Sem cabeça, ego se retira e o vazio. Michel Serres

Em Legenda Aurea, Jacques de Voragine conta um milagre que: ocorreu em Lutécia, no século das peregrinações decretadas pelo imperador Domiciano. O exército romano prendeu Denis, bispo eleito pelos primeiros cristãos de Paris. Encarcerado e depois toturado na Ile de la Cité, foi condenado à decapitação em seguida no alto da colina que depois veio a se chamar Montmartre. Por preguiça, os soldados não quiseram ir alté o alto da colina e executaram a vítima no meio do caminho. A cabeça do bispo rolou pelo chão. Horror! Sem cabeça, Denis pegou-a no chão e, com ela nas mãos continuou a subir a ladeira. Milagre! Aterrorizada a legião fugiu. Acrescenta o autor que Denis deu uma parada e continuou seu caminho até a atual Saint-Denis. Foi canonizado. A Polegarzinha abre seu computador. mesmo sem se lembrar da lenda, ela considera ter a própria cabeça nas mãos e à sua frente, bem cheia, haja vista a quantidade enorme de informações disponíveis, mas também bem- constiuída, já que os motores de busca trazem, à vontade, textos e imagens. Acrescente-se que dez programas podem tratar inúmeros dados, muito mais rapidamente do que ela seria capaz. A Polegarzinha[1] tem, externamente, sua cognição, antigamente interna, como São Denis, que tinha a cabeça fora do pescoço. Pode-se imaginar a Polegarzinha decapitada? Seria um milagre? Como ela, ultimamente todos nos tornamos São Denis. Nossa inteligência saiu da cabeça ossuda e neuronal. Entre nossas mãos, a caixa-computador contém e põe de fato em funcionamento o que antigamente chamavamos nossas “faculdades”: uma memória mil vezes mais poderosa do que a nossa; uma imaginação equipada com milhões de ícones; um raciocínio, também, já que programas podem resolver cem problemas que não resolveríamos sozinhos. Nossa cabeça foi lançada à nossa frente, nessa caixa cognitiva objetivada. Passada a decapitição, o que resta acima dos nossos ombros? A intuição inovadora e vivaz. De dentro da caixa, o aprendizado nos permite a alegria incandescente de inventar. Combustão: estamos condenados à inteligência? Quando surgiu a imprensa, Montaigne, como eu disse, preferiu uma cabeça bem constituída a um saber acumulado, pois a acumulação objetivada, se encontrava nos livros, nas prateleiras de sua biblioteca Antes de Gutemberg, quem se dedicasse à História precisava saber de cor Tucídides e Tácito; quem sé interessasse por Física, Aristóteles e os mecanicistas gregos; Demóstenes e Quintiliano, quem almejasse se sobressair na arte oratória… ou seja, tinham de ter a cabeça cheia. Economia: lembrar-se do lugar do volume na estante da biblioteca custa menos, em termos de memória, do que guardar todo o seu conteúdo. Nova economia, radical: ninguém precisa mais se lembrar do lugar, um buscador on-line cumpre essa tarefa. Agora, a cabeça decapitada da Polegarzinha se diferencia das antigas, mais bem-constituídas do que cheias. Não tendo mais que se esforçar tanto para armazenar o saber, pois ele se encontra estendido diante dela, objetivo, coletado, coletivo, conectado, totalmente acessível, dez vezes revisto e controlado; ela pode voltar sua atenção para a ausência que se mamtem acima do pescoço cortado. Cirula por ali o ar, o vento ou, melhor ainda aquela luzinha pintada por Bonnat, o pintor pompier, ao desenhar o milagre de São Denis nas paredes do Panthéon de Paris. É onde reside a nova genialidade, a inteligência inventiva, subjetividade cognitiva coletiva. A singularidade de nossa jovem se refugia nesse vazio translúcido, sob a agradável brisa. Conhecimento de custo quase zero e, no entanto, difícil de agarrar. A Polegarzinha comemora o fim da era do saber? (…) O que resta, então, acima dos pescoços cortados de São Denis de Paris e das crianças de hoje? (…) memória, imaginação, razão dedutiva, sutileza e geometria… externados, por sinapses e neurônios, no computador. Melhor dizendo: penso e invento quando me distancio desse saber e desse conhecimento, quando me afasto. Converto-me nesse vazio nessa brisa, nessa alma, cuja expressão traduz esse vento. Penso de forma ainda mais suave do que esse suave objetivado; invento quando consigo chegar nesse vazio Não me reconheçam mais pela minha cabeça, por este denso recheio ou por seu perfil cognitivo singular, mas sim por sua ausência imaterial, por sua luz transparente que emana da decapitação. Por esse nada.

[1] As ciências cognitivas mostram que o uso da internet, a leitura ou a escrita de mensagens com o polegar, a consulta à Wikipédia ou ao Facebook não ativam os mesmos neurônios nem as mesmas zonas corticais que o uso do livro, do quadro-negro ou caderno. Essas crianças podem manipular várias informações ao mesmo tempo. Não conhecem, não integralizam nem sintetizam da mesma forma que nós, seus antepassados. Não têm mais a mesma cabeça.

 

Masserah

Ordem e progresso, nessa ordem

Masserah é um cidade dura sob todos os aspectos imagináveis. Quando o viandante desconhece a história dela e não repara nos detalhes do cotidiano, a princípio quase imperceptíveis, pode julgá-la apenas como uma urbe qualquer, sem maiores atrativos nem defeitos. Porém, se houver alguma sagacidade no olhar do visitante, logo de cara observará os traços marcantes desta cidade fundada e, sobretudo, habitada por conspícuos torturadores aposentados, antigos tiranetes e quadros exonerados das diferentes forças da segurança pública pela sua periculosidade e insânia. O que alerta o observador sensível é menos o apego à ordem excessiva, que parece mesmo ser cultivado por lá, e mais o tom ameaçante com que as autoridades de Masserah alardeiam por toda a parte. Da mais pueril iconografia municipal até as leis e os decretos locais, tudo em Masserah é feito basicamente a partir de proibições e promessas de punição. Paira sobre a cidade uma sensação opressiva incessante e uma severíssima vigilância sobre seus habitantes ‒ e também sobre os forasteiros. O que diferencia uns dos outros é, no entanto, a fruição obscena e o deleite íntimo que parecem sentir os locais diante de tudo aquilo que envolva um sadismo repressivo.

No cair da tarde, os bulevares ficam lotados de sedãs macabros, que circulam quase que a passo de homem, vigiando tudo e todos. É interessante visitar o Museu Punitivo Municipal, localizado num casarão de percursos tortuosos cujo mote não fica de todo claro. Alguns visitantes afirmam se tratar de um museu que ilustra as crueldades de uma pedagogia abominável com intuito de controle social; outros dizem que expõe o dia a dia de uma cadeia extinta, e há também quem opine ‒ com bastante critério e perspicácia ‒ que Masserah é, na verdade, uma enorme prisão ou um quartel. Ou uma mistura repulsiva das duas coisas.

 

 

 

Álvaro Labarrère, do livro Las ciudades invivibles

Tradução: Damian Kraus

Educações para nada: A educação pela pedra, de João Cabral de Melo Neto

A educação pela pedra

Uma educação pela pedra: por lições;

para aprender da pedra, frequentá-la;

captar sua voz inenfática, impessoal

(pela de dicção ela começa as aulas).

A lição de moral, sua resistência fria

ao que flui e a fluir, a ser maleada;

a de poética, sua carnadura concreta;

a de economia, seu adensar-se compacta:

lições da pedra (de fora para dentro,

cartilha muda), para quem soletrá-la.

*

Outra educação pela pedra: no Sertão

(de dentro para fora, e pré-didática).

No sertão a pedra não sabe lecionar,

e se lecionasse, não ensinaria nada;

lá não se aprende a pedra: lá a pedra,

uma pedra de nascença, entranha a alma.

 

[Deligny rabiscando tartaruga elemental de Lawrence]

Amkel Zu Nord

A química como controle social

Pretensiosa como poucas é a cidade alpina de Amkel Zu Nord. Tudo nela reluz, e tudo está organizado à exasperação. Seus habitantes dispensam ao estrangeiro uma cortesia empolada que, vista com bons olhos, assemelha-se mais ao desdém que à hospitalidade, tendo a capacidade de inibir qualquer aproximação factual possível. Fora isso, os amkelinos são bastante honestos em suas transações comerciais. Em Amkel tudo ocorre em tempo e forma, nada fica fora do tom e nem tampouco há surpresas. No entanto, essa ordem impoluta responde menos à natureza de seus habitantes e mais ao monstruoso sistema de segregação de classes que condiciona todos os aspectos da vida por lá. Pode-se afirmar que em Amkel Zu Nord funciona o mais bem-sucedido sistema de apartheid jamais imaginado.

Tal sistema passa despercebido para a maioria dos visitantes, tamanha a sua eficácia. A primeira coisa que costuma atiçar a curiosidade dos forasteiros mais ou menos sensíveis é que eles nunca ‒ isso apesar de Amkel ser una cidade pequena ‒ poderão, ao passearem pelas suas avenidas principais, achar algum nativo executando funções subalternas. Muito pelo contrário, nesses passeios, será inevitável deparar repetidamente com o gerente do banco local, com quadros do alto escalão da Prefeitura e com prósperos comerciantes. Tais encontros não são casuais, já que, em Amkel, o sistema social encontra-se organizado a partir de grupos que dependem da renda e da atividade que cada um executa. A rígida estrutura amkelina desconhece o conceito de “mobilidade social” e, de quebra, segrega geograficamente às pessoas conforme tais grupos, impedindo de um jeito truculento e ao mesmo tempo original a confraternização entre os vários existentes.

Com base nesse arranjo, aos serventes é concedida a Zona Sul, território sugerido a eles pelas autoridades locais como área de residência e lazer. À proibição tácita de acesso à Zona Norte é acrescido um engenhoso sistema de pedágio bioquímico: as calçadas, as ruas, as construções e as árvores de Amkel Nord estão impregnadas de substâncias hiperalergênicas. Todos os residentes do Norte são medicados desde que nascem, de forma que são absolutamente imunes a tais substâncias. Os amkelinos da classe baixa, pelo contrário, precisam tomar anti-histamínicos providenciados pelos seus patrões para ter acesso à Zona Norte e nela trabalhar. Quando acabam suas tarefas, os amkelinos do Sul se retiram rapidamente, para não ficar expostos às consequências de um choque alérgico severo. Qualquer amkelino do Sul que tente visitar Amkel Nord sem a proteção do remédio adequado sofrerá transtornos respiratórios severos e urticárias furiosas, o que colocará a sua vida em risco e evidenciará a sua condição de invasor indesejável. Em caso de sobreviver, o transgressor será preso pela polícia e expulso da cidade. Os amkelinos do Norte, pelo contrário, não têm restrições e, teoricamente, podem visitar o setor Sul da cidade. Mas só fazem isso muito de vez em quando ‒ e sempre por motivos de caridade.

Álvaro Labarrère,

do livro Las ciudades invivibles

Tradução: Damian Kraus