somos uma espécie em viagem

Assim que ficamos em dois pés
Começamos a migrar pela savana
Seguindo a manada de bisões
Além do horizonte
Para novas terras, distantes
As crianças nas costas expectantes
Os olhos alertas, tudo ouvidos
Farejando aquela desconcertante paisagem nova, desconhecida

Somos uma espécie em viagem
Não temos pertences mas bagagem
Vamos com o pólen, no vento
Estamos vivos porque estamos em movimento
Nunca estamos quietos, somos transumantes
Somos pais, filhos, netos e bisnetos de imigrantes
Mais meu é o que eu sonho que o que eu que toco

Eu não sou daqui
Mas você tampouco
Eu não sou daqui
Mas você tampouco
De lado nenhum, de todo
De todos os lados um pouco

Atravessamos desertos, geleiras, continentes
O mundo inteiro de extremo a extremo
Obstinados, sobreviventes
O olho no vento e nas correntes
A mão firme no remo
Carregamos nossas guerras
Nossas canções de ninar
Nosso rumo feito de versos
De migrações, de fome
Assim desde sempre, desde o infinito
Fomos a gota d’agua viajando no meteorito
Atravessamos galáxias, vácuo, milênios
Procurávamos oxigênio, achamos sonhos

Assim que ficamos em dois pés
Nos vimos na sombra da fogueira
Ouvimos a voz do desafio
Sempre olhamos para o rio
Pensando na outra ribeira

Somos uma espécie em viagem
Não temos pertences mas bagagem
Vamos com o pólen, no vento
Estamos vivos porque estamos em movimento
Nunca estamos quietos, somos transumantes
Somos pais, filhos, netos e bisnetos de imigrantes
Mais meu é o que sonho que o que eu que toco

Eu não sou daqui
Mas você tampouco
Eu não sou daqui
Mas você tampouco
De lado nenhum, de todo
De todos os lados um pouco

O mesmo com as canções, os pássaros, os alfabetos
Se quiser que algo morra, deixe-o quieto

 

 

Em 2007, Laboratório de Sensibilidades, Inteligência Coletiva.

LABORATÓRIO DE SENSIBILIDADES, INTELIGÊNCIA COLETIVA,

CLUBE DOS SABERES

 

Sidnei José Casetto*

Alexandre de Oliveira Henz*

Jaquelina Maria Imbrizi*

Angela Aparecida Capozzolo*

 

[…] porque toda gente tem que não ter cabimento, para crescer.

Arnaldo Antunes

 

        Há instituições universitárias que têm o ideal de serem “centros de excelência”, em que se formem os melhores profissionais e em que se produza conhecimento de ponta. Percebida como vocação natural, pouco se destaca que esta aspiração, entretanto, favorece um modelo excludente, pois os excelentes são – e devem ser – poucos. Valorizam-se a especialização e particularmente a autoria de trabalhos como indicadores do desenvolvimento acadêmico, o que estimula a constituição de ilhas de produção em dinâmica industrial. O científico tende a ser naturalizado, o ensino a operar na lógica empresarial, o cognitivo a hipertrofiar-se e o tempo a acelerar-se de forma vertiginosa.

        Em corolário, um certo tipo de saber costuma tornar-se hegemônico, assim como a demarcação clara entre quem o domina (e pode transmiti-lo) e quem o necessita (e precisa recebê-lo). O cotidiano universitário desenha-se nestas grandes linhas, reforçando o ensino verticalizado, o preenchimento máximo da “grade horária”, a preferência por um perfil competitivo no mercado de trabalho, e a impaciência dos estudantes com conteúdos que não tenham aplicabilidade imediata. Sabe-se que o fato de se ter jovens nas universidades não garante a possibilidade de uma configuração nova e inventiva. Em muitas situações a juventude também pode compor com a mais conservadora das culturas. Para uma grande parcela dos que ingressam na universidade, não se trata apenas de cuidado com a sua formação, pois já chegam aos cursos demasiadamente formados: muito jovens e fechados em certezas. Mas a questão não é apenas da juventude; em alguma medida trata-se do desafio de deformar, de abrir espaço na forma, de tornar porosa a blindagem a que todos – não só os jovens – estamos submetidos.

        De reuniões semanais no segundo semestre de 2006 de um grupo de estudantes, técnicos e professores da UNIFESP – Baixada Santista, preocupados com o tema da universidade pública e a formação ampliada, surgiu a proposta da Inteligência Coletiva – Clube dos Saberes, como uma estratégia de circulação de conhecimentos distribuídos indistintamente entre os seus componentes. A idéia era, numa instituição de espaços e funções bastante demarcados em relação ao saber e ao poder, como a universidade, criar uma outra ágora de intercâmbio de conhecimentos, reconhecendo as singularidades e favorecendo a desierarquização dos sujeitos. Pretendia-se também abrir espaço para saberes não valorizados na academia, mas que sobrevivem pelo cultivo das pessoas em territórios estrangeiros ao universitário. Todas as atividades seriam livres.

        Começamos com um mural em que havia três colunas: “quero aprender”, “posso ensinar” e “atividades agendadas”, colocado em um ponto estratégico na entrada do prédio em que ocorriam as aulas. As pessoas começaram a preencher as duas primeiras colunas, deixando seus telefones de contato e e.mail. Houve uma aceitação rápida à proposta, principalmente dos alunos. Naquele início imaginávamos em fazer cruzamentos entre as duas primeiras colunas, e o “ensinante” (o nome que demos) faria contato com os interessados inscritos e marcaria uma data de encontro. Constatamos logo a dificuldade deste procedimento, sobretudo num ambiente em que tempo livre e comum é, das coisas, uma das mais raras. Aprendemos que o mais funcional era o ensinante oferecer algum dia/horário conforme a sua disponibilidade e fazer o trabalho com quem viesse. O mural foi então modificado para apenas duas colunas: “quero aprender”, em que se mantém o registro das demandas, como um termômetro do que está sendo procurado, e “atividades agendadas” em que a pessoa escreve diretamente a proposta da atividade: dia, hora, local e o seu nome.

        O movimento de inscrever-se para ensinar algo, porém, isto também aprendemos, não se dá de forma tão espontânea. Tem sido necessário conversar com as pessoas, perguntar por seus gostos e saberes, apontar que seriam de interesse para outros, e, freqüentemente, ir com elas até o mural para marcar a atividade. Mas percebe-se que, via de regra, não é preciso insistir: é como se esperassem apenas por uma confirmação de que aquela sua habilidade poderia ser bem aceita, ou que aquilo que lhes dá muito prazer investigar, conhecer e fazer poderia ser reconhecido naquele ambiente.

        As atividades têm ocorrido na forma de encontros únicos, renováveis em outras edições, e abrangido temas bastante diversos como: preparo básico do chimarrão; tricô com os dedos; noções básicas de boxe; I Ching; a família das cordas: violino, viola e violoncelo; o som do contrabaixo; a música de Mercedes Sosa, oficina de teatro; de dança do ventre; de ioga, de percussão corporal, etc. Até agora a maioria dos ensinantes foram alunos; mas também professores, técnicos e mesmo pessoas de fora da universidade vêm participando. Temos a impressão de que já se está criando uma cultura de ofertas no clube, embora ainda seja necessário seguir agenciando saberes não acolhidos no campus.

        Em paralelo, pensamos na criação de um espaço em que se pudesse fazer contato e experiências com linguagens do registro da arte: gráficas, sonoras, visuais, eletrônicas, etc. A idéia era a de um espaço que reunisse obras e meios de diversos suportes e referenciais estéticos, com o intuito de que os seus freqüentadores pudessem exercitar sensibilidades ainda não exploradas. Supunha-se que, com isso, se poderia aumentar o grau de recepção e tolerância de formas de vida, em si e conseqüentemente nos outros. Supunha-se também que as atividades neste espaço, que chamamos de Laboratório de Sensibilidades, poderiam criar canais de expressão e significação de vivências do cotidiano acadêmico, demasiadamente compartimentalizado e pouco implicado com o impacto afectivo gerado nos sujeitos. Em síntese, imaginávamos um campo que pudesse alargar o sensível, com conseqüente redução das defesas que costumam fechar este trânsito, ao mesmo tempo em que oferecesse recursos para lidar com tal ampliação.

        Esta proposta foi sustentada pelos cursos de psicologia e terapia ocupacional, e pelo eixo do trabalho em saúde, um dos eixos comuns aos cinco cursos do campus, e com isso, extensiva a todos os estudantes, além de técnicos, professores e pessoas da cidade. Ela nos parecia capaz de tornar-se um apoio importante à formação de profissionais que trabalhariam com o sofrimento e a saúde. Mas pensávamos no Laboratório também como um articulador de redes, um germinador de produções, e sobretudo como um espaço de múltiplas potencialidades, que aos poucos iríamos conhecendo.

        Um novo prédio teve que ser alugado para comportar um número maior de alunos, e com isso tivemos a oportunidade de ocupar uma de suas salas com o Laboratório. Sua inauguração, em março deste ano (2007), ocorreu com uma exposição, em grande formato, de um conto de Guimarães Rosa, poemas de Manoel de Barros, audiobooks diversos, um vídeo da Pina Bauch, uma oficina de palhaço e uma performance. Desde então, vem sendo aberto principalmente em horários de almoço, de intervalo de aulas e fim de tarde, além do período de uma tarde inteira, e oferece materiais gráficos para desenho, alguns instrumentos musicais (violão, flauta), áudios e vídeos. Temos feito semanas temáticas, como uma dedicada à Clarice Lipector, e outra que ainda será elaborada sobre Manuel Bandeira. Temos passado filmes, e deixado um acervo de entrevistas com escritores e artistas, e diversos outros materiais à disposição. Os freqüentadores mostraram-se ávidos em desenhar, pintar, manifestar-se. Muitos desenhos feitos já decoram a sala, e em alguns varais pendura-se uma produção sempre renovada.

        Contamos com um estudante monitor que tem ficado mais presente no espaço e organizado as atividades em conjunto com monitores de outros módulos e colaboradores. Rapidamente notamos o grau de sua importância. Assim como no Clube dos Saberes, também no Laboratório o acesso aos materiais e propostas solicitava a mediação de alguém. Tem sido preciso facilitar o acesso à sala, convidando, apresentando, mostrando mais de perto. Como se fosse necessário uma ambientação que pudesse dar alguma segurança, em função dos riscos que se pressente naquele aventurar-se.

        Uma união imprevista, mas não surpreendente, ocorreu entre o Clube e o Laboratório, na medida em que as oficinas do primeiro passaram a ser marcadas e ocorrer, via de regra, no segundo. Havia, poderíamos pensar, a necessidade de um espaço que circunscrevesse as idéias às vezes pouco convencionais do Clube, sem considerar que seria preciso que acontecessem em algum lugar. Mas muitas salas de aula estavam disponíveis, e nunca pareceram locais bem afinados com as ensinuações que foram sendo propostas. Era possível entender o motivo. As oficinas do Clube que ocorrem no Laboratório convidam à experimentação, ao prazer e à dor de assumir diferentes formas, de ir se construindo e se destruindo no contato com histórias e sínteses antes desconhecidas. Convidam a uma aventura do sensível por dentro e por fora das necessidades pragmáticas e subjugadas de nossa inteligência e percepção, colocando em litígio o supostamente acabado, desfazendo essa forma e produzindo outras, imprevisíveis, indeterminadas. Por exemplo, três alunas não praticantes participaram da oficina de boxe; outros arriscaram-se em instrumentos musicais nunca antes por eles tocados, como o violoncelo; lançaram-se em danças como a do ventre; nausearam-se com o cheiro de peixe na performance realizada; experimentaram novas possibilidades de si no teatro ou na percussão corporal; acompanharam, surpresos, o resultado de um desenho que faziam sem destino; “perderam tempo” assistindo a arte erótica dos Bálcãs.

        Com o Laboratório e o Clube instaurou-se um espaço de partilha do sensível e produção de conhecimento, mas numa espécie de paralelo à da exigência da produção de papers e da contagem de pontos nos curricula e relatórios acadêmicos. Na lógica que articulamos com o Laboratório, se tivermos que contar pontos será para preservar esse nicho de desregulagens: já que temos a oportunidade de experimentações com sensibilidades, uma coisa de cuja utilidade se duvida, aproveitamos para solapar alguns imperativos ditos racionais: desertando a pressa, a produtividade, a concorrência, a previsibilidade, a especialização custe o que custar. Podemos ali exercer, treinar, mesmo aproveitar para a sala de aula pequenas táticas contra as reificações, exercícios de invenção, de paciência, de lentidão, de gratuidade, de atenção, de angústia aceita, de dúvida, enfim, exercícios de sensibilidade e de resistência.

        Esperamos, com estes trabalhos, poder acompanhar o que está desistindo e o que está se gestando no registro do sensível, o que exige disponibilidade não só para as formas acabadas que parecem definitivas, mas especialmente para as forças todas do coletivo que vão produzindo novas formas de pensar, sentir e colaborar. Essa esfera do sensível é, paradoxalmente, invisível, imperceptível, impalpável, às vezes molecular. O que não significa que seja para iluminados ou videntes, nem que sejam segredos ocultos por trás, e sim coisas para as quais não estamos disponíveis, saturados pelas formas acabadas, resistentes a experimentar as fissuras, os movimentos, os desfazimentos…

        Percebe-se, assim, a dimensão política desta proposta estética e de gestão de saberes, ainda que não pelas vias tradicionais da militância. Donde se poderia perguntar pelo lugar institucional do Laboratório e do Clube, ao mesmo tempo inseridos na universidade com sua lógica e dissonantes dela. Pois ambos, na contramão de seus objetivos, não poderiam tornar-se campos de alívio das tensões produzidas nas relações acadêmicas, para que se fuja da agonia? Não funcionariam como ladrões da energia que criaria rupturas se deixada em seu lugar? E mesmo sobre a arte, não fariam dela um espaço caricato? Ou de admiradores passivos, mais do que de seus reinventores? Que fetichize as obras? Que estabeleça novas dicotomias belo e feio, bom e mau?

        Não temos nenhuma garantia de que isso não acontecerá; lançadas à existência, estas ações podem mesmo, vez ou outra, assumir configurações como estas. Provavelmente, o caráter contraditório que parece lhes ser próprio manifeste-se pela criação de um sem número de possibilidades, do extremo da crítica ao da conservação. Mas talvez este seja a mais fecunda de suas qualidades. Pois a estabilidade, mesmo que num ponto considerado “excelente”, corresponderia ao acabamento da forma. O cruzamento de forças que sustenta a vida não deve ser amortecido numa estrutura fixa. É o mínimo que podemos aprender com o mar, superfície instável e inconstante, diante do qual fica nossa universidade.

 

A alma não deve acumular defesas à sua volta. Não deve retirar-se para procurar o céu dentro de si, em êxtases místicos. Não deve clamar por um Deus transcendente, pedindo para ser salva. Deve fazer-se à estrada larga, à medida que a estrada vai se abrindo ao desconhecido, na companhia daqueles cuja alma os leva para junto dela, nada realizando além da viagem, e das obras inerentes à viagem, à longa viagem de uma vida inteira rumo ao desconhecido, através da qual se realiza a alma, nas suas subtis simpatias (Lawrence, 1994, p.27).

 

REFERÊNCIAS

 

CHAUÍ, Marilena. A universidade em ruínas. In: Trindade, Hélgio (org.). Universidade em ruínas na república dos professores. 1ª edição. Petrópolis: Vozes/Cipedes, 1999.

 

DELEUZE, Gilles. Post-scriptum para as sociedades de controle. In: Conversações 1900. Tradução de Peter Pál Pelbart. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.

 

LAWRENCE, D.H. Walt Whitman. Tradução de Ana Luísa Faria. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 1994, p.27.

 

MOURA, Arthur Hyppolito. A psicoterapia institucional e o clube dos saberes. São Paulo: Hucitec, 2003.

Abril indígena – Sesc São Paulo

Ver programação completa: https://www.sescsp.org.br/programacao/184643_ABRIL+INDIGENA#/content=programacao

 

Dia 18 de Abril das 19h às 21h30 – SESC PINHEIROS

Gênero e Etnicidade – O Protagonismo da Mulher Indígena

COM KAIULU KAMAIURÁ, GLICÉLIA TUPINAMBÁ, PAGU FULNI-Ô E CHIRLEY PANKARÁ

A partir da década de 1990, as mulheres indígenas começam a criar suas próprias organizações ou departamentos de mulheres dentro de organizações indígenas já estabelecidas. Os encontros de mulheres indígenas de diferentes etnias tem se tornado mais frequente, elas estão ampliando sua articulação nos espaços políticos dos povos indígenas, na busca e reivindicação de direitos próprios de seu gênero e fortalecimento de antigas lutas de seus povos.

Com
Kaiulu Kamaiurá
 – Presidente e fundadora da Associação Yamurikumã das Mulheres Xinguanas, que tem por objetivo trabalhar o empoderamento das mulheres xinguanas através de formação e informações.

Glicélia Tupinambá – Presidente da Associação dos Índios Tupinambá da Serra do Padeiro (BA). Diretora do documentário Voz das Mulheres Indígenas. É representante dos Tupinambá nas Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres – ONU Mulheres.

Chirley Pankará – Mestre em Educação pela PUC/SP. Foi Coordenadora Geral do Centro de Educação e Cultura Indígena, dos Guarani  de São Paulo. Em 2019 assumiu como CoDeputada Estadual pela Bancada Ativista, também em São Paulo. Atualmente é doutoranda em Antropologia na USP, onde desenvolve a pesquisa “Saberes e práticas na escola indígena no Jaraguá: uma etnografia do saber, viver e aprender do povo Guarani Mbya” na linha de Etnologia.

Mediação
Pagu Fulni-ô 
– Socióloga formada pela USP, Assessora Parlamentar na empresa Câmara Municipal de São Paulo e educadora na Aldeia Indígena Fulni-ô, em Pernambuco.

Mulheres Indígenas: representação e visibilidade. Com curadoria de Cristina Flória e Jailton Carvalho, este projeto tem por objetivo colaborar no diálogo e reflexão sobre as ações das mulheres indígenas em suas comunidades e fora delas, suas atuações no âmbito da educação, saúde, desenvolvimento profissional e empoderamento político.

Local: Sala de Oficinas (2º andar).
Inscrições no local 30 min. antes.
Livre. Grátis.

 

 

Dia 20 de Abril das 15h às 18h – SESC VILA MARIANA

Toré Pankararu

BATE-PAPO E INTERVENÇÃO SOBRE O RITUAL INDÍGENA

Intervenção de Toré Pankararu com integrantes dessa etnia indígena, que vivem na região do Real Parque em São Paulo.
A atividade engloba um bate-papo com informações sobre os rituais e ornamentos típicos e específicos da etnia Pankararu, contextualizando o uso das vestimentas e apresentando os ritmos e danças. Após o bate-papo haverá uma apresentação adaptada para o espaço do Sesc Vila Mariana do Toré Pankararu, com a Dança dos Praiás.

O Toré é um ritual que une a comunidade através da dança, do canto, da religião. Nos aproxima do sagrado, é o jeito mais concreto de agradecer a Deus e aos Encantados. No Toré do povo Pankararu, existem as figuras muito importantes: os Encantados (representados pelos Praiás), os zeladores dos Praiás, contadores (as) e os dançadores (as). O Praiá é uma vestimenta confeccionada com fibra de caroá e considerando Sagrado pelo povo Pankararu. Durante o ritual, que pode durar várias horas, os dançadores (moços) se preparam espiritualmente para serem “aproximados” dos seres espirituais – ou Encantados. A dança do Toré é realizada por um canto chamado Toante, que é cantado por um “cantador” ou “cantadora” e acompanhado por outros membros presentes e instrumentos específicos Pankararu. Sendo assim, com passos  ritmados pelos Praiás, e pessoas do povo Pankararu, que expressam alegria, fortalecimento espiritual, enquanto dançam e cantam. O Toré e algo cheio de mistérios e sentimentos.

Maria das Dores da C.P. do Prado, conhecida como Dora Pankararu é nascida na aldeia matriz Brejo dos Padres, povo Pankararu do interior do Pernambuco. Liderou a comunidade da etnia formada por cerca de 2 mil pessoas no Estado de São Paulo. Desde a década de 1950, os Pankararu migraram para o Estado de São Paulo. Começou a atuar na defesa dos Pankararu a partir de 1997 e, em 2004, passou a integrar o Conselho Estadual dos Povos Indígenas. Em 2010, foi conselheira do Colegiado de Culturas Indígenas junto ao Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC). É professora indígena do seu povo em Pernambuco, formada em pedagogia pela PUC- SP.

Local: Térreo (sujeito à lotação do espaço)

 

Dia 21 de Abril das 11h às 13h (sessão infantil) – Das crianças Ikpeng para o Mundo e A Festa dos Encantados – SESC VILA MARIANA

Dia 21 de Abril das 15h às 17h – SESC VILA MARIANA

Território e produção (audio)visual indígena – imagem, criação e identidade

COM AILTON KRENAK, ILANA SELTZER GOLDSTEIN E CASÉ ANGATU XUKURU TUPINAMBÁ

Bate-papo com o Ailton Krenak e Casé Angatu Xukuru Tupinambá, com mediação da antropóloga Ilana Seltzer Goldstein.

Ailton Alves Lacerda Krenak
Mais conhecido como Ailton Krenak, é um líder indígena, ambientalista e escritor brasileiro. É considerado uma das maiores lideranças do movimento indígena brasileiro, com reconhecimento internacional. Pertence à etnia indígena crenaque. Foi um dos curadores da Aldeia SP – Bienal de Cinema Indígena, que ocorreu em outubro de 2016 no Centro Cultural São Paulo (CCSP) e nos Centros Educacionais Unificados (CEUs) de São Paulo.

Casé Angatu Xukuru Tupinambá
Indígena e morador no Território Tupinambá em Olivença (Ilhéus/Bahia) numa Retomada chamada Aldeia Gwarini Taba Atã; Docente do Programa de Pós-Graduação em Ensino e Relações Étnico Raciais da Universidade Federal do Sul da Bahia – Campus Jorge Amado em Itabuna (PPGER-UFSB-JA); Docente da Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC (Ilhéus/Bahia); Doutor pela FAU/USP; Mestre pela PUC/SP; Historiador pela UNESP; Autor dos Livros: “Nem Tudo Era Italiano – São Paulo e Pobreza na Virada do Século XIX-XX”, “Identidades Urbanas e Globalização: constituição dos territórios em Guarulhos/SP”; Ex-coordenador do PIBID/História/CAPES-UESC, junto à Escola Estadual Indígena Tupinambá de Olivença.

 

Ilana Seltzer Goldstein
Doutora em Antropologia Social (UNICAMP, 2012). Professora do curso de História da Arte da Unifesp, onde ministra as disciplinas “Antropologia e Arte” e “História da Arte Ameríndia”. Desde 2016, é co-coordenadora da Cátedra Kaapora, voltada à valorização de conhecimentos e formas expressivas tradicionais e não-hegemônicos. Temas de interesse: antropologia e arte, exposição e comercialização de artes indígenas, sociologia da arte, gestão cultural, políticas culturais, representações da identidade nacional, diversidade cultural, patrimônio cultural.

Local: Auditório (1º andar – Torre A)
Retirada de ingressos com 1 hora de antecedência na Central de Atendimento do Sesc Vila Mariana.

 

 

 

 

Dia 24 de Abril das 19h às 21h30 – SESC PINHEIROS

 

Pajelança e Medicina: Formas de Cura

COM JOBANA MOYA ARAMAYO, CATARINA DELFINA DOS SANTOS E NAINE TERENA

Os saberes tradicionais indígenas e os diálogos interétnicos e interculturais entre os órgãos governamentais e as comunidades indígenas.

 

Jobana Moya Aramayo, boliviana, idealizadora do Grupo Lakitas Sinchi Warmis, coletivo formado por mulheres imigrantes de países andinos. compartilhar a  cosmovisão andina, plantas medicinais e seus usos no contexto do parto no mundo andino.

Catarina Delfina dos Santos, Nimbopyrua, em Tupi-Guarani, tem 68 anos. Vive na aldeia Piaçaguera, em Peruíbe (SP). Formada em Pedagogia intercultural, pela USP. Leciona curso fitoterápico tradicional indígena, doula (parteira) e ginecologia natural. Foi professora durante 12 anos na aldeia.

Naine Terena – É doutora em educação pela PUC-SP, possui mestrado em Artes pela UnB, é graduada em Radialismo pela Universidade Federal de Mato Grosso. Docente na Faculdade Católica de Mato Grosso.

Mediação: Cristina Flória. Cientista Social, Fotógrafa e Curadora.

Mulheres Indígenas: representação e visibilidade. Com curadoria de Cristina Flória e Jailton Carvalho, este projeto tem por objetivo colaborar no diálogo e reflexão sobre as ações das mulheres indígenas em suas comunidades e fora delas, suas atuações no âmbito da educação, saúde, desenvolvimento profissional e empoderamento político.

Local: Sala de Oficinas (2º andar).
Inscrições no local 30 min. antes.
Livre. Grátis.

 

Dia 25 de abril das 19h às 21h30 – SESC CAMPO LIMPO

Culturas e Histórias dos Povos Indígenas com Davi Kopenawa Yanomami

PALESTRA COM LIDERANÇA INDÍGENA YANOMAMI RECONHECIDO MUNDIALMENTE

Reconhecido internacionalmente como uma importante liderança indígena brasileira, o pajé Davi Kopenawa Yanomami é fundador e presidente da Hutukara Associação Yanomami. Exerceu papel de destaque na demarcação da terra Yanomami. É ganhador do prêmio ambiental Global 500 das Nações Unidas, foi intérprete da Funai. Já discursou em diversos fóruns internacionais, incluindo a ONU.

Davi Kopenawa Yanomami
Liderança indígena, fundador e presidente da Hutukara Associação Yanomami. Co-autor de A queda do céu (Companhia das Letras, 2015).

 

Dia 26 de abril das 19h30 às 21h – SESC BELENZINHO

Ex-Pajé

(Dir. Luiz Bolognesi, Brasil, 2018, 1h21min) Um poderoso pajé passa a questionar sua fé depois do primeiro contato com brancos que julgam sua religião como demoníaca. No entanto, a missão evangelizadora comandada por pastor intolerante é posta em cheque quando a morte passa a rondar a aldeia e a sensibilidade do índio em relação aos espíritos da floresta mostra-se indispensável.

Local: Oficina 3

 

Dia 26 de Abril das 15h às 17h – SESC CONSOLAÇÃO

Prosa 60+: Os Anciões da Terra

COM AILTON KRENAK

Neste encontro teremos um bate-papo com Ailton Krenak. Serão discutidos temas como a importância da valorização dos anciões entre os povos indígenas no Brasil, seu papel na formação das culturas indígenas e a relação entre velhos e crianças.

Ailton Alves Lacerda Krenak, mais conhecido como Ailton Krenak, é um líder indígena, ambientalista e escritor brasileiro. É considerado uma das maiores lideranças do movimento indígena brasileiro, possuindo reconhecimento internacional. Pertence a etnia indígena Krenak.
Local: Sala Gama (7º andar).

 

 

Dia 27 de Abril das 15h às 17h – SESC CONSOLAÇÃO

Território e Sustentabilidade nas Culturas Indígenas

COM AILTON KRENAK

O líder indígena Ailton Krenak encontra-se com o público para debater a importância vital da preservação do território indígena para manutenção da cultura.

Ailton Alves Lacerda Krenak, mais conhecido como Ailton Krenak, é um líder indígena, ambientalista e escritor brasileiro. É considerado uma das maiores lideranças do movimento indígena brasileiro, possuindo reconhecimento internacional. Pertence a etnia indígena Krenak.

Ingressos: retirada com 1h de antecedência na Central de Atendimento, 1o. andar.

Local: Sala Ômega (8º andar).

Foto: Divulgação

 

 

Dia 27 de Abril das 10h às 18h – SESC 24 DE MAIO

 

Histórias, Culturas e Territoriedades Indígenas na Cidade de São Paulo

COM O PROFESSOR CASÉ ANGATU XUKURU TUPINAMBÁ

O objetivo do curso é estudar, conhecer e refletir acerca de dimensões das histórias, culturas e territoriedades indígenas na formação da cidade de São Paulo. A ideia é considerar memórias, identidades, saberes e protagonismos dos Povos Originários que constituíram e constituem a Paulicéia, que também é chamada de Piratininga (Peixe Seco).

Casé Angatu Xukuru Tupinambá é indígena e morador no Território Tupinambá em Olivença (Ilhéus/Bahia) na Aldeia Gwarini Taba Atã. É professor doutor pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP) e mestre pela Pontificia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Atualmente, atua como docente do Programa de Pós-Graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais da Universidade Federal do Sul da Bahia – Campus Jorge Amado em Itabuna (PPGER-UFSB-JA) e docente da Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC (Ilhéus/Bahia). Além disso, é autor dos livros “Nem Tudo Era Italiano – São Paulo e Pobreza na Virada do Século XIX-XX” (São Paulo: Annablume, 2018 – 4ª. Edição) e “Identidades Urbanas e Globalização: constituição dos territórios em Guarulhos/SP” (São Paulo: Annablume).

Local: Sala 1 Oficinas – 6° Andar

Dia 28 de Abril das 14h às 17h – SESC VILA MARIANA

Game Huni Kuin: Os Caminhos da Jiboia

COM OSVALDO MANDUCA MATEUS KAXINAWÁ (ISAKA) E GUILHERME MENESES

Bate-papo e demonstração do game  “Huni Kuin: Os Caminhos da Jiboia”, com Osvaldo Manduca Mateus Kaxinawá, o antropólogo Guilherme Meneses e um indígena Huni Kuin, que desenvolveram o jogo. O jogo trata das aventuras de dois irmãos gêmeos, uma menina e um menino, indígenas da etnia huni kuin, que precisam passar por vários desafios para que possam se tornar pajés. Essa é a história do jogo, inspirado nas lendas de uma tribo acreana que vive no município de Jordão, interior do estado.

Osvaldo Manduca Mateus Kaxinawá (Isaka) é professor na aldeia São Joaquim/Centro de Memórias, localizada na Terra Indígena Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. Isaka é filho do conhecido pajé Agostinho Ikamuru e atualmente tem se especializado no estudo das plantas medicinais nativas. Isaka também presidente do coletivo de produções audiovisuais Beya Xinã Bena e foi coordenador indígena do projeto do game Huni Kuin: Yube Baitana.

Guilherme Meneses é doutorando em Antropologia Social (PPGAS/FFLCH-USP); Mestre em Antropologia Sociais e Bacharel em Ciências Sociais (FFLCH-USP); Bacharel em Administração de Empresas (FGV-EAESP). Pesquisador do Centro de Estudos Ameríndios (CEstA), do Núcleo de Antropologia Urbana e do Laboratório de Estudos Pós-Disciplinares (LAPOD), todos na Universidade de São Paulo. Sua dissertação de mestrado trata das controvérsias em torno da dependência de jogos eletrônicos e sua tese de doutorado versará sobre o movimento recente de rituais de nixi pae dentro e fora das aldeias. Atualmente seu foco tem sido a criação de jogos engajados na transformação social.

Retirada de senhas com 30 minutos de antecedência no local.

Local: Espaço de Tecnologias e Artes

 

Jurisprudência e verossimilhança na produção de dados e narrativas.

[Produção de narrativas e os limites que impedem e permitem encontrar o que não aceitamos]

Jurisprudência, os deslocamentos da dita realidade e os limites do tolerável e intolerável

Trata-se de inventar as jurisprudências em que, para cada caso, tal coisa não será mais possível. Vou dar um exemplo de que gosto muito, pois é o único meio de fazer com que se entenda o que é a jurisprudência. Eu me lembro da época em que foi proibido fumar nos táxis. Antes, se fumava nos táxis. Até que foi proibido. Os primeiros motoristas de táxi que proibiram que se fumasse no carro causaram um escândalo, pois havia motoristas fumantes. Eles reclamaram. Eu sempre fui um apaixonado pela jurisprudência. Se não tivesse feito Filosofia, teria feito Direito. Mas não Direitos Humanos. Teria feito jurisprudência, porque é a vida! Não há Direitos Humanos, há direitos da vida. Muitas vezes, a vida se vê caso a caso. Mas eu estava falando dos táxis. Um sujeito não queria ser proibido de fumar em um táxi e processa os táxis. Eu me lembro bem, pois li os considerandos do julgamento. O táxi foi condenado. Hoje em dia, nem pensar! Diante do mesmo processo, o cara é que seria condenado. Mas, no início, o táxi foi condenado sob o seguinte considerando: quando alguém pega um táxi, ele se torna locatário. O usuário do táxi é comparado a um locatário que tem o direito de fumar em sua casa, direito de uso e abuso. É como se eu alugasse um apartamento e a proprietária me proibisse de fumar em minha casa. Se sou locatário, posso fumar em casa. O táxi foi assimilado a uma casa sobre rodas da qual o passageiro era o locatário. Dez anos depois, isso se universalizou. Quase não há táxi em que se possa fumar. O táxi não é mais assimilado a uma locação de apartamento, e sim a um serviço público. Em um serviço público, pode-se proibir de fumar. A Lei Veil. Tudo isso é jurisprudência. Não se trata de direito disso ou daquilo, mas de situações que evoluem. E lutar pela liberdade é realmente fazer jurisprudência. (…) A única coisa que existe é a jurisprudência. Portanto, é lutar pela jurisprudência.

Gilles Deleuze.

Video de 6 minutos disponível em: https://drive.google.com/open?id=1Vr7FxuHe1_HVRRiqmvntJeUe-Ron2st7

A verossimilhança não é a verdade, é uma relação de semelhança entre discursos.

[num mundo em que “opiniões verdadeiras” são ideologia]

“a verossimilhança decorre da relação do texto (…) não com a realidade empírica da sociedade do autor, mas da sua relação com outros discursos da sua cultura, que funcionam como explicações ou causas da história narrada, tornando-a adequada àquilo que se considera natural, habitual e normal que aconteça na realidade e como realidade. A ficção é verossímil quando o leitor reconhece os códigos que julga verdadeiros e que são aplicados pelo autor para motivar as ações da história. O verossímil motiva (…), fornece motivos para as ações. (…) O que costuma ocorrer é que o leitor (…) geralmente sofre de etnocentrismo ingênuo, pois quase nunca pensa que sua cultura não é natural, como uma particularidade entre outras, tendendo a generalizá-la como critério universal de avaliação, como se fosse “verdadeira” para todos os tempos e lugares. (…) acreditam que ouvir ou ler uma história significa reconhecer algo já ouvido ou lido antes, naturalmente. Para eles, a semelhança é tudo (…) A desnaturalização incide diretamente sobre a verossimilhança. [certas] explicações funcionam bem, pois correspondem às opiniões do leitor sobre (…) outras destroem as semelhanças previsíveis que pressupõem a naturalidade e a normalidade das “opiniões verdadeiras” como fundamento da ação, as histórias contadas (…) são como palcos onde [podem] se encenar a inversão sistemática das convenções “verdadeiras” do leitor. (…) narradores [podem] opôr e inverter os termos de realidade/aparência, razão/loucura, ideal/interesse, verdade/falsidade, verossimilhança/ inverossimilhança, que organizavam a racionalidade das práticas de um tempo.”

João Adolfo Hansen

Ver também o video de 13 minutos com João Adolfo Hansen: https://laboratoriodesensibilidades.wordpress.com/2019/02/12/verossimilhanca-nao-a-verdade-nas-narrativas-nas-pesquisas-nas-artes-13-minutos-dos-gregos-ao-modernos-com-joao-adolfo-hansen/

A recolha acima foi retirada do texto de HANSEN , João Adolfo. “O imortal” e a verossimilhança. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/teresa/article/view/116608/114196