FILOSOFIA E CIDADANIA COM PROF. LUIZ ORLANDI

“Nós temos problema mais digno,  que o exercício da cidadania. É isso o que nos roubaram!

Você já é escravo se não grita seu problema.

Cidadania só existe gritando seus problemas.

O povo brasileiro será um povo por vir à hora que ele ouvir bem que se ele não grita seus problemas, os golpinhos, os golpões, a sucessão dos golpes será infindável.

É só aí que o escravo morre no silêncio em relação aos seus problemas.

Se você não pensa, não grita seus problemas, você está sendo escravo daqueles que o separam daquilo que você pode.”

Caos em poesia de D. H. Lawrence (Nova Tradução de Wladimir Garcia)

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Poesia, eles dizem, é uma questão de palavras. E isso é tão verdade quanto dizer que as pinturas são uma questão de tinta, e os afrescos uma questão de água e diluição das cores. Está tão longe da verdade completa que assim se torna ligeiramente tolo se declarando assim sentenciosamente.

Poesia é uma questão de palavras. Poesia é também o afinar de palavras dentro de um murmúrio, de uma melodia, ou de um rastro de cores. Poesia é um entrejogo de imagens. Poesia é a sugestão prismática de uma ideia. Poesia é tudo isso e ainda alguma outra coisa a mais. Dados todos estes ingredientes, você obtém alguma coisa bem parecida com poesia, algo de que poderão dizer “Oh! Isso é muito poético”. E “o que é muito poético”, como um brinque, estará sempre na moda. Mas a poesia ainda é outra coisa.

A qualidade essencial da poesia é que ela faz um novo esforço de atenção e “descobre” um novo mundo dentro do mundo conhecido. O homem, e os animais, e as flores, e o dos vivem dentro de um estranho e para sempre emergente caos. Chamamos de cosmos o caos com que nos acostumamos. Ao inefável caos interior de que somos constituídos chamamos consciência, e mente, e até civilização. Mas ele é, no fim das contas, caos, iluminado por visões ou não. Da mesma forma como o arco-íris pode ou não iluminar a tempestade. E, como o arco-íris, a visão perece.

Mas o homem não pode viver no caos. Os animais podem. Para o animal, tudo é caos, há somente alguns poucos aspectos e movimentos recorrentes dentro de ondulações vibratórias. E o animal está contente. Mas o homem, não. O homem precisa embrulhar a si numa visão, fazer uma casa com uma forma visível e com estabilidade, com fixidez.

Em seu terror pelo caos, o homem começa armando um guarda-sol entre ele próprio é aquele vórtice intenso na sua duração sem fim. Então ele colore o lado interno de seu guarda-sol, imitando o firmamento. Então ele desfila por aí, vive e morre debaixo de seu guarda-sol. Legado a seus descendentes, o guarda-sol torna-se uma cúpulacapela, uma casaforte, uma câmara mortuária, e os homens começam a sentir, finalmente, que alguma coisa está errada.

O homem constrói um edifício assombroso a partir de si, erguido entre ele mesmo e o caos selvagem, tornando-se gradualmente, empalidecido e asfixiado sob o tecido do seu guarda-sol. Então vem um poeta, o inimigo das convenções, e faz um rasgão no guarda-sol; e vejam! O lampejo de caos é agora uma visão, uma janela para o sol. Em breve, porém, por se acostumar à visão, e por não suportar aquela dose de caos, o homem-lugar-comum pinta um simulacro, uma cópia grosseira da janela que se abre para o caos, e reveste o guarda-sol com os pedaços pintados do simulacro.

Em outras palavras: ele se habituou à visão, domesticando-a; a visão é agora parte da decoração do lar. Sendo assim, o guarda-sol se parece com um firmamento aberto e brilhante, multifacetado. Mas ai de nós! Tudo é apenas simulacro feito de múltiplos retalhos. Homero e Keats, com notas de rodapé e glossário.

Está é a história da poesia em nossa era. Alguém vê titãs no ar selvagem do caos, e então os próprios titãs tornam-se um muro entre as gerações subsequentes e o caos que deveriam ter herdado. “O selvagem céu moveu-se e cantou”. Mesmo isso se torna um guarda-sol entre a humanidade e o céu feito de ar fresco; aquele céu tornou-se uma abóbada ilustrada, um afresco num teto abobadado, sob o qual o homem desbota e permanece insatisfeito. Até que outro poeta faça um rasgão para o aberto e selvagem caos.

Mas, por fim, o nosso teto não nos engana mais. É reboco pintado, e mesmo toda a astúcia de todas as eras humanas não será capaz de nos colocar lá dentro. Dante ou Leonardo, Beethoven ou Whitman- vejam! Estão pintados no reboco de nossa abóbada. Como São Francisco pregando para os pássaros em Assis. Maravilhoso tal como o ar, tal como o espaço apassarado e o caos que há em muitas coisas- parcialmente, porque afresco ficou desbotado. Mesmo assim, nós nos tornamos felizes por termos saído daquela igreja para dentro do caos natural.

Esta é uma crise importante para a humanidade: quando temos que voltar para o caos. Até aqui o guarda-sol tem funcionado, e os poetas fazem rasgos nele, e a massa das pessoas pode ser educada gradualmente de acordo com a visão de cada rasgo: o que significa que eles sobrepõem emendas com os remendos que se parecem, justamente, com a visão no rasgão: enquanto este processo puder prosseguir e a humanidade puder ser educada de acordo com ele, e, assim, construída, a civilização continuará, com mais ou menos sucesso, a completar a pintura de sua própria prisão. Isto é chamado de completar a consciência. Que alegria os homens tiveram quando, por exemplo, Wordsworth fez um rasgão e viu uma prímula! Até então, os homens só tinham visto uma obscura e indiferenciada prímula na sombra de um guarda-sol. Eles a viram através de Wordsworth, no pleno brilho do caos. Desde então, gradualmente, nós temos chegado a ver a primavera como nada mais exceto prímulas.

O que equivale a dizer que nós temos remendado o rasgão. E que alegria maior ainda Shakespeare fez uma grande fenda e viu um homem pensativo e emocionado lá fora no caos, para além da ideia convencional e do guarda-sol coberto de imagens morais e paladinos moldados em ferro, erguidos na Idade Média. Agora, entretanto, ai de nós! O teto de nossa capela está densamente revestido com Hamlets e Macbeths, as paredes laterais também, e a ordem está estabelecida e completa. O homem não pode ser nada diferente da sua imagem. O caos está completamente barrado no seu fora.

O guarda-sol tornou-se tão grande, os remendos e rebocos estão tão apertados e duros, que ele não pode ser mais rasgado. Se houvesse um rasgão, a fenda não seria mais uma visão, ela seria apenas uma violação. Nós deveríamos tampá-la de uma vez, a fim de combinar com o resto do tecido.

Dessa forma, o guarda-sol é absoluto. E, sendo assim, o clamor pelo caos torna-se uma nostalgia. E isto prosseguirá até um vento terrível reduzir o guarda-sol a tiras e grande parte da humanidade ao oblívio. O que sobrar irá despedaçar-se no meio do caos. Porque o caos está sempre lá, e sempre estará, não importa o quanto nós construamos guarda-sóis com as visões.

E quanto aos poetas neste nó? Eles revelam o desejo interno da humanidade. O que revelam? Eles mostram o desejo por caos e, ao mesmo tempo, o medo do caos. O desejo pelo caos é a respiração de sua poesia. O medo do caos está no desfile de formas e técnicas. Poesia, dizem, é feita de palavras.

Então, sopram-se bolhas de som e imagem, que, em seguida, irão estourar com a respiração que anela pelo exato caos que as preenche. Os poetastros podem fazer bolinhas bonitas e brilhantes para a árvore de natal, as quais nunca se rompem, porque não há sopro dentro delas: elas permanecem até o momento em que as deixamos cair.

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“o abandono correspondente de qualquer pesquisa na Universidade, a introdução da “empresa” em todos os níveis de escolaridade”.  Saturados que estamos pelas formas acabadas, paradoxalmente debilitados e potentes, a experimentar as fissuras, os desfazimentos, os esgotamentos.  Acompanhar dois movimentos: um primeiro daquilo que está desistindo em um grande cansaço, e um outro, por vezes concomitante, daquilo que está se gestando no registro do sensível e dos processos de aprendizagem. Isto exige um tanto de solidão e abertura, não só para as formas acabadas que parecem definitivas, mas especialmente para as forças do coletivo, que produzem outras formas vivas (esgotadas) de pensar, sentir e colaborar.

O leitor do qual espero alguma coisa deve ser calmo e ler sem pressa. […] que ele não se intrometa de modo algum, à maneira do homem moderno, e não traga para a leitura a sua “formação”, algo como uma medida, como se com isso possuísse um critério para todas as coisas. Desejamos que ele seja suficientemente formado para pensar em sua formação de modo restrito e até desdenhoso.

Nietzsche

As instituições de ensino, tal qual se erigem atualmente, têm muito para corroborar com uma demasiada formação/formatação, a partir do ideal de tornarem-se “centros de excelência”, em que se formem os ditos “melhores profissionais do país” e nos quais se produza o denominado “conhecimento de ponta”. Percebida como vocação natural, pouco se destaca que essa aspiração, entretanto, favorece um modelo terrível, pois os excelentes são – e devem ser – poucos (questão agudamente assinalada pelo professor Sidnei José Casetto do Departamento de Saúde, Clínica e instituições da Universidade Federal de São Paulo), a excelência nos campos de conhecimento encerra-se como valor em si, essencial, interessada no poder de capitalização e mercadologização das pesquisas, em formas mais explícitas e outras mais sutis, que redundam na possibilidade de tornarem-se excelentes, secundarizando os aspectos de formação crítica do pensamento, alçando um pensamento que não se pensa. Deleuze diz que no âmbito das sociedades de controle, isto implica “o abandono correspondente de qualquer pesquisa na Universidade, a introdução da “empresa” em todos os níveis de escolaridade”. Valorizam-se a especialização e, particularmente, a autoria de trabalhos como indicadores do desenvolvimento acadêmico, o que convoca à ininterrupta produção, inclusive na maneira de viver e nas relações com outrem. Nessa configuração, o científico tende a ser naturalizado; o ensino, mesmo o público, a operar na lógica da empresa; o cognitivo, a hipertrofiar-se, e o tempo, a acelerar-se de forma vertiginosa.

Um certo tipo de saber torna-se hegemônico, bem como a demarcação clara entre quem o domina (e pode transmiti-lo) e quem dele necessita (e precisa recebê-lo). A formação desenha-se nestas linhas, reforçando o ensino verticalizado, o preenchimento máximo da “grade horária”, a preferência por um perfil competitivo, e a impaciência dos estudantes com conteúdos que não tenham aplicabilidade imediata. Talvez na formação, contemporaneamente, não possamos falar tão-somente em moldes ou fôrmas, isto é, formatações rígidas de modos de sentir, pensar e fazer. Importa, hoje, ressaltar outros movimentos, espécies de modulações, ondas de autodeformação contínua, que se fixa ora em modos mais impermeáveis, ora em outros mais abertos e porosos. Com isso, haveria linhas de fuga, saídas, novos espaços de resistência e invenção. A todo o momento, nas salas de aula, nas intervenções, escavamos novas e difíceis saídas.

Saídas instaurando um espaço de ensino e partilha do sensível, numa espécie de paralelo à exigência da produção de papers e da contagem de pontos nos curricula e relatórios acadêmicos. Na lógica que articulamos na formação (de professores), se tivermos de contar pontos, será para preservar nichos de desregulagens: já que na formação temos a oportunidade de experimentações com sensibilidades in progress, podemos aproveitar para solapar alguns imperativos ditos racionais. E assim, desertarmos a pressa, a produtividade, a concorrência, a previsibilidade, a especialização. Podemos exercer, treinar, aproveitar para a sala de aula pequenas táticas não reificadoras, exercícios de invenção, de paciência, de lentidão, de gratuidade, de atenção, de angústia aceita, de dúvida, enfim, exercícios de resistência e largueza de alma.

Sabe-se que o fato de haver jovens estudantes, professores em formação, nas universidades não garante a possibilidade de uma configuração inventiva. Em muitas situações, a juventude também pode compor com a mais conservadora das culturas. Para uma grande parcela dos que ingressam na universidade, o que parece estar menos em questão é cuidar de sua formação, pois já chegam aos cursos demasiadamente formados: alguns, paradoxalmente, muito jovens e muito fechados em certezas. A questão não é apenas a da juventude; em alguma medida, trata-se do desafio de deformar, de abrir espaço na forma/fôrma, de tornar porosa a blindagem (mesmo aquela autodeformante e adicta de moralina) a que todos – não só os futuros professores – estamos submetidos.

De modo geral, estes professores em formação pouco têm inventado em termos de estratégias de resistência que permita introduzir mudanças nos funcionamentos conservadores. Há algumas décadas, havia a crença de que os jovens seriam capazes de produzir marcas ético-estético-políticas com suas mobilizações. Entretanto, isto se tornou gradativamente mais e mais difícil. Não é que a juventude tenha hoje se tornado menos interessante, mas as formas de ação que eram úteis no passado perderam sua efetividade. Muitas manifestações continuaram ocorrendo, em todas as grandes cidades do mundo, com milhões de estudantes nas ruas, sem serem consideradas seriamente pelas instâncias políticas, e menos ainda pelos meios de comunicação de massa, que preferem neutralizar o impacto destes protestos. Mesmo as pequenas rupturas são sentidas como profundas rachaduras num gigantesco iceberg flutuando no mar: alterar sua trajetória, para muitos, parece ser um projeto difícil, tendendo à rendição.

Pensar a formação de professores na chave da deformação pode ser uma estratégia eficaz para acompanhar dois movimentos: um primeiro daquilo que está desistindo em um grande cansaço, e um outro, por vezes concomitante, daquilo que está se gestando no registro do sensível e dos processos de aprendizagem. Isto exige um tanto de solidão e abertura, não só para as formas acabadas que parecem definitivas, mas especialmente para as forças do coletivo, que produzem outras formas vivas (esgotadas) de pensar, sentir e colaborar. Essa esfera do sensível é, paradoxalmente, invisível, imperceptível, impalpável, às vezes molecular. O que não significa que seja para iluminados ou videntes, nem que sejam segredos ocultos. São coisas para as quais, em geral, não estamos abertos, saturados que estamos pelas formas acabadas, paradoxalmente debilitados e potentes, a experimentar as fissuras, os desfazimentos, os esgotamentos.

Alexandre Henz e Sidnei Casetto