Bifo: “A política está morta”

Diego Sztulwark ‒ Que significa uma vida anafetiva e por que você afirma que estamos num momento de um diagrama de poder conectivo que dessensibiliza a vida?

Bifo ‒ Bem, quando falo em dessensibilização no tempo, na época digital, não é a minha intenção definir de maneira rigorosa ou dogmática uma forma estabelecida categoricamente. O que me interessa é mais denunciar, e isto é importante, uma tendência que tento definir no livro [Fenomenología del fin. Sensibilidad y mutación conectiva, Caja Negra, Buenos Aires, 2017]. Dessensibilização. A tese essencial desse livro é que na transição da esfera da comunicação alfabética, da comunicação corporal, à esfera da comunicação digital, algo muito profundo acontece na disposição física dos corpos, mas também na geração do significado, do sentido. É o próprio processo de significação que está mudando. Por falar isso de uma maneira rápida e simples, eu diria que é o corpo da mãe a questão central do meu interesse. A formação das gerações alfabéticas, das gerações do passado, do tempo pré-digital, era uma formação linguística baseada, fundada sobre a voz, a voz da mãe, a voz de um ser humano, não interessa se é a mãe biológica. É a voz que, segundo Agambem, é o ponto de conexão, de conjunção entre o sentido e a carne.

Pois bem, hoje vivemos num tempo em que está crescendo uma geração que aprendeu umas palavras por meio de uma máquina e não pela voz de uma mãe, pela voz de um ser humano. Algo muito profundo está mudando. E o que está mudando é que a geração do sentido, a geração de significado, não mais acontece no interior de uma relação corporal, física, singular, mas acontece cada vez mais em termos digitais, portanto dessingularizados.

Natalia Gennero ‒ Bifo, e nessa substituição da voz pelas imagens, nesse processo de desfeminização que pressupõe a cultura digital, o que perdemos?

Bifo ‒ Eu não gosto muito de apresentar o problema em termos do que ganhamos e o que perdemos. O que me interessa é, sobretudo, individuar, definir uma nova forma da comunicação entre seres humanos. Isto é, cada vez mais, a formação do sentido acontece através de uma correspondência sintática, o que chamamos de pattern recognition, o reconhecimento de um modelo abstrato que contém em si o sentido. Na comunicação pré-digital, a produção de significado era algo absolutamente singular, estava ligada a um contexto, a uma relação de natureza pragmática, erótica, carnal, situacional de alguma maneira. É a situação que é cancelada na comunicação de tipo digital. Naturalmente, isto não acontece de maneira abrupta, não passamos de um dia para o outro de uma forma humana a uma outra forma humana. O que me interessa é a emergência de uma nova forma de processo de significação.

Diego Scliar ‒ Bifo, diante dessa mudança no processo de significação e dessa situação cancelada, como modo do aprendizado também, como você contava, a pergunta é: que patologias aprecem nessa transição de uma língua materna para outra, por dizer, nessa mudança para essa língua materna digital?

Bifo ‒ Cada mutação implica um sofrimento, implica uma patologia. Há algo que se torna difícil, doloroso na relação comunicacional, na dimensão existencial. E o que está acontecendo? Está acontecendo que o nosso tempo está dedicado cada vez mais à conexão sintático-digital e menos, cada vez menos, à conjunção de corpos num espaço singular e contextualizado. Isso se manifesta com uma espécie de rarefação, de um devir raro, de um fluxo menos cotidiano da relação entre corpos. Os corpos perdem a empatia que tinham no tempo presente. Vivemos, estamos vivendo, acredito eu, uma espécie de enfraquecimento da empatia. Isso pode ser observado na dimensão da política, na dimensão da sociedade. A solidariedade social, que se torna tão rara, tão difícil, é uma manifestação da empatia que a raça humana está perdendo, ou talvez esteja redefinindo-a, pode ser.

Não posso saber como essa mutação se manifestará no tempo. Eu acredito que essa mutação se manifesta hoje em patologias de solidão, por exemplo, ou patologias de depressão, ou  patologias de pânico. Porque a infosfera, o universo próprio da informação que há ao redor de cada indivíduo, essa dimensão se acelera e se torna cada vez menos sensual. É a sensualidade o que estamos perdendo.

Este livro de que estamos falando, Fenomenología del fin, é um livro sobre a sensibilidade. Essencialmente o que me interessa é a evolução e a mutação da sensibilidade. Mas o que significa a palavra sensibilidade? Eu diria que a sensibilidade é a capacidade de entender algo que não dá para falar com palavras. Isso é a sensibilidade. Também na vida cotidiana, falamos que uma pessoa é ou não é sensível quando é capaz, ou não é, de entender a ironia, de entender as alusões, de entender o que não falamos, ou que falamos sem palavras. É isso o que se está perdendo, pois a digitalização implica um processo de sintatização da comunicação ‒ cada vez entendemos menos as nuances da comunicação, e cada vez mais, temos de reconhecer um padrão, reconhecer uma forma sintática. A mutação implica, necessariamente, uma plasticidade do cérebro, da mente, e uma plasticidade da própria linguagem. Mas essa plasticidade não pode ser desenvolvida plenamente sem sofrimento. O tempo em que vivemos é o tempo em que a mutação se manifesta de uma maneira essencialmente patológica.

Diego Sztulwark ‒ Agora, em seu livro, Franco, você também faz uma genealogia dessa vontade de abstração, e vai identificando, na cultura ocidental anterior, no puritanismo norte-americano e na história das religiões, por exemplo, toda uma espécie de história desse ideal de percepção digital. Então, minha pergunta seria se não há em seu modo de construção desse argumento uma espécie de idealização ou nostalgia dessa sensibilidade do passado? E isso também me leva a te perguntar o seguinte: no momento atual, que você caracteriza como de dessensibilização, não aparecem também algumas possibilidades de ir identificando novas formas de sensibilização ou de contrassensibilização? Quer dizer, seria uma dupla pergunta, como fazer para não situar um passado demasiadamente idealizado, um passado onde houve o nazismo, onde houve todos esses precedentes religiosos reacionários que já estavam atuando, onde a política tinha também momentos extremamente obscuros…Ou seja, nem tudo o que fica para trás é de um humanismo brilhante, por um lado e, por outro lado, como podemos fazer para tentar entender, nessa nova situação, quais os signos de sensibilidades novas?

 Bifo ‒ Essa é uma pergunta muito rica enquanto às suas implicações, mas muito difícil de ser respondida, pois tem vários lados. Primeira questão: o perigo de uma nostalgia da dimensão cultural, comunicacional do passado. Reconheço que para mim é quase que inevitável a referência ao passado da comunicação humana, como uma referência que pode parecer, que pode ser talvez nostálgica. Mas no plano teórico, minha tentativa é evitar, de ser possível, uma tonalidade saudosa nas considerações, pois o que me interessa é avaliar, analisar as diversas formações culturais e comunicacionais em sua complexidade. Por exemplo, você diz que há uma referência ao humanismo do passado, que pode ter um elemento de mistificação, de ideologia. Tentarei explicar. O que foi o humanismo?  O que foi a política que o humanismo moderno tornou possível na história da modernidade? Estou falando, por exemplo, de um texto de Maquiavel, não lembro se o citei no livro, mas acho que é muito útil para entender. Maquiavel, n’O Príncipe, seu livro mais conhecido, onde ele fala da própria fundação da política, em determinado ponto, ele diz que o príncipe, o político, é alguém que tem a capacidade de submeter, de subjugar a fortuna, que é fêmea, que é caprichosa, que é como uma mulher, caprichosa, e que deve ser submetida à vontade masculina. Nesse sentido, esse texto de Maquiavel é extremamente importante, pois, por um lado, permite entendermos que na história da política moderna há um elemento de violência machista muito profundo, muito determinante. Não é possível cancelar essa ideia machista da dominação sobre o caráter feminino da natureza e o caráter feminino do que Maquiavel chama de fortuna. O que é a fortuna? A fortuna é a imprevisibilidade dos acontecimentos, a imprevisibilidade da vida cotidiana. Esta imprevisibilidade, para Maquiavel, o objeto da dominação masculina e política. Então, você pode ver que quando falamos em humanismo, precisamos também falar de uma forma que é essencialmente machista. O homem do qual fala o humanismo é um macho, é um homem no sentido sexual, no sentido marcado pela cultura masculina moderna. A política é a capacidade masculina de dominar, de submeter a infinita imprevisibilidade da fortuna, isto é, dos acontecimentos, do événement de sentido, como falam os franceses. Então você pode ver que humanismo e dominação estão estreitamente vinculados na história da modernidade. Porém, e ao mesmo tempo, humanismo significa a potência da vontade. Só no interior da dimensão humanista moderna é possível imaginar que homem possa dominar a natureza e conhecer a natureza de maneira redutiva, de maneira útil a uma redução e a uma potência. No tempo digital, na época da mutação digital, quando a infosfera se torna infinitamente veloz, infinitamente complexa, nesse ponto, a fortuna não pode ser dominada. Ou seja, a riqueza, a imprevisibilidade dos acontecimentos, das informações, do possível, torna-se infinita. E a potência humana, isto é, masculina, no sentido de Maquiavel, fica enfraquecida, incapaz de elaborar esta hipercomplexidade. Aí se encontra o sentido, a razão principal da crise contemporânea da política. A política como força de dominação, como capacidade da vontade de dominar a riqueza infinita da natureza, torna-se impotente. A impotência da política contemporânea, nesse sentido, é a impotência de um conhecimento que não consegue conhecer o bastante, que não consegue conhecer no tempo acelerado da digitalização. Nesse ponto, o humanismo perde sua vitalidade. É uma crise que é a crise também da política. Temos que ser nostálgicos da política? Temos que ser nostálgicos do humanismo? Não. A nostalgia não se justifica nesses casos e, sobretudo, nunca é uma potência do conhecimento. Precisamos reconhecer a ruptura radical que está acontecendo e acompanhar a mutação que estamos vivendo. Mas para acompanhar, nesse sentido, o ponto de vista mais útil é a sensibilidade, não a política, não a redução cognitiva.

(Transcrição e tradução: Damian Kraus)

 

Parte 1

 

 

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Parte 2

 

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Entrevista realizada no programa radial La Mar en Coche

In: https://marencoche.wordpress.com/2017/07/25/bifo-la-politica-esta-muerta/

BIFO: “LA POLÍTICA ESTÁ MUERTA”

25 de julio de 2017

“Fenomenología del fin: sensibilidad y mutación conectiva” es el último libro del filósofo italiano editado en Argentina.

¿Cómo atraviesan nuestros cuerpos la revolución informática y qué implica la pérdida de sensibilidad? ¿Dónde queda nuestra capacidad de entender aquello que no se puede decir en palabras?

En esta charla, Bifo se pregunta: “¿Cómo podemos escapar de esta alternativa mortal entre la conexión financiera y el retorno agresivo del fascismo? La posibilidad de salir está en una dinámica del deseo que sea capaz de tomar la forma de la ironía. Nos encontramos en un túnel. Estamos atravesando una mutación y no podemos saber cómo saldremos. Sí sé que la definición de movimiento no puede ser solo política. Es un desplazamiento que nos permite ver la realidad desde un punto de vista diferente”.

Luiz Orlandi (7 minutos e 57 segundos): abrir a caixa preta das políticas de cuidado, manejos e o ineludível morrer

abrir a “‘caixa preta'” das ‘”políticas de cuidado'”. Trata-se de um pertinente trabalho de pesquisa, de sondagem e determinação de “linhas de força” que tentam moldar os cuidados em saúde, isto é, que, a seu modo, tentam influir nos “encontros entre profissional e usuário de saúde”. Pois bem, dentre as várias políticas, mas sem entrar na história de suas sucessivas incidências e nem na sondagem de suas mútuas interferências numa mesma espaço-temporalidade, eu gostaria de destacar o nome de uma delas, apenas o nome, a dos manejos, e dizer livremente certas coisas, livremente, por duas razões: primeiro, por ser apenas um dos viventes e, portanto, de estar sujeito a cuidados; segundo, falarei livremente por não ter a competência e nem a pretensão de pesquisador nessa área tão difícil e importante. Minha sensibilidade avisa-me que há uma pluralidade de sinais e graus de poder de manejos envolvidos com saúde. Eles se apropriam variadamente de questões de saúde. É inevitável, portanto, que eles explorem aspectos de um tipo de cortejo fatalmente colado aos viventes, estejam eles gozando ou não de melhor ou pior nível de saúde. Qual é esse cortejo? É o cortejo de um ineludível morrer . As infiltrações operadas por manejos — sejam as do tipo das sociedades de soberania, das sociedades disciplinares ou das sociedades de controle — são inevitavelmente acolhidas ou repudiadas em diversos graus pelos viventes. Não sou suficientemente dotado de conhecimento ou de confiança em mim mesmo para avaliar se esta ou aquela infiltração, comandada por este ou aquele manejo, seja capaz de injetar mais ou menos alguma saúde no meu próprio cortejo. É que nós, viventes, somos quase sempre capturados por estratégias e táticas que cada manejo emprega em conformidade com uma rede de operações não suficientemente explicitadas ao vivente. Então, se não se abre a caixa preta, fica mais difícil ainda a explicitação. Sendo assim, com suficiente serenidade em prol de um realismo saudável, trata-se de pensar ‘cuidados em saúde’ como ações que interfiram nesses cortejos. Para quê? Para que, do interior do seu próprio cortejo, o vivente esteja em condições de perguntar: que pode este ou aquele paliativo fazer com que meu cortejo, unindo-se ao cortejo de outros viventes, eleve a potência do questionamento vital que nos diz respeito….

A respeito de homem e pensamento. Luiz B. L. Orlandi

Estou pensando numa coisa que vem preocupando desempregadas e desempregados, trabalhadoras e trabalhadores cujos direitos, outrora conquistados, acham-se agora ameaçados; coisa que vem amargurando necessitados e necessitadas em cuidados de saúde; coisa que vem entristecendo pessoas ligadas a esforços voltados a processos de uma democratização legítima; coisa que ameaça corroer o vigor das lutas minoritárias; coisa que deixa crianças e jovens ao sabor de múltiplas corrosões de novas possibilidades de vida… E por aí vai… Mas não quero entristecer o que penso, assim como não me bastam certas alegrias solitárias, que, embora necessárias, não conseguem me ligar à emoção que se sente quando, por exemplo, um punhado de povo grita um BASTA! Um BASTA! a este ou àquele tipo de poderoso, seja qual for, que insista em submeter seu povo a processos de imbecilização política, religiosa etc. Sei que estou numa quase angustiada espera…

Estou pensando, justamente, na expectativa desse BASTA! Há poucos dias, uma pessoa me disse: será que não surgirá um homem forte capaz de por as coisas em ordem? Eu disse a ela: espero que não! Não quero um bosta, um homem forte, um fraco ou forte fascista comandando seu punhado de cretinos ou cretinas. Quero apenas pensamentos fortes, pensamentos fortalecidos por multiplicidades de bastas! a tudo que vem amesquinhando, entristecendo, empobrecendo o viver no Brasil nestes tempos dos assaltantes golpistas. Nossos bastas! estão por aí. Permanentemente sentidos e pensados, alguns foram vistos, outros são mostrados, outros ainda surgirão. Embora envelhecido, continuo andando nessa pluralística direção. Como disse um amigo: quero estar sempre engatado num povo por vir. A condição desse porvir é um devir-outro entre-outros; é estar junto com outros numa luta complexa: luta prioritariamente assumida contra o germe fascistóide que opera em cada um nós; e luta complementar contra o inimigo comum, contra, por exemplo, essas quadrilhas golpistas que estragam o governar, o julgar, o legislar, o jornalizar, o televisionar… e o viver com perspectivas decentes.

Abraços do Orlandi

AGORA AO VIVO. Invenção, Resistência e Produção de Vida nos Tempos do Cólera: que mundos podemos produzir?”

Transmissão iniciada há 1 hora
Nestes tempos de retrocessos, incertezas e interrogações precisamos de espaços coletivos abertos de debate e encontro.
Com essa aposta, o Observatório Microvetorial de Políticas de Saúde convida a todos para Seminário “Invenção, Resistência e Produção de Vida nos Tempos do Cólera: que mundos podemos produzir?”.
Nos encontraremos no dia 07 de julho de 2017 (sexta-feira) às 14 horas, no Auditório João Yunes – FSP/USP (Av. Dr. Arnaldo, 715).
A atividade aposta na ativação, num espaço para compartilhamento entre todos e também no debate com Emerson Merhy (UFRJ), Marília Louvison (FSP/USP) e Ricardo Teixeira (FMUSP) com mediação de Laura Feuerwerker (FSP/USP).
O evento é apoiado pelo Laboratório De Política e Gestão do Departamento De Política, Gestão e Saúde da FSP/USP e transmitido online pela Rádio Web Saúde.

O HOMEM ESCAPARÁ A SUA CABEÇA COMO O CONDENADO À PRISÃO. REVISTA Acéphale n.1 [A conjuração sagrada. PDF abaixo]”O que nós empreendemos é uma guerra” – lê-se no primeiro número da Acéphale, revista (paradoxalmente) encabeçada por Georges Bataille entre 1936 e 1939. Dedicada especialmente, mas não só, a uma leitura de Nietzsche contra o seu uso pelo fascismo. ACÉFALO É A TERRA A TERRA SOB A CROSTRA DO SOLO É FOGO INCANDESCENTE O HOMEM QUE SE REPRESENTA SOB OS PÉS A INCANDESCÊNCIA DA TERRA S’EMBRASA UM INCÊNDIO EXTÁTICO DESTRUIRÁ AS PÁTRIAS QUANDO O CORAÇÃO HUMANO DEVIRÁ FOGO E FERRO O HOMEM ESCAPARÁ A SUA CABEÇA COMO O CONDENADO À PRISÃO Link para a tradução da revista abaixo:

revista acéfala n 1