Que posso fazer com o que andam fazendo de mim? Luiz Orlandi acerca de Zumbi dos Palmares [Zumbi e seus companheiros continuam emitindo intensivos sinais às linhas de individuação ética e política]

 

gostaria de anotar a síntese de um quadro tenebroso e a passagem de uma linha ética por esse quadro. Eis a síntese que componho com palavras de Mbembe: talvez seja possível dizer, sem maniqueísmo, que a imensa maioria dos humanos está excluída de uma “soberania” entendida como “poder” e “capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer” (Achille Mbembe, Necropolítica. n-1, 2018, p. 5). E extraio uma linha ética da seguinte frase de Gilles Deleuze: “a questão que se encontra numa visão ética do mundo é sempre de poder e de potência, e não de outra coisa” (Gilles Deleuze, Spinoza et le problème de l’expression. Minuit, 1868, p. 247).

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Zumbi dos Palmares e seus companheiros foram “ao extremo do que podiam” e, assim, deram radical consistência a uma “tarefa propriamente ética”: é que seus corpos “estenderam sua potência de agir tão longe quanto puderam”. Em contrapartida, um corpo explorado em excesso ou deixado à míngua corre o risco de sofrer uma separação do seu próprio poder de ser afetado e da sua “potência de agir”; em consequência, ele vive “separado do que pode”, exposto, portanto, ao sucateamento e ou aos horrores de uma soberania genocida. De algum modo, Zumbi e seus companheiros continuam emitindo intensivos sinais às linhas de individuação ética e política. É que vivemos entre o que eles fizeram e os riscos de vivermos separados do que podemos. Donde uma pergunta que se reitera nos processos de individuação ético política: que posso fazer com o que andam fazendo de mim.

Luiz B. L. Orlandi
Dep. Filosofia- IFCH-Unicamp
7-12-2018

Angola, Congo, Benguela
Monjolo, Cabinda, Mina
Quiloa, Rebolo
Aqui onde estão os homens
Há um grande leilão
Dizem que nele há uma princesa à venda
Que veio junto com seus súditos
Acorrentados num carro de boi

Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver
Angola, Congo, Benguela
Monjolo, Cabinda, Mina
Quiloa, Rebolo
Aqui onde estão os homens
De um lado cana-de-açúcar
De outro lado, o cafezal
Ao centro, os senhores sentados
Vendo a colheita do algodão branco
Sendo colhido por mãos negras

Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver
Quando Zumbi chegar
O que vai acontecer

Zumbi é o senhor das guerras
Senhor das demandas
Quando Zumbi chega
É Zumbi é quem manda

Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver
Angola
Congo
Benguela
Monjolo
Cabinda
Mina
Quiloa
Rebolo

acerca de canibalismos

A noção de “antropofagia” proposta pelos modernistas remete originalmente, como sabemos, a uma prática dos índios Tupinambá[i]: um complexo ritual de execução e devoração dos inimigos, cativos de guerra. O que em geral não sabemos, a não ser que estejamos familiarizados com os estudos antropológicos, é que este ritual podia durar meses e até anos, sendo o canibalismo apenas uma de suas etapas – a única registrada no imaginário ocidental, provavelmente pelo horror que terá causado ao colonizador europeu. Embora, mais curiosamente ainda, o canibalismo também tenha sido privilegiado pelos modernistas na construção de seu argumento, uma outra etapa deste ritual, parece fornecer uma chave importante para as questões que pretendo abrir aqui. De acordo com os antropólogos Manuela Carneiro da Cunha e Eduardo Viveiros de Castro, após ter sido capturado, o prisioneiro era entregue às mulheres da tribo, e com elas permanecia por alguns meses ou até alguns anos. O prisioneiro não era maltratado pelas mulheres; pelo contrário, conviviam amistosamente. Ao longo deste período, elas iam preparando e decorando o Ibirapema, bastão  de madeira com o qual ele seria morto. No dia da execução, toda a tribo reunia-se na praça para onde seria levado o cativo, “decorado de plumas e pintado. Antes de ser morto, ele travava com seu executor, também paramentado, diálogos cheios de arrogância.”[ii] Depois disso ele era abatido, quando então se devoraria seu corpo, o que seguia um rigoroso ritual de corte do corpo em pedaços, preparação da carne e distribuição de suas partes segundo diferentes categorias de faixa etária, gênero, função, etc. dos membros da tribo. Aqui vem o ponto que mais nos interessa: o executor é o único membro da tribo que não participava do banquete canibal; imediatamente após matar o inimigo, ele deveria retirar-se para longe da aldeia, onde ficava para um prolongado e rigoroso resguardo”, durante o qual ele “mudava de nome e era marcado por escarificações em seu corpo.[iii] E assim, com o decorrer do tempo, nomes iam se acumulando, acompanhados de seus respectivos desenhos entalhados na carne, os quais plasmavam em corpo e língua os efeitos do confronto com cada novo inimigo; e quanto mais nomes e desenhos, mais prestigiado seu portador. A existência do outro – não um, mas muitos e diversos – era assim inscrita na memória do corpo, produzindo imprevisíveis devires da subjetividade.

Obedece esta mesma lógica, o fato de que segundo os jesuítas, os Tupinambás recebiam facilmente seus ensinamentos de europeus católicos e, com a mesma facilidade, os esqueciam ou simplesmente os abandonavam. O que para os padres era “inconstância de sua alma selvagem”[iv] revela na verdade a inexistência de um sentimento de si substancializado ou de uma cartografia vivida como suposta essência individual e/ou coletiva, seja ela qual for; daí o desapego e a liberdade de desfazer-se de elementos da própria cultura, absorver elementos de outras e também deixá-los de lado, quando não fazem sentido. Não por acaso, o único aspecto de sua cultura que os Tupinambá recusaram-se terminantemente a abandonar, foi a antropofagia[v]: este ritual de iniciação ao Fora e ao princípio heterogenético da produção de si e do mundo que ele implica.

[i] A designação de Tupinambá recobre uma grande variedade de grupos indígenas que habitavam o vasto território do qual apropriou-se a coroa portuguesa em seu empreendimento colonial e onde fundou o Brasil.

[ii] Manuela L. Carneiro da Cunha e Eduardo B. Viveiros de Castro, “Vingança e temporalidade: os Tupinambá”, in Anuário Antropofágico 85 (1986). Rio de Janeiro, Ed. Tempo Brasileiro; PP. ? ISSN #?.

[iii] Manuela L. Carneiro da Cunha e Eduardo B. Viveiros de Castro, op. cit.

[iv] Eduardo B. Viveiros de Castro, A inconstância da alma selvagem. São Paulo: Cosac ???

[v] Segundo Manuela L. Carneiro da Cunha e Eduardo B. Viveiros de Castro, os portugueses queriam usar a prática de captura de inimigos para fazer escravos, mas os índios resistiam. Quando não dava para escapar às ordens dos colonizadores, eles preferiam oferecer-lhes seus familiares para a escravidão, ao invés de entregar-lhes seus inimigos e abrir mão do ritual antropofágico (cf. op. cit.).

Suely Rolnik