Corpo e política – Luiz Orlandi

 A primeira dificuldade que encontro no título da nossa mesa redonda (corpo e política) está na prodigiosa conjunção e. Aparentemente, ela deixa os termos numa espécie de indiferença recíproca. É como se a remissão de um deles ao outro fosse por demais frouxa. É como se os corpos não implicassem políticas públicas, privadas, clandestinas. E é como se a política fosse possível sem o encontro, sem o entrechoque dos corpos. Porém, em vez de uma indiferença mútua entre esses termos, o mais interessante talvez seja pensar o que essa conjunção deve estar realmente sugerindo. O que ela pode estar sugerido? A meu ver, ela sugere uma obviedade que a história de qualquer lugar confirma. Essa conjunção nos diz que foram, são e sempre serão estabelecidas múltiplas relações entre corpo e politica. Por exemplo, houve todo um escravagismo luso-brasileiro de olho nos corpos negros, assim como houve um escravagismo na antiga democracia ateniense de olho em corpos estrangeiros. Há todo um campo de relações sexuais investido pela moral e pela política. Há interferências político-jurídicas sobre a pesquisa científica com células-tronco produzidas por corpos. Há todo um esforço político destinado a separar corpos de torcidas rivais num estádio de futebol etc.

            Esses meros exemplos atestam a multiplicação de relações entre o vasto domínio de iniciativas ditas políticas e a infinidade de entrosamentos corporais, de combinações das posturas de que os corpos são capazes. E não se trata apenas de corpos ditos humanos. Decisões políticas repercutem no corpo da terra. Inversamente, furacões e inundações obrigam políticos a mostrarem seus jogos de interesses. Políticas agrárias e industriais afetam, e quase sempre para pior, muitas paisagens e caminhos no corpo dos campos e das cidades. E o próprio corpo da escrita é território para um embate “poético-político”, como aquele que Jacques Rancière tematiza ao tratar da antiga emancipação do “lirismo” em face de “velhos cânones” que modelavam escritas poéticas [1]. E outro autor, nos dias atuais, interessado em performances poéticas, chega a dizer que “a passagem do livro ao som é mais motivada por uma questão ética e política do que por uma questão estética”[2]. Em outro campo de atividades, basta o olhar de um professor chato para senti-lo como suporte de uma arcaica política educacional; assim como basta uma algazarra de corpos para por em crise um planejamento escolar. E sabemos que o aparecimento de um nariz de palhaço numa reunião pública cheia de autoridades é suficiente como sinal de alerta que quase todos interpretam imediatamente mais ou menos assim: afinal, a quem esse contestador está dirigindo sua crítica? Em suma, há uma infinidade de relações armando colchas de retalho entre a multiplicidade-corpo e a multiplicidade-política.

De algum tempo para cá, o que vem merecendo crescente atenção é o problema teórico, político, ético… de saber o que estamos ajudando a fazer dos nossos corpos. A rigor, trata-se de uma velha atenção, de um velho cuidado, de uma velha preocupação. Se a cada momento retornamos a essa preocupação, é porque somos levados a ela por força de uma espécie de alerta que os mais antigos escravos já conheciam. Que alerta é esse? É o alerta em relação àquilo que os poderes, com nossa aquiescência ou não, sempre armam em relação a nós, indivíduos que fomos gerados, que andamos por aí, que possuímos algumas coisas e não outras, que nos entrelaçamos com outros indivíduos e chegamos a ser capazes de gerar outros indivíduos etc. Michel Foucault, por exemplo, como vocês sabem, preocupa-se com nosso modo de ser, com nosso modo de existir. Dir-se-ia que ele não se satisfaz com o nascimento da modernidade filosófica em Descartes. Com efeito, tomemos a famosa fórmula de Descartes: penso, logo sou. Para muitos, essa fórmula é uma descoberta do cogito, isto é, do nosso poder aparentemente natural de pensar.  E se agora afirmarmos, como faz Heidegger, que essa fórmula , que tanto valoriza meu poder natural de pensar, é uma fórmula que “deixa o sum [o sou] completamente fora do debate” [3] , então podemos dizer que Foucault confronta-se com Descartes e reforma aquela fórmula no sentido de uma ontologia histórica de nós mesmos. Por quê? Porque ele se interessa explicitamente pelo que somos, ele se interessa por esta singela pergunta: “que somos hoje?”. Ora, segundo ele, o nosso hoje nos envolve com uma poderosíssima “tecnologia política dos indivíduos”. Pois bem, essa tecnologia corresponde à “importância crescente dos problemas da vida para o poder político”, para a governabilidade. Ao mesmo tempo, ela está em correspondência com o “desenvolvimento de campos possíveis para ciências sociais e humanas, na medida em que elas levam em conta esses problemas do comportamento individual no interior da população e as relações entre uma população viva e seu meio”. Ele disse essas coisas numa conferência proferida há mais de vinte anos [4].

Foi muito importante essa maneira foucauldiana de tematizar o alerta que estava nos ares do tempo. Por quê? Porque, antes do seu arrojo, e mesmo depois dele, havia e continua havendo uma indagação filosófica, científica, tecnológica, esportiva, circense etc. dirigida às sondagens dos poderes do próprio corpo em seus mais variados encontros. Esse tipo de indagação já era praticado pela filosofia grega. A esse respeito, são exemplares as escolas helenísticas: o estoicismo, o epicurismo e o ceticismo, por exemplo, podem ser vistos como filosofias positivamente sensíveis à problemática do corpo, pois elas se interessavam radicalmente por uma arte do viver.

E é mesmo nesse sentido, em função de uma questão fundamental, que Espinosa, no século XVII, desafia a prepotência dos que julgam as posturas do corpo a partir de preconceitos úteis à dominação das consciências pelos autoritarismos religiosos e políticos. Qual é a questão espinosana? Sua questão denuncia a ignorância em que nos encontramos a respeito dos poderes do corpo: “até o presente, ninguém determinou o que pode um corpo”, diz ele. E essa dificuldade se multiplica, pois o próprio corpo perde seu poder de afetar, diz Espinosa, quando “ele já não está apto a poder ser afetado de um grande número de maneiras” [5]. Todas as dimensões do corpo, seja a das partes que o compõem extensivamente, seja a das relações que ligam entre si essas partes, seja a das mais sutis variações de sua potência de existir, de padecer, de agir, de pensar etc., tudo isso implica as dobraduras do afetar e do ser afetado. Tudo isso implica, em suma, as disparações afetivas vividas pelo corpo na multiplicidade dos seus encontros. Portanto, em seus encontros, um corpo é sempre uma variada criação e recriação de corpos afetivos que se dobram e redobram em poderes de afetar e de ser afetado.

Ora, essa formulação já nos coloca em pleno jogo das relações entre corpo e política. Com efeito, na história da filosofia houve um tempo em que se acreditava que os conceitos do entendimento eram os portadores do possível, esta coisa tão importante do ponto de vista político. Entretanto, em outro tempo, ou em outras combinações de fatias do tempo, armou-se uma idéia impressionante, a idéia de que as próprias idéias da alma são idéias do corpo. Em sua diatribe contra os desprezadores do corpo, Nietzsche escreve: “Atrás de teus pensamentos e sentimentos, meu irmão, acha-se um soberano poderoso, um sábio desconhecido – e chama-se o ser próprio. Mora no teu corpo, é o teu corpo” [6] . Com isso, o possível desloca-se de um céu de idéias para ser o efeito de afetos, para ser o efeito de corpos afetivos, para ser o efeito de variações dos poderes de afetar e de ser afetado. Vale dizer que o corpo, vibrando em suas múltiplas dimensões e na profusão de suas variações vitais, foi se impondo como principal emissor e receptor de pulsações do campo problemático total que ele acolhe e percorre em longitude e latitude. É neste sentido que se pode entender a abertura de possíveis em função das lutas do corpo por uma vida que, contra a profusão dos intoleráveis,  busca saídas em meio a saberes e poderes: “foi a vida, muito mais do que o direito”, diz Foucault, que se tornou objeto das lutas políticas, mesmo que estas se formulem através de afirmações de direito” [7].

XX X

Luiz B. L. Orlandi

Dep. de Filosofia – IFCH-Unicamp

Núcleo de Subjetividade – PUC-SP


  • § Anotações para Mesa Redonda I do Seminário Internacional de Estudos do Corpo na Contemporaneidade promovido pelo Núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp (NEE), Departamento de História da PUC/SP e Grupo de Pesquisa ‘Corpo e Educação’ da Faculdade de Educação Física da Unicamp. 23/06/08.

[1] Jacques Rancière, Políticas da escrita (1995), tr. br. de Raquel Ramalhete, Rio de Janeiro, 1995,  p.105.

[2] Christophe Fiat,  « Ce qui fait ritournelle – Pour une littérature audio », em B. Gelas e H. Micolet (Dir.),  Deleuze et les écrivains – Littérature et philosophie, Nantes : Éd. Cécile Defaut, 2007, p. 424.

[3] Martin Heidegger, Être et temps, tr. br. de François Vezin, Paris : Gallimard, 1986, p. 78. [Tradução refeita a partir da edição separada de Zein und Zeit, M. Niemeyer Verlac. Tübingen, 1976 e da Gesamtausgabe; V. Klostermann, Francfort-sur-le-Main, 1977, p.46].

[4] Michel Foucault, “La technologie politique des individus” (1982), em Dits et écrits1954-1988,  vol. IV, Paris : Gallimard, pp. 826-827.

[5] Espinosa, Ética, III, 2, escólio e IV, 39, demonstração. A retomada dessas passagens pode ser lida em Deleuze, Spinoza et le problème de l’expression, Paris: Minuit, 1968, p. 197-198.

[6]Nietzsche, Assim falou Zaratustra – Os desprezadores do corpo, tr. br. de Mario da Silva, RJ, Civil. Brasileira, pp. 59) .

[7] Foucault, Histoire de la sexualité, I. La volonté de savoir, Paris, Gallimard, 1976, p. 191).

NOTA do LABORATÓRIO DE SENSIBILIDADES – ENCONTROS DAS SEGUNDAS

Integrantes do grupo de articulação do laboratório de sensibilidades e simpatizantes (novos interessados em integrar com sutis simpatias): Somente na próxima segunda-feira, dia 4 de fevereiro, excepcionalmente, a nossa reunião inciará às 15hs e 30 min. Será um encontro com muitas possibilidades entre saúde, estética, clínica e o contemporâneo. Várias ideias poderão ser tecidas  e implementadas com a ajuda de tod@s.Normalmente iniciamos às 13h e 45min, por favor, reorganizem as agendas somente desta vez

Tod@s são bem- vind@s!

A alma não deve acumular defesas à sua volta. Não deve retirar-se para procurar o céu dentro de si, em êxtases místicos. Não deve clamar por um Deus transcendente, pedindo para ser salva. Deve fazer-se à estrada larga, à medida que a estrada vai se abrindo ao desconhecido, na companhia daqueles cuja alma os leva para junto dela, nada realizando além da viagem, e das obras inerentes à viagem, à longa viagem de uma vida inteira rumo ao desconhecido, através da qual se realiza a alma, nas suas sutis simpatias

D.H.Lawrence

HUMOR ATERRA – DESCE!

É preciso saber “descer” – o humor, “contra” a ironia socrática ou a técnica da ascensão.  Mas para onde nos precipita semelhante descida? Até ao fundo dos corpos e ao sem-fundo de suas misturas

GD

Desce

AA

desce do trono, rainha
desce do seu pedestal
de que te vale a riqueza sozinha,
enquanto é carnaval?

desce do sono, princesa
deixa o seu cetro rolar
de que adianta haver tanta beleza
se não se pode tocar?

hoje você vai ser minha
desce do cartão postal
não é o altar que te faz mais divina
deus também desce do céu

desce das suas alturas
desce da nuvem, meu bem
porque não deixa de tanta frescura
e vem para a rua também?

 

 

Carta-prefácio a Jean-Clet Martin – Gilles Deleuze

Ao ler seu livro, fico feliz que você se ocupe com meu trabalho, tamanha é sua demonstração de rigor e de compreensão. Tento responder a algumas de suas observações, mas, freqüentemente, a diferença entre nós é, antes, uma questão de palavras.

 

  1. Creio na filosofia como sistema. Não gosto da noção de sistema quando se a remete às coordenadas do Idêntico, do Semelhante e do Análogo. Foi Leibniz, creio, o primeiro a identificar sistema e filosofia. No sentido em que ele o faz, eu concordo. As questões “ultrapassar a filosofia”,“morte da filosofia” também nunca me sensibilizaram. Sinto-me um filósofo muito clássico. Para mim, o sistema não deve apenas estar em perpétua heterogeneidade, ele deve ser heterogênese, coisa que, parece-me, nunca se tentou fazer.

 

  1. Desse ponto de vista, o que você diz sobre a metáfora ou, antes, contra ela, me parece justo e profundo. Acrescento apenas algo que não contradiz em nada o que você diz, mas que vai numa direção próxima: o duplo desvio, a traição, me parecem operações que instauram uma imanência radical, tem-se aí um traçado de imanência – daí a relação essencial com a Terra.

 

 

  1. Você percebe muito bem a importância, para mim, de definir a filosofia pela invenção ou criação de conceitos, isto é, como não sendo nem contemplativa nem reflexiva, nem comunicativa, etc., mas como atividade criadora. Creio que ela sempre foi isso, mas ainda não soube me explicar sobre esse ponto. É por isso que eu queria tanto que o meu próximo livro fosse um texto curto sobre O que é a filosofia?

 

  1.  Você percebe muito bem a importância, para mim, da noção de multiplicidade: é o essencial. E, como você diz, multiplicidade e singularidade estão essencialmente ligadas (“singularidade” é, ao mesmo tempo, diferente de “universal” e de “individual”). “Rizoma” é a melhor palavra para designar as multiplicidades. Em contrapartida, parece-me que abandonei completamente a noção de simulacro, que não vale grande coisa. Finalmente, é Mil platôs que é consagrado às multiplicidades por si mesmas (devires, linhas, etc.).

 

  1. Empirismo transcendental não quer, efetivamente, dizer nada se não se precisa as condições. O “campo” transcendental não deve ser decalcado do empírico, como o faz Kant: ele deve, sob esse aspecto, ser explorado por sua conta e, portanto, “experimentado” (mas trata-se de um tipo de experiência muito particular). É esse tipo de experiência que permite descobrir as multiplicidades, mas também o exercício do pensamento ao qual remete o terceiro ponto. Porque creio que, além das multiplicidades, o mais importante para mim tem sido a imagem do pensamento tal como tentei analisar em Diferença e repetição, depois em Proust, e em todos os lugares.

 

Permita-me, enfim, um conselho de trabalho: é sempre interessante, nas análises de conceito, partir de situações muito concretas, muito simples, e não de antecedentes filosóficos, nem mesmo de problemas enquanto tais (o uno e o múltiplo, etc.); por exemplo, para as multiplicidades, de onde é preciso partir, seria assim: o que é uma matilha? (diferente de um animal sozinho), o que é um ossuário? Para os acontecimentos: o que é cinco horas da tarde? Por exemplo, é na relação concreta entre o homem e o animal que é preciso buscar a crítica possível da mimese. Não tenho, pois, mais que uma coisa a lhe dizer: não perca o concreto, volte a ele constantemente. Multiplicidade, ritornelo, sensação, etc., se desenvolvem em puros conceitos, mas são estritamente inseparáveis da passagem de um concreto a outro. É por isso que é preciso evitar conceder a uma noção qualquer um primado sobre as outras: é cada noção que deve implicar as outras, por sua vez e a cada momento […]. Creio que quanto mais um filósofo é dotado mais ele tem tendência, no começo, a deixar o concreto. Ele deve evitar isso, fazendo-o apenas de tempos em tempos, o tempo de voltar às percepções, aos afectos, que devem reduplicar os conceitos. Perdoe-me a imodéstia dessas observações. A única razão foi a de ser breve. Desejo-lhe o melhor em seu trabalho. Sinceramente seu.

Gilles Deleuze

Objeto do Coletivo de Arte Sala Dobradiça de Santa Maria no LABORATÓRIO DE SENSIBILIDADES na semana de 28 de janeiro de 2013 EXPOSIÇÃO – Múltiplo Sala Dobradiça – tem como finalidade estender e difundir a produção em artes visuais sob um formato seriado; evidencia trabalhos de interesse a conceitos e estéticas emergentes.

design da embalagem que estará em EXPOSIÇÃO NO CENTRO DO L.S parte do próprio logo da Sala Dobradiça, projetada para também armar um objeto tridimensional. Essa característica guia-se pela poética do grupo em conceber formatos alternativos de exposição.No seu interior são inseridos trabalhos produzidos por artistas convidados sob um formato padrão. Os exemplares são distribuidos gratuitamente ao público interessado. Projeto gráfico de Elias Maroso

 

Saiba mais no site: http://www.saladobradica.art.br/

 

Sala Dobradiça é constituída por um grupo de artistas e produtores culturais de Santa Maria, Rio Grande do Sul, que concebe/viabiliza exposições artísticas visuais de propositores tanto da região sul quanto de outras localidades do Brasil e exterior.

 

Seus projetos estão direcionadas a práticas que condicionam o espaço de exposição e a experiência da arte como bases poéticas, munindo-se atualmente de um lugar físico para instalações, soluções visuais in situ / site specific (Espaço-Suporte), bem como de modelos para exposições alternativas como seu portátil para obras reprodutíveis (Mútiplo SD) e o projeto de ocupação do espaço público para difusão da arte urbana (Projeto Tapume). Além de realizar mostras de arte em situações distintas, o grupo também atua como propositor artístico (a exemplo de Itinerário SD 0.5), produzindo trabalhos que complementam a prática curatorial já contaminada.

 

A Sala Dobradiça está mais circunscrita em uma intenção expositiva recombinante do que centralizada em um local determinado. Recorre à auto-gestão, ao esforço coletivo e à consolidação de um circuito próprio – aberto a tangentes – como meios possíveis para a produção de eventos culturais na região.

.

Para realizar tais ações, o grupo estabelece parcerias com artistas/propositores mediante convite ou seleção de propostas para criação conjunta.

Membros fundadores: Alessandra Giovanela e Elias Maroso.

Núcleo atual de gestão, curadoria e criação: Alessandra Giovanella, Desirée Tibola, Elias Maroso e Gabriel Araújo.

 

LS APRESENTA “LOS FRIDOS” EM “ALAS ROTAS – FRIDA KAHLO”

Alas Rotas - 12-10-2012 - Márcia Costa (15) (1)

Como adaptar uma pintura, imóvel, formada por manchas e traços de tinta sobre o espaço da tela, para outra forma de arte, e ainda mais a dança e a música, artes do tempo? Para responder essa questão a dupla Los FriDOS iniciou em outubro de 2012 uma pesquisa sobre quadros da pintora mexicana Frida Kahlo (1907-1954), “Alas Rotas – Frida Kahlo”, cujo primeiro quadro a ser trabalhado foi “Autorretrato com Cabelo Cortado” (1940). A dupla é formada pelos intérpretes-criadores Jeanice Ferreira (dança) e Alessandro Atanes (música). “O trabalho é tentar imaginar que movimentação faria a figura pintada. Que história está congelada ou escondida em cada quadro?”, pergunta Jeanice.
A proposta busca desenvolver os movimentos e as músicas a partir de outros dos inúmeros autorretratos da pintora, sempre com a intenção de trazer à tona a personagem que está pintada, ao invés da mulher real, como em uma biografia. A ideia é adaptar os quadros como se fossem uma “transcriação”, expressão do poeta Haroldo de Campos que se refere à tradução criativa de textos poéticos.
A partir da expressão haroldiana que se refere à tradução literária, a dupla trabalha com o que o semiólogo, professor e romancista italiano Umberto Eco chama de “tradução intersemiótica”, que reúne também as adaptações artísticas de um gênero para outro, como no caso da transformação de quadros estáticos em movimento e música, no qual há uma mudança de “substância” do objeto artístico.

Para conhecer o trabalho:

Release do grupo
Link para vídeo