COMUM E TORNAR-SE IMPERCEPTÍVEL.

vidas imperceptíveis em tempos de empresa em nós, triunfalismo e sucesso.

São tempos em que somos convocados a estar em alta intensidade, evidência, a ser pessoa muito importante e com mobilização para o sucesso. No contemporâneo se intensifica o desejo tirânico de visibilidade, de ser solicitado, financiado e triunfar; se não produzirmos demanda, ninguém nos procura. Nessa ambiência pode irromper uma espécie de neo-narcisismoconforme a distinção efetuada por Luiz Orlandi entre cultura do narcismo (individualismo/sociedade disciplinar) e do neo-narcismo (dividualismo/sociedades de controle) que implica “levar cada eu, cada si, a viver com a impressão de ser pensado, visado, procurado, querido, bajulado, espelhado, biografado, noticiado, engrandecido, justiçado, cuidado, venerado, agraciado, compreendido, aplaudido, cumprimentado, velado, representado etc., tudo isso e muito mais compondo mil espelhos para um neo-narcisismo, esse do eu exposto a mil e uma visgo-ofertas que acabam separando-o daquilo que sobrava ao velho Narciso, o tempo da perigosa contemplação de si. Perigosa, porque o espelho d’água podia virar água viva ou tremer revelando a fragilidade da fisionomia. Talvez não se trate mais da velha ilusão da identidade própria, mas da ilusão de não se ter qualquer poder, ou de se ter um poder absoluto de controle sobre a multiplicidade de suas exposições”. O sucesso compulsório, adicto do sensacional e do espetacular, ou mesmo do sentimentalismo, frequentemente se liga à autopromoção e ao gerenciamento empresarial de si de religiosos, artistas, intelectuais, militantes, pesquisadores: ninguém parece estar imune ao apelo do triunfo. Tudo que se faz, diz e escreve precisa subir para as luzes, ser publicado e não pode mostrar “furos”, a não ser para aumentar o êxito e a intensidade das sensações, e nisso a curva de sensibilidade à inadequação, à falha e ao fracasso, parece maior e mais insuportável. Hoje a lógica da “empresa é uma alma, um gás” diz Deleuze que não está em um único lugar, está espalhado em nós, na tessitura dos grupos e coloniza o que chamamos de nosso desejo. É antes de tudo um modo de fazer que impregna as instituições  federais, estaduais e municipais com incidências empreendedoras as mais diversas nas artes, na pesquisa, na política com seus prêmios, excitações e saudáveis motivações. Explorar direções que nunca ou pouco se ouviu e que não estejam em alta excitação – na frequência do triunfo e gerenciamento de si – parece se tornar mais difícil em tempos de atração máxima pelo brilho e visibilidade. Talvez a adição contemporânea pelo sucesso faça com que uma vida qualquer, uma vida comum, não empreendedora, nem gerente de si seja mais facilmente percebida como fracassada, invisível, imperceptível. Pode tratar-se de uma questão de percepção, uma mutação na percepção, mais precisamente no limiar de percepção que incide e é sustentado nos grupos e coletivos, nos quais não ser percebido é ter pouca importância, é deixar de ser, e isso parece ser insuportável. Deleuze, por outra via, escreve que “se é verdade, como foi dito pelo bispo irlandês Berkeley, que ser é ser percebido (esse est percipi), seria preciso isso, deixar de ser para tornar-se imperceptível. Tornar-se impercetível, realizar um trabalho sem ser demasiadamente visível pode ser uma guerrilha contra forças maiúsculas em nós, empreendedorismos ou quaisquer proeminências que nos habitam e habilitam a certo servilismo (Luiz Orlandi). Uma possibilidade de avizinhar-se a experiências e vidas frequentemente desqualificadas por certa mutação na percepção adicta de sucesso e visibilidade. Uma ética difícil e, ao mesmo tempo impessoal e singular, uma experimentação que é também a da precariedade, das contas que não fecham, das previsões que não se confirmam.

 

Notas do GELS para escritos in regress.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s