Viagem de ligações, mascarando-se, inclusive, em outras letras-respostas. O QUE SERÁ? Luiz Orlandi e Chico Buarque.

“Em uma das letras da música popular brasileira, há um refrão que não apenas se mascara nos termos que seu deslocamento vai ligando, como também traz em si próprio essa indeterminação básica, essa falta de identidade do objeto=x; ainda mais, esse refrão tem a sonoridade de uma pergunta, uma potente pergunta enunciada por Chico Buarque: “o que será?” Esse refrão interrogativo, que intensifica e lança a uma enésima potência o afeto dos ritornelos, tem sido amordaçado por interpretações teóricas apressadas, muitas delas interessadas no fechamento de sua abertura conectiva. Mas, ali na canção, ele reanima sua própria viagem de ligações, mascarando-se, inclusive, em outras letras-respostas.””

Luiz Orlandi

Publicado por laboratoriodesensibilidades

ABAIXO COM MILTON E CHICO:

O conceito de verdade. Gilles Deleuze

 

“A verdade sempre foi colocada como essência, como Deus, como instância suprema… Mas a vontade de verdade precisa de uma crítica. – Definamos assim nossa tarefa – é preciso tentar, de uma vez por todas, colocar em questão o valor da verdade.”[1] Por isso Kant é o último dos filósofos clássicos: ele nunca coloca em questão o valor da verdade, nem as razões de nossa submissão ao verdadeiro. A esse respeito ele é tão dogmático quanto qualquer outro. Nem ele nem os outros perguntam: Quem busca a verdade? Ou seja: o que ele quer, aquele que busca a verdade? qual seu tipo, sua vontade de potência? Essa insuficiência da filosofia, tentemos compreender sua natureza. Todo mundo bem sabe que o homem, de fato, raramente busca a verdade: nossos interesses e também nossa estupidez nos separam do verdadeiro mais ainda do que os nossos erros. Mas os filósofos pretendem que o pensamento enquanto pensamento busca o verdadeiro, que ele ama “de direito” o verdadeiro. Estabelecendo um elo de direito entre o pensamento e a verdade, entrelaçando assim a vontade de um puro pensador à verdade, a filosofia evita entrelaçar a verdade a uma vontade concreta que seria a sua, a um tipo de forças, a uma qualidade da vontade de potência. Nietzsche aceita o problema no terreno em que ele está posto: não se trata, para ele, de colocar em dúvida a vontade de verdade, não se trata de lembrar uma vez mais que os homens de fato não amam a verdade. Nietzsche pergunta o que significa a verdade como conceito, quais forças e qual vontade qualificadas esse conceito pressupõe de direito. Nietzsche não critica as falsas pretensões à verdade, mas a verdade ela mesma e como ideal. Seguindo o método de Nietzsche, é preciso dramatizar o conceito de verdade. “A vontade do verdadeiro, que ainda nos induzirá [109] a um bocado de aventuras perigosas, essa famosa veracidade da qual todos os filósofos sempre falaram com respeito, quantos problemas ela já não nos colocou!… O que em nós quer encontrar a verdade? De fato, atrasamo-nos delongadamente diante do problema da origem deste querer, e pra finalizar nós nos encontramos completamente atravancados diante de um problema ainda mais fundamental. Admitindo que quiséssemos o verdadeiro, ao invés disso por que não o não-verdadeiro? Ou a incerteza? Ou até mesmo a ignorância?… E acreditariam se nos parecesse definitivo que o problema nunca antes foi colocado, que somos os primeiros a vê-lo, a encará-lo, a ousá-lo?”[2]

O conceito de verdade qualifica um mundo como verídico. Mesmo na ciência a verdade dos fenômenos forma um “mundo” distinto daquele dos fenômenos. Ora, um mundo verídico supõe um homem verídico ao qual ele remete como ao seu centro.[3] – Quem é esse homem verídico, o que ele quer? Primeira hipótese: ele não quer ser enganado, deixar-se enganar. Porque é “nocivo, perigoso, nefasto ser enganado”. Mas tal hipótese supõe que o próprio mundo já seja verídico. Pois num mundo radicalmente falso é a vontade de não se deixar enganar que devém nefasta, perigosa e nociva. De fato, a vontade de verdade teve de se formar “apesar do perigo e da inutilidade da verdade a todo preço”. Resta, portanto, uma outra hipótese: eu quero a verdade significa eu não quero enganar, e “eu não quero enganar compreende, como caso particular, eu não quero enganar a mim mesmo”.[4] – Se alguém quer a verdade, não é em nome daquilo que o mundo é, mas em nome daquilo que o mundo não é. Entendido está que “a vida visa extraviar, engambelar, dissimular, ofuscar, cegar”. Mas aquele que quer o verdadeiro, ele primeiramente quer depreciar essa alta potência do falso: ele faz da vida um “erro”, desse mundo uma “aparência”. Ele opõe, portanto, a vida ao conhecimento, ele opõe o mundo a um outro mundo, um além-mundo, precisamente o mundo verídico. O mundo verídico não é separável dessa vontade, vontade de tratar este mundo aqui como aparência. Desta feita, a oposição do conhecimento e da vida, a distinção dos mundos, revelam seu verdadeiro caráter: é uma distinção de origem moral, uma oposição de origem moral. O homem que [110] não quer enganar quer um mundo melhor e uma vida melhor; todas as suas razões para não enganar são razões morais. E sempre esbarramos no virtudismo daquele que quer o verdadeiro: uma de suas ocupações favoritas é a distribuição dos equívocos, ele torna responsável, ele nega a inocência, ele acusa e julga a vida, ele denuncia a aparência. “Eu reconheci que, em qualquer filosofia, as intenções morais (ou imorais) formam o verdadeiro gérmen de onde nasce a planta inteira… Não acredito, portanto, na existência de um instinto de conhecimento que seria o pai da filosofia.”[5] – Todavia, essa oposição moral é ela mesma tão somente um sintoma. Aquele que quer um outro mundo, uma outra vida, quer algo mais profundo: “A vida contra a vida”.[6] Ele quer que a vida devenha virtuosa, que ela se corrija e corrija a aparência, que ela sirva de passagem ao outro mundo. Ele quer que a própria vida se renegue e se volte contra si: “Tentativa de usar a força para exaurir a força.”[7] Por trás da oposição moral, perfila-se assim uma contradição de outra espécie, a contradição religiosa ou ascética.

Da posição especulativa à oposição moral, da oposição moral à contradição ascética… Mas a contradição ascética, por sua vez, é um sintoma que deve ser interpretado. O que ele quer, o homem do ideal ascético? Aquele que renega a vida é ainda aquele que quer uma vida diminuída, sua vida degenerescente e diminuída, a conservação do seu tipo, e mais ainda, a potência e o triunfo do seu tipo, o triunfo das forças reativas e seu contágio. Neste ponto, as forças reativas descobrem o inquietante aliado que as conduz à vitória: o niilismo, a vontade de nada.[8] É a vontade de nada que suporta a vida apenas sob sua forma reativa. É ela que se serve das forças reativas como do meio pelo qual a vida deve se contradizer, se negar, se aniquilar. É a vontade de nada que, desde o início, anima todos os valores que se chama de “superiores” à vida. E eis o maior erro de Schopenhauer: ele acreditou que, nos valores superiores à vida, a vontade se negava. De fato, não é a vontade que se nega nos valores superiores, são os valores superiores que se entrelaçam a uma vontade de negar, de aniquilar a vida. Essa vontade de negar define “o valor” dos valores superiores. Sua arma: fazer a vida passar sob a dominação das forças reativas, de tal maneira [111] que a vida inteira role sempre mais longe, separada do que ela pode, apequenando-se cada vez mais, “… até o nada, até o sentimento pungente do seu nada”.[9] A vontade de nada e as forças reativas, são esses os dois elementos constituintes do ideal ascético.

Assim a interpretação descobre, ao escavar três espessuras (o conhecimento, a moral e a religião), o verdadeiro, o bem e o divino como valores superiores à vida. Todos os três se encadeiam: o ideal ascético é o terceiro momento, mas também o sentido e o valor dos outros dois. As cartas estão todas na mão, portanto, para se partilhar as esferas de influência, e pode-se até mesmo opor cada momento aos outros. Refinamento que não compromente ninguém, nisso o ideal ascético sempre se reencontra, ocupando todas as esferas num estado mais ou menos condensado. Quem pode acreditar que o conhecimento, a ciência, e mesmo a ciência do livre pensador, “a verdade a todo preço”, comprometem o ideal ascético? “Assim que o espírito está em ação com seriedade, energia e probidade, ele prescinde absolutamente de ideal…: a não ser que ele queira a verdade. Mas essa vontade, esse resto de ideal, se nisto quiserem me crer, é o próprio ideal ascético sob sua forma mais severa, mais espiritualizada, mais puramente esotérica, mais despojada de qualquer envoltório exterior.”[10]

[1]    GM, III, 24.

[2]    BM, I.

[3]    VP, I, 107: “Para poder imaginar um mundo do verdadeiro e do ser, foi primeiramente preciso criar o homem verídico (inclusive o fato dele se acreditar verídico).”

[4]    GC, 344.

[5]    BM, 6.

[6]    GM, III, 13.

[7]    GM, III, 11.

[8]    GM, III, 13.

[9]    GM, III, 25.

[10]   GM, III, 27.

CINCO DESENHOS DE DELEUZE. Os cinco desenhos de Deleuze figuram numa dupla plaqueta editada por Karl Flinker em 1973, sob o título geral: Deleuze Foucault. Mélanges: pouvoir et surface. Avec six surfaces de Gilles Deleuze. A primeira plaqueta tem como título “Faces e superfícies”. Trata-se de uma conversa entre Deleuze e Stefan Czerkinsky (reproduzida em ID, p. 391-394) onde figuram cinco (e não seis) desenhos. A segunda plaqueta é um texto de Foucault intitulado “O poder e a norma”. No link abaixo:

5 desenhos de Deleuze

Cartas de Deleuze

A ALAIN VINSON*

11 de abri de 1964

Caro amigo,

Fiquei feliz por ter recebido notícias suas […] Me interessam muito suas questões sobre Kant. Mas sua análise é tão bem conduzida que não vejo outras respostas a essas questões que não aquelas que você mesmo dá.

1) É certo que a teoria das coisas em si tem dois aspectos: como substrato dos fenômenos, como fundamento da vontade — fora de nós e em nós.

2) Como fundamento da vontade, a coisa em si já não é uma “coisa” nem um “em si” (a esse respeito, creio que você encontraria uma análise interessante no recente livro de Éric Weil, Problèmes du kantisme — ou Problèmes kantiens, não sei muito bem qual é o título)a.

3) Eu seria tentado a dizer que a coisa em si voluntária racional é um caso particular, uma especificação1 da coisa em si substrato. Por aí, eu teria menos que você a tendência de fazer {18} do mundo moral a fonte da aparição dos fenômenos. O mundo moral me pareceria quando muito, em última instância, a fonte de sua inteligibilidade. Na verdade, o problema que você levanta se põe efetivamente no kantismo, mas não é resolvido pelo próprio Kant. Ele o é por Fichte, de um lado, de outra parte por Schopenhauer — e num sentido bastante vizinho daquele que você indicou (em Schopenhauer, a vontade é efetivamente fonte de aparição). Ou, sobre Fichte, veja o capítulo, interessante a esse respeito, de Vuillemin L’Héritage kantien et révolution copernicienneb.

4) Você diz que há mais do que um acordo das faculdades: há uma unidade supra-sensivel. Sou plenamente favorável ao seu parecer. Mas só o acordo pode ser conhecido, e a unidade só pode ser concluída. Isso, aliás, traria uma precisão: pois se a coisa em si-substrato não é nem matéria nem ser pensante, é à maneira dos seres pensantes que nós conhecemos; ao contrário, se a coisa em si-vontade é ser pensante, é de uma maneira que nós não conhecemos.

5) O que você pode, com razão, censurar no meu pequeno livroc, é ele permanecer totalmente insuficiente quanto a esse problema dos dois aspectos da coisa em si. Não levantei esse problema, todavia muito importante. Mas se eu o levantasse, pessoalmente eu não iria nem mais longe que você, nem melhor.

Creia em minha amizade

Gilles Deleuze

 

{19}

 

A CLÉMENT ROSSET*

 

26 de fevereiro de 1966

 

Caro amigo,

Não lhe escrevi desde sua partida para o Canadá, preguiça e excesso (tomado pelo trabalho)a. Entretanto, não foi por deixar de pensar em você. Imagino-o bastante sob todas as formas canadenses possíveis: hilaridade: mas veja nisso tão só minha amizade, se essa vida por aí não for divertida. Recebi sua carta chipanzés e Teilhardb. Gostei bastante dele, é muito bonito e de belo estilo (Châtelet, em L’Observateur…não concluo meu pensamento, múltiplo a esse respeito). Persigo obscuros devaneios sobre a necessidade de um novo estilo ou de uma nova forma em filosofia; findei um longo Sacher-Masoch, do qual não sei muito o que fazer c. Mas Lion é uma espécie de Canadá. Gostaria de vê-lo em breve. Com amizade

Gilles Deleuze

{20}

 

15 de setembro de 1966

Escrevo-lhe às pressas, dizendo-lhe apenas do meu prazer de ter recebido os chipanzés e de tê-lo lido completamente, muito alegre). Quanto ao problema profissional, sei pouco:

1) Fundação T [Thiers] NT: isso pode dar a você 3 anos sem nada fazer. Ou também três anos para você findar sua tese. Pois creio que sua potência de trabalho, quando se mete nele, é muito grande. A questão não é se sua tese será boa, pois ela o será, e mais do que boa, mas se você quer trabalhar imediatamente. Mas se você, então, não tiver findado sua tese nos 3 anos, que acontece? Me admiraria que você viesse a ter a Recherche após Thiers, sobretudo logo após. Portanto, se você ganha Thiers, o que seria muito interessante no imediato, é preciso dizer-lhe que confecção da tese impor-se-á com muita urgência. É verdade que, mesmo depois de Thiers, você poderá reencontrar o posto de assistente. E também que, de toda maneira, você tem interesse em dedicar-se a sua tese e findá-la bem rapidamente.

2) Assistanat NT: haverá trabalho, mas talvez menos do que você imagina. É verdade que não conheço as exigências de Jankélévitch (notadamente trabalhos escritos a serem corrigidos). Esses cursos lhes são necessários ou somente lhes dão prazer? Ao findar o período de assistência, você terá automaticamente direito à Recherche (a menos que as coisas tenham mudado, ou que, na lista dos mestres-assistentes, você não tenha solicitado vivamente galgar um posto após seu tempo de assistência…).

Devaneio mais do que lhe aconselho. Cada frase que escrevo é corrigida pelo vago. A decisão deveria depender de circunstâncias exteriores: você pretende retomar sua vida e Paris sob uma forma livre e privada ou então sob uma forma profissional que comporte contato com estudantes e professores? O vago advém por não se saber o que se passará nos 3 anos, na nossa profissão (por exemplo, do ponto de vista da pesquisa). De toda maneira, nos dois casos, Thiers ou assistência, o problema comum é a necessidade de preparar sua tese: o que mais favorecerá isso, o que melhor lhe servirá como excitante? De todas as maneiras, não se indispor com J[ankéléitch] nem com G[ouhier] (é possível, através de uma longa carta, na qual você exporá a um ou ao outro as mais dignas razões de sua escolha, {21} não conforme seu desejo — mas não diga em que medida G[ouhier] lhe falou e o que ele lhe disse) a. Em suma: pensando em você, leve preferência por Thiers (todavia, nada sei sobre o modo de vida aí, da “obrigações”; e a menos que você sinta necessidade de fazer cursos). É isso aí. Bom Canadá. Conte-me sua decisão. Com amizade.

Gilles Deleuze

 

 

Maio de 1979

 

Caro Clément,

 

De tanto reenviar minhas cartas, tenho como que o sentimento de ter criado um mal entendido, do qual eu seria a única vitima no caso de você pensar que deixei de pensar em você e de desejar. Há muito não nos vemos (pelo que me lembro, você telefonou num momento em que eu não me encontrava). Continuo sentindo sua falta. Em sua próxima passagem, se você quiser, lembre-me a fim de que façamos um bom almoço como só nós sabemos fazer. O ano passou num relâmpago. Minhas páginas se acumulam e eu estou bem contente, mas falta-me sempre a distância infinita cada vez menor para findar, de modo que isso não corre o risco de chegar, a não ser por divina surpresa a. Minha única descoberta foi suprimir páginas a serem feitas, não ainda feitas, o que é a única maneira de ganhar tempo. Que alegria eu tive. Mas você, mas você? Anexo aqui um bilhete para Descombes, do qual não tenho o endereço b . Prefiro enviá-lo a você. Leia-o e não lhe dê, a não ser que você não veja inconveniência nisso. Transmito-lhe minha afeição e abraço-o.

Gilles Deleuze

(Envelope raro, porque não tenho outro. Foi-me emprestado por Émilie.)

{22}

 

Abril de 1981

 

Caro amigo,

 

Fiquei muito feliz com seu pequeno bilhete. Então você está numa espécie de aposentadoria? Você sabe que tenho confiança em sua força e tenho o pressentimento de que você sairá disso com uma grande renovação, de uma maneira inesperada por todos os seus amigos. Fiz um pequeno relatório sobre o estado da literatura e da filosofia hoje, que gostaria de enviar a você e saber de sua opinião. Até breve. Com amizade.

Gilles Deleuze

 

— Você não deve pensar frequentemente, nem com prazer, na grotesca prova que a universidade lhe infringiu a. Eis que um certo número de pessoas, relativamente poderosas (Bourdieu, por exemplo) começam a se inquietar com esse estado de coisas. Gostaria muito, quando nos vermos, que você tivesse a paciência de me contar isso. Seria bom que houvesse um movimento contra.

 

21 de outubro de 1981

Caro Clément,

 

Não nos vemos mais, o que muito lamento. Passei as férias todas no Limousin sem retornar a Paris. Teria amado muito tê-lo visto. Você acha que as pessoas estão mais gentis e descontraídas desde nosso regime socialista? Aliás, isso não é uma razão para que o mundo universitário melhore. Não paro de ser oprimido, e isso me apavora: é a idade ou então minha saúde frágil. Com Villani aconteceu alguma coisa que me deixou profundamente desolado a: ele me havia telefonado, e depois chegou a Paris sem me prevenir quanto à data exata, e não pude vê-lo. Se você quiser, diga-lhe que estou numa verdadeira confusão, mas também que ele não lastime muito, dado que as conversações {23} filosóficas são uma coisa dolorosa. Você tem trabalhado bem? Abraço-o.

Gilles Deleuze

Você vem no Natal?

 

3 de dezembro de 1982

Estou contente por ter notícias suas. Acabo de escrever a Villani uma longa carta, mas não sei se ela o reanimará para imaginar, supor, reconstituir o que se passou. Ele a mostrará a você, talvez. Em poucas palavras, creio que houve mal-entendido desde o início, e que as razões pelas quais eu amava a carta de Villani eram justamente aquelas que tornavam Jérôme cada vez mais reticente, porque ele desejava um livro muito mais “escolar”, em certo sentido, para um público estudantil a. Mas me dói que Villani esteja afetado.

Estou verdadeiramente contente com sua nomeação. Sim, tive uma crise muito dura de respiração. Tenho, pois, uma vida cada vez mais retraída. Mas me sinto extremamente bem se não cometo imprudência alguma. E você, saiu do seu retiro momentâneo? Meu trabalho sobre o cinema me agrada muito; em todo caso, como você diz, é um tema virgem. Que você faz neste momento, você? Digo-lhe até breve e com toda minha amizade.

Gilles Deleuze

 

18 de junho de 1983

Caro Clément,

Que acontece que não nos vemos há tanto tempo? Suponho que você tenha a necessidade de uma aposentadoria tanto quanto eu tenho [sic], e de uma querida solidão. Mas isso em nada suprime minha amizade por você. Eu ficaria muito contente em vê-lo quando {24} você retornar a Paris. Quanto a esse colóquio Nietzsche, ai de mim, está acima de minhas forças a: não me honre tanto a ponto de subordinar tantas coisas a minha presença. Tenho certeza de que eu apanharia pelo menos uma bronquite ou algum sufoco; e meu único prazer seria ver você; e também ouvir a música. O que seria bom é que você organizasse tudo como você entende, de modo que eu poderia ver se irei no último momento, conforme meu estado, mas não para falar, somente para ouvir a música. Sobretudo não para falar. Você leu o Cahiers de Rodez (3 ou 4 tomos grossos) de Artaud? Tenho a impressão de que se trata de algo tão importante quanto os últimos cadernos de Nietzsche. Uma genealogia e uma criação de ritmos fantásticos, com acerto de contas anti-cristão. Fiquei bastante comovido, muito comovido.

De antemão estou muito contente com seu próximo livro, embora eu não duvide, caro Clément, das suas durezas a meu respeito. Mas você jamais alcançará as de um certo Mattéi (de Nice) que enviou a mim um estranho livro b. Até breve, é o que eu desejaria. Abraço-o.

Gilles Deleuze

 

28 de novembro de 1983

Caro Clément,

 

Também eu li seu livro a, gosto muito que nossos livros se cruzem. Há páginas esplêndidas, e você extrai um irrefutável argumento, [ao passo] que, das razões de alegria, justamente, não há muito. Admiro o que você escreve sobre a música. Seu estilo. O eterno retorno, o eterno retorno, gosto menos, mas que importa, e é todo ele que acho um belo livro. Me dê uma informação, Clément, por favor. Você me dizia antigamente que o canto dos pássaros tinha um grande papel na música da Idade Média (?). É verdade também que o galope de cavalo tinha aí um grande papel, os tamancos…? Se se pudesse fazer da galopada e {25} do ritornelo dois complementares, isso me conviria muito. Isso me seria mesmo totalmente necessário. Quando você tiver tempo, poderá me dar indicações a esse respeito? Até breve. Com amizade.

Gilles Deleuze

 

 

Dezembro de 1983

 

Caro Clément,

Obrigado pela sua carta: ela me é muito preciosa, você encontrou tudo o que me interessava. Guardo-a (é óbvio que o citarei ao utilizá-la, e não digo isso por supor que isso lhe inquiete, mas porque eu próprio me preocupo com isso). Sim, li o texto do Monde a. Se você tem semelhança com alguém não é com Voltaire, é com D. H. Lawrence. Mas as pessoas não o vêem. Espero com impaciência seu texto Ritournelle (se há a menor dificuldade em enviá-lo a mim, não se preocupe, só me previna quando ele aparecer b. Até breve. Com amizade.

Gilles Deleuze

 

 

 

 

{26}

 

 

A FRANÇOIS CHÂTELET *

 

Gilles Deleuze

53 rua do Colombier

Lyon 7º

28/2/1966

Caro François,

Há palavras que eu queria ter escrito a você, pois li seu Platão desde que você o enviou a mim a. Depois adiei, não por falta de admiração, mas por preguiça. Depois o retomei, não faz muito tempo. Estou impressionado pelo seguinte: que você aceita a ideia nietzschiana do platonismo como tendo determinado a filosofia, mas que você não se contenta com defini-la pela distinção dos mundos, mas, de uma maneira muito mais profunda, parece-me, pela lógica da razão ou racionalidade do discurso. O que você extrai disso, do ponto de vista da dialética e da teoria do ser, me parece fortemente profundo. Espero ir em breve a Paris. Com amizade.

Gilles

 

 

 

 

 

{27}

 

 

Gilles Deleuze

53 rua do Colombier

Lyon 7º

 

Caro François *,

Obrigado pela sua carta. Você bem sabe que eu ficaria feliz no caso de escrever para a Quinzaine nt. Infelizmente, não posso no caso Painter nt’. Pois sou como você, acho esse livro ora execrável, ora insignificante, e mau em seu princípio a. Ora, não quero fazer artigo “contra” alguma coisa ou de “reprimenda” (também nisso creio ser como você, pois, pelo que conheço, você nunca fez um artigo unicamente para dizer que algo era mau). Para poder escrever devemos admirar um pouquinho. Painter era uma merda americana vagamente policial, vagamente etnográfico, vagamente erudito… não se pode falar disso. Estarei em Paris no final do mês, e ficaria contente se nos víssemos, se você tiver tempo.

Com amizade e saudações,

Gilles

(Respondo-lhe muito tarde, demasiado tarde, é que parti para Nantes, depois alguns dias em Paris e retornei ontem).

 

(Você conhece Macherey, do Grupo de Althusser? Ele é talentoso e num livro recente ele parece encontrar algo interessante no método Painter b. Portanto, ele teria alguma coisa a dizer…).

 

 

 

{28}

 

            Gilles Deleuze

53 rua do Colombier

Lyon 7º

Domingo *

 

Caro François,

Ah minha tese, é uma sopa na qual tudo nada (o melhor deve estar no fundo, mas é o que menos se vê). Tenho a autorização, e a tese está com Schuhl a para uma segunda leitura. Estarei em Paris em 11, 12, 13 de dezembro; ficarei feliz se nos vermos, se você tiver tempo.

Para sua Histoire, estou de acordo e já farei um texto sobre Hume no prazo indicado por você b. Mas para Espinosa é impossível, pois prometi às Presses um pequeno livro, de modo que eu não teria absolutamente nada para dizer c. Mas eu proporia a você algo simples sobre o estruturalismo como movimento de conjunto d — com a condição, evidentemente: 1) que isso possa entrar no seu plano;2) que você já não tenha dado esse tema. Seria muito bom se pudéssemos conversar em Paris, pois tenho outras propostas a submeter a você.

Com afeição, amizade.

Gilles

 

 

 

{29}

 

Gilles Deleuze

53 rua do Colombier

Lyon 7º

Segunda-feira à tarde *

 

François, muito agradecido pela sua palavra tão gentil. Eu também fiquei feliz por rever você, mesmo mal e muito rapidamente. Ah, sobre essa defesa, que dizer, não há mesmo nada de engraçado a ser lembrado, o nada, o nada. Vi Alquié no dia seguinte e tive a impressão de que ele me fazia uma declaração de ruptura a. Tanto melhor. Mas, a qualquer preço, é preciso que eu me empregue, em Vincennes ou Nanterre (se ainda houver) no próximo ano. Prefiro entrar em outra caverna do que recomeçar em Lyon. Portanto, suplico-lhe, mantenha-me informado a respeito de tudo que poderia me interessar. Ah os bastardos, ah os nojentos. Jeannette fez um texto entusiasta, que acho (evidentemente) muito bom b. Eu o enviarei a você amanhã. Mas saiba como estou tocado por tudo o que você faz, por sua amizade. Antes de tudo, estou ansioso que você leia esse livro no qual decido sobre a Diferença e [a] Repetição (eu o enviarei a você, mas de Lyon); pois seu julgamento é daqueles que mais contam para mim, e somente se ele o agradar é que você falará desse livro. Digo-lhe isso em virtude da importância que atribuo aos seus artigos. Abraço-o

Gilles

 

 

 

 

 

 

Gilles Deleuze

Mas Revéry

  1. St. Léonard de Noblat

Terça-feira *

 

            Caro François,

 

Li La Philosophie des professeurs a, admiro e gosto muito, porque de cabo a rabo é totalmente engraçado e totalmente sério. Não é uma tábua das categorias {30}, mas elementos de toda tábua de categorias, portanto aquilo pelo quê a filosofia engendra seus professores. Estou brincando, todavia é bem isso que tenho feito no liceu. Os dois capítulos sobre a história da filosofia (com sua denúncia daqueles que querem “os textos”), e sobre o concreto me encantam. Ah Éric Weil. Você já tinha partido quando cheguei a Paris. Em todo caso, desde que você considere necessário, virei se houver “negociações” para fazer. Ficarei muito aliviado se for nomeado antes do recomeço das aulas. Abraço-o (muito obrigado por tudo o que você faz)

Gilles Deleuze

 

Gilles,

Segunda-feira, 3 de maio de 1982

 

Penso em você em Évreux a’. Afinal, você é uma prova viva da existência da alma, foi por ela que você se manteve quando seu corpo vacilou. Impressionou-me que, no pior momento, e quando sofria, você permanecia de tal modo você mesmo, sendo esse o único signo que você podia nos dar. Você é um homem maravilhoso, Noëlle também, maravilhosa (evidentemente, sinto quanto meu vocabulário é restrito). Acabo de telefonar a Noëlle, que ainda me falou do problema do quarto e de uma certa severidade do lugar, mas também da excelência do lugar. Virei, se isso lhe convém, na próxima semana, por exemplo, quinta-feira, dia 8. Os estudantes têm por você uma afeição muito grande: falta-lhes alguma coisa, isto é, alguém, você. Que o ano termine rápido… As etapas da cura, e depois sua convalescença, e depois sua invenção de um modo de vida que o protegerá mais, você saberá fazer tudo isso. Isso começa pela Normandie, também tem todas as características de uma incrível viagem interior. Fanny e eu abraçamos você e o amamos.

Gilles

 

 

 

{31}

 

 

A JEAN PIEL *

 

Mas Revéry

St Léonard de Noblat

Haute Vienne

 

27 de agosto de 1966

 

Caro Senhor,

Peço ao senhor que me desculpe uma vez mais. Não esqueci o artigo sobre Céline, mas não consigo fazê-lo a. Eu acreditava poder escrevê-lo facilmente. Mas, com Sacher-Masoch, que ampliei durante essas férias b, e essa tese que me persegue tanto quanto a persigo (está no final), não consigo me fixar sobre outra coisa e dedicar o tempo que seria preciso, mesmo sobre um tema que admiro tanto quanto Céline. Se o senhor tiver ainda paciência, eu quereria fazê-lo, mas quando? Em recompensa, tenho uma proposta a submeter-lhe: tive ocasião de ler o manuscrito de um curioso romance que deve aparecer no início do próximo ano, editado pela Gallimard; esse romance é uma espécie de Robinsonada, que traz uma gênese da perversão; isso me parece muito bom. O autor se chama Michel Tournier c. Ele me prometeu enviar a mim as provas, assim que possível; e, então, eu submeterei ao senhor um artigo que se chamaria “neurose e perversão”. É verdade que esse projeto não suprime em nada minha confusão quanto ao outro projeto repelido. O tempo, aqui, foi e permanece execrável, mas tenho trabalhado. Sua carta indica que {32} o senhor mesmo quase não tem férias. Voltarei a Lyon por volta de 15 de setembro, e passarei por Paris em outubro. Agradeço-o profundamente pela sua compreensão e lhe peço, caro senhor, que creia em meus melhores e mais sinceros sentimentos.

Gilles Deleuze

 

 

 

 

Sábado, 29 de abril de 1967

Gilles Deleuze

53 rue du Colombier

Lyon 7ème

 

Caro amigo,

Estou profundamente agradecido pela sua carta. Foi o senhor que nos deu prazer pelo tempo que esteve conosco em Lyon. Estou muito feliz com sua impressão do romance de Tournier; a minha era semelhante, é talvez um grande livro.

Eis o que se passou desde sua vinda aqui. Meu artigo ganhou uma certa extensão, porque eu devia dizer coisas duas vezes, em dois níveis. Eu não via modo algum de fazer diferentemente (ao mesmo tempo, eu queria citar, creio que no espírito de Critique, trabalhos recentes, seja de Macherey, seja da escola Lacan, que me parecem importantes a). Donde, longe de me ater às 15 páginas que havíamos combinado, eu envio a você 26.

A esse respeito sua carta me tranqüilizou, seu parecer me é necessário e precioso. E igualmente para os seguintes dois pontos: primeiro, meu artigo vai convir? segundo, considerando a extensão dele e o que o senhor me havia dito dos seus projetos, quando pensa publicá-lo se ele convier? — Não virei a Paris antes de junho, e lhe telefonarei. Creia, peço-lhe, em nossa viva lembrança e em nossa amizade.

Gilles Deleuze

 

 

 

 

{33}

 

Gilles Deleuze

53 rue du Colombier

Lyon 7ème

 

12 de abril de 1968

 

Caro amigo, escrevo-lhe bem tarde, após a noitada tão charmosa passada com você. Meus projetos, dos quais lhe falei e aos quais você queira com efeito se interessar, mudaram completamente. Eu projetava um livro composto de artigos, metade dos quais, pelo menos, devia conter inéditos. Posto isso, eu me meti num desses artigos, sobre Lewis Carroll. Mas ele tomou um tão grande porte, e se desenvolveu de maneira a virar um livro, não exatamente sobre Lewis Carroll, mas sobre a lógica do sentido em geral. É um livro que me parece bizarro, em todo caso para mim (ai de mim, não é suficiente) é melhor e mais divertido do que o que fiz até agora. Logo, será um “tipo” de livro sobre Carroll de cerca de 150 páginas, às quais, em apêndice, eu juntaria cerca de 4 artigos desenvolvendo pontos precisos do livro.

Restam várias questões. Esse novo projeto lhe agrada, em princípio? Por outro lado, é preciso que o texto lhe convenha. Já fiz 90 páginas, mas não penso findá-lo antes das férias longas, ou em setembro no mais tardar. Evidentemente, eu teria o mais vivo interesse em que esse livro, se lhe convier, saia o mais rápido possível e o mais perto de minha tese em dezembro (eu já poderia apresentar a você as páginas feitas para que você me diga sua impressão, mas seria isso um bom método, pois está inacabado?). Diga-me seu parecer sobre tudo isso e também se o seu programa de coleção, após o retorno das férias longas, torna tudo isso possível.

Você teve a grande gentileza de me dizer que, desde que eu lhe dê notícias mais precisas, você estaria pronto, se calhar, para anunciar meu livro. Sobretudo, não o faça, nem mesmo fale sobre isso, eu lhe suplico (pois as Presses a repetiram várias vezes que esperam que eu lhes seja fiel e, antes de tudo, receio que, à menor contrariedade, eles não tornam veloz a impressão de minha tese). {34} É seguro que virei a Paris na segunda metade de maio, você talvez passará antes por Lyon? Peço-lhe crer em meus agradecimentos e em minha mais sincera amizade.

Gilles Deleuze

 

 

 

 

Gilles Deleuze

53 rue du Colombier

Lyon 7ème

7 de maio de 1968

 

Caro amigo,

Obrigado por sua carta. Noto que a minha já era prematura. Pois meu texto tende a se alongar em demasia, de modo que, agora, duvido poder contê-lo em 200-250 páginas. Todavia, é possível. Mas, atualmente, não sei quase nada. O que, evidentemente, complicaria, considerando seus projetos de publicações com o início das aulas. É verdade que, ao mesmo tempo, é duvidoso que eu o tenha terminado em agosto. Perdoe-me essas mudanças, estou surpreso com a forma que esse trabalho toma. O título projetado é Logique du sens, com o subtítulo “de Lewis Carroll aos estóicos”.

Portanto, faço apenas isso. Quer dizer que sua proposta de um artigo para Critique me agrada muito, mas me inquieta. Vejo apenas uma coisa, que poderia chamar-se “O esquizofrênico e a palavra”, que acabo de fazer para meu trabalho atual a . Mas o enfadonho é que não vejo o meio de “enganchá-lo” a não ser num velho texto de Artaud e num artigo um pouco mais recente de Temps modernes. Virei a Paris na próxima semana; precisarei ver meus mestres universitários (se não foram comidos), a Presses, e tentar fixar minha data de defesa. Também telefonarei a você de Lyon antes de partir: queria que você perdoasse minha indiscrição ao dizer agora meus momentos livres na esperança de vê-lo nessa estada ainda agitada. Creia, caro Amigo, em meus mais sinceros sentimentos e em meu reconhecimento.

Gilles Deleuze

 

 

 

 

{35}

 

 

A FÉLIX GUATTARI *

 

Gilles Deleuze

Mas Revéry

87, St Léonard de Noblat

13 de maio de 1969

 

Caro amigo.

Obrigado pela sua carta. Eu também sinto que somos amigos antes de nos conhecermos. Perdoe-me também por insistir no seguinte ponto: é evidente que você inventa e maneja um certo número de conceitos complexos muito novos e importantes, fabricados em conexão com a pesquisa prática de La Borde a: por exemplo, fantasia de grupo; ou então seu conceito de transversalidade, que me parece de natureza capaz de superar a velha, mas sempre pronta para ressuscitar, dualidade “inconsciente individual-inconsciente coletivo” (é curioso, ou não curioso, como o inconsciente coletivo de Jung é hierárquico, para retomar um dos temas que você denuncia); ou então as paralelas que você encontra entre estruturas capitalistas e estrutura esquizo etc, mas não é menos evidente que esses conceitos não tenham ainda, por falta de tempo, de ocasiões, sido objeto de uma elaboração teórica propriamente dita. A idéia de que as condições não estão ainda boas para fazê-lo, seja porque as coisas não vão {36} bem no forno atual, seja porque você mesmo não vai bem, me parece falsa: porque ela volta a dizer que só se pode verdadeiramente escrever quando isso vai bem, em vez de ver na escrita um fator modesto, porém ativo e eficaz, para se desprender um tempo dos fornos e para a gente mesmo ir melhor. É verdade que julgo tudo de fora, mas me parece, ao contrário, que talvez tenha chegado para você o momento de uma elaboração teórica. E mais, se você der sequência ao seu projeto de publicar seus artigos tais como estão b, você não poderá dizer a si mesmo que apenas transferiu para mais tarde a perfeita elaboração, você a tornará impossível, tendo então a impressão de ter de retornar sobre algo já dito. No entanto, se você mesmo julga impossível atualmente esse trabalho (ah, nada melhor

do que a prisão para fazê-lo, à velha maneira dos militantes), a outra solução, publicar os artigos tais como estão, vem a ser desejável e melhor. Espero encontrar-me logo em melhor estado, e que nós possamos nos ver, Com amizade

GD

 

 

 

 

Mas Revéry

  1. St Léonard de Noblat

Quinta-feira, 16 de julho (1969)

 

Caro Félix

Seria preciso, evidentemente, abandonar todas as fórmulas de polidez, mas não as formas da amizade que permitem a um dizer ao outro: você está brincando, não compreendo, isso não dá etc. Seria preciso que Muyard participasse completamente desta correspondência a. Seria preciso, enfim, que não houvesse regularidade forçada (um pode ter outra coisa para fazer ou ter {37} necessidade de refletir, ou de não se reportar a um texto e não responder logo em seguida).

Eis as primeiras coisas que retenho do que você disse dizia: as formas da psicose não passam por uma triangulação edipiana, em todo caso não passam forçosamente da maneira que se diz. Primeiramente, parece-me que isso é o essencial. Isso porque, no problema que ocupa a todos nós, marxismo e psicanálise, ou economia analítica ou verdadeira “metapsicologia”, ou não importa como, o que faz com que nem mesmo cheguemos a colocar o problema? É que se sai mal do “familismo” da psicanálise, do papai-mamãe (meu texto que você leu continua absolutamente tributário disso b. Então, de um lado temos o problema familiar e, de outro, os mecanismos econômicos, e se pretende fazer facilmente a junção com a determinação da família burguesa, e, antes mesmo de se dar conta disso, a gente já se encontra numa via completamente sem saída (creio que não será difícil mostrar que Reich permaneceu prisioneiro de tudo isso, e que foi isso que o impediu de colocar o problema no próprio momento em que ele o descobria). Você dizia não haver certeza de que haja essa pirâmide “família — sociedade — deus”. Em outros termos, enquanto se pensa que as estruturas econômicas só atingem o inconsciente por intermédio da família e do Édipo, nem mesmo se pode compreender o problema. Isso porque, só se tem, então, duas vias: ou complicar Édipo (introduzindo aí um 4º etc…) ou fazê-lo variar etnograficamente. Tem-se, novamente, duas vias sem saída. Toda essa parte crítica, creio que a concebo bem, pelo menos vagamente.

Trata-se, portanto, de mostrar como, por exemplo na psicose, dois mecanismos sócio-econômicos são capazes de se implantar no inconsciente. Isso não quer dizer, evidentemente, que eles se implantem tais quais (como mais-valia, taxa de lucro…), isso quereria dizer alguma coisa mais complicada, que vocês abordavam uma outra vez quando diziam que os loucos não fazem simplesmente cosmogonia, mas também economia política, ou quando você considerava, com Muyard, uma conexão entre uma crise capitalista e uma crise esquizofrênica. Mas, justamente, sobre esses pontos vocês se tornavam mais {38} vagos. Em que um louco faz economia política? Não é simplesmente quando ele faz um delírio reformista ou utópico (como vosso engenheiro de La Borde); e também não é simplesmente quando ele apreende um mecanismo financeiro ou econômico como demência do mundo (como quando Nijinsky explica o caráter diabólico da bolsa): esses dois pontos são sem dúvida importantes; seria preciso fazer uma análise de detalhe deles, mas são sintomas em conexão com algo mais profundo, essa maneira pelas quais as estruturas sócio-econômicas se implantam no inconsciente psicótico (é isso que tomaria um lugar essencial, talvez, suas duas idéias que eu mal conheço da máquina e da anti-produção).

Isso não quer dizer que não intervenha a triangulação edipiana ou uma estrutura desse gênero mais complicada. Mas, se eu bem os compreendi, ela interviria sobretudo no nível das conclusões e não das premissas ao modo de um “é, portanto, seu pai”, “é, portanto, sua mãe, como se as posições parentais fossem determinadas como o resultado de mecanismos de outra natureza e ainda resultados parciais. Vocês pareciam mesmo ir mais longe, e aplicar isso mesmo à morte, quando diziam que o problema esquizofrênico de modo algum é imediatamente a morte, mas que a morte aparecia sobretudo quando o esquizofrênico traduzia seus mecanismos num sistema de referência extrínseco: “é, portanto, a morte…”. Em tudo isso o que está em questão é sempre a família como mediação inconsciente generalizada, é isso que é preciso criticar, porque é isso que impede colocar o verdadeiro problema (mesmo quando a família é denunciada como família burguesa).

A direção que vocês abrem me parece muito rica pela seguinte razão: faz-se uma imagem moral do inconsciente, seja para dizer que o inconsciente é imoral, criminoso etc, mesmo quando se acrescenta que está bem assim, seja para dizer que a moral é inconsciente (superego, lei, transgressão). Eu disse uma vez a Muyard que isso não dava para mim, e que inconsciente não era religioso, não tinha “lei” nem “transgressão”, e que eram tretas: dá-se muitíssimo à religião fazendo dela a expressão espontânea de um inconsciente, ou mesmo um delírio, e assim como há racionalizações secundárias, totalmente secundárias, há irracionalizações secundárias; a religião nunca é um fenômeno, {39} mesmo inconsciente, mas uma interpretação de fenômenos. Muyard me havia respondido dizendo que eu exagerava, e que a lei e a transgressão, tais como ressaltadas por Lacan, nada têm a ver com tudo isso. Seguramente, ele tinha razão, mas isso não me diz nada, é até mesmo toda a teoria do superego que me parece falsa e toda a teoria da culpabilidade. A culpabilidade não é uma estrutura do inconsciente (o que eu admito somente para a primeira etapa concernente à angústia da perda de amor; quanto ao resto, é outra coisa que intervém, de modo algum do tipo superego e culp abilidade, e sobre isso precisaria dizer que “culpabilidade” é uma tradução em um sistema de referência extrínseco ao nível das conclusões). Em suma, encontra-se o mesmo problema de um inconsciente socio-analítico.

Evidentemente, no que acabo de dizer não há palavra que seja apropriada, que não exija múltiplas nuanças e precisões. Mas não se trata disso. A vocês é que cabe ver se há alguma coisa a ser tirada de uma tal correspondência; para mim, sim, estou feliz que me tenham confiado as chaves. Em todo caso eu os prevenirei.

Com amizade,

GD

29/07/1969

Caro Félix *,

Tenho, portanto, três textos seus sobre os quais refletir: sua carta, “Máquina e estrutura”, e suas notas sobre Schreber a. À minha questão: quais são os mecanismos sócio-econômicos capazes de implantar no inconsciente (isto é, sem passar pela figura familiar ordinária, mas que, ao contrário, talvez inscreverão seus resultados patogênicos nessa figura, pela via de uma “transcrição” ao modo de um “é portanto…”) {40}

Você respondeu: é a máquina (da sociedade industrial). “Máquina, ele mesmo, o esquizo exprime metonimicamente a máquina da sociedade industrial… e você trata como uma máquina IBM trata suas informações” — É uma resposta bela e rigorosa. Ela levanta toda sorte de problemas.

 

1) O mais fácil: será preciso, de uma parte, estudar o tipo de maquina esquizofrênica ou paranóica, por exemplo, retomando o artigo de Tausk. Em minha lembrança, o artigo de Tausk é limitado porque ele vê, sobretudo na máquina de influenciar, uma imagem do corpo b. Seria preciso mostrar que é muito mais; e que, como toda máquina, a máquina esquizofrênica a/ é inseparável de um tipo de produção, aqui a (produção) propriamente esquizofrênica, a ser definida; ; b/ é inseparável também de um modo de transcrição ou de registro: não, ainda uma vez, no sentido em que ela transcreveria a imagem do corpo, mas no sentido bem mais fundamental, aquele em que transcreve seu próprio processo sobre uma superfície registradora que marca seu limite, o fechamento (por exemplo, a balança que registra o resultado do seu processo sobre o quadrante). É claro que o feedback assegura um novo circuito da máquina ao introduzir o modo de transcrição no tipo de produção.

Lembro-me do recente livro de Henri Faure, absolutamente nulo sobre o objeto esquizofrênico c. Ele é nulo porque jamais se interroga sobre o mecanismo de produção de tal objeto, sobre os caracteres da produção esquizofrênica. Ao contrário, há algumas indicações, belas em minhas lembranças, sobre a produção de uma mesa esquizofrênica num recente livro de Michaux d. Seria preciso rever essas páginas; e sua experiência de La Borde deve nos fornecer todo tipo de análises alegres e precisas sobre os seguintes pontos: a produção esquizofrênica; a maneira muito particular pela qual o uso e o consumo entram em conexão com a produção; os modos muito particulares de registro (pode-se conceber, em geral, que {41} o uso e o consumo são exteriores à máquina, embora numa conexão assinalável com a produção, mas que o registro é um fora-dentro, um limite envolvente, “fora” porque faz intervir uma superfície de exterioridade sobre a qual são transcritos resultados, “dentro” porque faz parte constitutivamente da máquina e regra o processo de produção) — Em tudo isso, definir, portanto, uma economia puramente esquizofrênica (livre para se perceber mais tarde que não há economia puramente esquizofrênica).

(Questão de detalhe; não se nota aí uma maldição do consumo na ordem esquizo? e de qual gênero?).

 

Nesse mesmo grupo de questões, intervém o que você diz em suas notas sobre Schreber: fazer um estudo diferencial com um esquizo antigo, um esquizo feudal. Eu queria utilizar um truque, mas sem saber o que fazer dele, sobre Calígula: o malicioso Suetônio narra que, em sua loucura, Calígula divide seu exército em dois, leva uma metade dele à praia e o faz pegar conchas, depois o faz massacrar a outra metade ou o inverso (a anedota é ainda mais bela do que a exponho). Racionalmente, isso se explica muito bem: “conchas” é o mesmo termo empregado para certas máquinas de guerra; Calígula tem razões para acreditar numa revolta de uma parte do seu exército, ele a desarma e a leva a liquidar-se… etc. Se se considera o conjunto, há aí (mas, de uma certa maneira, do lado do próprio Suetônio) um registro esquizofrênico, isto é, uma transcrição de um processo de máquina sobre um outro registro, graças a um jogo de palavra concha-máquina de guerra) — O problema esquizofrênico das línguas, seja Schreber com a língua fundamental, seja em Wolfson com seu sabir nt, deve ser colocado assim, conforme suas indicações sobre Schreber: ele intervém necessariamente no modo de registro enquanto acoplado ao tipo de produção esquizofrênica.

Ainda uma vez, para o estudo diferencial e para todos esses pontos, creio que nos será preciso muito trabalho, mas que ele se fará como que por si, conforme outros problemas.

 

2) Ainda uma questão anexa: você começou sua carta lembrando que a oposição manifestação/sub-facência não mais opera para o esquizofrênico. Se isso consiste em dizer que o complexo invadiu a consciência ao preço de uma perda de realidade, ou mesmo ao preço de um colapso do simbolismo — idade, sexo etc — que seja. Mas só parcialmente isso é verdadeiro, como o lembra Lacan em sua tese e, pois há todo um sistema de transformações que intervêm e que fazem, por exemplo, com que a homossexualidade não é “manifestada”… etc. E, com efeito, é evidente que você diz outra coisa, em conexão com sua concepção da máquina. Pode-se exprimir isso corretamente dizendo: o sujeito esquizo é habitado pela máquina, de modo que a oposição “manifestação/sub-jacência” é substituída nele pelo acoplamento “produção-registro“, de maneira que todo o trabalho do disfarce se faz no nível do registro, o que sugere, de outra parte, o final da p. 5 de “Máquina e estrutura”) ?? Isso me parece muito importante, e percebo também aí toda uma teoria a ser facilmente feita por você. (A oposição “manifestação/sub-jacência” se acantona numa ordem exclusivamente familiar, ao passo que, do ponto de vista da psicose, os dados familiares, reais ou imaginários, seriam a transcrição-registro de um processo de outra natureza. Cf. 4) f

 

3) Começa o mais difícil. Você define a máquina por um corte, ou melhor, pela existência de múltiplos cortes:

  1. a) no surgimento de cada máquina do ponto de vista de uma história da tecnologia (aí não sei, não o vejo por conta própria, mas estou seguro de que você me convenceu, necessidade de exemplos precisos).
  2. b) relativamente ao sujeito, que, diz você, está ao mesmo tempo do lado da máquina e ao lado da máquina industrial (aí eu vejo bem, de acordo).
  3. c) em seu processo de produção (pois a máquina é sempre do tipo máquina de cortar presunto, donde o tipo de repetição e de reprodução — esses dois conceitos a serem distinguidos conforme Marx — que ela implica; ela corta o que você chama uma cadeia significante ou várias; em nível ainda mais simples ela corta uma simples cadeia associativa. É desse ponto de vista que seria preciso retomar o problema da impossibilidade do esquizofrênico associar . Em todo {43} caso, e de qualquer maneira, a idéia de corte de uma cadeia é bem constitutiva, em modos diferentes, tanto da subjetividade quanto da máquina, e da subjetividade devindo máquina quando esses modos se confundem. E aí não é preciso referir-se a Lacan; ao contrário, é preciso dar conta da tese de Lacan pela sua tese da máquina (essencial, insisto!). A idéia da subjetividade como corte de uma cadeia associativa, vejo incontestáveis exemplos disso em arte, em literatura, e é por aí que a obra de arte correspondente é máquina).
  4. d) em seu significante, que, diz você, é destacado da cadeia (o que já é um outro tipo de corte), que não faz parte da máquina, mas funciona como representante de representação (aí estou à sua frente, mas não vejo bem ainda, você me explicará).
  5. e) outro tipo de corte ainda, corte interno, entre o processo de produção e o modo de registro (isso remete a tudo o que acabo de resumir no 1) (Esse corte faz intervir, portanto, uma superfície externa de registro próprio da máquina, e uma tradução da produção sobre essa superfície).
  6. f) corte-produção-consumo

produção-capital etc.

(Trata-se, esta vez, de uma superfície ou de um campo totalmente exterior à máquina, embora a máquina suponha esse campo. É desse ponto de vista, evidentemente, que devo me remeter a Marx, o que não faço há muito tempo).

 

Ora, compreendo bem que todos esses cortes na ordem da máquina formam um quadro totalmente coerente. Mas será preciso compreender que o esquizo foi invadido por todos esses cortes, que transferiu sua subjetividade à máquina (o que deixa supor que a conexão máquina-sujeito não é necessariamente esquizofrênica, que o corte do sujeito não é forçosamente investido pela máquina e em qual sentido? ?) — ou então, ao contrário, é preciso compreender (como me parece convidar a isso a segunda metade de “Máquina e estrutura”) que o esquizo não mais opera corte, que está num estado de deslizamento completo num continuum puro, prisioneiro de intermináveis cadeias significantes ou mesmo associativas? — Ou então ainda, as duas coisas ao mesmo tempo? Esse ponto deveria ser rapidamente regrado, pois tenho a impressão de que o equívoco está no meu espírito mais do que em sua análise.

{44}     4) Finalmente, minha inquietação maior é com a coerência do seu conceito de anti-produção. Pois ele agrupa coisas tão diversas como: a) o campo no qual surgem e funcionam as máquinas (compreendendo aí as conexões de produção); b) as instituições sociais não-produtivas (por exemplo, a família) da qual uma das funções normais na sociedade é uma espécie de registro; c) esse tipo inteiramente outro de registro que pertence à máquina à título de superfície, graças ao qual ela registra seu próprio processo de produção – Precisa-se compreender que precisamente os três se confundem na ordem esquizofrênica? Por exemplo, sendo a subjetividade esquizofrênica investida pela máquina, o processo de registro próprio da máquina inconsciente distribuiria por si só as informações relativas ao campo econômico a) e às relativas à família sob a forma “transcricional” do É, portanto!! Mas, em todo caso, ou não compreendi seu pensamento, ou vejo o meio de expo-lo sem passar pelo seu dualismo brutal máquina-estrutura, substituindo-o sobretudo por um pluralismo maquinal.

 

Paro, esgotado, no momento em que seria preciso ser mais detalhado. Fica para a próxima vez. Como combinado, responda-me ao acaso de sua próprio inspiração. É assim que avançaremos. Quereria você só indicar o número da questão sobre a qual você encadeará?

Amizade

 

[Carta não datada] *

 

Suas notas são muito belas e essenciais. Temos muita necessidade delas. Avanço na exposição do Édipo como limite, não sendo nem originário nem estrutural: mas escatológico. Nem acontecimento fora do tempo nem lugar vazio, mas limite não atingido, ou somente atingido em nossa sociedade. Se você tiver a ocasião de reagrupar idéias sobre transversalidade e sexualidade não edipiana, isso seria precioso. Mas que isso não desarranje o curso do seu trabalho tal como você o previu. Em A {45} Muralha da China, de Kafka, é contado que, no final do momento da conscrição, as jovens de um outro bairro vêm voluntariamente ao bairro afetado e aí recebem honras (sua benção tem, então, mais valor que a dos ancestrais), mas, desde que findadas as cerimônias da conscrição, são objeto de desprezo e caçadas. Estou certo de que Kafka se inspira num rito qualquer que lhe foi contado. Você tem uma ideia sobre isso? Fanny e eu precisaremos ir a Lyon para colocar à venda o apartamento de lá, de maneira que possamos procurar logo um em Paris. Que tarefa antecipadamente esgotante. Minha vinda a Dhuizon é certa se você quiser a, mas a data depende do momento em que estará quase esgotado o estado atual do trabalho. Tenho visto Lindon em Paris (muito excitado porque foi amaldiçoado ritualmente pelo seu pai procurador, por ter escrito um prefácio a um livro sobre os fedain b ) — A idéia do nosso livro pareceu interessá-lo muito, veremos. Toda afeição a vocês dois.

Gilles

 

 

Caro Félix *

Eis aí as folhas. Ah, isso se interrompe no momento em que volta a ficar engraçado, bem engraçado enfim. Mas era preciso a longa passagem austera e desconfiada na qual sofri, e por duas razões. De uma parte, a noção de mais-valia de código é bela e, além do mais, verdadeira, mas ela permanece obscura para mim, muito difícil para dizê-la, veja. De outra parte, era preciso contornar Lévi-Strauss pelos seus discípulos, mesmo à força; sobre esse ponto creio que fomos bem sucedidos. É evidente que todo esse capítulo, quando for terminado, precisará ser lido por um etnólogo (Cartry ? ou então seu especialista do sentido entre os Wolofs? sobretudo Cartry a): não para sua aprovação, pouco importa, mas por precaução mágica, para ver se isso não lhe escapa das mãos. Enfim, sinto-me de novo alegre, abordando o paranóico de deserto. Tenha um bom {46} congresso, imponha sua comunicação, acaricie o bom doutor b. Com afeição.

Gilles

Que seu registro de Lulu é muito bonito, é outra Lulu, não se compara.

— O pacote, admiravelmente feito, dos pêssegos de Julien acaba de chegar. Muito agradecido. E eu, em troca, esqueci seu relógio, muito chato. Tenho vergonha. Mas nós o enviaremos por correio, mas a Dhuizon como recomendado c.

 

 

15/04//70

Caro Félix,

Suas notas são ainda extremamente belas e eu estou cada vez mais lento. Você não precisa inquietar-se, isso sempre me aconteceu, isso me acontece sempre. Não obstante, envio-lhe um pequeno grupo, embora ele nem mesmo termine com o déspota (supondo-se que a distinção, p. 200-201, entre representante recalcado, representação recalcadora e representado deslocado seja válida, tratar-se-á de mostrar que Édipo, que é representado deslocado na máquina territorial, devém representação recalcadora na máquina despótica, para findar como representante recalcado na máquina capitalista. Será, portanto, uma verdadeira migração de Édipo no sentido biológico). Nassif veio com um amiguinho engraçado que, na mesma tarde de sua chegada, teve sua clavícula quebrada a. Ele foi muito charmoso, e o que eu temia (um fluxo teórico) não se produziu de modo algum. Façamos dele um amigo (ele nos disse que ia a sua casa). Renunciei ao Temps modernes, a menos que você se mantenha ligado; parece-me que há inconvenientes e vantagens nas mesmas proporções para publicar alguma coisa incompleta. Com afeição.

Gilles

Sim, quando for possível, ficarei muito feliz em ver A, Z, Cartry b. Poderia enviar a mim, desde que você a tenha, a passagem da tese de Z {47} sobre a água de verso nt? Isso me agrada muito. Quanto aos três livros de A, eu os remeterei a você no fim do mês. O que aborrece é que eu rabisquei, sublinhei coisas no Griaule, pensando que era pra você (e sabendo que você não veria nisso inconveniente algum). Mas respeitei as margens do incesto real. Espero que ele não os quererá mais.

 

Caro Félix *

Como sua carta me deu prazer, sob todos os aspectos. Primeiramente, ainda bem que o grande doutor foi agradável com você a, e lhe tenha feito ganhar alguma coisa (jamais se saberá o quê, Nassif não me será de ajuda alguma b, pois esse pequeno bloco do Líbano é charmoso, mas de uma seriedade granítica, ele me telefonou, mas tive de bancar o canalha — “então, o que houve de engraçado, então, o quê, etc” — ele só me passou teoria). Em todo caso, é preciso alisar, amar o doutor: em tudo isso ele reconhecerá, aliás, que você é seu mestre e não mais seu discípulo. De outra parte, estou plenamente feliz pelo seu sentimento de que nosso texto vai bem. E pelo parecer de Cartry, que nos será cada vez mais precioso (as observações dele me levam a corrigir detalhes desde já, e mais tarde também, com mais forte razão, pelo que é preciso manter contato com ele). O que não impede que o essencial está no acordo entre nós dois. Eu saio, portanto, vigorado pelo que você disse. Esse capítulo é, evidentemente, o mais duro, será uma massa que deve render os outros capítulos mais leves. Enviarei logo a você o grupo sobre o déspota. Virá finalmente o capitalismo para findar esse capítulo, tenho a impressão de que, como previsto, isso nos levará ao final de maio. Obrigado pelos documentos e pelo seu novo pacote, que recebi esta {48} manhã, essencial para o capítulo 4). 1) precisamos de detalhes sobre a água de verso, da qual Zempléni nos falou c (o mais rapidamente que lhe for possível; é interessante, porque é exatamente o que Dali entende por método paranóico, com a diferença de que este prefere mergulhar no leite). 2) Você fez muito bem de passar a Cartry; para os outros talvez esperar que o capítulo seja terminado; mas como você queira. 3) Lulu é Lulu, como terá você uma referência, não é Fauré. 4) Quanto aos livros, estou em vias de ler Capitalismo monopolista de Baran e Sweezy, dois tipos de trotskistas americanos, é bem apaixonante d. Assim que você tiver a passagem de Lacan sobre Édipo… E se você tiver o meio de pegar o Fortes (OEdipe et Job), e sobretudo de Luc de Heusch, Inceste royal en Afrique, não hesite e. Virei a Paris em maio, não sei quando. Com afeição,

Gilles

 

 

Caro Félix *

 

Acabo de receber suas notas, e logo em seguida as li uma primeira vez. Uma maravilha, sempre: não há delírio ali, ou então o melhor. (Penso que você estaria desde agora capacitado [faltam palavras] nossas duas páginas lastimáveis no que acabo de enviar a você, introduzindo melhor e mais rigorosamente a noção de signo imperial ou significante despótico, fonológico). Oh, sim, irei com alegria ver Lacan na próxima passagem, mas com você, com a condição de que seja com você. Quanto ao seu desejo de que eu envie a você provisoriamente o conjunto de suas notas, desculpe-me por ter esquecido como que de propósito, pois você já o pedira a mim {49} numa carta anterior. Mas é que isso me incomoda enormemente. Porque eu não me coloquei completamente em férias, propriamente falando. É verdade que não escrevo mais atualmente; mas leio ou releio de um lado e, de outro, ao mesmo tempo, anoto suas notas, prevendo a retomada sobre o capitalismo. De modo que suas notas, das quais tenho ainda mais necessidade que de hábito; salto delas ao que li, e inversamente. Eu as talho, detalho-as. Pergunto-lhe, portanto, se lhe é possível ficar ainda sem elas até chegar à última parte sobre o capitalismo, momento em que poderei repassá-las a você sem inconveniente. Diga-me. Até breve. Com afeição.

Gilles

 

 

20/07/1970

Caro Félix,

Sua vinda foi de um grande encanto para ambos. Entre as coisas que você disse, uma particularmente importante, que não realcei, porque é sempre assim, só me apercebo depois. Estávamos nas duas direções da cura: uma consistindo em garrotear o fluxo de figuras sobre a imagem edipiana, consistindo, portanto, em edipianizar; a outra, a direção do futuro, consistindo em esquizofrenizar (um pouco como Burroughs diz que o problema é adquirir as potências da droga sem droga, ou justamente Miller em sua extraordinária sessão de embriaguez com a água). Ora, você dizia que, praticamente, você já aplicava essa direção de esquizofrenização terapêutica, forçando, precipitando seus partícipes da terapia a saltar, a desligar (não a resolver) Édipo. É isso que eu queria que você escrevesse, suas direções atuais de cura, não importa como, escreva isso se lhe aprouver, com um ou mais exemplos. É formidável. Isso iluminará o capítulo IV. Com afeição.

Gilles

 

(Seria essa a análise das resistências, que não foi compreendida até agora, pois o problema da transferência supõe um problema puramente analítico de fluxo, quanta de libido).

 

{50}

Caro Félix *

Anexo o final sobre o déspota. É muito evidente que as últimas páginas estão extremamente ruins; será preciso reescrevê-las. Há uma baixa de tom, fadiga. Mas como lhe dizia, não tem importância alguma. É a lassidão desse capítulo universal. Lanço-me paço a paço no capitalismo. É preciso findá-lo, mesmo que se tenha de retomar mais tarde certas páginas. Meu coração já está no último capítulo, enquanto a mão ainda está neste aqui. Este último capítulo começará por uma repetição da produção desejante, das máquinas do desejo como estatuto a-pessoal do inconsciente: se você pudesse debruçar-se sobre ele desde agora, levando em conta o que dissemos nos capítulos precedentes, mas também do que ainda não dissemos, seria perfeito. É isso, o estatuto geral do inconsciente máquina. Envie-me tudo o que você possa. Anexo os três livros pedidos pelo Adler. Você leu o Primeiro amor, de Beckett, obra prima a. Adiei minha partida para Paris, tivemos de ir a Lyon, não há meio de vender esse maldito nojento apartamento. Eu o prevenirei assim que souber quando iremos a Paris. Com afeição.

Gilles

Depois do telefonema: fiquei bem contente por ouví-lo. Espero suas novas páginas com impaciência. Estarei seguramente em Paris entre os dias 15 e 20.

 

 

[Carta não datada] *

 

Ah, por qual delicadeza das coisas nosso livro termina num 31 de dezembro. a fim de bem marcar que os fins são inícios. Este trabalho é bem bonito, marca da sua força criativa, e do meu esforço inventivo e peralta nt. Ele iria por si se você tivesse querido, embora 1) os 5 anos de férias 2) que, aliás, devem se estender num sentido apocalíptico, hermenêutico e kabalístico segundo unidades de medida não conhecidas 1) são para mim e não para você que deveria, ao contrário, preparar ativamente o tomo seguinte 2) ao passo que eu {51} não deixaria de fazer com que meu avô fosse analisado por Oury 1) de tanto que tivemos de abrir mão de coisas nesse primeiro volume. Resta imediatamente a segunda impressão, para dar tudo em maio. Arlette deve ter pego muito frio em Aix a. Saudações, saudações, saudações,

Gilles

 

 

Ah, Félix *

 

Como de hábito, depois do meu entusiasmo, as dúvidas me vêm. 1) Pois Foucault diz que ele não havia pensado em nossa predição, mas que ela o convence. Eu me pergunto até que ponto ele está rindo, mas também até que ponto ele é sincero. Eu disse a ele que tinha lido B.-H. Lévy. Logo depois ele me diz que jantou na casa de “alguém” com Attali e Lévy, e que Lévy permaneceu tímido e silencioso. Falei-lhe da nossa preocupação de não parecer querer atraí-lo para nós. Ele responde que não há de se ter temor algum a esse respeito… e que, no que lhe concerne, ele conclui um livro para denunciar a identificação do poder com a lei a. Sua posição parece ser: vão em frente, veremos então se vocês cometem gafes (uma certa solidariedade mais ou menos secreta, sem causa comum). Ele tornou a me dizer seu desprezo por Lyotard, sua cólera contra Lévy pela publicação de uma entrevista dele no livro coletivo b.

2) Saio pensativo. Digo a mim mesmo: por que Lévy parecia desejar tanto que escrevêssemos num jornal, de preferência no Observateur, ou num jornal que contenha um pouco nosso ataque. É que todos aqueles que estão nesse golpe não são forçosamente conscientes, ou não estão ao corrente dessa operação que nós adivinhamos tão bem. Se publicamos num jornal, ou nada haverá, ou então todo mundo cairá sobre nossas costas. A esse respeito, nada muda se publicarmos no Libération: não só não teremos garantia alguma sobre a apresentação, a manchete, os subtítulos, como Libération é estritamente como os outros jornais, em busca de uma {52} polêmica prolongável, o que de maneira alguma é nosso objetivo. Finalmente, graças a mim (pergunto-me em que medida é uma doença ou uma habilidade involuntária), todo mundo está ou estará ao corrente, quanto mais não seja por Lévy, do nosso projeto de artigo, e nos espera. Ora, como você dizia, nossas forças não são nulas: que não se atrevam a nos atacar; preferimos apagá-los, e eu, abstratificar-me. É justo dizer que , em um ano, você reconquistou suas posições políticas de força. Quanto a mim, minha pequena força é de jamais ter respondido a nada, e nem participado de uma polêmica. Isso não significa, parece-me, que nada façamos. Mas tudo que fizemos e, bizarramente, isso é ainda mais verdadeiro sobre você do que sobre mim, isso nunca teve o sentido principal de um ataque; o ataque decorria somente de algo positivo (por exemplo, você não atacou a anti-psiquiatria, nem a análise institucional, mas suas críticas decorriam de sua concepção positiva), (Assim também, no que você disse contra o espontaneísmo, a crítica decorria do tema positivo dos agenciamentos…) Fazendo um artigo de jornal, em que o ataque e a denúncia prevalecerão necessariamente, mesmo que não seja pela lei do gênero “jornal”, arriscamos tomar nossas posições de força e de ver voltar contra nós os acertos de conta dos quais você soube se defender. Lançamo-nos numa polêmica que não poderemos controlar, ainda que a propósito de uma pequena coisa.

3) Dando corda a esses pensamentos, chego a Jérôme c. Você advinha o que ele me disse: por que não uma pequena brochura, sobretudo, de 30 ou 40 páginas, muito diferente de Rizoma… Ele disse gentilmente: uma de suas forças é, também, seu bom editor, que pode publicar isso imediatamente… O mais interessante é o argumento Jérôme concernente à diferença entre artigo de jornal e brochura. Ele diz que alguém só se reporta uma vez a um artigo de jornal quando aparece; isso a que nos reportamos no dia a dia está sobretudo em estado de polêmica, que se desenvolverá necessariamente num terreno que não teremos escolhido, e ao qual estaremos forçados a responder em jornais que nos serão todos mais ou menos inimigos. Vantagem da brochura, ao contrário: a) ela existe como um livro, de modo que os ataques que ela pode trazer consigo, por mais pessoais {53} que eles sejam, ganham necessariamente o aspecto de critica de um livro, aos quais não somos forçados a responder; a conexão de força com os jornais é então revertida a nosso favor; b) a brochura faria passar ao primeiro plano coisas positivas (o que é verdadeiramente o desejo, a análise das forças retrógadas, a oposição agenciamento-espontaneísmo… etc) donde decorreriam nossos ataques sem que estes percam sua violência (contra Lyotard, contra a operação Clavel-Lévy, contra o eleitoralismo…); c) enfim, a brochura nos permitiria não fazer o que se diz, pois as pessoas esperam um artigo d .

Seria bom uma brochura a mais? Jérôme tem o ar de dizer que sim. Eis um relato incerto, meu Félix, mas exato e bem fiel. Conte-me suas reações. Um forte abraço.

Gilles

 

Félix

Estou feliz com seu retorno, como foi em Bolonha e de tudo o que você fez a . Espero que não esteja fatigado. Quanto a mim, tenho a impressão de ser dona de casa, creio que parei de fumar, mas não há muito tempo. Vejo o fim do nosso livro. Eis tudo o que submeto a você:

O plano (o que falta fazer é o que não está sublinhado):

I Rizoma                                                            31 páginas                                                

II Um só ou vários lobos                                   15 p.

III A geologia da moral                                     47 p.

IV Postulados da lingüística

V Sobre alguns regimes de signos                     62 p.

VI Como criar para si um corpo sem órgãos     37 p.

VII Rostidade                                                    32 p.

VIII Três novelas ou O quê que se passou?      22 p.

{54}

IX Micro-política e segmentaridade                   56 p.

X Devir intenso, devir animal, devir imper-

ceptível                                                             99 p.

XI Tratado de nomadologia (máquina de

guerra e aparelho de Estado)

XII Sobre o ritornelo

XIII e seguintes: (os desenvolvimentos e conclusões sobre Agenciamentos — Máquina abstrata — Plano de consistência — Corpos sem órgãos etc.)

 

Já temos muitos elementos das partes não feitas. IV reenviaria ao seu texto sobre a pragmática e os enunciados b. XII seria preparado no fim do X e reenviaria ao seu recente texto sobre os pássaros e a novos desenvolvimentos sobre a música (busco coisas sobre Messiaen), XI seria demonstrado sistematicamente à maneira de Espinosa (mas estou bloqueado a propósito do aparelho de Estado, necessidade de ver você).

No que lhe envio, o importante é tudo o que há sobre o plano de consistência, e o fim sobre a música: será preciso que o refaçamos, se você achar que isso não vai bem. Mas é feito para lançar XII, de um lado, e, de outro, as conclusões.

Um forte abraço e até a próxima semana.

Gilles

(Será que você poderia repassar a mim os três grossos tomos sobre o exército — se não for trabalhar sobre eles?)

 

 

 

Domingo *

Caro Félix

Eis minha pequena carta para acolhê-lo no retorno da viagem-droga. Abraço-o muito ternamente, eu que o espero em casa. Creio que as viagens são respirações para você, transistências nt, e lhes dão idéias. Eis, portanto, meu programa de trabalho para este ano. De uma parte, darei cursos {55} sobre Cinema e Pensamento a (com efeito, li um pouco o pessoal de cinema, é de uma grande mediocridade, é preciso que a gente se misture). Farei isso vinculado ao Bergson de Matière et mémoire, que me parece um livro inesgotável. Mas, por outro lado, eu queria dar continuidade a essa tábua de categorias que coincide com nosso trabalho. E aí o centro seria para mim a busca de uma resposta totalmente clara e simples a Que é a filosofia?

Donde duas questões de partida. 1) a que você coloca, creio: por que chamar isso de “categorias”? O que são, exatamente, essas noções, “conteúdo”, “expressão”, “singularidade”… etc… etc… Peirce e Whitehead fazem tábuas de categorias modernas: de que maneira evoluiu essa noção de categoria? — 2) E depois, se partimos das mais simples dessas categorias, “conteúdo” e “expressão”, retomo minha questão: por que você foi levado a dar um privilégio aparente à expressão do ponto de vista do agenciamento? Seria preciso que você me explicasse com paciência.

É uma pequenina carta, como um ponto de partida para mim, ao passo que você talvez esteja bastante além. Volte logo, abraços,

Gilles

Acrescento terceira questão de partida: retornar à idéia de uma indiferença às coordenadas de existência… Dar um estatuto firme a essa noção.

Houve há pouco um telefonema de Lebel b. Falar com ele quando do seu retorno…

 

 

Caro Félix *

 

Gostaria que o Brasil tenha sido mais alegre do que a triste Polônia a. Como fazer e que fazer, mesmo do ponto de vista do {56} sentimento, quando os dissidentes não são mais agradáveis do que seus algozes. O Brasil, não obstante, deve ser melhor. Tenho pressa de revê-lo. Telefonei pensando que você voltaria mais cedo, e foi Stephen que me disse que você voltaria por volta do dia 17 b. Eu esperava que você pudesse vir aqui, onde continuo e onde me enterro, porque vejo como extremamente negro o retorno das aulas, como preensão de um mau pressentimento. Tudo é bem negro, e a história do Líbano me pareceu insuportável c.

Desde seu retorno tenho um grande favor a lhe pedir. A mãe de Claire, acionando seus contatos militares, conseguiu liberar Julien da prestação do serviço militar (queríamos Julien sem mau humor, e é preciso dizer que ele tem um certo destino vital de fracassado) d. Ora, eis que um filho Parnet me pergunta ainda se você poderia certificar que ele fez com você um estágio em La Borde (isso e necessário para o mestrado dele). Se você aceitar, eu ficaria verdadeiramente contente, e me previna para que François Parnet se ponha em contato com você. Mas se isso lhe aborrece, diga-me sinceramente.

Tenho lido bastante sua carta, na qual você diz que nosso trabalho em comum se esfumou, que você não sabe muito bem e nem o que ele foi para nós, e nem onde você se encontra hoje. Quanto a mim, vejo bem. Creio que você é um prodigioso inventor de conceitos “selvagens”. O que tanto me encantava nos empiristas ingleses, é você que o tinha. Não estou seguro de que, como você disse, suas idéias filosóficas vinham de convicções e engajamentos extrínsecos. Em todo caso, o inverso é também verdade: é esse tipo de empirismo transcendental que animava para você a política. Reli o conjunto dos seus capítulos atuais sobre territórios, universos etc.: é um conjunto esplêndido, {57} profuso e. De duas coisas, uma vai acontecer: ou você vai tocar isso sozinho, ou nos juntaremos e reencontramos nossas sessões. Seria preciso que eu findasse com meu trabalho sobre o cinema, que me apaixona (eu redigi bastante aqui, e devo findar ao longo do ano). Em seguida, estarei totalmente livre, porque aquilo que eu gostaria de fazer sobre Que é a filosofia? tem muita necessidade do seu tema Território-Universo-Máquina. De qualquer jeito, creio fortemente que nós dois iremos trabalhar (e, como complemento, gostaria muito de fazer um pequeno trabalho literário sobre um autor que nós dois amássemos, um gênero de trabalho engraçado).

Oh, sim, não gosto desse retorno das aulas, e St Denis já não me diz mais nada. Faço correr cada vez mais o ruído da minha saúde muito, muito delicada (não se assuste). Estou feliz por revê-lo logo, e abraço-o fortemente.

Estarei aí por volta do dia 20.

Gilles

Saint Léonard de Noblat 87000.

 

 

{58}  

À PIERRE KLOSSOWSKI *

 

Mas Revéry

  1. St Léonard de Noblat

 

19/12/69

Caro Amigo,

Acabo de ser operado, negligente agressão orgânica, porcaria de cirurgia, mas vou bem melhor a. Penso frequentemente em você, e acabo de reler seu Nietzsche b. Minha admiração é total, imensa. Eu o relia por ter necessidade de falar dele num livro que faço atualmente (tenho então a impressão de que são as melhores páginas, as que falo de você) c. Penso em você com profunda afeição (até breve, pois penso passar por Paris proximamente).

Gilles

 

 

 

{59}           À Pierre Klossowski

 

Mas Revéry

  1. St Léonard de Noblat

 

Quarta-feira *

 

Caro Amigo,

 

Recebi um bilhete de Catherine Backès, de quem gosto muito, falando-me de um número especial sobre você a. Eu gostaria muito de participar dele, ficaria muito alegre com isso. E pensei da seguinte forma: creio que já disse a você numa carta que eu fazia com um amigo, Félix Guattari, um livro onde há uma longa passagem inspirada por você e comentando teses do Cercle vicieux; então pensei em propor essa passagem, remanejando-a e apresentando-a como extraída de um livro a ser publicado (o livro se chamará “Capitalismo e esquizofrenia”, mas a passagem {se chama} “as três sínteses”, e trata da conexão {connexion, em francês}, da disjunção e da conjunção, das quais você renovou a compreensão) — vejo nisso a vantagem de que esse texto diz nossa admiração por você, e o diz em termos diferentes daqueles que empreguei antes b. Porém, antes de tudo, seria preciso que o princípio dessa fórmula convenha a você: faça-me o favor de me dizer se você acha isso inconveniente (se houver inconveniente, farei de outra maneira). Terminou o grave pensum {o peso do pensamento} do Nietzsche de Martin c ? Esteja logo livre para novas tarefas. Acabo de ler sua entrevista em L’Idiot d. É muito bela e me alegrou. Preocupado em encontrar um lugar para voltar a Paris, acabo de me apresentar à Sorbonne, o que foi uma catástrofe, oh là là; fiz a experiência do bom menino que se acreditava amado e se descobre odiado, meu orgulho sai disso queimado. Queira Deus que Vincennes não desapareça e me acolha. Pois quero a qualquer preço me reinstalar em Paris (estou curado agora). {60} Ficarei muito feliz em revê-lo. Com admiração e amizade de todo coração.

Gilles

 

1 rue de Bizerte

Paris 17ème

 

30 de outubro de 1970

 

Caro Amigo,

Estamos reinstalados em Paris a. Impressão de reencontrar esta cidade que nos fazia falta, e sobretudo de estar mais próximo daqueles que amamos. Temos um apartamento estranhamente silencioso perto da formigante praça Clichy. Reli neste momento para trabalho suas páginas sobre a gregariedade e a seleção: é um texto admirável e revolucionário que mostra em seu Nietzsche uma via singular de ultrapassamento do freudismo. Como é belo e novo esse livro, à enésima leitura. Partimos para o feriado de Todos os Santos {Toussaint}. Se me permitir, telefonarei a você ao retornar. Ficarei alegre em revê-lo mais cedo. Com profunda amizade.

Gilles

 

 

 

1 rue de Bizerte

Paris 17ème

 

18/02/71

 

Caro Amigo,

 

Eis o que Catherine Backès me disse: que você quase terminou um texto para esse número de l’Arc a; que você está prestes a deixar reproduzir um dos seus desenhos (por exemplo, o prodigioso pequeno bonhomme au doigt {dedo do homem}; que você teria mesmo feito um desenho, um esboço de mim. Esse número de L’Arc suscita em mim uma espécie de terror (pois não creio estar amadurecido para ele) e de prazer inquieto, evidentemente. Mas que você esteja tão presente nisso muda tudo, porque isso leva o conjunto a um {61} nível mais elevado que eu, e que você aceite dar-me algo incomparável. Eu gostaria que você sentisse que tenho por você um tipo de reconhecimento e da mais viva admiração. Seria possível nos vermos em breve e que vocês viessem jantar aqui. Telefonarei, se você quiser, e lhe peço que creia em minha profunda amizade.

Gilles Deleuze

Nosso livro sobre a esquizofrenia, de Guattari e meu, aparecerá no final de fevereiro: enquanto você o percorre — será o silêncio ou a guerra com os psicanalistas)

 

 

1 bis rue de Bizerte

Paris 17 ème

 

21/04/71

 

Caro Amigo,

Ah é hora, é hora. Eu li imediatamente seu livro, linha por linha, e depois o reli. Há um grupo em Vincennes que trabalha o artigo sobre Fourier e La Monnaie vivante a. Creio que esses dois textos representam, não uma viravolta, mas uma nova figura de sua obra, e que é extraordinária sua crítica fundamental da identidade; você a fez descer agora de Deus e do Eu {Moi} ao objeto fabricado e às instituições (sobre isso toda tipo de passagens que já me haviam entusiasmado no Cercle vicieux, desenvolvem todas as suas conseqüências. Você introduz o desejo na infraestrutura, ou o que dá na mesma, inversamente, você introduz a categoria de produção no desejo. Isso me parece de uma importância imensa; pois é 1) o único meio de sair do paralelismo estéril Marx-Freud, Dinheiro-Excremento etc., todas essas besteiras; 2) o meio de ser bem sucedido ali onde Reich, apesar do seu gênio, fracassou (porque ele ficou no nível de uma crítica das ideologias, não tendo visto, ele também, o ponto de inserção das pulsões na infraestrutura).

Eis que, uma vez mais, eu lhe sigo. (É preciso mesmo que eu me ponha a ler Keynes, pois acredito em sua sugestão de que ele descobre uma estranha conexão desejo-moeda). No que você {62} faz há o suficiente para dar movência ao duplo imobilismo marxista-psicanalista, talvez mesmo saltá-lo, o que seria uma alegria. Por ter ficado muito tempo sem lhe escrever, gostaria que sua amizade me perdoasse. Trabalho o tempo todo com nossa esquizofrenia, com Guattari, e me sentir sempre tão próximo de você no que faço me levava a pensar a cada dia em você e a dizer-lhe meu entusiasmo. Estava fortemente desordenado, Vincennes é uma vida abrasadora. Felizmente, terminamos logo esse livro; será preciso que você o tome pelo que ele é, do seu séquito.

A conexão do texto e das fotos, em La Monnaie vivante, é o que se chama “metapsicológica” b. Transmitemos a vocês dois nossa admiração e admiração muito profunda (permita-me telefonar logo, ficarei muito feliz em ver você).

Gilles Deleuze

 

 

 

1 bis rue de Bizerte

Paris 17 ème

 

12/01/72

 

Caro Amigo,

 

Pouco antes das férias fomos ver a exposição a. Foi um encantamento. Perdão por ter feito ao artista a homenagem muito rasa das “preferências” (eis o que amei mais do que o resto…). Fanny e eu, isso foi: Roberte sentado de perfil, de pé sobre seu joelho um pequeno personagem barbudo segura-lhe o dedo que também faz parte do personagem — o nu homem-mulher alongada — O jovem Ogier, extraordinária graça. Mas, na verdade, admiramos cada um dos desenhos. E impressão de que desde 1971 uma nova certeza gráfica nasce em você. Dizemos a vocês dois nossos votos de admiração e amizade profundas.

Gilles Deleuze.

 

 

 

{63}

            St Léonard de Noblat

25 de julho de 1978

 

Caro Pierre,

Cheguei ao final da leitura do caderno Robert au cinéma a. É prodigioso. Ainda não vi o filme porque não pude me liberar no dia da projeção privada. Mas o que esse caderno mostra, mesmo antes que se tenha visto o filme, é como o filme sai da obra escrita, e é portanto autônomo. Sua decupagem da grande cena das barras paralelas me parece extraordinária, é um tipo de decupagem “lamelar”, que mostra toda a importância desse tema das paralelas para vocês. O conjunto do caderno torna luminosa sua concepção de um “teatro de sociedade”. E o texto de Zucca, sobre as duas cabeças da imagem, me parece tão essencial quanto um texto propriamente seu e convir com toda sua obra. Essencial, creio, para compreender sua diferença e sua conexão image-Signo.

Portanto, estou com pressa de ver o filme — quero ver La Vocation suspendue, do qual se anuncia a exibição b.

A propósito de Dialogues c, você escreveu para mim uma carta tão profundamente compreensiva e afetuosa que me tocou. Assim pudesse eu merecer semelhante carta… Por muito tempo fiquei como que completamente aposentado para findar meu volumoso livro com Félix. Deveio muito disforme e longo, mas vejo o final dele e me sinto feliz com ele, aliviado d. Soube de coisas desagradáveis que lhe teriam contado como vindas de mim: eu gostaria que nós, em instante algum, déssemos crédito a elas, por uma razão simples: a própria natureza da admiração que tenho por você. e que não corre o risco de se modificar (notadamente, jamais vi em sua obra o menor “fantasma”, no sentido de que eu não o amo). No que considero belo e importante há sempre o que você faz.

Uma coisa me parece não ser abordada no caderno, o papel do som, a conexão do som com a imagem em seu filme. Em geral você dá à Voz um papel tão novo que o silêncio do caderno sobre esse ponto deve ser uma vontade de remeter {64} ao filme. Fico igualmente ansioso. Dedico-lhe boníssimas férias e exprimo a Denise e a você admiração e afeição.

Gilles

 

 

Paris

Sábado *

 

Pierre,

 

Perdoe-me por escrever uma carta muito tardia, e que nada vale, salvo pela emoção que guardei do filme a. É completamente um filme, é realmente cinema, não uma aplicação do que você escreve ou desenha. O elemento, aqui, é portanto a imagem (ao passo que em sua escrita é outra coisa, de natureza silogística, e é outra coisa ainda em seus desenhos, uma natureza muito particular do “traço”, mesmo que essas outras coisas tenham uma conexão interior com a imagem). Eu volto a partir, portanto, da impressão que tive ao ler o caderno Obliques: a extrema importância do texto de Zucca sobre os dois pólos da imagem pura, não somente porque esse texto era adequado ao seu pensamento, e por isso tanto mais original, mas também porque ele exprimia a prática de cinema que vocês elaboraram um com o outro. Parece-me que, atualmente, há quatro grandes autores que pensam verdadeiramente a imagem (não só teoricamente, mas nas práticas, e como elemento moderno, do nosso mundo atual). É você, Godard, McLuhan e Burroughs. Ora, é curioso que esses quatro partam de uma natureza bipolar da imagem, que lhes permite, precisamente, produzir o movimento como que a partir de uma diferença de intensidade. Mas de modo algum eles distribuem da mesma maneira os dois pólos. Se eu pudesse, eu gostaria muito de fazer (por prazer) um tipo de tabela de concordâncias e de discordâncias entre você e Zucca, de um lado e, de outro, cada um dos outros três. Se partirmos da distribuição de vocês, teremos, grosso modo: a imagem-documento, a imagem-fantasma, todo o filme Roberte completamente exitoso em assegurar a comunicação, a circulação, a {65} perpétua passagem em duração ou em instantaneidade, e a transformação de um pólo no outro; o que só pode ser obtido, com efeito, pelo cinema. O que dá à imagem um valor que não é simplesmente de projeção, mas de verdadeiro “projétil”. A esse respeito, Otávio, com sua teologia, se comporta como um fogueteiro ou como o senhor de uma máquina de guerra; e o desempenho de Roberte me parece muito ligado a esse exercício projétil (por exemplo, o papel da mão). Em termos de emoção, é como se o filme tivesse eliminado todo sentimento (salvo talvez em Antoine, de propósito). Nem por isso é “bressoniano”, pois a originalidade é ter suprimido todo sentimento, desígnio que se definirá como “perverso”, mas para liberar toda a potencia dos afetos em sua radical diferença com os sentimentos. É em Kleist que vejo alguma coisa que se lhe assemelha, esse liame afetos-projétil-imagem. De pronto, em função dos dois pólos da imagem e do que decorre disso, sente-se a importância prática do tema das paralelas, sendo este, talvez, o único elemento comum à sua escrita, seu cinema e seus desenhos. Só que não são paralelas euclidianas: a esse respeito, ainda, o desempenho de Roberte, suas atitudes de corpo, ou então a extraordinária importância de seu sorriso, linear e que tem uma precisão milimétrica, e do qual dir-se-ia que traça paralelas variáveis em valor afetivo. Enfim, uma questão, que eu lhe colocava na minha carta precedente, encontra sua solução necessária: é sobre o papel do som, o som vindo a ser indispensável à comunicação dos dois pólos-imagens (como na cena muito bela e muito cômica da refeição). Prova inversa: que acontece quando o som é suprimido, na segunda série das Impressões, ao mesmo tempo em que a “Natureza” invadiu tudo. Num outro domínio, em que a circulação dos pólos é igualmente intensa, amei extremamente a cena Barbet-Schmid-carro. Os atores do futuro, no cinema, não serão mais atores, muito menos amadores, mas criadores vindos de alhures, como você, Roberte, ou então diretores de cinema, porque eles têm uma maneira muito especial de desempenhar (isso já me impressionou em L’Ami américain, no qual Wenders faz com que só diretores, praticamente, desempenhem). Mas, à medida que escrevo, acho grotesco tudo o que lhe disse, e que é lamentavelmente intelectual, em vez de dizer o concreto, o que se vê no {66} filme. Eu admiro e abraço Denise e você. Espero muito ver vocês terça-feira.

Gilles

PS 1: nunca chego a fazer uma carta, é terrível. Efeito de solidão que, todavia, amo.

PS 2: minha convicção de que esse filme é do verdadeiro-puro cinema faz com que eu lastime ser você forçado, por falta de outras possibilidades, a exibí-lo em outro lugar que não numa sala ordinária. Pouco importa, aliás, pois o essencial é que as pessoas possam vê-lo.

 

 

1 bis rue de Bizerte

Paris 17 ème

 

4 de abril de 1979

 

Pierre,

Não diga e jamais pense que você me pediu coisas em demasia. Pois eu teria vergonha que você pensasse isso, visto que eu é que lhe devo tanto, pela sua obra e pela sua maneira de ser. Me vexa somente não ter sido capaz de escrever sobre o filme, porque atravesso um tipo de deserto e de incapacidade absoluta, justo no momento em que 1) você tem um pouco de necessidade de mim; 2) eu acreditava terminar por minha conta um longo trabalho no qual (provisoriamente, provisoriamente) eu “racho” instantaneamente ao ponto de não mais escrever. Espero que Zucca tenha lhe contado um pouco. Espero que tal coisa aconteça a todos e que não seja inquietante. Em troca, sei que todas as pessoas de Vincennes, e todos aqueles que tenho visto, que foram ver o filme, tenham saído “encantados”. Penso em você: impressão que sua obra poderia ser considerada como uma espécie de ópera, mas dispersada; ela permaneceria, antes de tudo, como voz (seu estilo escrito é um prodigioso estilo vocal, graças a deus que não lingüístico: você soube fazer uma sintaxe muito pura e muito complexa em conexão com o latim, mas uma sintaxe justamente a serviço da voz); seus desenhos e painéis seriam verdadeiramente decorações no sentido de que uma decoração seria totalmente criadora; o filme Zucca seria um outro elemento dessa ópera, na qual creio que a força de Zucca se reencontrou, harmonizada à sua. E Denise em tudo isso: em suma, uma ópera cujos elementos, habitualmente reunidos, nos são dados alternadamente. {67} Digo a você, não me peça para escrever, porque não sou capaz de nada neste momento. Eu queria descansar muito para chegar a escrever e terminar, com Félix, esse livro em que você reencontrará muitas coisas suas a. Tenho necessidade de uma espécie de longo sono, justo no momento em que ele não seria útil. Em anexo, remeto a você minha carta, que não é boa, mas que lhe pertence. Eu queria que você soubesse que eu o admiro e amo.

Gilles

 

 

 

{68}

A MICHEL FOUCAULT *

 

 

Caro amigo*,

Eis como vejo as coisas: para mim você é aquele que, em nossa geração, faz uma obra admirável e verdadeiramente nova. Quanto a mim, vejo-me sobretudo como cheio de “pequenos truques”, bem, porém muito comprometidos com porções ainda escolares (isso talvez venha a cessar com a esquizofrenia, mas não estou seguro disso). Acontece-me frequentemente encontrar você, pensar alguma coisa de semelhante a você, de seguir uma empreitada análoga, ou simplesmente, com mais freqüência, acontece que o que você tenha escrito me faz avançar instantaneamente. E eis que você escreve um texto no qual diz que o que faço lhe parece admirável a: nem lhe digo quanta alegria isso me deu, adivinhe. E você o disse tão bem, com sua força e seu estilo, que acredito nisso. Poucas coisas me deram tanto prazer quanto essa leitura nesta manhã (e tenho o sentimento, também, de que é por outras razões do que simples vaidade). É um texto maravilhoso. Tenho a impressão de que você me compreende plenamente e, ao mesmo tempo, de que você me ultrapassa. É, portanto, o sonho. Amo, particularmente, o que você diz da história da filosofia como fantasmática (3), sobre oposição à fenomenologia (6), as três teorias do acontecimento (14), o funcionamento do conceito (25), as páginas sobre Bouvard et Pecuchet {69} (aí, em destaque: é isso que eu deveria ter dito, pena que você o tenha suprimido), a passagem muito bela sobre a droga (em destaque: que vão pensar de nós? b. todo o final sobre o revir. Mas, sobretudo, há seu “tom” próprio, que dá a tudo isso alguma coisa de extraordinário. Telefonarei a você no final da semana. Com toda amizade.

GD

 

 

Mas Ravéry

87 St Léonard de Noblat

Terça-feira

 

Caro Amigo *,

Sua carta me deu grande prazer. Nada de férias sem graça. Regozijo-me com o reinício das aulas, porque creio que sua presença no Collège de France será alguma coisa de formidável, o ano será belo e bom para você como para mim a. Fizemos a mudança, foi fatigante b. Parei de trabalhar há um mês, esterilidade pura e, todavia, vejo bem o que eu queria dizer, mas sem coragem alguma para fazê-lo. Eu queria mostrar que há duas direções da cura: a edipianização tradicional e a esquizofrenização, única libertária, porque há no esquizo algo como um produtor universal. O problema seria análogo ao de Burroughs (como conquistar a potência da droga sem se drogar?) ou de Miller (embebedar-se com água pura). Aqui: como captar o processo esquizofrênico sem ser produzido como esquizo? O grupo Tel Quel me importuna prodigiosamente quando ele se indigna altivamente com toda aproximação Artaud-esquizofrenia. Eles pretendem fazer de Artaud uma concepção rigorosa, mas fazem da esquizofrenia a mais tradicional concepção e a mais enjoativa, a mais chata. Eles estão em Délay: um pouco de neurose é bom para {70} a criação, mas não muito e nada de psicose, sobretudo. São assombrosos imbecis. Eu queria dizer-lhe uma coisa: estou plenamente feliz que você leia o que faço, ainda mais se você o ame; mas não é preciso que o projeto do artigo sobre mim o envenene, nem mesmo a cana do papá Piel c ; pois, encontrando-se você num momento em que não esteja propenso a escrever, é sagrado, não é preciso fazê-lo, suplico-lhe. A Tunísia, oh, sim, irei com prazer, mas não sei, sou um pouco inapto para viagens. Na semana que vem virei alguns dias à Paris. Com a condição de que você aí esteja, pois eu queria perguntar a você toda sorte de coisas sobre Vincennes d. Fanny e eu manifestamos toda nossa amizade a você.

GD

 

 

 

 

 

 

{71}

            À GHERASIM LUCA*

 

 

Gilles Deleuze

1 bis rua de Bizert

Paris 17º

 

27/9/1972

Senhor *,

Li recentemente os textos de Héros-limite a. Estou entusiasmado, muito tocado pela força e novidade de seus textos. Desejo ler tudo. Teria o senhor a grande cortesia de escrever-me ou de me telefonar para me dizer quais são seus textos após Héros-limite (e, sendo o caso, aqueles anteriores que não foram indicados). Na Biblioteca Nacional há um certo número, mas pouco. Acabo de ler na Novelle Révue de psychanalise, que o senhor escreveu com Trost um “Primeiro manifesto não-edipiano” b: onde ele foi publicado? Perdoe-me importuná-lo assim, veja nisso apenas a prova da minha grande admiração.

Gilles Deleuze

 

 

 

{72}

Sexta-feira 6/10/72

 

Caro Gherasim Luca,

 

Não creia que eu tenha a mania de escrever cartas, nem um senso do diálogo, detesto. Mas eu lhe escrevo novamente porque agora li tudo (o que há na Biblioteca Nacional) e ouvi muito seu disco. Sei com certeza que o que você diz e escreve é de uma profundidade, novidade, beleza dura da qual eu não tinha idéia. Eu queria dizer-lhe como cheguei a lê-lo, pois o mercado faz do senhor esse autor de “luxo acre”. Pois encontrei numa revista uma alusão ao Primeiro manifesto não-edipiano, sem referência, e eu disse a mim mesmo de uma maneira tola — curioso — será preciso que eu leia isso a.

Não encontrando-a, peguei Héros-limite, morri de rir, e depois da simples curiosidade experimentei uma perturbação. Depois, tento me juntar ao senhor, mas cada passo que dou me distancia ou me pára (busca das edições misteriosas de l’Oubli {O Esquecimento} b, visita ao Minotauro, apelo aos rumenos de Paris que posso conhecer, e mesmo a um surrealista — etc). Finalmente, o senhor enviou seu disco a mim, e percebo que ele foi editado por Givaudan 2, que, precisamente, veio me ver a propósito de não importa o quê alguns dias antes de eu lê-lo. Esse círculo fechado é bem satisfatório.

 

Nada vejo como seu disco, que funciona como máquina de intensidade emotiva sobre os nervos e sobre a alma. Já tenho muitas coisas a dizer sobre seus livros (ai de mim, como poderia ser de outro modo? não consigo matar o comentário) mas isso me interessa menos neste momento do que a emoção e a admiração que eles me dão, que eles põem em mim, mais exatamente. O senhor decidirá o momento em que nos veremos, transmito-lhe meus sentimentos e afeição.

Gilles Deleuze

 

 

{73}

Caro Gherasim Luca *

 

Perdoe-me ainda. Sou incapaz neste momento de prever meu emprego do tempo, tenho muitas reuniões inevitáveis de última hora. Todavia, minhas visitas ao senhor me são as mais preciosas, e me fazem avançar bastante naquilo que busco e ao quê talvez só tenha acesso graças ao senhor. Queira desculpar-me por não poder vir amanhã, os acontecimentos de psiquiatria me consomem. Agradeço-lhe pelo La Clef, que é um texto fundamental a. Se preferir, escrevo-lhe ao correr da semana, assim que essas ocupações inoportunas se acalmarem. Ao senhor, de todo coração,

Gilles Deleuze

 

 

30/12/72

 

Caro Gherasim Luca,

 

Que se passou que me impede de semana em semana de dar um sinal de vida ao senhor e de vir para vê-lo, já que tenho tanto desejo disso e já que o senhor me acolheu tão profundamente? Deixei-me prender (como um rato) por todo tipo de coisas, políticas, não sei o quê, e todo meu trabalho está atrasado, e não sou senhor de tempo algum para o mais essencial. Eis por quê lhe peço, como uma intensa marca de amizade, que seja paciente comigo, e que, como o senhor já fez, me re-acolha quando eu tiver organizado meus afazeres. Além disso, estou abatido por um mal entendido que fez com que a revista Critique acabe de anunciar a publicação de um artigo futuro meu sobre o senhor, dando como título “sobre dois poetas rumenos Luca e Trost”. Não só Trost não é poeta, creio, como eu jamais considerei o senhor como um poeta “rumeno”. Escrevi imediatamente à Critique para que mude esse parênteses estúpido. Afirmo o efeito muito forte sobre mim dos nossos encontros, recentes e vindouros, e minha admiração, minha amizade,

Gilles Deleuze

 

 

 

{74}

 

Gilles Deleuze

1 bis rua de Bizert

Paris 17º

 

7 de junho de 1973

 

Admirável Chant de la Carpe a. Tudo aí é maravilhoso. Emoção de ver escrito Pas pas… (continuo a crer que nunca houve mais forte poema b). Ai, ai de mim, por quê não mais vim ver o senhor, por quê não pude mais. É que no meu trabalho, em minha própria vida produzem-se tais abalos que já não tenho atualmente liberdade alguma. Luto por qualquer coisa, nem mesmo sei pelo quê, que não me sobra momento. E, todavia, sei o quanto o senhor mesmo e o que o senhor faz estão presentes em mim. Afirmo minha profunda ligação.

GD

 

 

Gilles Deleuze

1 bis rua de Bizert

Paris 17º

 

Terça-feira [26/5/75]

 

Caro Ghérasim Luca

 

Fui ouvir o senhor e tive um tal sentimento de beleza que isso foi para mim um raro e grande sarau a. Eu nem mesmo teria desejado ver o senhor e “felicitá-lo”, em seguida, por crer que eu só diria banalidades face uma coisa tão grande que o senhor faz e que o senhor é. Afirmo minha admiração e minha mais profunda afeição.

GD

 

 

 

 

{75}

 

Gilles Deleuze

1 bis rua de Bizert

Paris 17º

 

11/3/86

 

Caro Gherasim Luca,

 

Estou muito feliz pela reedição do seu livro nt por um editor como Corti. O senhor está entre os maiores poetas. Pensando no senhor, não cesso de ter admiração e afeição profundas.

Gilles Deleuze

 

 

Gilles Deleuze

4/3/89

 

Caro Gherasim Luca,

O sarau em FR3 (há muito tempo) foi comovente a. O senhor dá à poesia uma vida, uma força, um rigor que só se iguala aos maiores poetas. O senhor é um deles. Sinto pelo seu gênio uma admiração e um respeito que fazem com que haja uma descoberta absoluta toda vez que eu o ouço ou leio. Muito agradecido por ter-me enviado Le Tourbillon qui repose b: ele é esplêndido. Estou cada vez mais tocado pela potência de uma “lógica” singular que move cada poema em sua obra. Peço-lhe que creia e meu profundo apego.

Gilles Deleuze

 

 

Gilles Deleuze

84 av. Niel

Paris 17º

 

24/3/91

 

Mais que nunca na admiração

(Splendeur de la Forêt)

 

 

 

 

{76}

A ARNAUD VILLANI *

 

21/10/80

 

Caro Senhor,

 

Eu também lamento não tê-lo visto, sobretudo tendo o senhor vindo a Paris só para me ver (mas por que não me preveniu quanto a sua intenção?). Sinto-me confuso face ao senhor por não ter podido voltar a tempo. Todavia, não lastime muito, talvez seja melhor este método escrito, porque me aflige seguir uma conversação desde que ela seja insignificante. Anexo respostas insuficientes às suas questões. Sinto um grande interesse pelo seu trabalho próprio e pelos textos que o senhor enviou a mim. Creia-me sinceramente seu,

Gilles Deleuze

 

Questionário *

 

— O senhor é um monstro?

 

“Monstro” é, primeiramente, um ser compósito. E é verdade que eu escrevi sobre temas aparentemente variados. Monstro tem um segundo sentido: alguma coisa ou alguém cuja extrema determinação deixa subsistir plenamente o indeterminado (por exemplo, um monstro à la Goya). Neste sentido, o pensamento é um monstro.

 

{77}

            — A physis parece desempenhar um grande papel em sua obra.

 

            O senhor tem razão, creio que giro em torno de certa idéia da Natureza, mas não cheguei ainda a considerar essa noção diretamente.

 

— Pode-se dizer que o senhor é sofista, no bom sentido, e o antilogos é retorno para além do golpe de força de Platão contra os Sofistas?

 

Não tanto. O antilogos, para mim, está menos ligado ao ardil, no sentido dos Sofistas, do que ao involuntário, no sentido de Proust.

 

— O pensamento é “espermático” para o senhor. Tem ele uma conexão clara, nesse sentido, com a sexualidade?

 

Isso seria verdadeiro até Logique du sens, no qual ainda há uma conexão enunciável entre sexualidade e metafísica. Depois, a sexualidade me aparece sobretudo

como uma abstração mal fundada.

 

— Pode-se modelizar sua evolução pelas sínteses?

 

            Vejo de outra maneira minha evolução. Não sei se o senhor conhece minha carta a Michel Cressole a: foi nela que explico minha evolução tal como a vejo.

 

— O pensamento como audácia e aventura?

 

Não é tanto o pensamento como audácia e aventura. No que tenho escrito, creio fortemente nesse problema da imagem do pensamento, e de uma liberdade da imagem. É já em Diferença e repetição, mas também em Proust, e ainda em Mil platõs (pp. 464-470).

— O senhor tem uma capacidade para encontrar, apesar de tudo e de todos, os verdadeiros problemas.

 

O senhor é muito amável. Se isso é verdadeiro, é porque acredito na necessidade de construir um conceito de problema. Tentei em Diferença e repetição, e gostaria de retomar essa questão. Mas, praticamente, isso me leva a buscar em {78} cada caso como um problema pode ser posto. É dessa maneira, parece-me, que a filosofia pode ser considerada como uma ciência (determinar as condições de um problema).

 

            — Há um começo de rizoma Deleuze-Guattari-Foucault-Lyotard-Klossowski ?

 

Teria podido fazer-se, mas isso não se fez. De fato, há somente rizoma entre Guattari e mim.

 

— A conclusão de Mil platôs consiste num modelo topológico radicalmente original em filosofia. É ele transponível matematicamente, biologicamente?

 

A conclusão de Mil platôs, em meu espírito, é uma tábua de categorias (mas incompleta, insuficiente). Não à maneira de Kant, mas à maneira de Whitehead. “Categoria” ganha, portanto, um novo sentido muito especial. Eu gostaria de trabalhar sobre esse ponto. O senhor pergunta se há uma transposição matemática e biológica possível. Talvez seja o inverso. Sinto-me bergsoniano, quando Bergson diz que a ciência moderna não encontrou sua metafísica, a metafísica da qual ela tinha necessidade. É essa metafísica que me interessa.

 

— Pode-se dizer que um amor da vida, em sua assustadora complexidade, leva o senhor ao longo de toda sua obra?

 

Sim, é o que me desgosta, teoricamente, praticamente, toda espécie de queixa em face da vida, toda cultura trágica… quer dizer a neurose. Suporto mal os neuróticos.

 

— O senhor é um filósofo não-metafísico?

 

Não, eu me sinto puro metafísico (cf. acima).

 

— Um século, segundo o senhor, poderia ser deleuzeano, leve? Ou, então, o senhor é pessimista sobre a possibilidade de se livrar da identidade e do poder dos traços?

 

Não, não sou de modo algum pessimista, porque não creio na irreversibilidade das situações. Considere o estado catastrófico atual da literatura e do pensamento: isso não me parece grave quanto ao porvir.

{79}

— Após Mil platôs?

 

Acabo de terminar um livro sobre Francis Bacon (o pintor), que espero poder remeter ao senhor. E tenho apenas mais dois projetos, um sobre Pensamento e cinema e um outro que seria um volumoso livro sobre “Que é a filosofia?” (com o problema das categorias).

 

— O mundo é duplo, macrofísico (e a imagem do pensamento funciona muito bem aí) e microfísico (é seu modelo que, anos após a mesma revolução em ciência, em arte, dá conta dele). Há uma conexão polêmica dos dois pontos de vista?

 

A distinção do macro e do micro é muito importante, mas ela pertence mais a Félix do que a mim. Quanto a mim é sobretudo a distinção dos dois tipos de multiplicidades. É isso o essencial para mim: que um desses tipos remeta a uma micro-multiplicidade, é tão somente uma consequência. Mesmo para o problema do pensamento e mesmo para as ciências, a noção de multiplicidade (tal como ela é introduzida por Riemann) me parece mais importante que a de microfísica.

 

 

Dezembro de 1981

 

Caro Amigo *,

 

Agradeço por ter-me enviado sua conferência. Acho-a forte e muito bela, e fui tocado por ela. Desde o início, sua introdução das noções de problema, de detalhe é marcante. Mas como pode o senhor dizer tudo aquilo numa sessão? Sobre muitos pontos o senhor prolonga, está mais adiantado. Não há um ponto em que eu me sinta à frente do senhor. Dou pouca importância ao texto sobre o estruturalismo, e muito menos importância a toda a parte de Lógica do sentido ainda sob domínio da psicanálise (a casa vazia, e uma concepção demasiado estrutural das “séries”). No entanto, o conjunto de sua conferência é o único texto sobre mim que me ensina {80} alguma coisa e no qual sinto o pensamento ativo de um leitor maravilhoso.

Não sabia que Parain-Vial permitiu-se escrever sobre mim a. Boutan eu sabia, mas também não tinha lido b. Eu me impunha uma regra de sabedoria de nada ler nessa ordem (não li o livro de Cressole c), porque a gente se arrisca sempre cair no desgosto ou na vaidade. Mas eis que essa regra já não vale mais relativamente ao senhor.

É isso que me permite fazer ao senhor um apelo muito solene, se for do seu gosto. Não se deixe encantar e nem obstinar-se por mim. Vi casos de pessoas que queriam muito fazer-se “discípulo” de alguém, e que tinham certamente tanto talento quanto o “mestre”, mas que saíram esterilizados disso. É terrível. Trabalhar sobre mim tem dois inconvenientes maiores para o senhor: isso não o ajudará em sua carreira universitária, o que talvez possa não ser o essencial, mas assim mesmo é muito importante; e, sobretudo, o senhor tem sua própria obra poética e filosófica para fazer, e que não pode suportar ser constrangida pela minha.

Sobre isso, mostre minha carta a Clément Rosset, porque ele é nosso amigo comum. Penso que ele me dará razão. O senhor vale infinitamente mais do que ser meu comentador. Evidentemente, ficarei encantado que o senhor escreva sobre mim (sobretudo como o senhor projetou, um livro muito acessível); estou pronto para ajudá-lo tanto quanto for do seu desejo. Mas é preciso que isso seja para o senhor alguma coisa de marginal, que não venha retardar e nem diminuir seus próprios trabalhos.

Volto a dizer o quanto fiquei feliz por tê-lo lido. e peço-lhe acreditar em minha sincera amizade.

Gilles Deleuze.

 

{81}

 

23/02/82

 

Caro Amigo *,

 

Há muito tempo não lhe escrevo. Obrigado pelas suas duas cartas que me deram grande prazer. Com efeito, Lindon me falou do projeto: estou seguro de que vocês farão alguma coisa de muito bom, na qual sou eu que lhes seria devedor e não o inverso (e é por isso, certamente, que não é preciso me chamar de mestre). O que o senhor diz sobre a possibilidade de tratar a linha de fuga como uma síntese com dois usos possíveis, imanente e transcendente, me tocou muito. É que, do meu ponto de vista, as linhas de fuga são de alguma maneira primeiras numa sociedade: um sociedade não se define primeiramente pelas suas contradições, nem mesmo pelos seus centros de poder e linhas de resistência (Foucault), mas por um verdadeiro campo de fuga, necessariamente sintético, como o senhor diz. O uso imanente, segundo o senhor, seria o rizoma ou a teia de aranha. Lembro-me de um psicólogo, Tilquin, que fez uma tese muito interessante sobre as teias de aranha, era sua especialidade a. O senhor me deu vontade de relê-lo para ver se não haveria teias de aranha do tipo rizoma e do tipo árvore, muito mais centralizadas, entre aranhas julgadas (erroneamente) superiores ou transcendentes.

Já não vou a colóquios e não faço mais conferências, isso já está assentado há muito tempo. Não porque minha saúde seja ruim. Ela só o é quando me agito e eu tenho necessidade de me repousar bastante, de modo que nunca tenho muito tempo. Meu sonho seria escrever, mas de modo algum falar. Este ano eu me flanqueei num curso sobre o cinema, de tal sorte que pensei ter um ano fácil, e ele revela que curso algum me tenha dado como ele tanto cuidado e preparação. Meu cálculo falhou.

Afetuosamente,

GD

 

 

{82}

1º de agosto de 1982

 

Caro Amigo *

 

Li tudo com muita paixão. É mais que um estudo sobre mim, é como uma aliança. Para mim é muito comovente. Tenho um sentimento bizarro: é como se o senhor me tivesse mergulhado num outro meio (o seu), com outras coordenadas (seus próprios autores). Não falo da exatidão que, na minha opinião, é inteira. Falo de uma espécie de refração, ou de passagem de um meio a outro, um pouco como se o senhor me tivesse mediterrãneizado. E é um grande êxito, parece-me; pois o senhor lembrou meu cuidado de não passar muito tempo a colocar-se depois de mim, tendo evitado retardar, assim, seu trabalho pessoal. Ao contrário, o senhor teve êxito duplamente: a exatidão e, todavia, seu mundo e seu estilo próprios operando essa refração. Eis porque é um ensaio inventivo, ao mesmo tempo em que permanece exato.

Seria preciso corrigir a maneira pela qual, nas primeiras páginas, o senhor faz abstração de Félix. Seu ponto de vista permanece justo, e pode falar de mim sem Félix. Acontece que O anti-Édipo e Mil platôs são inteiramente dele como inteiramente meus, segundo dois pontos de vista possíveis. Donde a necessidade de marcar, se for do seu agrado, que, se o senhor se atem a mim, é em virtude do seu próprio empreendimento, e de modo algum de um caráter secundário ou “ocasional” de Félix. É muito importante, e o senhor saberá dizê-lo melhor do que eu.

Cheguei aqui fatigado, mas a visão das vacas me repousa e me anima. Espero que também o senhor tenha um pouco de repouso e que o senhor e os seus tenham felizes férias. Peço-lhe que creia totalmente em minha amizade,

G

 

 

18 de novembro de 1982 *

 

Caro Amigo,

Saio de um mal período, insuficiência respiratória, e creio que minha vida será cada vez mais imóvel e retirada, {83} o que me agrada muito. Tudo vai bem agora. Obrigado pelo que o senhor enviou (o poeta inglês é curioso, ele tem conexão com a vista, o Japão, o senhor o traduziu muito bem). Não comparei sua segunda versão com a primeira, mas tenho a impressão de haver muita mudança. Em todo caso, o tom me parece mais vivo. Essa vivacidade é virtude sua, no sentido de “água viva”, é um pouco assim que são suas páginas. Amo seu último capítulo. Evidentemente, é muito curioso e muito engraçado num certo sentido para o senhor e para mim. O senhor se lembra de um texto de Nietzsche: um pensador lança uma flecha alhures e outro pensador a apanha e a lançará alhures… Ora, o senhor apanha bem minha suposta flecha, mas é a mim que o senhor a remete. Não posso dizer de outro modo minha impressão: o que o senhor encontra em mim, o senhor sabe completamente criá-lo pela sua própria força e, ao mesmo tempo, volta a dá-lo a mim. O senhor cria de mim uma imagem virtual, de maneira que, quando o senhor me fala de uma colaboração possível entre nós dois, eu me digo que nunca se terá algo mais admirável que isso. É muito bizarramente um livro que se passa entre nós dois, mas, bem entendido, tudo devido ao senhor.

Não cheguei ainda ao Que é a filosofia? Continuo, a propósito do cinema, minha classificação dos signos (queria 90 ou 200… ou mais). Amo muito esse trabalho atual. O senhor me dirá o parecer de Jérôme Lindon. Em que o senhor se lançará agora? Expresso meu reconhecimento e minha amizade.

GD

 

 

17/5/83

 

Caro Amigo,

Fiquei muito feliz por ter notícias suas e de ler seus textos. Infelizmente, não consigo encontrar sua primeira carta, não me recordo com toda precisão. Mas se as coisas se arranjarem para seu livro, não escreverei o prefácio, porque me parece impossível prefaciar um livro sobre mim, mas confirmo minha proposição de fazer, então, um questionário ao qual eu responderia melhor e mais completamente. O texto de Roussel é muito bom (fiquei sempre incomodado com o ponto de vista linguístico de Foucault, que faz do procedimento da linguagem {84} o segredo de tudo, e notadamente das máquinas: parece-me que, sem ter a dizê-lo nitidamente, o senhor tem um ponto de vista totalmente distinto). Quanto ao texto da Revue de l’Enseignement, parece-me uma conferência realmente magistral. E se bem que sua análise e seu estilo levam em grande conta o gênero de público (é talvez isso que Lindon desejaria??), a gente o reencontra completamente. Por que não o junte ao seu livro? É um bom texto. Meu livro sobre o cinema sairá em setembro, e eu o enviarei ao senhor. Tenha boas férias. Com amizade,

Gilles Deleuze

 

 

Quarta-feira *

 

Caro Amigo,

 

Não é de admirar que eu não tenha recebido a carta que você enviou a mim, pois perdi a correspondência numa carteira há algum tempo. Mas isso me deixa ainda mais confuso por ter faltado à nossa entrevista. Queira desculpar-me uma vez mais. Estou profundamente feliz com sua maneira de ler e reler Mil platôs: mas é preciso saldar sobretudo os encontros entre nós do que me atribuir todo o mérito. De minha parte, os dois capítulos que prefiro são Devir-animal e Ritornelo. Espero ser ultrapassado pelo que o senhor faz, tanto quanto o senhor, inspirado em certos pontos pelo que eu faço. Eis por quê, quando o senhor põe o acento sobre uma micrológica, e que eu lhe respondo que não é bem assim para mim, porque o “micro” depende de uma teoria das multiplicidades que me parece mais importante — não pretendo de maneira alguma ter razão, e até mesmo penso que seu ponto de vista é também legítimo e que pode mesmo ser mais fecundo conforme o que o senhor tirar dele. O senhor define muito bem a exigência da “fuga”: “sem tudo destruir”. Quanto a Cressole, sua agressividade era uma vingança e não excluía uma espécie de charme, é a vida. Que tudo corra bem ao senhor.
GD

 

 

{85}

Domingo (março 1985)

 

Caro Amigo,

 

Li seu artigo, que me parece ser interessante, excelente, com esse “tom” todo seu. Ele me encantaria se uma outra coisa não me aborrecesse muito.

È óbvio que o senhor tem o direito de considerar os livros que Félix e eu fizemos juntos sob um ângulo que só remeta a mim. Mas isso me parece verdadeiro na perspectiva de um livro “sobre” mim. Ao contrário, no caso de uma publicação numa revista como Critique, devém incômodo para mim uma análise que só fale de mim, ao passo que o tema é um livro escrito a dois. Mesmo sua advertência no início do texto não basta para desmentir que o senhor me considera como único autor válido. Eis por quê, se o senhor me dá sinal de amizade ao pedir meu parecer, não posso desejar a publicação de um texto, todavia tão bom, nessas condições aí.

Isso me dá uma grande inquietação. Em troca, me regozijei com outras notícias sobre seu trabalho. Me admira que as Éditions de la Différence visam mesmo publicar alguma coisa sobre mim: estamos em discórdia, tive de processá-los a propósito de Bacon…

Estou feliz que seu filho tenha escapado de uma grave doença, e expresso toda minha amizade ao senhor.

Gilles Deleuze

 

 

21 de março de 1985

 

Claro Amigo,

 

Confesso-lhe que não vejo grande diferença entre o novo texto e o precedente. Disse-lhe minhas razões de acreditar que era injusto apresentar esse texto como uma análise de Mille plateaux no quadro de uma revista: uma análise tem todo o direito de ser original, mas não tem direito algum de sugerir (mesmo com muitas precauções) que esse livro seja só meu no essencial. Estou portanto aflito que o senhor tenha a intenção de publicar esse artigo em Critique. Passe bem.

Gilles Deleuze

 

 

{86}

 

30/3/1985

 

Caro Amigo,

 

Certamente o senhor tem razão; não teríamos nos conhecido, não teria havido problema, pois eu nada teria sabido do seu projeto. O senhor se lembra que tomou frequentemente minha defesa sem que eu o pedisse, e eis que tomo a defesa de Félix sem que ele tampouco a tenha pedido a mim. O senhor invoca uma espécie de ambiguidade devida ao semi conhecimento que temos um do outro. Segundo penso, a ambiguidade está alhures: creio que, sinceramente, o senhor não compreende o que eu acho de tão deplorável na publicação do seu texto em revista, assim como não compreendo por quê se ateve em fazer aparecer, sempre em revista, esse texto e não outro. Não estou furioso, como o senhor disse, mas muito aborrecido. Sinceramente seu.

Gilles Deleuze.

 

 

29/12/1986

 

Caro Amigo *,

 

Fiquei feliz por ter noticias suas. Espero a continuação, no próximo ano, dos seus trabalhos, filosóficos, poéticos, e sobretudo por melhores condições de edição, enfim. Quanto a mim, a coisa vai bem mal: é o primeiro ano em que tenho, nessa faculdade, atividade de tal modo enfadonha que tenho dificuldade em salvar meu trabalho, e só tenho esperança numa rápida aposentadoria. Estou de mau humor. portando, ai de mim. Eu não deveria dizer isso ao senhor, que tem mais tarefas ainda. É verdade que os estudantes nos dão compensações.

O senhor me pergunta como eu resumiria brevemente meus livros em itens distintos. Isso é interessante, com efeito, pois então não seria preciso supor uma unidade. Creio que um livro, se ele merece existir, pode ser apresentado sob três aspectos rápidos: escreve-se livro “digno” se: 1) a gente pensa que os livros sobre o mesmo tema ou sobre um tema vizinho caem num tipo de erro global (função polêmica do livro); 2) a gente pensa que alguma coisa de essencial foi esquecida sobre o {87} tema (função inventiva); 3) a gente se acha capaz de criar um novo conceito (função criadora). Seguramente, isso é o mínimo quantitativo: um erro, um esquecimento, um conceito. Pouco importa que o livro seja sobre alguém ou alguma coisa. E não falo somente para o filósofo, isso vale também para os outros “gêneros”, com outras palavras. Então, eu tomaria cada um dos meus livros, abandonando a modéstia necessária, e me perguntaria: 1) qual erro ele pretendeu combater; 2) qual esquecimento ele quis reparar; 3) qual novo conceito ele criou. Isso seria rápido. Por exemplo, meu livro sobre Masoch: o erro: ter posto o acento sobre a dor; o esquecimento: foi ter negligenciado a importância do contrato (e para mim o sucesso desse livro está em que, depois dele, todo mundo falou do contrato masoquista, ao passo que, antes, isso era um tema muito acessório); o novo conceito é a dissociação do sadismo e do masoquismo. — Outro exemplo, para Proust e os signos: o erro é a memória; o esquecimento é os signos; o conceito é a coexistência de três (e não dois) tempos — Eu faria assim, portanto, para cada livro. E se veria bem, para concluir, os modos de unidade que se destacariam: isso seria uma combinatória, quase quantificável, e sobretudo objetiva (não se poderia trapacear: quantos livros resistem a esse modo de apresentação, precisamente porque eles nada têm a dizer).

Até breve, expresso-lhe toda minha amizade.

Gilles Deleuze

 

 

15/12/1992

 

Estou muito feliz com suas notícias e com o avanço do seu trabalho. Disseram-me coisas antes inquietantes sobre essa sessão do Collège. Minha saúde piora cada vez ,aos, ou antes não se trata de doença, é um estado que faz com que eu tenha dificuldade de respirar, constantemente: não duvide a que ponto isso muda tudo, incluindo o trabalho. Estou completamente incapaz de fazer os mais simples trabalhos, se eles necessitam verificação. É por isso mesmo que o que o senhor me pede sobre Whitehead, não posso fazê-lo, o que me deixa desolado. Lembro-me somente do meu deslumbramento diante do surgimento de categorias tão bizarras no início de {88} Process and Reality; depois, de um tipo de hipnose que senti diante dos Objetos Eternos. Que livro! Perdoe-me minha insuficiência. Passe bem.

Gilles Deleuze

 

 

 

{89}

A JOSPH EMMANUEL VOEFFRAY *

 

 

1 bis rua de Bizerte

Paris 17º

 

25/01/1982

 

Senhor,

 

Recebi sua carta. Como o senhor é um leitor muito bom, suas questões são difíceis. Tento respondê-las na ordem mais simples para mim.

1) A descoberta e o desenvolvimento de um campo transcendental é a invenção de Kant. É por isso que fiz antes de tudo um livro sobre ele.

2) A ideia de um empirismo transcendental mantém, de uma parte, que há uma diferença de natureza entre o empírico e o transcendental e supõe, de outra parte, que o próprio transcendental é experiência, experimentação; enfim, põe uma imanência completa entre os dois.

3) A primeira ideia de um empirismo transcendental é que as condições da experiência são condições da experiência real. Isso já é, de certa maneira, a reivindicação dos pós kantianos. Mas parece que a descoberta de condição da experiência real, com a mudança que disso decorre no conceito de condição, será feita sob um horizonte totalmente outro: isto é, Bergson, donde meu livro sobre Bergson.

4) Noção alguma pode ser transposta do empírico ao transcendental: é por isso mesmo que a noção de sujeito não pode aparecer no transcendental, mesmo purificada etc. Tudo o que é válido no empírico deixa de sê-lo no {90} transcendental. É por isso que a noção de Crítica deve ser conservada e radicalizada: os conceitos de conhecimento, de moral, de religião — etc. só podem fundir. É ainda neste sentido que, em Mil platôs, é frequentemente dito que o molecular não é molar miniaturizado.

5) O campo transcendental é ocupado por acontecimentos, singularidades etc, etc. O conceito (no sentido de conceito de diferença) concerne aos acontecimentos, às singularidades etc, por oposição aos conceitos empíricos (diferenças conceituais).

6) Dir-se-ia que 5 não leva em conta 4, pois os acontecimentos parecem bem empíricos. É também preciso distinguir nos acontecimentos ou nas singularidades a parte que remete ao transcendental e aquela que remete à efetuação. Isso me parece adquirido em Diferença e repetição (cf. a distinção “diferençação-diferenciação” {“différentiation-différenciation”} e em Lógica do sentido (a distinção entre o acontecimento e a atualização).

7) Que será que é, se não é atualizado? Não pode ser “possível”. É Real. É virtual num sentido muito particular, do qual Bergson e também Proust dão uma ideia. Virtual possível.

8) Por que é preciso que esse Real se atualize na experiência, já que a ele nada falta? Penso que isso é um falso problema, já que há imanência dos dois estados do acontecimento ou dos dois estados da singularidade.

9) Em meu trabalho atual, os termos do problema estariam deslocados: seria cada vez mais o par Máquinas abstratas-Agenciamentos concretos. É nesta direção que Guattari e eu quereríamos ir.

10) Empirismo transcendental quer dizer: criação de conceitos. Por exemplo, com Bergson, o filósofo que mais longe vai num empirismo transcendental é Whitehead (começo agora a conhecer melhor sua obra).

Sei bem que essas respostas convêm mal às suas questões. Elas são rápidas e mal expressas, são mais reações do que respostas. Espero, todavia, que elas lhe sirvirão.

Creia nos meus melhores sentimentos.

Gilles Deleuze

 

 

{91}

Gilles Deleuze

1 bis rua d Bizerte

Paris 17º

 

16 de junho de 1983

 

Caro senhor,

 

Finalmente, pude lê-lo a. Sei que o senhor espera meu parecer, mas pouco tenho a dizer, pelo menos nos sentido desejado pelo senhor. É que o senhor partiu do começo e sou incapaz de refazer o caminho. Para mim o que mais conta é uma certa ideia de acontecimento, que finalmente faz da filosofia e da literatura uma só e mesma “experimentação”. Eu teria tendência a recentrar tudo no tema da literatura inglesa, em Dialogues, e sobre a análise das hecceidades em Mil platôs. Ao mesmo tempo, porém, sonho fazer alguma coisa sobre Que é a filosofia? como invenção ou criação de conceitos. Sinto que serei religado a essa categoria de problema da qual o senhor faz seu ponto de partida. Acabo de terminar um livro sobre o cinema, sobre a imagem-movimento: muitas coisas que o senhor viu se reencontram aí, não sei se o agradará.

Eu preferiria falar do senhor. É evidente que o senhor tem um rigor muito grande, e um sentido, um tato (empírico) de conceitos que para mim se unem com a filosofia. De tudo o que o senhor fala, o senhor compreende verdadeiramente. E o senhor tem ainda um estilo. Como se diz, o senhor já está, portanto, inteiramente maduro para me deixar, e de só guardar de mim o que lhe pode servir. Conforme sinto, o senhor tem duas possibilidades: ou lançar-se no estudo de um grande clássico que o senhor ame e saiba renovar; ou então, ainda melhor, um livro seu, um tema seu. Talvez o senhor já tenha projeto nesse sentido. Em todo caso, creio que o senhor é um escritor.

A questão que o senhor coloca: é publicável? é bem difícil. O senhor se pôs na situação que não depende somente do senhor, mas do tema. Será que um livro sobre mim é atualmente publicável? Será bom para o senhor publicá-lo, {92} a titulo de primeiro livro? O senhor poderia apresentá-lo à editora Minuit. Mas, sobre isso, não tenho poder algum nem mesmo o gosto para intervir: eu nem deveria ler livro sobre mim, jamais.

Veja o senhor, volto mesmo ao conteúdo do seu livro, do qual eu dizia há pouco que era incapaz de falar. Toda vez que escrevi por minha conta, havia finalmente uma ideia simples que era que não se tinha compreendido uma coisa essencial sobre o tema: por exemplo, em meu Proust, a ideia simples era que a memória não tinha importância; para Masoch, que isso nada tinha a ver com o sadismo; para Kafka, nada a ver com a culpabilidade e a lei. A mesma coisa também para os meus livros que não tratam de outrem: eu acreditava, ora que não se tinha compreendido o que era um problema, ora, sobretudo, que jamais se havia compreendido em que sentido uma multiplicidade era um substantivo. Se o senhor me pede absolutamente críticas, elas se refeririam a esses dois casos aí: talvez o senhor não tenha extraído suficientemente essas idéias simples negativas das quais eu partia; e não tenha dado suficiente importância ao estatuto das multiplicidades.

Eu deveria dizer tudo isso muito mais modestamente. O que é curioso no mais baixo nível é que ora isso funciona, ora não funciona. Meu Proust foi muito lido, mas nenhum efeito, as pessoas falam sempre da memória; Kafka, pior ainda. Masoch, esse funcionou melhor, porque depois desse livro todo mundo se acreditou obrigado a falar de contrato. Noções como “rizoma”, ou como “devir-animal”, marcaram bastante, levando pessoas a retomarem isso apesar do bom senso e de maneira a desgostar a Félix e a mim. É muito curioso o sentimento de ser grelhado por parasitas idiotas.

Então, se me acho diante de alguém como o senhor, que é totalmente o contrário disso, e que já tem rigor e talento, eu gostaria que o senhor entrasse numa espécie de cumplicidade comigo, isto é, que o senhor tenha também suas idéias “simples negativas” que o farão escrever seus livros propriamente seus. Eis aí, fiz tudo o que pude para satisfazê-lo, e lhe peço simplesmente que creia em minha amizade.

Gilles Deleuze

 

 

 

{93}

À ELIAS SANBAR *

 

 

Segunda-feira 15/07]1985

 

Caro Elie,

 

Por estar muito desolado, tomei o hábito disso. Demorei tanto para enviar-lhe um primeiro projeto de escolha de textos, conquanto esse projeto deva tudo a sua amizade a. É que terminava meu cinema, e que a releitura do conjunto não só me fatigava, mas me deixava perplexo e inquieto. Remeti a Jérôme, não falemos disso. Eis, portanto, a indicação de textos que lhe proponho: o importante é que eles lhe convenham. Em todo caso, isso é apenas uma proposta. Busquei uma certa coerência. Partiremos amanhã para o Limousin, e não trabalharei mais durante quinze dias. Desejo que também você possa repousar um pouco. Nós três todos o abraçamos.

Amizade,

Gilles

Mas Revéry

87000 São Léonard de Noblat

 

  1. Présentation de Scher-Mazoch (éd. 10/18)

“A lei, o humor, a ironia” pp. 83-91

{94}

  1. Kafka

“A lei e a imanência”, pp. 91-93 (desde “Se a justiça não se deixa…” até “… sempre deslocadas”).

 

III. L’Anti-OEdipe

            “O inconsciente não é um teatro, mas uma fábrica…” (pp.7-15 início).

 

  1. Mille-plateaux

1) “Classicismo, romantismo, arte moderna” pp. 416-424 (desde “Quando se fala em classicismo…” até “— viajar o som”).

2) “Nomadologia” pp. 471-474 (desde “O nômade tem um território…” até “o gelo, o mar”) e pp. 482-488 (até “potência do chefe”).

3) “Árvore e rizoma” pp. 24-32 (desde “O pensamento não é arborescente…” até “… toda sorte de devires”).

 

  1. L’immage-mouvement

“Dois tipos de espaço, Kurosawa e Mizoguchi” pp. 254-258 (desde “A pintura chinesa…” até “… questão de bruxa”) e pp. 261-262 (desde “A paralela…” até “… alguns meses mais tarde”) e pp. 264-265 (desde “Não é a linha…” até “posto no mundo”).

 

  1. Proust (capítulo VII)

“Classificação dos signos” pp. 103-109 (até “a própria obra de arte”).

 

VII. Nietzsche et la philosophie

            “O ressentimento” pp. 126-133.

 

VIII. Spinoza, philosophie pratique

            “Espinosa e a vida” pp. 37-43 (desde “Se a Ética e a Moral…”

 

  1. Logique du sens

            1) “Que é o platonismo?” pp. 292-295 (até “reversão do platonismo”).

{95}

 

            2) “Que é uma proposição?” pp. 22-35 (desde “Muitos autores…”

 

  1. Différence et répétition

“Os postulados do pensamento” pp. 173-180 (desde “É vão pretender… ” até “… muito mais geral”) e pp. 194-207 (desde “o erro é o negativo…” até “imagem dogmática do pensamento”).

 

 

 

{96}

 

 

À JEAN-CLET MARTIN *

 

3//8/1988

 

Caro Senhor,

 

Recebi sua carta. Em todo caso, o senhor destacou em algumas linhas os temas que são o essencial no meu pequeno livro sobre Bergson: fiquei tocado, e é como o signo de um bom trabalho do qual fico feliz por ser o objeto. Então a questão quem, com quem fazer esse trabalho é, com efeito, bem embaraçosa atualmente. Eu teria acreditado ser “possível” Nancy a . Em Paris vejo René Schérer, um amigo, que é um dos filósofos mais inteligentes que conheço, mas também ele está próximo da aposentadoria, e sobrecarregado b — ou então Laruelle em Nanterre c .

Talvez eu já o tenha feito, mas devo exprimir ao senhor um outro cuidado a seu respeito. O senhor deve pressentir que um trabalho sobre mim não será especialmente “bem visto” pelas comissões futuras — mesmo que o senhor encontre um bom orientador. É legítimo que uma tese traga ao senhor as chances para um posto numa Faculdade e eu sobretudo o desservirei. Não poderia o senhor pegar um tema no qual meu trabalho o serviria, mas que não seria diretamente sobre mim? Eu talvez já o tenha dito, mas o senhor o rediga pensando em seu futuro.

 

GD

{97}     22/11/1990

 

Caro Amigo,

 

Mudei, o que foi fatigante; levo adiante a versão definitiva de Que é a filosofia? menos como pássaro inspirado do que como um asno que bate em si mesmo. Que alívio quando isso chegar ao fim. Sua carta foi bem-vinda. Estou muito feliz com as propostas que lhe fez Boundas a; e mais ainda com a viveza do seu trabalho. O que o senhor diz sobre o cérebro no final da sua carta me fez sonhar. O senhor diz exatamente: “o que é menor que o mínimo pensável cai nas sinapses, mas pode devir sensível por intensificação como na regulagem da tela de televisão, cujas intensidades tornam sensível o que escapa ao grau de definição”. Dê-me detalhes desde que possa: tenho sinceramente necessidade dessa ideia e de lhe render homenagem num texto próximo. O senhor tem aí alguma coisa de importante que eu gostaria de compreender melhor.

Com toda minha amizade

Gilles Deleuze

 

 

{98}

À ANDRÉ BERNOLD *

 

Paris, 28/05/1994

 

André,

Penso em você muito frequentemente. É curioso como nossas existências (falo de nossas duas existências) protegem seu estado de crise crônica encontrando um abrigo no que há de mais violento em arte, de mais terrível. Acontece que esse terror derrota a abjeção desse mundo (não há dia que não nos traga seu lote de comicidade abjeta e que não nos faça odiar nossa época, não em nome de um passado deplorável, mas em nome do mais profundo presente). Terríveis são os cantos mongóis que você me enviou, uma voz tão profunda, terrivelmente profunda, que as outras quereriam preencher a. Temos apenas essas duas coisas, a violência da arte, e essa outra violência que é a graça e a beleza de uma criança, Nicholas b. Um pouco tardiamente, eu me pus a conhecer e a amar Ravel: ele não me parece assemelhar-se a nada, parece-me ter uma estranheza radical, e dispor, também ele, de uma existência frágil ao abrigo da extraordinária violência de sua arte. Trabalho como posso. O que você me escreve, o que você escreve me parece de uma tão grande beleza. Não é preciso que isso seja abafado, de maneira alguma. Parto a Limousin por volta de vinte de junho. Espero ver você antes (se um dia você passar pelo Limousin, seria maravilhoso, porém mais tarde, não antes de julho, porque um certo declínio de minha existência, {99} sobretudo pela manhã, torna-me dolorosa a coabitação com um amigo querido, quando não me encontro ainda adaptado).

Abraço-o com amor.

Gilles

 

 

08/06/1995

 

André,

Não estou muito bem neste momento, donde minha escrita. Penso tanto em você. Você vive num sofrimento que é como uma conexão impenetrável com o pensamento. Como fazer desse acontecimento do pensamento uma alegria? Nicholas não é ele um signo obscuro, ou sobretudo luminoso, dessa conversão? Ele é belo como um pequeno deus, e suas fotos fazem dele uma potência. Como poderia eu ajudar você sobre Artaud, que você apreende tão melhor que eu? Você adquiriu com ele uma conexão não mais pessoal ou privada, nem geral, mas “despersonalizada”, intensiva. Vejo dois problemas: 1) Em que medida os Cahiers introduzem uma nova compreensão de Artaud, uma retomada? Um pouco como em Nietzsche, os cadernos nomeados Vontade de potência. Parece-me que você tem, relativamente aos textos de Rodez, uma atitude às vezes ambígua, porque muito próxima de você, que vê aí um gracejo mais do que um cômico devindo mundo, assim como, por modéstia, você evita sabê-lo por si mesmo. Rodez é uma genealogia (vital) e oposição à criação (orgânica) 1. Talvez esses Cahiers transformem em parte todos os outros textos… 2) Na própria obra de Artaud, é Heliogábalo que domina incomparavelmente as pedras, os fluídos, as potências. Nenhum livro lhe é tão próximo a esse ponto. É aí que você retoma, completamente à seu maneira, a vitalidade não-orgânica (e o papel da madeira, e o modo da projeção, e o estatuto da verticalidade e da cruz). É talvez nos Cahiers que se encontrem as razões últimas de tudo isso, mais do que numa direção geográfica: o Oriente não tem privilégio, ao contrário, há a América do Sul, com as madeiras e as cruzes dos Tarahumaras. A vitalidade não-orgânica só remete a Heliogábalo e à interioridade dos Cahiers, não a uma exterioridade prestigiosa que faz tão somente {100} traduzí-la 2. — Tudo isso que lhe escrevo é bobagem e insuficiente: você está mil vezes mas avançado que eu. Que sua esposa lhe imponha a condição de escrever cem páginas é tão bom quanto as dívidas de jogo como motivo de escrever. As insuficiências quanto à escrita não são uma razão, pois só se escreve com nossas insuficiências. Como é que você não sente toda a potência que está em você, e que você não pára de tentar retornar contra você? Talvez você tenha somente muito orgulho, muita profundidade. Tenho admiração por você, pela maneira como você escreve quando o faz. De todo meu coração, você é um terrível lugar de batalha, de onde a amizade pode extrair uma alegria, uma cumplicidade.

Gilles

 

NOTAS

* Carta a Alain Vinson sobre a coisa em si em Kant, publicada em Lettres philosophiques, 1994, nº 7. Eis a apresentação que A. Vinson dá de suas questões: “Lembro-me muito bem que a questão que eu levantava incidia sobre a unidade do supra-sensível, tal como era mencionada por Kant (mas como incognoscível) na Crítica do juízo. Mais precisamente, eu perguntava como é que aquilo que estava na fonte da aparição dos fenômenos podia não ser a mesma coisa que o fundamento da minha vontade, do meu eu {moi} numênico, do qual, na Crítica da razão pura, Kant mostra (mas sem demonstrar a realidade dele, nem mesmo sua possibilidade), que ele não estaria em contradição com a Natureza, com o mundo fenomênico. Não era necessário aí (…) poder não haver diferença entre o substrato dos fenômenos e o fundamento da minha vontade — que houvesse uma pluralidade de domínios qualitativamente diferentes no interior da esfera numênica? E se essa pluralidade não pudesse ser afirmada (…), não seria preciso dizer, então, que a unidade do supra-sensível apenas designaria — de uma maneira simplesmente negativa e antropomórfica — tudo o que é incognoscível para nós?”.

a Éric Weil, Problèmes kantiens. Paris, Vrin, 1963.

1 Uma especificação unicamente prática.

b Jules Vuillemin, L’Héritage kantien et la révolution copernicienne. Paris. PUF, 1954. (Cf. primeira parte, cap. IV “Exame dos princípios kantianos à luz da interpretação fichteana”, seção II. A significação da razão prática, p. 98-129).

c Gilles Deleuze, La Philosophie critique de Kant. Paris. PUF, 1963.

* Clément Rosset (nascido em 1939) e Deleuze encontraram-se em 1961 no momento em que Deleuze trabalhava sobre Nietsche e a filosofia (Paris, PUF, 1962). Deleuze queria conhecer o jovem autor de La Philosophie tragique (Paris, PUF, 1960). Eles continuaram a se encontrar regularmente, mas, “a partir, quando muito, da publicação de Mil platôs, nossas relações tornaram-se raras e acabaram por se interromper sem que jamais tenha havido a menor ‘ruptura’ declarada entre ele e mim” (Clément Rosset em Cités, nº 40, 2009, p. 117, onde apareceu pela primeira vez o conjunto das cartas).

a Clément Rosset foi ao Canadá para prestar seu serviço militar no programa de cooperação.

b Trata-se da Lettre sur les chimpanzés: plaidoyer pour une humanité totale seguida de Essai sur Teilhard de Chardin. Gallimard, 1965.

c Présentation de Sacher-Masoch, publicado pela Minuit em 1967.

NT {Fondation Thiers. Trata-se de um “Centro de pesquisas humanistas” que propiciava bolsas de estudo}.

NT {Assistanat; Condição dos assistentes em situações de ensino.}

a Vladimir Jankélévitch (1903-1985) e Henri Gouhier (1898-1994) eram, então, professores na Sorbonne.

a Alusão à redação em curso, com Félix Guattari, de Mil platôs.

b Bilhete redigido por ocasião do aparecimento do livro Le Même et l’autre. Quarante-cinq ans de philosophie française (1933-1978), Minuit (1979), do qual um exemplar fora enviado a Deleuze por Vincent Descombes.

a Clément Rosset fora a Paris para ser admitido no nível de professor das universidades segundo o procedimento em vigor, mas não havia obtido voto algum no conjunto dos votantes.

a Arnaud Villani, professor de khâgne no liceu Masséna em Nice, escreveu um livro sobre Deleuze (La Guêpe et l’orchidée, Belin 1999) que ele desejava publicar pela Minuit. {NT: Khâgne, palavra criada para substituir o termo de explícita carga pejorativa cagneux (cambaio ou zambro, pessoa com corpo encurvado denotando excesso de dedicação aos estudos) é empregada para indicar cursos preparatórios para a renomada Escola Normal Superior.}

a Trata-se de Jérôme Lindon, diretor das Éditions de Minuit, que recusou o manuscrito.

a Trata-se do colóquio organizado, em 1985, pelo Centro de Pesquisa em História das Idéias, da universidade de Nice, sob o título “O modelo grego: Nietzsche, Hölderlin e a Grécia”.

b Alusão a L’Étranger et le simulacre,PUF, 1983.

a Trata-se de La Force majeure, Minuit, 1983.

a Trata-se, sem dúvida, do artigo de Roland Jaccard em Le Monde de 2 de dezembro de 1983.

b Clément Rosset não publicou texto algum relativo ao ritornelo ou com esse título.

* François Châtelet (1925-1985) e Deleuze são amigos desde seus anos de estudos na Sorbonne, onde, juntos, prepararam a agregação em filosofia. Juntos, ensinaram na universidade de Vincennes a partir de 1970. Deleuze prestou homenagem à obra de Châtelet após seu falecimento em Péricles et Verdi, Minuit, 1988. Ver, igualmente, DRF: “Il était une étoile de groupe”, p. 247-250.

a Châtelet, Platon, Gallimard, 1965.

 

* Provavelmente outono de 1966.

nt {Quinzaine littéraire, publicação bimensal fundada em 1966 por Maurice Nadeau.}

nt’ {George Duncan Painter (1914-2005), autor da biografia de Marcel Proust referida na nota a.}

a Trata-se da biografia em dois volumes publicada pela Mercure de France em 1966: Marcel Proust — 1871-1903: les années de jeunesse; Marcel Proust — 1904-1922: les années de maturité.

b Trata-se de Pierre Macherey, Pour une théoriede la production littéraire, Maspero, 1966 (Painter é citado na p. 66).

 

* Provavelmente outono de 1968.

a Pierre-Maxime Schuhl (1902-1984), filósofo, especialista em filosofia antiga, era um dos membros da banca examinadora da tese de Deleuze. Em 1960, P. M. Schuhl publicou Le Dominateur et les Possibles, PUF, no qual ele agradecia a Deleuze por ter revisto as provas. Em 1965, ele tinha pedido uma resenha para a Revue Philosophique de la France et de l’étranger do livro de Simondon, L’Individu et sa genèse physico-biologique, PUF, 1964 (resenha retomada em ID, p. 120-124).

b Alusão à obra coletiva em oito volumes sob a direção de François Châtelet, Histoire de la philosophie. Idées. Doctrines. Paris, Hachette, 1972-1973. O texto consagrado a Hume figura no tomo IV, p. 65-78, sob o título “Hume”. Ele foi retomado em ID (texto nº 22).

c Trata-se de Presses universitaires de France {PUF}, na qual Deleuze havia publicado todas as suas obras, e o pequeno livro ao qual ele faz referência é Spinoza, PUF, 1970, retomado em 1981, ampliado em vários capítulos e publicado pela Minuit sob o título Spinoza, philosophie pratique.

d A proposta corresponde ao que será , finalmente, o artigo “À quoi reconnaît-on le structuralisme?”, em

Histoire de la philosophie, t. VIII: “Le XXe siècle. Hachette, 1973, p. 299-335, retomado em ID (texto nº 23).

* Não datada. Certamente março de 1969 (data da publicação do artigo ao qual a carta faz alusão).

a Ferdinand Alquié (1906-1985), especialista em Descartes e Kant, antigo professor de Deleuze, era o orientador da tese complementar de Deleuze, consagrada ao problema da expressão em Espinosa.

b Artigo publicado em 1 de março de 1969 em La Quinzaine littéraire, nº 68.

* Provavelmente outono de 1970

a François Chátelet, La Philosophie des professeurs, Grasset, 1970.

a’ Trata-se do hospital d’Évreux, onde Châtelet se internou em razão de um enfisema.

* Jean Piel (1902-1996), alto funcionário em economia e planejamento do território, prosseguia paralelamente, após a guerra, numa atividade editorial; ele tomou a direção da revista Critique após a morte de Georges Bataille em 1962 e dirigiu conjuntamente, nas Edições de Minuit, a coleção de mesmo nome.

a Esse artigo jamais aparecerá.

b Trata-se do que se virá a ser Présentation de Sacher-Masoch, publicado pela Minuit em 1967.

c Vendredi ou les limbes du Pacifique foi publicado em março de 1967 pela Gallimard. nt { Michel Tournier, Sexta-Feira ou os Limbos do Pacífico, tr. br. de Fernanda Botelho, São Paulo, Difel, 1985. Aparece nessa edição, a título de posfácio, a tradução do texto de Deleuze “Michel Tournier e o Mundo sem Outrem” (pp. 223-249), texto originalmente publicado como apêndice em Logique du sens, Minuit. 1969, pp. 350-372. Cf. Lógica do sentido, tr. br. de Luiz Roberto de Salinas Fortes. São Paulo, Perspectiva, 1974, pp. 311-330}.

a A obra de Pierre Macherey, Pour une théorie de la production littéraire, foi publicada pela Maspero em 1966.

a Trata-se das Presses Universitaires de France, na qual Deleuze tinha publicado todas as suas obras e onde ele devia publicar ainda Différence et répétition. Présentation de Sacher-Masoch será o primeiro livro publicado pela Minuit.

a “Le schizophrène et le mot” aparece em Critique, nº255-256 (agosto-setembro de 1968), retomado e remanejado em Logique du sens. {NT: pelo que a carta sinaliza em seguida, o texto aparece como 13ª série desse livro com o título “du schizophrène et de la petite fille”, pp. 101-114.}

 

* No momento do seu encontro, Félix Guattari (1930-1992) é, ao mesmo tempo, um militante político muito ativo (sucessivamente: a Via comunista, A Oposição de Esquerda, o Movimento do 22 de março; é também um dos fundadores do CERFI {nt: Centre d’Études, de Recherche et de Formation institutionnelles}) e um psicanalista, membro da Escola freudiana de Paris que segue os ensinamentos de Lacan desde a origem do Seminário. Deleuze e Guattari se encontram na primavera de 1969 no Limousin, onde Deleuze cumpre uma longa convalescença.

a A clínica de La Borde é um estabelecimento psiquiátrico onde Félix Guattari trabalhou, depois de sua fundação em 1953 pelo Dr. Jean Oury. Nessa clínica é que foram definidas, a partir dos trabalhos do Dr. Tosquelles, as bases teóricas e práticas da psicoterapia institucional (considerar a cura psicoterapêutica como inseparável da análise das instituições).

b Trata-se dos artigos que compõem Psychanalyse et transversalité, que Guattari hesitava em publicar como estavam. A obra será finalmente publicada em 1972 pela Maspero com um prefácio de Gilles Deleuze (cf. ID, p. 270-284: “Trois problèmes de groupe”).

a Jean-Pierre Muyard, então em análise didática com Lacan, é psiquiatra na clínica de La Borde, onde Félix Guattari trabalha. Foi por seu intermédio que Deleuze e Guattari se encontraram. Presente, então, desde as primeiras trocas, ele se retira rapidamente das sessões de trabalho entre os futuros autores de L’Anti-OEdipe.

b Alusão ao artigo sobre Logique du sens, que Guattari leu e analisou em “Machine et structure”, retomado em Psychanalyse et transversalité, Maspero, 1972, reeditado em La Découverte, 2003.

 

* Diferentemente de todas as outras, esta carta — intitulada carta II — está datilografada.

a “Máquina e estrutura” é uma exposição de 1969, inicialmente destinada à Escola freudiana de Paris. Publicada em Change, nº 12, Le Seuil, por iniciativa de Jean-Pierre Faye e retomada em Psychanalyse et transversalité, Maspero, 1972, reeditada pela La Découverte, 2003.

b Alusão ao artigo de Tausk “L'”appareil à influencier” des shizophrènes” (1919), reeditado pela Payot, 2010.

c Provável alusão a Les Objets dans la folie, 2 t. PUF, 1965-1966.

d Michaux, Les Grandes épreuves de l’esprit, Gallimard, 1966, p156-157, citado em l’Anti-OEdipe, p. 14-15.

nt {Sabir é termo já aportuguesado para indicar línguas compostas de elementos heteróclitos}

e Alusão a De la psychose paranoïaque dans ses rapports avec la personalité. redigida em 1932 e publicada pela Suil em 1975.

f O parêntese é um acréscimo manuscrito.

* Provavelmente setembro de 1969. Doravante as cartas sobre a redação de O anti-Édipo são mais breves; é que os dois autores, paralelamente, remetem um ao outro capítulos ou fragmentos de capítulos, datilografados por Fanny Deleuze, que eles corrigem mutuamente.

a Dhuizon é uma comuna do Loir-et-Cher próxima ao hospital de La Borde, onde Guattari alugava uma vasta propriedade.

b Trata-se do prefácio de Jérôme Lindon, diretor da Minuit, ao livro de J. Vergès, Pour les Fidayine, Minuit, 1969.

* Não datada.

a Sobre Michel Cartry, ver a nota b da carta seguinte. O especialista dos Wolofs é certamente uma alusão   a Andras Zempléni.

b Alusão a Jacques Lacan

c Sobre Dhuizon, ver a nota a da carta precedente.

a Jacques Nassif, psicanalista próximo de Lacan, membro da Escola freudiana de Paris.

b Trata-se, respectivamente, de Alfred Adler, András Zempléni e Michel Cartry, etnólogos africanistas que colaboravam uns com os outros. Dos três, Michel Cartry foi o mais próximo de Guattari. Aluno de Georges Balandier, trabalhando no campo da antropologia religiosa, tinha publicado, com Alfred Adler, um importante artigo em L’Homme, julho de 1971, “La transgression et sa dérision” (citado em várias retomadas em L’Anti-OEdipe, pp. 189, 193). András Zemplani tinha redigido em 1968 uma tese L’Interprétation et la thérapie traditionnelle du désordre mental chez les Wolofs et les Lebou (citado em L’Anti-OEdipe, p. 247-248) e colabora igualmente com Adler. Seus respectivos estudos — e as sessões de trabalho com Deleuze e Guattari — constituíram um das fontes mais importantes das teses relativas aos “Selvagens” em O anti-Édipo.

nt {Água de verso ou de versículo (l’eau de verset) é a que se torna sagrada em contato com um verso ou versículo do Alcorão em rituais islâmicos pesquisados no Senegal}.

 

* Não datada. Provavelmente, abril de 1970, segundo uma correspondência de Félix Guattari de 21 de abril de 1970: “Lulu é quem? diria Seguy! Referência, por favor” (em Félix Guattari, Écrits pour L’Anti-OEdipe, Lignes & Manifestes, 2004, p. 121.

a Jacques Lacan.

b Sobre Jacques Nassif, ver nota a, p. {46}.

c O texto, extraído da tese de Zempléni, está citado em L’Anti-OEdipe. p. 247-248.

d Cf. Le Capitalism monopoliste. Maspero, 1968, citado várias vezes em L’Anti-OEdipe. {nt: pp. 277n86, 279n87, 281n90}

e Trata-se, para o primeiro, de OEdipus and Job in West Africa, Cambridge University, 1959, que só será traduzido em 1975 (OEdipe et Job dans les religions ouest-africaines, Mame-Repères, 1975). Deleuze e Guattari citam, aliás, em L’Anti-OEdipe {nt: p 166, nota 3}, um artigo de Meyer Fortes em Colloque sur les cultures voltaïques, 8, Paris-Ouagadougou, CNRS, CVRS, “Recherches voltaïques”, 8 (colóquio do qual participou Michel Cartry). Trata-se, para o segundo, dos Essais sur le symbolisme de l’inceste royal en Afrique, Ed. Université libre de Bruxelas, 1958, citado em L’Anti-OEdipe, (p. 87, 241).

* Não datada.

* Provavelmente setembro de 1970.

a Premier amour, publicado pela Minuit em 1970, o que permite datar aproximadamente a carta.

* Trata-se de 31 de dezembro de 1971.

nt {atenção, o termo francês é huileux = oleoso; peralta traduz o uso popular dele}.

a Arlette Donati, então companheira de Félix Guattari.

* Provavelmente, final de 1976

a Trata-se de La Volonté de savoir, Gallimard, 1976.

b Alusão à obra coletiva, Politiques de la philosophie, Grasset, 1976. Foucault, em geral, recusava participar em obras coletivas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

c Jérôme Lindon, diretor da Minuit.

d O projeto de brochura dará lugar à publicação do artigo “À propôs des nouveaux philosophes et d’un problème plus général”, suplemento da revista Minuit, nº 24, publicada em maio de 1977. Esse texto foi distribuído gratuitamente nas livrarias em reação, entre outras, à promoção massiva de numerosas obras de polemistas, sob o rótulo de “nova filosofia” (reproduzido em DRF, p. 127.)

a A partir do outono de 1977, Guattari fica regularmente na Itália para participar das ações dos movimentos esquerdistas italianos. Sobre esses pontos, ver os textos de Félix Guattari, La Révolution moléculaire (1977), 10/18, 1980, reedição. Les prairies ordinaires, 2012. {nt: Revolução molecular: pulsações políticas do desejo. Seleção, prefácio e tradução de Suely Belinha Rolnik. São Paulo. Ed. Brasiliense, 1981.}

b Alusão aos textos publicados mais tarde em L’Inconscient machinique. Essais de schizo-analyse, Éd. Recherches, 1979 (notadamente capítulos 2 e 3). nt {O inconsciente maquínico. Ensaios de esquizoanálise. Tr. br. de Constança Marcondes César e Lucy Moreira César. Campinas. Papirus Editora, 1988.}

* Não datada. Provavelmente verão de 1981.

nt {Esse termo traduz “transistances”, que, ao lado de “persistances” (persistências), aparece após o termo “agencements” (agenciamentos) no título do Seminário de Guattari de 8-12-1981. Cf. http://www.revue-chimeres.fr/drupal_chimeres/files/811208.pdf }

a Os cursos sobre o cinema começaram em setembro de 1981, o que permite datar aproximadamente a carta.

b Trata-se de Jean-Jacques Lebel, nascido em 1936, artista plástico, escritor, criador de manifestações artísticas, próximo de artistas da beat generation, amigo comum de Guattari e Deleuze.

* Datada provavelmente do fim de setembro ou início de outubro de 1982.

 

a Guattari tinha ido à Polônia, onde testemunhou repressões a que foi submetido o sindicato Solidariedade, primeiramente suspenso, depois interditado pelo general Jaruzelski, após os primeiros sucessos políticos e do crescente eco que ele encontrava no país (Guattari faz alusão a essa viagem por ocasião de uma mesa redonda em São Paulo, em 3 de setembro de 1982.

 

Cf. Micropolitiques, Les empêcheurs de penser en rond, Le Seuil, 2007, p. 31). Após a viagem à Polônia, foi ao Brasil, onde se encontrou principalmente com psicanalistas e pessoas próximas ao PT (Partido dos Trabalhadores). Encontram-se precisões sobre essa viagem em Micropolitiques, op. cit., p.465 ss.

b Stephen Guattari é um dos filhos de Félix Guattari.

c Sem dúvida, trata-se do massacre dos campos de civis palestinos refugiados de Sabra e Chatila, em Beirute, em setembro de 1982, após o assassinato de Béchir Gémayel, cometido por falangistas cristãos e milicianos das Forças libanesas, com a cumplicidade do exército israelense. Deleuze volta a falar sobre esse massacre em “Grandeza de Yasser Arafat”, publicado na Revue d’Études Palestiniennes, nº 10, inverno de 1984, retomado em DRF, pp, 221-225.

d Trata-se de Claire Parnet, jornalista, antiga aluna e amiga próxima de Deleuze, co-autora de Dialogues, Flammarion, 1977, que tomou a iniciativa de várias entrevistas, notadamente do Abécédaire (realizado por Pierre-André Boutlang, 1989). O filho de Deleuze, Julien, queria escapar do serviço militar obrigatório.

e Trata-se certamente de textos integrados mais tarde em Cartographies schizoanalytiques, Galilée, 1989.

 

* Pierre Klossowski (1905-2001) e Deleuze começam a se frequentar no meio dos anos 1960 em torno da figura de Nietzsche. Eles ficam amigos íntimos, dão testemunho de uma admiração recíproca até o início dos anos 1980, momento em que Deleuze rompe todo liame com os Klossowski.

a Deleuze foi submetido no outono de 1969 a uma toracoplastia, destinada a erradicar uma tuberculose contraída alguns anos antes. Essa operação, muito demorada, impôs um prolongado repouso.

b Nietzsche et le cercle vicieux. Mecure de France, 1969. Lembremos que a obra foi dedicada a Gilles Deleuze. {nt: Nietzsche e o círculo vicioso. Tr. br. de Hortência S. Lencastre, São Paulo. Ed. Pazulin, 2000.}

c Trata-se de L’Anti-OEdipe.{nt: referências a Klossowski nas págs. 27, 27n19, 74, 75,89,92,104,106, 219, 394, 413, 414, 441, 442.}

* Não datada. Provavelmente início de 1970.

a Catherine Backés-Clément era uma das redatoras da revista L’Arc. O número especial de L’Arc consagrado a Klossowski aparece em 1970 (nº 43) com um artigo de Deleuze e Guattari, “La synthèse disjonctive”, extraído da redação de L’Anti-OEdipe em curso.

b Trata-se do artigo co-escrito com Félix Guattari, “La synthèse disjonctive”, extraído da redação de L’Anti-OEdipe em curso. A referência a um texto anterior é uma alusão ao texto reproduzido em apêndice ao Logique de sens, “Klossowski ou os corpos-linguagem”, pp. 325-350.

c Alusão à tradução do Nietzsche de Heidegger em dois volumes, publicado pela Gallimard em outubro de 1971.

d Trata-se de uma conversa, “A outra sociedade”, aparecida em L’Idiot international (nº 3) em fevereiro de 1970.

a A família Deleuze mudou-se de Lyon para Paris no verão de 1970.

a Trata-se desta vez de um número de L’Arc consagrado a Deleuze (nº 49), publicado em 1972. {nt: O texto de Pierre Klossowski, “Digression à partir d’un portrait apocryphe”, aparece as pp. 11-14}.

a Trata-se do artigo “Entre Marx et Fourier” publicado em Le Monde de 31 de maio de 1969 e de La Monnaie vivante, Édi. Éric Losfeld, 1970.

b O texto La Monnaie vivante era acompanhado de desenhos de Klossowski e de fotografias em preto e branco de Pierre Zucca.

a Exposição de desenhos à ponta de pena na Galeria André François Petit de desembro de 1971 a janeiro de 1972.

a Pierre Klossowski, Pierre Zucca, Robert au cinéma, Obliques. 1978.

b La Vocation suspendue, direção de Raoul Ruiz, julho de 1978.

c Dialogues (com Claire Parnet), Flammarion, 1977.

d Alusão a Mille plateaux que será publicado em 1980.

* Não datada. Provavelmente final de 1978.

a Trata-se de Roberte, dirigido por Pierre Zucca em 1978, saído das salas em março de 1979. Pierre e Denise Klossowski desempenham aí o papéis principais.

a Alusão a Mille plateaux, que aparecerá no ano seguinte, em 1980.

* Michel Foucault (1926-1984) e Deleuze começaram a se frequentar no início dos anos 1960, depois que Foucault tentou fazer com que Deleuze fosse nomeado na universidade de Clermont Ferrand (o nomeado, finalmente, foi Roger Garaudy com o apoio do Ministério, ao passo que Deleuze será nomeado em Lyon). Eles permaneceram próximos até meados dos anos 1970, momento em que Foucault se distancia de Deleuze.

* Carta não datada, final de 1970.

a Trata-se do artigo “Theatrum philosophicum” consagrado à Différence et répétition e Logique du sens, que Deleuze pode ler antes da publicação em Critique, nº 282, novembro de 1970, pp. 885-908, retomado em Dits et écrits, vol. II, Gallimard, pp. 75-99.

b Esse destaque figura em nota na versão publicada do artigo.

* Carta não datada. Provavelmente final de 1970.

a Foucault acaba de ser eleito para o Collège de France, onde ele ensina a partir de dezembro de 1970; ele dirigia antes o departamento de filosofia da nova universidade experimental de Vincennes.

b Os Deleuze deixaram Lyon durante o verão de 1970 para se instalar em Paris, rua de Bizerte, no 17º bairro.

c Ver a nota a p. {31} das cartas a Jean Piel.

d Deleuze é nomeado no universidade de Vincennes no outono de 1970, onde ensinará até sua aposentadoria em 1986.

* Gherasim Luca (1913-1994) é um poeta de origem rumena que escreveu toda sua obra em francês. Deleuze o descobre por ocasião de uma pesquisa sobre o sonho enquanto trabalha num artigo no prolongamento de L’Anti-OEdipe.

* O conjunto dessas cartas, aqui completado, foi publicado uma primeira vez no CCP, Cahier Critique de Poésie, Marselha, Centre International de poésie, 2009.

a Héros-limite, Le Soleil Noir, 1953, réed. José Corti, 1985.

b Ele teria escrito com Dolfi Trost (escritor rumeno de formação psicanalítica 1916-1966) o Primeiro manifesto não-edipiano definitivamente perdido ou nunca redigido. Sua publicação foi anunciada em Dialectique de la dialectique de G. Luca e D. Trost (Bucareste, Éditions Surréalisme. 1945) que retoma certos aspectos dele. O artigo ao qual Deleuze faz referência é “Le rêve dans le surréalisme” de Sarane Alexandrian em Nouvelle revue de psychanalise, Gallimard nº 5, primavera de 1972, p.40, que Deleuze leu por causa do artigo “Bilan-programme pour machines désirantes”, publicado pela Minuit 2, janeiro de 1973, e retomado em apêndice de L’Anti-OEdipe {nt: “Balanço-programa para máquinas desejantes}.

a Ver nota b da carta anterior.

b Editora rumena que publicou várias obras de Gherasim Luca (Quantitativement aimée, 1944; Le vampire passif, 1945; Les Orgies des Quanta, 1946; Le Secret du vide et du plein, 1947).

2 Trata-se de Claude Givaudan, galerista que, notadamente, publicou vários discos de G. Luca. O disco em questão é sem dúvida “Passionémment”, editado em maio de 1970 por Givaudan.

* Carta não datada.

a La Clef, Poème-tract, 1960.

a Le Chant de la carpe, Soleil nooir, 1973, reedição José Corti, 1986.

b Trata-se de “Passionnément” em Le Chant de la carpe.

a Ghérasim Luca havia dado um “recital” no Museu de Arte Moderna de Paris alguns dias antes.

 

nt {Le Chant de la carpe, reedição José Corti, 1986}.

a Trata-se de “Comment s’en sortir sans sortir” (55 minutos), emissão na qual Gherasim Luca recita oito poemas. Direção Raoul Sangla, difundido pela FR3 em 20 de fevereiro de 1989, editado sob forma de DVD em 2008 por José Corti.

b Le Tourbillon qui repose, Critique et histoire, 1973.

* Arnaud Villani (nascido em 1944), era então professor de filosofia em classes preparatórias para o liceu Masséna de Nice. Após ter pedido a Deleuze, em 1972, que dirigisse sua tese de doutorado (coisa da qual Deleuze o havia dissuadido), A. Villani escreveu novamente a Deleuze quando da redação de um livro consagrado a sua obra (La Guêpe et l’orchidée, Belin, 1999).

* Reproduzido em Arnaud Villani, La Guêpe et l’orchidée, op. cit. p. 129-131.

 

a Cf. “Lettre à un critique sévère”, em Pourparlers, Minuit, 1990, p. 11-23, publicada primeiramente em Michel Cressole, Deleuze, Éditions Universitaire, coll. “Psychothèque”, 1973.

* Carta publicada em Adnen Jdey, Les Styles de Deleuze, Les Impressions nouvelles, 2011.

a Trata-se sem dúvida de Tendences nouvelles de la philosophie, Le Centurion,1978.

b Alusão ao livro de Pierre Boutang (1916-1998), Apocalypse du désir, Grasset, 1979, reed. Ed. du Cerf, 2009.

c Ver a nota a do questionário acima.

* Publicada em A. Jdey, Les Styles de Deleuze, op. cit.

a Cf. André Tilquin, La Toile géométrique des aragnées, PUF, 1942.

* Publicada em A. Jdey, Les Styles de Deleuze, op. cit.

* Publicada em A. Jdey, Les Styles de Deleuze, op. cit.

* Não datada.

* Citada em La Guêpe et l’orchidée, p. 56-57.

* Hoje diretor de teatro, Joseph Emmanuel Voeffray era então estudante de filosofia na universidade de Strasbourg; ele trabalhava numa dissertação de mestrado sobre o empirismo transcendental em Deleuze e lhe tinha endereçado um conjunto de questões.

a Joseph E. Voeffray havia redigido uma dissertação de mestrado em 1982 sob a direção de Renée Bouveresse na universidade de Strasbourg: “L’empirisme supérieur de Gilles Deleuze, l’éclair et le ciel noir”: esse estudo — que ele tentava publicar — buscava retraçar a construção de um empirismo transcendental desde Empirisme et subjectivité até Différence et répétition.

* Elias Sanbar, nascido em 1947, é um escritor palestino e animador da Revue d’Ètudes Palestiniennes de 1981 a 2006 (Minuit), negociador dos acordos de paz, embaixador da Palestina junto à Unesco desde 2006 e amigo próximo de Deleuze, que ele encontra em 1978.

a O projeto, iniciado por Elias Sanbar e o poeta palestino Mahmoud Darwich, era dar a conhecer o pensamento de Deleuze aos leitores árabes a partir de uma antologia de textos escolhidos pelo próprio Deleuze. Essa antologia apareceu parcialmente em Al-Karmil, revista então dirigida por Darwich.

* Jean-Martin (nascido em 1958), professor de filosofia em Altkirch, queria consagrar sua tese de doutorado à obra de Deleuze. É nessa ocasião que se trava uma relação, sobretudo epistolar — levando em conta o distanciamento geográfico. A tese conduzirá à publicação, em 1993, de Variation. La philosophie de Gilles Deleuze, Payot, 1993.

a Jean-Luc Nancy (nascido em 1940) é então professor na universidade de Strasbourg.

b René Scherer (nascido em 1922) é, naquele momento, professor na universidade de Vincennes (Paris-8), onde Deleuze ensinou até sua aposentadoria em 1986. Ele orientará a tese de doutorado de Jean-Clet Martin, Essai sur le concept deleuzien de multiplicité.

c François Laruelle (nascido em 1937) é então professor na universidade de Nanterre.

a Constantin Boundas é notadamente o tradutor para o inglês de Empirisme et subjetivité, PUF, 1953. Ele pediu a Jean-Clet Martin um texto sobre as relíquias para uma obra coletiva consagrada a Deleuze (Gilles Deleuze and the Theater of Philosophy, Routledge, 1994).

* André Bernold (nascido em 1958), então professor nos Estados Unidos, encontrou Deleuze em 1980, quando de um encontro-debate em torno de Mille-plateaux, finalmente anulado. Depois de uma relação de ordem sobretudo epistolar, eles se tornaram próximos no início dos anos 1990.

a Trata-se do disco 60 Horses in My Herd. Old Songes and Tunes of Tuva, (Shanachie, 1993) da formação Huun-Huur-Tu, canto de um povoado nômade da Sibéria meridional, na fronteira da Mongólia exterior.

b Nicholas é o filho de André Bernold.

1 Sentido das listas em você.

2 Artaud, evidentemente, não se refere a uma tradição, a uma alquimia ou a uma dimensão extrínseca (o Oriente, etc…). Ao contrário, são as dimensões e tradições que se conectam ao corpo sem órgãos (vitalidade não orgânica) e constituem seus gradientes. Donde a possibilidade de uma hierarquia dos próprios gradientes na vida não orgânica. 1) América do Sul, Tarahumaras 2) Bali, Tibete, Oriente; 3) África? (os Dogons e a madeira); 4) Greco-latim, Medeia, etc.

ALMA LARGA E SUTIS SIMPATIAS. D.H. Lawrence acerca de Walt Whitman

a alma só se realiza tomando a estrada, sem outro objetivo, exposta a todos os contatos, sem jamais tentar salvar outras almas, desviando-se das que emitem um som demasiado autoritário ou gemente demais

Gilles Deleuze

fazer-se à estrada larga, à medida que a estrada vai se abrindo ao desconhecido, na companhia daqueles cuja alma os leva para junto dela, nada realizando além da viagem, e das obras inerentes à viagem, à longa viagem de uma vida inteira rumo ao desconhecido, através da qual se realiza a alma, nas suas sutis simpatias.

D.H.Lawrence

FENÔMENOS post-mortem?
Mas e Walt Whitman?
O “bom poeta cinzento”.
Era um fantasma, com toda aquela existência física?
O bom poeta cinzento.
Fenômenos post-mortem. Fantasmas.
Uma certa insistência vampiresca. Uma certa sopa horrível de fragmentos humanos. Uma certa estridência e grandiosidade. Uma lividez em suas beatitudes.
DEMOCRACIA! ESSES ESTADOS! EIDOLONS! AMANTES, INFINITOS AMANTES!
UMA IDENTIDADE!
UMA IDENTIDADE!
EU SOU AQUELE QUE SOFRE POR AMOR APAIXONADO.
Você acredita em mim, quando falo em fenômenos post-mortem?
Quando o Pequod afundou, deixou uma profusão de outros vapores sujos e malcheirosos circulando pelos mares. O Pequod naufraga arrastando todas as almas a bordo, mas os corpos renascem para tripular inúmeros navios mercantes e transatlânticos. Cadáveres.
O que estamos querendo dizer é que as pessoas podem continuar, prosseguir e se movimentar sem alma. Elas têm sua identidade e sua determinação; basta isso para que tenham condições de ir em frente.
De modo que, como vocês veem, o naufrágio do Pequod afinal de contas não passou de uma tragédia metafísica. O mundo continuou exatamente o mesmo. O navio da alma afundou. Mas o corpo manipulador de máquinas permanece funcionando do mesmo jeito: digere, masca chiclete, admira Botticelli e sofre por amor apaixonado.
EU SOU AQUELE QUE SOFRE POR AMOR APAIXONADO.
Que tal essa? EU SOU AQUELE QUE SOFRE. Primeira generalização. Primeira generalização constrangedora. POR AMOR APAIXONADO! Ah, Deus! É preferível ter uma dor de barriga. Pelo menos uma dor de barriga é algo específico. Mas SOFRER POR AMOR APAIXONADO!
Pensem no que é ter isso sob a pele. Pensem bem!
EU SOU AQUELE QUE SOFRE POR AMOR APAIXONADO.
Walter, pare com isso. Você não é AQUELE. É apenas um limitado Walter. E seu sofrimento não abrange todo o Amor Apaixonado, francamente. Se você está sofrendo, é só com uma pequena parcela de amor apaixonado; a parte que fica de fora do guarda-chuva de seu sofrimento é tão grande que você devia ser um pouquinho menos radical ao mencionar a questão.
EU SOU AQUELE QUE SOFRE POR AMOR APAIXONADO.
CHUIF! CHUIF! CHUIF!
CHU-CHU-CHU-CHU-CHUIF!
Faz pensar numa máquina a vapor. Numa locomotiva. Elas são as únicas coisas que me dão a impressão de sofrer por amor apaixonado. Todo aquele vapor dentro delas. Uma pressão de quarenta milhões de libras! O sofrimento do AMOR APAIXONADO. Pressão do vapor. CHUIF!
Um homem comum sofre por amor a Belinda, ou a sua Terra Natal, ou ao Oceano, ou às Estrelas, ou à Superalma: se achar que sofrer pega bem.
É preciso uma locomotiva a vapor para sofrer por AMOR APAIXONADO. Inteirinha.
Walt era, na verdade, muito super-humano. O perigo do super-homem é que ele é mecânico.
Fala-se de sua “animalidade esplêndida”. Bem, a coisa estava em seu cérebro, se é que o cérebro é um lugar adequado para animalidade.
Eu sou aquele que sofre por amor apaixonado:
A terra não gravita? Toda matéria, sofrendo, não atrai toda matéria?
O mesmo acontece com este meu corpo em relação a tudo o que encontro ou conheço.
O que pode ser mais mecânico do que isso? A diferença entre vida e matéria é que a vida, as coisas vivas, as criaturas vivas se afastam por instinto de parte da matéria, ignorando, felizmente, quase toda a matéria, e só se aproximam de alguns fragmentos de matéria selecionada de forma especial. Quanto às criaturas vivas, todas aglomeradas de forma inapelável numa grande bola de neve… ora, a maioria das criaturas muito vivas passa a maior parte de seu tempo afastando-se da visão, do cheiro ou do som do resto das criaturas vivas. Mesmo as abelhas só se agrupam perto de sua própria rainha. O que já é enjoativo o suficiente. Imaginem a humanidade branca inteira amontoada, com as pessoas umas em cima das outras, como um enxame de abelhas.
Não, Walt, você está exagerando. A matéria gravita, sim, inapelavelmente. Mas os homens são muito espertinhos e se esquivam de mil maneiras.
A matéria gravita porque é inerme e mecânica.
E se você gravitar da mesma maneira, se seu corpo gravita em direção a tudo o que você encontra ou conhece, ora, deve haver algo de muito errado com você. Sua mola central deve estar quebrada.
Você deve ter sofrido uma mecanização.
Sua Moby Dick deve estar mesmo morta. Aquele monstro solitário e fálico de seu eu individual. Morto pela mentalização.
Só sei que meu corpo não gravita, em absoluto, em direção a tudo o que encontro ou conheço. Admito que sou capaz de apertar a mão de algumas pessoas. Mas a maioria delas eu não tocaria nem com uma vara bem comprida.
Sua mola central está quebrada, Walt Whitman. A mola central de sua própria individualidade Por isso, quando se mexe, você range, fundindo-se com tudo o que aparece.
Você matou sua Moby Dick individual. Mentalizou seu profundo corpo sensual e assim acabou com ele.
Eu sou todas as coisas e todas as coisas são eu, e consequentemente todos somos Um Só em Uma Identidade, como o Ovo do Mundo, que foi chocado durante um tempo bastante longo.
“Seja você quem for, dedico-lhe declarações sem fim…”
“E de todas e de uma só teço a canção de mim mesmo.”
É mesmo? Bem, isso só demonstra que você não possui “eu” nenhum. Seu eu é um mingau, não uma coisa tramada. Uma miscelânea, não um tecido. Seu eu.
Ah, Walter, Walter, o que você aprontou? O que você fez consigo mesmo? Com sua própria identidade? Porque a impressão que se tem é que todo o seu conteúdo escorreu de você, vazou para o Universo.
Fenômenos post-mortem. A individualidade vazou do sujeito.
Não, não, nada de responsabilizar a poesia. É tudo fenômeno post-mortem. E os grandes poemas de Walt na verdade são imensas e viçosas plantas de sepultura, o tipo de vegetação que cresce em túmulo.
Toda aquela falsa exuberância. Todas aquelas listas de coisas cozidas na mesma panela! Não, não!
Não quero todas aquelas coisas dentro de mim, muito obrigado.
“Não rejeito nada”, diz Walt.
Já que é assim, a pessoa poderia ser um tubo com aberturas nas duas pontas para facilitar a passagem de tudo.
Fenômenos post-mortem.
“Abraço TUDO”, diz Whitman. “Teço todas as coisas em mim.”
Não me diga! No final não deve sobrar muita coisa de você. Depois que você acaba de cozinhar esse pudim horroroso da Identidade Una.
“E aquele que andar uma quadra sem simpatia ”
“avança para seu enterro envolto no próprio sudário.”
Tire o chapéu, então, porque meu cortejo fúnebre de uma só pessoa está passando.
Esse terrível Whitman. Esse poeta post-mortem. Esse poeta cuja alma privada vaza dele o tempo todo. Toda a sua privacidade vazando numa espécie de goteira, escorrendo para o Universo.
Walt fica sendo o mundo inteiro em sua própria pessoa, o Universo inteiro, a eternidade inteira, pelo menos até onde seu conhecimento um tanto esquemático da história o levar. Porque para ser uma coisa ele precisa conhecê-la. Para assumir a identidade de algo ele precisa conhecê-lo. Não teve como assumir a identidade de Charlie Chaplin, por exemplo, porque não o conheceu. Que pena! Teria composto poemas, péons e sabe mais o quê, Cânticos, Canções de Cinematernidade.
“Ah, Charlie, meu Charlie, mais um filme concluído…”

Assim que Walt conhecia uma coisa, ele formava uma Identidade Una com ela. Se soubesse que um esquimó estava num caiaque, na mesma hora lá
estava Walt sendo pequeno e amarelo e ensebado, sentado num caiaque.
Será que alguém pode me dizer o que é, exatamente, um caiaque?
Quem é esse sujeito que solicita definições insignificantes? Ele que olhe para mim, aqui sentado num caiaque.
Não vejo ninguém em caiaque algum. Vejo um velho meio gordo cheio de uma sensualidade um tanto senil, determinada…
DEMOCRACIA. EN MASSE. UMA IDENTIDADE.
O Universo é curto, a soma é UM.
UM.
EU.
Ou seja, Walt.
Seus poemas, “Democracia”, “En masse”, “Uma identidade”, são longas operações aritméticas de adição e multiplicação cujo resultado é invariavelmente EU MESMO.
Ele atinge o estado de TOTALIDADE.
E depois o quê? Está tudo vazio. Apenas uma Totalidade vazia. Um ovo podre.
Walt não era um esquimó. Um esquimozinho pequeno, amarelo, dissimulado, esperto e ensebado. E quando, sem fazer alarde, ele assumiu a Totalidade em si, inclusive o esquimosismo, estava simplesmente sugando o ar de dentro de uma casca de ovo inflada, só isso. Os esquimós não são pequenos Walts sem importância. Sei bem que eles são uma coisa que eu não sou. Fora do ovo de minha Totalidade o pequeno esquimó ensebado dá risada. Fora do ovo do Todo de Whitman também.
Mas Walt não quis aceitar esse fato. Ele era todas as coisas e todas as coisas estavam nele. Estava ao volante de um automóvel com faróis muito potentes, seguindo pelo caminho de uma ideia fixa, vencendo a escuridão deste mundo. Era assim que ele via todas as coisas. Exatamente como um motorista no meio da noite.
Eu, que por acaso estou adormecido no meio dos arbustos, no escuro, na esperança de que não entre nenhuma cobra na minha roupa; eu, ao ver Walt passar em sua enorme e ardente máquina poética, penso comigo mesmo: que mundo estranho aquele sujeito vê!
MÃO ÚNICA!, reclama Walt ao passar em seu carro.
Só que há miríades de caminhos no escuro, sem falar nas terras incultas onde não há caminhos, como bem sabe qualquer pessoa que se dá o trabalho de sair da estrada – inclusive da Grande Estrada.
MÃO ÚNICA!, avisa a América, e também se afasta a bordo de um automóvel.
A TOTALIDADE!, guincha Walt numa encruzilhada, tirando um fino de um pele-vermelha incauto.
IDENTIDADE UNA!, entoa o democrático En Masse, que vem correndo atrás em seus automóveis, sem se preocupar com os cadáveres embaixo das rodas.
Deus que me perdoe, estou com vontade de me enfiar numa toca de coelho para escapar de todos esses automóveis que passam a toda velocidade pela trilha da IDENTIDADE UNA a caminho da TOTALIDADE.
Uma mulher espera por mim…

Ele bem que poderia ter dito “A essência-fêmea espera por minha essência-macho”. Oh, que linda generalização, que linda abstração! Oh, funcionamento biológico…
“Mães atléticas desses Estados…” Músculos e matrizes. Nem era preciso que tivessem rostos.
Tal como me vejo refletido na Natureza,
Tal como me vejo através de uma névoa, Ser de inexprimível completude, sanidade, beleza,
Vejo a cabeça inclinada e os braços cruzados sobre o peito, a Fêmea eu vejo.
Para ele tudo era fêmea: até ele mesmo. A Natureza não passava de outra grande função.
Este é o núcleo – depois que a criança nasce da mulher, que o homem nasce da mulher,
Este é o caldo do nascimento, a fusão do pequeno e do grande, depois de novo a saída…
“A Fêmea eu vejo…”
Se eu tivesse sido uma das mulheres dele, teria mostrado a ele o que é uma Fêmea…
Sempre querendo entrar em fusão com o útero disso ou daquilo.
“A Fêmea eu vejo…”
Qualquer coisa servia, desde que ele pudesse entrar em fusão.
Um horror total. Uma espécie de disenteria.
Fenômenos post-mortem.
Ele descobriu, como todos os homens descobrem, que na verdade não é possível fundir-se com uma mulher, mesmo chegando a um estágio bem avançado do processo. Fica sempre faltando um pedacinho. Então o sujeito é obrigado a desistir e tentar novamente em outro lugar, caso faça mesmo questão de se fundir.
Em “Cálamo” a música é outra. Walter já não grita nem bate o pé nem fica exultante. Começa a hesitar, reticente, melancólico.
O estranho cálamo lança sua raiz rosada junto à borda do lago, e dele brotam folhas de companheirismo, folhas companheiras de uma raiz, sem a intervenção da mulher, da fêmea.
Então ele canta o mistério do amor viril, do amor entre companheiros. Uma vez e outra ele repete a mesma coisa: o novo mundo será construído a partir do amor de companheiros, a grande nova dinâmica da vida será o amor viril. Desse amor viril surgirá a inspiração para o futuro.
Será mesmo? Será que surgirá?
Companheirismo! Companheiros! Eis que chega a nova Democracia dos Companheiros. Eis o novo princípio coesivo do mundo: o Companheirismo.
Será? Você tem certeza?
Esse é o princípio coesivo da verdadeira vida militar, como ficamos sabendo em “Tamboriladas”. É o princípio coesivo no novo uníssono por uma atividade criativa. E ele é radical e solitário, chegando aos confins da morte. Algo terrível de suportar, uma responsabilidade terrível. Até Walt Whitman achava isso. A última e mais pungente responsabilidade da alma: a responsabilidade pelo companheirismo, pelo amor viril.
E contudo para mim vocês são belas, ó raízes de tonalidade delicada; vocês me fazem pensar na morte.
Vinda de vocês, a morte é bela (o que, afinal, é belo, além da morte e do amor?)
Acho que não é pela vida que aqui entoo meu cântico dos amantes, acho que deve ser pela morte,
Porque com que calma, com que solenidade ele cresce, para depois subir até a atmosfera dos amantes,
Morte ou vida, para mim é indiferente, minha alma se abstém de preferir
(Não estou seguro, mas a alta alma dos amantes prefere acolher a morte)
De fato, ó morte, acho que agora estas folhas significam exatamente o mesmo que vocês significam…
Estranho, vindo do exultante Walt.
Morte!
Agora ele celebra a morte! A morte!
A fusão! E a Morte! Que é a derradeira fusão.
A grande fusão no útero. Mulher.
E em seguida a fusão dos companheiros: amor de homem por homem.
E quase imediatamente depois, isto: morte, a derradeira fusão que é a morte.
E aí está a progressão da fusão. Para os grandes fusionistas, a mulher se torna afinal inadequada. Para aqueles que amam com grande intensidade. A mulher é inadequada para a fusão derradeira. De modo que o passo seguinte é a fusão do amor de homem por homem. E isso está a um passo da morte. Isso desliza para a morte.
David e Jonathan. E a morte de Jonathan.
Ele sempre desliza para a morte.
O amor entre companheiros.
Fusão.
De modo que se o fundamento da nova Democracia for o amor entre companheiros, a morte também será seu fundamento. Porque mais cedo ou mais tarde o amor entre companheiros desliza para a morte.
A última fusão. A última Democracia. O último amor. O amor entre companheiros.
Fatalidade. E fatalidade.
Whitman não teria sido o grande poeta que é se não tivesse dado os últimos passos e contemplado a morte. A morte, a última fusão, que era o objetivo de sua masculinidade.
Para os fusionistas, existe o breve amor entre companheiros, e em seguida a Morte.
A que, respondendo, o mar,
Sem atraso, sem pressa
Me disse num sussurro que atravessou a noite, com toda a simplicidade, antes da aurora,
Me disse num murmúrio a grave e deliciosa palavra morte.
E de novo morte, morte, morte, morte.
Sibilando melodioso, não como o pássaro, não como meu agitado coração de criança, Mas avançando nítido como só para mim, farfalhando a meus pés,
Para subir em seguida, sempre, até minhas orelhas e, suave, lavando-me inteiro,
Morte, morte, morte, morte, morte…
Whitman é um poeta monumental, um poeta do fim da vida. Um monumental poeta post-mortem, das transições da alma ao perder sua integridade. O poeta do último brado, do último guincho da alma, o poeta dos confins da morte. Après moi le déluge.a
Mas todos nós temos de morrer e desintegrar-nos.
Temos de morrer em vida, também, e desintegrar-nos ainda em vida.
Mas, mesmo nessa situação, o objetivo não é a morte.
Alguma outra coisa virá.
Do balanço interminável do berço.
De todo jeito, primeiro temos de morrer. E desintegrar-nos ainda em vida.
Só que estamos cientes do seguinte: a Morte não é o objetivo. E o Amor, a fusão agora são simplesmente parte do processo de morte. Companheirismo?
Parte do processo de morte. Democracia? Parte do processo de morte. A nova Democracia? As portas da morte. Identidade Una? A morte propriamente dita.
Já morremos, e ainda estamos nos desintegrando.
Mas ACABOU.
Consummatum est.
Whitman, o grande poeta, significou muito para mim. Whitman, o desbravador. Whitman, o pioneiro. Whitman e mais ninguém. Não há pioneiros ingleses, não há pioneiros franceses. Não há poetas pioneiros europeus. Na Europa os candidatos a pioneiro não passam de inovadores. Na América, a mesma coisa. Antes de Whitman, nada. À frente de todos os poetas, desbravando o terreno inculto da vida não inaugurada, Whitman. À frente dele, ninguém. Seu estranho e amplo acampamento no fim da grande estrada. E hoje são tantos os novos poetinhas acampando no acampamento de Whitman… Só que nenhum deles vai realmente além desse ponto. Porque o acampamento de Whitman está no fim da estrada, à beira de um imenso precipício. Para além do precipício, distâncias azuis e o vácuo azul do futuro. Mas não há caminho até lá embaixo. Estão num beco sem saída.
Pisagh. As visões de Pisagh. E a Morte. Whitman como um estranho e moderno Moisés americano. Tremendamente equivocado. E, mesmo assim, o grande líder.
A função essencial da arte é moral. Não é estética, não é decorativa, não é passatempo, não é recreação. É moral. A função essencial da arte é moral.
Mas uma moralidade apaixonada, implícita, não didática. Uma moralidade que transforma o sangue, em vez da mente. Que transforma primeiro o sangue. A mente vai depois, na esteira.
Whitman era um grande moralista. Um grande líder. Um grande transformador do sangue nas veias dos homens.
Sem dúvida isso se aplica em especial à arte americana, que é, toda ela, essencialmente moral. Hawthorne, Poe, Long-fellow, Emerson, Melville: o que interessa a esses homens é a questão moral. Todos se sentem desconfortáveis com a velha moralidade. De forma sensual, apaixonada, todos atacam a velha moralidade. Mas, em termos racionais, não conhecem nada melhor. É por isso que eles se comprometem racionalmente com uma moralidade que sua paixão está, em sua totalidade, voltada para destruir. Disso decorre a duplicidade, que é a sua fissura fatal, que vitima a mais perfeita das obras de arte americanas, A letra escarlate. Um compromisso racional inequívoco com uma moralidade que o eu passional repudia.
Whitman foi o primeiro a romper o compromisso racional. Foi o primeiro a esmagar a velha concepção moral de que a alma do homem é algo “superior”, algo “acima” da carne. Mesmo Emerson ainda defendia essa cansativa “superioridade” da alma. Melville foi outro que não soube ultrapassá-la. Whitman foi o primeiro visionário heroico a agarrar a alma pelo cangote e jogá-la no meio dos cacos.
“Quieta!”, disse ele à alma. “Não saia daí!”
Não saia daí. Não saia da carne. Não saia dos membros e dos lábios e do ventre. Não saia do peito, não saia do útero. Fique aí, Ó Alma, pois seu lugar é aí.
Não saia dos membros escuros dos negros. Não saia do corpo da prostituta. Não saia da carne enferma do sifilítico. Não saia do pântano onde cresce o cálamo. Não saia daí, Alma, seu lugar é aí.
A Grande Estrada. O grande lar da Alma é a grande estrada. Não é o céu, não é o paraíso. Não é “lá em cima”. Nem mesmo “lá dentro”. A alma não está nem “lá em cima”, nem “lá dentro”. A alma é um viandante que percorre a grande estrada.
Não é a meditação. Não é o jejum. Não é a exploração de céus sucessivos, internamente, à maneira dos grandes místicos. Não é a exaltação. Não é o êxtase. Nenhum desses caminhos leva a alma até ela mesma.
O único caminho é a grande estrada.
Não é a caridade. Não é o sacrifício. Não é nem mesmo o amor. Não são as boas ações. Nada disso faz a alma se realizar.
A única coisa que funciona é a jornada pela grande estrada.
A jornada em si, seguindo pela grande estrada. Exposta a um contato pleno. Sobre dois pés vagarosos. Encontrando o que vier a aparecer na grande estrada. Na companhia daqueles que seguem no mesmo ritmo, pelo mesmo caminho. Sem objetivo algum. Sempre a grande estrada.
Sem nem mesmo saber em que direção seguir. Somente uma alma que se mantém fiel a si mesma ao longo do percurso.
Encontrando todos os outros viajantes ao longo da estrada. E como? Como encontrá-los, como agir? Com simpatia, diz Whitman. Simpatia. Ele não diz amor. Diz simpatia. Sintonia de sentimentos. Sentir com eles tal como eles sentem consigo mesmos. Captando a vibração de suas almas e de seus corpos ao se cruzarem.
É uma nova e grande doutrina. Uma doutrina de vida. Uma nova e grande moralidade. Uma moralidade de vida real, não de salvação. A Europa nunca foi além da moralidade da salvação. A América está até hoje extremamente intoxicada de salvacionismo. Mas Whitman, o maior e o primeiro e o único professor americano, não tinha nada de Salvador. Sua moralidade não era uma moralidade de salvação. Era uma moralidade da alma vivendo sua vida, não se salvando. Aceitando o contato com outras almas ao longo da grande estrada, enquanto elas viviam suas vidas. Jamais tentando salvá-las. Isso equivaleria a detê-las e jogá-las na prisão. A alma vivendo sua vida ao longo do mistério encarnado da grande estrada.
Esse era Whitman. E o verdadeiro ritmo do continente americano se manifestando por meio dele. Ele é o primeiro aborígine branco.
“Há muitos palácios na casa de meu Pai.”
“Não”, diz Whitman. “Fique longe dos palácios. Um palácio pode ser o paraíso na terra, porém melhor seria morrer. Evite meticulosamente os palácios. A alma só é ela mesma quando percorre a grande estrada a pé.”
Essa é a mensagem heroica americana. A alma não deve acumular proteções em torno de si. Não deve se recolher para ir em busca de seus céus internamente, em êxtases místicos. Não deve implorar a salvação a algum Deus que está além dela. Deve percorrer a grande estrada, desbravar o desconhecido à medida que a estrada avança, na companhia daqueles cujas almas se aproximam dela, dedicando-se somente à própria jornada e às ações decorrentes da jornada, na longa viagem de vida inteira rumo ao desconhecido, com a alma, em suas sutis simpatias, realizando-se à medida que avança.
Essa é a mensagem essencial de Whitman. A mensagem heroica do futuro americano. A inspiração de milhares de americanos de hoje, das melhores almas de hoje, tanto de homens como de mulheres. E é uma mensagem que só pode ser plenamente compreendida, plenamente aceita, na América.
Mas há ainda o equívoco de Whitman. O equívoco de sua interpretação de sua palavra-chave: Simpatia. O mistério da SIMPATIA. Ele ainda a confundia com o AMOR de Jesus e com a CARIDADE de Paulo. Whitman, como todos nós, estava chegando ao fim da grande estrada emocional do Amor. E, como não pôde evitar, viu sua Grande Estrada como um prolongamento da estrada emocional do Amor, além do Calvário. A estrada do Amor termina ao pé da Cruz. Não há prosseguimento. Foi uma tentativa fracassada de prolongar a estrada do amor.
Ele não obedeceu a sua Simpatia. Por mais que tentasse, continuou a interpretá-la automaticamente como Amor, como Caridade. Fusão!
Essa fusão, en masse, a Identidade Una, a monomania do Eu-mesmo, foi uma transposição da velha ideia do Amor. Foi a transposição da ideia do Amor para sua conclusão física lógica. Como Flaubert e o leproso. Foi decretar a insatisfatória Caridade como o único meio ainda vigente de salvação da alma.
Whitman queria que sua alma se salvasse por conta própria; ele não queria salvá-la. Consequentemente, ele não precisava da grande receita cristã de salvação da alma. Precisava substituir a Caridade cristã, o Amor cristão no interior dele mesmo para libertar a sua alma por completo. A estrada do Amor não é nenhuma Grande Estrada. É uma estrada estreita, apertada, na qual a alma avança comprimida entre compulsões.
Whitman queria conduzir sua alma para a estrada aberta. E fracassou, visto que não conseguiu se afastar da velha rota da Salvação. Obrigou sua alma a se aproximar da borda de um precipício e olhou para baixo, para a morte. E lá montou acampamento, impotente. Exercera sua Simpatia como uma extensão do Amor e da Caridade, e sua simpatia quase o levara à loucura e à morte da alma. Foi ela que lhe forneceu sua qualidade forçada, mórbida, sua qualidade post-mortem.
Na realidade, sua mensagem era o oposto da arenga de Henley:
Sou o senhor de meu destino,
Sou o capitão de minha alma.
A mensagem essencial de Whitman foi a Grande Estrada: o fato de deixar a alma livre, abandonada a si mesma, o fato de entregar seu destino a ela e aos acasos da grande estrada. Que é a doutrina mais corajosa que o homem já propôs a si mesmo.
Infelizmente, não chegou a abraçá-la plenamente. Não conseguiu romper a velha cadeia enlouquecedora da compulsão amorosa; não conseguiu se afastar do hábito da caridade – porque hoje Amor e Caridade viraram hábito: um mau hábito.
Whitman falava em Simpatia. Se pelo menos tivesse se aferrado a ela! Porque Simpatia significa sentir com, e não sentir por. Ele não deixou de nutrir um sentimento apaixonado pelo escravo negro, ou pela prostituta, ou pelo sifilítico – o que significa fusão. Um naufrágio da alma de Walt Whitman nas almas desses outros.
Ele não estava se mantendo em sua grande estrada. Estava obrigando sua alma a seguir uma velha trilha. Não a estava deixando livre. Estava adaptando-a à força às circunstâncias de outras pessoas.
Digamos que tivesse sentido uma autêntica simpatia pelo escravo negro. Teria sentido com o escravo negro. Simpatia – compaixão –, ou seja, teria participado da paixão que estava na alma do escravo negro.
Que sentimento era esse que estava na alma do escravo negro?
“Ah, sou um escravo! Ah, é muito ruim ser escravo! Preciso me libertar. Minha alma morrerá se não se libertar. Minha alma afirma que preciso me libertar.”
Whitman apareceu e viu o escravo e disse a si mesmo: “Aquele escravo é um homem como eu. Nós dois partilhamos a mesma identidade. E ele está cheio de ferimentos e sangrando. Oh, oh, e não é que eu também estou cheio de ferimentos e sangrando?”
Isso não era simpatia. Era fusão e autossacrifício. “Levai as cargas uns dos outros”; “Ama teu próximo como a ti mesmo”; “Tudo o que fizerdes a ele, fazeis a mim.”
Se a simpatia de Whitman fosse autêntica, ele teria dito: “Aquele escravo negro sofre com a escravidão. Ele quer se libertar. A alma dele quer libertá-lo. Ele está ferido, mas os ferimentos são o preço da liberdade. Sua alma tem uma longa jornada da escravidão à liberdade. Se eu puder ajudá-lo, farei isso: não tomarei seus ferimentos nem sua escravidão para mim. Mas vou ajudá-lo a combater o poder que o escraviza quando ele quiser ser livre, caso ele queira minha ajuda, pois posso ver em seu rosto que ele tem necessidade de ser livre. Mas mesmo depois que ele for livre, sua alma ainda terá muitas jornadas a completar na grande estrada, até tornar-se uma alma livre.”
Da prostituta, Whitman teria dito: “Vejam aquela prostituta! Sua natureza ficou má sob a pressão do apetite mental que ela nutre pela prostituição. Ela perdeu sua alma. Ela própria sabe disso. Gosta de fazer os homens perderem suas almas. Se ela tentasse me fazer perder minha alma, eu a mataria. Eu gostaria que ela morresse.”
Mas em relação a outra prostituta, ele teria dito: “Vejam! Ela está fascinada pelos mistérios priápicos. Vejam! Em pouco tempo estará tão gasta pela utilização priápica que morrerá. Sua alma é assim. Sua alma é que deseja que ela leve essa vida.”
Da sifilítica, diria: “Vejam! Ela quer infectar todos os homens com a sífilis. Deveríamos matá-la.”
De uma outra sifilítica, diria: “Olhem! Ela tem horror da própria sífilis. Se olhar para mim, tratarei de ajudá-la a se curar.”
Simpatia é isso. A alma julgando por si mesma, e preservando sua própria integridade.
Mas quando, em Flaubert, o homem aquece o leproso com seu corpo nu; quando Bubu de Montparnasse tem relações com a jovem porque sabe que ela tem sífilis; quando Whitman abraça uma prostituta malvada: nada disso é simpatia. A prostituta malvada não deseja ser abraçada com amor; portanto, se você simpatiza com ela, não vai tentar abraçá-la com amor. O leproso detesta sua lepra, portanto, se você simpatiza com ele, também a detestará. A mulher má que deseja infectar todos os homens com sua sífilis odeia você se você não tem sífilis. Se você simpatizar com ela, sentirá o seu ódio e também odiará a sífilis – odiará a mulher. O sentimento dela é de ódio, e você o partilhará com ela. Somente sua alma pode escolher o rumo de seu próprio ódio.
A alma é um juiz perfeito de seus próprios movimentos, caso sua mente não os impuser a ela. Só porque a mente diz Caridade! Caridade!, você não deve obrigar sua alma a beijar leprosos ou abraçar sifilíticos. Seus lábios são os lábios de sua alma, seu corpo é o corpo de sua alma, de sua própria alma individual e única. Essa é a mensagem de Whitman. E sua alma odeia a sífilis e a lepra. Como se trata de uma alma, ela odeia essas coisas, que são contrárias à alma. E, em decorrência, obrigar o corpo de sua alma a entrar em contato com a impureza é uma grande violação de sua alma. A alma deseja permanecer limpa e íntegra. O mais profundo desejo da alma é preservar sua própria integridade, à revelia da mente e de todas as forças desintegradoras.
Alma simpatiza com alma. E tudo aquilo que tenta matar minha alma, minha alma odeia. Minha alma e meu corpo são uma coisa só. Alma e corpo desejam manter-se limpos e íntegros. Apenas a mente é capaz de uma grande perversão. Apenas a mente tenta conduzir minha alma e meu corpo para a impureza e para a desintegração.
O que minha alma ama, eu amo.
O que minha alma odeia, eu odeio.
Quando minha alma é movida pela compaixão, sou compassivo.
Quando minha alma se afasta de alguma coisa, também me afasto dessa coisa.
Eis a verdadeira interpretação do credo de Whitman: a verdadeira revelação de sua Simpatia.
E minha alma segue pela grande estrada. Encontra as almas que vão passando, segue na companhia das almas que estão indo na mesma direção que ela. Simpatiza com cada uma delas e com todas juntas. A simpatia do amor, a simpatia do ódio, a simpatia da mera proximidade; todas as sutis simpatias da alma incalculável, do ódio mais amargo ao amor apaixonado.
Quem guia minha alma para o céu não sou eu. Eu é que sou guiado por minha alma pela grande estrada pela qual circulam todos os homens. Consequentemente, devo aceitar os profundos movimentos de amor, ou de ódio, ou de compaixão, ou de desagrado, ou de indiferença de minha alma. E devo ir aonde ela me levar, pois meus pés e meus lábios e meu corpo são minha alma. Eu é que devo submeter-me a ela.
Essa é a mensagem de Whitman, a mensagem da democracia americana.
A verdadeira democracia – na qual a alma encontra a alma – é a grande estrada. Democracia. A democracia americana, na qual todos circulam pela grande estrada e na qual uma alma é imediatamente reconhecida ao passar. Não por suas roupas ou por sua aparência. Whitman desmentiu essa noção. Não por seu sobrenome. Nem mesmo por sua reputação. Tanto Whitman como Melville desqualificaram isso. Não por atos de piedade ou por obras de Caridade. Não por obras de nenhum tipo. Não por coisa alguma, só por ela mesma. A alma passando sem nenhum realce, passando a pé e não sendo nada além dela mesma. E reconhecida, e ignorada ou saudada de acordo com os ditames da alma. Se for uma grande alma, será venerada na estrada.
O amor entre homem e mulher: um reconhecimento de almas e uma comunhão de fé. O amor entre companheiros: um reconhecimento de almas e uma comunhão de fé. Democracia: um reconhecimento de almas ao longo do percurso pela grande estrada e também uma grande alma vista em sua grandeza enquanto se locomove a pé entre os outros, adotando a forma usual dos seres vivos. Um jubiloso reconhecimento de almas e uma adoração mais jubilosa ainda das grandes almas, das almas grandiosas, porque elas são as únicas riquezas.
Amor e Fusão levaram Whitman à Beira da Morte! Morte! Morte!
Mas a exultação de sua mensagem continua válida. Purificada da FUSÃO, purificada do MIM-MESMO, a exultante mensagem da Democracia Americana, das almas que seguem pela Grande Estrada cheias de jubiloso reconhecimento, cheias de feroz boa vontade, cheias da alegria da fé, sempre que uma alma avista uma alma maior.
As grandes almas: as únicas riquezas.

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Entrevista com Gilles Deleuze, Félix Guattari e Raymond Bellour [gravação integral] na primavera de 1973, após a publicação de O anti-Édipo.

Raymond Bellour: Quando se lê o dossiê de imprensa de O Anti-Édipo, o impressionante é que, com exceção de artigos de psicanalistas ou de “filósofos” como Domenach, os artigos sejam extremamente favoráveis ao livro. Como funciona o livro no interior da sociedade na qual ele é escrito? Será que ele funciona como uma válvula de escape suplementar? Ou, para retomar termos de vocês, como um axioma a mais?
Gilles Deleuze: Quem começa? Primeiramente, não concordo a tal ponto quanto ao caráter aprovador dos críticos, porque nessas críticas é preciso distinguir dois tipos de artigos: aqueles dos profissionais, os psiquiatras ou psicanalistas, e aqueles dos não-profissionais, os jornalistas, os críticos. A acolhida dos profissionais não me parece de modo algum agressiva, mas também não me parece favorável. Por que não são agressivos? Não é, evidentemente, para nos dar prazer, nem por causa das qualidades do livro, mas por razões totalmente outras. É que, nas condições atuais, eles se sentem na defensiva e só podem reagir a esse gênero de livro em função dessa defensiva. Eles sentem que o que dizemos não está somente em nosso livro, é {199} alguma coisa que era ressentida, ora pressentida, ora formulada por todo tipo de pessoas. Há toda uma geração de tipos jovens que estão em análise, que são mais ou menos coagidos pela análise, que continuam a ir a ela, que tomam isso como uma droga, um hábito, um emprego do tempo e, ao mesmo tempo, eles têm o sentimento de que isso não deslancha, que há toda uma imundície psicanalítica. Eles têm suficiente resistência à psicanálise para pensar contra ela, mas, ao mesmo tempo, eles pensam contra ela em termos ainda psicanalíticos. Isso forma uma espécie de rumor prévio e totalmente independente do nosso livro. Nosso livro é que é quase uma ramificação desse protesto contra a psicanálise e não o inverso. É isso que explica que os psicanalistas e os psiquiatras estejam numa posição defensiva.
Félix Guattari: Será que posso acrescentar alguma coisa? Tomando um certo recuo, a crise que agora se manifesta é uma crise diferida. Isso porque o lacanismo em particular, uma certa releitura de Freud, devindo estruturalista ao longo do seu curso, já era uma maneira de colmatar, de mascarar uma certa falência da psicanálise.
Deleuze: Colmatar, quer dizer, rearranjar as coisas, fornecer novos conceitos, trazidos por Lacan, para que a psicanálise consiga calar os protestos.
Bellour: De acordo, mas o que me toca é que jornalistas não-profissionais, sem conexão direta com a psicanálise, tenham podido se mostrar entusiastas e dizer: a gente esperava um livro como esse… A gente sabia que essa coisa não ia bem na sociedade etc.
Guattari: Qual é sua explicação?
Bellour: Minha explicação? Pergunto-me se, para uma certa camada da sociedade, esse livro não desempenha o papel de válvula de escape.
Guattari: Por que não imaginar que os tipos de que você fala estejam talvez morrendo de rir? Eles não podem tocar a caneta, coçar o nariz, por suas mãos nos bolsos sem que de pronto o psicanalista interprete…
Deleuze: Monte de gente reclama o direito ao lapso, o direito ao ato falho…
Guattari: O direito ao não-sentido…
Deleuze: Tenho um exemplo muito bom disso. Seria preciso distinguir três coisas: os profissionais de que acabamos de falar — psiquiatras e psicanalistas –, os artigos dos jornalistas que podem ser favoráveis ou hostis, e depois o que há de {200} mais importante para Félix e para mim, é o tipo de cartas que recebemos, isto é, as cartas de pessoas que penaram cinco ou dez anos junto a um psicanalista, que riram dele verdadeiramente e que nos escrevem: o que vocês dizem não é suficiente, não é nem um quarto do que seria preciso dizer. Há um tipo que me escreveu dando um exemplo típico do que Félix acaba de citar com interpretação psicanalítica. O tipo disse à sua psicanalista que ele queria partir para a Índia com um grupo hip, uma necessidade de fugir, e a psicanalista lhe responde de imediato: “grupo hip é pinto grande, veja bem que é sempre seu tema da impotência”. Há toda sorte de tipos que, neste momento, têm necessidade de se levantar e bater a porta. Eles não o fazem porque estão sujeitados, e isso, o que Félix disse, é muito importante. Eles já pensam contra a psicanálise, mas ainda guardam um cachê psicanalítico. Exemplo: eles querem criticar a psicanálise no nível do dinheiro, e isso é muito importante, mas continua muito insuficiente, porque a psicanálise está plenamente preparada para receber esse gênero de crítica. Ou então eles vão criticar a psicanálise no nível do direito às pulsões parciais, à perversidade, à regressão etc. Vocês me explicam que meu desejo de ser um travesti, um pederasta, é regressivo. Pois bem, eu reclamo o direito à regressão.
Guattari: O que eles não colocam em questão é a interpretação de todo fenômeno de não-sentido.
Deleuze: Que um pederasta ou um travesti não seja regressivo em nada, que seja preciso pensar esses problemas de modo totalmente outro, creio que isso é o que nosso livro começa um pouco, mas muito imperfeitamente. É isso que faz com que ele seja um livro que não vale por si mesmo, mas que está conectado com um movimento de protesto geral.
Bellour: O que vale para os autores dos artigos, vale igualmente para os leitores e pode permitir ao livro desempenhar esse papel de válvula de segurança de que falei.
Deleuze: Essa questão, eu a compreendo assim: será que é um livro já recuperado ou não? Isso me parece um falso problema. Ser recuperado me parece ser uma coisa que, em certas condições, não depende de modo algum do livro. Há livros que não são para serem recuperados, porque eles estão imediatamente num circuito já feito, eles são dados. Não creio que os livros nunca sejam recuperados se os autores não o quiserem. {201} Nosso livro será recuperado, evidentemente, se fizermos outro livro um pouco semelhante no mesmo sentido. Ele não o será se nós ambos, Félix e eu, conseguirmos continuar nosso trabalho e fizermos alguma coisa de completamente nova relativamente ao Anti-Édipo.
Bellour: Portanto, o efeito da moda…
Deleuze: Se formos os primeiros a quebrar esse efeito, sobretudo com a ajuda de outros, então, nesse momento, seremos irrecuperáveis.
Guattari: Há também um outro problema não concernente ao efeito-livro, mas que se situa no nível de um período de tempo mais longo. É que a psicanálise é uma coisa que vai bem, como uma droga do capitalismo. Não basta dizer: isso os separa do real, da política e do resto. Afinal de contas, é uma droga como outra, que encontra sua eficácia em seu próprio campo, um tipo de degradação, no sentido de degradação energética. A menos que, por ocasião de O Anti-Édipo ou de outros movimentos, se produza um fenômeno que ponha em circulação outras formas de apoio do desejo, mais coletivas, mais ramificadas no contexto, e suas implicações políticas; e que outras formas de análises se desenvolvam, análise de grupos que ultrapassem o indivíduo nos dois sentidos, para além e aquém. Ou então aparecerão manifestações que capturarão o investimento libidinal que atualmente se perde, se encalha na análise; e aí, bem entendido, a psicanálise será atingida.
Ou então nada disso acontecerá. Neste caso, tudo isso terá sido tão somente um transitório movimento de opinião, e os analistas retificarão a pontaria, darão um passo adiante ou um passo ao lado, para retomar as coisas. Por exemplo, só se distribui frivolidades nos cinemas em Paris. Não basta dizer: são frivolidades, para que as pessoas deixem de ir ao cinema. Trata-se de saber se haverá cinemas ou formas novas de atividade cinematográfica que enganchem as pessoas. {202} È todo um combate. Não está ganho só por termos feito um livro.
Deleuze: Não se vive esse livro como um livro, e as pessoas que o amam também não o vivem como um livro. Não se diz que é um livro, diz-se que é um elemento que se chama “livro” num conjunto exterior. Um livro não vale pela sua interioridade, pelas páginas que ele encerra, ele vale pela conexão com a multidão de conexões extra livro.
Bellour: Foi assim que eu o recebi. É por isso que eu quis que se falasse dele. Há livros que amo enquanto livros, mas esse eu não amei dessa maneira, eu o amei pelo efeito que ele produz, me produz.
Deleuze: Todos os nossos leitores favoráveis captaram que isso não valia como um livro. Isso não remetia o leitor às páginas interiores, mas a situações políticas, psiquiátricas, psicanalíticas exteriores. Naquele momento, como Félix acaba de dizer, a questão devém, de uma parte, a parte mais importante: como se desenvolverão essas situações exteriores e que papel se pode desempenhar aí acessoriamente; e, de outra parte — a parte menor — é saber o que faremos na próxima vez, Félix e eu, que não será semelhante ao primeiro tomo. Portanto, nada de válvula de escape.
Guattari: Nada de mensagem.
Deleuze: Nada de mensagem, nada de válvula de escape, nada de recuperação.

Bellour: Dois eixos se destacam para esta entrevista: um eixo interno. o dos conceitos postos em jogo no livro, e um eixo externo composto de um monte de questões concretas que eu me colocava fora do livro. Primeiro elemento conceitual: perguntei-me o que recobria essa noção de desejo posto como real absoluto, e sem falta. Será que o modo como vocês o fizeram funcionar não representa um nível de abstração muito grande relativamente ao modo de constituição da criança, e isso no nível mais originário, ao passo que, desde as primeiras semanas da vida da criança, percebe-se visivelmente que se coloca um certo número de elementos de falta. Como responder a isso?
Guattari: Isso é a pior abstração. Falta de quê? De vitaminas, de oxigênio? Isso é bem a mais abstrata noção que se possa imaginar! A falta-necessidade, a falta-instinto?
{203} Bellour: Tome o exemplo do seio ou da mamadeira. A partir do momento em que você tira, há uma reclamação. Que é essa reclamação? Será o desejo que aí se exprime? Será que a criança se exprime em termos de falta ou não? E isso sem remeter ao grande debate sobre a castração, mas somente a essa relação desejo-falta.
Deleuze: A questão de Raymond é muito importante, porque ele disse bem que desempenharia à vontade o papel do tolo; mas aí nós três estamos todos de acordo sobre isso: é que essa questão tem o ar simples, e que se a gente responde sim, há certamente uma falta, a criança tem necessidade do seio, ela carece de algo, nesse momento ser-nos-á impingido tudo até a castração e a falta do Bom Deus e…
Guattari: Sua questão está apodrecida. Porque, exatamente como na comunicação, já há uma entidade constituída como emissor, uma entidade constituída como receptor, e depois um truque que passa entre os dois. A partir do momento em que você parte dos três termos, você já tem toda a lógica: o pólo A que emite, o pólo B que recebe e alguma coisa transmitida de A a B. Assim que você retira um, falta aí um dos três. Isso é inevitável. É todo o sistema das multiplicidades, das intensidades como sistema de fluxo e de cortes, sistema que corta, retoma, codifica e descodifica o desejo que permite em seguida, mas somente em seguida, reconstituir esses pólos. Não há uma criança de um lado, uma mamãe de outro e depois um seio. Nada disso há nesse nível.
Deleuze: Quando dissemos que o desejo não era falta, mas produção, não queríamos dizer, evidentemente, que ele produzia seu próprio objeto. Não se quer dizer que a fome da criancinha produz e basta para produzir leite. Como todo mundo, sabemos que o desejo não produz seu objeto. O que dizemos é que a divisão objeto do desejo/pessoa distinta/sujeito desejante já implica um corte que pode vir do campo social, que pode vir também da natureza. É um corte sobre fundo de fluxos que fluem, e o desejo é, fundamentalmente, essa fluência de fluxos onde nada falta. Porém, que dois fluxos não se encontrem, por exemplo, que o fluxo de fome do bezerro e o fluxo de leite da vaca não se encontrem — isso acontece, como nós e todo mundo sabemos, no caso do bezerro que perdeu sua vaca. Mas nós dizemos que o desejo, em sua essência, são esses encontros ou não-encontros de fluxos, {204} assim como há fenômenos de desgosto, porque fluxos podem se encontrar e produzir efeitos de repulsa, ou então não se encontrar e, assim, produzir efeitos que são provados como faltas por um sujeito, e não pelo próprio fluxo, obviamente. Sabe-se muito bem que há faltas. Sabe-se mesmo que a sociedade é organizada para distribuir a falta em tal lugar, o excesso em tal outro lugar. De maneira alguma se diz que não há falta. Dizemos: os fenômenos de falta, isso não é o desejo.
Bellour: De acordo. A partir dai a mesma questão pode colocar-se num segundo nível: que importa esse desejo se ele é de tal modo fluídico, transpessoal, posto como real absoluto inapreensível, que ele falta ainda mais que a clássica falta psicanalítica, na medida em que, quanto mais pleno ele é, menos se pode acessá-lo?
Deleuze: Mas nada disso! Você fala como se os fluxos fossem imperceptíveis, mas nada disso! É que os fluxos de toda maneira, isso flui. Então, para apoiar sua ideia de falta, tomo um exemplo mais patético do que a vaca e seu bezerro: condições de seca, nas quais os animais já não encontram água e se põem a fugir, há um fluxo de seca, um fluxo de animais que fogem, há um fluxo de água ao longe, há uma busca etc. Um fluxo de seca é algo de absolutamente pleno, assim como um fluxo de animais, isso não carece de nada, é isso que existe. É isso que chamamos de real. De toda maneira, estamos nos fluxos, não somos pessoas em face de objetos. A ideia de fluxo não é um conceito, basta olhar qualquer coisa que flui, o leite, o mijo, o esperma, o dinheiro, é isso a realidade. Não se trata de dizer que isso nada muda. Ao contrário, dizemos: a vida é exatamente isso, é exatamente com isso que as pessoas vivem. Então, se elas se enchem por não saber isso, quer dizer, de estarem sempre à deriva de fluxos que lhes são os mais contrários, os mais dessecantes do mundo relativamente a elas, não é de modo algum porque a história dos fluxos nada muda, é porque elas vivem tão pouco na experiência dos fluxos que nada compreendem de coisa alguma. Elas buscam objetos, tomam-se como pessoas etc. Dizer-lhes: vocês são pequenos fluxos, e depois: cuidem-se; parece-me que de maneira alguma seja uma observação abstrata. Já é muito liberadora. Quando se vive como um fluxo em busca de outros fluxos, não se trata de falta.
{205} Guattari: Evidentemente, nem tudo é igual a tudo. A falta é importada toda vez que, na passagem de um fluxo a um outro, na mudança maquínica de um fluxo num outro, se mantenha a mesma categoria geral de existência acrescida de uma dialética, conforme um tipo de teoria do escoramento. Uma outra perspectiva consiste em dizer que em todos esses fluxos, conectados, em disjunção, em adjunção, há certos fluxos desterritorializados. Isso quer dizer que os fluxos criam entre si, não fenômenos de falta, mas tipos de deslocação que vão transportar o desejo de um fluxo a um outro. É isso que vai constituir, precisamente, a codificação dos fluxos. Dizendo de outra maneira, o movimento que transporta um ser de uma linha de fluxo a uma outra não é o resultado de alguma coisa que seria ressentida como faltando e que a levaria rumo a um fluxo substitutivo. Por exemplo, não é em razão de uma carência numa deiscência existencial, do fato da prematuridade ao nascimento, que um fluxo de amor vai se transportar rumo a fluxos de socialidade, de contato, de fala, de ruído, de calor humano que põem em jogo elementos de cadeias desterritorializadas.
Bellour: Bom, todas essas conexões, todos esses encontros etc., mas quando o sujeito se põe o problema de uma experiência de satisfação relativamente ao fluxo, isso reintroduz automaticamente o problema da falta, se lhe faltar o fluxo que lhe deve convir.
Deleuze: A isso devo responder que noções como as de satisfação, gozo são noções construídas em função de um desejo posto como falta. Falar de fluxo não é substituir um conceito por um outro, é uma outra maneira de viver o desejo. Quando alguém busca um objeto, uma pessoa que lhe “falte”, como se diz, e que ele não encontra, aí há não-satisfação, falta, decepção, tudo o que se quer. Mas quando são os fluxos que passam, e não as pessoas, os objetos, é toda uma outra maneira de viver. Em tal momento, creio que, mesmo quando não se encontra o fluxo ou os fluxos que convêm, de modo algum se vive isso sob forma de falta, Félix tem completamente razão, vive-se isso sob forma de fluxo e a partir de um outro fluxo, o fluxo de sua própria fuga a si, o fluxo de sua própria busca a si, que já não é uma falta. Quando, por exemplo, um animal sente água a dez quilômetros, não se pode dizer que ele careça de água, é preciso {206} dizer que ele é tomado por uma espécie de fluxo que o impulsiona a dirigir-se ruma à água. Suponhamos que ele não sinta esse fluxo de umidade que o guia, ele só tem a si, seus fluxos, e depois o fluxo de secura. Então, evidentemente, há dramas. Nunca dissemos que não havia dramas… Alguém que pensa e vive em termos de fluxo, creio que o que ele prova são movimentos de território, movimentos de desterritorialização, e não fenômenos de falta. De modo que, nos fluxos, o que conta não é de modo algum tal pessoa, tal objeto, tal eu {moi}. Todas essas noções devem ser refinadas; dizer “o sujeito não é a mesma coisa que o eu {moi}”, isso não nos importa. O que conta são as passagens de fluxos. Todo fluxo é como que acompanhado de algo que o faz passar, que o desvia rumo alhures quando há um obstáculo, como um fluxo de água. Mas um sujeito não é alguém que esteja diante de fluxos, ele próprio é um conjunto de fluxos. Se é como isso que se vive, o próprio fato de aprender a viver como isso, muda tudo da consciência e do inconsciente do desejo que se tem.
Guattari: Creio, entretanto, que é preciso desconfiar dessas comparações com os fluxos de água. Porque, para os fluxos desterritorializados — e todos eles o são, uns relativamente aos outros — é evidente que alguns dentre eles, por exemplo, os fluxos de quantidade abstrata, os fluxos de capitais, carecem de alguma coisa. Num momento, você tem um fluxo de dólares em alguma parte e falta de um território, de uma força de trabalho. O fluxo mais desterritorializado atrai para si a constituição de entidades produtoras, ele quer se reterritorializar em alguma parte. Finalmente, é sempre num sistema de diferenciais de fluxos que há constituição do vetor desejante.
Bellour : Eu compreendo, mas volto ao meu sentimento, que é como se não tivesse havido resposta. A gente está de tal modo em face do real absoluto que não se pode mesmo responder. A única coisa que se pode objetar eventualmente, é que tudo isso representa uma tal utopia relativamente ao que se acha, à torto ou sem razão na cabeça das pessoas, na minha por exemplo, que essa ideia de um tipo de capacidade de esposar os fluxos à medida que eles passam e sendo a gente mesmo uma série de fluxos, e que isso não possa ser ressentido no nível do sujeito — pois que, infelizmente, não se está ainda nesse nível…
Guattari : … E por um bom bocado de tempo…
{207} Bellour : … E por um bom bocado de tempo, que como a maior falta. Lendo o livro, tive mui fortemente o sentimento de me dizer: verdadeiramente, se é isso, o real, eu {moi} careço dele!
Deleuze: Sua observação não é justa, pois há muita gente que vive sob essa forma. Nem mesmo são escritores. Repreenderam-nos frequentemente por tomarmos exemplos de escritores, e é uma verdadeira sacanagem terem-nos repreendido. Um tipo como Lawrence, não é somente enquanto escritor que ele vive dessa maneira, é enquanto tipo amando o sol, enquanto tuberculoso, enquanto homem muito concreto, amando as mulheres etc. Ele vive sob essa forma de fluxo. Há muita gente, e cada vez mais, que vive sob essa forma e que o dizem muito realmente. Eles nem mesmo têm necessidade de dizê-lo, está escrito na testa deles: sujeito? eu {moi}? não conheço. Não creio que seja preciso dizer que se trata de utopia ou que o sujeito a tenha por muito tempo — ele a tem por muito tempo entre os jovens quadros, sim, mas ele não a tem por tanto tempo.
Guattari: Tomemos, por exemplo, Bloom. Os escritores são interessantes para isso, pois eles podem dizer o que os outros não estão preocupados em exprimir. Que diferença há entre a jornada de Bloom e a do cara que trabalha não importa onde? Não obstante, é uma incrível ilusão pensar que as pessoas têm uma identidade, que estão coladas a sua função profissional, pai,mãe, tudo isso… Eles são completamente errantes, desnorteados. Eles fluem. Eles fodem não se sabe o quê na cabeça, eles têm o ar fixo, tomado numa constelação, mas eles estão em adjacência relativamente a um montão de sistemas de intensidade que os percorrem. É preciso, verdadeiramente, ter uma visão intelectual completamente racionalista para acreditar que há tipos bem constituídos que se deslocam conservando sua identidade num campo. É piada tudo isso. Os tipos, são todos errantes, nômades. Trata-se de saber se essa errância gira em torno de uma estaca, como uma cabra, ou se é uma errância desejante, justamente capaz de se ajustar relativamente a pontos de fuga desejantes, desterritorializadores.
Bellour: Que no espaço ideal e real dos romances de Beckett haja essa deambulação e essa errância, que a reencontremos de um fragmento a outro de Michaux, que a jornada de Bloom em Dublin seja esse nomadismo, isso eu vejo bem, mas…
Guattari: Ele vai sacanear! Termine sua frase, você vai {208} sacanear, vá. Isso, isso, isso… Tudo isso é literatura?
Bellour: Sim, eu a direi, minha sacanagem.
Guattari: Mas o que funciona é justamente que não é literatura.
Deleuze: É sacanagem, porque isso se junta a uma crítica que nos fizeram, dizendo: ah ah, eles citam apenas obras literárias. Se as pessoas não compreendem que não é caso de literatura, que Lawrence, Artaud…
Guattari: Flaubert, A Educação sentimental, não é literatura.
Bellour: “A Educação sentimental”, se não é o mais espantoso romance construído sobre a falta, eu me deixo fuzilar! Esse rufião que, desde o início ao final do seu romance, carece de uma mulher, e depois essa mulher que, no final, sente uma tal falta daquele a quem ela falta, e que ela acaba por chamar seu banco, o banco Frédéric…
Guattari: Sim, mas nunca é isso, o que prova muito bem que ele de nada carece.
Bellour: Mas aí é jogar com as palavras.
Deleuze: Mais uma vez, não dizemos: não há falta. Dizemos: os fenômenos de falta não têm nada a ver com o desejo. Todo mundo, até agora, de Platão a Lacan,todos dizem: ah, é muito complicado, o desejo… é um problema de falta e de satisfação, compreendem… E então, de Platão a Lacan, reencontra-se a igreja.
Bellour: É certo que as coisas se passam como você disse, para um certo número de pessoas, é verdade…
Deleuze: Aí compreendido o capital, insisto muito sobre isso. O capital, isso flui, isso foge… Não falamos apenas em nome de revolucionários, não se permitiria. Mas em nome dos capitalistas, isso funciona fundo… Não se trata de pessoas, mas de fluxos, de fugas.
Bellour: Compreendo. Mas quando você vive com pessoas em torno de você, isso deve também acontecer com vocês, quanto a mim tenho terrivelmente a impressão de que as pessoas continuam a penar com um monte de problemas…
Guattari: Quem lhe disse o contrário? Mas eles não estão no campo do desejo.
Bellour: Eu gostaria de saber porque é precisamente isso que se chama desejo.
{209} Guattari: Mas, simplesmente, será que você já viu um tipo numa situação familiar, conjugal e outras, que esteja no campo do desejo? Tudo é precisamente organizado contra. Não dizemos que isso flui o tempo todo. Dizemos que quando isso não flui, você não está no campo do desejo, em todo caso. Quando isso quebra é que se passa alguma coisa e que o desejo se ramifica.
Deleuze: Por que, mais uma vez, as pessoas de que você fala aí, que não vivem sob essa forma, por que temos cada vez menos vontade de vê-las? Por que não podemos mais viver com elas? Por que se dão rupturas, quebraduras?
Bellour: Acho que isso resulta de um tipo de operação mágica de dizer: estamos fartos de viver com entidades determinadas, unificadas etc. Há outras coisas que são fluxos e ainda fluxos. Todos os fluxos são denominados desejos e tudo sobre o que se vivia antes, como o que enche o saco, não é o desejo.

Guattari: Concordemo-nos que chamar isso de falta ou chamar isso de fluxo é a mesma coisa, é a priori tão abstrato ou tão imbecil, como se queira. Mas, não obstante, há uma diferença. Quando você a denomina falta, você a localiza relativamente a todo o contexto, ao referencial fixado que a determina como falta. Ao passo que se você a define como fluxo, você não tem precisamente o contexto, não tem referente. Não são duas entidades, são duas políticas, duas filosofias. Ou você vai rumo à recentração, rumo ao referencial, do mesmo ao mesmo, ao idêntico, ao semelhante, ao análogo e toda essa bateria de cozinha. Ou você vai rumo a uma outra política. Nós dizemos: há duas políticas do desejo. Uma política fascista, paranóica, capitalista, burguesa, reterritorializadora, aquela que referencia, coordena, territorializa; e depois há uma outra que, desde que algo quebre, fuja, o investe. Já podemos partir daí.
Bellour: Absolutamente.
Guattari: A partir daí pode-se considerar que o que é fundamental, — energia desejante, o que se inscreve na história, no tempo, que remete a toda a fenomenologia do desejo real — não está do lado do desejo paranóico, mas do lado onde isso foge. E aí há uma passagem. Trata-se, num caso, do fato de se escorar, de se confinar na pessoa, no papel, na função e, no outro caso, de se meter na adjacência de um processo {210} maquínico, aí onde isso se passa, do lado da desterritorialização, o sítio onde isso flui no próprio seio do fluxo. Há, primeiramente, ajustagem fenomenológica de duas políticas e passagem de uma a outra.
Bellour : O que me toca a esse respeito é o aspecto decisório da coisa, que a palavra “política” traduz bem, aliás. Quer dizer: há duas políticas, duas opções.
Deleuze: Mas as opções são as do próprio inconsciente. Não são opções de decisão. É quando as pessoas estão fartas. Retornamos ainda à história do nosso livro. Nós de modo algum buscamos leitores. Os tipos que estão bem contentes com a psicanálise, de modo algum queremos desviá-los. Dizemos a eles: vai, vai, pequeno bezerro, vai ver seu analista. Isso é ótimo, isso lhe convém. Não podemos debochar das pessoas. Mas me parece que estamos em vaga comunicação com tipos, meninas, meninos que estão fartos. Então, se você diz: eu {moi}não estou farto de mim, do sujeito, tudo bem, dizemos a você: salve, Raymond…
Guattari : Do sujeito barrado, da falta de ser…
Deleuze: Há seguramente livros muito belos para cantar tudo isso. Não almejamos tomar o lugar de outros livros. O que almejamos é totalmente outra coisa. À força de falar, redizemos as mesmas coisas. Félix e eu buscamos aliados. É quase no nível dos pequenos anúncios underground. Suponhamos que cada vez mais pessoas estejam fartas. Não lhes propomos outra coisa, não ousaríamos isso. Temos a justa impressão de que pode haver uma espécie de eco com eles.
Bellour : Nesse sentido, Gilles, você tinha profundamente razão ao dizer: o segundo volume não será como o primeiro, porque no primeiro, fomos sobretudo levados a discutir conceito mais do que tomar partido e sistema existencial global.
Guattari : Certamente. É a culpa de Gilles isso.
Deleuze : Todas essas críticas são verdadeiras, e isso é minha culpa. Na repartição das culpas, sei as culpas de Félix quanto a esse livro, e seu bem as minhas. Todo o aspecto universitário do livro, é minha culpa. Que esse livro seja ainda universitário, é absolutamente triste. O que não impede que, sob sua aparência universitária, há alguma coisa que faz com que retornemos às questões precedentes: como você concebe ler um livro, qualquer que seja, universitário ou não? Há pessoas que lêem livros não universitários, {211} por exemplo Marx ou então Henry Miller, ou então Lawrence, como se fossem livros universitários. Eles fazem teses sobre isso. Mas há duas maneiras de ler um livro: ou se busca o significado do livro e, fazendo-se um esforço suplementar, busca-se o significante. Trata-se o livro como livro. Chega-se mesmo a explicar que o fim do mundo é o livro e que Mallarmé o disse bem.
Guattari: Edmond Jabès!
Deleuze: Félix e eu, em todo caso, e um certo número de pessoas, não somos os únicos, isso em nada nos importa. Há toda uma outra maneira de ler um livro, que é, uma vez mais ainda, tratá-lo em sua conexão com o não-livro. Isso quer dizer alguma coisa de muito preciso: alguém lê um livro e não se pergunta a cada página ou a cada frase: o que é que isso quer dizer? Ele lê um livro e, na minha opinião, é assim que se lê a poesia, espontaneamente, a saber: isso passa ou isso não passa. Se isso não passa, muito bem, você deixa o livro e vai ver seu psicanalista. Não há mal nisso. Não somos contra, de maneira alguma. Se isso passa, o tipo que lê não se pergunta o que isso quer dizer, o que é esse conceito, o que significa “fluxo”, “corpo sem órgãos”, apenas isso lhe diz alguma coisa. É por isso que empregamos o termo “máquina”. É do domínio da tomada de eletricidade. A máquina que não funciona, é preciso uma outra tomada ou uma outra máquina. Bem, nosso livro é isso.

Segundo encontro

Bellour : A partir do momento em que os problemas de falta são, senão resolvidos, pelo menos clarificados pela maneira com que foram postos na última vez, parece-me que se põe um problema entre o que se poderia chamar sexualidade no sentido amplo e a sexualidade em sentido estrito. A partir do momento em que a sexualidade é extensível ao campo social, coloca-se o problema do que se chama habitualmente sexualidade circunscrita ao sexo. Gostaria de compreender como o problema da sexualidade, no sentido tradicional do termo, poder ser articulado no interior da problemática de vocês. Porque, por exemplo, se a sexualidade especificamente sexual é um fluxo mais importante que as outras, isso não cria entre os próprios fluxos fenômenos de falta etc.
{212} Guattari : O termo sexualidade é mal feito. Não há fluxo assaz importante no nível da sexualidade, resultante da divisão dos sexos, pois, precisamente, já é um prelevantamento num certo sentido, uma mutilação do que se poderia chamar uma transsexualdade generalizada. Em toda parte em que se põe a questão da divisão dos sexos, isso quer dizer que já se assentou a energia desejante sobre pessoas, sobre pólos; num sentido, a própria palavra sexualidade já é uma entrada, uma avenida rumo à edipianização da energia desejante; aliás, é por isso que falamos sobretudo de energia desejante mais do que de pansexualismo ou de sexualidade generalizada. Não há uma sexualidade especificamente sexual, uma energia biológica sexual, resultado da divisão dos sexos, que seria uma zona particular da energia desejante, isso pela boa razão que as máquinas sexuais no sentido em que você as toma, são tão somente seqüências mutiladas, cortadas da energia desejante. A energia desejante não conhece sexos, não conhece pessoas, nem mesmo conhece objetos. Ela produz seus objetos e se vê assentar suas origens, se vê atribuir coordenadas sociais e sexuais, coordenadas exclusivas, limitativas e mutiladoras. Portanto, longe de ser uma fuga de energia biológica privilegiada que iria irrigar, por extensão, por sublimação, o campo social, é absolutamente o contrário : há uma energia sexual que é, digamos, transsexual, a-pessoal, que segue todos os fluxos, que se acha em seguida recodificada em termo de pessoas, de relações familiares, de eu {moi}.
Bellour : Quer dizer, por exemplo, que a sexualidade em estado hipertrofiado, tal como se pode ver em Miller, em Lawrence, nos autores que foram chamados pornográficos ou eróticos, é uma sexualidade que já lhes parece como um sistema de codificação ligado a todos os fenômenos de edipianização, de castração etc.
Guattari : Eles partem daí, de certa maneira, e todo seu processo analítico ou esquizoanalítico, toda sua experimentação consiste em poder se livrar e encontrar linhas de fuga, linhas de quebradura dessa codificação social.
Bellour : Sim, mas, apesar de tudo, em Miller, há não obstante uma especificação da energia desejante, sobre o sexo, que está aí, central, monumental. Falo de Miller porque vocês o evocaram frequentemente como exemplo essencial em O anti-Édipo.
{213} Deleuze : Creio que você acaba de colocar duas questões totalmente diferentes. A primeira questão concerne a sexualidade no sentido estrito e a sexualidade no sentido amplo. Creio que se emprega sexualidade no sentido em que todo mundo sempre empregou, no sentido de ter uma ereção, de ejacular ou não ejacular. De maneira alguma se distingue uma sexualidade estrita com pessoas, mulheres, homens, galinhas ou não importa o quê; e uma sexualidade ampliada que seria o equivalente de uma sublimação que inundaria o campo social. Diz-se: seja o que for que você amou sexualmente, o que você investiu através disso, que seja uma mulher, um homem, uma parte do vestuário, um calçado, uma galinha, não importa o quê, é um campo político social. Portanto, não estabelecemos de maneira alguma uma clivagem — isso é a clivagem freudiana — entre uma sexualidade estrita e uma sexualidade ampla que é uma sexualidade, seja neutralizada, seja sublimada, seja derivada etc.
Guattari : Uma sexualidade de objeto, uma sexualidade de referentes, se se pode dizer…
Deleuze : É nossa primeira diferença com a psicanálise. Não damos importância alguma à diferença sexual. Não damos a isso privilégio algum. Pode ser assim ou de outra forma, seja o que for que você espose sexualmente, de fato, através do objeto sexual, sexuado, seja qual for a maneira pela qual ele é sexuado — homossexuado, heterossexuado, bestissexuado — é um campo social, político. Portanto, para nós não há uma sexualidade estrita e uma sexualidade ampla. Há tão somente uma sexualidade que é a mesma em toda parte e que inunda tudo. Quando se diz, por exemplo que é sexual um burocrata acariciar seus documentos, não há a menor sublimação nisso. Essa sexualidade não se sublima no campo social; ela investe diretamente o campo social. Ela é social, política.
Bellour : Isso, de acordo.
Deleuze : A segunda questão que você coloca, quanto a Miller e Lawrence, quando você diz: “há uma espécie de concentração sobre uma sexualidade estrita”…
Bellour : Sim, mesmo que isso se panteíze, a sexualidade permanece concentrada no sexo.
Deleuze : Sim, mas isso volta a reintroduzir sua distinção estrito/amplo. Não se trata de dizer: “mesmo que isso se panteize, cosmologize”, porque é uma dimensão essencial. {214} Quando mais isso se contrai sobre o sexo, mais isso se amplia de fato no campo social e político. Da mesma maneira, em Burroughs, quanto mais isso se concentra na droga, mais isso dá um delírio social completo, com a polícia etc. Em Miller é também evidente. Quanto mais isso se retrai nas cenas de sexualidade pura, mais isso se abre ao…
Guattari : mais isso sai do familismo.
Bellour : Mas, independentemente do fato de que isso quebra o familismo, será que não se assiste a um tipo de exacerbação da sexualidade, da energia desejante sobre o sexo, sobre algo muito especificado?
Guattari : Pense, por exemplo, numa criança que acaba de se masturbar de maneira extremamente penosa, dolorosa e catastrófica, na qual ele não tem mais do que um pênis à vista. Pode-se concebê-lo, com efeito, como um tipo de retraimento da sexualidade no sentido de uma zona parcial que levanta a cabeça. Creio que, mesmo nesse caso, deve-se poder considerar que se trata de uma maneira de encontrar uma experimentação fora do campo social; a prova é que a masturbação, precisamente, é condenada enquanto manifestação de uma sexualidade fora da norma. Que a criança esteja fora de norma, indo bancar a idiota e vagabundeando na rua ou se masturbando, o que conta não é que ela está, num caso, na rua, em outros casos escondida sob lençóis, mas que ela rompe com a maneira pela qual a sociedade entende canalizar toda prática sexual no quadro do familismo ou no quadro de uma série de cadeias de integração.
Bellour : Sim, mas, não obstante, faço aí uma diferença. Quando você diz que um está na rua e que o outro se esconde, se há, me parece, um privilégio extraordinário concedido à sexualidade há um século, digamos, é precisamente por haver uma espécie de atividade perpetuamente secreta, ocultada, que se manifesta cada vez mais sob forma de transgressões e de provocações, como se a energia sexual fosse mais perigosa, mais transgressiva.
Guattari – Creio que não está ligada ao sexo. É sempre o mesmo erro de raciocínio. Se você começa por colocar o objeto e, a partir do objeto, deduzir a conduta, você falseia tudo. O desejo não tem objeto; não é um vetor que parte de uma totalidade pessoal para se fixar num objeto. O desejo recebe sua repressão personalógica e contra-determina seu {215} objeto. Digamos que ele fabrica, que ele produz seu objeto. Se você retoma esse exemplo da culpabilidade, é evidente que uma forma privilegiada da sexualidade capitalista é precisamente essa conexão com zonas privadas; não é porque você se masturba, ou que você tenha não se sabe qual preocupação concernente ao objeto parcial, que você recebe culpabilidade, é porque você tem uma prática de sexualidade culpável que você se serve de tal objeto ou de tal prática social. É totalmente o inverso, portanto. É porque o indivíduo, para se por em conjunção com fluxos desterritorializados, toma territorialidades cada vez mais parciais, culpáveis, dolorosas, masoquistas, que sua sexualidade se serve de um certo número de objetos, que ela destaca um certo número de seções do corpo, ou de práticas voyeurísticas, ou de coisas como isso. Parece-me que isso inverte completamente a perspectiva. A culpabilidade não é o resultado de uma prática sobre um objeto sexual que seria um sexo no sentido restrito; a culpabilidade é primeiramente uma prática da sexualidade privatizada, culpabilizada do capitalismo, que seleciona em seguida seus objetos no campo social.
Bellour : Mas então o que chamamos ordinariamente de sexualidade, seja ela heterossexual ou homossexual, é o que, num plano utópico, não se poderia conceber como alguma coisa de equivalente à gastronomia, por exemplo, no sentido em que esta, de um lado, se efetua num registro extremamente variado de pratos e, por outro lado, escapa completamente ao segredo?
Guattari : Isso é um juízo de valor.
Bellour: De maneira alguma. Não quero desvalorizar nem uma nem outra. É que a gastronomia supõe a escolha absolutamente livre do que se vai consumir e, de outra parte, efetua-se numa suspensão total do segredo.
Deleuze: Que haja segredo ou não, isso nada muda. Nada impede que a libido seja ramificação num campo social aberto e de modo algum num campo familiar fechado.
Bellour : A partir do momento em que se fala de segredo, já ha tendência a uma restrição sobre a pessoa…
Deleuze : Não, porque o segredo é uma forma social particular. Por outro lado, todo mundo sabe que o segredo é uma forma social muito codificada, que implica, ela própria, todo seu campo social. Isso não quer dizer redução da sexualidade ao privado, isso quer dizer coisa totalmente distinta. Isso quer dizer que as formas sob as quais a sexualidade investe o campo social passam pelo {216} segredo, mas que o segredo, longe de ser um recuo para fora do campo social, é uma certa estruturação do próprio campo social. Volto à questão para findar com o primeiro ponto, porque me tocou o que você disse sobre Miller ou Lawrence. Parece-me que, por mais que eles assentem e invistam formas sexuais não sublimadas, brutas, há, ao mesmo tempo, uma abertura maior ao mundo político, social, seja ela boa ou má, sob forma fascista ou sob forma mística, ou sob forma política real. Quero dizer que não são duas coisas na obra de Miller, o Trópico de capricórnio com suas cenas sexuais, e o Colosso de Maroussi com a Grécia, o delírio sobre a Grécia. É a mesma coisa, quer dizer ele fode a Grécia através das cenas do Capricórnio. Para Lawrence, Lady Chatterley e os Etruscos são verdadeiramente o anverso e o reverso. É à força de sexualidade não sublimada que ele se abre a um mundo histórico, social e político.
Guattari : Posso tomar um exemplo, o de Kafka: na passagem a uma sexualidade animal ou a uma sexualidade quase esquizo, longe disso ter acabado num encolhimento da sexualidade, foi através disso que ele conduziu sua análise da evolução das formas do burocratismo no período austro-húngaro e do burocratismo capitalista e modernista que começa a aparecer nos setores aos quais ele está confrontado, os seguros e o trabalho de Felice Bauer etc.
Deleuze : Para nós é muito importante que não haja uma sexualidade no sentido estrito e uma sexualidade no sentido amplo. Isso porque, se você cola uma sexualidade no sentido amplo, de uma maneira ou outra reencontrar-se-á a sublimação.
Guattari : Absolutamente. Em A Carta ao pai, Kafka diz do seu pai: quando você estava em sua boutique, em suas relações de comércio, você estava admirável. E, ao mesmo tempo, Kafka o detestava. Mas o que ele visava aí não é uma conexão de ciúmes, de posse ou de relação miraculosa entre a mãe e o pai, é um certo campo social de tirania estabelecido pelo pai.
Bellour : Minha preocupação relativamente a esse problema vem de duas coisas: primeiro, na medida em que se assiste a um tipo de privilégio, se se pode dizer, da sexualidade no sentido estrito, como vocês podem negociar esse privilégio no interior do conjunto de sua problemática; e, em segundo lugar, como isso se articula ou não com o problema do segredo, no sentido em que, na {217} conversa com Foucault, ele dizia: “o segredo é talvez mais difícil de revelar do que o inconsciente a.
Guattari : A questão toda está em que a promoção da imagem, objetos parciais, seio, falo, ou tudo o que você queira, é uma certa maneira que o capitalismo, literalmente, tem de despotenciar todos os objetos sexuais, de cortá-los de suas conexões reais. Põem-se em circulação uma sexualidade biológica ou uma promoção quase médica de finalidades sexuais, e quanto mais se está seguro disso, mais os fluxos de desejo são canalizados para esses objetos. Dão-se tanto mais sexos, seios etc que, como isso, está-se seguro de que não se falará de dinheiro. Não se falará de conexões de forças micro-políticas e outras que são constitutivas da essência do desejo.
Deleuze : Insisto sobre isso: é que o segredo de modo algum está fora do campo social, é uma categoria constitutiva do campo social. Por exemplo, as sociedades secretas. Elas não se põem fora da sociedade, são partes constituintes dela, estruturadas na própria sociedade. Uma sociedade secreta é uma certa maneira de investir o campo social de um modo particular, até mesmo sociedades de anarquistas. Mesmo sob outras formas, o próprio segredo nunca é um descarte da sociedade, é um elemento estrutural, no pior e no melhor sentido da palavra, de toda sociedade, de modo que a ideia de uma sexualidade assentada sobre um certo segredo, isto faz completamente parte da maneira pela qual a sexualidade investe um campo social.
Bellour : Mas então você não pensa que a maneira de desatar o privilégio sexual — que corre sempre o risco do assentamento numa sexualidade estrita e, em último lugar, na escolha de objeto, o familismo etc — seja justamente a ruptura desse segredo que constitui o sexual como lugar privilegiado de um gozo superior, oculto, etc?
Deleuze: Não, porque se sabe muito bem que uma sexualidade pública, que uma sexualidade comunitária pode produzir familismo tanto quanto a sexualidade privada. Conhece-se bastante as comunidades públicas ou apelos pseudo-reichianos à sexualidades liberadas que reproduzem Édipo à n potência.
{218} Guattari : Gostaria de acrescentar a isso que todo um naturalismo, toda uma boa consciência da sexualidade, através da psicologia, da medicina, da pedagogia, da educação sexual, consiste em esmagar o desejo, em cortar um certo número de objetos da diferença sexual, precisamente para cortá-los do desejo. Quanto a mim, não gosto muito do termo segredo, diferentemente de Gilles, que gosta muito dele. Mas, enfim, creio que podemos nos juntar, dizendo: o que há de secreto no desejo é que ele é absolutamente imprevisível. Não se conhece de antemão seus objetos. De modo algum se sabe sobre o quê seu processo vai desembocar. É totalmente o contrário da representação da sexualidade-satisfação da qual se conhece o objeto, da qual se conhece a queda de tensão, da qual se conhece todo o protocolo, inteiramente codificado. Não sei se é preciso chamar isso de segredo, mas a abertura do desejo no campo social, é um certo caráter de liberdade política, um certo caráter de inovação, de produção particular de objetos; e é precisamente aquilo de que o campo social não quer ouvir falar. Não se quer que tudo isso seja previsto: em tal estágio da infância, você tem tal tipo de objeto, em tal outro estágio, tal outro objeto… Se lhe falta tal tipo de objeto, é que alguma coisa não vai bem. Você tem tal zona erógena, que é normalmente desenvolvida em tal época, e não normalmente em tal outra etc. Tudo é completamente programado.
Bellour : É o que faz, então, com que uma sexualidade com suspensão do segredo seja tão perigosa quanto uma sexualidade ligada ao segredo.
Guattari : É um arranjo.
Deleuze: A diferença não está aí. Ela não está no nível privado/público, nem no nível múltiplo/uno. A diferença está na questão: será que é uma história de fluxo ou uma história de pessoas e objetos? Quando se crê amar uma mulher, o que se ama de fato através dela é outra coisa, isso é bem conhecido. Isso não quer dizer que se ama outra pessoa, que seria a mãe etc. É uma vergonha dizer semelhantes coisas, é feio. Mas, através de alguém, o que se ama é de ordem não pessoal, é da ordem de fluxos que passam ou não passam.
Guattari : Há ainda um outro modo de abordar a questão. Pode-se dizer que a produção de desejo procede segundo uma semântica a-significante. O desejo se serve de fluxos, de substâncias. Ele não se serve de maneira privilegiada de conexões formais, de {219} conexões discretizadas, bi-univocizadas, digamos de todas as semióticas significantes. O que faz com que, a cada vez que se queira fazer passar o desejo fora das substâncias intensivas no quadro de conexões formais, localizadas, coordenadas, personologizadas, dependentes do princípio de contradição etc, recai-se então nas dicotomias da sexualidade parcial.
Deleuze : Eis aí, tenho a imagem que convém. Há um conjunto de palavras, por exemplo: delirar. Delirar, isso quer dizer sair do sulco. Há também em Sade, e em toda literatura pornográfica, a palavra “desenrabar”. Desenrabar, isso quer dizer sair de alguém que se está enrabando. Desbocetar é sair de alguém em que se está. Delirar é o camponês que falha ao traçar o sulco com seu arado. Pois bem, toda sexualidade é isso. A diferença não é: segredo/não segredo, é o fato que delírio/desbocetagem/ desenrabagem sejam o estado fundamental da sexualidade. Dirige-se a uma pessoa, visa-se uma pessoa, um objeto ou não importa o quê e, através dela, isso derrapa, e isso derrapa forçosamente na felicidade ou na infelicidade. Há amor ou desejo por tal pessoa, mas através dessa pessoa, a pessoa é complemento desfeito. Félix citava Kafka. Sem dúvida, no seu caso, era preciso Felice para que, literalmente, isso desbocete, isso delire sobre tal formação social. É por isso que a psicanálise nos parece tão frágil a esse respeito. Não é a formação social que assegura uma sublimação qualquer, é a formação social que assegura as linhas de desterritorialização, de desbocetagem, de delírio etc.
Bellour : Então, último ponto sobre isso, como vocês se situam relativamente ao que se poderia chamar problema biológico da sexualidade, quero dizer relativamente à dimensão frequentemente privilegiada chamada “instinto sexual” e que se articula, em última instância, a uma biologia?
Guattari : Retomo os termos de Gilles. O que faz desbocetar, desenrabar, delirar? É o fato que, de uma substância a outra, passa-se de um certo coeficiente de desterritorialização a um outro, quaisquer que sejam as estruturas formais que se encontre. Há um fluxo qualquer, fluxo de signos, por exemplo, que tem necessidade de entrar e conjunção com um certo fluxo de carícias, de espermas, de merda, de leite… Fora dessa conexão, cada um dos fluxos é remetido a sua estrutura formal própria. A partir dessas conjunções de fluxos intensivos, um acontecimento se produz. Uma outra máquina desejante aparece {220} fora das correlações formais. Creio que é isso, o caráter biológico particular no sentido estrito de que você falava. A desterritorialização só pode entrar em ação quando ela entra nessa conjunção particular que faz saltar as soldas da máquina humana. É quando você pode fazer saltar suas soldas num plano de gozo sexual, é quando você pode entrar em conexão com tal ou qual sistema que alguma coisa opera.

Bellour : Num outro plano, vocês opuseram várias vezes os fenômenos de produção e de anti-produção, em particular a propósito de tudo o que toca o sonho, a fantasia, digamos as imagens; e fiquei impressionado pela maneira como distinguiram dois tipos de sonhos, os bons e os maus. Por que o sonho parece menos da produção do que o sono ou pesadelo, como vocês disseram uma vez? Será que vocês poderiam precisar qual estatuto atribuem — pois só parcialmente rejeitam a palavra fantasia — ao que se pode denominar como diferentes representações da vida psicológica: imagem, memória, fantasia etc. Como determinar o que é produção e anti-produção?
Guattari : É uma questão difícil. Parece-me que o interesse do sonho, da fantasia, do fantasma ou de tudo o que você queira, está em serem uma máquina para detectar porcarias edipianas. É uma máquina para detectar os sítios onde se contraem as reterritorializações, isso em virtude da própria natureza do sonho, no sentido de que é uma atividade que, por definição, tende a ser cortada de toda conexão com o real, com o campo social. No mesmo lance é como se fosse uma radiografia de todos os pontos de bloqueio. Ora, é extremamente interessante repetir esses pontos de bloqueio. Penso que o sonho, para retomar a fórmula de Freud, é a via real, não do inconsciente, mas da edipianização do inconsciente. Continuo a pensar que a análise do sonho é muito importante porque, quando você pode chegar a determinar, no sonho, por qual enganação, por qual espécie de desterritorialização, por qual tipo de identificação você vai colmatar e levar sua política fascista, devir policial consigo mesmo, isso devém um modo de ajustagem de uma outra política possível. Penso que esse tipo de ajustagem é extremamente importante. Ali onde, no sonho, se produzem esses impactos fascistas, há, {221}, precisamente no mesmo sítio, o umbigo do sonho, quer dizer, o indício maquínico de uma outra política possível. No próprio sítio em que se é o mais fascista, o mais bloqueado, é que alguma coisa pode abrir-se numa outra cadeia, pois se é tanto mais fascista no sítio atrás do qual há uma ameaça maquínica. Tudo depende do que se quer fazer do sonho. Se você quer interpretá-lo, reificá-lo, coisificá-lo na grade de interpretações, então, no mesmo lance, ele serve para reforçar uma política fascista. Inversamente, se você, mais do que interpretar, quer colocá-lo num sistema de produção, um sistema de quebradura de esquemas habituais, de esquemas reais, se você quer efetuar uma técnica de experimentação, então, mais do que alimentar uma semiótica edipianizante, você pode servir-se da semiótica particular do sonho para reforçar uma semiótica a-significante.
Bellour : Isso se junta ao texto sobre as máquinas, que vocês publicaram pela Minuit b. Vocês opõem a dissociação à associação, uma sendo de alguma maneira o sistema de eliminação que permite chegar ao outro. Mas então, nesse momento, parece-me que se coloca um problema: como se pode estabelecer uma repartição? Como uma avaliação do “sem liame” não constitui, ela própria, um tipo de retorno à interpretação? Na medida em que se opõe intensidades a estruturas, será que se pode chegar a detectar que elas são intensidades porque já não se prestam a alguma avaliação de codificação, e se elas se prestarem a isso, será que seriam de novo redutíveis em termos de estrutura? Como se põe o problema dessa repartição? Não é ainda uma operação de saber que corre novamente o risco de ser reificada?…
Deleuze : Não, é uma operação de crítica, não de saber. A crítica e o saber me parecem muito diferentes, tanto historicamente quanto politicamente. O que se tenta opor é um domínio de experimentação a um domínio de interpretação, que é o domínio da psicanálise em geral. De um lado, há uma máquina paranóica, como máquina de interpretação, que funciona em toda sorte de níveis, no nível social, no nível familiar ou conjugal…
Guattari : … no nível somático, hipocondríaco.
{222} Deleuze : Você fez tal coisa, isso quer dizer isto… Que a psicanálise não a tenha inventado, mas que ela se aproveitou disso, que ela tenha dado uma nova figura à máquina de interpretação, é evidente. E a máquina de interpretação, isso quer dizer várias coisas. O primeiro aspecto da máquina de interpretação é o significante: isso quer dizer alguma coisa. O segundo aspecto é a anamnese: o que você é, você o tem sido. Você é o que você é em função do que você era {enquanto} criança etc. O terceiro aspecto é a representação. É a conexão de força. Todos esses níveis são a conexão forças. A máquina de interpretação e a conexão de forças fazem um. É por isso que a psicanálise vive desses três aspectos. Ela dá uma figura original a três aspectos bem conhecidos que são as velhas figuras do par. Nem mesmo é preciso dizer, como dissemos em O anti-Édipo, que o lugar da psicanálise é a família. Deveríamos dizer que seu lugar é a conjugalidade. Nós, o que dissemos, é verdadeiramente o contrário desses três aspectos. Uma esquizoanálise, isso consistiria, entre outras coisas, em desfazer toda máquina de interpretação: entende-se que o que você diz, isso a nada remete, isso nada significa.
Guattari : Não é nem recursivo nem prospectivo.
Deleuze : É um dado bruto. Qual é a posição do desejo na situação atual?
Guattari : Qual política você leva? Onde você quer chegar? Quais são suas coordenadas?
Deleuze : Sim, é: experimentação = política. E não: experimentação = escola infantil. Na psicanálise isso quer dizer: escola maternal. O segundo ponto é: referência alguma ao passado, de modo algum para suprimí-lo, mas porque a constituição do passado e do presente do qual esse passado é o passado são estritamente contemporâneos. Sinto-me de novo muito bergsoniano, é perfeito. A lembrança de infância é contemporânea da própria infância. Simplesmente, há uma distorção radical entre as duas. É ao mesmo tempo que a criança fabrica suas lembranças de infância edipianas e o que Félix chama de “blocos de infância” de uma natureza totalmente distinta, porque nada tem a ver com Édipo, com a família. Nos romances de Tony Duvert há blocos de infância, no sentido em que se vê uma sexualidade infantil que nada tem de edipiano, e {223} é ao mesmo tempo que as lembranças edipianas de infância se fazem. Então, a recusa da anamnese de modo algum consiste em dizer: referência alguma ao passado. É a armadilha na qual caíram aqueles que romperam com Freud. Disseram grosso modo: “consideramos os fatores atuais, isto é, não infantis. Para tudo que é infância, Freud tem razão. Mas há problemas do jovem ou do adulto”. De modo algum nós dizemos isso. Dizemos: mesmo no nível da infância, não é como Freud o diz. O que queremos dizer é que as lembranças de infância se fazem ao mesmo tempo que a infância; o tempo em que se é criança é o mesmo no qual já se trai sua infância. Fabricamos nossas edipianas lembranças de infância: ah, meu papai, minha mamãe. De modo algum distinguimos entre fatores infantis/fatores atuais, como aqueles que romperam com Freud, como fizeram Jung ou Adler. Dizemos: mesmo no nível da infância você já encontra a mistificação, isto é, a clivagem entre estruturas edipianas e puros blocos de infância. A partir daí, foda-se a anamnese, mas de modo algum à maneira pela qual foi feito até então. Até então, isso consistia em dizer: os fatores atuais são mais importantes que os fatores infantis. Nós dizemos: nos fatores infantis há fatores atuais, eternamente atuais, e fatores virtuais. Os fatores virtuais, é a fabricação do Édipo, que são o objeto, o produto da repressão. Mas a verdadeira via da infância nada tem a ver com isso; ela é completamente atual, uma vez dito que não se sai da infância, obviamente. Mas a infância já é política. Um rapaz pensa em bombas, ele pensa em enrabar sua irmã etc, não é coisa da família, é coisa da sexualidade e do campo social. Logo, não há operação alguma de anamnese a ser feita. Há tanto menos anamnese que o tema da experimentação é: por natureza, você não sabe o que você é. O psicanalista é alguém que diz: alguém, seja eu, o bom Deus, Freud ou a memória de Freud, sabe o que você é. Ele o sabe, porque o que você é, é que você foi criança. Nós dizemos: a criança não sabe o que ela era, e tampouco o sabemos agora. O que se é, só se pode saber ao final de experimentações, como alguma coisa de futuro. Então, a experimentação voltada para o passado de uma pseudo-infância, e a experimentação voltada, ao contrário, rumo à exploração {224} de uma futura infância, opõem-se absolutamente. É por isso que gostamos tanto dos sadomasoquistas americanos que não lêem Freud. Opõe-se a memória e o esquecimento. As coisas se fazem pelo esquecimento, e não pela memória. A psicanálise procede pela memória. Nós procedemos pelo esquecimento, e não pelo despertar através do esquecido. Dizemos: quanto mais você esquece, melhor é, porque quanto mais você esquece, mais você vive. Quanto menos você sabe o que você é, melhor é. Então, na América do Norte, os sadomasoquistas dizem: você crê que você é sádico? Você crê que você é masoquista? Você crê nisso, você crê naquilo? Nada disso, você vai fazer suas experiências. Isso nos parece a boa esquizoanálise. É regozijante, com efeito, ver pederastas que dizem: sou pederasta. Toda fórmula “sou” é impossível. Talvez não sejam de modo algum pederastas, o pior pederasta que diga “eu sou, veja como eu sou” talvez seja outra coisa. E é esse o objeto de uma esquizoanálise, saber o que ele é.
Enfim, terceiro e último ponto, o da representação, razão pela qual nos opomos completamente à psicanálise, é que a psicanálise sempre consistiu em negociar, no sentido próprio da palavra, isto é, em mercadejar em troca de dinheiro, estados vividos em troca de outra coisa. Então, reencontramos aí a questão do fantasma. Nunca o fantasma foi um estado vivido, os psicanalistas bem sabem disso. O fantasma é um estado completamente fabricado, completamente traficado: é uma moeda. O psicanalista é alguém diz grosso modo: o contrato que eu lhe proponho é traduzir seus estados vividos em fantasmas, e você vai me dar dinheiro.
Bellour : Troca do sentido e do dinheiro.
Deleuze : Em troca do dinheiro. Você me dá dinheiro e eu traduzo em fantasma o que você era. Não, dizemos: o vivido é por natureza o intensivo, é coisa de intensidades que passam; e essas intensidades não são o representativo.
Bellour : Ainda assim isso produz imagens.
Deleuze : Não.
Bellour : É isso que eu gostaria de compreender, porque…
Deleuze: Assim que isso produz imagens, há greve de fantasmas, isso produz imagens quando isso se bloqueia. É um pouco como a leitura.
Bellour : Aí, viso algo de puramente elementar. Quando você está em seu leito, não importa onde, num estado de beatitude {225} relativa, e que ele lhe passa coisas, uma imagem de não importa o quê, de faca, de mulher, de…
Guattari : Quando ele lhe passa coisas, é porque você está tomado num sistema de coordenadas, é porque você tem uma posição de sujeito que se representa alguma coisa e que se situa relativamente a uma intensidade. Há, portanto, mais do que uma triangulação, há toda uma organização da representação com a imagem.
Bellour : Sim.
Guattari : Portanto, você tem a imagem e o sujeito de um lado, a intensidade do outro, mais os outros que vêm fazer a moral, quem vêm aplaudir ou vaiar. Portanto, do ponto de vista do desejo, assim que há imagem, pode-se dizer que há já cessação, curto-circuito do desejo, pois há corte subjetivo que instaurou, de um lado, a representação de imagem e, de outro, a intensidade que foi parcelada, cortada num campo de representação e num campo de produção, um campo de trabalho útil e um campo de trabalho nocivo.
Deleuze : É como quando você lê um livro. Há também aí uma conexão erótica com o que se lê, uma conexão amorosa. Quando é que você tem imagens? Não é quando você lê. Você não tem imagem quando lê.
Bellour : Você tem imagem quando pára de ler.
Deleuze : Sim, quando você as tem o bastante, quando você repousa, quando você quer refletir. Aí então as imagens vêm, é a greve do fantasma.
Bellour : Você quer dizer que o fantasma é a greve da intensidade?
Deleuze : Nesse momento as intensidades param, elas são bloqueadas.
Guattari : É a contemplação, o recolhimento, um assentamento sobre a territorialidade de imagem.
Deleuze : Quando as intensidades passam, não há imagem alguma.
Guattari : É bem simples, quando você está em vias de beijar, quando você está em vias de gozar…
Deleuze: Não há imagem.
Guattari: Se imagem alguma passa pelo canto, acabou, isso desvenda também secamente, isso não funciona de modo algum.
Deleuze : É mesmo a definição de desvendar. Você tem uma imagem, está perdido.
Guattari : Terminou.
{226} Deleuze : Ou então, você se ramifica penosamente a partir da imagem. Você diz: ah, eu preferiria que fosse com outra, mas é isso não vai bem.
Guattari : Ou então é o próprio fluxo de imagens que funciona.
Bellour : Sim, mas é isso que me interessa. Vejo bem como, em certos estados, há sistemas de bloqueio; mas me parece extremamente curioso fazer com que toda vida “imaginária”, pois ela tem produção de imagens, seja inteiramente submetida…
Deleuze : Ela é edipiana.
Bellour : … que ela seja edipiana não possa ramificar sobre os fenômenos de fluxo, ser ela própria integrada a fenômenos de fluxo.
Guattari : Sejamos claros. A imagem, de qualquer modo, estamos dentro até o pescoço. Não vamos dizer que não é preciso imagem, seríamos completamente idiotas. Estamos impregnados dela em toda parte. A questão é saber o que se faz com as imagens. Será que se faz uma política de fluxo que tende a fazer com que as imagens devenham “figural”, para retomar o termo de Lyotard, ou será que se faz uma política da imagem, a saber que, quando se tem uma…
Bellour : … guardamo-la.
Guattari : Guardamo-la. Coordenamo-la, trabalhamo-la, referimo-la a ressonâncias. Quando você vê a televisão, trata-se de saber se você interpreta, se você refere isso à lei, ao pai, a Deus etc.
Bellour : Parece-me curioso pensar que a imagem que a imagem seja completamente oponível à intensidade. Que a imagem, como fenômeno de travessia mental, não possa ser, ela própria, um fenômeno de intensidade, confesso que não compreendo.
Deleuze : Forçosamente, sim. A imagem é, por definição, uma parada nas intensidades. A imagem é coisa da extensão. É quando as intensidades, de uma só vez, transbordam em extensão, se põem em extensão para formar uma cena. É o que se chama um fantasma.
Guattari : Sujeito-figura-fundo.
Deleuze : De modo algum queremos dizer que isso não é levado por intensidades; queremos dizer que quando a imagem se desdobra em extensão, isso é o signo de que as intensidades se repousam ou estão bloqueadas.
{227} Bellour : Mas nos fenômenos de droga, por exemplo?
Guattari : São fluxos.
Bellour : Ah não, nos fenômenos de droga, sabe-se bem que você tem uma aceleração de imagens, uma multiplicação de imagens.
Guattari : Sim, são fluxos de imagens…
Deleuze : É a retomada das intensidades.
Guattari : As intensidades drenam imagens.
Deleuze : Mas, como Félix disse há pouco a respeito do sonho, há um sistema de imagens e, através dele, passa outra coisa. O que é preciso encontrar é o que se passa distintamente. A psicanálise, longe de encontrar o que se passa sob o sonho, fecha-se no sonho, num sistema de imagens e de significantes. Mais uma vez, para nós, imagem, significante, imaginação simbólica, dá tudo na mesma. No sonho há tudo isso, depois há uma corrente totalmente distinta, que não é dita no sonho. É ainda mais claro nas drogas, e isso depende do gênero de droga. Há drogas mas imaginativas que outras. De toda maneira, haverá sempre um complexo imagem-intensidade. O que nos parece chave são as intensidades não-representativas, porque as intensidades são desterritorializadoras, elas desenraizam territórios. Não se sabe mais onde se está.
Bellour : E toda imagem é forçosamente territorializadora?
Guattari : Forçosamente, uma imagem é um território. É uma operação de subjetivação, de interpretação e de territorialização enquanto tais.
Deleuze : É como quando Lewinter, na Revue de psychanalyse, explica a conexão do sonho e da tela c … Esse artigo é muito importante para nós. Isso mostra a que ponto o fantasma é uma projeção numa cena. Você tem estados vividos, que são estados de alta ou de baixa intensidade. Você traduz isso em Melanie Klein, isso dá uma fantasmagoria.
Guattari: É a diferença entre Charlie Chaplin e Buster Keaton, se você quiser.
Bellour : Compreendo bem, mas o que não está claro é quando você, Félix, emprega o termo fluxo de imagens, o que, segundo o que Gilles acaba de dizer, é aparentemente impossível, {228} pois fluxo e imagens são oponíveis, já que a imagem depende do fantasma e, portanto, do bloqueio.
Deleuze : Não há oposição alguma entre nós, creio. Porque, quando Félix fala de fluxo de imagens, é porque as imagens se precipitam a tal ponto que elas encontram as intensidades puras. As imagens do cinema, por exemplo. Não estamos em vias de dizer que o cinema seja merda por comportar imagem, ao contrário. O cinema é formidável porque pode trazer um tal fluxo de imagens, por exemplo em Godard, que reconstitui as intensidades em estado puro. Isso desbloqueia as imagens a tal ponto que se pode mesmo desbloqueá-las por um plano fixo. Não é a velocidade, nem a aceleração das imagens que faz isso, mas uma conexão de complementaridade. De modo algum há dualismo. Há uma tal conexão imagem/intensidade que, ao mesmo tempo, a imagem é a extensão que ganha uma intensidade quando morre; mas um precipitação de imagens ou bem uma imagem fixa onde se passam coisas por toda extensão; ou então uma cor atravessa a imagem e restitui completamente a intensidade através da imagem. É por isso que Félix diz que o sonho é muito importante. É preciso analisar o sonho, porque o sonho é precisamente a merda, mas, ao mesmo, é o que é atravessado pelas intensidades. O importante é atingir o que não é representativo. Então, os lacanianos acreditaram que bastaria encontrar o significante para ultrapassar o representativo. Quanto a nós, apenas dizemos: não, é ainda coisa da pura representação. O que nos interessa é descobrir as intensidades.
Guattari: Creio que é nossa história de semiótica a-significante que pode dar conta do problema das imagens, porque, no final das contas, as imagens são tomadas como suportes. Finalmente, há fugas de imagens, mas de modo algum essenciais à conexão intrínseca entre as intensidades e os signos desterritorializados que devêm agenciamentos coletivos.
Bellour : Mas tomemos, por exemplo, os textos escritos por Charlotte Brontë há setenta e sete anos, que dão testemunho de uma falta sexual evidente, que se cristalizam em truques puramente fantasmáticos de representação maciça, de satisfação derivada. E ao mesmo tempo há aí imagens escorregadias que não param de passar. As duas atividades nascem de um mesmo estado de concentração, que são tipos de estados estáticos que ela {229} cria de modo sistemático. Sozinha no escuro ela cria imagem. Às vezes isso derrapa completamente, e às vezes isso se bloqueia. Parece-me que os dois fenômenos são, ambos, muito importantes, articulados, e de modo algum exclusivos um do outro. E, portanto, não se pode dizer, no sentido um pouco brutal dito por Gilles há pouco: a imagem é merda.
Deleuze : Sim, mas aí está um pouco nossa diferença, entre Félix e mim. Felix diz: seja edipiano até o fim. Quanto mais você for, melhor será. Sonhe, sonhe, sonhe, uma vez dito que o sonho é fundamentalmente edipiano. Isso me parece muito importante. Se você não sonha, não encontraremos suas linhas de intensidade pura, não edipianas. Então, evidentemente, eu teria tendência, sendo não prático, de ser mais violento, e dizer: descubra, sob suas imundícies edipianas, alguma coisa de mais puro. Mas Félix tem, evidentemente, razão de dizer…
Guattari : Sim, creio que o Édipo tem isso de característico, que é sempre uma justa medida. É a diferença entre a técnica psicanalítica de gabinete e, por exemplo, as tentativas de Laing em Kingsley Hall. Aí a justa medida é completamente perdida, porque eles fazem um Édipo na escala de toda uma comunidade; ser edipiano, isso quer dizer permanecer na justa medida da normalização triangular com papai-mamãe ou com o analista como numa conexão muda. Se você nunca se mete a ser edipiano até a abolição, até o narcisismo, até a pulsão de morte, nesse momento aí alguma coisa muda. A característica de todo movimento romântico é que eles partem de uma posição triangulada dos objetos parciais e, em dado momento, eles tomam a tangente: eles são de tal modo edipianos — Werther é de tal modo edipiano — que eles acabam por não sê-lo de maneira alguma. A questão toda está em ir até Werther. Você vê o que eu quero dizer?
Deleuze : Meu ponto de vista é também correto. Os dois são verdadeiros, parece-me.
Bellour : Eu vejo bem, mas é um pouco fácil.
Deleuze : Quando se diz: dado um sonho, você pode, por abstração, — de maneira alguma por separação real –, separar as direções representativas e as direções intensivas, isso quer dizer que um sonho nunca é uma coisa pura, mas que há uma direção edipiana e uma direção intensiva, não figurativa, e que é preciso encontrar o intensivo sob os fenômenos extensivos do sonho.
{230} Bellour : Sim, o que me parece importante é que há, no Anti-Édipo, dois movimentos relativamente a esse problema do não figurativo. Vocês dizem que o inconsciente é não-figurativo e, por outro lado, no final do livro, vocês vêem muito bem que a arte — a arte classificada historicamente como não-figurativa — pode também ser
a mais bela armadilha à cons.
Deleuze : Ah sim!
Bellour : Relativamente ao figural — e aí a noção de Lyotard me parece importante — no sentido em que o figural ultrapassaria a oposição figurativo/não-figurativo e talvez imagem/fantasma.
Deleuze : Salvo que figural é uma palavra ruim, não para Lyotard, mas para você.
Bellour : Não é que eu goste dela especificamente, mas ela indica uma direção de ultrapassamento.
Deleuze : A direção de ultrapassamento não é abstrato no sentido de arte abstrata, porque a arte abstrata me parece completamente representativa.
Bellour : Se há uma que me parece pega na armadilha da estrutura é bem ela.
Deleuze : A verdadeira diferença passa entre o intensivo e todo domínio de extensão, seja a extensão abstrata do espaço abstrato ou do espaço representativo.
Bellour : Sobre o intensivo, há uma coisa que me dá trabalho (e isso, aliás, desde Diferença e repetição, onde você já falava disso). Se há uma ciência da extensão, a da psicologia clássica, da psicanálise, o próprio termo de “ciência da intensidade” é pensável? A estrutura pode ser assinalada, medida, quantificada, articulada. Será que a intensidade pode ser determinada simplesmente por oposição ao fato de que ela não é a estrutura e que ela não se reduz a isso? Ou é alguma outra coisa que pode quantificá-la, pensá-la?
Deleuze: O problema é de tal modo complexo que não me sinto pronto para responder. Mas vejo várias direções. Sempre houve ensaios de ciência de intensidade; seria preciso ver historicamente. Isso me parece apaixonante, porque é uma tentativa perpetuamente sufocada, que ressurge todo tempo. Houve um ensaio muito importante de ciência real de intensidade na escolástica. As quantidades intensivas desempenharam um papel muito importante no nível da física e da metafísica. Em Duns Escoto há um ensaio de ciência das quantidades intensivas no nível dos modos e no {231} nível de Deus. Eu pulo etapas. Houve um ensaio de ciência das quantidades intensivas na energética do século 19, em pura física, distinguindo a natureza das quantidades intensivas e das quantidades extensivas. O último avatar do sucesso das ciências das quantidades extensivas são as ciências humanas. Por que encalhou uma ciência das quantidades intensivas? Uma ciência das quantidades intensivas implicaria uma conexão totalmente distinta entre sua própria história e a epistemologia. A epistemologia não é conciliável com tal ciência. Ela é inteiramente feita em função das quantidades extensivas. Tudo o que foi tentado no sentido das quantidades intensivas permanece marginal, seja a acupuntura, as tentativas de física intensiva, de lingüística intensiva (do lado da escola de Hjelmslev), o papel das intensidades em música do lado de John Cage. Então, será que é possível uma ciência das quantidades intensivas? Vejo uma grande diferença entre as quantidades intensivas e as quantidades extensivas. De novo, sinto-me bergsoniano. Tomo um único caráter das quantidades intensivas. É muito simples reconhecer uma quantidade extensiva. O que você toma simultaneamente, num instante, é por definição uma unidade. A quantidade intensiva é o contrário. É uma multiplicidade que, num instante, você toma como multiplicidade. Quando você diz: faz 20 graus de calor, você não quer dizer 10 graus + 10 graus. Isso quer dizer: faz a multiplicidade 20 graus que apreendo num instante. Uma multiplicidade apreendida instantaneamente como multiplicidade é uma quantidade intensiva.
Bellour : Quando você utiliza o grau, você utiliza um sistema de codificação, é nesse sentido que eu falava do problema de uma ciência.
Deleuze : Voltamos ao tema de Félix. Assim como o sonho edipiano e as linhas não-edipianas estão ligadas, a intensidade e sua tradução em extensão estão ligadas. Uma ciência das quantidades intensivas seria uma ciência que chegaria a desprender um sistema numérico não extensivo. Isso foi feito mil vezes, e sufocado a cada vez. Os sistemas ordinais, os ensaios de interpretação de números ordinais, as tentativas de Russel, de Meinong… Não podemos colocar a questão: será que uma tal ciência é {232} possível? A questão que devemos colocar é esta: o que faz com que tal ciência tenha sido sufocada? No nível da psicanálise, parece-me que se reencontra o mesmo problema. Por que os estados vividos de um sujeito são traduzidos em fantasma?

Deleuze é interrompido por um telefonema e sai do recinto.

Guattari : Estou de acordo com o que diz Gilles, mas me sinto pouco à vontade, porque, no fundo, creio que o problema não se coloca. Uma ciência das quantidades intensivas é um absurdo. O problema é o do nexo de toda ciência com um campo político, um campo de desejo. Isso não pode ser uma ciência. Isso pode ser, sobretudo, uma política no seio da ciência, no seio da arte, da experimentação da vida cotidiana, do campo revolucionário. Alguém que propusesse uma ciência das quantidades intensivas se reencontraria na mesma posição de um epistemólogo que propusesse um tipo de metalinguagem das quantidades intensivas relativamente às ciências ou à política. Poderíamos muito bem imaginar um althusserianismo das quantidades intensivas com o mesmo resultado desastroso. É por isso que me sinto pouco à vontade. Para mim, as quantidades intensivas são o processo de desterritorialização, isto é, de conjunção de processos. Não pode haver aí uma ciência de conjunções de processos, pois é o caráter próprio de uma política.
Bellour : No artigo da Minuit sinto bem que quando, negativamente, não se pode mais associar, é que se pode ser conectado a uma máquina desejante, e não em virtude de uma dissociação positiva. Não é em virtude de um processo positivo de dissociação, mas de um processo negativo de não-associação.
Guattari : Absolutamente. Não há garantia alguma. Assim como não há garantia de um protocolo revolucionário, não há garantia de se estar numa quantidade intensiva na ordem das ciências, na ordem da arte.

Deleuze retorna.

Deleuze: Ele juntou caracteres às quantidades intensivas, não?
Guattari : Eu disse o contrário do que você havia dito.
Deleuze : Bem. Muito bem.
Bellour : Para Félix é um problema de política. Toda ciência lhe parece cair do lado de uma formalização contraditória com o próprio caráter das quantidades intensivas.
{233} Guattari : O problema das quantidades intensivas é que isso não pode ser uma ciência. É tanto o campo político quanto o campo desejante e quanto o campo da experiência revolucionária. Não se pode imaginar uma ciência que seria um tipo de epistemologia das quantidades intensivas, sobrecodificando todos os outros domínios. A constituição de um discurso científico nunca dará garantia alguma de uma consistência qualquer, de qualquer efeito que seja.
Deleuze : A epistemologia, seguramente não! Você, que fala constantemente em máquina de ciência, a máquina de ciência é de intensidade. A conexão signo-partícula é intensiva. A intensidade é a loucura da ciência.
Guattari: Como loucura da ciência? Como política da ciência, sobretudo!
Deleuze : Concordo. É o sistema signo-partícula. Não falamos dos buracos negros. São buracos de intensidade, quando os buracos são considerados como partículas mais rápidas que todas as outras partículas.

Bellour : Voltemos à . Sua realidade? Por quem? Para quem? Quando? Onde? Como? Até quando?
Guattari : Emprego uma fórmula que utilizo diante de semelhante questão: se alguma vez a esquizoanálise teve de existir, e já existe, mas não pode aparecer no quadro de uma escola, de uma sociedade constituída, de uma corrente, de pressões. Ela só pode ser a conjunção de diferentes experiências locais, de tomadas em consideração do desejo, quer se trate de um instrutor na sala de aula, de uma comunidade que muda seu modo de vida, de um psicoterapeuta em seu consultório, de um grupo de cuidadores num hospital psiquiátrico, de um grupo de militantes que queiram mudar as conexões em suas práticas. Se, num dado momento, há conjunção de diferentes práticas concernentes ao desejo, que fazem com que haja conjunção de uma crítica da burocratização da organização, crítica das conjunções pedagógicas opressivas, das conexões alienantes sugeridas por contratos psicoterapêuticos, então se constituirá uma atividade de análise que será uma interseção de toda uma série de lutas políticas. Ao mesmo tempo, a esquizoanálise será o fato de grupos ou de indivíduos que seriam simultaneamente militantes e analistas, — isto é, totalmente o contrário de pessoas que tirariam sua legitimidade da cooptação de uma sociedade de psicanálise, — {234} ou de gente que segmentaria o campo de sua prática privada, de sua prática terapêutica com leituras significantes relativamente ao campo de lutas revolucionárias. A está em toda parte em que essa questão se coloca, se é que ela se coloca.
Deleuze : Na esquizoanálise há princípios muito gerais. Não se trata de uma coisa que estaria na base de uma escola analítica. Do que se trata? Trata-se de um pequeníssimo número de princípios. Busca das intensidades. Não-figurativo. Inconsciente não-edipiano. Experimentação contra interpretação. Esquecimento contra anamnese. Supressão do eu {moi} e da subjetivação. Enquanto o psicanalista diria, sobretudo: retorne ao seu eu {moi}. Nós dizemos: você ainda não dissolveu suficientemente seu eu {moi}.
Guattari : Nada de neutralidade. Politização. Engajamento na própria estrutura em que as pessoas estão presas.
Deleuze : Não alguém metido a competente.
Bellour : Isso vem a dizer que não importa quem pode ser esquizoanalista.
Deleuze : Não, não importa quem.
Bellour : Não importa quem, mas todo mundo.
Deleuze : Todo mundo, que seja.
Guattari : Grupos militantes, grupos-sujeitos.
Deleuze : Creio que há um ponto essencial na diferença entre esquizoanálise e psicanálise. O golpe genial de Freud foi descobrir o inconsciente e ser inimigo do inconsciente. O inconsciente é o que é preciso reduzir pela análise. Félix diz muito bem que nosso problema é totalmente outro, contrário desse: em que condições pode-se produzir inconsciente? Aí, vê-se bem a diferença teórica e prática entre a psicanálise e nós. Para nós, não há inconsciente. Para a psicanálise, há um inconsciente. Você tem um no dorso, e eu quero interpretar você. Quanto a nós, dizemos: aí não há o inconsciente, e eu quero tentar fazê-lo em você. O problema é: em quais condições, alguém cujo inconsciente está por natureza sufocado, reprimido, e não recalcado, cujo inconsciente não existe, em quais condições esse inconsciente pode ser produzido. Vê-se que todas as instâncias sociais, aí compreendida a psicanálise, são feitas para impedir a produção de inconsciente. Quando Félix analisa as instâncias ditas terapêuticas da setorização, vê-se muito bem, em nível concreto, que tudo é feito para que o tipo {235} que vai ao psicanalista, por natureza, não tem chance alguma de falar. Ele pode falar, mas não tem chance alguma de fazer passar o menor enunciado no que ele diz. Isso porque é imediatamente tomado numa máquina na qual, seja lá o que ele diga, está sufocado de antemão. De antemão, ele está perdido. Por mais que ele grite, por mais que ele urre… É por isso que, quando Green nos censura por não levarmos em conta sofrimentos do neurótico, isso é bizarro, porque, por mais que o neurótico grite no divã, nada se passa. Não é que nada se passe por erro, é que o sistema da psicanálise é feito para que nada se passe.
Guattari : Tudo é assentado sobre uma rede preestabelecida na qual o apogeu da interpretação devém isto: tudo o que diz o tipo se limita ao silêncio do analista, pois é a mais forte interpretação. É mesmo uma intensidade de alta sedução, pois o silêncio do analista devém música celeste. É a resposta a tudo o que pode se apresentar . É uma música muito sedutora, pois é uma música de morte.
Deleuze : Sim, é uma música de morte.
Guattari : A pulsão de morte é o silêncio do analista. Então, essa efetuação suprema da análise no silêncio… e custa caro semelhante silêncio! Em vez disso, uma multiplicidade sendo dada, um tipo vem: o que se poderia colocar bem em conexão para que sua conexão com o desejo seja de outra natureza? Em vez de se colocar o problema: o que é preciso suprimir da situação? O que é preciso reduzir? Para nós é: o que é preciso complexificar? Como tornar mais complexo os complexos, por conexão real de máquinas reais para que haja outras engrenagens, outras ramificações? Qual é o papel de um grupo analítico ou de um analista? É o de ajudar a decifrar as potencialidades de conexões. Registrar, marcar que certas coisas poderiam ser experimentadas mais tarde, que talvez o próprio analista pode colocar aí algo seu, pode encontrar engrenagens, pode intervir.
Bellour : Alguém ou um grupo vem ver quem? Onde?
Guattari : Pouco importa. Esse não é o problema. Isso pode ser uma escola, um grupo de militantes, um consultório de grupo ou um tipo sozinho. Não é porque sendo grupo será melhor. Um grupo pode ter a pior política. Pode-se ver grupos de psicoterapia familiar.
Bellour : A partir daí, você sente como total a permissividade?
{236} Deleuze : Total.
Bellour : No sentido de que qualquer um possa se erigir, produzir-se como esquizoanalista?
Deleuze : Completamente, pois Félix diz muito bem: a diferença de natureza não está entre análise dual e análise de grupo. Ele tem completamente razão. A diferença está totalmente alhures. Por exemplo, o MLF nt faz interpretação maciça, abominável. Não pára de interpretar. Em troca, concebe-se uma conexão dual que não seja interpretativa. E bem mais, pensa-se que o incesto irmão/irmã é uma escapatória esquizoanalítica completamente diferente de toda conexão edipiana. Isso pode verter no Édipo, se a irmã é o substituto da mãe, e isso pode abrir coisas fantásticas. Aí não há regra alguma. A regra está no nível da interpretação: será que eu interpreto ou será que eu não interpreto? É por isso que não são princípios abstratos. Ora, não interpretar implica uma ascese, uma disciplina fantástica, uma espécie de yoga…
Guattari : uma permanente micro luta de classe.
Deleuze : Desde que haja interpretação, há merda. Ah, você fez isso? Por quê? É o contrário da liberdade. A velha oposição determinista/liberdade deve ser transposta em interpretação/experimentação. Experimentação não quer dizer: eu jogo com você. Isso quer dizer: eu tento alguma coisa com você, que de modo algum é uma renovação relativamente à sua infância. Mais uma vez, nossa dualidade não passa por infância/adulto. Quem é esquizoanalista? Não importa quem relativamente a não importa o quê, com a condição que isso não passe pelo contrato ordinário. Se você pergunta: qual é a posição de Félix relativamente à sua situação de analista? Ela é análoga à minha posição de professor. Fazer passar o máximo de coisas possíveis através de uma estrutura já existente, apelando ao que as pessoas fazem alhures. Elas não nos esperaram. Quando dizemos que não queremos fazer escola, é claro que fazê-lo seria uma cagada tal que não poderíamos fazer mais nada.
Guattari : Não somos capazes disso.
Deleuze : Não somos capazes, não estamos afim. Não é nosso caso. Em troca, quanta gente em seu canto inventa esquizoanálise, é muito evidente.
Bellour : Vocês promovem, como sendo produtivo, unicamente a possibilidade de uma espécie de poli-explosão, o fato de que isso possa se passar {237} nos quatro cantos da sociedade e da geografia, sem qualquer possibilidade de racionalização?
Deleuze: Nós somos os primeiros a anunciar alguma coisa que se passa e que não nos esperou, a saber que as coisas não mais passarão pela leitura de Freud e da psicanálise, mas passarão pela experimentação, o que os norte-americanos fazem há muito tempo: as coisas se farão pela não-cultura e não pela cultura.

Bellour : Tenho uma questão relativamente às crianças. A família: como organizar sua destruição? As crianças: como elevá-las? Será preciso fazê-lo? Como e com quem?
Guattari : Quem se importa.
Deleuze: Não se sabe. A questão está regulamentada. Nenhuma ideia a ser dada. Salvo o que dissemos anteriormente, que me parece muito importante: o tempo em que a criança faz suas lembranças edipianas de infância é o mesmo tempo em que ela leva sua infância não-edipiana.
Bellour : Eu dizia isso relativamente à fatalidade do sistema no qual as crianças nos tomam e são tomadas.
Deleuze : Não há fatalidade do sistema no qual elas estão tomadas. O que elas fazem? Elas sonham com a bomba. Julien, meu filho, com o quê ele sonha? Ele sonha com petardos, explosão, e isso não é edipiano.
Bellour : Elas têm problemas com seu papai, e isso é edipiano.
Deleuze : É porque elas fabricam suas lembranças de criança ao mesmo tempo. É preciso distinguir bloco de infância — fórmula de Félix — e lembrança de infância. Então, Freud, os freudianos e os dissidentes de Freud têm posto sempre a questão: não há lembranças de infância que vêm após a infância, mas que são retrojetadas?
Guattari : As lembranças-telas…
Deleuze : É completamente idiota isso.
Guattari : Há tão somente lembranças-telas…
Deleuze : … e elas são fabricadas no próprio momento. Então, quando meu filho me diz: “eu quero explodir você, papai”, ou quando minha filha dorme no meu leito, é edipiano, os psicanalistas têm razão. Isso já é lembrança de infância. Ela o fabrica ao mesmo tempo. Ela já está na lembrança. É para quando ela terá trinta anos: ah, eu dormia no leito de papai!
{238} Guattari : Ela prepara seu porvir.
Bellour : Como se pode batalhar para mudar isso?
Deleuze : Não é preciso batalhar para mudar isso.
Guattari : É preciso fazer outra coisa.
Deleuze : O que conta é liberar os blocos de infância o máximo possível, em oposição às lembranças de infância, uma vez dito que as lembranças de infância se fazem ao mesmo tempo que os blocos de infância. Os blocos de infância, é quando meu filho diz: “eu quero explodir o liceu Chaptal”, e não “eu quero explodir papai”, pois são os dois ao mesmo tempo que ele quer. Aí, também, há sempre essa mistura, essa ramificação no campo social que os psicanalistas ignoram completamente. E quando ele diz: quero explodir o liceu Chaptal, ele não quer dizer: quero explodir papai. E quando minha filha dorme em meu leito, ela não quer dizer: quero fazer amor com papai. Ela quer dizer isso, mas ela quer dizer outra coisa também. Eu quero fazer por mim alguma coisa, quero fazer minha própria vida etc.
Bellour : E você pensa que não é preciso lutar contra um…?
Deleuze : Seguramente não.
Bellour : … mas, a partir de um, liberar o outro?
Deleuze : Evidentemente.
Bellour : … e tentar lutar certamente muito contra um o faz ressurgir tanto mais?
Deleuze : Completamente. O problema não está aí, com efeito. Que seja numa família unida ou desunida, no internato, em sociedade, os mesmos dois aspectos se apresentam. Para cada caso, encontrar a saída, se possível.
Bellour : O que há de surpreendente é que na experiência cotidiana, material, o que mais fortemente se sofre, o que mais se percebe como atual, paradoxalmente, na conexão com a criança, é infelizmente o que salta da lembrança.
Deleuze : Evidentemente. Pois a sociedade toda é feita para isso. A sociedade toda é feita para dizer à criança: é com seu papai e com sua mãe que você tem de se haver. Não é de admirar. O liceu é bom, é sagrado e se você o ataca é por causa do seu pai e de sua mãe. A psicanálise serviu antes de tudo para isso. A criança é inteiramente orientada rumo a isso: o professor é a imagem do seu pai.
Bellour : Você não pensa que a família, não a família simbólica, mas a família real, favoreça de modo incrível esses processos?
{239} Deleuze : Sim, evidentemente. Mas, com isso, ela preenche tão somente sua função social. Sua função social é derivar toda agressividade política da criança, uma vez dito que a criança é política desde seu nascimento. A criança é politizada desde seu nascimento, enquanto criança pobre ou rica. Ela é sexuada política. Freud diz: a criança é sexuada, mas ela não é política. Não a torne política. Quanto a nós, dizemos: ela é sexuada política. Não há sexualidade sem política. Ser sexuado, isso quer dizer viver como rico ou como pobre. Discernir uma menina é discerni-la como filha do patrão ou do barman etc. Não dizemos outra coisa. Se a psicanálise não atinge isso, então a psicanálise é uma merda. A sexualidade de uma criança não está no quadro familiar, é a criada, a mulher rica, a mulher pobre. Desde que nasce, ela discerne isso. Portanto, ela é sexuada política. A esquizoanálise é feita não importa onde, não importa quando, com não importa quem, sem contrato, sem transferência.

Quatro poemas de William Carlos William. Acerca de WCW ver o filme Paterson de Jim Jarmush.

POEMA

Ao trepar sobre o tampo do armário de conservas

o gato pôs cuidadosamente primeiro a pata

direita da frente depois a de trás dentro do vaso

de flores vazio.

***

O CARRINHO DE MÂO VERMELHO

tanta coisa depende
de um
carrinho de mão
vermelho
esmaltado de água de
chuva
ao lado das galinhas
brancas.

***

A DURAÇÃO

Uma folha amarfanhada
de papel pardo mais
ou menos do tamanho
e volume aparente
de um homem ia
devagar rua abaixo
arrastada aos trancos
e barrancos pelo
vento quando
veio um carro e lhe
passou por cima
deixando-a aplastada
no chão. Mas diferente
de um homem ela se ergueu
de novo e lá se foi
com o vento aos trancos
e barrancos para ser
o mesmo que era antes.

***

RETRATO PROLETÁRIO

Mulher jovem corpulenta sem chapéu de avental
Cabelo puxado para trás parada na rua
A ponta do pé descalço tocando a calçada
Sapato na mão.
Olhando-o atentamente
Retira a palmilha de cartão
para achar o prego
Que a estava machucando