Nietzsche e a Epopéia. Vídeo da conferência de Roberto Machado e transcrição integral.

Nietzsche e a Epopéia [1]

Roberto Machado

Uma das constantes da filosofia de Nietzsche é o cristianismo, é o aparecimento do cristianismo como alvo principal, e uma crítica é a crítica nietzscheana a uma interpretação moral da existência. A base desta postura crítica, que relaciona tão intimamente o cristianismo ao platonismo a ponto de uma de suas obras definir o cristianismo como sendo o platonismo para o povo, portanto, a base desta postura nietzscheana é a crítica à oposição criada pelo platonismo e pelo cristianismo entre um mundo sensível e mutante, mundo considerado aparente e, por outro lado ou acima, um mundo supra-sensível, eterno imutável, considerado como mundo verdadeiro, portanto, um dos pontos críticos base da filosofia de Nietzsche é a crítica do cristianismo e do platonismo considerado como doutrina dos dois mundos. Esta concepção de Deus como sendo a verdade, como sendo o bem que se deve a filosofia de Platão, que se deve ao cristianismo é, para Nietzsche, uma negação da vida, quer dizer, negação da vida em nome de uma vida melhor, negação do mundo em nome de um outro mundo e a transformação desse mundo em que vivemos em ponte para a vida verdadeira, para esse outro mundo melhor. Um dos motivos que não é o cristianismo que eu vou falar para vocês, um dos motivos do elogio nietzschiano dos gregos, especificamente, que é o tema de hoje dos gregos homéricos é a inexistência justamente de uma doutrina dos dois mundos. Diferentemente do cristianismo, os gregos homéricos não propõem um transmundo, um mundo do além como considerado como critério do bem e da verdade, não propõe um mundo do além como recompensa depois da morte, a religião grega homérica, a religião grega olímpica, a religião dos deuses olímpicos, essa religião apresentada na Epopéia, é intramundana, e não transmundana, é um termo que Nietzsche usa no Zaratustra, é uma religião intramundana que tem como objetivo, e é sobre isso que eu quero falar, despertar o desejo, aumentar o desejo do homem por este mundo que vivemos o outro mundo que era chamado de Hades, mundo infernal, é o mundo da noite, mundo das trevas, de onde está ausente qualquer idéia de perfeição, não existe mundo perfeito para os gregos. Quando no canto 11 (onze) da odisséia, talvez vocês já tenham lido este livro que é um dos livros mais bonitos da história da humanidade, quando do canto 11, Ulisses, ainda vivo, desce ao HADES porque ele quer voltar à Ática, desce ao Hades porque ele quer voltar à Ítaca para consultar o adivinho Tirésias sobre seu regresso, ele encontra Aquiles, o maior dos gregos que tinha morrido durante a guerra de Tróia, pois bem, encontrando Aquiles morto, Ulisses vivo lhe diz em tom de consolação, ouçam as palavras de Ulisses: Aquiles, ninguém até hoje foi mais feliz do que tu, nem será no futuro. O Epitafio que reconhece Aquiles na Ilíada é o melhor dos gregos, ele era o maior indubitavelmente, havia uma disputa para saber se o segundo era Ajax ou Ulisses, portanto ninguém até hoje foi mais feliz do que tu nem será no futuro. Outrora, enquanto vivia te honrávamos como um deus, agora que estais aqui no Hades reinas sobre os mortos. E Ulisses conclui: por isso não deves afligir-te por haver morrido. A resposta de Aquiles, a meu ver, deixa claro que a única realidade que tem valor para um grego homérico é a vida antes da morte. Diz Aquiles: ilustre Ulisses, não tentes consolar-me a respeito da morte ( e aí esse argumento para um grego assim é destruidor, preferiria trabalhar como servo, como escravo às ordens de um homem sem patrimônio, de um homem de baixos recursos do que reinar sobre os mortos que já nada são). Eu diria que para o saber veiculado pela Epopéia homérica, a imortalidade, a sobrevivência gloriosa, e é sobre isso que eu vou falar, não está localizada em outra vida, não está, como no cristianismo, localizada num paraíso celeste; é nesta vida, neste mundo que ela tem de acontecer para dar testemunho da super abundância de forças do homem. Quer dizer, o tema da minha palestra hoje vai ser este, é uma sugestão que eu vou fazer a todos vocês, é um conselho: como ser imortal na própria vida? Contra o amolecimento, contra o enfraquecimento do homem moderno. Essa é uma idéia básica da filosofia de Nietzsche. O homem moderno não é melhor do que o homem que já existiu, ele é simplesmente mais fraco. Nietzsche pensa a modernidade como sendo uma intensificação do niilismo, de negação da vida temporal, que começou a vingar, segundo ele, a partir do cristianismo. Pois bem, contra esse enfraquecimento do homem moderno, homem moderno que segundo Nietzsche se comporta como um escravo, embora tenha horror a palavra escravidão, embora se console com as célebres idéias oriundas da revolução burguesa, da revolução francesa, as idéias humanistas, dignidade do homem, igualdade universal, direitos humanos, Nietzsche que sempre foi o crítico inclemente da piedade, tanto que o Epitato do Zaratustra é o ímpio; Nietzsche é um filósofo trágico, sempre considerou a vida terrível, tenebrosa, cruel. Nietzsche não é um filósofo do melhoramento da humanidade; ele se diferencia bastante dos filósofos modernos que desacreditando na promessa de uma vida futura, num outro mundo, na eternidade, propuseram uma vida futura como realização do homem do presente. Nietzsche jamais propôs uma utopia da realização do homem. Essa que eu chamaria, esse elogio da crueldade, que é uma coisa, digamos que, a burguesia que o capitalismo faz questão de esconder embora ela esteja presente na nossa vida cotidiana, está exposta com um brilhantismo no livro chamado “A Genealogia da Moral”. Para dar um gostinho e a vontade de um dia vocês lerem esse livro maravilhoso darei algumas frases sobre a crueldade: “A crueldade consistia ou constituía o grande prazer festivo da humanidade antiga, era o ingrediente de quase todas as sua alegrias, “sem crueldade não há festa” é o que ensina a mais antiga e mais longa história do homem. E esta aqui é maravilhosa: “nos tempos em que a humanidade ainda não tinha vergonha da sua crueldade, a vida era mais feliz”. Ou então: “hoje, quando não se cessar de apontar o sofrimento como principal argumento contra a existência; se há sofrimento a vida é castigo, então é preciso que haja uma outra vida para nos redimir”. Nietzsche é um filósofo do sofrimento, no sentido que as idéias básicas da sua filosofia é a diferença entre tristeza e sofrimento e uma tentativa de poder conjugar sofrimento e alegria. E ele diz, por exemplo, neste livro: “Já que não podemos acabar com o sofrimento objetivo, pelo menos acabemos com o sofrimento subjetivo, aquele sofrimento que a gente mesmo se dá, introjetando a dor. E é uma frase maravilhosa desse livro, quando ele diz: – há mais sofrimento na noite de uma histérica do que em todos os animais que foram sacrificados pela ciência. Então ele diz: – quando se aponta o sofrimento como o principal argumento contra a existência, seria bom se lembrar dos tempos em que se via no sofrimento um verdadeiro encorajamento a viver. Esta questão, e eu citei alguns textos da genealogia da moral que é do último período da vida criativa de Nietzsche, está presente desde o início de sua reflexão filosófica, entre os escritos do primeiro Nietzsche. (Que era o Nietzsche estudioso dos gregos, que vocês sabem que Nietzsche não era filósofo de profissão, ele era filólogo, era o filólogo que ousou pensar filosoficamente, mas é daí que ele vem, e você tem aspectos filológicos, filosóficos no seu primeiro livro chamado “O nascimento da tragédia” que é sobre a questão do Apolínio, do Dionizíaco ou da arte homérica e da arte trágica na Grécia antiga, na Grécia arcaica. Eu dizia que, entre os escritos do primeiro Nietzsche, aquele em que a questão da crueldade, e é daí que eu vou partir, está presente da maneira mais interessante, que permite compreender em que consiste a singularidade da poesia épica, que é dela que eu vou falar, é um texto chamado “O Agon e Homero”. Agon é uma palavra grega que significa disputa, que significa justa, que significa rivalidade. Vou dar uma idéia deste texto que vai me servir de introdução a esta questão da relação do Nietzsche com Homero. Estruturando este texto, está a distinção entre Titãs e Olímpicos, entre dois tipos de teogonia, uma teogonia titânica dos terrores e uma teogonia olímpica do júbilo, vejo de um lado o terror, de outro lado, o júbilo, a alegria. Dito de um outro modo, estruturando este texto “O Agon e Homero” se encontra a distinção entre o mundo pré-homérico e o mundo homérico. Vou falar pouco sobre isso. De onde parte Nietzsche em sua argumentação, da premissa de que os gregos que ele consideva os homens mais humanos da antigüidade possuem um caráter cruel, trazem a marca de um desejo selvagem de destruição. O interessante, no entanto, segundo minha leitura, é que, ao registrar o ódio, a cruel volúpia presente no grego, Nietzsche não está querendo fazer um elogio da maldade, da vingança, esse mundo cruel é, para ele, o mundo pré-homérico que nos dá uma imagem da vida dominada por aquilo que Ezildo chamou na teogonia que é o seu livro, de Filhos da noite, quer dizer, um mundo dominado pela discórdia, dominado pela velhice, dominado pela dor, dominado pela morte e assim por diante. Essas forças primordiais que aparecem personificadas na teogonia de Ezildo. O objetivo do Nietzsche ao falar desta teogonia é marcar como os gregos lidaram com a questão da crueldade, de um modo bastante específico, para se protegerem de um mundo sombrio, para se proteger de um mundo atroz, aterrador, que Nietzsche jamais negou que o mundo fosse assim. Então, como é que o grego se protegeu do aspecto sombrio da vida, é o que Nietzsche chamaria de primeiro milagre grego, e é através da criação de uma ilusão, Nietzsche é um filósofo da ilusão; é através da ilusão artística; Zaratustra diz: – Todo poeta é um mentiroso – está retomando uma caracterização que Platão fez de homero, valorizando, justamente, a mentira em detrimento da verdade racional, científica e filosófica, quer dizer, através da criação de deuses olímpicos, provenientes desta mentira poética, homérica, Nietzsche vai mostrar uma maneira de o grego se proteger do caráter aterrador, terrível da vida, que é esse lado da vida como sofrimento e morte e, ai, ele faz, a partir de Ezildo, já outro livro de Ezildo chamado “Os trabalhos e os Dias” uma distinção entre duas Eres, que é a palavra grega para a discórdia, os males da vida são os filhos da discórdia e aí, Ezildo diz:               – Existem duas discórdias, uma que é filha da noite, má, perniciosa, cruel, que fomenta a guerra, a dissensão, que leva os homens a se matarem dominados pelo ódio. Mas há uma segunda discórdia, é a boa discórdia, aquela que foi colocada por Zeus, o olímpico por excelência, foi colocado por Zeus entre os homens com o objetivo de incitá-los à origem, de estimulá-los justamente para a disputa, para a justa, quer dizer, para o Agon. A boa Eres transforma, transfigura esta crueldade odienta num estímulo através da disputa ou da justa, o Agon. Essa noção fala um pouco sobre isso, de Agon, de Justa, de disputa, de combate, de rivalidade e são vários sinônimos para traduzir. Essa noção é considerada por Nietzsche como a mais nobre e fundamental das idéias gregas, ele chega a dizer, um dos pensamentos mais importantes, mais notáveis da ética grega; por que? Justamente por libertar o grego do abismo pré-homérico feito de ódio e prazer destruidor. Logo no início desse texto sobre Agon, que eu estou comentando, Nietzsche se perguntava: porque o mundo grego – pergunta interessante para quem já leu, sobretudo um dos livros mais cruentos da humanidade que é a Ilíada, história da guerra de Tróia. Quem já leu a Ilíada pode entender melhor o sentido desta questão nietzscheana: porque o mundo grego exultava com as cenas de combate na Ilíada?, que são sangrentas, se você lê, você vê que é porque o ensino, a formação do homem grego se dava a partir de livros como a Ilíada, como a Odisséia (estão entendendo?), por exemplo, Aristóteles que, já na Macedônia, ensinou Alexandre. O trabalho dele, diz até que ele teria feito um comentário da Ilíada, era a partir do exemplo destes heróis gregos, então se apreendia tudo como poeta, era um tipo de educação totalmente diferente, pois bem, a impressão que eu tenho é que era assim que eles estudavam anatomia, porque era o golpe da espada que entra por aqui, ai ele descobre o órgão, depois sai por aqui, quebra tal osso, ai você tinha a descrição perfeita, detalhada do corpo humano. Mas haja fôlego para você agüentar, sem ficar sufocado com aquelas descrições terríveis, entende, sem complacência que você encontra. Pois bem, a constatação que o Nietzsche faz, o grego exultava com essas cenas de combates, então ele pergunta, por quê? A resposta seria a seguinte: Porque a Epopéia é uma apologia do Agon. Porque a Arte Épica, porque as poesias épicas são justas, são combates contados, porque a Arte Épica transforma a crueldade em disputas, a má na boa Eres. Cito Nietzsche, em outro texto chamado “Estado Grego” que trata desta questão, se a repetição incansável das cenas de combate e de horror da guerra de Tróia é contemplada por Homero com delícia, ele fala: os gregos ouviam aquelas histórias exultando e aquelas histórias são contadas por Homero se deliciando. Razão: – É porque a Epopéia é uma legitimação do combate e da alegria de combater. Vejam bem, os deuses homéricos são deuses de alegria, e logo mais nós veremos, são deuses da beleza, não são nem bons, nem verdadeiros, mas são belos. Essa noção de Agon, resposta épica à questão do sofrimento e da crueldade, pode, a meu ver, ser explicitada a partir de uma noção importantíssima na Epopéia; é a noção de individualidade. Vou lançar uma hipótese que, pedagogicamente, a Epopéia homérica é um processo de criação do indivíduo; a justa, a disputa é um combate individual. Se vocês já leram a Ilíada, vão entender; todo o combate na Ilíada é individual, não existe a Falange, que é uma figura posterior, que é uma figura romana, onde um exército se defronta com outro e avançam um sobre o outro e lutam no conjunto. Na Ilíada, o grego vai para um combate no carro, desce do carro e um grego desafia o outro, o mundo grego é um mundo profundamente hierarquizado. Você sempre sabe em relação a quem você é maior e com relação a quem você é menor, então quando um grande herói se apresenta para a luta é necessário que apareça outro grande herói para enfrentá-lo. E você tem duelos famosos na Ilíada, que inclusive não foram resolvidos, porque veio a noite e a noite é uma deusa que tem que ser respeitada, e se respeita a noite; interrompemos os combates, levamos os mortos e assim por diante, incinerando. Pois bem, é um grande combate, é um dos momentos importantes de Ajax, o maior dos gregos na Ilíada depois de Aquiles e do maior dos Troianos que é Heitor, do qual todos vocês devem gostar e gostarão se um dia lerem este livro que é uma das maravilhas, uma das pérolas da literatura mundial. Pois bem, eu estou querendo chamar a atenção para isso, o Agon é o combate individual que dá brilho à existência, é através do Agon que a vida se torna digna de ser vivida, não pela busca da felicidade, isso é uma coisa que existirá a partir de Platão, a partir de Sócrates, não para um grego arcaico, homérico. Portanto, a Justa é o combate individual, tornando a vida digna de ser vivida pala busca da glória, para usar a palavra grega, pela busca do Cleos nas ações. Veja bem, estou tentando mostrar como é que para o grego o homem mortal pode ser imortal na própria vida, como ser imortalizado, é a questão pedagógica que interessava a um grego, o resto não interessava; como ser glorioso e não como ser feliz, que é a idéia burguesa que nasce com a Revolução Francesa. Nietzsche não é um filósofo da felicidade, só para contar uma piadinha nietzscheana. Seria como o discípulo e o mestre. Um mestre Zen e um discípulo Zen. O discípulo perguntava ao mestre:- mestre, o que devo fazer para ser feliz? E o mestre pensa e responde:- Isso eu não sei, mas lhe digo uma coisa: “seja feliz e faça você tem vontade, faça o que você quer”; quer dizer, a questão da felicidade, para Nietzsche, não é uma boa questão, a felicidade é sempre uma coisa que é prometida, e prometida no fim. Aristóteles mesmo se perguntava: – será que a gente pode dizer que o homem é feliz antes de morrer? Porque ele sempre pode perder a felicidade, e daí? O Nietzsche diz, (eu que estou dizendo por ele), a questão da felicidade não é uma boa questão, porque quando você pergunta a alguém, ao mestre ou a outra pessoa: “O que devo fazer para ser feliz? “Uma coisa eu posso saber de você, é que você é infeliz”; está querendo ser feliz, então, você está começando mal, já está começando da infelicidade e quer chegar lá. Então Nietzsche inverte: “seja feliz”, quer dizer, não é uma coisa que você deve almejar, você já deve partir daquele princípio. Pois bem, nas ações heróicas do indivíduo que conquista a glória e aí que a vida atinge a perfeição. Olha o que eu disse: – Na Epopéia, a arte homérica é um processo de individuação que cria o indivíduo através da competição pela glória. Dito em outros termos: – O indivíduo Homérico se caracteriza (e é uma palavra importante) pela Aristéia. O indivíduo homérico se caracteriza pela série de fatos, pela série de façanhas heróicas. Se vocês já leram a Epopéia, vocês sabem; um livro como a Ilíada, cada capítulo, cada canto, dedica a contar as façanhas heróicas, as façanhas gloriosas de um determinado herói. Então tem o capítulo sobre Agamenon tem um capítulo sobre Diomédis, tem um capítulo sobre Ajax, (Ulisses não é importante na Ilíada) e tem os vários capítulos, que é justamente o ápice, sobre Aquiles, o melhor dos gregos. Então eu dizia, este indivíduo heróico se caracteriza pela Aristéia, pela série de façanhas heróicas que eles trazem à glória e o renome, que é a maneira grega de escapar do anonimato, melhor ainda, que é o que interessava aos gregos, escapar do esquecimento. Viver, afirmar-se como individualidade, é querer ser lembrado; olha a questão da imortalidade simbólica, da imortalidade literária. O que interessa ao grego, ao grego nobre, aristocrata, guerreiro, é ser cantado pelo Aedo, ser cantado pelo poeta. Uma cena muito bonita da Ilíada, é quando depois de anos vivendo com uma deusa numa ilha, Ulisses não esquece Penélope; ele quer voltar, porque ele quer contar suas histórias. E essa cena é extraordinária porque ela lhe oferece a imortalidade, e ele prefere voltar, ele prefere a pátria, ele prefere contar suas aventuras e vocês sabem que é uma das maravilhas deste livro; o próprio poeta aparece contando as histórias, é o próprio Aquiles, na Ilíada, é poeta; pense no canto 9 (nove), quando a embaixada vai chamar Aquiles de volta a luta; ou então, pense no capítulo em que o próprio Ulisses conta suas aventuras. Portanto, eu dizia, imortalidade poética, ser imortalizado pelo poeta, aí a grande importância que tem o poeta nesse tipo de sociedade, a glória é fruto do canto glorificador e esse canto glorificador celebra o que? Justamente aquilo que eu chamei de Aristéia, ou seja , os feitos gloriosos dos heróis; em suma, a Ilíada, a Odisséia, proclamam que a vida dos homens vai para o pó, vai para o pó esquecido, a não ser que lhe seja conferido imortalidade pela canção de um poeta. Vou dar alguns exemplos para ver se eu motivo vocês, os que não leram a um dia lerem esses livros, que foi os que me deram mais prazer. É curioso, eu me sinto profundamente apolínio, eu tenho mais prazer na epopéia do que na própria tragédia, até hoje, a coisa mais extraordinária que eu li foi Homero, imaginem se eu lesse em grego. Vou dar alguns exemplos disso: Agamenon, que é rei dos arqueiros, que é o comandante da luta contra Tróia, mas que não é o mais heróico, e justamente toda a polaridade é entre Agamenon, de um lado, e Aquiles, um pouco como Deleuze depois trabalhou, super interessante, é um homem de estado como Agamenon, como Ulísses. Ulísses é um homem de estado. E por outro lado o guerreiro, que Deleuze gosta de chamar de máquina de guerra, e justamente Aquiles era capaz de contestar a força de Agamenon, mas ele é contido pela deusa Atenas, que não queria romper com esse princípio da superioridade do rei, isso desagregaria aquela função de tribos que estão combatendo um inimigo comum que é Tróia. Então, há um princípio da unidade que precisa ser salvo, mas facilmente Agamenon seria destruído pelo Aquiles. Eu não tenho muito tempo de falar sobre isso, é um simples parêntese para quem não está familiarizado com essa questão e imagino, eu sei que vocês todos devem conhecer, mas eu parto do princípio que ninguém conhece, porque eu não quero que ninguém de vocês pegue meu bonde andando, eu quero que vocês entrem nele enquanto está parado para ninguém se arriscar a cair. Pois bem, Agamenonn exorta no capítulo 5, no canto 5, os gregos à luta, do seguinte modo: – meus amigos, sedes bravos, tende coragem no coração, e olha o argumento: e pensai em nossa reputação quando estiverem na luta encarnecida. Posso dar o exemplo também do maior dos Troianos, Heitor, que desafia ao gregos para um combate individual, um duelo do seguinte modo (veja como é que o grego pensava): – se eu o matar e Apolo conceder-me a glória, e a glória sempre vem dos deuses; depois eu falarei sobre os deuses para vocês verem o que são estes deuses; se eu o matar, algum dia alguém, mesmo os homens que nascerem muito depois, a gente por exemplo ainda hoje, 28 séculos, ainda falamos deles, algum dia um homem dirá: aquele é o túmulo de um guerreiro que morreu a muito (veja o final) um campeão morto pelo glorioso Heitor e ele conclui: – e minha glória jamais morrerá. Eu acho que essas citações, eu fiz três, também mostram que, para atingir, e isso é importante, e tudo isso tem respeito a nossa vida, isso tem respeito a vida de qualquer homem até hoje, que para atingir a glória é preciso enfrentar a prova da luta e da morte, provando que, o que os gregos chamavam de Arete, provando a sua excelência, o que interessava ao grego era a sua excelência, porque sem excelência não há glória, não há renome, não há imortalidade. Para obter a imortalidade, para obter a glória imorredora é preciso arriscar heroicamente a vida, agora imagina o que é um povo criado nesse espírito, isso dito e inculcado na cabeça dele como se um poeta alisasse a sua cabeça com as palavras divinas. Portanto, e é isso que interessa a Nietzsche, a Epopéia é uma das resposta gregas ao problema da dor, problema do sofrimento. O Nietzsche passou a vida inteira preocupado com isso e sabe que o Nietzsche era um grande sofredor, ele teve sífilis, morreu, dizem, de paralisia geral progressiva e tinha dores terríveis, ele vomitava dias e dias seguidos, quase não enxergava, passava dias com as cortinas, não sei nem se existia cortinas no lugar onde ele morava, fechadas porque a luz incomodava, ele não podia ver, era quase cego, dores de cabeça terríveis. Então, Nietzsche foi sempre muito sensível a esta questão da dor, do sofrimento, e o que me impressiona na filosofia do Nietzsche é como ele nunca foi reativo com isso, como o pensamento dele sempre foi afirmativo da vida, mesmo se a vida fisicamente lhe deu tão pouco; pois bem, a Epopéia é uma das maravilhosas resposta gregas ao problema da dor, do sofrimento e da morte; eu dizia que, para Nietzsche, o problema da dor é tão importante que para ele, por exemplo, o Deus Cristão nasceu de uma incapacidade do homem lidar com a dor, do fraco lidar com a dor, é isso que ele diz: A dor torna-se um argumento contra a vida, contra esse tipo de existência, se há dor, logo a vida é imperfeita e é necessário que haja o mundo perfeito sem dor, é o paraíso celeste. Então eu dizia, esta resposta da Epopéia ao problema da dor é inteiramente diferente. Vou dar alguns exemplos. Há um troiano chamado Sarpedo que diz por exemplo a Glau, o seu amigo, veja o argumento; se fugindo da guerra já era terrível, já era o nono ano da guerra, estava louco para voltar, se fugindo dessa guerra pudéssemos nos tornar imortais não lutaria entre os mais destacados, é nas primeiras fileiras onde estão os mais destacados, é nas primeiras fileiras onde estão ao mais bravos, mas agora quando 10.000 ameaças de morte se erguem diante de nós, vamos a luta, seja para glorificar alguém, seja para que alguém nos glorifique. Posso dar outro exemplo: Aquiles no conto nove (9) anunciando que ele pode ter duas mortes ; veja bem: Aquiles era um grego que o tempo todo ele sabia o seguinte, se ele lutasse na guerra de Tróia ele seria o mais glorioso dos gregos, mas ele morreria lá, não sei como é que vocês escolheriam, antes de fazer alguma coisa que poderia lhes dar a glória, se você fizer isso terá a glória, mas morrerá durante esta luta, se não lutar, não terá glória mas vai viver até os últimos dias de sua velhice. Pois bem, nesse capítulo 9 Aquiles diz o seguinte: se eu aqui ficar e combater entorno da cidade de Tróia não regressarei à Pátria, mas a minha glória será imperecível, se porém, eu regressar à querida pátria, minha fama gloriosa estará perdida, mas minha vida será longa e tão cedo a morte me dominará. Na verdade, é minha interpretação essa egunda alternativa, é exposta aos chefes gregos e é que sem embaixada no capítulo 9, um dos mais bonitos do livro, chama-se justamente A Embaixada, onde três guerreiros vêem pedir a Aquiles que volte, porque Homero diz: a vingança é doce como mel. Toda a história da guerra de Tróia e eu faço esse parêntese para dizer isso, é que Aquiles afrontou Agamenon. Agamenon, então, para se vingar, porque teria que devolver uma presa de guerra, uma mulher que ele roubou numa das rapinas que os gregos fizeram numa das cidades, somente que essa mulher era filha de um sacerdote de Apolo e o sacerdote reclamou, fez uma oferenda, como se faz no “Xangô”, como se faz na região africana, a mesma coisa, e Apolo resolveu punir os gregos por aquela afronta a sua pessoa, pois bem, e enviou a peste, e o adivinho grego, formulou em assembléia escudado por Aquiles, que deu força de palavra a ele, que aquela peste só terminaria, quando Agamenon devolvesse Cruseida que era filha de Criserdes. Agamenon, que era autoridade máxima, depois daquela feita disse: o deus quer eu devolvo Criseida, mais eu não vou ficar sem presa de guerra, eu sou rei supremo, vou pegar uma de vocês, resolveu pegar a de Aquiles e é a hora que quase Aquiles desembainha a espada para matá-lo e sem a deusa e diz, você não pode fazer isso, os deuses não gostaram, ele deixa a espada, mas a mãe dele é deusa, ele apela para a mãe, a quem Zeus devia algum favor, e ela com artimanha de uma nereida, de uma deusa do mar, consegue convencer Zeus a vingar a afronta que Aquiles recebeu, e é quando, por que deuses são enganadores também, Zeus manda Agamenon um sonho, e é lindo, é um sonho enganador, em que Agamenon aparece a si mesmo tomando Tróia no dia seguinte. Então entusiasmado com aquela idéia, um presságio dos deuses ele resolve investir contra Tróia, só que isso era uma cilada armada por Zeus, justamente para um afrontamento com os troianos, sem Aquiles, para os gregos começarem a perder, perder terreno, até o momento da perdição em que os troianos vão incendiar os navios e ai os gregos não poderiam mais voltar e estariam perdidos ali e seriam destruídos. Então naquele momento, voltaria à luta, Aquiles que mostraria que os gregos, olhe ai a vingança doce como mel, e mostraria que os gregos não são nada sem ele. Portanto, ele é o melhor dos gregos como ele sempre soube desde o início, mas que o Agamenon não quis ver; estou dizendo com as minhas palavras, assim, a idéia central que é a história da Ilíada. Pois bem, nesse canto 9, os troianos já estão pertíssimos dos navios e alguns gregos vão como emissários pedir a Aquiles para voltar a lutar, Aquiles não quer voltar e não voltará por esse motivo, ele só voltará porque seu amigo Patruco foi morto, e então ele formula essa idéia de que ele vai voltar; ele vai voltar porque ele quer ter uma vida, não está ligado para a imortalidade, mas quer ter uma vida longa, isso para amedrontar mais ainda os gregos, porque o que a gente vê é que ele não voltará à pátria e a gente pode ler; logo depois, porque o que acontecerá será narrado por Homero com essas palavras: Aquiles, filho de Pereu avançava para conquistar a glória e suas invencíveis mãos estavam cheias de sangue e pó, ou capítulo 21, uma fúria terrível ainda dominava o coração de Aquiles e ele almejava conquistar a glória; gostaria de dar um exemplo que, a meu ver, são das palavras mais tocantes a respeito da glória em toda a Ilíada, que são ditas para esse personagem apaixonante, que é Heitor, Heitor o melhor dos troianos, Aquiles o melhor dos gregos. Pois bem, num determinado momento, capítulo 22, um dos mais bonitos, são 24 capítulos ao todo na Ilíada, quando a fúria sanguinolenta de Aquiles está destruindo totalmente os troianos e os troianos que só depois que Aquiles tinha saído da batalha, saem das muralhas, naquele momento estão voltando todos para a muralha, Heitor resolve ficar na frente das muralhas, sem obedecer ao pedido de seu velho pai que está encima da muralha, dizendo:     “Heitor você não é homem capaz de enfrentar essa fera”, Heitor resolve ficar, mas é super interessante e eu vou falar sobre essa idéia de luminosidade do herói, quando Heitor vê Aquiles, a luminosidade que sai dele, o incêndio que vem daquele homem é tão grande e esta metáfora de luz que se vocês algum dia lerem o Zaratustra de Nietzsche, ele retomou bastante para caracterizar o lado que eu chamo de Apolínio em seu personagem, faz com que Heitor não agüente e corra, imagine o maior dos troianos correndo do maior dos gregos, imagine aqueles homens pesados com aquelas armaduras de ferro, diz o texto que eles dão três voltas em torno da cidade de Tróia, até o momento em que a deusa Atenas (os deuses são traiçoeiros) convence Heitor que ele deve enfrentar Aquiles, aparecendo a Heitor como se fosse o seu irmão. Heitor fica maravilhado, infinitamente agradecido ao irmão, como você ousou sair das muralhas para me ajudar; disse: “vamos eu estou a seu lado”. Vamos combater Aquiles. Pois bem, e é aí que aparece a balança pela primeira vez como símbolo da justiça, em toda a história da humanidade. Zeus resolve pesar o destino dos dois e a alma de Heitor vai para os ares, então Zeus ordena os deuses que estão ao lado dele, porque cada grande herói tinha seus patronos, seus protetores, seu deus, seu sonho protetor, e aí Heitor imagina, (imagine para nós aqui se sentir só, abandonado pelos deuses no momento da sua luta mais importante, que é aquela contra seu pior inimigo); o Nietzsche fala da morte de Zaratustra , como a melhor das minhas inimigas. Pois bem, o que Heitor, e essa é que é a grande lição que eu acho que a gente tem que tirar da Epopéia; Heitor diz o seguinte: agora o destino encontrou-me, mas que eu não pereça docilmente, que eu não pereça sem bravura e sem glória, e sim praticando um grande feito para os ouvidos das gerações que hão de vir. Olha, 28 séculos e eu ainda estou elogiando estas palavras inesquecíveis. Vejam, é uma maneira da gente se comportar diante da morte, Nietzsche não gostava das palavras de Sócrates diante da morte, não sei se vocês já pensaram o cenário da morte, a de vocês, porque é o momento mais difícil das nossas vidas, né, e morrer bem é fundamental; Nietzsche diria “só morre bem quem vive bem”; Deleuze se matou a poucos dias, pensei numa frase fundamental do Nietzsche, ele dizia no Zaratustra: “Uns morrem cedo demais, outros morrem tarde demais”, o Zaratustra diz: morra a tempo, nem cedo demais nem seja um morto vivo, se você já morreu não tem sentido continuar, mas é difícil saber a hora de morrer e ele diz: mas só morre a tempo quem vive a tempo, bonito. O que Sócrates diz, vocês sabem que Nietzsche não gostava do platonismo, quais foram as últimas palavras, que segundo Platão, Sócrates disse antes de morrer: devo um galo a Esculápio, Asclépio, era o deus da medicina e os gregos sacrificavam, ofereciam um galo a Esculápio quando eles tinham sido curados de uma grave doença. Pois bem, segundo interpretação do Nietzsche, Sócrates mandando o discípulo fazer oferenda a Esculápio porque ia morrer, isso teria significado: que a vida é uma doença e, agora, que a morte vai levá-lo para a verdadeira vida, ele foi curado dessa doença; deve, portanto, pagar esse ato de cura ao deus da medicina que é o Esculápio. Nietzsche diz: péssima palavra, eu acho que ele preferiria essa de Heitor, bom, vocês podem escolher, comecem já a pensar na de vocês para esse momento, que é a única certeza que a gente não vai escapar dele? O que eu acho que evidenciam essas citações é que o saber da Epopéia, a verdadeira morte é ser esquecido, é o esquecimento, ser indivíduo heróico é superar a morte, é se proteger contra o monstruoso da morte, de que modo, pela idéia de uma glória imorredoura, tornando-se vivo na memória dos homens, mesmo que se tenha de morrer em combate. Um helenista francês, muito importante chamado Vernant (Jean Pierre) tem um artigo extraordinário sobre a Epopéia, que se chama justamente “A morte gloriosa e o cadáver ultrajado”; quem se interessa, leia, é uma maravilha, ele comenta esse grande duelo entre Aquiles e Heitor. Vejam, quero dizer que, partir da crueldade, partir dessa idéia de que, para Nietzsche, a vida é cruel, a vida é tenebrosa e todos nós já devemos ter mais ou menos experiências disso. A crueldade, os terrores, as atrocidades mostradas na Ilíada, visam o que? Visam a ressaltar as dificuldades de se atingir a vida gloriosa. Mas, o que é interessante neste milagre grego, nesta saída poética, é que a questão do sofrimento, da dor e da morte aparecem pela criação deste mito da imortalidade simbólica porque, afinal de contas, você já morreu, o que adiante ser cantado pelo Haedo, isso faz com que na vida, o perigo, o medo da morte seja neutralizado, o medo da morte seja anestesiado pela figura do indivíduo heróico. Quer dizer, há várias maneiras de lidar com a morte, de lidar com este lado tenebroso da vida, a saída da epopéia foi esta, de glorificação da vida através da construção do indivíduo heróico. Portanto, a minha idéia é esta: apresentar a Epopéia como um processo de produção da individualidade – o indivíduo é o ideal, o modelo, é um exemplo de um sistema de valores a ser perseguido pelo grego, todo o grego ouvindo fascinado os efeitos dos heróis do passado lendário, o que acontece com ele, devia o olhar do que há de mais sombrio, do que há de mais tenebroso na vida cotidiana, mas dou outro passo na minha exposição, esse indivíduo heróico tem um modelo; o grego comum, real tinha como modelo o grego heróico, cantado pelo poeta; mas na própria poesia heróica, o grego heróico tem como modelo os deuses, a criação do indivíduo e é disso que eu vou falar agora, é uma conseqüência da criação dos deuses olímpicos. Como os homens, os deuses são indivíduos; só que entre homens e deuses há uma intransponível distância. É que os deuses são imortais enquanto que o gênero humano, a expressão é de Homero – muda e passa como as folhas – Nietzsche retoma estas palavras pensando na beleza da metáfora vegetal, porque na Ilíada, este troiano Glauco constata o fato terrível e ao mesmo tempo natural da morte. É bonito, ele diz: como as folhas assim também são os homens; Compara homens a folhas, por quê? As folhas, os ventos atiram ao solo sem vida, e outras brotam na primavera por toda a floresta, assim também, nascem e desaparecem os homens; queria chamar a atenção para isso. Estão diante de um mundo poético, isso inspirou Nietzsche em dois sentidos; é o mundo sem conceito, não existia o conceito ainda porque o conceito é uma invenção platônica, não existe sistema de pensamentos, não existia definição, tudo era apresentado metaforicamente, por imagem e assim por diante. São as imagens poéticas. Segundo, não existia culpa, é um mundo sem culpa, quer dizer, é um mundo pré cristão. Então Nietzsche, que é um crítico do platonismo e do cristianismo, por isso ele valorizou tanto o grego, eu hoje só estou falando de uma parte e disso ainda não a mais importante, mais importante ainda é a tragédia. Mas não vou falar dela, eu escolhi o início justamente dessa problemática que é da epopéia. O que é que esse texto diz, que os deuses são modelos inacessíveis, modelos dos quais os homens devem se esforçar o mais possível para se aproximar, mas dos quais deve sempre guardar a devida distância. Isso é ensinado na Ilíada, abram o conto 5 e vocês vão ver o momento em que Apolo vai ensinar a Diomédis (é o capítulo sobre o Diomédis, o mais enfurecido dos heróis gregos), Diomédis, que nesse momento da estréia da sua série de fatos heróicos, ele combate até os deuses, ele dá um pau em Áries, que sai correndo chorando, Áries, o deus da guerra, curiosamente não vale muito coisa na Ilíada. Ele perseguiu também Afrodite, fere Afrodite na mão, imagine, um homem ferindo uma deusa, e ela vai se lamuriar a seu pai que é Zeus. “Pai, os homens agora ferem até os deuses? E que é que Zeus diz? – sai daí minha filha, você foi feita para as coisas do amor não para as artes da guerra, não está no lugar correto! Que maravilha, então você veja como é que se pensa, o que é um pensamento poético. Pois bem, e nessa fúria Diomédis chega a Apolo, o deus grego por excelência. Tanto que Nietzsche priviligiou Apolo quando falou de Apolínio, é o modelo desse mundo. Vou falar sobre isso já, quem é Apolo. Pois bem, Diomédis quer enfrentar até Apolo, quer dizer enfurecido na sua aristéia, perseguindo um inimigo troiano, Enéias, ele não mostra reverência nem ao grande Deus, que ele quer de todo modo matar, ter essa glória de matar Enéias. Que por sinal, talvez vocês saibam, é o único troiano que não morreu, porque ele não morreu? Quando ele foi fundar Roma, ele foi cantado pela Eneida, ele é o único que ninguém sabe do destino dele. Então o poeta retomou a figura, e ele queria justificar a origem divina do imperador. Pois bem, Diomédis, vai matar Enéias, mas Apolo estende sobre Enéias os seus braços protetores e diz para o herói grego: cuidado Afasta-te e não procures medir-te com os deuses; vou falar depois, Apolo é o deus da medida. A questão de medida é o conceito mais importante e é por isso que não cheguei lá ainda, estou deixando para o final. Afastas-te e não procures medir-te com os deuses, pois de modo algum se assemelham a raça dos deuses imortais e a dos homens que caminham na terra, e que cai como as folhas. É justamente Apolo, Deus que Nietzsche, privilegia, por considerar que o mesmo impulso que se materializou em Apolo, engendrou todo o mundo apolínio, todo o mundo olímpico. Pois bem, é exatamente Apolo que melhor personifica a idéia de indivíduo, Apolo é a expressão, é a representação, é a imagem divina daquilo que Nietzsche, usando a expressão do seu mestre Schopenhauer e que ele seguia nesta época ainda, chamou de “Principium” (em latim) iondividuaciones quer dizer, Apolo representa para Nietzsche o princípio de individuação. Vou falar um pouco sobre isso, essa idéia de indivíduo apolínio, é introduzida por uma consideração sobre o sonho. Para Nietzsche a arte grega homérica, veja que maravilha, aparece como um jogo com um sonho; por exemplo: é um sonho que o escultor esculpiu a imagem dos deuses, foi em sonho que os poetas viram imagem dos deuses, foi em sonho que os poetas viram os deuses, o que significa que os deuses são imagens oníricas, são figuras sonhadas. A Epopéia, portanto, nos transporta para um estado de sonho, por quê sonho? Eu acredito que ao salientar o caráter onírico da Epopéia, Nietzsche quer priviligiar na arte apolínica, o que? O olho, a imagem, a figura, a forma, veja que idéia maravilhosa, vocês sabem para Nietzsche não foi Deus que criou o homem, foram os homens que criaram os deuses, então a grande pergunta de Nietzsche com relação a essa Grécia arcaica é: porque os gregos criaram esse tipo de Deus? Que são esses deuses para os gregos? Veja que idéia maravilhosa que interpretação fina, os deuses homéricos para Nietzsche são espelhos, são espelhos em que os homens se olhavam e se viam nas imagens divinas, se viam transfigurados nas imagens dos deuses, se viam transformados, eles também, em figuras de sonho. A função educativa, se eu ouso dizer, da Epopéia era fazer o grego viver no mundo de sonhos. E essa idéia é muito interessante: olha ai, essa idéia foi algo que nos ameaça e vocês vão ver na imagem que logo depois eu vou citar, que é contra essas ameaças terríveis, sobretudo, no alto mar, onde você não tem terra firme, que os deuses foram criados, esses deuses da beleza, não estou brincando não.

(Ø Fala sobre a experiência no México de um terremoto durante uma palestra).

Então eu estava querendo chamar a atenção para isso, que esses deuses homéricos aparecem para os gregos como espelhos. Veja o que é a idéia de reflexão para os gregos, nós estamos acostumados a ligar reflexão ao conceito de subjetividade, no sentido de uma interioridade, não há sentido de uma profundidade. Eu queria dizer que esses gregos homéricos são pura superfície sem profundidade psicológica, não existe noção de livre arbítrio, não existe noção de vontade, isso são idéias posteriores na história da humanidade, não existe interioridade, não existe introspeção, em suma, não existe ainda consciência reflexiva. Então, o reflexo ou a reflexão é justamente essa imagem dos homens projetadas nos deuses, ou a imagem dos homens projetadas como deuses. Que fazia com que os homens se olhassem e se vissem nessas imagens divinas. O mundo Olímpico é um espelho transfigurador, esta é a idéia de reflexão. Eu vou explicitar essa idéia a partir de Apolo, como individualidade por excelência, como princípio de toda a individuação, na etimologia de Apolo, Nietzsche vai encontrar, esse primeiro Nietzsche, esse momento do nascimento da tragédia, vai encontrar duas características dessa imagem na qual o homem se projeta; é sobre isso que eu vou falar agora, o brilho e a aparência. Apolo é a divindade da luz, Apolo é fébu, o que significa fébu, é o resplandecente, Apolo é o brilhante, Apolo é o solar. Toda a teogonia é estruturada a partir destas metáforas do dia e da noite, da luz e da sombra; se vocês algum dia lerem o Zaratustra do Nietzsche, vocês vão encontrar esta idéia poética ali presente, eu tenho uma hipótese sobre isso de que o Zaratustra começa como apolínio, leiam a primeira coisa que o Zaratustra faz, no início do prólogo, é uma oração ao sol, é uma saudação ao sol. E ele desce para os homens para que? Para iluminar, até o momento, mais ou menos na metade da segunda parte do livro, em que ele vai cantar uma canção solitária, chamada “O canto noturno”, ele vai ter o desejo do outro lado, o desejo do que ele ainda não é, que é a sombra, ele vai ansiar por isso, vai desejar esse mundo sombrio, o mundo das trevas ele começa a se tornar dionisíaco mais do que Apolinio (corte / pop ). Pois bem, essa luminosidade predicada de Apolo, não é apenas propriedade sua, para Nietzsche ela pertence aos deuses olímpicos em geral. Esse brilho, essa luminosidade, ilumina os homens mesmo que os homens sejam reflexos imperfeitos dos deuses quer dizer, mesmo que, como lembrou Apolo a Diomédis na cena que eu narrei, mesmo que os homens não tenham o brilho que os deuses têm, que eles caem como folhas, então precisam secar. Olha, o interessante e essa seria a grande lição da Epopéia com relação a intensidade da vida, e é sobre isso que nós estamos falando o tempo todo, é que quanto mais gloriosos os indivíduos são, mais brilhantes eles estão. Pois bem, na Epopéia, a vida no apogeu da super abundância de forças é apresentada sobre a luz clara e ensolarada dos deuses, (mas o tempo que faz lá fora mostrou explicitamente , melhor que minhas palavras a todos vocês, que luz obviamente se opõe a trevas), conceber o mundo apolínio como brilhante é a estratégia grega homérica para lidar com o sombrio, para lidar com o tenebroso da vida; como diz o nascimento da tragédia, Apolo ultrapassa o sofrimento do indivíduo pela glória da luz. Essa idéia que sofrimento e morte está ligada a trevas é uma idéia bastante comum que há na teogonia grega. Quer dizer a visão onírica, essa visão de sonhos, esta visão é estática, ela é um protetor, um abrigo que permite olhar com a mesma alegria, o grave, o melancólico e o sombrio. Mas aí falta a última idéia: de que tipo é essa proteção? Lembra, acabo de dizer isso, os deuses olímpicos foram criados para proteger o homem contra o que existe de aterrador, tenebroso na vida. A proteção da epopéia (sobre a qual vou falar hoje) é um tipo de proteção, então, qual é a especificidade dela? Essa singularidade só pode ser entendida quando a gente falar do segundo aspecto da figura de Apolo, da imagem apolínia (não sei se vocês anotaram, eu disse luz e aparente). Apolo é o brilhante e Apolo é o aparente, é exatamente a temática da ilusão ou da ilusão artística, quero dizer, intrinsecamente ligada a idéia de brilho está a da aparência. Sabe-se que Nietzsche é marcado no nascimento da tragédia pelo pensamento de Schopenhauer. Era um Nietzsche jovem de 25 – 26 anos, que está escrevendo sobre idéias maravilhosas. Sabe-se, então, que o nascimento da tragédia se estrutura ou estrutura sua argumentação a partir de categorias, que eu poderia chamar platônica como aparência-essência Kantianas como fenômeno-coisa em si, ou então propriamente Schopenhauriana. Que é representação e vontade. Inclusive uma das originalidades do primeiro livro de Nietzsche com relação à crítica da metafísica racional é a valorização do termo que foi desvalorizado na correlação com o outro, não é, a metafísica valoriza a essência em detrimento da aparência. O que faz o Nietzsche? Valoriza a aparência, valoriza o fenômeno, valoriza a representação, através justamente de sua interpretação das figuras de Apolo e dos deuses olímpicos considerados como criações luminosas e aparentes de uma arte apolínia. Os deuses gregos são frutos de uma mentira poética, de uma ilusão artística, Nietzsche não era contra a ilusão, nem acha que em geral nós somos contra a ilusão, nós somos contra a ilusão que nos desfavorece, mas não contra a ilusão que nos permite viver (vocês se lembram de uma música do Caetano que diz, acho que é a Betânia que canta “Feia ou bonita ninguém acreditam na vida real”). A gente esta sempre criando a ilusão para o poder viver. O problema para Nietzsche é que ilusão você vai criar para dar sentido à sua vida, porque em si mesmo a vida não tem sentido, numa perspectiva nietzscheana, a vida é aquilo a partir do que você pode pensar o sentido, mas isso é uma outra questão. O que eu quero dizer é o seguinte, o que é a relação tão intima que ele estabelece entre brilho e aparência, que permite a Nietzsche pensar a proteção apolínia como; olhe aqui de que tipo é? Digo agora: a proteção que dá a arte homérica é do tipo de uma ocultação, de um encobrimento, quer dizer, se atormenta, pode nos ser aniiquiladora, destruidora, a gente faria o que vocês estão fazendo e delicadamente, ignora o que está acontecendo, põe uma cortina, põe um anteparo, põe o escudo de Aquiles para o que está atrás, que pode ser mortal, que é uma figura da morte. Portanto, essa proteção apolínia é ocultação, encobrimento, mascaramento, dissimulação. Segundo Nietzsche, a luz é uma ilusão, os deuses e heróis épicos são como que fantasmas, são miragens, miragens artísticas. (Corte na fita) Isso é que é interessante, que tem como função tornar essa vida desejável, (falei isso logo no início da minha palestra) não é uma religião de uma outra vida, é uma religião que tem como função trazer o gosto desta vida. Como? Ao transformar em fugas sensação de aparência, não só o que é agradável (isso é fácil), como também o que é sombrio, o poeta épico, o que é que faz? Isso é que é importante, alivia a vida, traz à vida prazer e alegria. Então retorna aquela idéia, os deuses são espelhos luminosos que os gregos colocaram entre eles e as atrocidades da vida. Já estou usando a metáfora que a própria natureza está nos oferecendo. Quer dizer se o insuportável do sofrimento exige a proteção da arte, como meio de tornar a vida suportável. Qual é a solução homérica? A solução homérica é velar, a solução homérica é encobrir o sofrimento criando uma ilusão (ilusão de beleza) que protege do caótico e do informe que é destruidor. E o que os gregos chamavam de dionisíaco bruto, selvagem, asiático, que eles temiam porque seria a dissolução de todo aquele projeto de constituição da família, do estado, da sociedade, da cultura e assim por diante, que é um projeto apolínio e que foi retomado, segundo Nietzsche, depois pela racionalidade metafísica, socrática e platônica; que ilusão é essa? É o princípio da individuação. O que é que eu estou querendo dizer e nesse sentido essa presença forte da natureza na manifestação de suas forças vai me servir a entender que essa criação luminosa e aparente de Homero que é o indivíduo, é o modo de aliviar a atmosfera opressora da existência, é o modo de triunfar do sofrimento apagando seus traços, ou então deles se esquecendo. Como Nietzsche escreve em um texto chamado “A visão dionisíaca do mundo”, o mundo brilhante do Olimpo só venceu porque era preciso ocultar pelas figuras luminosas de Zeus, Apolo, Hermes, etc. A sombria atividade de Meira, quer dizer, olha aí a metáfora, a sombria atividade do destino. É o grande problema, nós sofremos, nós vamos morrer e faz parte do destino e o melhor dos gregos, Aquiles, sabia que seu destino era ser glorioso, mas era morrer na guerra de Tróia. Esse mundo épico criador do indivíduo como luminosidade e aparência, possui (e essa vai ser minha conclusão) possui, solidamente unidas duas dimensões, uma eu chamaria de dimensão estética e a outra de dimensão épica e eu acho que a gente pode ter acesso a essa dupla dimensão através da noção mais importante, a meu ver, e é isso que eu deixei para o final, que é a noção de medida, e você tem duas noções importantes. Você tem a noção de medida e a noção de Híbris, a Híbris grega / vou falar sobre ela amanhã em Pelotas quando mostrar como Foucault retomou o trágico do Nietzsche para aceitar a razão e a loucura, nessa relação razão e loucura; pois bem, a Híbris é o que, a desmesura, então toda a problemática que está presente aqui é a da relação entre medida e desmesura ou desmedida, como equacionou essa relação, a epopéia equacionou de um modo, a tragédia equaciona de um modo diferente, como ter acesso a essa idéia de medida, na sua dimensão estética é a beleza, o grego é que inventou a idéia de beleza; e o que é beleza no sentido apolínio? Apolo é o deus da beleza, não sei se vocês já viram, quem já não ficou apaixonado, homens ou mulheres, pela imagem de Apolo, vejam as esculturas que sobram de Apolo. O que é que nós temos ali? A beleza no sentido de apolínio, de medida, de harmonia, de ordem, de proporção, de limitação. Apolo, deus da beleza, quer dizer, símbolo do mundo considerado como belo, o que significa dizer, como ilusório. Porque justamente a criação da beleza é a criação de uma ilusão. O poeta, esse mentiroso. Portanto, criação da beleza, criação do mundo da arte. O elemento de Apolo é a beleza, a bela aparência dos sonhos é o seu reino, significa dizer que Nietzsche, que mesmo irado, mesmo de mau humor, mesmo triste, a graça da bela aparência não o abandona. Portanto, é nesse espelho apolínio que se constrói a imagem dos homens como belos reflexos dos deuses, é isso que interessa a um grego homérico, ser belos reflexos dos deuses. Essa concepção apolínica da beleza é uma marca do estilo, é por isso que eu disse, leiam Homero, é uma marca da forma de expressão da Epopéia. Nietzsche não insiste, é verdade, muito neste aspecto, mas ele dá uma indicação importante a meu ver, quando no nascimento da tragédia, ele diz que a precisão, a clareza, olha a questão da luz, a clareza Épica, são efeitos do Apolo intérprete de sonhos. E neste texto que já citei a Agon em Homero, ele diz que nós somos transportados a esse mundo homérico graças a extraordinária precisão estética, como aqueles fatos são contados. Então veja, lembro que eu falei, da crueldade das lutas da espada que ultrapassa, que entra no maxilar e sai no olho e assim por diante, mas aquilo é contado com uma clareza e uma precisão tal que aquilo deleita o grego fazendo com que anestesie todo o sofrimento que está ali presente. Vejam o que é transformar realidade em sonho. Quer dizer, graças a essa precisão estética, quer dizer, graças a harmonia do estilo, graças a pureza de linhas da descrição que vai além do caos da existência material. Pois bem, se trata de uma ilusão artística que torna as cores mais luminosas, diz Nietzsche, que torna as cores ainda mais doce, esse é o aspecto estético. Mas, para concluir, eu queria chamar a atenção para o aspecto, talvez mais interessante, porque o mais educativo dessa experiência grega com esse mundo da aparência e da ilusão. É que essa dimensão estética da epopéia se liga intrinsecamente a uma dimensão ética. Quer dizer, a uma necessidade estética de beleza corresponde uma exigência ética de medida, portanto a medida não está só na base da estética, está também na base da ética, uma estética da medida mas também uma ética da medida, dentro da questão medida – desmesura. Então, o que é medida neste sentido, eu falei que beleza, medida como beleza era proporção, era harmonia, era clareza, era precisão de linhas, agora o que é que é medida? É calma, é jovialidade, é serenidade, não sei se vocês já pensaram nisso, é que na interpretação de Nietzsche dos gregos, serenidade e jovialidade quer dizer a mesma coisa. É por isso que Vernant chega a dizer que o objetivo dos gregos é a morte gloriosa, é horrível morrer como velho, veja que é o contrário da previdência, a gente só fala nisso no brasil, é o contrário com a preocupação da segurança na velhice, todo mundo moderno capitalista, burguês é ligado, é essa idéia da prevenção, da proteção, até o François Ewald, discípulo do Foucault escreveu um livro “estado – previdência”, que é uma diversão moderna. Pois bem, esse mundo heróico é o elogio, justamente, da jovialidade. Existe um velho na Ilíada, é um personagem maravilhoso, chamado Nestor, que como todo velho, fala muito, ele tem muita história para contar, ele recebeu um presente dos deuses, eu bem que gostaria de receber este presente, lhe foi dado viver três gerações, então há três gerações que ele luta em guerras, mas é verdade também que ele jamais desce do carro, ou pelo menos na conta que se faz, ele nunca matou ninguém, ele estava mais ao lado incentivando que exatamente na luta, e o que é super interessante é que na hora decisiva do combate ele está sempre se lamentando por não ser mais quem ele era antes, como ele diz, (nunca esqueci a frase): no tempo que eu matei Eleutalion (que nome estranho). Então ele, agora, podia se dar melhor naquele combate, mas ele é o mais velho, três vezes mais velho e portanto, muito mais do que os outros. Então eu chamava a atenção para isso, a medida como comportamento ético é jovialidade, é serenidade, é sapiente, é tranqüilidade, é limitação, o que ele chama de limitação mensurada. Dentro de um outro modo, é liberdade com relação as emoções, é você saber lidar com suas emoções, é o chega pra lá que o Apolo deu no Diomédis, conheça o seu lugar. Vocês todos conhecem o preceito também de apolínio: conhece-te a ti mesmo, quem não conhece a si mesmo está roubado. Você vê como Platão se apropriou disso, e transformou num pensamento de consciência, de reflexão, de um pensamento racional, não tem esse sentido originalmente. Estou querendo dizer o seguinte, Apolo, deus da bela aparência, é também divindade ética da medida, quer dizer, faltava esta palavra, dos justos limites, você tem que saber até onde você pode ir, isso é idéia que, por exemplo, o Nietzsche aprofundou bastante, é uma idéia que foi muito retomada na interpretação Deleuziana do Nietzsche, pela filosofia de Deleuze de uma maneira geral, que ele encontra isso em Espinosa. Vou fazer mais um parêntese, porque vocês sabem que, em uma palestra, os parênteses é que são interessantes – Espinosa era alguém para quem não existia bem e mau como valores universais. Existia o bem para mim, o mau para mim. Quer dizer, cada um, como dizia Caetano, cada um deve conhecer o seu bem e o seu mau, não é, se a gente vai para um bar é você quem deve saber quantos wisques ou quantos chopp você precisa para ficar em ponto de bala, talvez até nem precise nem de chopp nem de wisque, isso é melhor ainda, é a postura mais sabiamente trágica, é se embriagar com um copo de água. O dia que vocês chegarem lá estão bem. Pois bem, o que é interessante é que a medida de um não é a medida do outro, não é, portanto, porque o outro lhe disse faça assim, que você se dará bem, que você intensificará sua forças se você fizer. Portanto, conhecer o justo limite, não cair na desmesura, desmesura que foi a de Diomédis na sua Aristéia e que vai ser também, embora eu não tenha podido falar muito dela, a desmesura de Aquiles, vocês sabem que depois e foi assim que acabou a história, que depois de matar Heitor não satisfeito com isso, porque Heitor tinha matado seu grande amigo, seu companheiro, é Petroco, ele toda a noite faz um passeiozinho no seu carro arrastando o cadáver de Heitor para mutilá-lo o máximo possível. Como Heitor era amado pelos deuses e também, a deusa vai lá, unta ele com uma substância que eu não sei infelizmente qual era, onde as carnes não apodressem nem se corrompem, se vocês saberem o segredo, vocês dividem comigo, seria um segredo apolínico por excelência. Pois bem, os deuses ficam revoltados, e para quem não tiver muito tempo, eu diria, leiam somente o último canto do livro, é o 24, o encontro maravilhoso do Aquiles com o pai de Heitor, que vem buscar o cadáver do primo sozinho, mas mandado pelos deuses. Ele consegue penetrar no acampamento grego sem ser visto e exige de Aquiles, e, é um encontro maravilhoso, encontro de dois homens, dois guerreiros, de duas figuras apolínias. Pois bem, Aquiles devolve o cadáver e escapa da desmesura justamente por conhecer o seu justo limite, até onde ele pode ir e até onde não deve ir. Então eu dizia, além de deus da beleza, Apolo é o deus ético, porque é o deus da medida e do justo limite, e aí essa face de Apolo, esta face do indivíduo apolínio, e eu estou chamando atenção para a função, o papel pedagógico que essas idéias tinham para a sociedade grega é ilustrada no livro do Nietzsche: “O nascimento da tragédia”, como uma comparação maravilhosa que o Nietzsche tira de Schopenhauer. Olha o que é ser apolínio. A metáfora é essa: assim como um barqueiro em meio a um mar enfurecido, um mar da mais terrível tempestade, imaginem, um barqueiro em seu barquinho, num mar enfurecido, está sentado em seu bote, confiante na frágil embarcação, assim também em meio a um mundo de tormento, olha ai a questão da dor, do sofrimento, do aspecto tenebroso da vida, o indivíduo apolínio, está sereno, está tranqüilo, apoiado e confiante no princípio da individuação. Eu diria, a serenidade apolínia é o emblema da perfeição individual. E para que esses limites apolínios sejam mantidos, apolo vai exigir do indivíduo o conhecimento de si, junto com nada em demasia, que é um dos princípios de Apolo, nada em excesso; nós temos o outro correlato, o outro princípio sagrado escrito no templo de Apolo, conhece-te a ti mesmo, ai eu lembro, conhecimento de si que não é introspecção psicológica, que não é constituição de um mundo interior, de uma consciência reflexiva, conhecimento de si que é um espelhamento, olha aí os deuses como espelho, deuses como espelho criado pelos homens para eles se divinizarem na própria vida. Um espelhamento, portanto, na figura, na imagem do deus Apolo, um jogo de espelhos pelo qual o homem se vê como um belo reflexo do deus da beleza e da medida, que eu mesmo havia criado. Portanto, eu concluiria dizendo o seguinte: a prescrição ética da medida, da manutenção dos limites do indivíduo e a proscrição da desmesura, aquilo que os deuses consideravam como sendo excesso de orgulho, no qual caiu até Aquiles, o maior dos gregos, sempre mereceu de Nietzsche grandes elogios, quer dizer, Nietzsche é um filósofo que sempre fez esse elogio de uma ética da medida, posso citar um fragmento póstumo do último período, eu fiquei no primeiro período de Nietzsche, Nietzsche de 24 anos, 25 – 26, posso agora citar o último Nietzsche do final da década de 80, fragmento póstumo, quer dizer, não publicado, que se lê: o gosto grego, do grego da bela época, é essa época opolínia, implica que se é mestre da profusão de formas vivas, implica que se impôs a medida, a medida fundada na calma, na serenidade da alma forte, na alma do forte. Não sei se vocês conhecem a maravilhosa frase de Nietzsche: o que não me mata me fortalece. Que é uma idéia trágica. Essa idéia da medida como um princípio ético que aparece nesse aforismo pode ser completada por dois aforismos da mesma época, um diz o seguinte: a aversão dos gregos ao excesso, a aversão dos gregos a Híbris, quer dizer, ao ser que ultrapassa seus próprios limites, portanto, o amor grego pela medida é algo bastante aristocrático, ai vocês vejam qual o sentido de nobreza e aristocracia, é algo que deve-se a mais antiga nobreza, quando Nietzsche fala de aristocracia e nobreza, ele está falando do grego Apolínio; o outro, e eu diria, para concluir, dá um motivo pelo qual se tornou difícil compreender a idéia grega de medida e achar que a medida não é um bom princípio de vida. Diz Nietzsche, é que a relação, a idéia é essa, entre moderação e fraqueza tornou-se própria do ascetismo moral e religioso, foi o ascetismo moral e religioso posterior que elogiou uma moderação ligando a fraqueza. O Nietzsche é terrível com relação a isso quando ele diz para a gente, nesse livro cruel que é “o nascimento da tragédia”, mais ou menos assim, a frase não é esta, eu estou improvisando: – Rio-me dos fracos que se sentem bons porque tem as mãos aleijadas, eles se pensam bons mas é porque eles não podem nem fazer mal aos outros então são bons. Transformam sua fraqueza em bondade porque se comportam como carneiros, tratam como maus as aves de rapina e o Nietzsche justamente, eu falei no início, que ele considera o homem moderno fraco, esse amolecimento do homem moderno seria justamente isso, a transformação, digamos do leão que existe em nós, em animal doméstico. Ele diz que o leão de circo não é o leão que aprendeu a ser bom, o leão de circo é o leão que saiu quebrado, entende, aprendeu a ser um leão bonzinho a força de pancadas. Portanto, seria essa relação entre moderação e fraqueza que fez esquecer o que Nietzsche chama de moderação dos fortes, que o gosto pela beleza proporciona medida, que é o prazer que as naturezas artísticas têm na medida, e o Nietzsche acaba esse aforismo dizendo o seguinte: que é como o prazer do cavalheiro numa terra que tem pampa (é bonito a gente falar tudo isso), que monta o cavalo fogoso, pois bem, eu acho e é isso que eu vim trazer aqui para vocês, que uma das grandes sugestões da filosofia de Nietzsche é que o homem moderno volte a ser como esse cavaleiro que monta o cavalo fogoso.

[1] Transcrição da palestra realizada no PPGeducação –UFRGS em 1995.

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MILONGA DOS NEGROS (JORGES LUIS BORGES, CAETANO VELOSO E VITOR RAMIL). Letra em português.

TRADUÇÃO EM PORTUGUÊS

Minha voz, senhores, como
Quem joga truco, eu levanto
Para celebrar a gente
De cor negra no meu canto.

Para ingleses e holandeses,
Eram o negro marfim,
E aqui os desembarcavam
Depois de meses sem fim.

Lá no bairro do Retiro
Houve um mercado de escravos;
Determinados que eram,
Muitos provaram ser bravos.

Esqueceram seu país
De leões quando meninos
E a esta terra os habituaram
Os costumes e os carinhos.

Quando a pátria, numa certa
Manhã de Maio, nasceu,
O gaúcho só sabia
Lutar montando um corcel.

Alguém viu que os negros eram
Patriotas, destros, ferrenhos
E formou-se o Regimento
De Pardos e de Morenos.

O sofrido regimento
Cujo número era seis
E do qual disse Ascasubi:
“Mais bravo que o galo inglês”.

E assim, na margem oposta,
Esse bando negro, ao grito
De Soler, arremeteu:
Foi no ataque do Cerrito.

Martín Fierro matou um
E é quase como se houvera
Matado todos. Sei de outro
Que morreu pela bandeira.

A cada tarde no Sul
Olha-me um rosto moreno,
Trabalhado pelos anos
Tão triste quanto sereno.

Em que céu de longa sesta
E tambor estão agora?
O tempo que é esquecimento,
O tempo os levou embora.

© JORGE LUIS BORGES
In: Para as seis cordas, 1965
(Para las Seis Cuerdas)

Rezem por Rimbaud. Humor da palavra desordem, voluntarista.

PALAVRA DESORDEM (Vitor Ramil)

Queimem os navios
Pisem cada vértebra do chão
Soquem o vazio
Soltem o veneno e o palavrão
Desafiem cada manhã
Ignorem noites de frio

Rezem por Rimbaud
Mandem o destino começar
Rimem com furor
Mudem cada coisa de lugar
Toquem sinos, batam tambores
Emudeçam feras e hinos

Façam a revolução

Rompam, desarrumem, desacatem
Zombem de Bonaparte
Desafinem, descompassem
Toda valsa sem arte
Façam troça, achem graça
Riam no desenlace
Sem miséria, sem trapaça
Lancem tudo pro ar

Rompam os varais
Ergam barricadas nos jardins
Gritem com o olhar
Salvem suas peles por um triz
Inaugurem formas de ser
Sejam um começo sem fim

Façam a revolução

Movam, desalinhem, desencaixem
Mostrem do todo a parte
Alegria e desastre
Juntos num estandarte
Ponham festa, ponham fausto
Ponham fé no que valha
Ponham febre, ponham alma
Ponham fogo no mar

Queimem os navios

FRANNY DELEUZE. Um foda-se pra boa ordem e pro progresso

É verdade que chutar ou não Bento como um cachorro morto foi para os filósofos europeus uma verdadeira questão, e, como vemos em Hegel, que trancava o cu só de pensar em ser confundido com Spinoza, uma real fonte de angústia, a pior merda que podia suceder a um filosofo enrabichado pelo absoluto era acabar na sarjeta com um judeu: o cagaço do informe, de só chegar, pelo excesso de unidade, a uma boca ou um buraco escancarado, um abismo obscuro onde soçobram todas as diferenças, está sempre ligado nele ao medo atrapalhado de sua própria mácula excrementícia e da denúncia pública que vem de todo jeito. Acusado pelos seus de ter dissolvido o mundo no indiferenciado, o filósofo sente- se tão abjeto quanto aquele que, caminhando na cidade com um chapeu de bosta, é oferecido indefeso à vindita odienta do burguês. Quem tem cu tem medo. Ele mede o valor de sua obra pelo respeito com que o tratam na rua. Quem quer entrar na carreira, ainda que não possa apresentar-se sebento, experimenta, no entanto, a contínua possibilidade de sua brusca queda na lama da sarjeta. Pois os filósofos estão tão afim de ceder a passagem àqueles que pretendem calcar seu caminho quanto os cristãos a partilhar o meio-fio com um judeu. É uma história do arco da velha, que carrega com ela uma distribuição especifica, mediterrânea e greco-latina, dos papéis do amigo e do inimigo, do puro e do impuro, da origem e da existência, e de suas relações com o corpo e seus orifícios, principalmente a boca e o fiofó, e tão próximas as vergonhas, todos compreendidos como órgãos de morte e indiferenciação. Isso não ajuda lá essas coisas para compreender a alucinação americana e esquizofrênica de Bento. Apenas, talvez, um filósofo embeiçado por sua mulher ao ponto de lhe dar o nome de um personagem de Salinger sabe o que é a esquizofrenia. Como o menino coisa a bicha. Ter um amigo psiquiatra não basta. É preciso uma mulher de romance americano: uma americana. Para saber que a esquizofrenia é americana, que ela é uma capacidade estrapolada de viver os movimentos gigantescos e desregrados que realizam na escala da história universal passagens monstruosas entre os continentes e as raças, as culturas e as sociedades, mesclando seus destinos e seus conceitos a ponto de efetuar transformações reais, de criar seres desconhecidos que nenhuma das categorias por meio das quais a Europa agencia seus possíveis pode mais explicar. A Floresta tropical úmida alucina no Brasil Grandes Senhores africanos de quilombos, pajés, psiquiatras-soberanos fantásticos de autênticos Reinos bantos, negros e indígenas, que inventam para os párias judeus e todos os fugitivos que um dia caíram na mesma sarjeta, novas terras de exílio encantadas. Ela fabula seres de lenda, tão aberrantes quanto Felipe Camarão, o Templário potiguar, o nativo latinizado, promovido pelos portugueses à dignidade de comandante da Ordem de Cristo, por ter, à frente de um exército indígena, botado pra correr as hostes batavas de Pernambuco. Colocado na borda dos movimentos prodigiosos que provocou, a uma só vez atraído para eles, arrastado por seu turbilhão imprevisível e desordenado, e colocado na retranca em relação a eles, excluído deles, ao mesmo tempo observando e sendo empurrado pra borda numa curiosa estação instável, em tensão, duma lapada dinâmica e estática, o colono só vê alucinando com o olho da própria floresta: gigantes, seres desmesurados, exuberantes, monumentais, Henriques Dias, Gangas Zumbas, Zumbis. Esse ponto de vista é aquele do brasileiro, de todo brasileiro, porque ele é e continua sendo um colonizador, um colonizador permanente sempre situado nesse mesmo lugar, na borda do espaço colonial, mata, sertões, chapadas ou veredas. Da banda de cá, ele continua a bispar os movimentos anárquicos dos grupos heterogêneos que povoam o Brasil e nele sempre reincidem: bandeirantes, caçadores de homens e ouro, exércitos insurgidos de escravos que picaram a mula e tropas reais afro-indígenas, hordas vingativas de roceiros, jagunços e cangaceiros, exército iluminado dos povos rebeldes de Canudos, galeras das favelas. Nenhuma história nacional, nenhuma ordem instituída do tempo dará conta de dissociar e organizar essas matilhas de homens, que, mergulhando num mesmo banho de sangue e de porra os estados sociais e as etnias, cozinham na mesma panela todas as épocas e percorrem o espaço colonial como o único tekoá anacrônico do mundo, o tekoá absoluto em que se comunicam todos os tempos humanos. “Jagunço” não designa em primeiro lugar uma arma africana? Uma daquelas mesmas lanças de bambu que valeram a Camarão e a Dias a vitória de Guararapes contra os holandeses impedidos de usar seus paus de fogo? O cinema de Rocha mostra-o bem a quem quiser ver pelo olho de Glauber: o brasileiro não para de alucinar, apesar de todos os esforços das autoridades religiosas e políticas para exibir os cadáveres e datar sua morte, as figuras messiânicas e reais que cristalizam essas contradanças aórgicas de sublevação revolucionária e de fanatismo retrógrado, Antônio Conselheiro ou Lampião. Figuras tão cruéis quanto o Bem-te- vi da Rocinha, Erismar Rodrigues Moreira, cujo reinado criminoso e popular ainda tem tudo a ver com a glória dos bandidos de honra do Sertão que ele faz renascer sobre os morros do Rio para onde os guerreiros de Canudos transportaram com eles o Morro da Favela. Um nome de pássaro pra um chefe de bando? Nãnãnãnãninha. Pois trata-se já de um apelido: um apelido partilhado com um pássaro. Uma curiosa aliança com o animal, assim como a cidade sem Estado atrepada no morro estabelece uma curiosa aliança com o vegetal, com uma planta de garrafa do sertão, tóxica e medicinal: a favela. Mas não qualquer pássaro: esse passarinho onipresente de uma presença de tal modo tinhosa que parece, por toda parte onde se escuta seu canto, nas ruas da Urca ou nas veredas de Minas, tratar-se sempre do mesmo pássaro, de um único e mesmo bem-te-vi que Riobaldo ouvia: “que era um bem-te-vi,.exato, perseguindo minha vida em vez, me acusando de más horas que eu ainda não tinha cometido”. O Bem-te-vi da Rocinha, reizinho nagô da favela, com pistolas de ouro, pássaro ubiquista de um jardim plantado com flores que existiram alhures no antes. Pois os movimentos extravagantes dos povos que dançam no meio do terreiro do espaço colonial tocando um foda-se pra boa ordem e pro progresso, porque deslocam com eles blocos inteiros de territórios e desfazem toda correspondência como toda violência tolerável entre as etnias e as classes, abolem tanto as fronteiras do humano e do não-humano quanto as identidades territoriais, culturais e sociais, têm, no final das contas, a vocação de proteger. Há séculos, o colono que ficou em seu primeiro cais não cessa de olhar do litoral todas essas multiplicidades furiosas dos sertões ou das escarpas inconstruíveis do Rio. A baía que ele habita há décadas continua sendo a baía de seu desembarque em que ele se sustém e na qual não para de se recriar. Pra quem não provou da descoberta da America, de sua invenção, nunca que vai cair a ficha: não é verdade, aqui, que o “aí” (como dizem os alemães) a partir do qual a existência eclode e abre-se um mundo, não é um lugar, um torrão natal onde ser aí, justamente nesse lugar, equivale a ser tragado pela existência. Cais: quando Elis Regina e Milton Nascimento inventam um cais e um mar, não é pra sair ao largo, escafeder-se dali, mas para ali voltar, voltar ao litoral onde o solitário, o melancólico europeu fraco em existência e em mundo reata-se às matilhas heterogêneas do Brasil. O litoral é tanto borda do mar quanto borda do país: se o Sertão vai um dia virar mar, oceano Atlântico, e o mar Sertão, será graças ao litoral, ao sortilégio dessa bordura cosmogônica. Qualquer um, nessa borda, pode ser com todo direito acusado pelo bem-te-vi de todos os crimes do Brasil. Quem acredita ainda (encontra-se gentinha assim!) que o carioca progressista dos bairros ricos não tem nada que ver com todos os assassinatos perpetrados por todos os capangas do Brasil desde os primeiros tempos da colonização, assim como com todos aqueles (os infames!) que projetam ainda cometer, tá viajando na maionese.

Brazuca negão e sebento(4 minutos e tradução para o português após um 1 min e 33 segundos)

BENTO DE ESPINOSA

https://laboratoriodesensibilidades.wordpress.com/2016/12/15/maquina-de-guerra-estetica-e-politica-que-desinveste-a-logica-do-inconsciente-colonial/

No ano de Cristo de MDCLXIV, pouco além dum século após o esquartejamento e a devoração do primeiro bispo português do Brasil pelos índios Caeté, a deliciosa deglutição do bispo Sardinha que Oswald de Andrade celebrará como o ato fundador do Brasil moderno, o filósofo judeo-português Bento de Espinosa, cuja família se exilara em Amsterdam, capital mundial do comércio colonial, com tantas outras famílias judias que logo iriam povoar o nordeste brasileiro, escrevia ao mui sábio e mui prudente Peter Balling para confiar-lhe uma singular alucinação visual: a imagem tinhosa, ao despertar, ainda mais viva com a atenção vasqueada , de um brazuca negão e sebento, que, Bento queria deixar bem claro, nunca tinha, cruz credo, dantes visto. Peter permitira-se enviar uma carta ao amigo pedindo explicações sobre a alucinação premonitória que tivera dos gemidos de agonia de seu filho, estando este bonzinho da silva. Ora, tudo leva a pensar que se esse Bento, que se fazia igualmente chamar Benedictus, e que aliás entrou no Panteão dos bibliógrafos com o nome de Benedictus de Spinoza, se aporrinhou tanto com essa arrumação alucinatória e respondeu a Peter com tanto do cu doce, fez isso sobretudo pra mor de distinguir bem distinguidinho seu próprio caso daquele de seu amigo: de um lado a potência psíquica que o Amor paterno confere de imaginar, antes mesmo que se dêem, os acontecimentos da vida do filho tão amado; do outro, a simples teimosia retiniana, em estado de vigília, de uma imagem onírica, o efeito sobre a imaginação de uma alteraçãozinha besta do corpo, assim como a febre é causa de delírio. Me engana que eu gosto. É verdade que os brancos, como esse Benedictus, há muito tempo perderam a faculdade que tinham seus ancestrais de ver por eles mesmos os xapiris yanomamis que acompanham Omama em seu exílio europeu, depois que ele, botando fé num diz-que-diz-que idiota, fugiu da floresta tropical. Xapiris bem mais belos, se nos fiarmos em Kopenawa, que os xapiris da floresta amazônica. No entanto, uma coisa não se pode negar: seres fantásticos continuam assombrando os brancos. E eles, coitados, não sabem o que pensar destes desconhecidos, aos quais concedem de mão beijada a hospitalidade de seu próprio universo de pensamento, mas dos quais não sabem aprender bulhufas. Como esse Bento acabou, com o tempo, por gozar de um certo renome, o clero, cabreiro com aquela correspondência, soube dessa arrumação e ficou, cá pra nós, com a maior cara de bunda. Ansiosos por desviar a atenção do público letrado da irrupção do Brazuca no quarto de dormir do filósofo, ele se perguntou se a explicação da alucinação do pai era conforme à VERDADEIRA
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doutrina daquele que agora chamavam “Spinoza”: se ela era VERDADEIRAMENTE spinozista. Suspeitava-se de que Benedictus se embananara ao tentar reconfortar seu amigo Peter: que ele não tivesse se levantado naquela noite, a noite dos gemidos, na boa, não era o fim do mundo, já que eram imaginários e, além do mais, ele os ouvia por amor. Pouco importam as picuinhas dos debates que opuseram por algum tempo um ativista de Pádua à Sorbonne: “Spinoza” triunfara sobre Espinosa. Benedictus, o grande erudito vestido da Europa do Norte, o sabichão dos países frios, chegara a apagar até a lembrança de Bento. Pergunte ao primeiro professor que aparecer se ele alguma vez ouviu falar num tal Bento de Espinosa. Pergunta só! Escamoteando a primeira sílaba de seu nome, forjando do zero as três novas sílabas do nome pelo qual seu espectro seria universalmente convocado, Benedito quis se desvencilhar do fardo toponímico trazido da Espanha por todos os seus, apagar definitivamente toda e qualquer lembrança daquela península imbecil onde obrigavam os judeus a comerem porco? Vai saber! Em todo caso, nada mais prendia agora o Grande Luso-Holandês, integralmente sedentarizado, enquadrado no Patrimônio laico da Humanidade, ao povaréu daqueles que no Brasil, no México, no Equador ou no Chile, trazem ainda hoje o nome de Espinosa, a todos aqueles judeus que não ficaram debaixo da saia do velho mundo, europeu e mediterrâneo, mas fugiram pr’além-Atlântico no rumo dos sertões do Novo-Mundo, prali deitar seu fardo de espinhos e inclusive, como Heitor Antunes, um outro Bento, um anti-Spinoza brasileiro, plantá-lo na terra e fazer brotar em Minas uma Nova-Espinosa. Quando Bento recebeu a carta de Peter e respondeu, vivia no miolo da comunidade que, no Recife, acabava de construir Kahal zut Israel, a primeira sinagoga americana de onde partiu, depois que os holandeses foram corridos de Pernambuco, a vintena de correligionários que fundou a comunidade judaica de Nova Amsterdam. Futuro cidadão de Nova Iorque, já cidadão de uma Nova Iorque holandesa, como todos os judeus sefarditas holandeses, no Recife ou em Amsterdam, Bento não podia deixar de ficar de queixo caído com a aventura americana. Associados ao governo colonial por Jean- Maurice de Nassau-Siegen, os seus tinham tomado parte, nas duas bordas do Atlântico, do desenvolvimento da Companhia holandesa das Índias ocidentais. Amsterdam lhes oferecera muito mais do que a liberdade de culto, bem mais do que gozar da anomalia histórica, política e religiosa da Holanda do século dezessete: a potência selvagem de um devir-mundial que colocava em contato de maneira tão violenta quanto aberrante as costas europeias, africanas e americanas, seus povos, seus reis, suas línguas, suas religiões e seus sons. A América, restituindo à dispersão forçada deles sua dimensão sagrada de Diáspora, mergulhava-os num novo banho de sementes e de sangues. Grande surpresa que Bento alucine pela manhã com a imagem pegajosa de um americano negão e sebento! Seja visitado por um Brasileiro Fantástico! E com mais frequência do que confessa a Peter. Benedictus Spinoza terá então convencido seus biobibliógrafos sabichões a esquecer tudo isso a fim de que se interessassem exclusivamente pelas mui sutis teorias da imaginação e da participação das essências destiladas pelo filósofo no intuito de explicar a alucinação auditiva do mui sábio, mui prudente e mui branco Peter Balling. Em
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nenhum caso pela alucinação visual com um afro-americano do sefardita Bento de Espinosa, simples teimosia retiniana de uma imagem onírica, estorvo ocular superficial. Mas os sabichões não podem fazer o que der no bedelho. A famigerada carta fora publicada com sua embaraçosa confidência nas Obras Completas do filósofo. Ora, nada da Obra podia escapar à Crítica. Foi preciso, então, dum jeito ou de outro, encontrar alguma coisa pra escrever sobre o tal Brazuca. E como Bento falava dele como de um etíope, imaginou-se, e como não?, um Negrão, pois que em grego, a língua morta dos sabichões, “etíope” quer dizer “gente com cara queimada”: negões e sebentos. A alucinação matinal tomou então o aspecto de uma aparição terrível e tesuda. Quero dizer: para um aluno de liceu francês. A Erscheinung da imagem inimaginável, a imagem do Duplo negão, a imagem interdita, recalcada, daquilo que o Grande Filósofo não é – daquilo que, aliás, no grosso, NÃO É. Spinoza antes de existir, Spinoza no Abgrund: Spinoza falasha, judeu e negão. E como em amárico, por conta do liceano francês conhecer também muitas línguas vivas, ainda mais pro insulto, “falasha” é como um etíope chama um judeu para lembrá-lo de que é um imigrado, compreendeu-se logo de cara a aparição do brazuca negão e sebento como a visão de si mesmo que assombra todo judeu em exílio através da interpelação do Outro, do gói que, à sua passagem, escarra-lhe na cara um “judeu de merda!” e, empurrando-o, intima-o, como ao pai de Freud, a deixar a calçada para retornar à lama imunda da sarjeta. Outro jeito de pasteurizar a alucinação, de branqueá-la. Remetendo-a à universalidade do informe, da imundície com que o Outro cobre a cabeça do imigrado, e que está tão enroscada aos órgãos genitais, localizados inter urinas et faeces, que, no sapo que ele engole, “de merda” ou “sebento” prejulgam também de sua higiene sexual. Nada de brasileiro, portanto, de especificamente brasileiro, na alucinação do brazuca negão e sebento, nada que tenha a ver com a colonização luso-holandesa da América, mas apenas o jogo unanimerdal dos mecanismos identitários e miméticos que reinam por tudo, na Europa e em todos os lugares por onde se alastra a Europa, a redução de um boi de piranha à geléia de um corpo lapidado. E olha que a intenção era das melhores. No fundo, queriam dizer que Bento fizera bem em não deixar que os gois o mandassem à merda e atribuir a si mesmo seu sobrenome, um sobrenome branco e limpo, com um nome de santo latino, pra que ninguém desconfiasse que tinha merda na cabeça e mijava nas calças. Pra mostrar que se pode ser judeu sem ser sebento. Judeu e branco.
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FRANNY DELEUZE
É verdade que chutar ou não Bento como um cachorro morto foi para os filósofos europeus uma verdadeira questão, e, como vemos em Hegel, que trancava o cu só de pensar em ser confundido com Spinoza, uma real fonte de angústia, a pior merda que podia suceder a um filosofo enrabichado pelo absoluto era acabar na sarjeta com um judeu: o cagaço do informe, de só chegar, pelo excesso de unidade, a uma boca ou um buraco escancarado, um abismo obscuro onde soçobram todas as diferenças, está sempre ligado nele ao medo atrapalhado de sua própria mácula excrementícia e da denúncia pública que vem de todo jeito. Acusado pelos seus de ter dissolvido o mundo no indiferenciado, o filósofo sente- se tão abjeto quanto aquele que, caminhando na cidade com um chapeu de bosta, é oferecido indefeso à vindita odienta do burguês. Quem tem cu tem medo. Ele mede o valor de sua obra pelo respeito com que o tratam na rua. Quem quer entrar na carreira, ainda que não possa apresentar-se sebento, experimenta, no entanto, a contínua possibilidade de sua brusca queda na lama da sarjeta. Pois os filósofos estão tão afim de ceder a passagem àqueles que pretendem calcar seu caminho quanto os cristãos a partilhar o meio-fio com um judeu. É uma história do arco da velha, que carrega com ela uma distribuição especifica, mediterrânea e greco-latina, dos papéis do amigo e do inimigo, do puro e do impuro, da origem e da existência, e de suas relações com o corpo e seus orifícios, principalmente a boca e o fiofó, e tão próximas as vergonhas, todos compreendidos como órgãos de morte e indiferenciação. Isso não ajuda lá essas coisas para compreender a alucinação americana e esquizofrênica de Bento. Apenas, talvez, um filósofo embeiçado por sua mulher ao ponto de lhe dar o nome de um personagem de Salinger sabe o que é a esquizofrenia. Como o menino coisa a bicha. Ter um amigo psiquiatra não basta. É preciso uma mulher de romance americano: uma americana. Para saber que a esquizofrenia é americana, que ela é uma capacidade estrapolada de viver os movimentos gigantescos e desregrados que realizam na escala da história universal passagens monstruosas entre os continentes e as raças, as culturas e as sociedades, mesclando seus destinos e seus conceitos a ponto de efetuar transformações reais, de criar seres desconhecidos que nenhuma das categorias por meio das quais a Europa agencia seus possíveis pode mais explicar. A Floresta tropical úmida alucina no Brasil Grandes Senhores africanos de quilombos, pajés, psiquiatras-soberanos fantásticos de autênticos Reinos bantos, negros e indígenas, que inventam para os párias judeus e todos os fugitivos que um dia caíram na mesma sarjeta, novas terras de exílio encantadas. Ela fabula seres de lenda, tão aberrantes quanto Felipe
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Camarão, o Templário potiguar, o nativo latinizado, promovido pelos portugueses à dignidade de comandante da Ordem de Cristo, por ter, à frente de um exército indígena, botado pra correr as hostes batavas de Pernambuco. Colocado na borda dos movimentos prodigiosos que provocou, a uma só vez atraído para eles, arrastado por seu turbilhão imprevisível e desordenado, e colocado na retranca em relação a eles, excluído deles, ao mesmo tempo observando e sendo empurrado pra borda numa curiosa estação instável, em tensão, duma lapada dinâmica e estática, o colono só vê alucinando com o olho da própria floresta: gigantes, seres desmesurados, exuberantes, monumentais, Henriques Dias, Gangas Zumbas, Zumbis. Esse ponto de vista é aquele do brasileiro, de todo brasileiro, porque ele é e continua sendo um colonizador, um colonizador permanente sempre situado nesse mesmo lugar, na borda do espaço colonial, mata, sertões, chapadas ou veredas. Da banda de cá, ele continua a bispar os movimentos anárquicos dos grupos heterogêneos que povoam o Brasil e nele sempre reincidem: bandeirantes, caçadores de homens e ouro, exércitos insurgidos de escravos que picaram a mula e tropas reais afro-indígenas, hordas vingativas de roceiros, jagunços e cangaceiros, exército iluminado dos povos rebeldes de Canudos, galeras das favelas. Nenhuma história nacional, nenhuma ordem instituída do tempo dará conta de dissociar e organizar essas matilhas de homens, que, mergulhando num mesmo banho de sangue e de porra os estados sociais e as etnias, cozinham na mesma panela todas as épocas e percorrem o espaço colonial como o único tekoá anacrônico do mundo, o tekoá absoluto em que se comunicam todos os tempos humanos. “Jagunço” não designa em primeiro lugar uma arma africana? Uma daquelas mesmas lanças de bambu que valeram a Camarão e a Dias a vitória de Guararapes contra os holandeses impedidos de usar seus paus de fogo? O cinema de Rocha mostra-o bem a quem quiser ver pelo olho de Glauber: o brasileiro não para de alucinar, apesar de todos os esforços das autoridades religiosas e políticas para exibir os cadáveres e datar sua morte, as figuras messiânicas e reais que cristalizam essas contradanças aórgicas de sublevação revolucionária e de fanatismo retrógrado, Antônio Conselheiro ou Lampião. Figuras tão cruéis quanto o Bem-te- vi da Rocinha, Erismar Rodrigues Moreira, cujo reinado criminoso e popular ainda tem tudo a ver com a glória dos bandidos de honra do Sertão que ele faz renascer sobre os morros do Rio para onde os guerreiros de Canudos transportaram com eles o Morro da Favela. Um nome de pássaro pra um chefe de bando? Nãnãnãnãninha. Pois trata-se já de um apelido: um apelido partilhado com um pássaro. Uma curiosa aliança com o animal, assim como a cidade sem Estado atrepada no morro estabelece uma curiosa aliança com o vegetal, com uma planta de garrafa do sertão, tóxica e medicinal: a favela. Mas não qualquer pássaro: esse passarinho onipresente de uma presença de tal modo tinhosa que parece, por toda parte onde se escuta seu canto, nas ruas da Urca ou nas veredas de Minas, tratar-se sempre do mesmo pássaro, de um único e mesmo bem-te-vi que Riobaldo ouvia: “que era um bem-te-vi,.exato, perseguindo minha vida em vez, me acusando de más horas que eu ainda não tinha cometido”. O Bem-te-vi da Rocinha, reizinho nagô da favela, com pistolas de ouro, pássaro ubiquista de um jardim plantado com
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flores que existiram alhures no antes. Pois os movimentos extravagantes dos povos que dançam no meio do terreiro do espaço colonial tocando um foda-se pra boa ordem e pro progresso, porque deslocam com eles blocos inteiros de territórios e desfazem toda correspondência como toda violência tolerável entre as etnias e as classes, abolem tanto as fronteiras do humano e do não-humano quanto as identidades territoriais, culturais e sociais, têm, no final das contas, a vocação de proteger. Há séculos, o colono que ficou em seu primeiro cais não cessa de olhar do litoral todas essas multiplicidades furiosas dos sertões ou das escarpas inconstruíveis do Rio. A baía que ele habita há décadas continua sendo a baía de seu desembarque em que ele se sustém e na qual não para de se recriar. Pra quem não provou da descoberta da America, de sua invenção, nunca que vai cair a ficha: não é verdade, aqui, que o “aí” (como dizem os alemães) a partir do qual a existência eclode e abre-se um mundo, não é um lugar, um torrão natal onde ser aí, justamente nesse lugar, equivale a ser tragado pela existência. Cais: quando Elis Regina e Milton Nascimento inventam um cais e um mar, não é pra sair ao largo, escafeder-se dali, mas para ali voltar, voltar ao litoral onde o solitário, o melancólico europeu fraco em existência e em mundo reata-se às matilhas heterogêneas do Brasil. O litoral é tanto borda do mar quanto borda do país: se o Sertão vai um dia virar mar, oceano Atlântico, e o mar Sertão, será graças ao litoral, ao sortilégio dessa bordura cosmogônica. Qualquer um, nessa borda, pode ser com todo direito acusado pelo bem-te-vi de todos os crimes do Brasil. Quem acredita ainda (encontra-se gentinha assim!) que o carioca progressista dos bairros ricos não tem nada que ver com todos os assassinatos perpetrados por todos os capangas do Brasil desde os primeiros tempos da colonização, assim como com todos aqueles (os infames!) que projetam ainda cometer, tá viajando na maionese.
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DINA LÉVI-STRAUSS
Nenhum europeu pode desembarcar pela primeira vez no Rio sem ser exposto ao perigo de um tamanho bem-estar. Mesmo Lévi-Strauss escapa fedendo. O futuro acadêmico dos cais do Sena, nos quais, desde a época da Nova Holanda brasileira, a França conserva com todo cuidado do mundo suas espécies culturais uma vez que elas pararam de dar: artistas, moralistas, escritores, arquitetos, políticos etc., – o jovem etnógrafo parisiense, vindo ao Brasil praí coletar a matéria prima de seus livros, regras inéditas de casamento, lista de nomes de clãs etc. não tem, numa primeira abordagem, outra borda que não a borda dos paquetes da Companhia de Transportes Marítimos pra qual não vê a hora de voltar depois de ver pela primeira vez, aportado o Novo Mundo, no Rio de Janeiro, onde só consegue ver uma espécie de museu de formas fora de moda do urbanismo provincial ou suburbano francês: Nice ou Biarritz no final do século dezenove, Neuilly, Saint Denis ou Le Bourget no início do século vinte. O litoral do Rio a Santos percorrido de perto o bastante pra poder espreitar nas cristas da cadeia costeira os vestígios das trilhas por onde o ouro chegava de Minas, Ubatuba, Parati, São Sebastião e as inverossímeis praias da Barra do Sai ou de Camburi ao pé da serra… num dianta. Só que chegando a Santo a coisa muda. Enquanto o barco ganha o porto, penetrando lentamente entre as ilhas verdejantes, o sabichão francês toma enfim o primeiro choque dos trópicos. Desta vez, noves fora zero de comparação possível. Envolto pela parruda vegetação da floresta povoada de plantas mastodontes, a gente é devolvido ao primordial, ao começo da criação onde tudo é mais verde ou mais agudo do que tudo que se deixa perceber. Foram pro beleleu as aproximações, as analogias, as proporções, as classificações geográficas ou históricas, as diferenças de ciclo ou de ritmo: a floresta tropical só pode ser comparada a outra floresta tropical, o interior de Santos à bacia amazônica, o Brasil ao Brasil. E quando o sabichão tenta, apesar de tudo, uma comparação com aquilo que chama “nossa floresta” opondo a folhagem escura e os troncos claros dos trópicos às folhagens claras e os troncos escuros dos bosques europeus, o belo quiasma está sobrecarregado de evocações singulares, que, sugerindo secretas passagens entre os reinos, acaba esculhambando a comparação: os minerais, cujo tráfico seguíamos até há pouco, passo a passo, qualificam agora as nuanças do vegetal, que parece ser em jade ou em turmalina, a claridade dos troncos é aquela das ossadas animais, e os talos são recortados em metal. Virando de perna pro ar a distribuição do claro e do escuro que governa a relação da folhagem e dos troncos própria ao Velho Mundo, a floresta tropical opera mais do que uma simples permutação: ela muda de natureza, torna-se mineral
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e animal. E o etnógrafo, transformado à sua revelia em explorador do Novo Mundo, é obrigado a admitir: ela é “duma cepa outra que a nossa”. O choque ocorreu mesmo: vindo procurar isomorfismos, o francês foi colocado de chofre em presença de seres inexplicáveis pelo jogo das combinações e transformações lógicas. Mas ele segurou a bronca com bravura. Poderosa e sintomaticamente. Pra fim de papo, arremata sua narrativa: “como nas paisagens exóticas de Henri Rousseau, esses seres adquirem a dignidade de objetos”. Bingo!. Eis como, uma vez reinserido em seu arrondissement parisiense, ele pode se safar dessa, e justificar o fato de não ter dado sequência à experiência perturbadora dos seres desconhecidos da Floresta, que, ocupados em transformações reais, parecem mesmo atestar uma comunicação ilógica entre o animal, o vegetal e o mineral. Citar Douanier Rousseau, é confessar que o quadro não estava completo, que a Floresta abrigava ainda uma cena ausente da narrativa, porque quase todas as “jungles”, de Douanier, por restituirem aos animais enjaulados no jardim de Aclimatação do Bois de Boulogne a potência mágica de sua vida selvagem, são na verdade cenas rituais de combate e devoração. O mito contra o rito, a estrutura contra esse momento de indiscernibilidade criado pela peleja mortal do homem negro com a onça índia – uma figura central da escultura popular de Minas Gerais, que traduz o poder misterioso da temida habitante da floresta, a detentora do poder xamânico de transformar as espécies umas nas outras e de fazer variar em intensidade as humanidades, de iniciar o homem lógico em outras humanidades, não significantes: a onça pintada cuja mordida atinge direto no cérebro. Nonada. A floresta tropical é pro francês, que a atravessa de carro, um mundo de objetos, uma natureza inabitada, e se ela é pra ele de “outra cepa” que a nossa floresta, fruto do labor cuidadoso de homens significantes, aqueles mesmos que remedam a todo instante a panaceia do cuidado, é porque ela existe sem nós, porque a peleia de um brazuca negão com uma onça, através da qual um pintor parisiense pode se comunicar com todo um povo, é apenas uma visagem, que é preciso apagar do quadro: a mineralidade da floresta tropical, sua dureza metálica, sua teimosia ossosa, são as de uma natureza sem homem, habitada por nenhuma humanidade, nem aquela dos homens, nem aquela das plantas e dos bichos nos quais o rito introduz os homens: ser tão natureza. Pressuposto sem remédio, acredita-se, de toda ciência. Em todo caso, a mesma coisa que hoje um filósofo cartesiano, num cubículo aquecido na esquina da rua Ulm com a rua Gay Lussac, sentado num banco de bistrô parisiense, pode representar-se subtraindo do “mundo para nós”, onde ele vive cercado de cuidados, uma viadagem só: um mundo ancestral puramente objetivo, datável em bilhões de anos, anterior à aparição da espécie humana, ou seja, como ele entende: anterior à aparição da sensibilidade – como se não houvesse sensibilidade além daquela da espécie humana sabichona e, acima de tudo, como se a humanidade fosse de uma só espécie. Um realismo engraçado: sem experiência e sem magia, que esculhamba de antemão toda reapropriação e toda transcendência, e que, de rocha, partilhando com os mais absolutos idealismos a ilusão de ter triunfado sobre a finitude, ou seja, sobre a vida e a morte pra valer, de ter triunfado sobre a onça e a negritude, sobre a morte que nos estreita e traça, é bem característico desta tristeza
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melancólica do metafísico europeu que, incapaz de segurar a onda, a porrada da sensação, da manifestação que convoca à existência ao mesmo tempo que aniquila, faz tudo que pode pra não ter que segurar a barra. Lembrança de um amigo hegeliano sentado à minha frente numa mesa de café, extasiado com a catinga dum maço de Marlboro recém-aberto, do qual não fumará nenhum cigarro, bem jonson de ver-me beber um copo de vinho do qual ficará na saudade. O realista, como o idealista, na real, não fede nem cheira. Que o primeiro choque dos trópicos seja para o grande amerindianista francês aquele de uma natureza inabitada, sem homem nem predador, isso me cheira a conversa fiada. É preciso nunca ter posto os pés na terra do Novo Mundo pra apreendê-lo de primeiro sob os auspícios da ancestralidade pré-subjetiva, da objetividade nua. Uma pura especulação. Um realismo puramente especulativo, de bistrô parisiense. Depois de Santos e da Floresta, Lévi-Strauss chega a São Paulo, onde frequenta uma outra flora exótica, aquela do grã-fino, a elite intelectual e política da cidade. Uma flora felizmente mimética, composta de indivíduos, que, como os congoleses de Hergé, pavoneiam- se cada qual com os atributos de uma função (de um deus?) da sociedade europeia: o liberal, o comunista, o poeta surrealista, o pintor, o musicólogo… Uma outra maneira de confessar a negritude banto dos brancos brasileiros, insuportável para o sabichão e da qual se excluem apenas, a seus olhos, alguns êxitos individuais, cariocas de naiscença ou de carreira: os médicos Oswaldo Cruz e Carlos Chagas, o escritor Euclides da Cunha e o músico Heitor Villa-Lobos, que haurem, no entanto, ambos, sua inspiração diretamente no transe guerreiro e musical do Nordeste: pontos do candomblé, capoeira angola ou regional, multidões de foliões arrastados por cordões yorubás semeadores da sacanagem e desordem pública, e mais tarde, violentos blocos de índios, antes proibidos, ressuscitados pelos filhos de Gandhi, Índia africana subvertendo a invenção colonial de uma África india ocidental, Olodum, quilombo rítmico, polcas e mazurcas associadas aos ritmos nordestinos, xaxado, baião, maracatu, coco, tambor de criola, frevos, procissões virginais de São João, bandas de pífano arremedando a dança da onça, sanfoneiros do forró… uma terra árida, um ermo profundo, convenhamos, nada despovoado, exatamente “povoado”, como é povoado o deserto, nem trágico nem inabitado, do sonho de Franny Deleuze, que só é deserto “por sua cor, ocre, e sua luz quente e sem sombra”, de modo algum pela ausência de humanidade-animalidade. Não um deserto por subtração dos homens, idêntico a um puro mundo de objetos, única noção do deserto acessível a quem está num cubículo aquecido num país frio. Mas um sertão, fervilhante de multidões múltiplas e turbulentas. Não as multidões de Calcutá, às quais Lévi-Strauss, curiosamente, consagra um capítulo em Tristes Trópicos, multidões de mendigos degradados banhando-se em suas imundícies – sempre este nojo fascinado pelo excremento –, mas aquelas matilhas alegres e predatórias, espino-spinozianas, luso-indo-africanas, emperiquitadas de balagandãs, de penas e de colares de dentes de animais, coroadas com turbantes orientais: as multidões antropófagas, étnica e musicalmente antropófagas, do carnaval nordestino, contra as quais vêm brutal e inexplicavelmente esbarrar a lógica, a moral e a religião europeias. A viagem é intensiva. Não basta percorrer o bled, de
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carro, no lombo dum jegue ou de pés, para chegar ali. Primeiro porque ela só se atravessa, só é realmente acessível pela periferia, da borda móvel, transformada pelas emoções permanentes dos grupos, bandas ou blocos. E nunca o objeto de uma conquista interior. Segundo, porque já basta, caso seja-se demasiado francês, de uma maneira ou de outra demasiado sedentário, simplesmente voltar pros braços da mulher, se ela é americanista e uma bela sonhadora esquizofrannyk. Mas Lévi-Strauss, sua mulher americanista, a Franny lá dele, a Dinamene lá dele, é apagada de sua narrativa, como é apagada da floresta tropical a cena primitiva da devoração. Dina Dreyfus, no entanto, estava na viagem, com ele em São Paulo, a seu lado com os índios Bororo e Nhambiquara. Dina, a mulher desaparecida de Saudades do Brasil, visível em nenhuma foto, autora de nenhuma foto. Aliás, para confundir a saudade com o sentimento de uma falta inexplicável, com a nostalgia entristecida de um tempo que já era, e para confundir a presença excessiva dos seres tropicais com aquela dos objetos, carece duma desaparacida – em 1938 como depois. Carece disso, para ignorar aquilo que apenas uma mulher pode fazer compreender: que saudade se diz precisamente da presença excessiva, atual, daqueles com quem se está, aí, agora, felizinho, feliz da silva, por estar com eles, e separado deles, de tal modo inacessíveis. Para ignorar que saudade designa muito exatamente o sentimento, propriamente americano, de felicidade violenta quase vertiginosa que acompanha a estação da sonhadora esquizo à beira da multidão. Isso, Dina poderia ensinar a Claude. Ela que frequentava Mário de Andrade, o autor de Macunaíma, o romance da antropofagia afro-indígena fundadora do modernismo brasileiro. Dina, que criou com Mário de Andrade a primeira sociedade de etnologia do Brasil, e através de quem Claude encontrou o homem do Pau Brasil, outra grande figura do modernismo, indissociável daquela de Mário, união da qual viria logo nascer o tropicalismo, o cinema novo e a antropologia brasileira pós-lévi-straussiana: Oswald de Andrade. Rizoma complexo das Metafísicas canibais de Eduardo Viveiros de Castro, alianças teóricas aberrantes, indígenas e euro-americanas, e bem lá embaixo da grande folha em que ele esboça o rizoma, circulando com caneta pilot preta, claramente posto à parte de todos esses nomes de fabricantes de conceitos, cada um mais ou menos excêntricos, os Gilles, Félix, Claude, Bruno, Roy, etc.: Oswald – nome do rizoma de Eduardo. Pois então, aquilo que dizia Oswald da descoberta do Brasil, do primeiro choque dos trópicos, é que “antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade”. A mais incompreensível das coisas para quem só chega a pensar a anterioridade absoluta por subtração de tudo aquilo que é, de uma mulher, do Negro lutando com uma onça, ou bem, como Descartes, de tudo aquilo que ele recebeu até então dos sentidos como mais verdadeiro e garantido: que ele está aqui, sentado perto do fogo, enfiado em seu roupão, tendo este papel entre as mãos, etc. Incapaz de conceber tudo aquilo que poderia ter existido antes que ele o descobrisse, visse, pensasse e vigiasse, senão como uma existência primitiva e essa existência primitiva como um mundo impessoal, inacreditavelmante pobre, insensível e cristalizado em puros objetos, mensuráveis e datáveis. Uma reserva de matérias-primas. Mas, antes que o Velho Mundo importasse para ali caravelas
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inteiras de consciência enlatada, subtraíveis e transportáveis, o Novo Mundo era já uma invenção totalmente inédita. Não uma felicidade primitiva devida, como o paraíso semisselvagem, neolítico, de Jean-Jacques Rousseau, na raridade dos homens isolados numa ilha perdida entre natureza e cultura, frágil instante de felicidade no caminho da infelicidade. Não uma felicidade, mas as felicidades: a felicidade de um mundo de pessoas, unicamente feito de pessoas, de humanidades múltiplas, vegetais, animais e minerais, uma natividade, uma primitividade integralmente humana, saturada de plantas, pássaros, árvores e igarapés, de pedras e de caçadores-pescadores, todas e todos humanos, como nas narrativas indígenas das origens: mais ou menos transformados, mas homens de todo jeito. Uma sociedade mundo, “mapa-mundi” diz Oswald, em que são cartografadas as linhas errantes pelas quais a humanidade se transforma e se recria passando de uma espécie a outra. Não uma felicidade relativa a um melhor ou a um pior, mas muito precisamente aquela beatitude simplesmente vivida pela qual tem que ralar pra chuchu, tanto quanto possa, o homem não-transformado das regiões temperadas, ali onde Bento de Espinosa, o pernambucano de Amsterdam, introduziu a ideia: a ideia tupi de um sol feminino, de uma unidade feminina, de uma deusa amante, Guaraci ou a substância absolutamente infinita, da qual cada um nasce de acordo com sua aptidão para amar todas as coisas, qualquer que seja seu grau na escala especulativa dos seres, cada qual uma pessoa única, de essências inimitáveis, e pra amar-se, pra gozar de si mesmo com aquela alteração insaciável e alegre de si por tudo aquilo que não é seu. Decididamente, isto só uma mulher pode saber. Ou um homem que assume a mulher dentro de si. Não admira que Deleuze, fiel a Franny, alucine Spinoza como Heliogábalo ressuscitado. O Heliogábalo de Artaud, o anarquista coroado, o rei solar vestido de mulher. Para assim compreender aquilo que implica e exclui o reino de Guaraci, e propô-lo como uma nova ética aos homens do meridiano, é preciso também, de uma maneira ou de outra, comunicar com tal realeza. Mas, tendo vindo participar da inauguração da universidade de São Paulo, Lévi-Strauss é até o talo um colono francês catequético, um missionário socialista sensível antes de tudo ao desenvolvimento da medicina tropical e da educação intelectual das crianças. Um homem de disciplina. Daquilo que o Brasil descobriu antes que os portugueses descobrissem o Brasil, e que descobre por sua vez o português ao tornar-se brasileiro, ele ignora ou finge ignorar tudo. Para Oswald, um comunismo e um surrealismo imediatamente palpáveis, a vida como ela é, pré-formados em nenhuma ideia, nem importados nem exportáveis, contra os quais a ideia comunista e a ideia surrealista, porque elas são ideias, quebram a cara. Um comunismo e um surrealismo não especulativos, eminentemente afetivos, pois que, para Oswald, os brasileiros nunca conheceram a especulação, esta arte latina do controle, de olhar do alto e de espionar. Um comunismo nem urbano nem suburbano, nem fronteiriço nem continental, sem Internacional e, no entanto, planetário, idêntico a Pindorama, a sociedade-mundo-planeta Brasil, sobre a qual se inscrevem os roteiros, trajetos migratórios caóticos e roteiros populares do Sertão, cordéis nordestinos, e um surrealismo poliglota e iletrado. Um comunismo e um surrealismo divinatórios, um mundo de visões alucinantes, ao pé das quais as ideias
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objetivas da ciência europeia franco-batava tombam cadaverizadas, e volatilizam-se as hipóteses em que se comprazem os mestres alemães: eu-cosmos ou cosmos-eu, Eu é tudo ou Tudo é eu, Eu-Tudo ou Tudo-Eu, Tudo-Tudo ou Eu-Eu, Deu -Tu- Tu ou Tu-Deu-Meu, Eu-Meu-Meu ou Tu-Eu-Meu. E outras eudiotices mais. O poeta surrealista de carnaval, a função “poeta surrealista” do grã-fino paulista, de quem fala Claude em Tristes trópicos é bem o Oswald de Andrade, num é? O inominável Oswald que avacalhava seus jovens estudantes, na companhia dos quais ele deu uma esticada até as grandes águas de Iguaçu? Quem mais? Na certa que se trata do grande Oswald!… e não de qualquer outro burguês paulista enfatuado de vanguardas parigotas. É vero que Oswald inventa o Brasil no início dos anos 20, na Praça Clichy, e deve mais à amizade de um poeta suíço que à convivência com os tupis. Oswald de Andrade, uma espécie de regiões temperadas transplantada num meio tropical, sob a forma de uma amostra única, conservada artificialmente, e exposta aos olhos dos visitantes como uma novidade parisiense na vitrine de uma lojinha interiorana? Como um francês seriamente francês, isto é, seriamente a par de sua língua, ou, o que dá no mesmo, um francês que foi em 1932 um leitor entusiasta de Celine, pode fingir três anos mais tarde, chegado ao Brasil, ignorar aquilo de que é capaz a Praça Clichy, aquilo de que ela é capaz em matéria de fuga e Viagem… e de denúncia da imbecilidade colonial? O burro louco por excelência, pra onde judas perdeu a bota, até o cú do mundo, através desse mundo velho sem porteiras além dos oceanos e dos continentes, e aproveitando o embalo, emprenhá-lo nas profundidades íntimas e sinuosas, ainda inexploradas, da língua e do pensamento de seu próprio povo. Nunca um sem o outro. Por ver em Oswald apenas um surrealista de terça feira gorda, como os historiadores antigos só viram em Heliogábalo um idiota vestido de rei, é preciso não ter a exata medida do “Fizemos foi Carnaval” de Oswald, o Carnaval que as caravelas portuguesas não puderam importar, pois, como o comunismo ou o surrealismo, o Cristo, baiano ou paraense, já estava lá, já inventado pelo Brasil antes mesmo que o Brasil fosse descoberto. “Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt.” Eis a imagem tinhosa, a imagem do carnaval, ainda mais viva quando vasqueia a atenção, a imagem concretista-anti-especulativa por excelência, a imagem antídoto contra as ideias que querem tudo governar e condenam à morte todos aqueles que não sabem submeter-se a ela, e também a alucinação desse Bento de Amsterdam: “o índio vestido de senador do Império”, Felipe Camarão. Assim como Virgulino Ferreira da Silva, o rei do Cangaço, vestido de couro trabalhado e cravejado, ornado de moedas e caracteres hebraicos, de que Claude teria muito bem podido admirar o chapéu real exposto à incredulidade pública ao lado de sua cabeça decepada em julho de 1938 em Santana de Ipanema. Pois pouco importa a melanina do rei, se branca, negra, avermelhada ou marrom, ele nunca deixa de ser um índio. Isto por causa daquela curiosa anterioridade do Carnaval, do brasileiro e de seu disfarce, quando da descoberta do Brasil. Bento-o-português para quem tanto faz falar de um “Brazuca negão e sebento” ou de um “Etíope”, ele sabe muito bem: partiu de Portugal para procurar nas Índias o reino mítico do Preste João, Terra cristã primitiva irrigada por um rio de pedras preciosas a jorrar do
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Paraíso, é a um Imperador africano, o Niguse negest de Etiópia, herdeiro dos reis de Aksoum, depositário de um cristianismo literalmente aborígene, pré-romano, que Pero da Covilha, entrega no fim do século quinze uma proposta de aliança escrita pela mão do rei de Portugal. Brazuca ou etíope, indígena ou africano, Felipe Camarão ou Henrique Dias, até aí morreu o Néves, é a mesma realeza indiana, dessas Índias que os portugueses descobrem procurando a Índia, a mesma figura imemorial de uma realeza aborígene em trajes de imperador, pela qual alguma coisa circula entre o romano, o greco-mediterrâneo e o indiano, e passando de través e revés, os destrói e desnatura, para fazer outra coisa, que não resulta deles, não é nem sua contradição exposta nem sua síntese ou unidade sincrética, mas alguma coisa anterior, já feita antes deles se cindirem: não sua unidade natural primitiva – ainda uma ideia a fazer visagem pela angústia da degenerescência tão característica da psique melancólica – mas sua unidade primeira fabricada, totalmente fabricada. Isto é que é fazer Carnaval. É coser o Primitivo costurando um hábito de Imperador numa pele indígena. E é essa a anterioridade do Carnaval à descoberta do Brasil: a anterioridade dessa costura, dessa fabricação. Nada de mais assustador, de mais transtornador, para um mediterrâneo, um greco-latino não obstante habituado a fabricar sistemas de ideias sobre a única emoção de que ainda pode ser capaz: a surpresa do impossível. Pois a invenção brasileira de maneira alguma é feita pra ele: o pânico caipora que o agarra e o bota pra catar cavaco, logicamente impotente, desencorajado de tirar a menor ideia de sua bagagem transatlântica assim como de tentar formar alguma ideia nova. Desembarcar na costa do Novo Mundo, se é que se desembarca mesmo e se muda de borda, é descobrir essa invenção, por ela sendo arrebatados, embasbacados de felicidade. Mas descobri-la é transformar-se nela. É pular de cabeça nessa inverossímil anterioridade. Chegar como quem volta. Going nativ. Pois a deglutição do bispo Sardinha pelos índios Caeté, já é Oswald de Andrade. A catástrofe colonial, isso que é na verdade o choque dos trópicos, não foi para o português ser comido pelo índio, mas tornar-se ele mesmo devorador de portugueses, holandeses, franceses, italianos, poloneses, japoneses, ucranianos, de todos os fugitivos de uma civilização que o Brasil não se cansa de comer – e também índios. De ter sido convidado ao moquém tupi e de se sentir feito pinto na merda, guloso de carne estrangeira defumada por quem sabe, ao ponto de acabar dando ao moquém indígena a amplitude sonora e festiva dum Carnaval. Na certa tem fujões incapazes de fugir até lá, moralistas incapazes de perceber que da Embaixada Africana de Salvador, da Roma negra, às Bachianas brasileiras de Heitor, da putaria do baile funk ao funk melódico de Caetano Veloso, é o mesmo princípio antropofágico que prevalece: a mesma barbárie, violenta ou suave, indecente ou terna, mais ou menos intelectualizada, mas sempre exclusivamente afetiva, a mesma fome, sexual e antropófaga – pois que o Brasil, tendo também devorado Freud, já dera um basta igualmente ao drama moral burguês da frustração e da sublimação e se deleitava sem complexo com o ato sexual como uma onça com o sangue fresco de sua embiara. Heitor Villa-Lobos: Bach comido pelo Nordeste. Caetano Veloso, o tropicalista: o cinema de Godard, a sociologia de Morin e até mesmo a antropologia de Lévi-Strauss, papados pelo
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Recôncavo baiano. Nenhum jogo de influência, nenhuma filiação. Nada que tenha a ver, de perto ou de longe, com esse sacrossanto reconhecimento, de que tanto carecem os europeus e através do qual interpretam todas as alienações, todas as pobrezas, e todas as faltas que eles conseguiram cavar em sua existência assim como na dos outros. Ou antes, somente aquele reconhecimento paradoxal, de que Bergson falou sob o nome de falso reconhecimento, mas que não tem nada de falso: a impressão de dejà vu devida à distenção momentânea de nossa atenção àquilo que a vida exige normalmente para a conservação de nossa espécie, enquanto espécie separada do resto do mundo dos vivos. Resumo da ópera: submeter o mundo à nossa indústria e tomar parte no impiedoso massacre de tudo aquilo que não é nós. Uma breve desatenção que desprende de nossa percepção atual seu duplo fantástico sob o aspecto de uma imagem tinhosa, sem relação com aquilo de que a memória é capaz em matéria de lembrança, de uma imagem imemorial do presente pela qual ele parece ter sempre estado ali: porque sempre esteve ali mesmo. A mais nova, a mais surpreendente das visões sendo assim propriamente re-conhecida, e ainda mais reconhecida pelo fato de não se parecer com nada de reconhecível. Aquele mundo de visões primitivas e intemporais no qual vivem as crianças e os aventureiros por estarem tão expostos a ver coisas jamais dantes vistas por eles. Dá-se o mesmo com a anterioridade do Brasil. Chegar como quem volta: o Novo Mundo, a tal ponto novo que surge do oceano como um déjà vu – como um mundo do qual a gente tinha se afastado e ao qual a gente volta após séculos de ausência. A fuga colonial do Ocidente para uma terra incognita repetindo às avessas a fuga, muito antiga, d’agora realmente ancestral, dos primeiros homens, aborígenes extenuados pelo ruído incessante da Floresta- mundo, onde, sem falar dos animais, prolifera e fermenta uma vegetação enfática, a menor árvore, povoada de epífitos enxameados por outras espécies, desdobrando em profusão, uma multidão de galhos e gravetos, folhas, flores e frutas, de formas e de cores emaranhadas que são como presenças humanas. Fuga daqueles ancestrais indígenas que deixaram o mundo, perderam o mundo para ganhar na outra borda do Oceano uma Terra Virgem de toda humanidade. Fugindo da floresta onde nunca se penetra senão em fila, segundo uma ordem contingente, mas que é preciso imprenscindivelmente reproduzir na volta, e voltando em frotas, numa barafunda total, cada vez mais numerosos, mas sem conseguir dominar pelo número a imensidão do sertão-mundo. Sendo assim: mais do que nunca aborígene, já aborígene, o português, latinizado como todos os fugitivos por vir do Velho Mundo, já estava lá onde ele pôe o pé pela primeira vez, sobre aquele cais, aquela borda móvel do mundo-povo onde ele aporta. Sua atenção aí despenca de vez, e tudo que ele traz consigo, de todas as épocas, de filosofia, música e ciência, francesas, alemãs, batavas, judaicas, católicas ou protestantes, ocidentais, orientais ou africanas, tudo isso, Jesus, Négus, Preste João, já estava lá, e também todos os personagens da Tese de Oswald, recusada pela Universidade de São Paulo, devidamente afrancesada, todos os nomes da História (no ordo ordinans): Homero, Kojève, Kelsen, Engels, Frazer, os padres insones do lago de Nemi, Paulo, Pedro e os santos mártires, Constantino, Átila e Genserico, Francisco de Assis, Savonarole,
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o monge Martinho Lutero, Aristóteles, Lázaro, Mateus, Marcos e Lucas, Paracelso, o Homo Sapiens, o homem-pássaro, todos os seres do funambulesco Reino Macaco e Saru, o chefe deles, do qual descendem os japoneses por cruzamento com uma princesa chinesa, Cícero, Fustel de Coulange, Virgílio, Tucídides, Sólon, César, Zaratustra, Michelângelo, Bachofen. Todos já estavam lá como Bach, Godard, Morin e Lévi-Strauss, eles mesmos aborígenes saíram nus e retornaram à América vestidos com roupas latinas. E a existência deles todos depende, na real, da sua presença indatável no duplo brasileiro. Heitor nunca foi influenciado por Bach, não mais que pelas músicas do Nordeste, onde tomou um chá de sumiço durante oito anos, riscado do mundo virgem das instituições culturais: João- Sebastião Bach e as mães de santo do candomblé sempre estiveram no Brasil, desde o primeiro cais; aí naisceram, e aí renaiscem a cada vez que um fugitivo é papado por um índio e que um índio se veste com trajes de imperador.
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HELIOGÁBALO
É certo que Bento nunca tinha dantes visto seu Brazuca rastafári, negão e sebento, seu Negusa Nagast pernambucano. Onde já se viu uma presepada dessa? Uma armada negra indo-oriental, equipada com armas de arremesso, expulsando das Índias ocidentais os mestres da anomalia holandesa à ponta do progresso comercial, político e militar. Pontas contra ponta. A anomalia americana contra a anomalia europeia – pra dizer a verdade, antes contra aquilo que o homem vestido de Oswald, o homo habitus europeu, pode compreender como anomalia só se fiando em seu messianismo crônico que o impede de pensar o anômalo senão como uma vaga prefiguração daquilo que jamais virá. Um Orignal invisível, inflechável. Tá na cara que se trata de um duplo. Mas não aquele no qual acreditamos: o duplo do conto hoffmanniano-freudiano da angústia da castração ou o duplo dostoievskiano, Golyadkin o jovem versus Golyadkin maduro, os duplos de Países Frios, onde ainda é coisa de papai e filhinho. Essa é a história de Peter, a alucinação auditiva. A filiação e a reprodução hereditária, a comunicação entre humanos de uma mesma espécie, amando-se e conservando-se tanto quanto possível no mesmo estado, sem transformações, sem passagens funambulescas rumo a povos de aves, de peixes, de Buritis e mesmo de águas: Preto, Verde, Pacari, Ponte, São Pedro e Santa Catarina – em suma, sem fazer povo. O filhinho de papai. Patriarcado cuja forma é o papai-mamãe e filhinho, jiji-cricri agonizando na essência triangular do Pai. Nem que a vaca tussa. A conversa fiada de Bento, a alucinação visual, a identidade estrita, feminina, da vista e do visto, como só pode compreendê-la, agora como sempre, uma mulher, Clarice Lispector, ou um homem vestido de mulher, a história de Bento, do primeiro Bento brasileiro, antes de Bento Prado Junior e Bento Nunes, leitores de Clarice e Oswald, essa conversinha é mesmo americana e índia. É o que se dá quando, no México como no Brasil, papai- mamãe não enraba mais o pederasta inato: o momo Artaud “sebo do cu da vovó, muito mais do que do papai-mamãe”, ou Heliogábalo, filho de seu tio, e sobretudo, e, no final das contas, exclusivamente de todas as Julias, todas primo-genitoras, Julia Domna, Moesa, Soemia e Mamoea, mães, tias e irmãs, que, embaralhando definitivamente a filiação, o périplo imbecil papai-mamãe e filhinho, a que se aferra o engendramento, juntas, parem o rei pederasta num berço de esperma. O Matriarcado bárbaro substitui assim, de antemão, as ladainhas de família, a suruba édipo-cristã, pelas simbioses e conexões transversais entre heterogêneos, Julia, Domna e as outras cúmplices tudo isso: a terra que vive, na Síria, onde há pedras que vivem e onde o sangue do homem, por canais rituais, reencontra o plasma dos
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animais. Uma quizumba cuja lógica própria já inaplicável ao mundo romano pira o melão do sabichão europeu que, como Claude, de um país a outro, só vê similitudes, percorrer, de um país a outro o mesmo Império romano, logicamente romano. Uma ordem metafísica bárbara que faz comunicar por tudo e em todos os tempos o aborígene sírio com o aborígene índio, marranos e marrons, o esquizo, o filósofo e o Imperador, todos às voltas com o latim. Bento de Espinosa e Benedictus Spinoza, Heliogábalo e Marcus Aurelius Antonius, Potiguaçu e Camarão: todos aqueles que têm um duplo nome. Um primeiro nome como povo não latino. E, portanto, como uma multiplicidade de povos, trinta povos do oriente ou do ocidente, de península ou de bacia, de praias ou platôs, girando num incessante transe migratório em torno de cada primeiro nome – pois o primeiro nome, seja ibérico, sírio ou potiguar, nunca é o nome de uma pessoa, mas de todas as pessoas. Um segundo nome, latino, como personagem único da História Universal – seu segundo nome não sendo mais o seu, mas num outro sentido. Uma dupla des-personalidade sob o efeito conjunto da multiplicação diastólica do primeiro nome e da contração sistólica do segundo. Índio em trajes de imperador, ao mesmo tempo arrastado pra fora de si, longe de si, pela multidão dos povos em movimento sobre a face da Terra, e na retranca, na borda da multidão. Os dois, coladinhos. Sempre a mesma estação esquizoamericana de Carnaval. A alucinação de Bento, imagem do duplo? Sim. Mas não o pequeno duplo malvado e miserável, vocês sabem, aquele que redobra a pequena personalidade de cada um, aninhado em todos os cantos obscuros dos quartos de crianças edipianas, entre as coxas de suas mães, no mau olhado do Pai e até nos espelhos da casa. A alucinação desse Bento: imagem do Grande Duplo, o Dúplice, que não tem nada a ver com aquilo que se imagina ou não de si ao olhar do Outro, um eu ganhando o mato em extensão ao longo das rotas de migração, através do reino das espécies, e também: concentrado num ponto de exceção régia, acima de todos os viventes. Tanto mais excepcional quanto mais perdido na multidão, tanto mais multidão quanto mais distinto entre todos. É esse outro ele mesmo que Bento vê ao pé de sua cama. Sua própria duplicidade. Spinoza als Spinoza, rosnam os alemães. Bento pagando uma de Spinoza. Teatro do bom! Cuma? Spinoza, um rei pederasta vestido de mulher, um Imperador de Carnaval? Um brazuca negão e sebento só porque deixou de atravessar a vagina da mamãe e a racha das prostitutas para nascer diretamente do cu da Avó, “sebo” do cu da Substância Natureza? Será? E o novo cogito espinosiano: cogito ego-sebo cum. Um capricho? Nada disso. Não há nada mais sério. Uma questão de esperma, sangue e merda. Sem nojo. Afro-polonês brasileiro, o concretista Leminski não conhece o nojo, e nem confunde como vocês um buraco com a ausência de Deus, porque não há nada melhor que uma bela cagada, uma bela caganeira, um belo jato de merda, e nenhuma merda é comparável à merda da pessoa Amada… o verdadeiro ouro do Brasil. Uma natividade não-cristã pelo cu, gênese anal do pederasta pelo feminino, sem complicar tudo com papinho de carpinteiro chifrado por um anjo. Nascido como Heliogábalo num berço de espermas ibéricos, judaicos e árabes, Bento penetra, com o nome de Benedictus, como Heliogábalo, no Império Romano, “por trás”. Praticando como ele uma
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insurreição sistemática, more geometrico – aí é que a coisa se faz por trás –, contra a partilha do romano e do bárbaro, do caxias e do balacobaco, da consonância e da aberração, e, como ele, transformando o desperdício bárbaro ilimitado e a mais absoluta baderna em experiência da mais perfeita e alegre unidade. E inversamente. Não levem a mal, é verdade que teriam dificuldade em compreender isso, vocês que juram que são gregos e caminham a passo de ganso rumo à salvação espiritual do Ocidente praguejando contra a pobreza de mundo dos animais. É preciso ser meio bruxo, pajé, pra saber isso, que Spinoza é americano, etíope, e logo sírio, que seu pensamento, como aquele dos mil platôs, tem a ver com o pensamento indígena. A viagem é intensiva. No duro. Mas ela acontece. Pra valer. E se Lévi-Strauss nunca desembarcou de verdade na baía de Guanabara onde o Corcovado e o Pão de Açúcar pareceram-lhe, como canta Caetano, cotocos perdidos nos quatro cantos duma boca banguela, Deleuze desembarcaria arregaçando no sonho de Franny, na terra ocre e quente de seu sonho, na baía desértica do platô galo-romano de Millevaches, espaço vazio, melo vácua, Terras Altas, Sertão limusino, verdadeiro mar de morros, encarneirado, cumprindo já, alhures e ali mesmo onde ela deve sempre se cumprir, no mesmíssimo lugar, a profecia, que vale pra tudo quanto é sertão, de virar mar, e pra tudo quanto é mar, abordando sua costa, de virar sertão, cercado por rebanhos de blocos graníticos, serra de vacas occitanas fixadas na pedra, e também, e acima de tudo, planalto céltico onde mil águas têm sua fonte, afluindo na Dordogne, pras bandas do Atlântico colonial e negreiro, e no Loire, rio régio. Mar e baía-mundo-chapada, onde mil povos e civilizações não cessam de se mestiçar, e onde Gilles se sente bem, longe à montante dos estuários e dos vales onde o poder branco apronta suas máquinas molarisantes. Um Brasil interior à França. E não me venham com conversa pra boi dormir, que um platô não é uma baía, que o sertão não é um mar. Como esperam sem isso atracar num país? Sempre esse tom moralizante de mercadores de privilégios, traficantes de açúcar e escravos. No Rio, como em Limousin, é a mesma boca dentada com os mesmos blocos de granito irregulares, os mesmos picos cristalinos, que os devora. E além do mais, quem sabe o que é a pedra? O que a pedra faz aos homens? Mais uma sabença pernambucana. Educado “pela pedra”, como diz João Cabral de Melo Neto, o que significa por lições, para aprender sua dicção impessoal, não enfática, que vai de fora pra dentro, pra melhor enfiar isso na cachola de vocês, na base de ditados, recitações morais, poética e ortodontia, o acadêmico francês, filhote da escola primária, não gosta das bocas banguelas. Prefere decerto as dentições regulares e completas próprias à fonação científica. Mas no Sertão, na baía-platô brasileira, o que rola é uma outra educação pela pedra. De dentro pra fora e pré- didática. Lá, a pedra não sabe ensinar, dar lições, e se lecionasse ensinaria não . Lá, a pedra é de naiscença, no dentro, o caroço ou a amêndoa dessa árvore pedrenta que é o sertanejo. E isso até na Guanabara, onde foi um corcunda e dois irmãos, e, na Gávea, um rei de Tiro, que, na real, recebem Claude no Rio. E já que isso não se ensina, não se expirica, vejam então os dentes estragados pela fome e pelo açúcar das crianças nordestinas e como Glauber exibe-os orgulhosamente em sua própria maxila. Pois de dentro ou de fora, é somente pela pedra que pode se exprimir o
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homem do Sertão, em idioma pedra, em palavras de pedra que pubariam sua boca se ele não rebuçasse cada uma no cristal de uma entonação melosa, não tomasse o cuidado de confeitá-las, uma a uma, o que toma tempo, e o obriga a falar devagar e a contragosto… a pubar um pouco mais seus dentes, a reduzir ao estado de cotoco um bloco de granito de tanto impregná-lo mais e mais de açúcar. E portanto a falar com uma boca cada vez mais banguela uma linguagem cada vez mais rara. Total incompatibilidade entre a língua ortodôntica das escolas e a língua dos Platôs. Por causa disso, será com certeza difícil falar sem falar uma língua cariada. Que quanto mais rebuçada mais cariada para tornar suportável a dor da pedra, que sobe de dentro e vem, como diz João Cabral, enlutar a pele “de um fosco fulo”. Pele luto, fosca e fula, do pau mulato, em muda permanente, sob a qual, em grandes farrapos de carnes, surge perfurando o ocre doce e quente da terra, quase alaranjado, o verde e o vermelho vivos da turmalina… que Claude não pôde deixar de ver. Pois, mulato, o brazuca negão e sebento, o homem sem cor é também um homem de cores, o homem acromático uma árvore cromática. É o que quer dizer “mulato”. Sem cor e curtido de todas as cores dos trópicos. Negro et pardo. Cristais duros de granito e cristal de açúcar que se derrete. Estás vendo agora, esse negão que reina na cabeceira de Espinosa: cintilando com mil cores instáveis, abrindo orgulhosamente uma boca canibal banguela para responder ao teu susto com algumas palavras doces, cuidadosamente escolhidas, vestido em trajes de Imperador? És a tal ponto estranho a Bento de Espinosa ou a Spinoza para não te veres, a ti também, numa tal imagem? Nessa imagem brasileira de ti mesmo. Deu pra sacar, bilu bilu teteia?
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CARTESIO
Tô sabendo, meu Bento. Cê num bota fé. Num bota fé que Spinoza veio mesmo pro Brasil. Uma bela balela. Um lagarto gordo . E como diz a Clarice “quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo”. Antonci magina só o spino- marxo-heideggeriano-hegelianismo dos filósofos, monstrenguinho das salas de aula? Minúsculo spinossauro, débil, inofensivo, mesmo assim invocado, não podia ser diferente, tão jito e tão amarelinho tadinho. Anômalozinho de merda… Mas rapaz, num é que ele veio merrmo. Tá lá, asseverado pelo Museu Nacional. Uma instituição especializado em lagartos com pontas, placas, penas, cornos, cristas. A prova? O relato minucioso tá oficialmente consignado, em primeira pessoa, por Paulo Leminski Filho (um professor de História e de Redação) em Catatau. Soube disso da boca de um amigo lá da Quinta da Boa Vista. E Todo o resto. Então, já que tem que dar tudo na boquinha, bora botar os pingos nos iis. “Catatau”, s.m.: o ruído de uma queda estrondosa, dum desabamento. Em Portugal: uma surra e um pênis. Uma taca e um pau. No Brasil: tanto uma coisa grande quanto uma coisa pequena. Na Bahia, uma coisa feia. Um grande ou pequeno spinossauro, feio pra caralho. Negão e sebento? Ou uma discussão-zoada, um enxame de palavras, nomes e frases poliglotas, glossolálicas, onomatopoiéticas. Gigante ou anãozinho, um lagarto canarinho, ali no asfalto, resistindo há milhões de anos e chegando a você e a mim. Dez mil espécies sobreviventes. Bem antes docê e bem adispois. A extinção dos spinossauros? Taí o verdadeiro boato, o vero lagarto. Dez mil bem-te- vis, dez mil tiranideosinhos, minúsculos e aterradores, que sempre já te viram, que pegam e matam um gavião, fritam um alemão. Cê acha que dava pra fabricar nos laboratórios subequipados das universidades brancas, saurinhos negões e sebentos, monstros mirins como um Spinoza alemão, um marrano berbere fenomenólogo, comunista ou sei lá o quê, sem essa queda colossal do Catatau, de Spinoza na América? Ora (dirá) porque na certa já está sabendo: o Catatau é a história de Descartes que vai ao Brasil, não de Spinoza. E quem mais pode tomar a surra? Spinoza não é o catatau de Descartes? O órgão ejaculatório dele? Sua potência poética, autopoiética? Até mesmo a Escola passa apertado pra mocosar isso. Toda vez que ela tenta Descartes sem Spinoza, só consegue balbuciar carolices. E por que Descartes não socaria a bronha em primeira pessoa? E “Spinoza” não seria o nome de Descartes tomando uma surra? Enfim: a alucinação de Bento é também Descartes nos trópicos, o sorriso banguela do Cartésio. Bento Cartésio!
Taí você como o cão sem plumas, a árvore sem voz de João Cabral, roído até o que não tem. Privado daquilo que pens ter, por não tê-lo, por jamais tê-lo tido.
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Mas sem o quê cê taí perdido, como uma agulha não se perde, como um espelho não se quebra. Perdido aquém do humano. Com seu fio de homem rompido . É o que pensa. E como o Cartésio do Catatau, embarcado por Nassau com Wagener, Post, Golijath e Eckhout, para fazer o inventário dos bens coloniais da Nova Holanda, plantas, animais e homens (sempre essa mentalidade de mercador), impressionado, arrebatado, pelo Brasil, queres sempre que te expliquem tintim por tintim: que te repitam de outro jeito para autenticar e esclarecer, e prevenir qualquer erro de interpretação, de novo e de novo, mas sem ênfase, a frase que acaba de ler, sem mudar um tico o sentido, para se recuperar a si mesmo intacto nessa continuidade lógica sem pecha da lição redundante, sem ter perdido uma pluma no caso, mantendo sempre o mesmo nome, um só nome, o seu e certamente não o de um estrangeiro que, além do mais, pra cúmulo, nunca viste mais gordo, o nome de um estrangeiro em que pressentes fervilhando e chegando junto dez mil aves- palavrões, dez mil cocares de pena, dez mil adornos para um cão sem plumas. Logo: que Descartes seja Descartes, Spinoza Spinoza, Hegel Hegel, Artaud Artaud, Camarão Camarão, Lampião Lampião, Moreira Moreira, e, meu Bento, principalmente, que ninguém chame-se Bento: A=A. Em suma, que isso nunca faça totem, que jamais a teu nome próprio se possa pregar uma máscara, a máscara de uma outra humanidade guarani-kaiowá, munduruku, kadiwéu, arapiuns, pankará, , xocó, tapuio, xeréu, yanomami, asuriní, cinta larga, kayapó, waimiri atroari, tariana, pataxó. E inversamente, que jamais teu nome próprio vire uma máscara para um índio, uma fantasia de Carnaval. Queres tudo mastigado, e, como Cartésio, só recebes informações sempre novas, sem liga, e nunca sabes, de frase em frase, de palavra em palavra, o que esperar, prestes a jogar a toalha, a esquivar-te a esse aborto incessante do contínuo, a essa frustração permanente de tua espera, e a interromper por ali tua leitura. Além do quê, meu Bento, que fuleragem é essa de chamar se Bento, de se chamar de tudo quanto é nome, de pássaro. De te privar de teu nome de família, teu nome de família espiritual, da grande família espiritual, de parar de falar contigo de costas pro rio, de paparicar contigo os pitéus de nossa prosa comum, de costas pro rio – de não mais falar contigo, meu cão sem plumas, dando as costas pra ti. De te plantar no cais, na borda do rio, na borda de sua matéria viva, de seu sangue espesso e barrento, de te arrastar sem pluma, incapaz de paparicar porra nenhuma, em meio àquilo que vive, despido de todas as tuas roupas de país frio, até de tua camisa leve de homem escaldado, até as roupas de nuvens que sonhas talhar. De te expor à turbulência, à porrada na fuça da vida, em que pululam mil vidas. A essa espessura avassaladora do real, de que se protegem as grandes famílias hénochiennes do pensamento, as famílias heauntontimoroumenóticas, que se aplicam uma tortura fina, metódica e laboriosa, de costas para os povos vivos, para conservar seu nome próprio e repelir os ataques de zoopsia aos quais elas não cessam, no entanto, de estar sujeitas, alucinando sáurios repugnantes. Famílias que, pra empatar ideias fixas como a de um brazuca negão e sebento que não param, no entanto, de assaltá-las, aprendem a língua dos anjos para roçar, apenas com a pontinha duma redução transcendental ou dum cálculo especulativo, com a cabeça pra trás, os lábios pro céu, mas fechados, o mais
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longe que se possa pensar, a coisa mesma, a besta imunda que jaz na lama espessa do rio sem pluma. De te plantar alí, na borda do cais, na repugnante parede interna da boca cariada da Guanabara, de frente pra Niterói, rua Acre, que leva o nome duma outra borda, de outros contrafortes: os acres andinos das terras indígenas kaxinawá não descobertas da Amazônia, Palestina tropical e florestal onde os homens, seringueiros, seivam seu nome a uma planta, e onde flutuava, noutros tempos, como nos cais do porto do Rio, uma mesma fedentina epidêmica de borracha defumada e de combustíveis fósseis, onde jagunços continuam a assassinar reis insurgidos do sertão-floresta, Chico Mendes, o focinho e a cara do presidente pacifista de Eldorado derrubado sobre o telhado do Parque Lage, ao pé do Corcovado, outro toco de dente carioca, em Terra em transe de Glauber, aliado de um chefe índio kayapó-metutkire botocudo, embaixador labial da Floresta- povos. Assuncê, na rua Acre, com a jovem nordestina lesa de A hora da estrela, a nordestina bíblica de Clarice, tão leso, amarelo e miserável quanto ela, de uma pobreza a tal ponto sebenta que nenhum amigo do homem vai lá pra conferir se ainda dá pra matar a fome e balbuciar vagos pensamentos de revolta. Exceto Clarice, obrigada a se meter na pele dum homem pra se vestir de mulher. Torturado como ela pela fome, sufocado por uma tosse crônica, com a cabeça debaixo de um travesseiro ralo, e anônimo e medíocre o bastante pra ser arrebatado, como ela, vil bestiola, pelo canto dum galo surgido do nada na aurora sanguinolenta, vindo até sua cama do cais do porto. Você, tornado esta mulher, meu Bento. Não Marilyn, a toda rosa, mas essa Macabeia de Clarice, gris de sebo, tão resistente ao progresso dos homens quanto um inseto milenar, quanto uma judia praticante que nenhum grego fará comer porco. Você minha nega, tratada de mentirosa por seu namorado por ter-lhe confiado a única verdade que conhecia: que um galo canta na sua rua… a seu namorado, sua infeliz, um pensador olímpico, um sabido diplomata, um brilhante oportunista prestes a surrupiar sua melhor amiga, porque ela é, tem que admitir, bem mais jeitosa pra carreira de deputado por ele almejada. Mas você também, no meio dessa negritude gris, mulata, da rua Acre, escuta agora o canto do galo. E o vê. Você vê a aurora sanguinolenta e o pássaro, lá onde não há animal nenhum. Alce de plumas. Óbvio ululante. Lá onde as águas param, espessas e estagnadas, face aos vastos galpões fugidios por trás da ponte inominável lançada de través na baía no rumo de Niterói, portas sem portas, hiante fedorenta. Algo, diz João Cabral, como a estagnação de vida suja e abafada, de hospital ou de asilos. Visível apenas por um olho de lagarto… desprendido do corpo, sem memória; já que a vista é imediatamente a vista daquilo que sempre esteve presente, há milênios, antes de Cristo, e no mais longínquo porvir, depois de Cristo. Esse curioso arranjo de mediocridade e brilho… De insignificância e infinito… Rosemonde-Salamandra. A moça do filme? Digo Rosemonde pra tentar explicar, meu Bento. Pois nós, essa curiosa combinação de mulher e animal ribeirinho, não somos rosas, nem Marilyn, nem o boto, nem Rosemonde-Bulle, impertinente demais, acre e bela demais, nascida no espírito de um documentarista suíço especialista em ciências econômicas… antes Rosetta-Salamandra na água barrenta do igarapé, a gleba fria do bosque. Uma pequena proletária feia de doer… Filmada sem causar emoção. Uma
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negra belga, de pele branca, rosada pelo frio. Rosetta Espinhosa! Nunca se chegará lá de outra forma. O quê? Nunca se chegará à vida sem isso. Sem isso nunca voltaremos à vida. Pode canetar dez mil páginas sobre a vida selvagem ao sol da Haute-Provence, ao perfume das lavandas, tá perdendo seu tempo. É preciso ser muito mais belga, muito mais nortista, muito mais enfumados! É verdade! Como dizer isso pra eles? Com suas reduções, eles só vão mesmo conseguir um fundo mais concentrado, mais saboroso, ideal para excitar seus corpos empanturrados a comer um enésimo repasto, tão desesperadamente seguro quanto copioso… Regado a vinho engarrafado, entupido de sulfitos, para salvá-los dessa podridão gris, dessa flora microbiana, dessa gentinha, milhões de bestiolas vivas, que ameaça a bôrra no fundo… Um galo ao vinho bourguignon para o jantar! Para embasbacar a bonequinha deles lá, os bons deputados das coisas e dos homens… obviamente conservadores. Isso tranquiliza. Para gozar com ela, dela, mas sem alegria… Nunca com suas intermináveis desfolhagens voyeurísticas chegarão a roer uma coisa até o que ela não tem, colocá-la a nu como um homem sem pluma na beira do rio sem pluma se seca ainda mais além da camisa que não tem. Para isso, carece o deserto: sua luz ardente e nua. Duma lapada. Sem se esperar. Para progredir muito lentamente somente a partir de lá, e não para lá. E só então: o infinito, o canto do galo… a alegria da imensidão liberada pela barata, pela efusão da matéria viva fora de seu corpo, como pelo fluxo espesso, devorante, das águas penetrando a baía vista da janela da doméstica em A Paixão segundo G.H., o maior livro spinosauriano jamais escrito, e necessáriamente escrito por uma mulher, pois que, eu te disse, Spinoza é uma mulher. Uma mulher que realizou o sonho de Franny D. “Havia uma barata… Uma? duas? quantas?” pergunta-se, furiosa, Franny Lispector. Uma barata e dez mil vidas. A imensidão. Da janela do quarto-deserto, para além das gargantas rochosas do Rio, as favelas sobre o morro, mais longe os platôs da Ásia menor, o estreito de Dardanelos, mais longe ainda as areias do deserto, a região dos grandes lagos salgados, os mercados assírios, o Egito dos Faraós, a Atenas antiga, Constantinopla… Pois se o cartesiano de Gay-Lussac não pode, pela porta de vidro de seu bistrô, ver mais longe do que um depósito arquifóssil ancestral, o olho da barata carioca vê com o próprio olho ancestral do último troglodita, e do mais antigo animal. E com esse olho ele vê até o mais longe no além.
Como Cartésio, salivavas por explicações, e como ele, te entregaste de corpo e alma a esse vice-governador polonês dos Trópicos holandeses, esse Kristof Articzewski que te acolhe lá… porque precisas mesmo te entregar a alguém diante de um tal desastre, procurar uma mão. Mas esse Christophe aí, esse Enjeitado, nunca te estendera a vara pra sair das águas barrentas do rio. Esse Articzweski ou Arstixoff, como queiras, abusa de ti, como abusa de Cartésio. Porque a necessidade dele é bem maior que tua necessidade de explicação. Inútil jurar que, “homem muito homem que fui, e homem por mulheres! – nunca tive inclinação pra aos vícios desencontrados”: eis-te embeiçado até as bolas por esse polaco do Artizewsque. Porém, eis também o agente subversivo que embaralha tudo. É ele, a quem te abres todo, que na verdade é a causa de tuas zicas todas. Ele, o anti-jesuíta,
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o inimigo dos redutores indígenas, o mau principio: a Companhia das Índias contra a Companhia de Jesus. Nada a fazer da alfabetização dos selvagens, da latinização dos miseráveis! Ali só pra perdição de tua humanidade e, com ela, de toda tua civilização. É ele, esse gigante antropófago com cabeça de cão, enclausurado moleque com Leminski no monastério de São Bento, para aprender a farejar as tuas esperanças mais sutis. Ele, teu devir nordestino. Ele, o demônio, que te faz pensar em círculos. Ah! Os imbecis que cagam a goma de não pensar em círculos e que nunca o encontraram! Tarde demais, meu Bento. “SpinoZa”… Achas mesmo que vai te safar dessa botando um Z no teu nome? Jogando fora o E espanhol de Espinosa? Alisando teus espinhos. Cuma? Que é que tu quer? Perdoa-me, mas é ele, teu amado, que te polonisa; é ele teu Z polaco. O devir yiddish de Descartes. Ele, que te leva de volta a Tchechelnik, do teu primeiro cais fervilhante de bicheira. Ele ainda, o demônio cariador da escrita nordestina, que desortografiza a língua sertaneja de Glauber na Eztetyke do Kynema.
Que DEZKARTES, foi chamado a PERNAMBOUK por NASKAU A verdade ta contada nas escolas brasileiras
Radicou-se no REZIFE, e sob os dedos de rosa
Desperta em mãe-de-santo e escreve em língua estrangeira,
Negra e oriental, uma carta a um fulano um tal de Bento Um judeu de AMZTERDAM que ao latim deglute inteira, E a insere num sistema abilobado meio ansim
Por axiomas boçal em classificação fuleira
Publicou como SPINOZA num editor holandês Proposições e escólios numa ETYK rasteira
E pro corno que pensa que esse macho é de bacaba Essa é a pura verdade mais que todas verdadeira.
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Chaya Ohloclitorispector
Porque, ao contrario do que contam aos pirralhos, não é carregando crianças sobre os ombros que Christophe salva. Não é dando livre curso à sua pulsão fórica, durch Nacht und Wind, que ele protege do Ogro, rei dos elfos ribeirinhos, onde vinga um pau vermelho coberto de casca branca, ou cinza – pau brasil das zonas temperadas. Não é, ao contrário do que pensa Michel Tournier, a superforia de uma criança astrófora empoleirada nos ombros de um Gilles de Raiz nazi que salva do Holocausto. O verdadeiro Christophe, Tarado da Sé, gigante pervertido nigromântico de Olinda, pratica uma outra medicina, não essa empoleirada na superstição, a pretendida migração das almas, a travessia do rio até a outra ribeira. Uma medicina corporal e só. Ele não derrama seu sangue pra refeição da noite, pra que os brancomânticos romanos revestidos de uma casula bordada de ouro e prata, depois de ter generosamente defumado a sala onde manso adormece seu público, finjam todos os domingos, com hora marcada, converter as espécies, transubstanciar o vinho. O verdadeiro Christophe não leva o Cristo que santifica pelo sangue. Como o diabo da tentação de Cristo no deserto na Idade da Terra de Glauber, Deus das águas surgido do oceano assobiando a Marselhesa, submete à mais terrível das tentações, bem mais terrível do que a tentação de usar de milagres: a tentação de amar, de corresponder à sua carência transbordante, à sua imensa exigência de indiferente amor , batata. A tentação do neutro, do gris. A tentação clariciana de não passar para a outra margem. De ficar dentro, dentro da coisa, da vida impessoal da bicheira, na lama do rio, em meio à terceira margem, sem atravessar. Quem resistiria a uma tal tentação, à tentação de ser tão medíocre, tão feio quanto uma salamandra nordestina aninhada nas águas lodosas de uma boca banguela? A essa extraordinária exigência de amor divino? A essa demanda de um Deus imenso, netuniano, Natura naturans, fazendo simplesmente tudo que ele faz, de uma infinidade de maneiras, nenhuma mais conveniente que a outra? Sem bem e sem beleza. Christophe não é um Porta-Deus, ele é Deus. O Deus de SpinoZa. De SpinoZa vencido pela tentação do amor intellectualis Dei… de SpinoZa tentado por seu Deus. E é ainda Ele que alucina ao pé de sua cama: um Deus gigante Negão e Sebento. Deus sive Pindorama. Ele mesmo amado por Deus e amando Deus com o mesmo indiferente amor, com sangue nos olhos, alegremente neutro e gris… mulato. Quem resistiria a essa formidável tentação de desumanização? Quem, tendo dado o braço a torcer a ela uma vez como Clarice, não retornaria, como ela, todas as noites, recoberta de unguento de carne, para montar na desobrigação da noite, até o amanhecer, o cavalo xamânico do rei do sabath, quadrúpede alado
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saído do bucho oceânico, strix aquático antropófago? Para cometer sob a influência da amanita o mais alegre dos assassinatos? E despertar pela manhã, na borda do córrego, com a boca cheia de sangue? O sangue de sua vítima, criança ou rei, e o seu próprio, matéria viva do sabath. Ah, a humanização dos humanizadores! Que separam Deus e o Maligno, São Christophe e Krystof, o porta-Cristo e o Pernambucano, a cavalgada do pai, den Knaben wohl in dem arm, e o rei dos elfos, o Diabo das borduras – a bela promessa que ele vos faz de levar os vestidos dourados de sua mãe e dançar, vestido de mulher, no meio de suas filhas. Nem fodendo. Só há uma cavalgada, aquela do cavalo-strix ribeirinho, e é ele quem devora a criança, e a criança que se devora avidamente a si mesma no lombo do cavalo. É ele, esse Diabo do Krystof, e não Jesus Cristo, que derrama o próprio sangue – que, como a barata de Clarice, sacrifica-se, para que a matéria desse sangue seja aplicada, em compressa, sobre teu olho ferido pelas torturas que te infliges. E que teu olho, pela virtude medicinal dessa lama de sangue, transforme-se em olho de barata, de lagarto. OFÓ polacopeloftalmoterapêutico: “Para que te cresça fora do corpo um novo órgão exclusivamente visual, exclusivamente tocado por tudo aquilo que te desorganiza. Como na borda do deserto cresce o olho da sonhadora esquizo, desprendido de seu corpo, tocado de uma infinidade de maneiras pela desorganização permanente das populações em transe. Um olho feminino, exclusivamente feminino: olhoclitóris, olho-botão de rosa, teu pênis de nordestina.”
Agora tu tá aí do lado da matéria viva do prazer. Por ter conhecido a tentação do neutro, do mangue em decomposição, cidade-jardim do Diabo, inferno de Thule, povoado de pítons hipnóticos – “que me hipnotiza” diz Cartésio – e de monstros reptilianos portadores de máscaras sefarditas. A boca cheia de animais vivos, conhecendo o gosto da sanguessuga. Por ter bebido a água das frutas das águas estagnadas, de que Lévi-Strauss diz que ela cheira a caverna, e de cujo cheiro foge como foge da lama negra da baía do Rio, pululando de caranguejos, e das paletuviárias cuja expansão não sabe se vem do crescimento ou da putrefação. Pois, não é em Santos que Claude conhece o choque dos trópicos. Não aquele choque negociável da floresta de turmalina: o thaumazein que ainda faz o homem branco pensar. Que o deixa lá, a sacudir ideias nada ordinárias sobre a matéria fóssil, o Grande Fora, a acreção da Terra… Por subtração de um felino tropical deleitando- se com o sangue dum negão como um índio guayaki com a seiva vinosa de uma palmeira… É no Rio mesmo que tem lugar o choque. A pânico caipora do europeu que o obriga a voltar no pinote pra bordo do paquete. O choque da bicheira, da vida ancestral não fossilizada, a bicharada, ali, viva, remexendo lentamente nas montanhas pegajosas da baía, fixando o intruso com os olhos reais da barata de Clarice, olhos radiosos e negros de mulata à morte, tão velho quanto salamandras, quimeras, grifos e leviatãs – mais velho que aquilo que nenhuma escavação, nenhuma perfuração, poderá extrair da terra. O choque do bestiário de Catatau face ao qual a lógica de Descartes não funciona, e ao qual Cartésio sucumbe como sucumbimos à demanda de um amor grande demais. A vida vos bispando do lodo úmido, grosseiro e vivo, onde germina com insuportável leseira vossa identidade de
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pessoa civilizada, de paleontólogo escovado pronto pra atrepar no púlpito, diante de algumas dezenas de sabichões idiotas, pra ensinar que lhes é salutarmente possível, do banquinho do bistrô onde se encontrarão dali a pouco, pensar por sua vez em primeira pessoa que o mundo e sua sutil arquitetura existe sem eles. Sem eles! Como se bastasse voltar para bordo do navio para colocar entre si e si mesmo a distância de um mundo sem nós, para vencer a embriaguez olfativa do Novo Mundo, que provoca, já bem antes que o abordemos, os aromas frutados da floresta em fermentação que vão no oceano adiante dos navegadores, e substituir esse mundo putrescente e vinoso pelo mundo da ciência dos objetos petrificados há milênios sob sua forma primeira e matemática. É para vencer essa podridão que Claude, longe da baía banguela, escamoteará em Santos dos quadros de Douanier o homicídio antropófago perpetrado pela onça, e a Mulher da Floresta Fantástica. Desde sua chegada, antes mesmo de ter encontrado um só tupi, Claude compreende instintivamente que se quer levar a bom termo sua missão brasileira sem o risco de ser canibalizado pelo Brasil – de se ver, como Pierre Fatumbi Verger, vestido de mulher num terreiro de Salvador – precisa desconfiar da Mulher Fantástica, do Papagaio que ela leva no braço, como Jô, a mulher decapitada da Origem do Mundo, e que, como com Cartésio, fala com ele em polonês, ralha com ele imitando Articzewski. Daquela Dina Hiffernan Lizpektor que prepara com zelo para as noites do sabath o cauim de mandioca próprio para embriagar os guerreiros, afiar-lhes o insaciável apetite de vingança canibal. Todos os jesuítas, Monteiro, Anchieta, Gra, Azpicuelta, vos dirão: não há melhor imagem do inferno que essas bebedeiras dos povos indígenas ingerindo quantidades inverossímeis de álcool , catatau de todas as sortes de vinhos de raízes e de frutas fermentadas, antes mascadas pela boca de jovens virgens. Pois o reinado do mofo, do mundo em fermentação, o reinado dos vinhos, é primeiro aquele das mulheres. Como o é, no final das contas, aquele da raiva canibal e da guerra indígena que se segue. É uma mesma necessidade que comanda o alistamento forçado dos guerreiros-bebedores nos exércitos coloniais e o engarrafamento dos vinhos pelos produtores- atravessadores. Uma necessidade jesuíta: impedir a embriaguez das matilhas pela fermentação etílica das plantas autóctones mascadas pelas mulheres. Não há maior obstáculo à conversão dos nativos do que esse vinho de mulher, natural, barroco, inconstante, que, como o pau mulato, nunca tem a mesma cor, e muda constantemente de um aroma a outro… e será bebido antes de ter exalado seu ultimo perfume. Aos exércitos em ordem dos brancos, em que cada homem, reduzido à mesma papa, dorme, come e caga, indistinto, sem nome e sem mulher, com outros homens, é preciso opor o moquém festivo das bruxas tupi em que, sob o império da bebida, exaltados pelos poracês incessantes, correndo pra tudo quanto é lado na aldeia, os homens enumeram a longa lista de todos seus mortos de guerra e encontram a memória de seus nomes, de sua centena de nomes, de seus nomes de criminosos, todos tomados ao inimigo.
Como os ancestrais de, Chaya Pinkhasovna Lispector, Abraão, Isaac, Jacó, Judá, Tamar, Farés, Zara, Esron, Arão, Aminadab, Naasson, Salmon, Raab, Booz, Rute, Obed, Jessé, Davi, Salomão, Roboão, Abias, Asa, Josafá, Jorão, Ozias,
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Jonatão, Acaz, Ezequias, Manassés, Amon, Josias, Jeconias, Salatiel, Zorobabel, Abiud, Eliacim, Azor, Sadoc, Aquim, Eliud, Eleazar, Matã, Jacó, José e Jesus, Jesus batizado por um nazireu ribeirinho, Yo’hanan Krystof Articzewski, e, desde todo esse tempo, Pedro e Mania, puderam eles acreditar que o mundo foi criado há seis mil anos? Pois, lamento informá-los, eles acreditaram. Seis mil anos, o epineolítico, a idade do primeiro vinho caucasiano em Areni, e dos primeiros nomes, os nomes de espécies e gentes, porque não há nomes sem fermentação etílica. A idade epineotílica em que o encontro das águas fez nascer a primeira neblina úmida propícia à formação da podridão gris nas uvas sobremaduras. Seis mil anos, a idade da Serpente dos Sonhos, que era no principio, era Deus e com Deus, que nomeia todas as coisas e que tudo fez. A idade dos cochilispector, dos bufonídeos, batráquios latino-americanos, e dos bufagídeos, tipo de pitangua tic-tiui bem-te-vi mediterrâneos, que proliferam na vinha-pasto centenária dos xistos languedocianos de Lentheric, ao abrigo dos contrafortes das Cévennes paleozóicas. A idade dos ruminantes das vinhas, girafas tropicais em bosques de cervos de Gers. A idade do charco sanguíneo, da pupila opaca, reativa no balde, envolta numa larga íris rosa, que se forma no centro das cubas de vinificação. Seis mil anos: a idade de Pindorama e do Bicho do Fundo – que vêm depois e estão no principio. Fascinado pelos quatro bilhões e cinquenta e seis milhões de anos que separam bem certinho a acreção da Terra de seu balão de vermelho branco, perfeitamente protegido contra o menor ataque de acidez, o realista especulativo não pode chegar a esses seis mil anos. Como Cartésio, o ciborgue barroco de Leminski, meu Bento, e como o leitor de Catatau, que também é Cartésio, chegas agora a uma redundância de todo nova, redundância essa, velha uma óva… uma indiferença absoluta, estritamente idêntica à informação mais absoluta… a enumeração de todos os nomes, sua multiplicação epifítica… Yo’hanan Hifferman, Gilles de Ray-Lussac… a cintilação de uma mesma imagem, a visão de um brazuca negão e sebento, através duma profusão de imagens, de perceptos e afetos, luso-holandeses, sírios, ameríndios, yiddish, femininos, vegetais, sexuais. Zapeados a grande velocidade. Quo imago aliqua pluribus aliis juncta est, eo saepius viget (V, Prop.13) Do Fort ao Da do ritornelos catalogado por Freud, é sempre o mesmo que volta, e do Da ao Fort sempre a morte do mesmo que ameaça, lógica da educação pela pedra, baseada todinha na crença na inexistência, a fé em um Deus vaginal acéfalo – como se pudesse faltar tamanduá no mercado ou a pedra deixar de ensanguentar a boca! A complexidade, como a complexidade do vinho, não se obtém pela purificação, mas nasce de um mergulho nas profundezas do caos onde a existência abunda, fervilha e prolifera. E cada mergulho é ao mesmo tempo um desabrochar. Taí a outra lógica profetizada por Oswald, a lógica tupi, a lógica do Catatau: o incendiar mútuo do mergulho e do desabrochar. E também: a introversão extrovertida, a extroversão introvertida. O incendiar mútuo da extroversão épica, inédita, interminável panóplia documentada, histórica, geográfica, humana, e da introversão verbal através dos canais subterrâneos, inumanos, da língua e do pensamento. A escrita cibernética, recursiva e perturbada, do Catatau, o texto mais informativo e mais redundante jamais escrito. Maximamente informativo, excessivamente
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diastólico, até a mais insustentável sístole cardíaca, a mais aguda das contrações cordiais: Katamenokata no monômio gatari, de kono, mono no oko mo kodomo condômino. De Re Nipônica, VII 33. Inj. Judus. E logo, maximamente redundante: 0 = 0. A nova língua da filosofia, seu português, o latim de Descartes no Brasil, em estado de choque tropical, Greco-nipônico – um latim de evangelho apócrifo copta, afro-asiático. A língua dos padres da Índia africana, os reis-povos da ilha da Brasa. Ilegível! Ou somente por um analfabeto. Em ioruba? – “Àjáso n’t’aáyán”: a fórmula precisa da nova lógica clariciana. Precisamente, o ofó trezentos e cinquenta e sete ensinado a Fatumbi, o olho de Xangô, por seus mestres babalaô. A pronunciar depois de ter pilado com uma pedra de raio, um certo numero de flores (Bananeira), de ervas (de Elefante), de grãos e de plantas, uma minhoca e uma pena de pássaro (Coruja), ter espalhado o preparo sobre pedaços de pano vermelho presos nos quatro cantos de uma mortalha, e ter costurado tudo. Então era isso, nossos trabalhos? É isso aí. A dorna epineolítica, a bicheira… as plumas do cão, o passarinho ubiquista… costurados juntos… É isso aí. O ofó que seria sem efeito se não fosse pronunciado. Pronunciado sem burro louco! Escrito ou lido, não vale. Ou talvez escrito em voz alta… E que para agir, ser o verbo ativo, deve comportar ao menos uma sílaba do ingrediente e de sua ação. E quase não fazer frase. Àjáso n’t’aáyán. Na língua relativamente informativa (na tradução portuguesa): Àjáso: “Reunir as partes seccionadas de um corpo”: Àjáso n’t’aáyán: “ cortar para reunir é a característica da barata”. Em nossa nova língua, na língua absolutamente informativa, hiperinformativa: Àjáso n’t’Chaáyá : Separeunir n’t’ Clarata. Reconduzir à vida. A fórmula de Heliogábalo ressuscitado. É isso aí! Sentes enfim (pois isso só pode ser sentido) sob o efeito daquela magia (porque só a magia do ofó aí provê), o que quer dizer “sentir que somos eternos”? Porque tua redundância fresquinha, conturbando tua contemplação maníaca de um único Grande Fora, desperta enfim tua potência visionária de lagarto clitofariciano: libera uma miríade de visões de uma miríade de coisas, todas singulares, nascendo umas das outras, sem fecundação masculina, por pura partenogênese. Todos esses nascimentos, essa vivacidade, que são de Guaraci, taí tua nova redundância, tua indiferença absoluta, tua neutralidade, tua cor gris, tua novíssima mediocridade, eminentemente afetiva, positivamente afetiva, no mais alto grau de uma infinidade de maneiras. Que te libera de tuas paixões por uma paixão maior que tu mesmo… a afetabilidade deleitável da matéria viva, de seu olho-botão de Amor, fotossensível e oftalmográfica, que, com suas oito mil terminações nervosas, registra tintim por tintim a refração ótica e a traduz no mesmo do contenente em prazer espasmódico. Porque quicquid intelligimus tertio cognitionis genere, eo delecamur.
BENTO CARTÉSIO. – Ergo sum, aliás, Ego Renatus Cartesius, cá perdido, aqui presente, neste labirinto de enganos deleitáveis, – vejo o mar, vejo a baía e vejo as naus… vejo mais…
ARSTIXOFF ARTYZEWSQUE. – Delicioso Bento de Amor…
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GALLI MATHIAS
“Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia de exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Mathias. Comi-o”(Oswald). Nascido em 1797 numa família de atravessadores-produtores de vinhos da Borgonha, como sua irmã mais velha, madre superior de uma missão jesuíta amazônica, e como seu irmão, Luiz o sexto, missionário do vinho industrial no Novo Mundo, Galli Mathias, professor de ciências políticas na terra dos Filhos mais velhos da Igreja, serve uma baita missão de amor: encetar uma grande negociação diplomática entre os povos da Terra e os Modernos que, como ele e seus jovens amigos, procurariam enfim apresentar-se nos trinques. Ocidentais arrependidos que jamais confessariam terem sido modernos, nunca deixaram de praticar a mesma religião que aquela dos outros povos, desde os mares da China até Yucatan, desde os Inuits até os aborígenes da Tasmânia, a mesma bricolagem de ídolos e de objetos sagrados, mesmo que o tenham feito d’outro jeito, porque a mesma coisa pode ser feita de muitas maneiras – e que a deles, a maneira católico- borgonhesa, não é de todo desinteressante… veja e confira! O maior projeto político inspirado no concílio do Vaticano II, para a criação, sob a forma de uma mídia social mundial, de uma imensa redução jesuíta que retomaria do zero a obra catequética, sem coação, sem violência, usando unicamente a sedução que exerceriam nossa religião, nossa ciência, nossa filosofia, nosso direito, sobre os povos aborígenes convencidos pelos novos missionários da Companhia G.M. da perfeita adaptabilidade das práticas ocidentais a suas próprias práticas – de seu caráter aborígene! Possivelmente aborígene! A nova pedagogia da educação colonial pela pedra. Sei não se esse troço funciona.
Simulação de uma negociação diplomática com os modernos que buscariam apresentar-se enfim nos trinques aos outros coletivos:
GALLI MATHIAS. – Nada de tão diferente assim daquilo que se faz… CUNHAMBEBE (de boca cheia). – Jaudra ichê.
GALLI MATHIAS. – Ichê?
CHACHUGI. – Aché. Cho,Cho,Cho!
STADEN. – Ich. Ich.
GALLI MATHIAS. – … dos mares da China até Yucatan… A mesma matriz… CUNHAMBEBE (a Galli Mathias). – Jaudra ichê!… Barkibia! Atimbora!
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ARTYCZEWSKI (reforçando). – Idz! Idz!… Chispa, galinha cagona! Xô! Xô! té, té, té, té, té!…
LAMPIÃO (na sanfona). – Óia eu aqui de novo… xa-xa.
CUNHAMBEBE, ARTYCZEWSKI, CHACHUGI, STADEN. (em coro, dançando em volta de Galli Mathias). – Xa-xa…xa-xa…
GALLI MATHIAS (com uma voz de mulher). – Xa-xa… óia eu aqui de novo…chô-chô…óia eu aqui de novo… chê-chê…
A prova? Tadinho do Chachugi, bayja até o pescoço, ocupado desde o nascer do dia em retesar seu arco, afiar as pontas de madeira dura de suas longas flechas, de costas pra aldeia, proibido de ver a mulher, sua mulher, e seu filho, nascido naquela mesma noite, expulso da matéria viva, da poça rosa, vinosa, da placenta… da irritante mornidão do ventre materno de que gozou… e todas essas onças correndo no rumo dele intimando-o a entrar na Floresta Fantástica para disputar com elas a embiara, todas essas onças que o convidam a voltar à matilha, a derramar o sangue com elas, a matar animais para recobrar a potência de ver a Mulher, a maravilhosa aparição da Floresta Fantástica, único jeito de um homem ser homem, ava-jaguarete, vir-onça, de ser homem como a onça é homem: pontas plantadas na polpa do vivente. Como a parturiente é homem: felino mordendo diretamente a placenta – e não correr mais o pior dos riscos: a humanização do homem, sua masculinização, o risco mortal de não ser mais onça, de ser eternamente cego pra Mulher de virar pane-papai, Deus Pai enrabador de jiji-cricri, a criança nascida de uma Virgem perpétua aplasmática violada pelo Filho. Pois, o que os trópicos fizeram de diferente, foi exatamente inventar o cristão antes que o cristão fosse aniquilado pelo absurdo dos Trópicos. Identificar, muito antes do concílio de Niceia, a loucura trinitária, e muito antes de Sófocles, o veneno do papai-mamãe e filhinho. A divindade do Pai, a insurreição do Filho, a caridade, a longanimidade, a prestatividade, a bondade, o domínio de si, a fidelidade, A.I.M.E.project do Espírito Santo. Temer antes de tudo virar cristão: a maior ameaça que pesa sobre a virilidade dos caçadores, sobre sua vyrilidade tropical, sua virylidade de sussuarana, sua virilydade púrpura, sanguínea e vegetal, eminentemente feminina – sua capacidade de virar onça, de virar mulher nutrida direto no plasma da matéria viva. Mas naquela manhã, Pierre, o cronista francês dos índios Guayaki, angustia-se demais da conta com o mutismo de Chachugi. Não tira nem um pio explicatório do seu informante. Difícil não padecer junto, não sentir até as tripas do seu próprio existir, e mais ainda do seu existir ocidental, édipo- cristão, a aflição do masculino afundando sob o peso simbólico da Mulher, forçado a afrontar sozinho o mundo perigosamente vivo da Floresta. Tudo isso por causa do curumim. Tanta infelicidade, silêncio, ansiedade, isso só pode vir do piá! O Filho, o Separator, pronto a insurgir-se contra o Pai, a matá-lo na primeira encruzilhada, a papá-lo com seus irmãos. Extraordinária coincidência entre o pensamento selvagem e o logos mais vigorosamente senhor de si do pensamento ocidental. Aquele insustentável silêncio de Chachugi ocupado com os preparativos da caça, murado em seu saber indígena indizível, aplicado com firmeza em levar a
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cabo sua empresa conjuratória, esticar o arco, entrar na floresta, matar a embiara, isso só pode ser a maneira lá dele de falar, a maneira dele de exprimir o pensamento selvagem inconsciente de si já que só os gestos o dizem: a vocação parricida do recém-nascido. “O pensamento selvagem inconsciente de sí já que só os gestos o dizem…” ! Tamanha babaquice, só lendo pra crer! E escrever! É que lendo os escritores, a gente só vai ler babaquices, e que todo escritor, todo homem que, nos trópicos como ao voltar dos trópicos, não sabe fazer outra coisa além de escrever, e quando escreve, o zé boceta escreverá na certa babaquices. A menos que não escreva: não tente fixar pela escrita o que há de mais sutil. Tentar como Clarice fixar, palavra por palavra, na escrita, o próprio movimento daquela saudade medonhamente feliz que se confunde com o peito de uma mulher para sempre e para nunca, o instante-já, o já do isto, o d’já du ceci. Tentar uma escrita fotográfica, ocular, instantânea, do já do isto, ancestral e fugidio, mais breve que qualquer palavra e mais durável que qualquer livro. A menos que não se tenha, no ato de escrever, outro objetivo e outra existência que o instante do isto. Outro poder que seu poder de metamorfose. Fazer desse “ex-isto”, dessa maneira de ser do isto, de sê-lo, de ser por ele e nele, eu, nutrido diretamente de sua substância, a fórmula mais adaptada, a menos inepta, de meu ego sum. Escrever ex-isto. D’jáx-isto. A menos que, como Clarice, mas também como Celine, a rendeira de Asnières, só se escreva a escrita – da mesma maneira que, para pintar de verdade, só se deve pintar a pintura. E te escrever, meu Bento. Te escrever a escrita, e te escrever o ilegível. Te escrevendo o Z de Spinoza como se traçam os índices de um odu yoruba no pó de uma preparação sagrada, feita de folhas colhidas na floresta de manhãzinha e trituradas solenemente por mulheres com os peitos de fora. Escrevendo-te como o Verbo que age se escreve, somente ilegível aos pés dos escribas. Pegar, para ti, pela escrita, a escrita com a mão, escrever cada palavra pegando-a com a mão. Para senti-la vibrar. E pousá-la em tua mão. Fazer da escrita apenas uma vibração de palavras sem significação, ou então somente auditivas, corporais. Escrever ”dinossauros”, “ictiossauros” e “plesiossauros” , e até “spinossauro” menos para sugerir correspondências inconscientes, segredos trocados, do que para acrescentar, agora, no ato, nosso próprio tremelique olho-clitoriano, e já que o clitóris é um olho, um olho-ouvido, tender ao mais próximo do ponto em que a escrita far-se-á ver, e esse ver mesmo do olho pelo qual a vida se vê – em que o sentido será de todo corporal. A menos que se firme pela escrita o choque do agora, ao avesso da melancolia alemã que, pela escrita, subtrai-se inteiramente dela. Melhor ainda: provocá-lo, ir aos Trópicos, multiplicar os instantes, os aromas, liberar sua sequência – até o risco de perder seu leitor, até o risco da informação mais absoluta. Até o risco de não mais ser lido. Enfim! Somente ouvido por um olho. Nunca Galli Mathias chegará a nos simetrizar. Porque Pierre, o silêncio de Chachugi, ele não quer, não pode ouvi-lo. Porque seu silêncio, sua concentração matinal, na verdade livre de humores, ele não pode suportar, assim como não pode suportar a prova do isto, querer o fluxo mortal dos instantes. Seu cintilar silencioso incessante, sua aparição-desaparição letal-vital. Como Staden, e todos os filósofos intragáveis dos países frios, ele tem medo da morte. Então, ele escreve. E como não podia ser
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diferente, babaquices. Sobre a masculinidade e a feminilidade, sobre a dupla equação guayaki: Homem = caçador = arco, mulher = coleta = paneiro. Sobre a impossibilidade para um homem de perder seu direito ao arco sem dever carregar o paneiro. Sobre a triste condição do homem forçado às façanhas do arco sob pena de decair e ser obrigado a incorporar o grupo das mulheres, devir realmente colhedora-do lar e logo “metaforicamente” mulher, como Krembegi, o pederasta guayaki, kyrypymeno, ânus-fazer-amor, que não corta mais seus cabelos, nunca mais captura embiara alguma e fabrica os mais belos colares de dentes com que se enfeitam as mulheres quando estão alegres. E se Krembegi está alegre com a felicidade das mulheres, é de certo por ter admitido sua queda. Por uma sábia resignação estoica. Ao menos é o que se supõe, pois Krembegi, como Chachugi, é pouco diserto, e, homem muito homem, o francês certamente não inveja sua pederastia. É por isso que ele nunca te escreverá sua escrita, meu Bento. E não te escrevendo não verá o que nenhuma escrita pode compreender: que, mulher, Krembegi não o é metaforicamente, mas de rocha, batata. Que sua pederastia de fato realiza, no feminino, o feminino e o masculino. Que só um pederasta, como Heliogábalo, ou Spinoza ressuscitado como mulher, pode ser um sacerdote do masculino, da masculinidade DEVÉRAS. Mesmo tendo Krembegi trocado o arco pelo paneiro, não perdeu a ponta: as garras de onça de que suas mãos, dedos afastados e contraídos, pegarão a forma, levarão o seu rastro até o túmulo, o dente de paca usado pra furar um a um os caninos de macaco com os quais faz belos colares que as mulheres levam porventura em volta do pescoço e sempre no fundo do paneiro, e seu pequenino pênis de quati, quaticloris, que os caçadores achês comparam aos fiapos das pontas de suas flechas. Pontas de pontas, pontas por excelência. Que não apontam nenhuma significação, mas a vida somente, a vida nua, ex-isto, do vivo. Furando-a. A fim de, por essa perfuração, colher o suco e a moela, a matéria nutritiva do vivo. A fim de, por essa perfuração, nutrir-se real e exclusivamente dessa matéria – como Clarice fura para comê-la, através de suas escamas, a matéria branca da barata, e como se pode também furar, através da carapaça aristotélico-cartesiana da Ética, para dele nutrir o olho, o pau mulato da alucinação de Bento. Pois, se as mulheres não matam os animais, a substância que recolhem em seus paneiros, apanhando as larvas da floresta e o cérebro moelento do pindó para moê-los juntos numa sopa espessa, é contudo aquela mesmíssima que os caçadores-onça furam com o arco. A mesma goma orgânica, viscosa e vibrátil, gel de guar, na qual aquela que te escreve a escrita consegue fixar o instante-já, o instante iché/cho, já-eu. A matéria na qual ela imprime a pegada de sua pata de pantera indígena, os sinais do odu jaguar. Krembegi é um sacerdote do masculino por ter sacado isto muito bem: que tanto faz ser caçador ou colhedora para ser homem, que abandonando o masculino pelo paneiro, ele o realiza em feminilidade. Quanta diferonça de Chachubutawachugi! O índio vigoroso o bastante pra caçar, mas que, tendo perdido o arco, incapaz de flechar o vivente, pega os quatis com a mão, persegue os tatus nas tocas, quer ir às mulheres, heim gehen, e não ser mulher, não furar os dentes de macaco, não coletar o palmito, mas que nenhuma mulher quer. Não, jamais Galli Mathias chegará a nos simetrizar.
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Porque Krembegi e Chachubutawachi são absolutamente diferentes. Porque os índios guayakis já sacaram essa diferonça entre eles, os caçadores-colhedoras de matéria viva condenados a trespassar a matéria dura das espécies da floresta- mundo, indiferontes à diferença, social, fálica, do masculino e do feminino, e todos aqueles que, como Chachubutawachi, lá como aqui, são incapazes de endurecer uma ponta e ir sozinho na floresta matar um guariba, por falta de coragem, de certo, mas também e sobretudo por idiotia, por não sabê-lo, e que de qualquer maneira se aferram à sua masculinidade exclusiva do feminino, se fazem fotografar, posando de caçadores, com a embiara no paneiro e levam como enfeite sobre os peitos viris, como Chachubutawachi, ligados entre si por um barbante, os objetos intranspassáveis produzidos pelos Brancos, ofertados ou abandonados por seus missionários, um cartucho de bala, uma dezena de frascos de penicilina, algumas chaves de lata de sardinha… para a diversão das mulheres e das crianças. O idiota desse Chachubutawachi, “Grande-queixada-barbudo”, esse marrano-selvagem clownesco guayaki, esse híbrido ridículo na medida em que desvia o masculino de seu sentido de ser mulher, taí o que queriam que pastasse, meu Bento. Você que não sabe fazer outra coisa senão escrever, e ainda assim se empenha pela escrita, do coração mesmo de sua idiotia, em latim e more geométrico, pra parecer Krembegi – pra ressuscitar Heliogábalo! Você, que se esforça por uma escrita pederasta – tão pederáztica quanto possível. Nunca que Galli Mathias conseguirá nos simetrizar. Porque os Índios já inventaram Galli Mathias, Gallinaburgutawachi, o Moderno que deambula no meio dos seus, os pés na matriz antropológica, arvorando pávulamente em volta do pescoço o Objeto industrial, o mais belo achado dos Brancos, o Objeto sagrado fabricado da cabeça aos pés, o chique made in Paris, infinitamente devedor aos mui católicos portugueses escravagistas por terem qualificado justamente de feitiço, coisa feita/mandinga dos Negros da Costa da Guiné, como podem sê-lo também os Orixás do candomblé, se acreditamos nos etnógrafos, quer dizer, se os lemos, porque Galli Mathias só sabe ler, e não Bastide, sempre sob o choque dos trópicos, e com certeza não Fatumbi Verger, que não se lê mas se vê, e se vê com seus próprios olhos que são os próprios olhos de Xangô – aquele que vê e sabe de tudo. Pierre Fatumbi, o etnólogo bem-te-vi. Já o mui católico Chachubutawachi das Ciências Políticas, capaz até mesmo de fazer crer aos brancos que, deixando proliferar suas fabricações, ao ponto de embaralhar o natural e o humano, não fazem nem mais nem menos do que fazem os negros da África ou da Bahia – que combatendo pela filosofia sua própria indústria, cavando, pelo pensamento, o máximo possível o fosso entre a natureza e a cultura, o animal e o social, maktub, eles ainda trabalham por sua hibridização, pela mesma indústria, acabando eles mesmos por produzir monstros sobjetivos, humanoturais – Kant, Hegel, Husserl, Heidegger, Lacan, Derrida etc. todos eles bruxos africanos, enfeitados com colares de bugigangas, dentes de penicilina, dentes de conservas, dentes-cartucho, mas na certa sem mbaraeté, sem axé, kraftlos. Bela simetria! A melhor diplomacia branca jamais ousada: apresentar-nos aos outros tão inofensivos quanto os imaginamos! Um convite original do Itamarati francês, endereçado a ixês, xô-xôs, e xá-xás pra chuchu, a fazer o Chachu, a celebrar a festa do Paracleto
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Novo, do Espírito simetrizador da Rede das Índias ocidentais e orientais, Pentecostes anglófono, inevitavelmente, porque Chachubutawachi, o Paneiro- caçador, não pode tomar parte nos cantos noturnos dos Arcos-caçadores que, nas entranhas da floresta, inventam línguas que ninguém fala. Todavia, bem que Mãe Senhora preveniu Gallichachu: “ Cuida o Verger, é um bruxo, tem mandingas! ”. Nunca que Galli Mathias chegará a se simetrizar a não ser com Chachubutawachi. Se ele tivesse visto, só visto, os instantâneos de Pierre Fatumbi, teria visto que os trabalhos mágicos do candomblé não são empregados em transformar a matéria prima para fabricar Objetos tão elegantes quanto um cartucho de fuzil, mas somente pra prepará-la sem jamais a transformar. Teria visto que os negros africanos da antiga Costa dos Escravos como os negros brasileiros da Baía de Todos os Santos são mesmo negões e sebentos, não fabricam nem barganham nada, involuem sem regressar até ela rumo a essa matéria primitiva, pó gris, iyerosun, de folhas medicinais e litúrgicas colhidas num lugar selvagem, juquira ou floresta, conhecido apenas pelos caçadores familiares de Ossanyin, o deus das folhas, barro primordial, imutável, mistura de substâncias vegetais piladas no sangue dos animais sacrificados. Sem essa matéria vital, nada se faria… daquilo que não se faz. Até Patrícia de Aquino o diz. Não se pergunta a um iniciado: “que santo cê tá fazendo?”, mas: “ você é feito de que santo?”. Ele teria encontrado Aroni, o homenzinho ao qual falta uma perna, talvez a terceira perna de Clarice, que tá kashimbando por um talo oco o petum duma concha de caracol cheia de suas folhas favoritas, e Naná, a deusa da lama dos brejos, que ambos o teriam ensinado a não fazer nada, a não mais empanturrar suas usinas de Objetos com uma matéria exótica arrancada de seus povos, e a apenas se deixar fazer por ela.
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JEAN-BAPTISTE-THÉODORE-MARIE-ROSALIE BOTREL
Sabe-se ao menos do que padece Antonin Artaud? Até mesmo seu acupuntor, Soulié de Morant, bóia grandão. Dos eletrodos que lhe enfiam no cu, na boca e em todos os buracos de boceta que se acham nele? De mijar todo seu sangue, de se liquefazer, como uma titica? Um cocô branco? E feio? Ele sofre da guerra assimétrica dos brancos? Que matam sem alegria, só pela ideia, sem antes depilar e pintar suas vítimas, sem antes beber com eles até a embriaguês a bebida das mulheres, mas com uma bala na cabeça, pá-pum, na beira da estrada, ou, molemolente, com um catatau de golpes, no lombo do peão. Sem esperar do inimigo que ele exija com firmeza ser golpeado, com uma pancada seca na cabeça, por ter ele mesmo já golpeado tantos parentes e amigos nossos, certo de ser vingado de nós todos por todos seus parentes e amigos, todos igualmente votados à morte por sua confissão, para que só subsista entre eles e nós uma sã e sólida inimizade. Sofre ele da guerra assimétrica dos brancos, que abandonam os corpos ao léu, largados, no meio das ruas ou no fundo das valas, ou então os queimam, no final das contas, não sabem o que fazer deles, e ainda por cima exigem por isso mesmo que se reconciliem, que voltem a ser bons amigos? Que, por medo da morte, pela menor bagatela, matam seus melhores amigos, fazem deles seus piores inimigos, para que apenas subsista a amizade e que ninguém venha matá-los. O que, compreenda-o bem, meu Bento, exige verdadeiras carnificinas, gigantescos massacres… inimagináveis pilhas de carne vermelha, incomíveis. Sofrerá então de amizade, Artaud? Podia ser isso mesmo. E sabe-se ao menos ao em que se firmam os índios? Pois trata-se exatamente disto: daquilo que o faz perder a amizade dos brancos. Comprimido, esmagado no chão, de um peso extremo, insensato, e tão vazio e fluido quanto um útero de bruxa. Tão mineral e volátil quanto o Novo Mundo segundo Claude. Enfim, atacado de obusite, abásico-astásico, incapaz de andar, de ficar de pé, de atravessar de pé paraguachu, que o separa de Yvy Mara e’y. A doença colunial por excelência. O choque dos juruás. É o que, exatamente, a guerra fez a Nijinski roubando-lhe a dança. O trauma branco, que, a 19 de janeiro de 1919, fez com que ele dançasse coisas medonhas, flutuando em cima dum monte de cadáveres. Dança de São Guido, coreia dos Países Frios. O desmoronamento do estilo, a perda daquilo que mantém ereto o esqueleto e a coluna, daquilo-que-mantém-erguido-o-fluxo-do-dizer, do e’ry mo’ä a dos cantores Mbya de Heléne, a mulher de Pierre. Veja só o que me fizeram, meu Bento: levaram-me à pia batismal antes mesmo que eu me aguentasse de pé e me deram um nome que não me ergueu do chão da igreja deles. Cuidadosamente escreveram
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em todos os seus registros para se lembrar daquilo que não se pode guardar oralmente na memória: meu nome de nóia, meu nome maníaco-depressivo, aquele que bastará uivar para me lançar convulso ao chão. Mas você me deste um Z negão e sebento. Uma letra retorcida e sonora, polonesa. Você me inventou um Deus tropical, tupi e oriental, Karai Ru Etê-Karai Chy Etê, para receber dele meu nome e minha voz ao mesmo tempo que minha proveniência. E todas as línguas se misturaram nele. Amamoût latu as tatkwe terik’ejá aáyáns minajáso, tamo daleko tamo anusun usunu sina minajá, waiwi lapayawii àwe ayiajá nd’ndá-wasu àjìye nd’ndá-ti dìde n’lè. Se Gallinácias tivesse se dado o tempo de escutar Joana Flora- Bocaine-Saada, a desencantadora de Mayenne, talvez saberia, como Eduardo, responder à questão da Murta, de saber o que da firmeza aos índios, que não a pedra – porque de qualquer maneira nada se firma pela pedra. Mas Gallimathias está aperreado pra abrir dos trópicos. Pra voltar pro seu trampo. Pra esquecer tudo isso e retomar seu posto na Fábrica dos Objetos, das Ideias, de tudo aquilo que pode se pendurar no pescoço pra bancar o Chachubutawachi – o Universal God Fazer, o Padrinho de todos os povos, dos mares da China até Yucatan, dos Inuits aos aborígenes da Tasmânia. Além do mais, a gente também não vai simetrizar o indígena com o camponês de Mayenne! Menor com menor! Quando se tem na reserva modernos bem mais modernos, bem mais apresentáveis: os Kant, os Hegel, os Lacan da vida… Chuchu beleza. Os Babins, os camponeses de Joana, ta na cara que são muito menos atrativos…têm mesmo uma maneira de bancar o indígena que arrisca avacalhar tudo, peidar na farofa. Uma maneira um pouco atrapalhada, retardada, como pode um moderno, mas terrivelmente exata: pedindo a Joana que, do nada, inventasse pra eles inimigos mortais, unicamente para que reencontrassem sua vitalidade assegurando-lhes a continuação do mundo. Dá pra entender por que os índios se firmem tanto em suas beberagens e em suas guerras! Ter tantos inimigos, tanto ódio, homicídios e nomes de homicidas sem ter de consultar Dona Flora. Que diferonça com os Babins! Que confundem logo de cara sua etnógrafa com uma psicoterapeuta, e esmiúçam-lhe por horas a fio todos seus males. Enquanto Chachugi ou Krembegi se calam. Não têm nada a dizer a Pierre. Branco é foda. Constrói barragens e depois fabrica passagens para o salmão ao longo dos rios. Pode até colocar os peixes em cubas para transportá-los de caminhão até os viveiros. Todo um dispositivo de reparação, custoso e terrivelmente eficaz, para fazer o que não se faz – não carece ser feito. Por certo, isso os fará fugir de outros coletivos, dos mares da China etc. povos sem inimigos obrigados a consultar para odiar, para se tratar da amizade. Pois não há outro meio de ser si mesmo senão sair de si, outro jeito de firmar-se-de-pé senão andar, pôr-se frente ao inimigo para matá-lo ou capturá-lo e pegar seu nome. Nenhuma outra interioridade além de um movimento permanente pra fora. Nenhuma outra identidade senão a migração contínua para o litoral, a caminhada para a borda do Oceano, sobre sua borda, conduzidos pelo canto, pela voz, ñe’e, que mantém erguido. Yvy ju mirim, para a qual caminham os Guarani não é um objetivo nem mesmo um horizonte – ela é a própria Terra da caminhada, a Terra terrestre na qual o canto firma um povo de pé. Entra-se nela andando, enquanto se anda. Mesmo Helena, a mulher de Pierre, pena
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pra entender isso, para ver que a desorganização nômade, a caminhada mortal, é a única coisa que se firma e à que se firmam aqueles que se firmam. É verdade que os brancos migram sempre sedentários, atravessando de uma borda à outra, sentados, a procura de novos amigos, impacientes para erigir seus templos de pedra sobre a nova terra. Qualé? Há migração mais suicida que aquela de quem, para viajar, pega um avião que poderia muito bem não pegar, porque não há nada de realmente essencial a se fazer lá onde se vai, mas que apesar disso ele pega, sabendo perfeitamente que vai morrer no voo, porque nada de realmente essencial o impede de preparar as bagagens, de passar no banco, de pegar um taxi para levá-lo ao aeroporto e de subir no avião? Se os índios do Brasil migram na terra andando – contanto que não os obriguemos a se levantar para ir trabalhar ou passar no banco retirar seu dinheirinho magro – e se os europeus migram em Caravelas, náuticas e aéreas, seguindo invariavelmente o mesmo trajeto que, partindo de Lisboa, as faz costear a África antes de se lançarem para o Recife, não é, para dizer na língua dos filósofos, por uma diferença de “categoria transcendental”. Porque, se queremos ser exatos, não há outra condição “transcendental“ senão a caminhada que faz firmar-de-pé. Os mestres alemães do “transcendental” lhe dirão: a tarefa deles é descobrir sob quais condições um homem pode ser Selbstständig e Unabhängig – firmando-se-sozinho-de-pé e não-suspenso-no-ar. Andar, cantar e matar formam um só e mesmo movimento. Exclusivamente antropófago. Uma única e mesma caminhada homicida e profética rumo ao inimigo nutridor, que os povos insurgidos cumprem às vezes miraculosamente, de que certos hinos nacionais europeus trazem ainda, mas vergonhosamente, o rastro: “Que um sangue impuro sacie nossos campos!”. Que Rosalie, a “tão formosa” baioneta que “pica, e fura e talha”, que ”fura na cabeça e crava a fundo”, que a “dançarina de polca”, “tão vermelha e rosada”, nos “dê de beber o sangue impuro dos Boches!”, cantam ainda os Peludos da Grande Guerra, para erguer os ânimos debaixo do fogo dos obuses alemães. Mas, Jean-Baptiste-Théodore-Marie Botrel, o letrista de “Rosalie”, o Karai das trincheiras, não aguenta mais. A posição está perdida de uma vez por todas. Chovem obuses, e gerações de sobreviventes desfilarão abásicas em horas regulares para o psiquiatra, que os desencantará descobrindo seus inimigos simbólicos, e lhes restituirá algo como uma caminhada – deixando-lhes todavia nas mãos um leve mas incessante tremor que os deixará pra sempre em pane, os impedirá pra sempre de acertar o olho dum pássaro em voo. A menos que escapem do Édipo, como Anani, o Empédocles languedociano de Jean Camp: lançando-se de cabeça no mosto morno e avermelhado da tina de vinificação, na carne úmida e viscosa da fossa movente em que as uvas dançam uma ronda infernal e fervilham milhões de vermes. Mas, raramente chegam lá. Na falta de Karai, na falta de verdadeiros cantores capazes de enredá-los pela força dos ñe’ë porã, das belas palavras indígenas, em longas migrações homicidas, recorrem no melhor dos casos a belos palavrorios, a professores-terapeutas, os Wissenschaftslehrer, professores do saber- fazer-o-saber que lhes ensinam os rudimentos práticos da Bestimmung des Menschen, da vocalização do homem, e arrotando sabedoria tentam dar-lhes ânimo para que se lancem pelos caminhos. Alguns desses belos-palavrorios chegam a
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atingir, como o saxão J.-G. Fichte, um certo grau de perfeição. Não no sentido em que Helena entende o aguyjé guarani – “a perfeição que, mediante uma ascese (sic) faz existir o homem como logos (sic) fazendo-o acessar um saber (sic) cuja simples força (sic) basta desde então para animá-lo (sic)”. Não no sentido greco-latino, portanto. Mas sim índio. Proferindo, apenas para seus aprendizes, na intimidade do seminário, uma palavra iniciática não escrita e ilegível, exclusivamente oral e quase ininteligível, fazendo nascer neles visões fantásticas e sonoras, feitas de preposições-palavras e de verbos-ações que improvisam no elemento exangue, débil, do saber filosófico branco um drama violento, que não deixa a menor chance ao Begriff, à mão sem garras de Chachubutawachi que pretende ainda matar sem furar e não sabe fazer nada além de apanhar na terra, como única presa, um animal morto – Sein, Träger aller Realität, Grund, etc. Pois os juruas conhecem o pirlimpimpim. Depois de assegurar-se de que alguém se dispõe a fechar a porta e também as janelas, seus terapeutas em saber-fazer-o-saber, uma vez bem fechados, lhes entregam o abracadabra, com muita exatidão. O migué da IMPOSSIBILIDADE. Entrar e sair, ao mesmo tempo. Distanciar-se, ao máximo, e voltar ao mais perto, bem acochadinho. Separar-se de tudo, isolado no centro, e eclipsar-se por toda parte, riscar-se, escafeder-se no cosmos. Pegar o beco, reto toda vida, e concentrar-se num ponto finito. Mas os dois AO MESMO TEMPO. Um pelo outro. A fórmula da caminhada antropófaga, entropífaga, da baderna que nutre. A fórmula da produção do tempo, do impossível-já, morto e ressuscitado, do separeunir instantâneo onde se originam o passado e o porvir, resumindo: a fórmula da continuação do mundo. E porra nenhuma a ver com o socius… organizá-lo ou desorganizá-lo… a fórmula da CONTINUAÇÃO DO MUNDO, da CONTINUAÇÃO DE PINDORAMA, de todo o mundo que eles são, o mundo que são. Mas, por mais que manjem a fórmula, não sabem o que fazer dela. Por mais que se tranquem pra falá-la, só pra falá-la, e por vezes até, em salas maiores, esgoelá-la diante de um grande publico, não resistem à tentação de escrevê-la, e de lê-la, e escrever de novo aquilo que leram. E escrevem e leem babaquices. Inverossímeis babaquices. Cheguei mesmo a conhecer uma de suas alunas, uma tantã que queria me chamar de mamãe e que entendia a mata atlântica como uma imensa prova de amor! Os amigos nantinos e bordeleses, certamente por uma forma de batavismo, tinham se embeiçado pela minha apaixonada crônica, sempre pronta a adotar o menor detrito, a recolher e a acarinhar nas prateleiras de seu orfanato de Montmartre, a dois passos de Abbesses, centenas de frascos vazios, brinquedos abandonados, cacarecos de ferro velho, objetos perdidos. Decerto, reconheciam nela aquele Chachubutawachi que tinham encontrado no miolo da floresta tropical e que os tinha tranquilizado tanto sobre eles mesmos… e de que eles tinham gostado tanto. Pas… pas… papai… paixonadamente …
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DAVI KOPENAWA
Davi Kopenawa viu numa miração o Deus juruá. Teosi. Aquele cujas palavras enviesadas só conhecem a ameaça e o medo, e manjam nécas de pitibiriba da Floresta. Mas é de rocha que viu ou ta de pupunha. Com cerveja. Porque, na real, mesmo com a yakuana, ninguém conseguiu ainda fazer baixar sua imagem, vê- la dançar. Mas mesmo assim, o que Davi viu naquele dia, no dia em que tinha morrido por conta das epidemias juruá, da caganeira juruá, daquela merda de caganeira juruá que devora o ventre e rói os ossos, é parecido com aquilo que os espíritos chamam Wãiwãiri, um ser de pele flácida e luminosa que dança sem sair do lugar, sacolejado por tremeliques moles e medonhos. Nem que a vaca tussa que com o rapé a gente vê isso! Nem mesmo com o velho pó, o pó mole! Pra vê-lo carece não morrer do rapé, mas de xawara, da doença juruá. Sem a rubéola, a gripe, a malária, a tuberculose, e a pior de todas as fumaças de epidemia xawara fissuradas por carne humana que os juruá alastram na floresta, a fumaça dos minerais que eles extraem da terra, nunca se viu um troço tão medonho quanto uma tal Verklärung… e esse sacana do Sesussi, que tenta te tranquilizar depois de ter te deixado com o cu que não passava uma agulha. Vejam como o pó mole e o frouxo de porra morta deixam o Momo fulo da vida. E como a porra quente e o pó de fogo aporrinham um jurua, mesmo ele sendo do norte da África. Tão instável que ele dosa tudo a dedo pra não explodir na cara duma lapada, agora, já, mas sempre pós-lapada, pra detonar bem alí, em pelezinhas de papel, penduradas nas paredes dum Museu de Arte Moderna numa colônia batava do Novo Mundo – melhor ainda: justo nas páginas do Catálogo da exposição, pra ler em casa, numa tiragem limitada, rodeado de Objetos que a gente pode mimar e botar fora à vontade, todos feitos de matéria arrancada da Terra e da Floresta. Grande Arte! A zica dos brancos, é que eles se agarram com unhas e dentes à sua debilidade abásica, sua astenia visual, tanto quanto o índio se firma à sua marcha, mas de outro jeito: sem se firmar. Sempre suspensos no ar. É por isso que o tal migué da impossibilidade é deglutido de praxe como ficar de bubuia, e o mundo, o mundo deles, é imaginado e criado de bubuia, pela suspensão de uma hesitação contínua entre a forma e o informe, o contorno e a linha infinita – eles arrotam também: “ de.tɛʁ.mi.ne” e “libʁ” – e a única coisa que veem são seres transfigurados, Wãiwãiri de pele mole, os schwebende Erscheinungen, faces de trapos luminosos, como Giotto: um Cristo avião papagaio, mas nunca um Brazuca Negão e Sebento. Por panemice, porque eles só enxergam as coisas de bubuia, uma eterna bubuia, migram sem parar, no mar e nos ares. É por isso que Pedro, Tiago e João, os discípulos aterrorizados da religião do mon’
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Tabor, montam a bordo de caravelas transatlânticas correndo risco de vida. E caem verticalmante. Pulverizados. Transformam-se em noticias. Costuram ou colam peles voadoras umas nas outras, cobertas com desenhos de belas palavras, para fazer livros em que as retêm cativas e as torturam. Quando não sabem ou não querem, como Clarice, improvisá-las direto na escrita – o que é difícil pra chuchu, e que os filósofos ordinariamente enfumaçados têm de ordinário a alegria de achar fumarento. Li demais um desses livros, a ponto de gastar e romper os nós que mantinham juntas as peles, de fazer voar de novo suas folhas. Tinha sido escrito por um russo branco, um ex-campeão de natação grafômano que tretava amistosos com um fino jesuíta de olhar claro sobre o que ele precisava sacar das belas palavras de um tal João-Amadeu Pinheirinho – célebre filosofo francês de língua alemã, de que se ouvia falar na época em qualquer barraca do Quartier Latin. Maquinalmente, porque parece leseira não fazer isso, eu mesmo cobri de desenhos de palavras a pagina “ 100 ” de meu livro em francês traduzido mais do alemão que do russo. Esse Articzewsko parigoto explicava aí numa língua mais enrolada que tripa de bodó, burilada com palavras alemãs incoerentes, osso duro de roer, porque a etnografia é uma ciência mais dura que carne de pescoço, e sobretudo a etnografia sobre os brancos, como, então, para um branco da Europa, encontrar-se-junto (tsu’zamen’trefen) e pegar-pela-mão (auffasen) dá no mesmo. Que toda sua força (kraft) reside nesse aperto de mão, e que, pela magia desse aperto, essa força é infinita, que é sua força de aculturação (ain’bilduns’kraft) infinita, deles mesmos e dos outros povos. E, sobretudo, que o produto (pro’dukt) dessa força consiste precisamente nesse famoso ‘sve:ben, entre nadar (‘svimen) e tecer (‘ve:bem): progredir num elemento fluido, nunca na terra, passar uma malhadeira na multidão sem ter antes esticado a corda entre duas varas fincadas no chão; duma maneira geral: sem nunca nada esticar, espiralar ou trançar – nem arco nem paneiro, tão estranho a um e outro quanto Chachubutawachugi. Mais duro que carne de téteu! Meu Philonenczewsko expiricava ainda como graças a esse Schwabutaschweben, essa fumaça migrante que os brancos produzem usando de sua força de aculturação, existe pra eles um tempo, um tempo em que podem também se divertir suspendendo por um tempo, suspendendo por um tempo o uso de sua força, mas não por tempo demais, um suspense de sua suspensão no ar, aquilo a que chamam er’há:benen, sua maneira de ficar de pé, erguidos em suspenso acima da terra, num tipo de ereção sublime, celeste e solene, o que os espanta muito e os arrepia até os pentelhos do cu, ficam molhadinhos. Mas a maior parte do tempo, pra urucubaca geral, de suspense em suspense, eles atravessam os oceanos. E suas fumaças migrantes, epidêmicas, recobrem a Floresta. O dorso do primeiro céu, outrora tombado, que eles furam e chacoalham detonando explosivos, pra extrair dele o óleo mineral. E, em contrapartida, abalam também o novo céu, aquele que estronda acima de nossas cabeças, precipitam sua queda, porque afinal de contas a única coisa que sabem fazer é despencar e fazer cair verticalmente, aos pedaços, e a única continuação do mundo que têm é transformar-se em noticia. Tudo aquilo que se difunde assim por fumaças epidêmicas tem força de aculturação: bolas de futebol, gripe, latinhas e frascos, rubéola, cartões de crédito, sapatos e calças, malária, livros
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de filosofias e breviários, tudo o que prolifera em matéria de ideias, realismos, idealismos, materialismos, gallimatismos. Objetos, doenças e ideias: as mesmas fumaças letais. E também tudo aquilo que passa, na miúda, por debaixo dos panos, na trairagem, nas passagens pra salmão que constroem depois de terem defumado o país: longanimidade, prestatividade, solicitude, bondade, fidelidade, A.I.M.E.project. Porque não amam a si mesmos, não amam os seus, mas querem o bem só dos outros e só sob a condição de tê-los antes aniquilado, às centenas de milhões – duzentos e quinze milhões, pra ser exato, a contar do 11 de outubro de 1492. Por falta de inimigos. E quantos africanos negões e sebentos? Aos próprios amigos eles não amam. Fogem deles como o diabo da cruz. Deixam-nos plantados ali como Dona Berenge, a zeladora de Morte a crédito, a velha bisbilhoteira. Como a moça tansa e baranga da rua Acre. E também a avó de Louis-Ferdinand, com sangue nos olhos. Vão todos muito longe, muito longe no esquecimento, mudar de alma, pra melhor trair. Mas, tô cagando e andando se me escutam ou deixam de escutar. Contanto que esteja aí, meu Bento. E pra quem escreveria senão a você? E como escreveria numa tal baderna tudo que me dá na veneta? Como eu pegaria no ar aquilo que chega assim de trás do pensamento sem pensar nisso? Como, velha coroca, estaria eu cheia de milhares de passarinhos barulhando? Se não te escrevesse minhas anotações de instantes? Veja então como o estrangier, o gringo, o garimpeiro epidêmico aqui como por tudo quanto é canto leva seus pés nos caminhos sagrados pelos passos dos antigos, ceifa a árvore madura, arranca suas raízes, e, pra arrematar, corta a floresta de fora a fora como se fosse uma só árvore! Escuta-o gritar sua glória nas grotas, em palauras que ninguém conhece! E muitos querem virar brancos, lambem o cuou dos estrangieiros! Servem-lhe de capacho, servon de putas. Mesmo Gill-Platôs, meu Bento, o filósofo francês de Millevaches, não fala mais a língua de Marcela Delpastre, confunde uma árvore com um livro, não ama a Árvore e a Raiz, prefere os rizomas invasivos. Quando a boca dentada de granitos de Marcela, mil veias abertas, sangra na terra e no mar. Sangra e semeia nas terras que estão no longe além mar. Planta seus grãos e enraíza de coração pra lá do Oceano uma yvyra-palavra, aubras-palavras, que floresce como floresce no Novo Mundo uma árvore com cantos yanomamis: em mil bocas entoando sem trégua, sem nunca se repetir, em todas as línguas que se possam inventar, magníficas melodias, tão inumeráveis quanto os astros no seio celeste. E mil árvores de nhee-porã cobertas de mil lábios canoros. As mil árvores de cantos em que toda música é apanhada. Sem o quê o mundo seria sem música. De um lado a outro do Oceano. Por terem furunfado demais, vieram no balde, na marra, de terras d’além pra terras matar. Mas por mais encarniçados que sejam a terra nunca morre! Pra sempre, a seiva viva volta a subir, duma borda a outra. Nunca tinha dado tantas folhas nem flores tão perfumadas. Por ter furunfado demais, por ter socado demais a estrovenga na xoxota das mulheres, bem que tiveram, os coitados, lá como aqui, que se amuralhar e amuralhar seus filhos, alimentá-los com a carne cozida de nossos próprios filhos, de nossas mulheres e de nossos anciãos, encerrada em potes de ferro ou plástico, que eles preparam a granel e conservam pra comer mais tarde. E isso pra poderem depois encaixotar tambem seus próprios
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mortos, cuja carne, assim alimentada de matéria inoxidável, não se decompõe mais, mas que ninguém come. Estranhos antropófagos. Os pés também, eles colocam em potes de peles e de tecidos. É uma nóia. Também os peitos das mulheres, em dois potes mais ou menos opacos, presos entre si, chapeados no peito, fechados atrás por meio de um pequeno ferrolho. À pele, às próprias peles, eles não recobrem de desenhos, uma vez as partes moles bem presas, eles curiosamente as cobrem de cima a baixo de trapos de pele flácida, tecidos de matérias transformadas, vegetais, animais ou minerais. Chega a ser um negócio da China a fabricação desses trapos moles, que mobiliza exércitos de escravos em suas colônias. Fora as caras, expostas ao veneno de suas fumaças de indústria, que amolecem, degringolam naturalmente sob seus olhos fundos a custo de agitação: prospecção, extração, transporte por ar e por mar, transformação, transporte por ar e por mar, estocagem, transporte por ar e por mar, comércio, perere pão doce, peixe frito, caixa de fosforo, moirão de cerca – o que é brochante. Pois que não vão parar até que tenham brochado o mundo. Quando estão de saco cheio de nos caçar pra devorar-nos o coração, constroem no meio do nada na terra do país morto casas em massa de pedra, que nos oferecem com pomposo cerimonial. Mas eles penam. Acontece que os índios vindos do Egito com Sara a Negra arrancam o chão de suas casas, arregaçam o cimento, põem a nu a terra viva, despirocam a bicheira, sentam um terreiro bem no meio da sala de refeições, aí cavam um buraco pra acender um fogo, e esticam entre dois dedos a corda de um violino pra ensinar as crianças a cantar as belas palavras e as moças a dançar. Pra aguentar a pisada, o melhor mesmo é ficar no trecho, não largar o rumo certo, agradecer os gadjé, mas mandar que enfiem no toba tudo que nos oferecerem. E eles que morram pra lá com suas casas, latinhas, bolas, livros, ideias, realismo, idealismo, empirismo, materialismo, especulativo ou histórico, transcendental ou não… fôda-se.
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GLAUBER DAS MORTES
Tenho medo. Os gadjos normalmente ignoram o medo. Só cortam um diante da morte. Para o resto, são colhudos. Sempre uns mais fortes que os outros. Nos edifícios em que estocam seus mais preciosos Objetos-e-Ideias, organizam justas entre eles mesmos e eles mesmos, inventam combates singulares entre inimigos que nunca tinham se encontrado, nunca se tocado, combates onde nunca se derrama sangue, mas onde se espreme uma multidão de rapazes e garotas bizarramente animados por nenhuma sede de vingança. Tudo em volta, ruas adentro até o cais… mais longe ainda, se atarefa sob seus olhos cegos um povo negro, grassboys, hygienboys, bottelboys, gutterboys de Abidjan, estivadores, entregadores, manobristas, contrabandistas de Accra nos confins da Costa dos Escravos. Quando veem enfim o que esse povo faz, só aí então é que se cagam como tenho medo agora. Como uma criança prostrada por ter matado uma outra criança… por besteira. Tristes gadjos. Jean Rouch, documentarista-expiatório do Itamarati francês em país negro, depõe a câmara num pé de vento quando a pantomima glossolálica azeda, zarpa a se mocozar quando os negros em transe atacam o cachorro, se lançam babando sobre a pobre besta pra esganá-la e beber seu sangue cru. Os brancos palavreiam muito a respeito dos negros. Mas, pouco se cuidam do que eles fazem domingo à noite nos subúrbios da Cidade colonial, do que fazem Mountyeba e Moukayal quando o trabalho termina. Poupam-se assim de saber com precisão o que eles fazem aos negros. A seita dos Haouka! Pensa so, meu Bento? É como se eu dissesse: “a seita dos Xawarari”! Os Mestres Loucos das Fumaças Epidêmicas e dos Objetos! Mountyeba Grande Sacerdote da Ordem de Chachubutawachi… taí como a gente tem que ver isso. Um verdadeiro galimatias. Em vez de fazer baixar as imagens dos xapiri ou dos orixás, chamam sobre si as divindades dos brancos, os deuses da Cidade e da Técnica, o espírito do maquinista de locomotiva, o espírito do governador, o espírito da mulher do capitão… o espírito do Colono. Não, ta ligado meu nêgo? Me acham anfigúrico! Suspeito! Acochambrado. E cuida esse bazar: uma religião negra dos deuses da colonização! Não admira que voltem mansos ao batente segunda de manhã, Mountyeba e Moukayala. Jean vê aí até mesmo um modelo de profilaxia mental para proletários brancos. De rocha? Depois de ter deliberado, porque os deuses da civilização deliberam o tempo todo, se pegam até não poder mais sobre o que se vai ou não fazer, decidem cozinhar o cachorro pra comer mais tarde com os parceiros que ficaram na cidade. Gilles escuta Fanny. Mas não apenas ela. Escuta todo mundo e não importa quem seja. Sem pensar demais. Não sabe que Glauber em Vento do
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Leste, faz um pouco a puta de passagem, sem ser, ainda assim, palhaço que chega pra se deixar levar na barca do folclore dos gigolôs do inesquecível Maio francês… apenas por afeição a um cineasta quadragenário, magro, careca e triste, fatigado de poesia, totalmente inofensivo. Ah, a amizade de Glauber, meu Bento! O anarquismo burguês, moralista e sério, de Jean-Luc e Dany, Gilles o toma por dinheiro vivo, e quando Glauber banca a baliza do cinema político para uma moça russa branca pregnante – “pra lá o rumo do cinema desconhecido, da aventura estética e da especulação filosófica!.. pra cá a direção do cinema do Terceiro Mundo, um cinema perigoso, divino, maravilhoso!” -, Gilles leva isso a sério e o cinema do Terceiro Mundo vira o cinema político moderno, aquele de Glauber e também de Rouch e de Perrault. Uma nozaiada só. Tudo isso por causa do cachorro, do orignal e do marsuíno, o animal anômalo, a besta luminosa, o animal “maravilhoso”, como diz Stéphane-Albert. Mas o que é que tem de maravilhoso em preparar conservas de carne de cachorro, em engaiolar um cetáceo branco para encaminhá-lo até um aquário nova-iorquino? Será que Gilles sabe o que Glauber viu vendo Vento do Leste, a Boa Nova que ele espalha voltando ao Brasil? Ele viu de perto o cadáver de Godard, o suicida: a imagem morta da colonização! A MORTE DA COLONIZAÇÃO. E você, meu Bento, viu a morte da colonização? Um filósofo francês aristocrato-anarquista, enclausurado em seu apê, levando ao pé da letra o que um cineasta suíço anarco-direitista depressivo faz um truta brazuca banguelo dizer sobre o cinema do terceiro mundo, brazuca este que está cagando e andando pra destruição do Ocidente, de sua religião, de sua moral, de sua filosofia e de seu cinema, mas quer apenas CONSTRUIR, continuar a fazer cinema para construir sua Terra de Brasa em sons e em imagens. Como Celine, Glauber não gosta dos destruidores. É um construtor. De rocha? Mas rapaz! É isso também a morte da colonização. Essa maneira que Michelângelo tem de escrever e de ler tudo quanto é coisa sobre a Acreção da Terra, a Outra Metafísica, a Inexistência do Mundo, a Foraclusão do Nome-do-Pai, a Luta das Classes, a Constituição dos Modernos, a Falta de Povo, de uma ponta à outra do planeta, na tv, na internet, na imprensa, em São Francisco num skate, na Grande Muralha da China coroada de uma chapka, num Centro Comercial do Rio – Gávea? –, a uma velocidade quase infinita… ao invés de ir pintar a Capela Sistina. Ou de inventar a zona infernal do tropicalismo. Nem Godard, nem Rouch, nem Perrault, filmam o sangue, nunca tocam o terror. Não cheiram nem fedem. Não fodem nem saem de cima. Quando muito um fio no dorso branco do porco do mar prisioneiro na maré baixa da armadilha armada pelos brancos de Ilha dos Coldres. Um fio de sangue que passa batido. Enquanto Glauber-das-Mortes fere DE ROCHA de morte um cangaceiro do Carnaval, enquanto ele faz DE ROCHA renascer num dia de Desfile a violência faminta do São Jorge do sertão, de Oxóssi-Fuça-Suja, Lampião, o veio nego, o Santo-Guerreiro-Negão-e-Sebento, e impõe as imagens e os sons daquela violência DE ROCHA nas salas obscuras dos meios temperados onde Gilles fica enfurnado dias inteiros, o velho chapéu enfiado na cabeça, Grand-Louis e Stéphane-Albert, os atores-ficcionando de Pierre, bisneto de degoladores de porcos bretões, esperam ainda o Achab, o Gênio, o Achabutawachi que será capaz, sem enfiar tudo, de lhes
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capturar um marsuíno, de trazer pra terra um dorso de Lua, de fazer baixar a imagem do absoluto, de fazer ver Teosi tremendo sobre suas cabeças, sua sombra luminosa flutuando sobre a face das águas – com um leve fio de sangue… no flanco direito… longe do coração. Isso maravilha Gilles, a pesca ao marsuíno dos Tremblay e consortes, adeptos do Grande-Malouin, o ilustre inventor das Terras Noffvas, o Precursor da França-Antártica. Isso maravilha Gilles, em sua sala escura, no cinema Champo, o velho chapéu enfiado na cabeça, enquanto Franny fica na casa mater com seu documentário sobre os lobos… um lobo, lobos… Só vendo! Carne desossada. Lisa e branca. Luminosa. Totalmente descerebrada. Xongas de cérebro. E isso fica de pé apesar de tudo! Sozinho. Magia, Magia! É isso que Gilles ama em Cézanne: a ereção da carne, a posição em riste das partes moles, a estância do fluido, a turgescência do útero. Enquanto Frannytoris sonha na borda das matilhas. É o jeitinho de Gilles, sua maneira de colunizar. Traz isso das filhas priápicas de Charcot. Basta que um médico-homem-muito-homem instale-as, abásicas-astásicas, no foco mesminho do daguerreótipo, para que infalivelmente façam ali mesmo todo um número de contorcionista, de contrações e oscilações, um belo arco-sem-orgãos, um arco-corpo, uma verga-corpo, sem jato, cheia e lisa como um ovo, um corpo-ovo… um arco inofensivo, intensivo, inotensivo, sem mais nada a ver com furar-matar… um arco para Chachubutawachis… feito sob medida. Talvez seja isso, meu Bento, que os brancos chamam fal.lys: esse útero peniano, essa estação histérica do pênis, que eles opõem ao penitóris, demasiado orgânico, das mulheres, ao olho que elas têm no baixo ventre, e que temem tanto, por medo de perder a única coisa em que se firmam: essa divina flutuação entre turgescência e deturgescência.
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SÃO-BENTO
Quando as kunhãtais das águas buscam atrair por magia amorosa seus jovens moços pra conduzi-los na floresta sobre a superfície de um lago obscuro junto de seu pai, Tëpërësiki, para que ele lhes ensine os cantos que permitem, nomeando-os, regurgitar os seres maléficos, os brancos apertam com força o curumim em seus braços e aceleram o curso fatal de sua cavalgadura através da noite e do vento. Quando um jovem é visitado durante o sono pelos xapiri, de braços enfeitados com penas da cauda da arara vermelha e de uma profusão de buquês de plumas brilhantes e coloridas, untadas de urucum, e se levanta aos gritos, terrificado pela belezura desse convite a partilhar o segredo dos espíritos, empanturram-no de bolinhos de laranja e, pra que não fique pinel, não mais do que já está, conduzem- no uma a duas vezes por semana a Meudon, na casa de Colette, uma amiguinha de Philonenczewsko, uma filósofa cujo ofício é desencantar a molecada do sexo masculino ensinando-as a se interessar mais pela periquita que por aquilo que veem de noite. É por isso que os brancos não conhecem nunca palavras que salvam. Estão sem defesa diante de suas próprias fumaças epidêmicas, ferindo-se mortalmente a cada gesto que fazem pra se liberar. São incapazes de fazer baixar os espíritos que sabem reparar o céu e correm pra catástrofe. Me acuda, São-Bento, me ajuda, Preto-Velho, a regurgitar minhas fumaças! Carece coragem e experiência pra ficar de pé, mesmo torto. Num adianta nada sair do Liceu das línguas mortas, engordado por mandarinadas e examininas, vestir o bicórnio de plumas infantil dos cais do Sena. Não precisa ser tão mocinha. Bem o sei, eu que nasci por acidente no berço dum outro – num paneiro trançado pra acolher alguém tão não eu. Eu, que era tão, DE ROCHA, nervoso, duma nervosidade de tal forma serena, sem dor e feliz, que foi preciso, pra me manter asteniado no berço fofo, me transmitir uma doença nervosa. Simetrizar e se firmar de pé são agora uma mesma e única coisa. Como Galli Mathias não faz a menor ideia disso. Digo, “agora” porque isso só se faz agora, sob a condição de segurar firmemente na mão, religiosamente na mão, o instante presente, aquele mesmo em que morremos juntos, agora, tu e eu, meu Bento. Eu só me firmaria de pé, agora, sob a condição de juntar no instante nossas duas assimetrias, minha diferonça absoluta contigo e tua diferonça absoluta comigo, mantê-las juntas cada uma fielmente pintada, como só Clarice sabe fazer, nos dois batentes de um mesmo portal, mas, cuida, estritamente idênticos um ao outro – de manter e ver juntas pintadas idênticas em cada um dos batentes do portal nossas duas diferonças absolutas, diferentemente diferentes, porque também difere de mim como eu nunca saberia diferir de você. Com o único desígnio de que
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nossas assimetrias enfim se encontrem. Que tua imagem me apareça e, já que somos ambos pintados idênticos em cada uma das duas portas, que também minha imagem te apareça como a imagem de um Brazuca Negão e Sê-Bento dançando ao amanhecer na cabeceira de um filosofo luso-polonês, como a imagem de um galo- bem-te-vi cantando na aurora sanguinolenta sobre os cais de uma baía banguela, de uma Mulher Fantástica encantando serpentes no mais profundo de uma Floresta- Mundo, de uma Bruxa nordestina montando à noite, recoberta de unguento de carne, o cavalo do rei do sabath, de Fatumbi-Descartes vestido de mulher num terreiro de Salvador… de tudo aquilo que negam aqueles que têm a audácia e a pretenção de alcançar o real sem magia… só mexendo a boca. Taí meu Bento, a prece matinal que cocorocamente te escrevo.
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Davi Kopenawa
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Brésilien noir et crasseux
Bento de Espinoza 5 Franny Deleuze 9 Dina Lévi-Strauss 13 Héliogabale 23 Cartesio 27 Chaya Ohloclitorispector 33 Galli Mathias 39 Jean-Baptiste-Théodore-Marie-Rosalie Botrel 45 Davi Kopenawa 49 Glauber Das Mortes 53 Saint-Bento 57
Brazuca negão e sebento
Bento de Espinoza 59 Franny Deleuze 63 Dina Lévi-Strauss 67 Heliogábalo 77 Cartesio 83 Chaya Ohloclitorispector 87 Galli Mathias 93 Jean-Baptiste-Théodore-Marie-Rosalie Botrel 99
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Glauber Das Mortes São-Bento
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