ATÉ QUANDO SUPORTAREMOS A PIORA DO PIOR?

Para não cansar meus jovens amigos, tenho evitado escrever neste espaço evanescente. Porém, com a recente invasão francesa sobre nosso pré-sal, invasão acolhida pela canalha golpista, sinto-me obrigado a dizer algumas coisas a vocês. Quando a ditadura militar se instalou em abril-maio de 1964, meu corpo era ainda relativamente jovem. Então, meu espírito democrático me dizia: se não conseguirmos restaurar a democracia em pouco tempo, sabemos, pelo menos, graças a informações biológicas, que viveremos mais do que esses velhos ditadores, de modo que um dia restauraremos a democracia e viveremos de modo mais decente. Cálculo perigoso, pois foram muitos os jovens mortos pela ditadura comandada por velhos. Os que sobramos da geração democrática de 64 achamo-nos, agora, numa situação dolorosa e ridícula: estamos mais velhos do que a idosa canalha golpista de 2016. Vê-se que essa gentalha golpista é herdeira do oportunismo de baixo nível patriótico e do elevado senso de assalto às oportunidades de enriquecimento instantâneo. Isso não me era tão visível nos ditadores de 64 a 83. A coisa virou muito deslavada, sem vergonha em todos os níveis dos poderes que estão apodrecendo nossa república globolosa. É diante disso e contra isso que estou, neste momento, pensando nos meus jovens amigos: cuidado com a sensação de juventude: de um lado, tudo é quase gostoso e belo; de outro lado, ela acha que haverá tempo para tudo, para retomar a democracia e de ter ainda muitos anos para vivê-la num Brasil capaz de cuidar de si, de sua gente e de suas riquezas. Estejam atentos. Por que? Porque essa geração golpista é muito mais canalha e ensina o pior aos outros jovens de hoje: ensina o desprezo ao povo, o ódio às minorias, o gosto de associar-se ao assalto às riquezas nacionais; ensina a submeter a democracia ao que há de pior na vertente das negociatas. Ela não quer educação e saúde, ela quer treinar o mau-caratismo e reduzir a pobreza através da morte. Estejam atentos, porque eles, a cada segundo, desencadeiam a piora do pior. É a cada segundo que eles destroem a juventude de vocês. E destroem os sonhos democráticos da minha juventude. Mas vocês não são responsáveis pelos meus sonhos. Cuidem dos seus.

Anúncios

“Tudo fora, errante” (Pirandello e Deligny e Janmari)

Nenhum nome resta, nenhuma lembrança, hoje, do nome de ontem – ou do nome de hoje, amanhã. […] Esta árvore, respiro trêmulo de folhas novas. Sou esta árvore. Árvore, nuvem. Amanhã, livro ou vento: o livro que leio, o vento que bebo. Tudo fora, errante.
 
Saio todas as manhãs ao alvorecer, porque agora quero conservar o espírito assim, fresco como a aurora, com todas as coisas recém-descobertas, ainda impregnadas do gosto cru da noite, antes de o sol as ofuscar e ressecar sua umidade orvalhada. Aquelas nuvens de água lá em cima, pesadas de chumbo, amassadas contra os montes lívidos, que fazem parecer mais largo e mais claro aquele verde trecho do céu, por entre as manchas de sombra ainda noturna. E estes fiapos de grama, também tenros de água, impregnados do vivo frescor das margens do rio. E aquele burro lá, que passou a noite toda ao relento e agora tem os olhos apagados e relincha nesse silêncio que está tão próximo dele, mas que aos poucos parece que vai se afastando, quando começa clarear ao seu redor, sem causar espanto, com essa luz que se espalha de leve sobre as planícies desertas e atônitas. E essa estradinha aqui, cortada entre colinas escuras e muros gretados, que parece parada na ruína de seus sulcos, sem levar a lugar nenhum. O ar é novo. E tudo é o que é, segundo a segundo, iluminado de vida. Desvio de repente os olhos para não ver cada coisa se fixar na sua aparência e morrer. Só assim consigo me manter vivo, renascendo a cada segundo e impedindo que o pensamento se ponha de novo a trabalhar, reabrindo por dentro o vazio de suas vãs construções.
 
A cidade está longe. Às vezes me chega na calma da tarde o som dos sinos. Mas agora eu ouço esses sinos não mais por dentro, mas de fora, como se eles tocassem por si, talvez vibrando de alegria em sua cavidade sonora, suspensos no belo céu azul, cheios do calor do sol misturado ao som das andorinhas ou do vento de nuvens pesadas e altas, pairando sobre os campanários aéreos. Pensar na morte, rezar. Há ainda os que necessitam disso, e os sinos tocam também por eles. Eu não preciso mais disso, porque morro a cada segundo e renasço novo e sem lembranças: vivo e inteiro, não mais em mim, mas em cada coisa externa.
(luigi pirandello)
(deligny-janmari)

Bob Dylan: Fornecer a meus pensamentos fechados uma corrente de ar fresco..pensando pensamentos que não foram pensados ..então juntem-se todos, procuradores gerais o mundo não passa de um tribunal,sim, mas conheço os acusados melhor que vocês e enquanto vocês se ocupam em julgá-los nós nos ocupamos em assobiar limpamos a sala de audiência varrendo varrendo escutando escutando piscando os olhos entre nós, atenção, atenção sua hora há de chegar.

…não, por favor, um ladrão de almas

eu construí e reconstruí

sobre o que está à espera

pois a areia nas praias

esculpe muitos castelos

no que foi aberto

antes de meu tempo

uma palavra, uma ária, uma história, uma linha

chaves no vento para que minha mente fuja

e fornecer a meus pensamentos fechados uma

 corrente de ar fresco

não é coisa minha, sentar e meditar

perdendo e contemplando o tempo

pensando pensamentos que não foram pensados

pensando sonhos que não foram sonhados,

idéias novas ainda não escritas,

palavras novas que seguiriam a rima…

e não ligo para as novas regras

já que elas ainda não foram fabricadas

e grito o que soa em minha cabeça

sabendo que sou eu e os de minha espécie

que faremos essas novas regras,

e as pessoas de amanhã

tiverem realmente necessidade das regras de hoje

então juntem-se todos, procuradores gerais

o mundo não passa de um tribunal

sim

mas conheço os acusados melhor que vocês

e enquanto vocês se ocupam em julgá-los

nós nos ocupamos em assobiar

limpamos a sala de audiência

varrendo varrendo

escutando escutando

piscando os olhos entre nós

atenção

atenção

sua hora há de chagar.

Bob Dylan

 

Máquina de guerra (estética e política) que desinveste a lógica do inconsciente colonial

René Descartes vem ao Brasil quando da missão holandesa comandada por Maurício de Nassau, no século XVII. Descartes de fato se alistou no exército holandês na época de Nassau, embora nunca tenha vindo ao Brasil naquelas condições, venho de outro modo, mais tarde, sem contaminações recíprocas.

É dessa viagem que trata Catatau (link para o livro de Paulo Leminski em pdf abaixo)

Trata-se de invenção de mundos possíveis plenamente reais

Catatau

https://lelivros.top/book/baixar-livro-catatau-paulo-leminski-em-pdf-epub-e-mobi-ou-ler-online/