Maneira democrática de existir. Democrática quer dizer também o seguinte: combate às mistificações, às repressões e ao ovo da serpente que ameaça ressurgir à nossa volta. Peter Pelbart acerca de Luiz Orlandi.

Eu queria apenas dizer poucas palavras, não sobre Deleuze, mas sobre Orlandi, que nos dá a honra e alegria de sua presença, por ocasião deste duplo lançamento [lançamento, pela n- 1 de traduções brasileiras de Nietzsche e a filosofia e Cartas e outros textos]. Não há no Brasil melhor pessoa para falar desses livros. Há décadas a ruminação cotidiana dos textos de Deleuze, a tradução de vários de seus livros, a revisão técnica de toda sua obra, as aulas inesquecíveis a respeito de sua filosofia, seja na Unicamp, seja na PUC, seja em eventos vários, faz de Orlandi uma referência única no chamado campo deleuziano. Não bastasse ele ter traduzido Empirismo e subjetividade, O bergsonismo, Diferença e repetição [ com Roberto Machado ],A Dobra. Leibniz e o barroco, O anti-Édipo,A Ilha deserta e outros textos [ com GT Deleuze 17], Espinosa e o problema da expressão [ com GT Deleuze 12], Cartas e outros textos [com Guilherme Ivo], foi ele quem fez a laboriosa e cuidadosa revisão técnica de praticamente todos os outros livros publicados pela Editora 34, fosse por Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Munoz, fosse pelo coletivo de tradutores de Mil platôs ou por vários outros. É uma vida inteira dedicada não [apenas] à carreira acadêmica, mas ao pensamento. Infelizmente, esses não são a mesma coisa, e cada vez menos uma coisa é compatível com a outra. E se fizéssemos as contas para ver quantas toneladas de horas de vida foram dedicadas a essa missão – a saber, dar ao público brasileiro acesso a esse pensamento difícil -, ficaríamos assombrados. São décadas de estudo, pesquisa, inquietação, compartilhamento. Apesar disso, para nós, Orlandi não é o sisudo mestre que fala do alto de sua cátedra, mas aquele generoso e risonho interlocutor que jamais recusa uma consulta, uma banca, uma troca, uma prosa e que em toda e qualquer situação mantém sua postura humilde, modesta, simples, jamais subindo nas tamancas do raso poderzinho – ele é de um outro tempo, que, esperemos, ainda há de advir ou revir, em que pensar faz parte da vida – e não se pretende o signo de uma casta qualquer de mandarins. Sei que vamos falar de Deleuze, mas o convidado para isso, aqui, [neste livro], merecia essas poucas palavras – tenho certeza de que elas encontram eco entre as várias gerações que se for maram com ele e que desfrutaram de seu ensinamento, seu humor, sua graça, sua irreverência, sua maneira democrática de existir. Democrática quer dizer também o seguinte: combate às mistificações, às repressões e ao ovo da serp ente que ameaça ressurgir à nossa volta . Orlandi tem aquele jeito de anarquista italiano, avesso às complacências e servidões.Nisso tudo, sem imitá-lo, é totalmente fiel ao pensador que ele ajudou tanto a divulgar. Este escrito não é um necrológico; ao contrário, é um canto à vida que ele sempre conseguiu extrair dos textos e espalhar pelo entorno. Sabemos que para atingir essa leveza foi preciso um trabalho imenso; para ter essa clareza foi necessária muitíssima precisão, lapidação, ruminação; para ter essa irreverência foi preciso muito combate. Então, era só isso que eu queria dizer, que somos muito gratos – e passo a palavra a ele, p elo t empo que ele quiser, na altura em que ele desejar voar e nos levar com ele.

UNIFESP. Estratégias de Luta pela Democracia

 

43398261_512951719115030_1885226785923137536_nO evento “Estratégias de Luta pela Democracia” foi criado por professores, professoras, e alunos e alunas egressos (as) da UNIFESP – Baixada Santista preocupados com o atual cenário político no Brasil após o primeiro turno das eleições de 2018. Ele tem como objetivo abrir as portas da universidade para os movimentos sociais, preceptores de estágios, parceiros dos projetos de extensão e usuários e usuárias da rede de saúde, cultura e assistência das cidades da Baixada Santista de modo a criar um espaço aberto para a fala e discussão orientado para criar estratégias de luta contra a ascensão do fascismo e do autoritarismo no nosso país, perigosos porque aumentam a violência e diminuem a liberdade de cada um ser como é. Sugestões e ideias  são bem-vindas, assim como a invenção de modos de ação e intervenção na cidade.

Vozes do intervalo (por uma vida não fascista). Luiz B. L. Orlandi

“É uma vida inteira dedicada não [apenas] à carreira acadêmica, mas ao pensamento. Infelizmente, esses não são a mesma coisa, e cada vez menos uma coisa é compatível com a outra. E se fizéssemos as contas para ver quantas toneladas de horas de vida foram dedicadas a essa missão − a saber, dar ao público brasileiro acesso a esse pensamento difícil −, ficaríamos assombrados. São décadas de estudo, pesquisa, inquietação, compartilhamento. Apesar disso, para nós, Orlandi não é o sisudo mestre que fala do alto de sua cátedra, mas aquele generoso e risonho interlocutor que jamais recusa uma consulta, uma banca, uma troca, uma prosa e que em toda e qualquer situação mantém sua postura humilde, modesta, simples, jamais subindo nas tamancas do raso poderzinho − ele é de um outro tempo, que, esperemos, ainda há de advir ou revir, em que pensar faz parte da vida − e não se pretende o signo de uma casta qualquer de mandarins. Sei que vamos falar de Deleuze, mas o convidado para isso, aqui, [neste livro], merecia essas poucas palavras − tenho certeza de que elas encontram eco entre as várias gerações que se formaram com ele e que desfrutaram de seu ensinamento, seu humor, sua graça, sua irreverência, sua maneira democrática de existir. Democrática quer dizer também o seguinte: combate às mistificações, às repressões e ao ovo da serpente que ameaça ressurgir à nossa volta. Orlandi tem aquele jeito de anarquista italiano, avesso às complacências e servidões. Nisso tudo, sem imitá-lo, é totalmente fiel ao pensador que ele ajudou tanto a divulgar. Este escrito não é um necrológico; ao contrário, é um canto à vida que ele sempre conseguiu extrair dos textos e espalhar pelo entorno. Sabemos que para atingir essa leveza foi preciso um trabalho imenso; para ter essa clareza foi necessária muitíssima precisão, lapidação, ruminação; para ter essa irreverência foi preciso muito combate. Então, era só isso que eu queria dizer, que somos muito gratos − e passo a palavra a ele, pelo tempo que ele quiser, na altura em que ele desejar voar e nos levar com ele.”

Peter Pál Pelbart em Arrastões na imanência

 

Foto: Zilda Pinto Zakia