Franco Berardi (Bifo) – Quinze anos depois de Gênova (trechos em português)

Texto completo em espanhol: http://www.eldiario.es/interferencias/Berardi-Barroso-Bouhlel-Quince-Genova_6_540056018.html#

Texto completo em italiano: http://www.deriveapprodi.org/2016/07/tra-barroso-e-bouhlel/

 

“(…) o domínio neoliberal que garantiu um equilíbrio de poder a escala global está ruindo, e a guerra civil fragmentária se expande por todos os cantos do planeta, envolvendo até os Estados Unidos, onde a vasta proliferação de armas alimenta uma matança cotidiana na qual os afro-americanos são as vítimas privilegiadas.

Os sinais se multiplicam, mas como interpretá-los? Qual tendência se vislumbra? E, sobretudo, como recompor a autonomia social, como proteger a vida e a razão da loucura homicida atiçada pelo capitalismo financeiro e da agressão cada vez mais forte do fascismo em suas variantes nacionalistas e religiosas?”

“Mas então a era neoliberal acabou? Está se aproximando o colapso do capitalismo global? As coisas não são tão simples. Ninguém faz ideia de como substituir as políticas neoliberais; ninguém conhece um modelo social capaz de substituir a ditadura dos mercados que, nas últimas quatro décadas, partindo justamente da Inglaterra de Thatcher, transformou a sociedade, o trabalho e a política. Inventar um processo de saída do capitalismo é a tarefa gigantesca que tem pela frente a inteligência autônoma, enquanto em volta é deflagrada a guerra.”

“Os trabalhadores têm sido chantageados, precarizados e empobrecidos, e não tiveram nenhum instrumento para se defender. Hoje, perdida já toda possibilidade de emancipação e organização, eles se seguram desesperadamente da única forma de identidade que permanece: o pertencimento étnico, religioso ou nacional. Quebrada a solidariedade internacional, o desespero se aglomera na forma identitária, e o fascismo ressurge. Vocês não são trabalhadores derrotados ‒ vocês são povo! ‒ diz o fascismo. E os povos fazem a guerra, porque isso é o único que eles sabem fazer.”

“A herança de séculos de colonialismo e escravagismo está presente hoje no mundo inteiro. Para os povos colonizados, depredados, submetidos à escravidão, a única rebelião é a vingança armada. O islamismo radical é a vanguarda dessa vingança. A migração em massa do sul para o norte do mundo é a consequência da herança colonial e das novas guerras que a vingança armada não para de alimentar.”

“Numericamente em baixa, os brancos envelhecem, enquanto as populações colonizadas mais jovens e em aumento demográfico empurram as fronteiras. Há uma espécie de frustração supremachista no fundo do inconsciente branco, que se opõe ao supremachismo agressivo dos povos que anseiam vingança. Existe alguma possibilidade de evitar que o choque entre racismo supremachista e pressão agressiva desesperada dos povos colonizados se dirima numa carnificina global? Existia ‒ se chamava socialismo. Mas essa possibilidade acabou, e o que resta é a barbárie, o racismo e a guerra civil global.”

“(…) A próxima década estará dominada por uma guerra cada vez mais sangrenta e devastadora. Quem não vê isso corre perigo. Quem tente negá-lo corre perigo. Quem saiba disso, que comece a construir as estruturas da solidariedade que servirão para sobreviver, e para raciocinar em termos de uma sociedade igualitária, para, algum dia, viver novamente. Talvez.”

Tradução: Damian Kraus

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