Interrogações e combate permanente nos envolvimentos da vida com a morte -– Luiz Orlandi (vídeo 5 minutos e 25 segundos)

Tem que observar micro movimentos.. Pode-se dizer que uma dificuldade nunca deixa de estar povoada de pontos de interrogação. Esses pontos picam a sensibilidade e outras ditas faculdades do corpo e dos saltos que se dão nele. E não raramente uma sequência desses pontos interrogativos toma ares de filme de terror, assustando a gente. Com a variedade dos seus pontos de incidência, uma interrogação assusta, sim, porque, em vez de se satisfazerem com imagens de sinais representativos de frases interrogativas, esses pontos de interrogação devêm multíplices, complexos. Eles devêm signos. É que eles não acarretam apenas a necessidade e a vontade subjetiva de aprender algo para corresponder a um problema. Além dessa faceta familiar à consciência, a dificuldade vem a ser objetivamente assustadora por uma razão incontrolável. Ao quê mais estaria ligada, no caso presente, a razão desse caráter assustador emitido pelos pontos de interrogação?
Dizer que isso faz parte da vida é uma boa resposta. Mas ela deixa por demais vago o que se passa. A primeira coisa a ser levada em conta, parece-me, é admitir que a gente não consegue isolar a vida do próprio campo problemático em que ela se contorce na imanência do seu enrosco com o resto; e admitir, também, que esse contorcionismo ainda se dá como combate permanente nos envolvimentos da vida com a morte. Então, é possível pensar que a razão do susto vivido tem a ver com a pulsação de um questionar intempestivo, próprio de um questionamento vital não simplesmente comandado pela vontade subjetiva.

Problemas em estados fetais e entretantos intensivos – Luiz Orlandi (vídeo 6 minutos e 49 segundos)

entretantos que vagalumeiam nos aprendizados e nas pesquisas, pois estas não deixam de ser variantes de aprendizados. Que são esses entretantos? Assim que se começa a aprender algo, já os entretantos se põem como ovos do questionamento vital, seja faiscando de brancura ou se escondendo num sombreado qualquer. Enquanto este ou aquele aprendizado vai ocorrendo ao longo de um tempo cronológico, criam-se entretantos inesperados, acontecem entretempos intensivos. Isso é possível, porque as operações maquinadoras desses entretantos intervalares, longe de se reduzirem a uma função adversativa, opositiva ou restritiva, cria um intensivo intervalo de tempo até numa bem disciplinada linearidade cronológica de um aprendizado, do sentir, do pensar etc.; cria um meio-tempo dinâmico, tensionado no jogo de forças do questionamento vital, jogo favorável ao aprendizado, sim, mas que a consciência aprendiz não tematiza simultaneamente e, muitas vezes, nem depois. E há casos, muito comuns, de tecnocratas da pesquisa desprezarem esse tipo de preocupação. Este não é o caso da pesquisa referida nas páginas do documento que apresenta o Resumo da experiência do grupo atuante aqui em Santos. Para dizer isso, e como não trabalho aqui como pesquisador, apoio-me nesta frase do Resumo: “É interessante pontuar que não se trata de saber simplesmente a respeito da “doença” que leva alguém a ser atendido por diferentes serviços de saúde, mas saber como uma vida inventa seus trajetos, quais são as escolhas, as possibilidades” antevistas etc. Este último lance da frase estimula a pesquisa a se aproximar de limiares intensivos propícios a delicadas sondagens pelos entremeios, que são lugares de passagem de tensões e problemas. Isso quer dizer, em primeiro lugar, que nosso ponto de vista não é estritamente técnico, embora não se trate de desprezar o plano de organização das pesquisas e aprendizados. No limite, não sabemos o que essa pesquisa pode recolher, mas ela quer e pode aprender a aproximar-se de limiares a serem prudentemente e cuidadosamente pensados. Vale dizer que a atenção estudiosa volta-se cada vez mais para uma espécie de detecção de conexões mínimas capazes de efeitos potentes ao passar pelos nexos que tecem problemas. É nesse sentido que se compreende as constantes retomadas do problema do nexo entre o dinamismo de um clandestino questionamento vital e o processamento de um aprendizado, problema ao qual a consciência tem, a rigor, um limitado acesso, como foi suficientemente acentuado. O sinal de que a consciência tem um certo acesso, embora limitado, a esse dinamismo clandestino, se evidencia na expressão do seu susto: não sei como aprendi tal coisa, não sei como consegui chorar, esse choro que me fez bem… Do ponto de vista da consciência, esse não sei como remete à vivência subjetiva de fortes surpresas, à sensação de um salto no aprendizado, à abertura da sensibilidade e etc.. Perfeito, mas será que a atenção estudiosa não pode chegar a um grau mais sutil de recepção? Tudo indica que sim. Com efeito, a atenção estudiosa, vale dizer, a atenção micro-tensioativada pelas variações do pensamento conceitual não genérico, ganha o poder de ser afetada, de ser atraída por micro rebrilhos de uma riqueza interna a um nexo especial, especial porque sentido como potencializador daquilo que os termos heterogênos conectados podem dar uns aos outros.

SECALHARIDADE _ Conferência-performance de João Fiadeiro e Fernanda Eugénio do Projeto AND_Lab

Secalharidade como ética e como modo de vida: o projeto AND_Lab e a investigação das práticas de encontro e de manuseamento coletivo do viver juntos

Secalharidade – “Se calhar”

” Modo de relação que assenta na substituição do sujeito, do controle e da manipulação, por uma ética do manuseamento suficiente, que transfere para o próprio ato do encontro (e para o acontecimento que daí emerge) a capacidade de fornecer a medida justa, a cada vez, para o nosso posicionamento recíproco. Neste modo de relação, cabe-nos a responsabilidade de gerir (e não de gerar) o nosso plano comum (…) “

um do MTST (vídeo de 7 minutos): Se tive acesso ao conhecimento que é negado a maioria, tenho uma dívida com a maioria, não um sentimento de superioridade, eles foram impedidos, foram sabotados – o contrário da pobreza não é a riqueza, mas a miséria

contrário da pobreza não é a riqueza, mas a miséria e que, das três, somente a pobreza tem o sentido de uma perfeição. A pobreza designa o estado daquele que pode usar tudo não tendo nada como próprio e a miséria o estado daquele que não pode usar nada, seja porque tenha em excesso, seja porque o tempo lhe falte, seja porque seja sem comunidade

TIQQUN

“Tudo isso deverá ser arranjado muito precisamente numa sucessão fulminante”

O que é grave
É sabermos
que atrás da ordem deste mundo
existe uma outra
Que outra?
Não o sabemos.
O número e a ordem de suposições possíveis
neste campo
é precisamente
o infinito!
E o que é o infinito?
Não o sabemos com certeza.
É uma palavra que usamos
para designar
abertura
da nossa consciência
diante da possibilidade
desmedida,
inesgotável e desmedida.
E o que é a consciência?
Não o sabemos com certeza.
É o nada.
Um nada
que usamos
para designar
quando não sabemos alguma coisa
e de que forma
não o sabemos
e então
dizemos
consciência,
do lado da consciência
quando há cem mil outros lados.
E então?
Parece que a consciência
está ligada
em nós
ao desejo sexual
e à fome.
Mas poderia
igualmente
não estar ligada
a eles.
Dizem,
é possível dizer,
há quem diga
que a consciência
é um apetite,
o apetite de viver:
e imediatamente
junto com o apetite de viver
o apetite da comida
imediatamente nos vem à mente;
como se não houvesse gente que come
sem o mínimo apetite;
e que tem fome.
Pois isso também
existe:
os que tem fome
sem apetite;
e então?
Então
o espaço do possível
foi-me apresentado
um dia
como um grande peido
que eu tivesse soltado;
mas nem o espaço
nem a possibilidade
eu sabia exatamente o que fossem,
nem sentia necessidade de pensar nisso,
eram palavras
inventadas para definir coisas
que existiam
ou não existiam
diante da
premente urgência
de uma necessidade:
suprimir a idéia,
a idéia e seu mito
e no seu lugar instaurar
a manifestação tonante
dessa necessidade explosiva:
dilatar o corpo da minha noite interior,
do nada interior
do meu eu
que é noite,
nada,
irreflexão,
mas que é explosiva afirmação
de que há
alguma coisa
para dar lugar:
meu corpo.
Mas como,
reduzir meu corpo
a um gás fétido?
Dizer que tenho um corpo
porque tenho um gás fétido
que se forma em mim?
Não sei
mas
sei que
o espaço,
o tempo,
a dimensão,
o devir,
o futuro,
o destino,
o ser,
o não-ser,
o eu,
o não-eu
nada são para mim;
mas há uma coisa
que é algo,
uma só coisa
que é algo
e que sinto
por ela querer
SAIR:
a presença
da minha dor
do corpo,
a presença
ameaçadora
infatigável
do meu corpo;
e ainda que me pressionem com perguntas
e por mais que eu me esquive a elas
há um ponto
em que me vejo forçado
a dizer não,
NÃO
à negação;
e chego a esse ponto
quando me pressionam,
e me apertam
e me manipulam
até sair de mim
o alimento,
meu alimento
e seu leite,
e então o que fica?
Fico eu sufocado;
e não sei que ação é essa
mas ao me pressionarem com perguntas
até a ausência
e a anulação
da pergunta
eles me pressionam
até sufocarem em mim
a idéia de um corpo
e de ser um corpo,
e foi então que senti o obsceno
e que
soltei um peido
de saturação
e de excesso
e de revolta
pela minha sufocação.
É que me pressionavam
ao meu corpo
e contra meu corpo
e foi então
que eu fiz tudo explodir
porque no meu corpo
não se toca nunca

Artaud> A questão que se coloca. Da transmissão radiofônica Para acabar com o julgamento de Deus.