“Não há mais o que esperar. É preciso reagir a partir de onde estamos, com as armas de que dispomos. É preciso fazer proliferar as iniciativas, mesmo que no plano micro, para afirmar que não aceitamos a investida criminosa contra o povo brasileiro e o próprio país”.

Por Laymert Garcia dos Santos*, na revista Brasileiros

 

Laymert GarciaLaymert Garcia

Como nos tempos do fascismo, o intolerável se infiltra aos poucos. Mas já está nos nossos bairros, na nossa porta (na periferia do Rio, de São Paulo e outras grandes cidades faz tempo que ele enegrece e enluta a vida dentro das casas). Foi essa pulsão de morte, explodindo na nossa cara, que levou um grupo de moradores de Pinheiros a reagir à execução à queima-roupa do catador Ricardo Nascimento pela Polícia Militar, sem razão alguma.

O que esse acontecimento nos ensina? Que a política de extermínio dos pobres no Brasil se intensificou e que, a partir de agora, a “limpeza” étnica e social passa a ser feita abertamente, à luz do dia, com requintes de sadismo. “Cidade Linda” quer dizer especificamente isso: extermínio dos pobres, de todos os que “sujam” a beleza da paisagem da capital. “Cidade Linda” é a eliminação de tudo o que não se identifica com a Berrini, a Avenida Paulista e a Faria Lima, e os mafiosos projetos de privatização e venda dos “ativos” da metrópole.

Nessa estratégia, governo Dória e governo Alckmin mais do que convergem: há conluio e intensa cooperação (apesar da briga de foice entre os “líderes” pela candidatura à Presidência). Polícia Militar e Guarda Civil Metropolitana são os braços armados para a execução da “limpeza” – contando com o endosso do Judiciário e do Ministério Público, é claro.

Mas não são só eles os executantes: desde que Dória assumiu a Prefeitura, multiplicam-se as ações sádicas contra os pobres – da violência explícita na Cracolândia aos jatos de água nos moradores de rua, nas noites geladas de São Paulo, da invocação da “lei” para proibir a distribuição de sopa às intervenções constantes do rapa, tirando os míseros pertences para inviabilizar o povo de rua, passando pelo enlamear sistemático da praça que os craqueiros ocupavam…

À execução de Ricardo Nascimento, como sempre impune e acobertada pelas autoridades, seguiu-se a morte, por AVC, de Piauí, companheiro de rua do catador. No dia seguinte à morte de outros três moradores de rua mortos de frio, um deles, ironicamente, na frente da Faculdade de Saúde Pública, na avenida Doutor Arnaldo.

Têm razão os militantes do movimento que protesta contra o genocídio dos jovens negros – é política de extermínio, mesmo! Assim como no Brasil rural, proliferam os assassinatos de líderes camponeses, quilombolas e indígenas (nesta mesma semana, o “Presidente” Temer entregou aos ruralistas, na bandeja, a inviabilização de novas demarcações de terras indígenas, caracterizando, além de mais uma violação da Constituição de 1988, um crime humanitário e ambiental que já está sendo avaliado no exterior).

Não é mais possível tolerar o intolerável. A corda rompeu-se, a paciência acabou. Desde a deslegitimação programada do governo Dilma Rousseff assistimos diariamente à escalada da violência fascista em todos os níveis e esferas – a começar pelo Judiciário, que viola as leis, acoberta os desmandos e colabora na instauração do Estado de Exceção em nome de uma suposta luta “contra a corrupção”.

Não há mais o que esperar. É preciso reagir a partir de onde estamos, com as armas de que dispomos. É preciso fazer proliferar as iniciativas, mesmo que no plano micro, para afirmar que não aceitamos a investida criminosa contra o povo brasileiro e o próprio País. É preciso articular tais iniciativas até que elas se tornem um tsunami que estoure a muralha de impunidade a proteger governos ilegítimos, elites corruptas e corruptoras, juízes produtores de injustiça – pulsão de morte a sugar a vida de brasileiros como a do catador Ricardo Nascimento, cujo único “crime” foi exercer uma profissão que, segundo a BBC, é responsável pela parcela mais decisiva da reciclagem do lixo urbano, e que seria extremamente cara se fosse remunerada como deveria.

Ricardo Nascimento foi executado porque sua vida de brasileiro super-explorado não valia nada, mesmo sendo ele extremamente produtivo.

*Laymert Garcia dos Santos é professor titular do departamento de Sociologia/IFCH da Universidade Estadual de Campinas e bacharel em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

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Rio-me dos fracos que se sentem bons porque tem as mãos aleijadas, eles se pensam bons, mas é porque eles não podem nem fazer mal aos outros, então são bons. Transformam sua fraqueza em bondade porque se comportam como carneiros e tratam como maus as aves de rapina.

 

O VERME CORTADO PERDOA O ARADO.

William Blake

 

MESMO OS QUE PENSAM SER BONS MUITAS VEZES SÃO FRACOS E COMPLACENTES

Duque de LaRochefoucauld

 

Nietzsche considera o homem moderno fraco, esse amolecimento do homem moderno seria justamente isso, a transformação, digamos do leão que pode nos habitar, em animal doméstico. Ele diz que o leão de circo não é o leão que aprendeu a ser bom, o leão de circo é o leão que saiu alquebrado, aprendeu a ser um leão bonzinho a força de pancadas. Nietzsche jamais propôs uma utopia da realização do homem. Há um certo elogio da crueldade, que é uma coisa, digamos que, a burguesia que o capitalismo faz questão de esconder embora ela esteja presente na nossa vida cotidiana. Isso está exposto na Genealogia da Moral.

Algumas frases sobre a crueldade:

 

A crueldade consistia ou constituía o grande prazer festivo da humanidade antiga, era o ingrediente de quase todas as sua alegrias, “sem crueldade não há festa” é o que ensina a mais antiga e mais longa história.

 

E esta aqui é maravilhosa:

 

“nos tempos em que a humanidade ainda não tinha vergonha da sua crueldade, a vida era mais feliz”.

 

Ou então:

 

“hoje, quando não se cessa de apontar o sofrimento como principal argumento contra a existência; se há sofrimento a vida é castigo, então é preciso que haja uma outra vida para nos redimir”.

 

Nietzsche é um filósofo do sofrimento, no sentido de que uma das ideias da sua filosofia é a diferença entre tristeza e sofrimento e uma tentativa de poder conjugar sofrimento e alegria. E ele diz, por exemplo, neste livro:

 

Já que não podemos acabar com o “sofrimento objetivo”, pelo menos acabemos com o “sofrimento subjetivo”, aquele sofrimento que a gente mesmo se dá, introjetando e chafurdando na dor.

 

E há uma frase maravilhosa desse livro, quando ele diz:

 

“ há mais sofrimento na noite de uma histérica culta do que em todos os animais que foram sacrificados pela ciência.”

 

E diz:

 

quando se aponta o sofrimento como o principal argumento contra a existência, seria bom se lembrar dos tempos em que se via no sofrimento um verdadeiro encorajamento a viver

 

R.M