que vai além do caos da existência material. Pois bem, se trata de uma ilusão artística que torna as cores mais luminosas, diz Nietzsche, que torna as cores ainda mais doce, esse é o aspecto estético. Mas, para concluir, eu queria chamar a atenção para o aspecto, talvez mais interessante, porque o mais educativo dessa experiência grega com esse mundo da aparência e da ilusão. É que essa dimensão estética da epopéia se liga intrinsecamente a uma dimensão ética. Quer dizer, a uma necessidade estética de beleza corresponde uma exigência ética de medida, portanto a medida não está só na base da estética, está também na base da ética, uma estética da medida mas também uma ética da medida, dentro da questão medida – desmesura. Então, o que é medida neste sentido, eu falei que beleza, medida como beleza era proporção, era harmonia, era clareza, era precisão de linhas, agora o que é que é medida? É calma, é jovialidade, é serenidade, não sei se vocês já pensaram nisso, é que na interpretação de Nietzsche dos gregos, serenidade e jovialidade quer dizer a mesma coisa. É por isso que Vernant chega a dizer que o objetivo dos gregos é a morte gloriosa, é horrível morrer como velho, veja que é o contrário da previdência, a gente só fala nisso no brasil, é o contrário com a preocupação da segurança na velhice, todo mundo moderno capitalista, burguês é ligado, é essa idéia da prevenção, da proteção, até o François Ewald, discípulo do Foucault escreveu um livro “estado – previdência”, que é uma diversão moderna. Pois bem, esse mundo heróico é o elogio, justamente, da jovialidade. Existe um velho na Ilíada, é um personagem maravilhoso, chamado Nestor, que como todo velho, fala muito, ele tem muita história para contar, ele recebeu um presente dos deuses, eu bem que gostaria de receber este presente, lhe foi dado viver três gerações, então há três gerações que ele luta em guerras, mas é verdade também que ele jamais desce do carro, ou pelo menos na conta que se faz, ele nunca matou ninguém, ele estava mais ao lado incentivando que exatamente na luta, e o que é super interessante é que na hora decisiva do combate ele está sempre se lamentando por não ser mais quem ele era antes, como ele diz, (nunca esqueci a frase): no tempo que eu matei Eleutalion (que nome estranho). Então ele, agora, podia se dar melhor naquele combate, mas ele é o mais velho, três vezes mais velho e portanto, muito mais do que os outros. Então eu chamava a atenção para isso, a medida como comportamento ético é jovialidade, é serenidade, é sapiente, é tranqüilidade, é limitação, o que ele chama de limitação mensurada. Dentro de um outro modo, é liberdade com relação as emoções, é você saber lidar com suas emoções, é o chega pra lá que o Apolo deu no Diomédis, conheça o seu lugar. Vocês todos conhecem o preceito também de apolínio: conhece-te a ti mesmo, quem não conhece a si mesmo está roubado. Você vê como Platão se apropriou disso, e transformou num pensamento de consciência, de reflexão, de um pensamento racional, não tem esse sentido originalmente. Estou querendo dizer o seguinte, Apolo, deus da bela aparência, é também divindade ética da medida, quer dizer, faltava esta palavra, dos justos limites, você tem que saber até onde você pode ir, isso é idéia que, por exemplo, o Nietzsche aprofundou bastante, é uma idéia que foi muito retomada na interpretação Deleuziana do Nietzsche, pela filosofia de Deleuze de uma maneira geral, que ele encontra isso em Espinosa. Vou fazer mais um parêntese, porque vocês sabem que, em uma palestra, os parênteses é que são interessantes – Espinosa era alguém para quem não existia bem e mau como valores universais. Existia o bem para mim, o mau para mim. Quer dizer, cada um, como dizia Caetano, cada um deve conhecer o seu bem e o seu mau, não é, se a gente vai para um bar é você quem deve saber quantos wisques ou quantos chopp você precisa para ficar em ponto de bala, talvez até nem precise nem de chopp nem de wisque, isso é melhor ainda, é a postura mais sabiamente trágica, é se embriagar com um copo de água. O dia que vocês chegarem lá estão bem. Pois bem, o que é interessante é que a medida de um não é a medida do outro, não é, portanto, porque o outro lhe disse faça assim, que você se dará bem, que você intensificará sua forças se você fizer. Portanto, conhecer o justo limite, não cair na desmesura, desmesura que foi a de Diomédis na sua Aristéia e que vai ser também, embora eu não tenha podido falar muito dela, a desmesura de Aquiles, vocês sabem que depois e foi assim que acabou a história, que depois de matar Heitor não satisfeito com isso, porque Heitor tinha matado seu grande amigo, seu companheiro, é Petroco, ele toda a noite faz um passeiozinho no seu carro arrastando o cadáver de Heitor para mutilá-lo o máximo possível. Como Heitor era amado pelos deuses e também, a deusa vai lá, unta ele com uma substância que eu não sei infelizmente qual era, onde as carnes não apodressem nem se corrompem, se vocês saberem o segredo, vocês dividem comigo, seria um segredo apolínico por excelência. Pois bem, os deuses ficam revoltados, e para quem não tiver muito tempo, eu diria, leiam somente o último canto do livro, é o 24, o encontro maravilhoso do Aquiles com o pai de Heitor, que vem buscar o cadáver do primo sozinho, mas mandado pelos deuses. Ele consegue penetrar no acampamento grego sem ser visto e exige de Aquiles, e, é um encontro maravilhoso, encontro de dois homens, dois guerreiros, de duas figuras apolínias. Pois bem, Aquiles devolve o cadáver e escapa da desmesura justamente por conhecer o seu justo limite, até onde ele pode ir e até onde não deve ir. Então eu dizia, além de deus da beleza, Apolo é o deus ético, porque é o deus da medida e do justo limite, e aí essa face de Apolo, esta face do indivíduo apolínio, e eu estou chamando atenção para a função, o papel pedagógico que essas idéias tinham para a sociedade grega é ilustrada no livro do Nietzsche: “O nascimento da tragédia”, como uma comparação maravilhosa que o Nietzsche tira de Schopenhauer. Olha o que é ser apolínio. A metáfora é essa: assim como um barqueiro em meio a um mar enfurecido, um mar da mais terrível tempestade, imaginem, um barqueiro em seu barquinho, num mar enfurecido, está sentado em seu bote, confiante na frágil embarcação, assim também em meio a um mundo de tormento, olha ai a questão da dor, do sofrimento, do aspecto tenebroso da vida, o indivíduo apolínio, está sereno, está tranqüilo, apoiado e confiante no princípio da individuação. Eu diria, a serenidade apolínia é o emblema da perfeição individual. E para que esses limites apolínios sejam mantidos, apolo vai exigir do indivíduo o conhecimento de si, junto com nada em demasia, que é um dos princípios de Apolo, nada em excesso; nós temos o outro correlato, o outro princípio sagrado escrito no templo de Apolo, conhece-te a ti mesmo, ai eu lembro, conhecimento de si que não é introspecção psicológica, que não é constituição de um mundo interior, de uma consciência reflexiva, conhecimento de si que é um espelhamento, olha aí os deuses como espelho, deuses como espelho criado pelos homens para eles se divinizarem na própria vida. Um espelhamento, portanto, na figura, na imagem do deus Apolo, um jogo de espelhos pelo qual o homem se vê como um belo reflexo do deus da beleza e da medida, que eu mesmo havia criado. Portanto, eu concluiria dizendo o seguinte: a prescrição ética da medida, da manutenção dos limites do indivíduo e a proscrição da desmesura, aquilo que os deuses consideravam como sendo excesso de orgulho, no qual caiu até Aquiles, o maior dos gregos, sempre mereceu de Nietzsche grandes elogios, quer dizer, Nietzsche é um filósofo que sempre fez esse elogio de uma ética da medida, posso citar um fragmento póstumo do último período, eu fiquei no primeiro período de Nietzsche, Nietzsche de 24 anos, 25 – 26, posso agora citar o último Nietzsche do final da década de 80, fragmento póstumo, quer dizer, não publicado, que se lê: o gosto grego, do grego da bela época, é essa época opolínia, implica que se é mestre da profusão de formas vivas, implica que se impôs a medida, a medida fundada na calma, na serenidade da alma forte, na alma do forte. Não sei se vocês conhecem a maravilhosa frase de Nietzsche: o que não me mata me fortalece. Que é uma idéia trágica. Essa idéia da medida como um princípio ético que aparece nesse aforismo pode ser completada por dois aforismos da mesma época, um diz o seguinte: a aversão dos gregos ao excesso, a aversão dos gregos a Híbris, quer dizer, ao ser que ultrapassa seus próprios limites, portanto, o amor grego pela medida é algo bastante aristocrático, ai vocês vejam qual o sentido de nobreza e aristocracia, é algo que deve-se a mais antiga nobreza, quando Nietzsche fala de aristocracia e nobreza, ele está falando do grego Apolínio; o outro, e eu diria, para concluir, dá um motivo pelo qual se tornou difícil compreender a idéia grega de medida e achar que a medida não é um bom princípio de vida. Diz Nietzsche, é que a relação, a idéia é essa, entre moderação e fraqueza tornou-se própria do ascetismo moral e religioso, foi o ascetismo moral e religioso posterior que elogiou uma moderação ligando a fraqueza. O Nietzsche é terrível com relação a isso quando ele diz para a gente, nesse livro cruel que é “o nascimento da tragédia”, mais ou menos assim, a frase não é esta, eu estou improvisando: – Rio-me dos fracos que se sentem bons porque tem as mãos aleijadas, eles se pensam bons mas é porque eles não podem nem fazer mal aos outros então são bons. Transformam sua fraqueza em bondade porque se comportam como carneiros, tratam como maus as aves de rapina e o Nietzsche justamente, eu falei no início, que ele considera o homem moderno fraco, esse amolecimento do homem moderno seria justamente isso, a transformação, digamos do leão que existe em nós, em animal doméstico. Ele diz que o leão de circo não é o leão que aprendeu a ser bom, o leão de circo é o leão que saiu quebrado, entende, aprendeu a ser um leão bonzinho a força de pancadas. Portanto, seria essa relação entre moderação e fraqueza que fez esquecer o que Nietzsche chama de moderação dos fortes, que o gosto pela beleza proporciona medida, que é o prazer que as naturezas artísticas têm na medida, e o Nietzsche acaba esse aforismo dizendo o seguinte: que é como o prazer do cavalheiro numa terra que tem pampa (é bonito a gente falar tudo isso), que monta o cavalo fogoso, pois bem, eu acho e é isso que eu vim trazer aqui para vocês, que uma das grandes sugestões da filosofia de Nietzsche é que o homem moderno volte a ser como esse cavaleiro que monta o cavalo fogoso.

[1] Transcrição da palestra realizada no PPGeducação –UFRGS em 1995.

MILONGA DOS NEGROS (JORGES LUIS BORGES, CAETANO VELOSO E VITOR RAMIL). Letra em português.

TRADUÇÃO EM PORTUGUÊS

Minha voz, senhores, como
Quem joga truco, eu levanto
Para celebrar a gente
De cor negra no meu canto.

Para ingleses e holandeses,
Eram o negro marfim,
E aqui os desembarcavam
Depois de meses sem fim.

Lá no bairro do Retiro
Houve um mercado de escravos;
Determinados que eram,
Muitos provaram ser bravos.

Esqueceram seu país
De leões quando meninos
E a esta terra os habituaram
Os costumes e os carinhos.

Quando a pátria, numa certa
Manhã de Maio, nasceu,
O gaúcho só sabia
Lutar montando um corcel.

Alguém viu que os negros eram
Patriotas, destros, ferrenhos
E formou-se o Regimento
De Pardos e de Morenos.

O sofrido regimento
Cujo número era seis
E do qual disse Ascasubi:
“Mais bravo que o galo inglês”.

E assim, na margem oposta,
Esse bando negro, ao grito
De Soler, arremeteu:
Foi no ataque do Cerrito.

Martín Fierro matou um
E é quase como se houvera
Matado todos. Sei de outro
Que morreu pela bandeira.

A cada tarde no Sul
Olha-me um rosto moreno,
Trabalhado pelos anos
Tão triste quanto sereno.

Em que céu de longa sesta
E tambor estão agora?
O tempo que é esquecimento,
O tempo os levou embora.

© JORGE LUIS BORGES
In: Para as seis cordas, 1965
(Para las Seis Cuerdas)

Rezem por Rimbaud. Humor da palavra desordem, voluntarista.

PALAVRA DESORDEM (Vitor Ramil)

Queimem os navios
Pisem cada vértebra do chão
Soquem o vazio
Soltem o veneno e o palavrão
Desafiem cada manhã
Ignorem noites de frio

Rezem por Rimbaud
Mandem o destino começar
Rimem com furor
Mudem cada coisa de lugar
Toquem sinos, batam tambores
Emudeçam feras e hinos

Façam a revolução

Rompam, desarrumem, desacatem
Zombem de Bonaparte
Desafinem, descompassem
Toda valsa sem arte
Façam troça, achem graça
Riam no desenlace
Sem miséria, sem trapaça
Lancem tudo pro ar

Rompam os varais
Ergam barricadas nos jardins
Gritem com o olhar
Salvem suas peles por um triz
Inaugurem formas de ser
Sejam um começo sem fim

Façam a revolução

Movam, desalinhem, desencaixem
Mostrem do todo a parte
Alegria e desastre
Juntos num estandarte
Ponham festa, ponham fausto
Ponham fé no que valha
Ponham febre, ponham alma
Ponham fogo no mar

Queimem os navios

FRANNY DELEUZE. Um foda-se pra boa ordem e pro progresso

É verdade que chutar ou não Bento como um cachorro morto foi para os filósofos europeus uma verdadeira questão, e, como vemos em Hegel, que trancava o cu só de pensar em ser confundido com Spinoza, uma real fonte de angústia, a pior merda que podia suceder a um filosofo enrabichado pelo absoluto era acabar na sarjeta com um judeu: o cagaço do informe, de só chegar, pelo excesso de unidade, a uma boca ou um buraco escancarado, um abismo obscuro onde soçobram todas as diferenças, está sempre ligado nele ao medo atrapalhado de sua própria mácula excrementícia e da denúncia pública que vem de todo jeito. Acusado pelos seus de ter dissolvido o mundo no indiferenciado, o filósofo sente- se tão abjeto quanto aquele que, caminhando na cidade com um chapeu de bosta, é oferecido indefeso à vindita odienta do burguês. Quem tem cu tem medo. Ele mede o valor de sua obra pelo respeito com que o tratam na rua. Quem quer entrar na carreira, ainda que não possa apresentar-se sebento, experimenta, no entanto, a contínua possibilidade de sua brusca queda na lama da sarjeta. Pois os filósofos estão tão afim de ceder a passagem àqueles que pretendem calcar seu caminho quanto os cristãos a partilhar o meio-fio com um judeu. É uma história do arco da velha, que carrega com ela uma distribuição especifica, mediterrânea e greco-latina, dos papéis do amigo e do inimigo, do puro e do impuro, da origem e da existência, e de suas relações com o corpo e seus orifícios, principalmente a boca e o fiofó, e tão próximas as vergonhas, todos compreendidos como órgãos de morte e indiferenciação. Isso não ajuda lá essas coisas para compreender a alucinação americana e esquizofrênica de Bento. Apenas, talvez, um filósofo embeiçado por sua mulher ao ponto de lhe dar o nome de um personagem de Salinger sabe o que é a esquizofrenia. Como o menino coisa a bicha. Ter um amigo psiquiatra não basta. É preciso uma mulher de romance americano: uma americana. Para saber que a esquizofrenia é americana, que ela é uma capacidade estrapolada de viver os movimentos gigantescos e desregrados que realizam na escala da história universal passagens monstruosas entre os continentes e as raças, as culturas e as sociedades, mesclando seus destinos e seus conceitos a ponto de efetuar transformações reais, de criar seres desconhecidos que nenhuma das categorias por meio das quais a Europa agencia seus possíveis pode mais explicar. A Floresta tropical úmida alucina no Brasil Grandes Senhores africanos de quilombos, pajés, psiquiatras-soberanos fantásticos de autênticos Reinos bantos, negros e indígenas, que inventam para os párias judeus e todos os fugitivos que um dia caíram na mesma sarjeta, novas terras de exílio encantadas. Ela fabula seres de lenda, tão aberrantes quanto Felipe Camarão, o Templário potiguar, o nativo latinizado, promovido pelos portugueses à dignidade de comandante da Ordem de Cristo, por ter, à frente de um exército indígena, botado pra correr as hostes batavas de Pernambuco. Colocado na borda dos movimentos prodigiosos que provocou, a uma só vez atraído para eles, arrastado por seu turbilhão imprevisível e desordenado, e colocado na retranca em relação a eles, excluído deles, ao mesmo tempo observando e sendo empurrado pra borda numa curiosa estação instável, em tensão, duma lapada dinâmica e estática, o colono só vê alucinando com o olho da própria floresta: gigantes, seres desmesurados, exuberantes, monumentais, Henriques Dias, Gangas Zumbas, Zumbis. Esse ponto de vista é aquele do brasileiro, de todo brasileiro, porque ele é e continua sendo um colonizador, um colonizador permanente sempre situado nesse mesmo lugar, na borda do espaço colonial, mata, sertões, chapadas ou veredas. Da banda de cá, ele continua a bispar os movimentos anárquicos dos grupos heterogêneos que povoam o Brasil e nele sempre reincidem: bandeirantes, caçadores de homens e ouro, exércitos insurgidos de escravos que picaram a mula e tropas reais afro-indígenas, hordas vingativas de roceiros, jagunços e cangaceiros, exército iluminado dos povos rebeldes de Canudos, galeras das favelas. Nenhuma história nacional, nenhuma ordem instituída do tempo dará conta de dissociar e organizar essas matilhas de homens, que, mergulhando num mesmo banho de sangue e de porra os estados sociais e as etnias, cozinham na mesma panela todas as épocas e percorrem o espaço colonial como o único tekoá anacrônico do mundo, o tekoá absoluto em que se comunicam todos os tempos humanos. “Jagunço” não designa em primeiro lugar uma arma africana? Uma daquelas mesmas lanças de bambu que valeram a Camarão e a Dias a vitória de Guararapes contra os holandeses impedidos de usar seus paus de fogo? O cinema de Rocha mostra-o bem a quem quiser ver pelo olho de Glauber: o brasileiro não para de alucinar, apesar de todos os esforços das autoridades religiosas e políticas para exibir os cadáveres e datar sua morte, as figuras messiânicas e reais que cristalizam essas contradanças aórgicas de sublevação revolucionária e de fanatismo retrógrado, Antônio Conselheiro ou Lampião. Figuras tão cruéis quanto o Bem-te- vi da Rocinha, Erismar Rodrigues Moreira, cujo reinado criminoso e popular ainda tem tudo a ver com a glória dos bandidos de honra do Sertão que ele faz renascer sobre os morros do Rio para onde os guerreiros de Canudos transportaram com eles o Morro da Favela. Um nome de pássaro pra um chefe de bando? Nãnãnãnãninha. Pois trata-se já de um apelido: um apelido partilhado com um pássaro. Uma curiosa aliança com o animal, assim como a cidade sem Estado atrepada no morro estabelece uma curiosa aliança com o vegetal, com uma planta de garrafa do sertão, tóxica e medicinal: a favela. Mas não qualquer pássaro: esse passarinho onipresente de uma presença de tal modo tinhosa que parece, por toda parte onde se escuta seu canto, nas ruas da Urca ou nas veredas de Minas, tratar-se sempre do mesmo pássaro, de um único e mesmo bem-te-vi que Riobaldo ouvia: “que era um bem-te-vi,.exato, perseguindo minha vida em vez, me acusando de más horas que eu ainda não tinha cometido”. O Bem-te-vi da Rocinha, reizinho nagô da favela, com pistolas de ouro, pássaro ubiquista de um jardim plantado com flores que existiram alhures no antes. Pois os movimentos extravagantes dos povos que dançam no meio do terreiro do espaço colonial tocando um foda-se pra boa ordem e pro progresso, porque deslocam com eles blocos inteiros de territórios e desfazem toda correspondência como toda violência tolerável entre as etnias e as classes, abolem tanto as fronteiras do humano e do não-humano quanto as identidades territoriais, culturais e sociais, têm, no final das contas, a vocação de proteger. Há séculos, o colono que ficou em seu primeiro cais não cessa de olhar do litoral todas essas multiplicidades furiosas dos sertões ou das escarpas inconstruíveis do Rio. A baía que ele habita há décadas continua sendo a baía de seu desembarque em que ele se sustém e na qual não para de se recriar. Pra quem não provou da descoberta da America, de sua invenção, nunca que vai cair a ficha: não é verdade, aqui, que o “aí” (como dizem os alemães) a partir do qual a existência eclode e abre-se um mundo, não é um lugar, um torrão natal onde ser aí, justamente nesse lugar, equivale a ser tragado pela existência. Cais: quando Elis Regina e Milton Nascimento inventam um cais e um mar, não é pra sair ao largo, escafeder-se dali, mas para ali voltar, voltar ao litoral onde o solitário, o melancólico europeu fraco em existência e em mundo reata-se às matilhas heterogêneas do Brasil. O litoral é tanto borda do mar quanto borda do país: se o Sertão vai um dia virar mar, oceano Atlântico, e o mar Sertão, será graças ao litoral, ao sortilégio dessa bordura cosmogônica. Qualquer um, nessa borda, pode ser com todo direito acusado pelo bem-te-vi de todos os crimes do Brasil. Quem acredita ainda (encontra-se gentinha assim!) que o carioca progressista dos bairros ricos não tem nada que ver com todos os assassinatos perpetrados por todos os capangas do Brasil desde os primeiros tempos da colonização, assim como com todos aqueles (os infames!) que projetam ainda cometer, tá viajando na maionese.