vídeo da palestra “concepções de cultura na universidade pública” com João Adolfo Hansen (USP – 2014).

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POR UM FIO entre desejo e transformação – Luiz B. L. Orlandi

Encontro com o filósofo Luiz B. L. Orlandi sobre o tema do desejo na atualidade por ocasião da apresentação de TRANS de e com Maura Baiocchi

Temporada de solos da Taanteatro Companhia
Projeto “Pensamentos em Performance”
Coordenação: Wolfgang Pannek

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– O que tentarei fazer aqui é uma simples declaração de bons afetos.

– Sei que sou co-responsável pela minha presença neste território, atendendo ao generoso e honroso convite de Wolfgang Pannek, co-diretor desta Taanteatro Companhia, deste teatro coreográfico de tensões [2013, p. 9]. Grifo a palavra tensões, porque sei também que me sinto tenso-emaranhado numa variedade de apertos. São apertos modestos, é claro, que não proliferam essa magnífica arte das multitensões. São embaraços linguageiros e até logofânicos, por assim dizer. Logofânicos, sim, não no sentido de uma impossível encarnação do verbo divino, ou de alguma interpretação salvadora, mas por efeito desta simples pergunta: que posso dizer depois de tudo isso que fui levado a ver, a sentir, a lembrar, a imaginar, a pensar…, enfim, depois de tudo isso que me invadiu por força do tocante e imprevisível desempenho de Maura Baiocchi nos movimentos dançantes do seu Trans-Golem?

 

Orlandi2014

– Ao revelar que me sinto tenso-apertado, já estou dizendo alguma coisa, é claro. Mas dizendo como quem? Quem, neste mim apertado, está sendo levado a falar? Dos ocupantes do território ‘orlandi’, qual deles se sente levado a dizer algo neste momento? Peço que vocês acolham minha resposta: aquele que, em mim, se sente levado a dizer algo neste momento não é um tal de Luiz Orlandi ‘ligado à filosofia’, a não ser que a expressão ‘ligado à filosofia’ esteja funcionando aí como simples categoria social ou, no melhor dos casos, como quem é consciente de sua profunda ignorância, que nem mesmo se eleva à linha aberta pela ignorância aprovada por Pitágoras no séc. VI a.e.a, ou àquela aberta pela douta ignorância de Nicolau de Cusa no séc. XV e.a. Tenho consciência de que minha ignorância em face dessa arte é uma simples ignorância qualquer.

– E é justamente isso que me obriga a perguntar: em que condições uma ignorância qualquer é aberta ao aprendizado e devém consciente de si? Experimentamos que isso acontece justamente quando a ignorância da gente é tomada por intratensões. No âmago da ignorância, um estado de intratensões é desencadeado por força daquilo que, nos encontros, afeta as dimensões de um poder de ser afetado, noção esta que a gente deve a Espinosa desde o século XVII e que Deleuze revalorizou no século passado. Então, se meu poder de ser afetado foi tocado pela performance de Maura, certamente algo em mim expressará esse encontro, mesmo que minhas expressões não ganhem palavras. Por si sós meus aplausos e sorrisos dão testemunho da minha ignorância abrindo-se num transe de aprendizado. Ela recebe uma vitalizante novidade, embora não tenha e possa jamais vir a ter palavras suficientes para dizê-la.

– Entendam a razão dos meus apertos: estou aqui, a convite, para dizer algo, quando poderia estar escondido entre vocês aí, curtindo em silêncio um redemoínho de emoções sem palavras.

– Wolfgang, autor do convite, como já disse, me salvou antecipadamente de um dos tentáculos desse aperto. Como? Oferecendo um título para minha fala: “desejo e transformação”. Mas, assim fazendo, ele, embora sem maldade, quero acreditar, lançou-me em novo emaranhado de apertos: como levar esse tema — desejo e transformação — a ganhar consistentes ressonâncias com o que acabo de sentir em face dessa peça taanteatral?

– Para ser intelectualmente honesto, devo adiantar que essa tarefa me é facilitada por aquilo que já li a respeito das configurações conceituais investidas nas pesquisas e criações práticas e teóricas do Taanteatro, material disponível em pelo menos dois livros assinados por Maura Baiocchi e Wolfgang Pannek: Teatro coreográfico de tensões. Rio de Janeiro, Azouque Editorial, 2007; e MAE. Mandala de energia corporal. São Paulo: Transcultura, 2013.

– Mas, por que estou dizendo que esses livros me facilitam a tarefa de pontuar ressonâncias entre minha deriva pelo tema ‘desejo e transformação’ e o que já vi e senti diante de cenas de taanteatralidade?

– Eles facilitam, primeiramente, porque não preciso discutir com eles e nem julgar o modo como eles mobilizam conceitos que interessam também a mim, conceitos colhidos principalmente em Artaud, em Nietzsche, em Deleuze, Guattari etc. Então, nos próximos parágrafos, farei com que meu tema vá se envolvendo com as ajudas que recebo desses livros.

– Em segundo lugar, esses livros facilitam minha tarefa, porque, ao valorizarem uma criativa liberdade na combinatória de conceitos, o fazem à distância de dois tipos de problemas: o problema do “‘falso-ou-verdadeiro'” e o problema do ‘”teórico-ou-empírico'”. Eles combinam coisas e conceitos em função de um “problema” real, realmente vivido e não meramente borbulhado por falatices ou falabundagens.

– Qual é esse problema? É um problema que se cria e se recria nos encontros dos existentes. Cada encontro pode oscilar entre operar como “‘vitalizante-ou-destrutivo'”, como ‘”ativo-ou-reativo'”. É esse o problema que invade o performer nas cenas do Taanteatro, obrigando-o a oscilar ardilosamente entre esses polos. Por isso, esse problema é dito problema da “esquizopresença”. As formas de tensões que se produzem nas cenas correspondem à esquizoprezença de uma “vontade de tensão” que captura o performer. Essa vontade de potência, que é uma virtude, devém, no performer, uma “vontade de mistura e de composição, gerando uma perspectiva de fecunda imprevisibilidade que potencializa a cena”. Por que potencializa a cena? Porque o tensor desse devir é uma disparação intensiva que zarpa, com sua potência transformadora, por entre presentes quaisquer, seja uma sombra, uma luz, uma imagem, uma dura ou fugaz materialidade, um pedaço de palavra, um alguém, um seio, um pé, um sorriso….

– Em resumo, esses livros facilitam minha tarefa porque ensinam que a experiência do performer nas disparações por entre presentes leva-o, também a ele, a um precioso aprendizado: o de “discernir e aproveitar qualquer encontro (bom ou mau) em função da potência do acontecimento cênico” [2007, p. 75].

– Pois bem, o tema desejo e transformação já se envolveu com esse abusivo resumo que fiz de uma breve passagem por esses livros.

– Primeiramente, esse resumo obrigou o tema a se aproximar de alguma linha de conexão entre viver e criar em arte. Acho que todos, de uma maneira ou de outra, com fracassos ou sucessos, vivemos a experiência de que esses verbos, viver e criar em arte, são riquíssimos em correr riscos. Assim como o viver, o criar em artes sempre esteve por um fio.

– Pois bem, que fio é esse? Que nome dar a ele? Seja qual for o ponto de vista, a gente goza de uma grande liberdade para dar nomes a esses bichos. Do ponto de vista das suas exposições, das suas atualizações, esse fio volta a ganhar aqui o nome de fio de METAMORFOSES, com ênfase na palavra metamorfoses. Por que essa ênfase? Porque, seja por onde for que o fio passe, operam-se mil e uma variações de formas num crescendo da metaestabilidade dos mundos, seja nos mundos da vivências, seja nos mundos das criações em arte. Durante séculos as formas gozaram do maior privilégio na relação hilemórfica entre matéria e forma, como bem viu Simondon. As formas prestaram imensos serviços aos transcendentalismos, aos apriorismos, aos alentadores de possíveis aquém do real. Até que o próprio fio se cansou de ser pensado apenas em função das formas das quais ele era um fio de transformação, um FIO de metamorfoses, com ênfase no próprio fio.

– Assim, do ponto de vista de suas mais próprias imposições, não mais apenas de suas exposições atuais em formas mil ou das suas capturas transcendentalistas, esse fio enfurecido ganhou outro estatuto filosófico. Ele se impôs, mas na imanência, como princípio não mais condicionante e sim como virtual e dionisíaco princípio incondicionado, isto pé, como devir, como eterno retorno da nietzschiana vontade de potência ou da espinosana potência implicada no poder de ser afetado. Seu modo de se impor no jogo de forças que ferve nos encontros é o da virtude doadora, da imanente produtividade, do desejo enquanto princípio imanente da variação natural, social e histórica. É como virtualidade das diferenciais disparações intensivas nos encontros que o desejo, enquanto fio de metamorfose, se impõe nas virtualizações do viver e do criar em arte e se expõe nas multi formas que os atualizam.

– Essas aproximações conceituais querem também sugerir um cuidado: o de não submetermos a potência do acontecimento cênico, tal como visada pelo Taanteatro, a um desejo reduzido a desejo desta ou daquela forma. Ao desejo nada falta; ele é potência criativa irredutível à busca prazerosa de algum objeto. No Taanteatro, a potência desejosa corresponde a uma criativa vontade de tensões capaz de se expor de múltiplas maneiras numa inexaurível variedade de formas, mas formas eminentemente coladas à tensionada matéria intensiva. O jogo contemporâneo dessa arte escapa da peneira feita de matéria e forma, peneira esta sempre usada pelos que trocam realidades por representações. Só uma peneira feita de matéria e forças, de matéria e tensões pode colher alguma coisa dessa arte. Como tecer essa peneira sem plena abertura conceitual às disparações intensivas que nos chegam das cenas? Como corresponder à esquizopresença do performer sem nos deixarmos tecer por uma esquizorrecepção, por uma esquizocontemplação? São as perguntas que voltam a me aconchegar agora.

Luiz B. L. Orlandi

São Paulo, 13/12/2014

Revista Alegrar 14

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Editorial 14

Nesta edição da Alegrar, apresentamos textos que transitam entre artes e clínica, conceitos, afectos, perceptos, gestos. Cinema, música, colagem, romance, poesia, saídas vitais para impasses os mais diversos.

 

O artigo de Sebastian Wiedemann, com versões em espanhol e em português, Jour après jour… do possível no mundo: Notas para uma imagem audiovisual, cria o conceito de metalização bifacetada para falar da potência da imagem audiovisual.

 

Pâmela Nische Alves e Cleber Gibbon Ratto, apresentam Clinicultura – um ensaio sobre a (trans)formação dos modos de ver e escutar. Neste ensaio problematizam experiências por meio das quais se produz uma escuta clínica, atenta às configurações afetivas de nosso tempo.

 

Em De uma conversa sobre o ensino: professor e licenciando, Máximo Adó inventa um bem humorado diálogo em que um licenciando de ideias um tanto ou quanto deleuzianas conversa com Herr Professor Heidegger a respeito dos conceitos centrais de Ser e tempo.

 

Da alegria poética, por Marcela Tavares, conecta a potência da poesia com a alegria espinosista.

 

No artigo O devir-mulher de “Orlando” de Virgínia Woolf: uma leitura por estilhaços Maria dos Remédios De Brito convida aqueles que “enxergam na literatura uma possibilidade de alargamento do mundo e da vida para se pensar existências possíveis” a pensar entre outras questões, a sexualidade, através do devir-mulher do personagem Orlando.

 

Narrar experiências: intensidade e fragmentos de processos de trabalho com a assistência social, artigo de Fernando Pena Miguel Martinez, através de procedimentos narrativos, busca “acessar as intensidades produzidas nos encontros com meninos em situação de risco social e pessoal, e com trabalhadores de equipamentos públicos de assistência social.”

 

André Pietsch Lima interpela-nos com Aquilo que pensa pode estar soando, aliando-se às máquinas sonoras de Varèse, Schönberg, Berio, Cage, Boulez para produzir variações conceituais capazes de exprimir as modulações da repetição criadora.

 

O ensaio de Jamer Guterres de Mello, Suportes de experimentação: fanzines e cut-ups como recurso estético na escrita trata do procedimento de cut-up, criado por William Burroughs, em sua expressão imagética em fanzines, como recurso produtor de choques visuais capazes de fugir à linearidade na escrita e na pesquisa.

 

Kátia Maria Kasper e Cíntia Vieira da Silva

 

Singular não é individual. Por que SINGULARIDADE NÃO é predicado do INDIVIDUO?

O indivíduo não é o primeiro na ordem ele é produzido, e, embora à primeira vista pareça a última realidade tanto para a linguagem – também para a clínica e o cuidado – como para a representação em geral (modelo hegemônico), o indivíduo supõe a convergência de certo número de singularidades, determinando uma condição de fechamento sob a qual se define uma identidade: o fato de que certos predicados sejam escolhidos implica que outros sejam excluídos. Nas condições da representação e do senso comum, as singularidades são, portanto, desde logo e tão-somente predicados, atribuíveis a sujeitos ou indivíduos. É preciso sublinhar que individual não é sinônimo de singular. As singularidades não se tornam homogêneas, não são reduzidas a uma unidade indivisa (indivíduo). Singularidades são “acontecimentos”, isto é, pontos “notáveis” numa multiplicidade, pontos não meramente “ordinários” e “regulares” (generalidades). Ora, as singularidades são por si mesmas indiferentes à predicação. Um exemplo seria “verdejar” que é um acontecimento (singularidade) como tal, solto, antes de se tornar a propriedade possível ou predicado de uma coisa ou sujeito, “ser verde”, por conseguinte, comunica-se de direito com qualquer outro acontecimento, independentemente da regra de convergência que o apropria a um eventual sujeito ou indivíduo. O plano onde se produzem os casos, os atendimentos, os encontros, os diagnósticos é povoado de singularidades soltas ao mesmo tempo inatribuíveis e não hierarquizadas, constituindo puros acontecimentos que não são exclusividade de uma área profissional, técnica ou sujeito. Essas singularidades têm entre si relações de divergência ou de separação, certamente não de convergência, uma vez que esta já implica o princípio de exclusão que governa a individualidade ou o reino do sujeito e do indivíduo: as singularidades só se comunicam por sua diferença ou sua distância, e o livre jogo das singularidades e de sua produção reside precisamente no percurso dessas várias distâncias, ou espécies de síntese que preservam a separação, a fragmentação e abertura. Os indivíduos que somos, derivando desse campo de singularidades variáveis de individuação[1] que conhece apenas acoplamentos e disparidades, campo completamente impessoal, coletivo e inconsciente, não reatam com esse jogo das singularidades sem fazer a experiência da mobilidade de suas fronteiras. A esse nível real, fragmentário e sutil que compõem a tessitura comum do que somos – casos, áreas profissionais, ações em conjunto, saúdes, individuações, concepções de clínica – cada coisa não é mais ela mesma senão uma singularidade que se abre ao infinito dos predicados pelos quais ela passa, ao mesmo tempo em que perde seu centro, isto é, sua identidade como conceito e como eu. As singularidades são pré-pessoais e pré-individuais, portanto, sempre relativas a um conjunto aberto. Ora as singularidades podem designar as “dimensões” fortes de um conjunto aberto – suavidades , complexidades, simpatias, transferência, complicações, ações inauditas, acasos extremos e,e,e –  e podem ser nomeadas “intensidades”, “afectos”; sua distribuição corresponde portanto ao mapa afetivo de um conjunto móvel em conjunção, a uma situação que está sendo sustentada em conjunto, que esta sendo operada ou ainda à modulação contínua de um material. Ora elas se distribuem no nível de cada dimensão, e também se redistribuem de uma dimensão a outra: são os “pontos brilhantes” ou observáveis a cada grau, os “pontos sobre os dados” de cada lançar de dados da distribuição de uma situação, os “pontos singulares” cuja distribuição determina as condições de resolução e etc. As singularidades ou uma singularidade, as duas significações interessam porque singularidades compõem uma multiplicidade que penetram umas nas outras através de uma infinidade de graus, cada dimensão sendo como um ponto de vista sobre todas as outras, que os distribui a todas em seu nível.  Também no acompanhamento de casos há “complicações” que pedem para ser tratadas: assim, só há trabalho sutil, atento à delicadeza daquela situação, se houver uma redistribuição do “já sabido” em favor do caso, um lançar de dados, uma retomada das singularidades umas nas outras, e isso acontece, se exerce, sob a condição de um encontro com “problemas” distintos a cada vez (não o reecontro do mesmo). Daí uma espécie de teoria da aprendizagem e do que significa “ter uma Idéia”, isto é, encontrar e compor singularidades pelo fio condutor dos problemas e experiências. Não podemos aceitar como alternativa algo que compromete ao mesmo tempo toda a clínica, o comum e as ações, ou seja, as singularidades serem assumidas em indivíduos e pessoas ou então uma sopa amorfa, abismo indiferenciado. Péssima dualidade. Quando o mundo se abre pululando de singularidades anônimas, sutis, impessoais, pré-individuais, coletivas, pisamos finalmente no campo da vida como ela é.

F.Z.A.H.

[1]Considerando a individuação como um campo povoado de singularidades pré-individuais, coletivas, anônimas, impessoais seria preciso “conhecer o indivíduo pela individuação e não a individuação a partir do indivíduo” cf. Gilbert Simondon. L’Individu et sa Genèse Physico-Biologique. Grenoble: Millon. 1995. p.22. Individuação feita de singularidades, uma matéria indeterminada, rica em energia mas, pobre em estrutura, povoado de potenciais e tensões. Feixes de relações quânticas, limiares de intensidade. Nem estável nem instável, mas metaestável, esse campo de singularidades pré- individuais é o Ilimitado (apeiron) para falar como Anaximandro, há partir dele, em todo o caso, que se dão as individuações física, biológica, psíquica, clínica, coletiva.