Entre(re)vistas COM EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO COM A SEGUINTE ADVERTÊNCIA: Com a possível exceção de alguns poemas e de certas equações matemáticas, não há praticamente nenhum texto que não possa ser reescrito para melhor. (Ou, é claro, para pior.) Toda oportunidade de republicação provoca à revisão, mais ou menos drástica conforme o juízo que se tem sobre a qualidade da obra que se viu assim contemplada. A única desculpa convincente que tem um autor vivo para “não mexer em nada” é a vontade de não se mexer ele mesmo: a preguiça, disposição, de resto, respeitabilíssima. A menos que o dito autor esteja sinceramente satisfeito com o que fez, ou que já se pense como tendo entrado para a história. No meu caso, nem uma coisa, nem outra. Sequer a preguiça conseguiu me convencer. Os textos que se seguem são entrevistas, o gênero menos poético ou matemático que se possa imaginar. Nenhuma forma compele mais aquele que vê suas palavras publicadas à reformulação que a entrevista. Aproveitei a deixa — no caso, o convite e a anuência de Sergio Cohn — para forjar estas entre(re)vistas, textos por assim dizer fictícios, várias vezes desprovidos de qualquer valor documental: eles são versões modificadas de entrevistas que, em suas versões originais publicadas, já eram o resultado de uma edição (de minha parte) de transcritos brutos (ou pré-editados pelo entrevistador) de gravações que, por sua vez… O leitor vê onde quero chegar. As presentes entre(re)vistas são, assim, essencialmente artigos acadêmicos em formato dialógico e em linguagem um pouco mais relaxada que a de praxe. É claro que semelhante reestipulação da natureza dos textos aqui reunidos não deixa de ser uma manobra ligeiramente desonesta, de certo modo injusta com os entrevistadores, que tiveram suas perguntas mantidas como no original (ou quase!) ao passo que as respostas tornaram-se aquelas que eu daria hoje. Mas afinal, as circunstâncias de origem dos textos não eram as de um interrogatório policial, de uma apuração jornalística ou de um debate político-intelectual, e sim as de simples contextos de incitação à reflexão. Nenhuma razão portanto para eu ser fiel ao que quer que fosse, exceto ao que penso agora. E aliás, a quem interessaria uma informação fiel sobre meu estado mental de outrora? Não a mim, sobretudo. Gostaria de registrar meus mais sinceros agradecimentos aos colegas que tiveram o interesse e a paciência de me acompanhar co-autoralmente nestas entre(re)vistas, especialmente a Renato Sztutman – um deles –, pela revisão da revisão da revisão, e a apresentação e a Marcio Goldman, que gentilmente concordou em publicar aqui uma entrevista que “assinamos” juntos, onde sua participação parece-me bem mais importante que a minha. Eduardo Viveiros de Castro. No link abaixo:

VIVEIROS-DE-CASTRO-Eduardo-Encontros-1

O contrário da democracia não é a ditadura, são “momentos de verdade”, onde o poder está nú. As insurreições nunca são democráticas.

Trata-se de fazer submergir o vazio que a democracia mantém entre os átomos individuais pela plena atenção de uns aos outros, por uma atenção inédita ao mundo comum.

O fato de que uma forma de organização tão banal e sem surpresas como uma assembleia tenha sido investida de uma tal veneração frenética diz, no entanto, muito sobre a natureza dos afetos democráticos.

A manobra espetacular é bem conhecida e consiste em tomar o controle simbólico dos movimentos celebrando-os, num primeiro momento, por aquilo que eles não são, no intuito de melhor os enterrar chegado o momento certo. Ao atribuir-lhes a indignação como conteúdo, destina-os à impotência e à mentira. “Ninguém mente mais do que o homem indignado”, já constatava Nietzsche. Ele mente sobre a sua estranheza em relação àquilo sobre o qual se indigna, esquiva-se a qualquer responsabilidade sobre aquilo que o toca. A sua impotência é postulada a fim de melhor se eximir de toda e qualquer responsabilidade quanto ao desenrolar das coisas; que depois é por ele convertida em afeção moral, em afeção de superioridade moral. Ele pensa que tem direitos, o infeliz. Se já vimos multidões coléricas fazer revoluções, nunca vimos massas indignadas fazer outra coisa que não protestar de forma impotente. A burguesia choca-se e depois vinga-se; já a pequena-burguesia indigna-se e depois volta para a sua farsa.

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A retórica ocidental não tem surpresas. Cada vez que uma suble- vação de massas vem depor um sátrapa ainda ontem venerado em todas as embaixadas é porque o povo “aspira à democracia”. O estratagema é velho como Atenas. E ele funciona tão bem que até a assembleia do Occupy Wall Street considerou de bom-tom consagrar, em Novembro de 2011, um orçamento de 29 mil dóla- res para uma vintena de observadores internacionais ir contro- lar a regularidade das eleições egípcias. Ao que os camaradas da Praça Tahrir, que eles acreditavam estar dessa forma a ajudar, responderam: “Aqui no Egipto, não fizemos a revolução na rua com o simples objetivo de ter um Parlamento. A nossa luta – que pensamos partilhar convosco – é muito mais ampla do que a ob- tenção de uma democracia parlamentar bem oleada.” Não é pelo facto de se lutar contra um tirano que se luta pela democracia – tanto se pode lutar por um outro tirano, pelo califado ou pelo simples prazer de lutar. Mas sobretudo, se há algo que pouco tem a ver com qualquer princípio aritmético de maioria, são mesmo as insurreições, cuja vitória depende de cri- térios qualitativos – de determinação, de coragem, de confiança em si, de sentido estratégico, de energia coletiva. Se as eleições corporizam, há mais de dois séculos, o instrumento mais usado, depois do exército, para mandar calar as insurreições, é porque os insurretos nunca são uma maioria. Quanto ao pacifismo que se associa tão naturalmente à ideia de democracia, também aqui convém dar a palavra aos camaradas do Cairo: “Aqueles que di- zem que a revolução egípcia era pacífica não viram os horrores que a polícia nos infligiu, não viram tampouco a resistência e até a força que os revolucionários utilizaram contra a polícia para defender as suas ocupações e os seus espaços. Reconhecido pelo próprio Governo: 99 esquadras foram incendiadas, milhares de carros da polícia destruídos, e todas as sedes do partido dirigente foram queimadas.” A insurreição não respeita nenhum formalismo, nenhum dos procedimentos democráticos. Ela impõe, como qualquer manifestação de envergadura, a sua própria forma de utilização do espaço público. Ela é, como qualquer greve decla- rada, política do facto consumado. Ela é o reino da iniciativa, da cumplicidade prática, do gesto; as decisões, ela toma-as nas ruas, lembrando àqueles que o tenham esquecido que “popular” vem do latim populor, “arrasar, devastar”. Ela é a plenitude da expres- são – nos cânticos, nas paredes, na palavra tomada, nos combates – e o vazio da deliberação. Talvez que o milagre da insurreição esteja nisto: ao mesmo tempo que dissolve a democracia enquanto problema, ela imediatamente configura algo para lá dela. Evidentemente que não faltam ideólogos, tais como Antonio Negri e Michael Hardt, que deduzam a partir dos levan- tamentos dos últimos anos que “a constituição de uma sociedade democrática está na ordem do dia” e se proponham a nos “tornar capazes da democracia”, ensinando-nos “os saberes, os talentos e os conhecimentos necessários ao governo de nós próprios”. Para eles, tal como o resume sem muita delicadeza um negrista espa- nhol: “De Tahrir à Puerta del Sol, da Praça Syntagma à Praça Catalunya, um grito se repete de praça em praça: «Democracia». Tal é o nome do espectro que hoje em dia percorre o mundo.” De facto, tudo iria bem se a retórica democrática fosse apenas uma voz que emana dos céus e que se cola, vinda do exterior, a cada sublevação, por ação dos governos ou daqueles que lhes desejam suceder. Ouvi-la-íamos piedosamente, como a homilia do padre, rindo à gargalhada. Mas é forçoso constatar que esta retórica tem um efeito de captura real sobre as mentes, sobre os corações, sobre as lutas, como o mostra esse movimento “dos indignados” do qual tanto se falou. Escrevemos “dos indignados” entre aspas pois na primeira semana de ocupação da Puerta del Sol a refe- rência era a Praça Tahrir e de modo nenhum o inofensivo opús- culo do socialista Stéphane Hessel, que defende uma insurreição cidadã das “consciências” como forma de exorcizar a ameaça de uma verdadeira insurreição. É apenas na sequência de uma ope- ração de recodificação levada a cabo a partir da segunda sema- na de ocupação pelo “El País”, jornal ligado também ao Partido Socialista, que este movimento recebe o seu título choramingas, ou seja, uma boa parte do seu eco público e o essencial dos seus limites. O mesmo é válido também para a Grécia, onde aqueles que ocupavam a Praça Syntagma recusaram em bloco a etique- ta de “aganaktismenoi”, de “indignados”, que os media lhes ha- viam atribuído preferindo denominar-se como “movimento das praças”. “Movimento das praças”, na sua neutralidade factual, tomava melhor em conta a complexidade, ou mesmo a confusão, dessas estranhas assembleias onde os marxistas coabitavam com os budistas da via tibetana, e os fiéis do Syriza com os burgueses patriotas. A manobra espetacular é bem conhecida e consiste em tomar o controlo simbólico dos movimentos celebrando-os, num primeiro momento, por aquilo que eles não são, no intuito de melhor os enterrar chegado o momento certo. Ao atribuir-lhes a indignação como conteúdo, destina-os à impotência e à mentira. “Ninguém mente mais do que o homem indignado”, já constatava Nietzsche. Ele mente sobre a sua estranheza em relação àquilo sobre o qual se indigna, esquiva-se a qualquer responsabilidade sobre aquilo que o toca. A sua impotência é postulada a fim de melhor se eximir de toda e qualquer responsabilidade quanto ao desenrolar das coisas; que depois é por ele convertida em afeção moral, em afeção de superioridade moral. Ele pensa que tem di- reitos, o infeliz. Se já vimos multidões coléricas fazer revoluções, nunca vimos massas indignadas fazer outra coisa que não protes- tar de forma impotente. A burguesia choca-se e depois vinga-se; já a pequena-burguesia indigna-se e depois volta para a sua farsa. A palavra de ordem que ficou associada ao movimento das praças foi “democracia real ya!”, pois a ocupação da Puerta del Sol foi iniciada por uma quinzena de “hacktivistas”, por oca- sião da manifestação, que tomava aquele nome, convocada pela plataforma para 15 de Maio de 2011 – o “15M”, como se diz em Espanha. Não se tratava aqui de democracia direta, como nos conselhos operários, nem mesmo de verdadeira democracia à antiga, mas de democracia real. Sem surpresa, em Atenas o “movimento das praças” instalou-se à distância de uma pedra- da do local da democracia formal, a Assembleia Nacional. Até aqui tínhamos ingenuamente pensado que a democracia real era esta que já aqui estava, tal como a conhecemos desde sempre, com as suas promessas eleitorais feitas para serem atraiçoadas, as suas salas de gravação denominadas “parlamentos” e as suas negociatas pragmáticas para enevoar o mundo em favor de di- ferentes lóbis. Mas para os “hacktivistas” do 15M a realidade da democracia era acima de tudo a traição da “democracia real”. Que tenham sido cybermilitantes a lançar este movimento não é indiferente. A palavra de ordem “democracia real” significa o seguinte: tecnologicamente, as vossas eleições que têm lugar uma vez a cada cinco anos, os vossos deputados rechonchudos que não sabem utilizar um computador, as vossas assembleias que fazem lembrar uma má peça de teatro ou uma feira barulhenta – tudo isso é obsoleto. Hoje em dia, graças às novas tecnologias de comunicação, graças à Internet, à identificação biométrica, aos smartphones, às redes sociais, vocês estão completamente ultra- passados. É possível instaurar uma democracia real, isto é, uma sondagem permanente, em tempo real, da opinião da população, submetendo-lhe realmente qualquer decisão antes de a tomar. Um autor já o antecipava nos anos 20: “Poderíamos imaginar que um dia invenções subtis permitiriam a cada um exprimir a todo o momento as suas opiniões sobre os problemas políticos, sem sair de casa, graças a um aparelho que conseguisse gravar todas essas opiniões numa central onde não seria preciso fazer mais nada do que ler o resultado.” Ele via aí “uma prova da pri- vatização absoluta do Estado e da vida pública”. E era, mesmo reunidos numa praça, essa sondagem permanente que deviam manifestar em silêncio as mãos levantadas ou baixas dos “indig- nados”, aquando das sucessivas tomadas de palavra. Até o velho poder de aclamar ou de vaiar tinha sido retirado à multidão. O movimento das praças foi, por um lado, a projeção, ou me- lhor, o embate no real, do fantasma cibernético da cidadania uni- versal e, por outro, um momento excecional de encontros, de ações, de festas e de recuperação em mãos de uma vida comum. Isto não podia a eterna micro-burocracia ver, entretida a tentar fazer passar os seus caprichos ideológicos como “posições da assembleia” ou a pretender tudo controlar, em nome de que cada ação, cada gesto, cada declaração deve ser “validado pela assembleia” para ganhar o direito de existir. Para todos os outros, este movimento liquidou definitivamente o mito da assembleia-geral, isto é, o mito da sua centralidade. Na primeira noite, a 16 de Maio de 2011, havia na Praça Catalunya em Barcelona 100 pessoas, no dia seguinte 1000, depois 10.000 e nos dois primeiros fins-de-semana havia 30.000 pessoas. Cada um pôde então constatar que quando somos tão numerosos já não há nenhuma diferença entre democracia direta e democracia representativa. A assembleia é o local onde somos obrigados a ouvir parvoíces sem poder replicar, exatamente como em frente à televisão; para além de ser o local de uma teatralidade extenuante e tanto mais mentirosa quanto mais mimetiza a sinceridade, a aflição ou o entusiasmo. A extrema burocratização das comissões refreou até os mais resistentes, tendo sido neces- sárias duas semanas para que a comissão “conteúdo” parisse um documento intragável e calamitoso de duas páginas que resumia, segundo ela, “aquilo em que acreditamos”. Por esta altura, face ao ridículo da situação, alguns anarquistas submeteram a voto a hi- pótese de a assembleia se tornar um simples espaço de discussão e lugar de informação e não um órgão para tomada de decisões. A situação era cómica: pôr à votação o facto de se deixar de votar. Coisa ainda mais cómica: o escrutínio foi sabotado por trinta tro- tsquistas. E como este género de micro-políticos transpira tanto tédio quanto sede de poder, toda a gente acabou por se afastar das fastidiosas assembleias. Sem surpresas, muitos dos participantes de Occupy tiveram a mesmo experiência e chegaram à mesma con- clusão. Em Oakland como em Chapel Hill, acabou por se conside- rar que a assembleia não tinha nenhum direito em validar o que este ou aquele grupo podia ou queria fazer, que ela era um local de partilha e não de decisão. Quando uma ideia emitida em assem- bleia vingava, era simplesmente porque um conjunto suficiente de pessoas a consideravam boa para lhe concederem os meios de a pôr em prática e não em virtude de qualquer princípio de maioria. As decisões vingavam ou não; elas nunca eram tomadas. Foi assim que na Praça Syntagma foi votada “em assembleia-geral”, num dia de Junho de 2011 e por vários milhares de indivíduos, a iniciativa de promover ações no metro; no dia aprazado, não se encontra- vam no local marcado nem vinte pessoas para agir efetivamente. É assim que o problema da “tomada de decisão”, obsessão de todos os democratas flipados do mundo, se mostra nunca ter sido outra coisa que não um falso problema. Que tenha sido com o movimento das praças que o fetichismo da assembleia-geral atingiu um cúmulo em nada man- cha a prática assembleária. Trata-se apenas de saber que de uma assembleia não pode sair outra coisa que não o que já lá se en- contra. Quando se juntam milhares de desconhecidos que nada partilham, afora o facto de estarem ali, na mesma praça, não se pode esperar que daí saia mais do que a sua separação autoriza. Não se pode querer, por exemplo, que uma assembleia consiga gerar por si própria a confiança recíproca necessária para que se assuma em conjunto o risco de agir ilegalmente. Que uma coisa tão repugnante como uma assembleia-geral de coproprie- tários seja possível é algo que, desde logo, nos devia premunir contra a paixão das AG. Aquilo que uma assembleia atualiza é simplesmente o nível de partilha existente. Uma assembleia de estudantes não é uma assembleia de bairro, que por sua vez não é uma assembleia de bairro em luta contra a sua “reestruturação”. Uma assembleia de operários não é a mesma no início e no final de uma greve. E estas terão certamente pouco que ver com uma assembleia popular dos povos de Oaxaca. A única coisa que qualquer assembleia pode produzir, se o tentar, é uma linguagem comum. Mas quando a única experiência comum é a separação, somente a linguagem informe da vida separada será escutada. A indignação é então, efetivamente, o máximo de intensidade política à qual pode chegar o indivíduo atomizado, que confunde o mundo com o seu ecrã, da mesma forma que confunde os seus sentimentos com os seus pensamentos. A assembleia plenária de todos esses átomos, a despeito da sua comovente comunhão, não fará mais do que expor a paralisia induzida por uma falsa compreensão da política e, acima de tudo, uma inaptidão para alterar o que quer que seja no curso do mundo. Como se uma infinidade de caras coladas contra uma parede de vidro olhassem embasbacadas o universo mecânico que continua a funcionar sem elas. O sentimento de impotência coletiva, que sucedeu à alegria de se terem encontrado e contado, dispersou os proprietários de tendas Quechua tão infalivelmente como os bastões e o gás. E no entanto havia nestas ocupações qualquer coisa que ia além deste sentimento, precisamente tudo aquilo que não tinha o seu lugar no momento teatral da assembleia, tudo o que relevava da milagrosa aptidão dos vivos para habitar, para habitar o pró- prio inabitável: o coração das metrópoles. Nas praças ocupadas, tudo aquilo que a política desde a Grécia clássica relegou para a esfera, no fundo desprezada, da “economia”, da gestão domés- tica, da “sobrevivência”, da “reprodução”, do “quotidiano” e do “trabalho”, afirmou-se ao invés como dimensão de uma potência política coletiva, que escapou à subordinação do privado. A ca- pacidade de auto-organização quotidiana que aí prosperou e que chegou, nalguns sítios, a alimentar 3000 pessoas por refeição, a levantar uma aldeia em poucos dias ou a cuidar dos amotinados feridos, assinala talvez a verdadeira vitória política do “movimento das praças”. Ao que as ocupações de Taksim e de Maïdan terão acrescentado, no seu encalço, a arte de erguer barricadas e de confecionar cocktails Molotov em quantidades industriais. O fato de que uma forma de organização tão banal e sem surpresas como uma assembleia tenha sido investida de uma tal veneração frenética diz, no entanto, muito sobre a natureza dos afetos democráticos. Se a insurreição exprime primeiro a cólera e depois a alegria, a democracia direta, no seu formalismo, é antes de mais uma coisa de angustiados. Que nada se passe que não seja determinado por um processo previsível. Que nenhum acontecimento nos ultrapasse. Que a situação se mantenha à nossa altura. Que ninguém se possa sentir trapaceado ou em conflito aberto com a maioria. Que nunca ninguém seja obrigado a contar apenas com as suas próprias forças para se fazer ouvir. Que não se imponha nada, a ninguém. Com esse fim, os vários dispo- sitivos da assembleia – da roda de palavra aos aplausos silencio- sos – organizam um espaço estritamente aveludado, sem outras asperezas para além da sucessão de monólogos, desativando a necessidade de lutar por aquilo que se pensa. Se o democrata tem que estruturar a situação até este ponto é porque não confia nela. E se ele não tem confiança na situação é porque, no fundo, ele não é de confiança. É o seu medo de se deixar levar por ela que o condena a querer a todo o custo controlá-la, muitas vezes até a destruir. A democracia é acima de tudo o conjunto de procedimentos através dos quais se dá forma e estrutura a essa angústia. Não se trata de fazer o processo da democracia: não se faz um processo a partir de uma angústia. Só um desenvolvimento omnilateral da atenção – atenção não apenas ao que é dito, mas sobretudo ao que não é, atenção à forma como as coisas são ditas, ao que se lê nas faces como nos silêncios – nos pode libertar do apego aos procedimentos democráticos. Trata-se de fazer submergir o vazio que a democracia mantém entre os átomos individuais pela plena atenção de uns aos outros, por uma atenção inédita ao mundo comum. O desafio é substituir o regime mecânico de argumentação por um regime de verdade, de abertura, de sensibilidade ao que aqui está. No século XII, quando Tristão e Isolda se encontram de noite e conversam trata-se de um “parlamento”; quando as pessoas, ao acaso da rua e das circunstâncias, se agitam e se põem a falar é uma “assembleia”. Eis o que há que opor à “soberania” das assembleias gerais, à tagarelice dos parlamentos: a redescoberta da carga afetiva ligada à palavra, à palavra verdadeira. O contrário da democracia não é a ditadura, é a verdade. É justamente porque são momentos de verdade, onde o poder está nu, que as insurreições nunca são democráticas.

C.I