LUCKY. Ao tirar o chapéu a forma do homem-branco-macho-racional-europeu, padrão majoritário da cultura do ocidente. São 5 minutos e 10 segundos.

Em Esperando Godot de Samuel Beckett, o único monólogo do ts lukcanimal Lucky liga e desliga (ao tirar o chapéu) a forma do homem-branco-macho-racional-europeu, padrão majoritário da cultura do ocidente. São 5 minutos e 10 segundos com legendas em português e o texto abaixo. Bem abaixo a peça completa com legendas.
Publicado por laboratoriodesensibilidades em 11/10/2015

LUCKY:

Dada a existência conforme se comprova nos trabalhos publicados de Puncher e Wattmann de um Deus pessoal quáquáquáquá de barbas brancas quáquáquáquá fora do tempo fora do espaço estando fora da hipótese de compreensão que do alto de sua divina apatia divina atambia divina afasia a todos ama profundamente com algumas exceções por razões desconhecidas mas o tempo dirá e sofre como o divino Miranda com aqueles que por razões desconhecidas mas o tempo dirá estão mergulhados no tormento mergulhados no fogo cujo fogo da flama se durar e quem pode duvidar incendiará o firmamento isto é atirar o inferno ao céu tão azul tranqüilo e calmo tão calmo com uma calma que mesmo vista como intermitente é melhor que nada mas não tão rápido e considerando o que é mais que um resultado dos trabalhos inacabados concluídos pela Acacacacademia de Antropopopometria de Essy-em-Possy de Testew e Cunnard fica estabelecido descartando-se todas as dúvidas todas as outras dúvidas que o que é permitido aos cálculos humanos assim como o resultado dos trabalhos inacabados de Testew e Cunnard consta a seguir mas não nos apressemos não tão rápido por razões desconhecidas que tendo em vista um resultado dos trabalhos publicados de Puncher e Wattmann estão estabelecidas acima de qualquer dúvida que tendo em vista os esforços de Fartov e Belcher deixados incompletos por razões desconhecidas de Testew e Cunnard inacabadas fica estabelecido quantos refutam aquele homem em Possy de Testew e Cunnard aquele homem em Essy aquele homem enfim resumindo que o homem em resumo apesar dos progressos na alimentação e na defecação perdas e rejuvenescimentos perdas e rejuvenescimentos e ao mesmo tempo simultaneamente por razões desconhecidas apesar dos progressos na cultura física na prática de esportes como tênis futebol atletismo ciclismo natação aviação mergulho equitação paraquedismo conação camogie patinação tênis de todos os tipos morte aviação esportes variados outono verão inverno inverno tênis de todos os tipos hockey de todos os jeitos penicilina e sucedâneos em poucas palavras eu resumo aviação pára-quedismo golfe de nove e de dezoito buracos tênis dos mais variados tipos em poucas palavras por razões desconhecidas em Feckham Peckham Fulham Clapham nomeando ao mesmo tempo simultaneamente o que por razões desconhecidas mas o tempo dirá definha resumindo Fulham Clapham em poucas palavras a morte per capita desde a morte de Bishop Berkeley sendo de uma polegada e um quarto per capita aproximadamente e muito mais ou menos próxima a medida decimal arredondada determina os pés descalços em Connemara em poucas palavras por razões desconhecidas não importa o que importa os fatos estão aí e considerando o que é mais muito mais grave que a luz a luz à luz dos esforços perdidos de Steinweg e Peterman parece o que é muito mais muito grave que a luz à luz a luz à luz dos trabalhos perdidos de Steinweg e Peterman que nas planícies nas montanhas pelos mares pelos rios água corrente correndo fogo corrente o ar é o mesmo e então a terra quer dizer o ar e então a terra no grande frio no grande escuro o ar e a terra transformam-se em pedra no grande frio tristemente no ano de seu Senhor seiscentos e alguma coisa o ar a terra o mar a terra transformam-se em pedra nas profundezas o grande frio no mar nas terras e no ar resumindo por razões desconhecidas apesar do tênis os fatos estão aí mas o tempo dirá em resumo tristemente em no enfim justo em frente em transformar-se em pedras quem pode duvidar resumindo mas não tão rápido sem pressa eu resumo o crânio sumindo sumindo sumindo e concomitantemente em paralelo o que é mais por razões desconhecidas apesar do crânio o crânio o crânio em Connemara apesar do tênis os cálculos abandonados inacabados enterrados ainda abrigando pedras em poucas palavras resumindo é uma pena tristemente abandonadas inacabadas o crânio o crânio em Connemara apesar do tênis do crânio das pedras Cunnard. Confusão, tumulto e luta. Vociferações finais.

Abaixo a peça completa com legendas em português.

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COMUM E TORNAR-SE IMPERCEPTÍVEL.

vidas imperceptíveis em tempos de empresa em nós, triunfalismo e sucesso.

São tempos em que somos convocados a estar em alta intensidade, evidência, a ser pessoa muito importante e com mobilização para o sucesso. No contemporâneo se intensifica o desejo tirânico de visibilidade, de ser solicitado, financiado e triunfar; se não produzirmos demanda, ninguém nos procura. Nessa ambiência pode irromper uma espécie de neo-narcisismoconforme a distinção efetuada por Luiz Orlandi entre cultura do narcismo (individualismo/sociedade disciplinar) e do neo-narcismo (dividualismo/sociedades de controle) que implica “levar cada eu, cada si, a viver com a impressão de ser pensado, visado, procurado, querido, bajulado, espelhado, biografado, noticiado, engrandecido, justiçado, cuidado, venerado, agraciado, compreendido, aplaudido, cumprimentado, velado, representado etc., tudo isso e muito mais compondo mil espelhos para um neo-narcisismo, esse do eu exposto a mil e uma visgo-ofertas que acabam separando-o daquilo que sobrava ao velho Narciso, o tempo da perigosa contemplação de si. Perigosa, porque o espelho d’água podia virar água viva ou tremer revelando a fragilidade da fisionomia. Talvez não se trate mais da velha ilusão da identidade própria, mas da ilusão de não se ter qualquer poder, ou de se ter um poder absoluto de controle sobre a multiplicidade de suas exposições”. O sucesso compulsório, adicto do sensacional e do espetacular, ou mesmo do sentimentalismo, frequentemente se liga à autopromoção e ao gerenciamento empresarial de si de religiosos, artistas, intelectuais, militantes, pesquisadores: ninguém parece estar imune ao apelo do triunfo. Tudo que se faz, diz e escreve precisa subir para as luzes, ser publicado e não pode mostrar “furos”, a não ser para aumentar o êxito e a intensidade das sensações, e nisso a curva de sensibilidade à inadequação, à falha e ao fracasso, parece maior e mais insuportável. Hoje a lógica da “empresa é uma alma, um gás” diz Deleuze que não está em um único lugar, está espalhado em nós, na tessitura dos grupos e coloniza o que chamamos de nosso desejo. É antes de tudo um modo de fazer que impregna as instituições  federais, estaduais e municipais com incidências empreendedoras as mais diversas nas artes, na pesquisa, na política com seus prêmios, excitações e saudáveis motivações. Explorar direções que nunca ou pouco se ouviu e que não estejam em alta excitação – na frequência do triunfo e gerenciamento de si – parece se tornar mais difícil em tempos de atração máxima pelo brilho e visibilidade. Talvez a adição contemporânea pelo sucesso faça com que uma vida qualquer, uma vida comum, não empreendedora, nem gerente de si seja mais facilmente percebida como fracassada, invisível, imperceptível. Pode tratar-se de uma questão de percepção, uma mutação na percepção, mais precisamente no limiar de percepção que incide e é sustentado nos grupos e coletivos, nos quais não ser percebido é ter pouca importância, é deixar de ser, e isso parece ser insuportável. Deleuze, por outra via, escreve que “se é verdade, como foi dito pelo bispo irlandês Berkeley, que ser é ser percebido (esse est percipi), seria preciso isso, deixar de ser para tornar-se imperceptível. Tornar-se impercetível, realizar um trabalho sem ser demasiadamente visível pode ser uma guerrilha contra forças maiúsculas em nós, empreendedorismos ou quaisquer proeminências que nos habitam e habilitam a certo servilismo (Luiz Orlandi). Uma possibilidade de avizinhar-se a experiências e vidas frequentemente desqualificadas por certa mutação na percepção adicta de sucesso e visibilidade. Uma ética difícil e, ao mesmo tempo impessoal e singular, uma experimentação que é também a da precariedade, das contas que não fecham, das previsões que não se confirmam.

 

Notas do GELS para escritos in regress.

 

Ódio. Tato Pavlovsky

 

“… o momento chegará quando realmente comecemos a

 

sentir um ódio insuportável, e nos juntemos todos com o

 

ódio, juntos. Tanto ódio como sentiu o povo russo

 

quando combateu os alemães em Stalingrado e ganhou a

 

guerra impossível.” 

 

Tato Pavlovsky em fevereiro de 2003, então com 70 anos, quando já era iminente a invasão do Iraque pelos EUA a mando de George W. Bush, e a 60 anos do fim da Batalha de Stalingrado.

VERBOS DO PESQUISAR QUE AJUDAM A NARRAR. “Por exemplo, a vereda dos termos “descascar”, “desembolsar”, “desenterrar”, “desmascarar”, vereda esta que facilita pensar complexos envolvimentos mútuos na imanência dos encontros”. Veja sutis desdobramentos desses verbos no vídeo de 3 minutos com Luiz Orlandi

https://laboratoriodesensibilidades.wordpress.com/2016/06/27/verbos-que-cuidam-do-pesquisar-video-com-luiz-orlandi-3-minutos-e-41-segundos/

sobre o par autoestima-resiliência

“Assim como o nefasto termo ‘autoestima’ revela de forma privilegiada as exigências supegoicas do modo de produção da subjetividade neoliberal, a palavra ‘resiliência’ a completa. Essa palavra famosa não é de modo algum um elogio à coragem implicada no desejo, e sim uma demanda de submissão despolitizada ao mandado que diz: façam o que fizerem com você, aguente que nós vamos te premiar, e faremos disso uma qualidade que te designe. É uma palavra feita à medida exata do novo capitalismo, que exige que por mais abstrata e obscura que seja a força que sempre pede mais, a virtude habita em quem se submeter a ela. O par autoestima-resiliência joga ao uníssono e serve à voracidade superegoica do neoliberalismo. O que evoca e torna indispensável a precisa indicação de Gramsci, quando pedia para não confundir jamais otimismo com entusiasmo.”

Jorge Alemán