Narrativas da infâmia. [Algumas notas para uma conversa acerca da pesquisa e produção de narrativas com roubos de Anton Tchekhov]

A fôrma-pesquisa e escavar o que não tem fama.

Tem muitas pontas esse problema das narrativas da infâmia. Uma das pontas é uma inquietação com a fôrma-pesquisa e o problema do que é notório, do que tem fama, é consagrado e óbvio nos gestos de pesquisar. Aquele formato com introdução, a história da coisa, a fundamentação e quando encontra os casos, as experiências, o que foi pesquisado, é muito pouco. É importante não ficar refém da forma-pesquisa em que geralmente já sabemos desde o início a conclusão. Façam esse exercício, pensem num problema, numa pesquisa, e imaginem, se puderem escrevam e verão que a gente já sabe demais onde vai dar.. precisa se relacionar com isso, essa fama, para escavar mais embaixo, raspar os clichês, atravessar um muro do já sabido. Então, precisaria sustentar até o meio ou até o final que não sabemos bem o que estamos pesquisando. Muitos, em nome da busca de uma espécie de fundamentação [medo..] utilizam em primeiro plano os autores que mais gostam. Podem ser os mais libertários mas eles ficam na frente dos casos e interessa colocar os conceitos sob os casos e não sobre os casos, amarrotando-os. Os conceitos não vão legendar as experiências, há desencaixes que interessa expressar, evidenciar, deixar quicando.. Essa noção x ou y pode ajudar a pensar, mas não resolve, não é pra resolver.. Como estratégia no trabalho com narrativas de pesquisa interessa colocar os conceitos  – de historiadores, psicanalistas, filósofos, antropólogos etc – sob, embaixo literalmente das imagens narrativas, usando as notas de rodapé para alocar o plano imediatamente conceitual, claro, de algum modo as próprias imagens narrativas não são neutras e carregam traços de moral, ética, conceitos, mas é menos explícito, e, sempre podemos mexer, raspar a imagem narrativa.. Quando o trabalho é de mestrado, por exemplo, na banca de qualificação, em algumas passagens, fica pesado de notas de rodapé, depois muitas notas sobem, algumas saem, e a costura sutil é importante. Tira, corta, sobe algumas isso em qualquer trabalho, IC, TCC, mestrado… É uma precaução metodológica inicial de colocar no rodapé e não sobrecarregar as imagens narrativas, e, as narrativas são primeiras.

Por que narrativas da infâmia?

A fama é nobre, o infame é vil desprezível, é o resto que não se quer, o infame não é iluminado, está no escuro. Narrativas infames, isto é, quaisquer, que não tem fama. Que não se alimentam das famas, dos lugares estabelecidos, sacralizados, luminosos. A noção da infâmia é muito importante, seria quase uma condição de trabalho, na formação, na pesquisa, se manter nessa região que não tem fama. Na pesquisa, na universidade estamos presos à forma empresa, precisamos produzir produtos, ser vistos. E a produção de narrativas que interessa passa por fazer um trabalho com rigor e desertar esses lugares que são a luz, a fama, que são a repetição do já conhecido.. É um exercício de produção de um espaço de pensamento, sem adição pela exaltação, nem enaltecer, nem ressentir, nem empreender, nem militar, nem sentimentalizar, nem triunfar. Isso parece crescer agora. Hoje, se uma narrativa não enaltecer (não tornar alto, elevado) você está por fora. Claro, politicamente temos que lutar ativamente contra o fascismo, o racismo, o machismo etc, no entanto, ao pesquisar interessa encontrar o que não tem fama garantida, o que não sabíamos ou aceitávamos. Precisamos de curto-circuitos na exaltação intensa. A noção de infâmia pode ser um operador ético-político que põe em xeque a rápida produção de produtos visíveis [produtivismo acadêmico], a exaltação, a meta. A aposta na infâmia pode desarmar o utilitarismo, e, precisa de muita conversa, tempo e trabalho para construir essa infâmia. Ruminar e peneirar. Geralmente nas pesquisas temos a fama genérica, a gravidez na adolescência, a cartografia de mulheres..a depressão entre profissionais x ou y.. Interessam imagens sem fama, imagens da vida pega desprevenida, de chofre. Imagens que podem sustentar o inesperado que é uma condição de trabalho na formação e orientação de pesquisas. Escrever uma narrativa com um problema que pulsa e também à toa, sem um fito pre-determinado. Um certo vazio, extravio, desfuncionamento, não saber totalmente o  que está em jogo nessa imagem narrativa, peneirar mais tarde. Ao invés da causa, uma multiplicidade de perspectivas, não a de quem escreve, um difícil exercício. Pequenas imagens vivas do corriqueiro carregando mundos, jeitos de viver. Uma narrativa em tom baixo, sem grandiloquência, nostalgia ou triunfalismo. Imagens da vida de qualquer um, pedaços, com argúcia e amor. Ao mesmo tempo não é um mero relatório de cenas que podem produzir uma imagem narrativa que interesse. Falaremos acerca disso mais adiante..

Primeiros roubos de Anton Tchekhov e continuam..

Quanto ao trabalho de escrita de Anton Tchekhov, foram roubos de pistas de escrita dos contos e da correspondência do escritor russo – contista dos contos curtos que recolheu nacos de vida sem trama e sem final – para a produção de narrativas de pesquisas. Só para ter uma ideia, em uma  carta em 1888 para seu editor Suvorin (que também escrevia) ele fala da colocação precisa do problema e não a solução de problemas. Diz:  (…) escolhe, adivinha, arranja:  apenas estas operações já pressupõe, em sua origem um problema. (…) tem razão em exigir uma atitude consciente em relação ao seu trabalho, mas confunde dois conceitos: a solução de problemas e a colocação precisa do problema (…) É muito frequente uma imagem narrativa vir com um combo que tem traços de moral da história, defesa de uma causa, contra aquilo ou a favor disso, o que mais ou menos indica a solução de um problema..E nisso a correspondência de Tchekhov é interessante porque dá pistas para criar imagens narrativas que se avizinham do osso das coisas – não se trata de encontrar uma essência final, fixa, mais precisamente de produzir a dramatização das forças, dos virtuais em jogo. São narrativas que tentam raspar –  depois de escritas, depois de conversas, de edições e serem escritas novamente – os excessos da moral, da pessoalidade, da militância, do sentimentalismo. São tentativas de preensões, de produzir atmosferas que deixem o leitor pensar. 

Na produção de imagens narrativas podemos ser arrastados para oposições fáceis. Acerca de um problema que ecoa com isso, Tchekhov em uma carta ao escritor Górki diz: “Nada mais fácil que descrever autoridades antipáticas; cai bem no gosto do leitor, mas só do leitor mais detestável, do mais medíocre.”. Então sua pesquisa pode também ajudar a produzir leitores que pensam desinvestindo os lugares prontos demais.. E precisa bombardear os clichês em si próprio e também no interlocutor.. Se importa uma guerrilha contra si mesmo, contra o que deseja em mim quando desejo, pode haver o pesquisar contra si mesmo. Pesquisar contra si mesmo e encontrar não apenas o que eu não sei, mas encontrar também o que não aceito, o que moralmente não tolero – isso tem uma relação forte com a construção coletiva das condições de percepção. Precisaria falar mais acerca disso.

Então quais narrativas interessam e como fazer?

Imagens narrativas escritas interessam quando emergem de algo que está picando, cutucando e não é qualquer coisa que interessa. Encontramos muita vez meros relatos. Será que tem algo que está pulsando ali, cutucando? Às vezes, precisamos de conversas, tempos, orientações pra isso ser construído, engendrado.. Tem ali algo que joga com o tempo, as conversas e entre lêr (filosofias, psicologias, poesia etc) e vêr (na clínica, na rua, na política etc) e que faz gaguejar, há algo intervalar, fora de órbita, um susto. Esse material interessa para a produção de imagens narrativas. E nisso importam fragmentos curtos, menos é menos. Em um carta Tchekhov, diz: Melhor menos. Melhor dizer a menos do que dizer a mais.. que se conecta com outra carta ao amigo e editor Suvorin quando diz ser mais interessante deixar um desenho incompleto do que borrar. Eles estão conversando acerca da montagem de um personagem de uma peça e diz Tchekhov: “(…) representá-lo de maneira caricatural, ainda que fosse de interesse para o palco,  não seria honesto e além do mais, não levaria a nada. Na verdade, a  caricatura é mais forte e, portanto, mais compreensível, mas é melhor deixar um desenho incompleto do que borrar”.  De todo modo explorar aquelas imagens incompletas e que puxam o tapete – principalmente de nós mesmos. Encontrar/construir essas imagens narrativas é um exercício de sustentação da dramatização, há um método da dramatização[1] – que não é sinônimo de sentimentalismo. Seria preciso eliminar da palavra “drama” todas marcas cristãs, modernas que lhe compromete o sentido –  há um drama das forças sob todo conhecimento, um teatro especial de virtualidades e certas perguntas ajudam: quem? como? quanto? onde e quando? em que caso, essas perguntas podem ser interessantes para dramatizar, para abrir, constituir esses casos. E como dito antes é importante um interlocutor sem pressa que ajude a pensar as partes que interessa abrir, reescrever, cortar, dessentimentalizar, produzir os relevos, pactuar em ato o relevante, uma realidade. A realidade não é dada, é dramatizada. Interessa a emoção, sem ela a narrativa não é um atrator de problemas.

Imagens verossímeis, questionamento de si, sem tabuletas.

Há o inverossímil, o que não parece verdadeiro, crível, e podemos expressar, produzir uma pequena imagem verossímil, que parece verdadeira, não se trata da verdade ou do fato, e, também importa girar a seta para nós, nos colocar em xeque. O pesquisador não fica do lado dos bonzinhos ou exaltando ou contra um grupo. Em outra carta Tchekhov reivindica nenhuma paixão especial por nada e diz:  (…) a estupidez e a arbitrariedade reinam não só nas casas do comerciantes e nas prisões; eu as vejo nas ciências, na literatura e entre os jovens…Por isso não nutro paixão especial nem pelos gerdarmes, nem pelos açougueiros, nem pelos cientistas, nem pelos escritores, nem pelo jovens (…) Tudo é mais complexo, é menos claro ou escuro. Como dito inicialmente, há muitos cacoetes na forma-pesquisa. Há o problema positivista do fato, da verdade e há a noção de verossimilhança (o que parece verdadeiro) e que não é a dita verdade e o chamado fato. Ao mesmo tempo para que imagens narrativas de pesquisa sejam produzidas precisa de muito corpo a corpo e inventar as experiências. Tem que estar muito junto. Tchekhov diz acerca das imagens narrativas: aprenda a língua deles e fale a língua deles. Não tente explicar, dar sermões, mostre as coisas, invente falas. Como dito antes um cacoete da fôrma-pesquisa é explicar tudo na linguagem de certos autores, teorias e apostas políticas. Deixe o leitor chegar pela imagem narrativa. Em uma carta Tchekhov diz: Sem uma tabuleta: “isto não é uma melancia e sim uma ameixa” (…) não usei termos como “excitabilidade”, “cansaço” etc, na esperança de que o leitor e o espectador estejam atentos e de que não seja necessário uma tabuleta: “isto não é uma melancia e sim uma ameixa” (…)

Exaltação intensa,  a meta e vida como ela é.

Tem uma coisa forte nesses contos de Tchekhov que sondou certas temperaturas, certas atmosferas. Ele percebia no final do séc. XIX uma exaltação intensa, cansaço, excitabilidade, a narrativa que ia exaltando ou negando. Tchekhov desconfiava dos que escreviam seduzindo, convidando a se engajar em uma meta, e como a vida deveria ser.. Em uma carta diz acompanhar a vida como ela é e não como deveria ser. Dizia: “Os melhores entre eles [os escritores russos de sua época] são realistas e escrevem sobre a vida como ela é, mas, uma vez que cada linha está impregnada, como se fosse de uma seiva, pela consciência da meta, nós, além da vida como ela é, também pressentimos a vida tal como deveria ser, e isso nos cativa. E nós? Nós! Nós escrevemos a vida tal como ela é e não damos nem mais um pio… Mesmo chicoteados, não avançaremos um passo além daí. Não temos meta”. Nas narrativas de pesquisa a meta [platônico-cristã-moderna] frequentemente se impõe.

Embriaguez existencial e produção de imagens narrativas

Tchekhov viu coisas grandes demais, sondou um mundo na virada do século XIX com complicações, morreu deus, morreu o homem, e muitos estão excitados com a novidade do dia-a-dia, do consumo, surge o jornal diário, vontade de ser visto, percebido, nada de fracassados. Ele encontra/produz uma região da vida se passando. Escreve uma carta para o editor dizendo que o cansaço [do homem moderno] tem picos de exaltação intensa e desce mais baixo ainda, sobe novamente a exaltação, e o cansaço é mais declinante, num patamar mais abaixo, novo amor, a revolução, o novo, a luz. Sem Deus e sem o homem com esses picos de exaltação intensa, ele tenta problematizar e dar pistas para escritos da vida como ela é [em sua correspondência]. Ele detecta uma certa embriaguez existencial dos homens de sua época. Eu ofereço um texto, um escrito sem exaltação, uma limonada convencional e você diz que não tem álcool.. Tchekhov escreve ao seu editor: “É um beberrão inveterado, eu lhe servi uma limonada convencional, e você reclama com justiça que nessa bebida não tem álcool. Nossas obras carecem exatamente de álcool, que inebria e cativa, e isso você dá a entender perfeitamente”. Na produção de imagens narrativas em pesquisas na universidade, há a vida como ela é, e também há metas, certo alcoolismo existencial exaltado – mesmo que não se trate propriamente da ingestão de bebida – que amarrota a vida como ela é. Considerando  esses problemas, o que podemos aprender com a “limonada convencional” de Tchekhov? Com suas histórias curtas, às vezes ditas insípidas, com suas imagens episódicas, na aparência sem importância, que quase chegam à antiliteratura? Esses problemas parecem questionar algo do trabalho de pesquisa com suas réguas, roteiros, famas..

P.S

Dois comentários de Sidnei Casetto.

 “Trata-se de um trabalho para produzir uma investigação que encontre algum caminho que não seja o já trilhado e mostra o quanto é difícil pesquisar, o quanto a gente repete o já conhecido, apenas dizendo o mesmo com outras palavras; a gente fica feliz de reencontrar o que já sabíamos e sossegar com o que já sabemos. Você chama a atenção para um jeito de ultrapassar nossa própria resistência a pesquisar. E mostra como é difícil fazer isso.”

***

“Uma pesquisa dita tradicional descreve objetivos, estabelece um método, grava entrevistas, apresenta dados considerado fidedignos. Depois faz a discussão com a literatura e tudo isso aparece como uma realidade sustentada. Mas, ao mesmo tempo, esses procedimentos ocultam a maior parte da estrutura desta realidade, de suas colunas de sustentação. Ao mesmo tempo que produzem resultados de pesquisa, escondem a engrenagem que os produzem. Ao fazer algo assumidamente “ficcional” você quer mostrar esse processo de produção da realidade. É curioso o paradoxo: ao ser “fidedignos”, ocultamos; seria preciso fazer ficção para mostrar.”

Recolha  a partir de HENZ, A.O. Narrativas da Infâmia entre Tchekhov e Deleuze [pesquisa com o inesperado, obscuro e mudo]. Material extraído do relatório de pesquisa entregue para conclusão de pós-doutorado junto ao Programa de Pós-graduação em Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Supervisor: Prof. Dr. Luiz Benedicto Lacerda Orlandi. Campinas, 2020.


[1] Para a produção de narrativas pode interessar o método de dramatização que envolve processos de diferenciação. Diferenças internas, relativas a blocos de espaço-tempo que criam condições para os conceitos. [Um campo intensivo e diferencial de forças faz emergir um teatro especial de virtualidades e uma expressividade das ideias.] A realidade não é dada, mas dramatizada por forças não individuais e subjetividades larvares. O método de dramatização está aquém do conhecimento e até mesmo de toda consolidação. Há um “drama” sob todo logos. Mexemos nisso na produção de narrativas. Interessam questões do tipo: quem?, quanto?, como?, onde?, quando?,“A tradição latina, através de Marco Fabio Quintiliano (35 ou 40 a.C. – ? – a quem podemos homenagear como nosso antepassado por ter sido o primeiro professor pago pelo ‘Estado’, pois sua escola de oratória, ao contrário da liberalizante tendência atual, fora estatizada em Roma por volta de 74 d. C., no tempo de Vespasiano), legou-nos um leque de perguntas tecnicamente importantes para o exercício da retórica: quis?, quid?, ubi?, quibus auxiliis?, cur?, quomodo?, quando? (quem?, o que?, onde?, por quais meios?, por que?, como?, quando?)” Coisas que Luiz Orlandi, um professor também público, ensinou dois milênios depois, há duas décadas..Ver método da dramatização in: DELEUZE, Gilles. A Ilha Deserta e Outros Textos. São Paulo: Iluminuras, 2006.

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