Fim do Programa De Braços Abertos seria grande equívoco – Por Antonio Lancetti

In: Revista Brasileiros, http://brasileiros.com.br/J6E8K

Foto: divulgação/Prefeitura de São PauloFoto: divulgação/Prefeitura de São Paulo

 

Dentre os cinco candidatos mais cotados a dirigir a Prefeitura de São Paulo somente o prefeito Fernando Haddad e a deputada Luiza Erundina concordam em continuar com o Programa De Braços Abertos. João Doria, Marta Suplicy e Celso Russomanno afirmam que irão interromper o Programa DBA.

Aparentemente esses enunciados têm motivações midiáticas, coladas na onda antipetista, na simplificação de consumo rápido que consiste na promessa de solucionar eliminando ou internando.

A proposta é intrigante, pois o Datafolha, em 18 de julho passado, constatou que 69% dos paulistanos apoiam o Programa DBA.

Parece uma questão puramente ideológica, algo assim como os candidatos de esquerda quererem cuidar em liberdade e os de direita prendendo.

Parece mais fácil, pelo fato de a Cracolândia não ter acabado, atribuir a culpa à existência de um programa integrado que cuida dessas pessoas. Como diz um candidato, é um Programa “de braços abertos para o crime”.

Mas as tentativas higienistas já foram testadas e fracassaram. Aqui e no mundo inteiro. Na Cracolândia paulistana, que é a maior cena de uso do Brasil, já houve várias intervenções policiais, com centenas de presos e de internados em comunidades terapêuticas e hospitais psiquiátricos (mais de 50% dos beneficiários do DBA já foram internados e mais de 60% já foram presos).

As drogas, mesmo essa cocaína para pobre, se regem pela lei do mercado, no caso, o mercado negro, e é de má-fé atribuir culpa a quem precisamente está cuidando. Lembramos também que a função de repressão ao tráfico é atribuição do Estado e não da Prefeitura.

Mas o debate, aparentemente ideológico, deixa de considerar a eficácia do Programa.

Acaba de ser publicada uma avaliação coordenada pelo professor de Psiquiatria Luis Fernando Tófoli, pela antropóloga Taniele Rui e o pesquisador Maurício Fiore, com colaboração do Cebrap e outros centros de apoio científico e financiada pela Open Society (conceituada fundação internacional ligada ao investidor George Soros).

Essa avaliação mostrou que mais de 70% dos beneficiários diminuíram significativamente o uso de crack e outras drogas, que os cuidados com a saúde melhoraram muito e que a adesão ao trabalho é de aproximadamente 75%.

Essa diminuição do consumo parece importante para o público em geral, mas, quando indagados os beneficiários, somente 6% consideraram importante a diminuição do consumo e 95% disseram ter se beneficiado de alguma maneira do Programa. Isto mostra o êxito conceitual do Programa, isto é, que através da mudança de vida é que se produzem as transformações concretas e não pela imposição da abstinência ou a penalização do consumo e da situação de vida dessas pessoas.

O Programa De Braços Abertos foi iniciado com três dispositivos: dormida, comida e trabalho, que no começo era só varrição. Mas ele foi se tornando mais complexo e rico: agora, os hotéis que atendem os usuários estão localizados em ruas mais distantes do chamado fluxo, monitorados por técnicos do Programa. Os trabalhos foram se ampliando, com oficinas de bicicletas, distribuição preventiva de preservativos em casas de sexo, produção artística, etc. As crianças estão em creches ou escolas.

O DBA está cada vez mais integrado com a rede de saúde, de saúde mental, da assistência e do trabalho da Prefeitura e acaba de ser inaugurada a Inspetoria de Redução de Danos da Guarda Civil Metropolitana, primeira do tipo no mundo.

Depois de uma primeira capacitação de guardas civis metropolitanos para operar em conjunto com as equipes de saúde, assistência, direitos humanos e trabalho, a experiência busca diminuir o autoritarismo, aumentar a autoridade, intermediando conflitos e superar a dicotomia segurança/saúde.

Antigamente os médicos, enfermeiros e agentes de saúde prescreviam o tratamento e cuidavam para que os usuários aderissem a ele. Porém, os guarda civis lhes subtraíam os medicamentos, pois eram orientados a expulsá-los das ruas.

Muitos usuários já se internaram, mas a maioria voltou à zona de uso. O circuito zona de uso, prisão, internação faz parte dos territórios drogados, é preciso produzir outros modos de vida e isto é o que o Programa De Braços Abertos procura e está alcançando.

Hoje ele atende cerca de 500 usuários, fora a aproximação constante aos que estão no fluxo que também diminuiu entre 50% e 70%. A violência diminuiu na região.

O Programa de Braços Abertos é a única experiência inteligente que se criou para enfrentar um problema tão complexo.

As simplificações e os apelos eliminatórios podem ter êxito eleitoral, mas a interrupção da experiência seria um verdadeiro crime.

 

A tartaruguinha de D.H. Lawrence

 

Para  D.H Lawrence, a experiência tartaruga na qual ele entra não tem nada a ver com uma relação sentimental e doméstica. Lawrence, por sua vez, faz parte dos escritores que nos causam problema e admiração, porque souberam ligar sua escrita a experiências animais reais inauditas. Mas, justamente, recrimina-se a Lawrence: “Suas tartarugas não são reais!” E ele responde: é possível, mas meu devir o é, meu devir é real, inclusive e sobretudo se vocês não podem julgá-lo, porque vocês são cachorrinhos domésticos.”

D.G

“Estou cansado de ouvir dizer que não há animais deste tipo. (…) Se eu sou uma girafa, e os ingleses ordinários que escrevem sobre mim gentis cachorrinhos bem educados, é isso aí, os animais são diferentes. (…) Vocês não gostam de mim, vocês detestam instintivamente o animal que sou”.

D.H. Lawrence

ABAIXO

A tartaruguinha

D.H. Lawrence

Tu sabes o que é ter nascido só,

Tartaruguinha!

 

No primeiro dia esticar

Os pés aos pouquinhos

Pra fora do casco

Ainda mal acordada,

E continuar estirada na terra,

Pouco viva ainda.

 

Uma miúda, frágil, semi-animada noz.

 

Tentar abrir tua miúda e bicuda boca,

Que parece uma porta de ferro,

E parecendo que nunca vai conseguir.

Levantar teu aquilino bico desde baixo,

Para elevá-lo até teu pequeno e magro pescoço

E dar tua primeira mordida em algum fiapo de erva,

Solitário e pequeno inseto,

Inseto de olhos brilhantes,

E lento.

 

 

Dar tua primeira e solitária mordida

E continuar tua lenta e solitária caçada.

Teu pequeno e brilhante e escuro olho,

Teu olho de uma escura e turbulenta noite,

Sob tua lenta cobertura, tartaruguinha,

Quanta coragem tens.

Nunca se ouviu uma queixa tua.

 

Lanças tua cabeça para a frente, lentamente,

Emergindo de tua pequena capa

E avanças, arrastando-te, com tuas quatro patinhas

Indo lentamente em frente,

Para onde, pequeno pássaro?

 

Como um bebê mexendo seus membros,

Só que  fazes pequenos, infinitos progressos

Enquanto um bebê não faz nenhum.

 

O toque do sol te anima

Mas as eras longínquas e o permanente frio

Te obrigam a fazer uma pausa para bocejar,

Abrindo tua impenetrável boca,

Subitamente bicuda e muito larga

Tal como uma tenaz subitamente aberta;

Tua língua  é rosada e macia

E tuas gengivas finas e firmes,

Depois fechas a cavidade

Dessa pequena e montanhosa fachada,

Que é o teu rosto, tartaruguinha.

 

Tu te maravilhas com o mundo

Ao mesmo tempo em que, lentamente,

Giras tua cabeça em sua capa

E olhas com olhos negros, lacônicos?

Ou é o sono que te bate outra vez,

A não-vida?

 

É tão difícil te acordar.

 

És capaz de te maravilhar?

Ou se trata apenas da tua indômita vontade

E o orgulho da primeira vida

Que olha ao redor

E lentamente coloca-se à prova contra a inércia

Que parecia invencível?

 

Ali o vasto inanimado,

Aqui o fino brilho de teus olhos tão minúsculos,

Desafiantes.

 

Nada disso, miúdo pássaro-carapaça,

É contra um enorme e vasto inanimado que  vais contra,

Contra uma incalculável inércia.

 

Desafiadora,

Pequeno Ulisses, precursora,

Nada maior que meu polegar:

Buon viaggio.

 

Toda a criação animada sobre tuas costas,

Vai em frente, pequeno Titã, sob teu escudo de guerra.

 

Ali o pesado, dominante

E inanimado universo,

E aqui tu, lentamente te mexendo, pioneira, sozinha.

 

Quão animado,

Estóico, ulissiano átomo,

Parece teu passeio agora,

À perturbadora luz do sol.

Subitamente te apressas, ousada,

Apoiada sobre tuas patinhas dianteiras.

 

Pequeno pássaro mudo,

Repousas tua cabeça

Só a metade para fora de sua capa

Na lenta dignidade de tua eterna pausa.

 

Só, sem nenhuma idéia de que está só,

E por isso seis vezes mais solitária,

Envolvida na lenta paixão de armar,

Através de eras imemoriais,

Tua acanhada e redonda casa em meio ao caos.

 

Sobre a terra do jardim,

Minúsculo pássaro,

À beira de todas as coisas.

 

A vida, toda ela, posta sobre tuas costas,

Invencível precursora.

Tradução: T T

A anorexia é uma história de política. Gilles Deleuze

Pensamos que esta digressão sobre a anorexia devia tornar as coisas mais claras. Talvez, ao contrário, não se deva multiplicar os exemplos, pois há uma infinidade deles, e em direções diversas. A anorexia ganhará cada vez mais importância. A anorexia é, talvez, aquilo de que se falou da pior maneira, sob a influência de Lacan, notadamente: o vazio, próprio ao corpo sem órgãos anoréxico, não tem nada a ver com uma falta, e faz parte da constituição do campo de desejo percorrido de partículas e de fluxos. Gostaríamos de retornar, mais à frente, a esse exemplo, detalhá-lo. Mas já o deserto é um corpo sem órgãos que nunca foi contrário às tribos que o povoam, o vazio nunca foi contrário às partículas que nele se agitam. Caso de anorexia. Trata-se de fluxos alimentares, mas em conjunção com outros fluxos, fluxos vestimentares, por exemplo (a elegância propriamente anoréxica, a trindade de Fanny: Virginia Woolf, Murnau, Kay Kendall). O anoréxico compõe para si um corpo sem órgãos com vazios e cheios. Alternância de enchimento e de esvaziamento: as devorações anoréxicas, as absorções de bebidas gasosas. Não se deveria falar sequer de alternância: O vazio e o cheio são como dois limiares de intensidade, trata-se, sempre, de flutuar em seu próprio corpo. Não se trata de uma recusa do corpo, trata-se de uma recusa do organismo, de uma recusa do que o organismo faz o corpo sofrer. De modo algum regressão, e sim involução, corpo involuído. O vazio anoréxico não tem nada a ver com uma falta, é, ao contrário, uma maneira de escapar à determinação orgânica da falta e da fome, à hora mecânica da refeição. Há [129] todo um plano de composição do anoréxico, para se fazer um corpo anorgânico (o que não quer dizer assenlado: ao contrário, devir-mulher de todo anoréxico). A anorexia é uma política, uma micropolítica: escapar às normas do consumo, para não ser objeto de consumo. É um protesto feminino, de uma mulher que quer ter um funcionamento de corpo, e não apenas funções orgânicas e sociais que a entreguem à dependência. Ela voltará o consumo contra si mesma: será, na maioria das vezes, manequim – será, na maioria das vezes, cozinheira, cozinheira volante, ela dará de comer aos outros, ou então gostará de estar à mesa sem comer, ou então multiplicando a absorção de pequenas coisas, de pequenas substâncias. Cozinheira-manequim, uma mistura que só pode existir nesse agenciamento, nesse regime, ou então que vai se dissolver nos outros. Seu objetivo é arrancar da comida partículas, minúsculas partículas das quais poderá fazer tanto seu vazio quanto seu cheio, conforme as emite ou recebe. O anoréxico é um apaixonado: ele vive de várias maneiras a traição ou o duplo desvio. Ele trai a fome, porque a fome o trai, sujeitando-o ao organismo; ele trai a família porque a família o trai sujeitando-o à refeição familiar e a toda uma política da família e do consumo (substituir a isso um consumo interrompido, mas neutralizado, asseptizado); enfim, ele trai o alimento, porque o alimento é traidor por natureza (idéia do anoréxico, que o alimento está cheio de larvas e de venenos, vermes e bactérias, essencialmente impuro, daí a necessidade de escolher e de extrair dele partículas, ou de cuspi-las novamente). Estou morrendo de fome, diz ela, precipitando-se sobre dois “yogurts dietéticos”. Engana-a-fome, engana-a-família, engana-o-alimento. Em suma, a anorexia é uma história de política: ser o involuído do organismo, da família ou de uma sociedade de consumo. Há política desde que haja contínuo de intensidades (o vazio e o cheio anoréxico), emissão e captação de partículas de alimentos (constituição de um corpo sem órgãos, por oposição à dietética ou ao regime orgânico), e sobretudo conjugação de fluxos (o fluxo alimentar entra em relação com um fluxo vestimentar, um fluxo de linguagem, um fluxo de sexualidade: todo um devir-mulher molecular no anoréxico, seja ele homem ou mulher). É o que chamamos de um regime de signos. Não se trata de modo algum de objetos parciais. É verdade que a psiquiatria ou a psicanálise lacaniana não compreendem, porque elas rebatem tudo sobre um código neuroorgânico, ou simbólico (“falta, falta…”). Surge, então, outra questão: porque o agenciamento anoréxico corre o risco de descarrilhar, de tornar-se mortífero? Que perigos ele sempre beira, e em quais ele cai? É uma questão que deve ser colocada de maneira diferente de como Lacan a coloca: é preciso procurar quais são os perigos que ocorrem no meio de uma experimentação real, e não a falta que preside a uma interpretação preestabelecida. As pessoas estão sempre no meio de um empreendimento, onde nada pode ser assinalado como originário. Sempre coisas que se cruzam, jamais coisas que se reduzem. Uma cartografia, jamais uma simbólica.

***

A própria anorexia esboçava outro regime de signos, que só reduzimos a esse esquema por comodidade (…) já não se pode saber se é um fluxo alimentar ou verbal, de tanto que a anorexia é um regime de signos, e os signos, um regime de calorias (agressão verbal quando alguém, de manhã cedinho, quebra o silêncio; o regime alimentar de Nietzsche, de Proust ou de Kafka é também uma escritura, e eles a compreendem assim; comer-falar, escrever amar, você jamais apreenderá um fluxo sozinho).

INCLUSÃO HEGEMÔNICA

Passamos hoje de uma sociedade disciplinar, segundo o diagnóstico de Foucault, para uma sociedade de controle, conforme a expressão de Burroughs. A sociedade discipli­nar era constituída por instituições de confinamento, como a família, a escola, o hos­pital, a prisão, a fábrica, a caserna. Depois da Segunda Guerra mundial, porém, as instituições de confinamento começaram (lentamente e ainda estão) a entrar em crise. Seus muros desmoronam (digamos, a família se pulveriza, a escola entra em colapso, o manicômio vira hospital­-dia, a fábrica se atomiza) mas, paradoxalmente, sua lógica se generaliza ou seja, a lógica disciplinar que presidia as instituições disciplinares se espraia por todo o cam­po social, prescindindo hoje do confinamento, e assume modalidades mais fluidas, flexíveis, tentaculares, informes e esparramadas. Se antes o social era recortado e quadriculado pelas instituições, configurando um espaço estriado, agora navegamos num espaço aberto, sem fronteiras demarcadas pelas instituições – espaço liso. Enquanto a sociedade disciplinar forjava moldes fixos (pai de família, aluno, soldado, operário) e circuitos rígidos, a sociedade de controle funciona com redes moduláveis. O exemplo de Deleuze é simples: em alguns países os presos já não ficam confinados entre quatro paredes, num espaço fechado, mas circulam pela cidade livremente, com uma coleira eletrônica capaz de localizá-los por toda parte e a qualquer momento. Maior fluidez e mobilidade, acompanhada de maior controle: sociedade de controle. A lógica que antes estava restrita à prisão abarca agora o campo social inteiro, como se a própria sociedade tivesse se tornado uma prisão. Também nós podemos circular livremente entre os diversos espaços, tal como os presos das sociedades mais avançadas, e o fazemos sob o olhar atento das câmeras que nos vigiam e nos pedem para sorrir, excitados com nossa parafernália celular cuja função de coleira eletrônica apenas começa a ser percebida (onde você está? pergunta a mãe ao filho, a mulher ao esposo, o patrão ao funcionário), munidos do cartão magnético que permite igualmente rastrear os mínimos detalhes de nossa vida, ao mesmo tempo que somos monitorados pelas diversas ondas eletrônicas que nos rodeiam por todos os lados: prisioneiros a céu aberto. Deleuze lembra que antes se funcionava do seguinte modo: você não está mais na escola, aqui é o exército, ou você não está mais no exército, aqui é a fábrica, você não está mais na fábrica, aqui é a família. Com a diluição dessas fronteiras, e a extensão ilimitada da lógica de cada uma dessas modalidades, bem como a sobreposição delas, nunca se abandona nada, nem se quita nada: não é mais o homem confinado, diz Deleuze, mas o homem endividado. Por exemplo, não há mais escola, e sim um proces­so de formação permanente, a sociedade ela mesma torna-se uma escola interminável, segundo um processo de avaliação incessante. Não há mais produção restrita à fabrica, ou lazer restrito aos espaços de lazer, ou consumo reservado aos espaços de consumo: ao produzirmos estamos ao mesmo tempo consumindo e nos entretendo, ou vice­-versa. Quando as fronteiras entre os espaços se apagam tudo é escola, e tudo é empresa, e tudo é família, e tudo é caserna. Michael Hardt amplia o alcance dessa análise e comenta que não só passamos de uma sociedade disciplinar para uma sociedade de controle, como também de uma sociedade moderna a uma sociedade pós-moderna e, sobretudo, do imperialismo ao Império. A sociedade disciplinar funcionava por espaços fechados em contraposição a um exterior aberto. A sociedade de controle suprimiu essa dialética entre fechado e aberto, entre dentro e fora, pois aboliu a própria exterioridade, realização maior do capitalismo no seu estágio atual. O neocapitalismo apaga as fronteiras, nacionais, étnicas, culturais, ideológicas, privadas. Ele abomina o dentro e o fora, é inclusivo, e prospera precisamente incorporando em sua esfera efetivos cada vez maiores e domínios de vida cada vez mais variados. A economia globalizada constituiria o ápice dessa tendência inclusiva, em que se abole qualquer enclave ou exterioridade. Na sua forma ideal, observa Hardt, não existe um fora para o mercado mundial. O planeta inteiro é seu domínio, nada fica de fora. Chama-se de Império essa forma de soberania que abocanhou tudo (inclusão hegemônica).

PPP

Ver DELEUZE.G. Post Scriptum sobre as Sociedades de Controle. In Conversações. Rio de Janeiro, Ed. 34, 1992, p. 220. e M. Hardt. A sociedade Mundial de Controle. In Gilles Deleuze – Uma vida Filosófica.São Paulo.Ed. 34, 2000.

O mais espantoso é que o espantoso não espanta mais ninguém. Existe muita esperança, mas não para nós.

Kafka ficou diante de várias obras de Picasso e Gustav Janouch comentou que o pintor espanhol distorcia deliberadamente os seres e as coisas.  Kafka disse que Picasso não pensava desse modo: “Ele apenas registra as deformidades que ainda não penetraram em nossa consciência”. E acrescentou que “a arte [que interessa] é um espelho que adianta, como um relógio”, sugerindo que Picasso sondava algo por vir, que um dia se tornaria perceptível — “não as formas, mas as deformidades”.

Kafka: “o mais espantoso é que o espantoso não espanta mais ninguém” …“o que importa não é a liberdade [liberal], mas achar uma saída.”

E Kafka diz a Gustav Janouch:

“Não vivemos num mundo destruído, vivemos num mundo transtornado. Tudo racha e estala como no equipamento de um veleiro destroçado”.

A arte é um espelho que adianta, como um relógio.

Gustav Janouch.  Conversas com Kafka, trad. Celma Luz. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1983.