Uma breve genealogia do militante moderno em nós no escrito de Luiz Claudio Figueiredo de 1993. Incontornável.Militância como sintoma da modernidade sem Deus e de determinados sofrimentos datados. Depois desse escrito do início dos anos 90, quais mutações operam na militância/ativista contemporaneamente? 

No link abaixo uma breve radiografia do militante moderno em nós no escrito de Luiz Claudio Figueiredo de 1993. Incontornável.

Miltancia como modo de vida um capitulo dos costumes conmteporaneos LCF cadernos-de-subjetividade_n-2_linguagens_1993 (1)

(…) a militância, mesmo quando exercida no contexto das lutas pelo poder, não é mais interessante (nem o oposto) do que poderíamos conceber como “participação” ou implicação política, é mais precisamente uma certa inflexão política com determinados “artigos de fé” (convicções).

Isto significa que a crítica à militância não coincide com a crítica à participação política propriamente dita, pois ambas são modalidades de ação política.

Finalmente, ao caracterizar o modo de vida militante como ‘sintoma’ estou adotando como plataforma crítica uma concepção da modernidade e do modo de subjetivação nela dominante, segundo a qual o militante constitui uma versão extremada desta subjetividade; nesta medida, a militância figura como sintoma de toda uma época e de todo o sofrimento que lhe é inerente.

Quais mutações operam na militância/ativista hoje?

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Se apoderar do pesadelo, e não apenas sofrê-lo. Los FriDOS voltam a ensaiar semanalmente no Laboratório de Sensibilidades, também com proposições abertas à comunidade

Vídeo reportagem com momentos da residência no laboratório de sensibilidades em 2013

Acerca de outros trabalhos de Los Fridos ver:

http://alasrotas-fridakahlo.blogspot.com.br/

Os fins do mundo de Santos — catálogo em cinco partes

Escrito de Alessandro Atanes, ensaísta, guitarrista, historiador e performer da dupla LOS FRIDOS,

Os fins do mundo de Santos — catálogo em cinco partes

I Ressacas
Não é a primeira vez, mas foi de novo forte. Ressaca tão forte quanto o calor agoniante que a precedeu. Com a multiplicação dos aparelhos, vimos todos nas redes sociais pequenos vídeos de variados ângulos com as ondas castigando as muretas da orla, este novo símbolo do pedaço de Santos voltado para o mar.

Mas o que caiu era uma reconstrução, as muretas já caíram antes. Na ressaca de 2005, no mesmo pedaço da Ponta da Praia, quando as ondas arrebentaram também o asfalto como se fosse de papelão, deixando à mostra os paralelepípedos do calçamento original. Creio que a mureta ainda não era o símbolo de hoje, com direito a lembrancinha e tatuagem. Até então, ela havia sido usada na primeira edição do Curta Santos em 2003. Com o tempo, o próprio Festival passou a adotar a mureta em sua identidade visual por causa da analogia de seu desenho com um fotograma. Com os anos, as IOIIOIIOIIOIIOI acabaram sendo adotadas por fotógrafos, lojas de presentes turísticos, pinturas e instalações artísticas.
Não importa, em todos os casos é a sociedade se apropriando do bem público comum. A coisa toma outra dimensão quando a Administração percebe a passa a valorizar a mureta como símbolo. Talvez — quem sabe? — a partir da reconstrução de 2005, quando houve uma expansão significativa de sua extensão pois a erosão acabou por reduzir a praia e pedras foram colocadas para proteger a calçada dos açoites diretos das ondas, e a mureta cresceu seguindo as pedras ao longo da calçada e nunca mais parou. Eu vejo muretas, o tempo todo, na reconstrução dos pontilhões nos canais, nas laterais dos bancos calçadas dos jardins da praia e nos tijolinhos que ladeiam as alamedas entre os jardins. No totem da Ana Costa, nos sebos da Praça dos Andradas e agora nas bancas da Praça Mauá. Um símbolo em construção, assim como hoje as próprias muretas e rampas, por mais de meio milhão de reais.
A própria ficção já se apropriou da mureta sendo destruída. É o que faz Gustavo Duarte em sua novela visual Monstros (2012), em que três gigantescas criaturas marinhas, como na Tóquio nos seriados japoneses, atacam Santos.

Cenas de Monstros
No mundo da invenção de Monstros, ao invés da ressaca, é um polvo gigantesco que esmigalha as muretas com os tentáculos se enrolando por entre os vãos dos IOI. No Gonzaga, um lagartão bem Godzila — um Gonzaguizila — sai do mar e passa por cima da Praça das Bandeiras como se nem visse onde pisa (aliás, Godzilas é como têm sido chamados os edifícios de dezenas de andares que vêm tomando a cidade).
Pelo estuário, é uma imensa tartaruga que avança sobre o porto, passando pelo cais como se fosse uma pequena mureta. Tão grande que lhe parecem miniaturas os navios de carga, guindastes e demais mecanismos da operação portuária, eles mesmos monstros mecânicos para a escala humana. A tartarugona parte um navio ao meio e acaba por experimentar o óleo pesado e grosso que move a embarcação. O resultado é uma cusparada de fogo sobre as instalações retroportuárias maior — ainda bem que fictícia — do que aquelas que vêm nos aterrorizando como agora em janeiro na margem esquerda do Porto com vazamento de materiais e morte ou as explosões dos tanques de combustível na entrada da cidade no ano passado. São dois episódios recentes que ecoam os incêndios em tanques da Ilha Barnabé em 1991 e 1998, o descaso trágico de Vila Socó em 1984 ou mesmo o desmoronamento do Monte Serrat em 1928.
Pontos turísticos e o porto atacados por monstros. Que sacada, não?
II Nostalgia
A tristeza pelo fim do que as muretas representam talvez alimente esta força simbólica na qual se transformaram. Pelo andar da carruagem em que o mar vem tomando a praia nas proximidades do Aquário, aquilo tudo que caiu ali de novo não tem mais do que um século pela frente, será reconstruído a cada 12 ou 13 anos, cinco, seis ou sete vezes mais. E um dia isso já não terá mais sentido; o mar avança e continuará a avançar, pois assim sempre foi. Isso sem levar em consideração a mão humana e seus efeitos [ (-; antropocena].
Então, todas essas lembrancinhas e tatuagens são suvenires das ruínas futuras da parte da cidade sob as águas, assim como bancas e tijolinhos se tornarão bustos em sua homenagem. Sobrarão muretas aqui e ali nos canais, mas quem mora em frente à praia sabe que não é a mesma coisa.
O alarmismo não é meu, o painel internacional de cientistas que investiga as mudanças climáticas — IPPC — prevê uma elevação mínima do nível do Oceano Atlântico de 18 centímetros até 2050. As possíveis consequências do avanço das águas sobre Santos formam um dos estudos de caso do grupo. As informações são de reportagem de Eduardo Geraque publicada em 30/9/15 na Folha de S. Paulo. Em estudo de 2009 baseado em informações do mesmo IPPC, o Núcleo de Pesquisas Hidrodinâmicas (NPH) da Universidade Santa Cecília considera que as ressacas mais fortes das marés mais altas devem chegar pelo menos meio metro mais altas nos próximos 80 ou 90 anos. Ninguém que conhecemos verá isso, mas o avanço é perene, está em cada fraca onda da baía de Santos que nem criança derruba.

Imagem do estudo da Unisanta
Não importa o cenário, somos testemunhas do avanço do mar engolindo areia na Ponta da Praia e cuspindo entre o Canal 2 e o Canal 1, canais cujo concreto desaparece a cada dia imerso em areia e maresia sob o peso da água salgada.
Milhares serão afetados na Ponta da Praia, Aparecida, em torno dos canais, Paquetá, Valongo, praticamente toda a Zona Noroeste e área retroportuária. O que fazer? Dique, contenção, mais concreto? Evacuação de áreas alagáveis? Adaptação ao meio, venezizar-se com canoas no lugar de gôndolas? O que fazer com o trânsito? Abandonar os carros? “Não! Abandonar os carros, nunca!” — dirão, mas talvez seja um bom primeiro passo. Desvalorização de imóveis e demanda por mais obras públicas em áreas alagáveis, reorientação dos fluxos urbanos e nova disposição dos locais de trabalho e moradia, socialização e exclusão.
Como ficarão os artistas, fazedores de cultura e o público de Santos tendo que chegar de balsa para participar de alguma atividade no Sesc? No mapa do cenário mais crítico do estudo da Unisanta, nos dias de maré alta com ressaca — que serão muitos — o barqueiro do Sesc teria que buscar o público ali na Oswaldo Cochrane junto com a Avenida Pedro Lessa e cruzar ruas inundadas com postes e árvores com água pelas canelas por uns bons 20 minutos. No cenário menos grave, voltaríamos ao problema dos carros, pois o estacionamento se tornaria um risco a cada nova ressaca. O que fazer com as garagens e estacionamentos subterrâneos da cidade? Onde serão guardados os carros? Novamente, os carros.
Com praticamente toda a área afetada, cabe-se também perguntar — entre os assuntos urgentes — como ficará a circulação das pessoas e também de arte e cultura pela Zona Noroeste. Enquanto o projeto Novos Tempos é desmontado — aí não acham importante que se fale de ficção nesses tempos — a maior força das ressacas e das marés fará da Avenida Nossa Senhora de Fátima um rio mais largo a cada dia.
III Ruínas
Lembram-se da piscadela antropocena? É para trazer para a reflexão que as ideias de hoje sobre o fim do mundo lidam com o fato de que o fim do mundo também — e talvez sobretudo — seja responsabilidade humana. Inclusive geólogos e cientistas outros nos consideram responsáveis por uma era geológica desde a revolução industrial, o tal do Antropoceno. Ainda que — até mesmo por premissa científica — se aceite o ceticismo em relação ao tamanho do impacto da ação humana frente às mudanças geológicas, não há como negar nossa capacidade de destruição. O poeta mexicano Octavio Paz escreveu em O arco e a lira que a humanidade voltou a acreditar em fim do mundo desde a explosão das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki.
Navios, realizado pelo Lab Corpo e Arte do campus da Universidade Federal de São Paulo na Baixada Santista (atual Núcleo Interdisciplinar de Dança-NiD), é um trabalho artístico que pergunta o que faremos após o fim do mundo, em que a figura do Navio torna-se um lugar de sobrevivência — talvez exílio ou fuga se considerarmos o contexto científico sobre as ressacas do futuro próximo em Santos. O título Navios segue a sugestão do filósofo francês Michel Foucault, para quem navio significa a heterotopia por excelência, sendo heterotopia o espaço das alteridades, que não está nem aqui nem lá, que é simultaneamente físico e mental, como o espaço de uma chamada telefônica ou o momento em que alguém se vê no espelho. Não seriam os próprios portos e aeroportos, espaços nem aqui nem lá — eles também heterotopias?
E as ruínas, espaços nem aqui nem lá no tempo?
Navios estreou em 2014 e, no ano seguinte, com recursos do Fundo Municipal de Cultura, promoveu uma série de debates sobre o tema, seguidos por apresentações no terreno do Colégio Docas, hoje parte das instalações da Unifesp. Por mais que se dê por catastróficas as previsões de inundações e ressacas godzilas sobre Santos, não se pode negar que o Docas já teve seu próprio fim do mundo. Fiz a sexta série ali, numa daquelas classes que hoje sobrevivem em outra heterotopia que é a memória. Meu primo foi artilheiro naquele ano, eu fiz uns bons lançamentos. Agora há pouquíssimo teto, restos de parede no tijolo cru, cores antigas que sobrevivem em algumas armações de madeira, nos azulejos encardidos e na cerca que separa o conjunto ruinoso da parte utilizável do terreno — um estacionamento, lógico (de novo os carros e a inviabilidade deles) — e, mais à frente, da calçada da Campos Melo.

As ruínas do Docas
Os tijolos do Colégio Docas não têm formato de mureta, não serão reerguidos, nunca mereceram.
Parêntesis ideológico
(O nome da escola: Docas. As Docas — como ainda muita gente fala — não é só o nome da companhia que administrou por concessão pública o porto por quase um século. As Docas são as escolas, as vilas, os ambulatórios e demais serviços e toda a vida urbana em torno disso. A sede do Clube Portuários onde hoje passa um trecho da Avenida Perimetral (eu e meu primo também jogamos bola ali).
A queda do Docas apresenta o fim do mundo que é a separação contínua entre a vida do porto e a vida da cidade que começa com o Império tomando o porto para o governo central, seguindo com o monopólio da Companhia Docas de Santos, a ascensão dos mecanismos que substituem a mão humana na atividade portuária, a produtividade dos contêineres, a automatização e agora o loteamento neoliberal para operadores globais à moda tucano-lulista-cleptofinanceira — e nem vou dizer o nome de quem tem ascensão sobre a administração do porto desde o governo Sarney, é pior que o Valdemort.)
IV Desolação
Todos os que cresceram após os anos 50, cresceram ouvindo histórias sobre a Ilha Barnabé, que vivemos em um barril de pólvora, nosso filme-catástrofe em forma oral por dificuldade de orçamento. Neste momento mesmo começamos a falar sobre a novidade das águas que vão tomar parte da cidade nos próximos 100 anos. Essas histórias formam os mitos da cidade, são contos de horror, o horror industrial de uma modernização sem modernidade, como vemos nas cenas de trabalho da turma de estivadores em Navios Iluminados (1937), em que as máquinas e guindastes do cais são comparadas a dragões de mandíbulas medonhas e bestas de formas demoníacas ou o guindaste que baixa um mecanismo em forma de mandíbula — a grab — em direção aos ventres de um navio, como imaginou o artista plástico Raphael Morone — lindo cartazista — na capa de meu Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos — publicado também por meio do Fundo Municipal.

Esse cidade tomada pela destruição está no verso de Alberto Martins Triste cidade litorânea! / Meus olhos mal te distinguem / do mar da terra da lama, do livro Cais (2002), em que a palavra ferrugem se espalha pelas páginas. Desse clima que chamei de desolação são também testemunhas literárias o poeta Flávio Viegas Amoreira,autor de A Biblioteca Submergida (2003), Maralto (2004) e Escorbuto — Cantos da Costa (2005), três títulos que ecoam as previsões de alagamento; um clima que ronda também Costa a Costa (2012), de Ademir Demarchi, do volume Pirão de Sereia (também Fundo Municipal) e cujo marco aponto o poema Raízes, de Madô Martins, do livro Doce Destino (1999), de verso final… mas só encontro conchas e maresia.
Desolação! Se houvesse dinheiro para a produção, poderíamos rodar um filme-catástrofe com os prédios tortos tombando em efeito dominó uns sobre os outros com efeitos especiais de última geração, inclusive com tomadas feitas a partir das varandas gourmet atingidas pelos destroços.
FIM ou TEVE MAIS UM VAZAMENTO DE GÁS ANTEONTEM!
Mas fim do mundo é o que não falta, o catálogo santixta do fim do mundo é farto, está no cotidiano, gotejando dia após dia, o desmoronamento na Serra, o desmanche dos casarões da cidade e dos universos de seus objetos e memórias pessoais; o fim dos clubes e dos prédios das universidades, a dúvida sobre o que virá à superfície com a dragagem das entranhas do canal do Porto.
O certo é que partes da cidade se tornarão ruínas (e não foi sempre assim?). Outras irão se transformar. O fim do Docas é uma casa mais que cai em uma cidade que mata suas casas e prédios para dar lugar aos godzilas — acho que foi de Zéllus Machado que tomei a expressão. A ficção está atenta. As personagens de A História dos Ossos (2005) e de Lívia e o cemitério africano (2013), também de Alberto Martins, andam por uma Santos em que o Teatro Coliseu está em ruínas e o Cemitério do Paquetá será derrubado para ser transformado em um pátio de contêineres.
Santos é o porto, é o que nos dá vida. Pouso de âncoras nos versos de Roldão Mendes Rosa, de gente que tem no sangue o amor dos estrangeiros e das nações. É também o que nos traz a morte, como nos alertam os incêndios, colunas de fumaça e explosões e poemas. Pablo Neruda escreve sobre o suor negro e do eterno suor de homens que já morreram / e foram substituídos para continuar suando. Em Navios Iluminados, o escritor e médico Ranulfo Prata conta a tragédia do estivador tuberculoso José Severino de Jesus, migrante do sertão da Bahia, e seu calvário pelas pedras do cais de Santos. É interessante notar como a obra literária mais bela e significativa sobre Santos não reúne um santista. O autor é sergipano, o protagonista é baiano, seu amigo também, o dono do chalé é português, tem o espanhol do sindicato, o bar Ao Gaiato de Lisboa e por aí vai. Para muita gente, isso que é o fim o mundo!
Além da piada, queria encerrar com uma reflexão da ensaísta argentina Beatriz Sarlo que move muito do meu pensamento e a quem sou muito grato pelas aulas em seus livros.
A literatura, é claro, não dissolve todos os problemas colocados [pela reflexão sobre a sociedade], nem pode explicá-los, mas nela um narrador sempre pensa de fora da experiência, como se os humanos pudessem se apoderar do pesadelo, e não apenas sofrê-lo.
Bom fim do mundo.

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Pensamento vem de fora e pensa que vem de dentro.Erro do livre-arbítrio

Hoje não temos mais compaixão pelo conceito de ‘livre-arbítrio’: sabemos bem demais o que é – o mais famigerado artifício (…) de “sacerdotes” que há, com o objetivo de fazer a humanidade ‘responsável’ no sentido deles, isto é, de torná-la deles dependente… Apenas ofereço, aqui, a psicologia de todo ‘tornar responsável’. – Onde quer que responsabilidades sejam buscadas, costuma ser o instinto de querer julgar e punir que aí busca. O vir-a-ser é despojado de sua inocência, quando se faz remontar esse ou aquele modo de ser à vontade, a intenções, a atos de responsabilidade: a doutrina da vontade foi essencialmente inventada com o objetivo da punição, isto é, de querer achar culpado. Toda a velha psicologia, a psicologia da vontade, tem seu pressuposto no fato de que seus autores, os sacerdotes à frente das velhas comunidades (e hoje há sucessores científicos), quiseram criar para si o direito de impor castigos – ou criar para Deus esse direito…Os homens foram considerados ‘livres’ para poderem ser julgados, ser punidos – ser culpados: em consequência, toda ação teve de ser considerada como querida, e a origem de toda ação, localizada na consciência (assim, a mais fundamental falsificação de moeda in psychologicis [em questões psicológicas] transformou-se em princípio da psicologia mesma. Hoje, quando encetamos o movimento inverso , quando nós, imoralistas, buscamos com toda a energia retirar novamente do mundo o conceito de culpa e o conceito de castigo, e deles “purificar” a psicologia, a história, a natureza, as sanções e instituições sociais, não existem, a nossos olhos, adversários mais radicais do que os “novos sacerdotes”, que, mediante o conceito de ‘ordem moral do mundo’ (tudo é natural e já sabido ), continuam a empestear a inocência da vida com ‘culpa’ e ‘castigo’ (…) O que podemos aprender neste ponto? Que nada dá ao homem suas qualidades, nem Deus, nem a sociedade, nem seus pais e antepassados, nem ele mesmo. Nada é responsável pelo fato do homem existir, seja desta ou da outra maneira, encontrasse em tais condições em tal meio. A fatalidade de seu ser não pode separar-se da fatalidade de tudo o que foi e será. O homem não é a conseqüência duma “intenção própria”, duma “vontade”, dum fim; com ele não se fazem ensaios para obter-se um ideal de humanidade; um ideal de felicidade ou um ideal de moralidade; é absurdo desviar seu ser para um fim qualquer. Nós inventamos a idéia do fim; na realidade não existe o fim … Somos necessários, somos um fragmento do destino, formamos parte de um todo aberto, estamos no todo; não há nada que possa julgar, medir, comparar e condenar nossa existência, pois isto eqüivaleria a julgar, medir, comparar e condenar o todo. E não há nada fora do todo aberto! Nada pode ser responsabilizado: as categorias do ser não podem ser referidas a uma causa primeira, o mundo não é uma unidade, nem como mundo sensível, nem como inteligência; apenas esta é a grande questão, deste modo a inocência do devir fica[1] (…)

***

Durante[2] a era mais longa da “história humana” — a pré-história — o valor ou não valor de uma ação era deduzido de suas consequências. O próprio ato importava tão pouco quanto suas origens, mais ou menos como acontece, hoje em dia, na China, onde os filhos recebem honra ou vergonha como herança dos pais; era o efeito retroativo do êxito ou do fracasso o que induzia a pensar bem ou mal de uma ação. Convenhamos, pois, que aquele foi o período pré-moral da humanidade. O imperativo “conhece-te a ti mesmo” era, pelo contrário, desconhecido. No decurso dos últimos dez milênios, em largas regiões da terra, mudou-se o caminho e agora, o valor é atribuído não às conseqüências da ação, mas à sua origem (INTENÇÕES). Isto representa um acontecimento importante, produto de um grande refinamento do juízo, o efeito distante e inconsciente dos valores aristocráticos, da crença na “origem”, o sinal distintivo de um período que poderíamos denominar de período moral no senso estrito, definitivamente o primeiro passo para o conhecimento de si mesmo (autoconhecimento). Por isso a ação ocorre ao inverso e em lugar de se procurarem as conseqüências, trata-se de encontrar a origem. Que inversão de perspectiva! Uma inversão que é fruto de longos combates e hesitações, na verdade, uma nova superstição de funestas consequências, uma singular estreiteza de interpretação, que chegou para dominar atravessando este caminho. Atribuiu-se a origem de um ato, no sentido mais estrito do termo, a uma intenção e se esteve de acordo com a crença de que o valor de um ato reside no valor de sua intenção (ORIGEM NA DELIBERAÇÃO). A intenção era por si só a origem e a pré-história da ação; e por este preconceito se diferenciou até nossos dias o louvor e a censura, formularam-se juízos e inclusive se filosofou moralmente. Hoje não deveríamos sentir a necessidade de uma inversão total dos valores, graças a um novo retorno sobre nós mesmos, a uma nova sondagem do homem? Não chegamos ao princípio de um novo período ao qual se qualifica, negativamente desde o começo, de extramoral, posto que entre nós, pelo menos, imoralistas, se começa a entrever que o valor decisivo de uma ação reside naquilo que nela é não-intencional, precisamente no que tem de não-intencional, e que tudo o que tem de intencionalidade, tudo o que se pode ver ou saber dela (tornado consciente), pertence ainda à superfície, à sua pele que, como toda pele, revela algo, mas sobretudo esconde? Resumindo, vemos que a intenção nada mais é que um signo e um sintoma que tem necessidade de ser interpretado, um signo carregado de demasiadas significações para ter uma única para ele. Mantemos a opinião de que a moral, tal como foi concebida até hoje, a moral das intenções foi um preconceito, um juízo precipitado e provisório que a coloca no mesmo lugar que a astrologia e a alquimia e em todo caso, algo que deve ser superado. A superação da moral e o triunfo desta sobre si mesma, seria a denominação da larga e misteriosa tarefa reservada às consciências sutis e honestas e também às mais maliciosas da atualidade, na condição de viventes pedras de toque da alma.

***

“Que é que junta em mim as coisas que leio e vejo? Que forças em mim me fazem ver isso? Que forças em mim me fazem expressar assim o que “estou pensando”? Que forças já me dominam? Com que forças me alio?”

NIETZSCHE, Friedrich.

Ucroniatibus Historiis

O relato a seguir tenta ser una sinopse dos acontecimentos mais transcendentes da segunda década do século XXI. Este resumo tem como objetivo situar aproximadamente os textos que virão depois. A localização temporal é imprecisa e capciosa, em virtude da própria imprecisão da paisagem que os textos tentam construir.

O primeiro dos escritos, o Relatório Cacete Vil, recria o espírito dos comunicados internos das forças de segurança do partido. A organização em questão não é outra que o Partido do Sagrado e Obsessivo Povo Trabalhador (P.S. & O.P.T.), movimento ultrafascista simpático ao nazifascismo, embora crítico de algumas “tendências social-democratas do Terceiro Reich”. As fronteiras começam ser questionadas em sua legitimidade, o qual produz conflitos com os países vizinhos, criando um clima de tensão e desconfiança entre os governos da região, que têm como caraterística comum a intolerância.

O contexto global não é mais reconfortante. As principais nações são monárquicas ou profundamente conservadoras, e se encontram em estado de beligerância constante por razões comerciais, raciais e religiosas. O único território livre de guerra, terrorismo de Estado e outras calamidades, é o Istmo ‒ situado na antiga Península Ibérica (depois unida ao continente africano) ‒, que goza de um status diplomático especial, sendo o local onde se concretizam armistícios e tratados de comércio, bem como pode se passar uma boa vida. Tal o caso do Plenipotenciário, que escreve de lá, refletindo, entre a culpa e o cinismo, sobre o estado de coisas que vigora na Pátria, dominada pelo Partido, que só se interessa no Estado para cumprir com excelência o seu papel de polícia, deixando o restante em mãos de companhias como a aí citada, que instaura um monstruoso sistema bioquímico de pedágio nas vias públicas.

O terceiro escrito é, talvez, o mais pobre em aparência ‒ e o mais delirante, com certeza ‒ e ainda assim, o mais rico, dado o seu valor arqueológico, já que constitui uma amostra fiel do núcleo da visão paranoica do Partido; visão que fez os seus teóricos embarcarem na febril e demencial tarefa de reescrever (e não apenas reinterpretar) a história do mundo ocidental desde os seus inícios, reduzindo tal interpretação a uma sucessão inesgotável de conspirações disparatadas, as quais seriam responsáveis do caos herético mundial.

Porém esses três excertos são insuficientes; apesar de estarem atravessados pela linguagem da época, permeada de falsos latinismos utilizados com boa vontade e pouca erudição pelos membros do Partido, e de ilustrar o fanatismo fundamentalista e a religiosidade exacerbada, que pode se apreciar nos nomes próprios, no retorno de práticas inquisitoriais e nas frágeis teorizações dos ditos “sábios” do Partido, que majoritariamente são teólogos de solvência duvidosa.

São insuficientes para dar conta, sequer, de uma pequena parte das iniquidades daquele período de obscurantismo, com pseudocientistas que desvariam sobre línguas, ou “descobrem” ‒ já que tudo estava maliciosamente oculto e precisava ser descoberto ‒ uma equação que relaciona “a altura das calças no corpo” com o “índice de convicção fascista”. Isso fará com que uma geração inteira seja obrigada a usar as calças quase à altura do pescoço. Tudo guiado pelo amor ao trabalho, que faz da pertinácia o seu valor-emblema, e da procrastinação do prazer a essência da vida, promovendo a culpa e a punição numa proposta pedagógica resumida no bordão dos educadores do P.S. & O.P.T.: “A letra entra com sangue”.

Acrescentar-se-á a isso o ódio visceral diante de qualquer ação cultural (…) que exceda as habilidades de um operário metalúrgico em funções” (extrato do discurso do Caudilho por ocasião da Queima do Teatro Nacional); a desconfiança infundada em relação aos intelectuais (que em grande maioria teriam vendido de bom grado suas habilidades ao Partido); e, finalmente as inevitáveis purgações internas que acabaram com a metade da nata do Partido ‒ sob acusações inacreditáveis, tais como heresia, maçom, jesuíta, intelectual e mariquinhas (ou artista).  

O Autor.


Álvaro Labarrère.

Tradução Damian Kraus

 

É a vida que justifica, ela não precisa ser justificada. Vidas conservam seu mistério até o fim e desafiam a lógica e a psicologia

Por que o romancista se consideraria obrigado a explicar o comportamento de seus personagens e a lhes dar razões se a vida por sua vez nunca explica nada e deixa nas suas criaturas tantas zonas obscuras, indiscerniveis, indeterminadas, que desafiam qualquer esclarecimento?

O romance inglês, e ainda mais o romance francês, sempre tem a necessidade de racionalizar, ainda que nas últimas páginas, e a psicologia constitui sem dúvida a ultima forma do racionalismo: o leitor ocidental espera a última palavra.

A psicanálise, a esse respeito, relançou as pretensões da razão. Mas, se ela quase não poupou as grandes obras romanescas, nenhum grande romancista de sua época conseguiu se interessar muito pela psicanálise.

O ato fundador do romance americano, o mesmo que o do romance russo, consistiu em levar o romance para longe da via das razões e dar nascimento a esses personagens que estão suspensos no nada, que só sobrevivem no vazio, que conservam seu mistério até o fim e desafiam a lógica e a psicologia.

Crítica e Clínica