Neurociências e Psicanálise. Benilton Bezerra.

 

Ao contrário dos meus colegas, eu não trouxe um texto escrito. Tenho um estilo próprio. Tentei cumprir essa missão impossível de ler os autores que são 5, Adriano Aguiar, Osvaldo Saidón, Sara Hassan, Orlando Coser e Jean Szpirko. São textos com muitos pontos em comum e alguns pontos muito peculiares a cada um deles. Resolvi fazer uma breve apresentação, claro muito sintética, dos temas principais de cada um desses textos, e depois tentei, um pouco afetado pela leitura, extrair, ao que me parece, alguns tópicos, alguns temas, para o nosso debate.

O primeiro texto de Adriano Aguiar fala sobre a psiquiatrização, o processo de psiquiatrização da existência. O título “Uma Cartografia da Psiquiatria Contemporânea”, fazendo menção a esse movimento nos últimos 25 anos, desde a década de 80, que vem marcando o impacto da biologia como paradigma predominante no campo da psiquiatria. Isso é exemplificado pelo movimento dos sistemas de diagnósticos DSM 3 e 4. A virada se dá no DSM3, no início dos anos 80, quando a psicanálise que era o pano de fundo conceitual sobre o qual repousava o diagnóstico em psiquiatria, vai cedendo rapidamente espaço para o que foi chamado uma descrição ateórica, uma visão meramente descritiva, com boas razões segundo seus autores, para permitir uma linguagem universal de pesquisa, mas que, muitos estudos mostram, não era tão cientificamente neutra assim. Quando se estuda a composição dos comitês americanos que

propuseram todas as mudanças, vê-se logo, Adriano chama a atenção, a conexão com outras forças que estão por trás desse movimento da fisicalização da psiquiatria. Em especial os interesses da indústria farmacêutica. Pessoas ligadas à indústria farmacêutica, por exemplo, dentro do comitê que cunhou, mudou sutilmente, mas como uma importância enorme, a maneira como se define depressão, como se define fobia social.

O efeito dessa sutil mudança na maneira como se define tem como conseqüência imediata, isso se demonstra estatisticamente nos anos seguintes, uma ampliação maciça do diagnóstico e de um diagnóstico, evidentemente, que vem acompanhado de uma prescrição.

Quando se acompanha, então, como Adriano faz, o avanço da indústria farmacêutica dos anos 80 para cá, percebe-se que o processo de psiquiatrização do cotidiano, de fisicalização da vida mental que vai impregnando não só o imaginário teórico dentro da psiquiatria, mas também o imaginário social, o imaginário comum, o homem das ruas, que vai cada vez mais absorvendo, pelo impacto da mídia que reproduz esse vocabulário, na sua descrição de si, na maneira como designa, como descreve o que sente, ele vai incorporando esse movimento que, como Adriano chama atenção, tem por base interesses extra-clínicos.

Ainda nessa direção, Adriano chama atenção para o impacto mais geral das biotecnologias, uma coisa que Orlando Coser também vai estudar com bastante precisão. E então a Biologia entra não só como teoria paradigmática, a Biologia é

no final do século XX o que a Física era no início do século XX, A Ciência, a produtora das grandes metáforas que vão organizando a maneira de pensar, a vida, a relação entre as pessoas, a relação do eu com o corpo, a relação do eu com os outros e, além disso, as próprias tecnologias.

A psicofarmacologia praticamente inexistia antes da Segunda Guerra Mundial, os primeiros psicofármacos de uso pesado, a clorpromazina, por exemplo, data do final da década de 40 e nesses 50 anos o mundo não é mais o mesmo.

Nós não somos mais os mesmos, a medicação se transformou numa espécie de item do cotidiano. Enfim, o Adriano não diz, mas eu acho que ele poderia dize, que certamente nessa sala algumas pessoas tomam com alguma regularidade algum psicotrópico sem que vejam muito problema nisso.

Finalmente, outro ponto para o qual Adriano chama atenção é a necessária embricação entre o campo da clínica e de suas questões internas, das teorias que a alimentam e sua vinculação com os processos socio-político-culturais externos a ela. Pensar a clínica é pensar política, isso tem reverberações com a nossa discussão esta manhã e ele chama atenção para a necessária discussão da clínica se voltando, a necessidade, melhor dizendo, da clínica repensar seus impasses, como exigindo necessariamente uma discussão crítica dessa embricação entre o campo da clínica e o campo polítco-social que nos cerca.

O texto do Orlando Coser, vai nesta mesma direção. Orlando trabalha num instituto de alta tecnologia, e o seu trabalho é sobre o impacto de uma área da Biologia, a Genética, em especial, no campo da saúde. Partilhando das premissas que Adriano já havia adiantado, Orlando mostra como o mundo da tecnologia, da intervenção biológica tem mudado não só, digamos, o arsenal terapêutico mas tem, de alguma maneira , inclusive mudado o horizonte da ação clínica, que deixa cada vez mais de ser basicamente terapêutica para ser cada vez mais antecipativa. Ele faz uma análise dos termos que, de alguma maneira, organizam o pensamento da Medicina, da clínica, desde a idéia de previsão, a idéia de possibilidade, de possível, que já existe em Claude Bernard, século XIX, o surgimento da prevenção, da medicina preventiva, e no caso do mundo psi, isso se dá a partir dos anos 50, depois da Segunda Guerra, com muito mais vigor para a introdução de um novo termo-chave, a idéia de preditibilidade. A medicina agora não é mais preventiva ela é preditiva.

Isso é uma mudança radical porque não se trata mais de prevenir doenças cujo curso conhecemos, mas a de prever a possibilidade de doenças no futuro e incidir antes que essas condições de possibilidade apareçam. É o que tem aberto o caminho para a intervenção da genética dentro da medicina, e ele mostra como isso também se apresenta como questão para o campo psi.

A partir daí ele discute, primeiro de maneira crítica, os pressupostos sobre os quais, de uma maneira geral, o médicos se assentam muito confortavelmente. A idéia de causalidade, que aliás outros textos tematizam. A idéia de causalidade regular, linear. A idéia de causalidade vinculada a leis de predição que ele mostra nem ainda no campo da psicanálise, mas dentro do campo da própria biologia, como uma versão da causalidade. Uma maneira de pensar o determinismo natural, um naturalismo, que é herdeiro de Darwin, se for complexo como alguns biólogos hoje pretendem que seja, implica numa rede complexa de causalidades, uma espécie de polimorfismo causal, que levada às suas conseqüências, e para aqueles que quiserem, basta ler o texto dele, tornará impossível a rápida equação entre genótipo e fenótipo, entre determinação genética e experiência da vida subjetiva como cada vez mais vem se dizendo, e vem se assimilando como uma espécie de verdade que não necessita mais de argumento. Pensar mesmo no campo da biologia de maneira mais fiel ao mais interessante do pensamento de Darwin implica pensar o sujeito, ou indivíduo biológico ainda, como um campo de interação constante entre o pólo do indivíduo e o pólo do ambiente, de modo que entre a

determinação genética e o fenômeno biológico, o fenômeno mental, há todo um conjunto de interações onde a ação do indivíduo no mundo, a ação do organismo no meio tem um poder causal enorme.

Finalmente, discutindo a questão da psicanálise frente a essa questão da genética preditiva, da psiquiatria da hereditariedade, ele toma uma posição que, eu acho, é uma das posições que servem para o debate.

Ao contrário de alguns que insistem em uma especificação do lugar da psicanálise, de uma singularidade do campo do discurso das práticas psicanalíticas como sendo algo importante que façamos para nos demarcar do campo da neurociência e da biologia, Orlando, até porque sua prática o induz a isso, propõe um diálogo, uma interlocução, uma interlocução que não visa a construção de uma língua

comum, não visa a construção de tábuas de tradução de uma linguagem para outra, mas implica a necessidade de os psicanalistas, ao invés de fugirem dos campos em que o discurso e a prática das neurociências e da biologia é cada vez mais forte, ao contrário de ocuparem esses lugares, se é que de fato acreditam no que ele mesmo adiantou, isto é, por mais que se conheça o determinismo do corpo, determinismo do cérebro, os mecanismos fisiológicos de funcionamento, da mente, do espírito, da alma, do sujeito, como quer se que queira, a psicanálise entrará sempre como um campo de reflexão crítica sobre os efeitos subjetivos que essas práticas das neurociências implicam. Então, ele convoca os psicanalistas, nós todos, a pensar que tipo de inserção a psicanálise deve se desafiar a ocupar no interior desses espaços.

Osvaldo Saidón tematiza o mesmo conjunto de problemas, a questão
da psiquiatrização crescente, mas enfocando basicamente o campo da psiquiatria, o campo alargado da psiquiatria. E reconhece uma coisa que todos os que trabalham em dispositivos fora do consultório reconhecem. Já existe um diálogo entre os psicanalistas e não digo os neurocientistas mas aqueles que são informados pelos biólogos e neurocientistas. Quem quer que trabalhe em instituições no campo da assistência pública já colabora, às vezes briga, mas já interage necessariamente com os herdeiros ou com os que utilizam os conhecimentos biológicos, e não só interagem, pedem ajuda. Ninguém hoje em sã consciência dispensaria todo o arsenal psicofarmacológico que temos à nossa disposição, sobretudo no caso dos pacientes graves.

No entanto, como diz Osvaldo, isso recoloca o campo dos problemas nos quais a psicanálise deve dialogar com a biologia isto é, ele vê ao mesmo tempo a idéia de colaboração como sendo uma questão a ser pensada. De que tipo, de que modo é possível estabelecer uma colaboração entre esses campos de saber, entre esses tipos de prática, entre essas modalidades de intervenção, ao mesmo tempo em que aponta para a necessidade de uma demarcação criteriosa acerca das diferenças e, aqui vai um pouco uma leitura, não é exatamente o que ele diz, mas eu suponho que isso foi colocado nos temas para debate, insistindo basicamente que no campo da clinica é preciso, primeiro, reconhecer a complexidade do campo das neurociências que são, de uma maneira geral, ainda vistas por nós como uma coisa meio homogênea. E ele diz que as neurociências tanto podem ser reducionistas como podem ser anti-reducionistas. Há biólogos que são nossos adversários teóricos, como há biólogos com os quais temos afinidade. E, sobretudo no campo da clínica, o debate talvez devesse deslocar o centro de gravidade entre uma querela epistemológica a cerca de qual discurso, qual campo de saber, efetivamente traria à tona a natureza última dos estados subjetivos, para um debate ético. Isto é, é no campo do horizonte ético da clínica que podem se estabelecer acordos e desacordos. Essa idéia, eu acho, pelo menos da forma como eu li, está presente no trabalho da Sara Hassan, que é um trabalho de natureza clínico-conceitual, no qual ela se coloca justamente o problema dos efeitos

da clínica numa época em que os psicofármacos avançam cada vez mais. O título de seu trabalho é “A Psicanálise e os Psicofármacos nos Discursos Prevalentes”.

Para a autora, também a discussão sobre a técnica é fundamental. Mas não a discussão sobre a técnica apenas como um instrumento de intervenção, essa é uma dimensão da técnica, mas não é como ela diz, se apropriando do pensamento Heideggeriano, a essência da técnica. O fundamental do uso da técnica, nesse caso específico o uso dos psicofármacos, é que eles engendram junto com eles um conjunto de efeitos subjetivos, um conjunto de efeitos de verdade e, por que não dizer, um conjunto de efeitos de realidade, na medida em que produzem uma experiência que é vivida como real.

Com isso, ela pára todo esse raciocínio que de uma maneira muito fina e
detalhada é desenvolvido. Ela toma um conceito heideggeriano de Gestel que é em espanhol traduzido como “estructura de desplasamiento”, que conversando com os argentinos chegamos à conclusão que não é uma boa tradução, assim como a tradução brasileira que é “armação” talvez também não seja. Em inglês a tradução é enframing que dá idéia de montagem, de configuração. É um pouco essa idéia que ela toma: a idéia da técnica é um “enframing”, uma armação, uma montagem, ela não é apenas um instrumento que se utiliza, ela organiza todo um campo da experiência. E é nesse plano que nós deveríamos então discutir o impacto dos psicofármacos no campo da clínica e seus efeitos sociais. É verdade, ela admite que o campo da clinica psicanalítica é também um Gestel, é também uma forma de configurar. E a distância que nos separa do modelo dos psicofármacos deve ser compreendida justamente aí, no tipo de efeito que produz, no tipo de configuração do campo da experiência dos indivíduos, dos sujeitos, que uma coisa e outra efetuam. Cada Gestel, cada modo de desocultamento convoca um modo de
ser diferente, convoca uma relação diferente do sujeito com a dor, com o sofrimento, com a sua verdade.

Na discussão sobre a relação entre neurociências e psicanálise me pareceu que a Sara Hassan aqui se utiliza também, não vou me estender sobre isso, da
teoria aristotélica sobre as causas, das quatro causas aristotélicas, para mostrar como apenas uma delas, a causa eficiente, é tomada como sinônimo exaustivo, definição exaustiva de causa no campo das ciências e nessa apropriação reducionista da biologia na psiquiatria chamada biológica para mostrar como, no caso da psicanálise, as quatro causas atuam em conjunto, o que produz uma discussão muito fina e importante para nós quanto ao termo eficácia, que é um termo chave na discussão sobre os efeitos de uma clínica ou de outra.

O que ela propõe é que a própria idéia de eficácia não pode ser tomada como um termo cujo significado é idêntico num campo e no outro.

Definir primeiro o que se considera eficácia é um primeiro passo então para que se possa discutir esses dois dispositivos. E, finalmente, uma posição que ela toma, e talvez eu esteja forçando um pouco o argumento, apenas para mostrar uma distinção de posições, ela toma a defesa ou toma a descrição da especificidade da clínica psicanalítica que nós reconhecemos como voltada para o resgate dos efeitos subjetivantes, dos efeitos subjetivos que a técnica produz, comparada com a prática da psicofarmacologia e eu gostaria de reduzir a chamada psiquiatria biológica que reivindica essa atitude reducionista como sendo uma prática que visa, ao contrário, eliminar todo o resto subjetivo, transformando a prática clínica numa espécie de ortopedia do psiquismo.

Finalmente o trabalho de Jean Szpirko que é um trabalho também de muita complexidade conceitual, cujo título resume um pouco toda a discussão. O título é “Méconaissance”, de novo uma questão de tradução que talvez mereça uma nuance, méconaissance em português se traduz por desconhecimento ou ignorância mas a palavra em francês tem uma nuance que ‘ignorância’ e ‘desconhecimento’ não têm. Ignorância e desconhecimento significam ausência de conhecimento. Méconaissance se parece mais com o termo inglês “misunderstanding”, que não é

ausência de conhecimento, é uma compreensão que não é plena. E a discussão que ele faz é , de uma maneira geral, sobre a maneira como nós apreendemos o sentido de méconnaissance, que é marcada pelo valor negativo do prefixo mé, que para nós seria desconhecimento.

Vou continuar usando méconnaissance para nos entendermos melhor. Então a discussão que ele faz é que méconnaissance parece se opor a connaissance, toda a análise que ele faz sobre como se opera o conceito, como se articulam conceitos na produção do conhecimento e como se articula a aquisição do conhecimento da parte de um pesquisador, da parte de um agente cognitivo, da parte de um

sujeito, pouco importa, a discussão que ele faz vai de maneira complexa até o ponto de mostrar que, por mais cerrada, por mais definida, por mais limpa conceitualmente que seja uma teoria, a aquisição do conhecimento que ela possibilita implica sempre uma posição subjetiva do agente que pensa, do sujeito, do pesquisador. Isso, se nós reconhecemos, torna a idéia de méconnaissance , não alguma coisa a ser lamentada, não o índice de uma falta de conhecimento ou de um conhecimento que ainda é obtuso, ou de algum conhecimento falho, ou de uma natureza falha ou faltante do conhecimento, mas aponta para uma característica necessária de toda aquisição do conhecimento, de toda a relação com o saber. Ou seja, a de que a relação com o saber, com o conhecimento, implica sempre a subjetividade, o ponto de vista subjetivo, uma posição subjetiva do sujeito.

Ora, isso é boa parte daquilo que as ciências duras e apropriação dura da biologia no campo da clínica pretende resolver. Quando se começa a tirar desde 1980 todos os aspectos fenomenológicos e, portanto, algo indeterminado, com
limites imprecisos de toda a experiência psicológica, o que se pretende é dotar essa aquisição de saber e portanto a operação baseada nele, como inequívoca, um pouco uma aspiração às idéias claras e distintas que nos dariam então uma certeza absoluta no campo da ação.

Toda a discussão que então ele faz, vai na direção de mostrar como, novamente, a especificidade da psicanálise em relação à ciência deriva do fato de que ao reconhecer a méconnaissance como sendo algo que não é que seja incontornável, algo da própria natureza da aquisição do conhecimento, uma apropriação positiva, uma valorização desse aspecto, poderíamos chamar isso de incompletude do conhecimento, mas essa talvez não seja uma expressão muito boa porque incompletude ainda tem um valor negativo. E eu penso que, segundo li, a intenção do autor é mostrar o valor positivo do conhecimento como sendo movimento, abertura, e não fechamento, inconclusividade. Isso que aparece tingido de maneira negativa na idéia de méconnaissance como normalmente ela se apresenta.

Isso para dar uma pálida idéia da riqueza dos trabalhos e vou passar então rapidamente ao que me pareceram alguns temas que deveríamos discutir a partir do que eles e alguns outros trabalhos já apresentaram.

O primeiro é a nossa visão do que seja neurociência, a nossa visão do que seja a biologia no campo teórico hoje. Em primeiro lugar a idéia de que tendemos a
ter, de um modo geral somos levados a ter uma visão compacta, homogênea do campo das neurociências. Isso é falso, isso é um equívoco. Ou é marca da nossa ignorância. O campo das neurociências é complexo bastante para que vejamos dentro dele um debate entre determinismo e indeterminismo, um debate entre aqueles que são reducionistas, isto é, acreditam que a ciência pode construir um vocabulário exaustivo, definitivo, sobre os fenômenos mentais, e os outros que são biólogos e neurobiólogos e cientistas hard que desacreditam isso porque têm uma concepção de biologia, têm uma concepção de natureza que incorpora muito daquilo que nós nos acostumamos a achar que eram traços do sujeito. Movimento, indeterminação, historicidade, agência. A natureza hoje é dotada de agência. O indivíduo inscrito na natureza é o indivíduo que se move o tempo todo em função de interesses e esses interesses são móveis conforme o contexto, conforme

as formas de embodiment desses indivíduos, conforme o contexto cultural, biológico e psicológico.

Então, o primeiro ponto a discutir é esse, até que ponto fazemos um discurso equivocado quando fica “chutando cachorro morto”. Não é “cachorro morto” porque eles fazem ainda um estrago na fisicalização da medicina. Mas visando apenas o que parecem ser nossos inimigos teóricos, os biólogos, os psiquiatras reducionistas, fisicalistas, enquanto que deixamos de dialogar com aqueles que têm coisas em comum entre nós, princípios em comum. Um naturalismo não fisicalista, um holismo do mental e do somático, do psíquico e do somático, um holismo que subsume indivíduo e ambiente numa mesma globalidade, a idéia de plasticidade, a idéia de um monismo, um dualismo construído com base num pluralismo descritivo.

A mesma coisa se poderia dizer sobre o tema da causalidade, que é um tema que deveríamos estudar mais, isto é explicitar mais, melhor, na sugestão de alguns autores.

Outro tópico a estudar, isto já foi apontado desde ontem, a discussão sobre os novos papéis do corpo nos processos de subjetivação contemporâneos que, de alguma maneira, refletem a importância da biologia e das ciências da natureza no imaginário teórico mas que também dizem respeito àquilo sobre o que Adriano chamava atenção, a embricação entre o modo de sentir, o modo de sofrer, o modo de conjugar o corpo no sofrimento, que diz respeito a processos culturais e sociais mais amplos. Como disse Osvaldo, citando um dos trabalhos, perceber também a relação da psicanálise com as neurociências na direção da pesquisa dos efeitos de subjetivação que a hegemonia crescente dessas ciências têm na nossa vida subjetiva de um modo geral.

Em relação ao tópico diálogo, relação entre neurociência e psicanálise, eu acho que poderíamos demarcar duas posições que são distintas e que valeria a pena explorarmos. A primeira é aquela que insiste numa espécie de dureza na definição da especificidade. E, embora não dita de uma maneira clara, uma certa superioridade epistêmica, senão ética, da psicanálise em relação aos dispositivos da psiquiatria biológica. A idéia de demarcação, a idéia de discriminação, e um certo movimento de tentar colocar as neurociências em seu lugar, e a psicanálise, vamos dizer, como um discurso que deveria ser dotado de uma supremacia no campo da clínica.

Outra posição, é aquela que de alguma maneira ainda é tentativa, porque isso não é claro, aponta para a necessidade de construir diálogos. Esse diálogo aparece muitas vezes de forma diferente. Ás vezes o diálogo é entendido como a construção de um terreno e de um vocabulário comum. Outras vezes o diálogo é entendido como a possibilidade de operadores que possam traduzir os conceitos psi nos conceitos neuronais. Outras vezes, essa interação ou esse diálogo prescinde dessas duas opções e pensa na pluralidade descritiva em relação ao fenômeno mental como sendo um melhor caminho para o estabelecimento desse diálogo e deixando de algum modo o embate mais acirrado, novamente, para o horizonte ético no campo da clínica.

Vou terminar. Poderíamos então resumir ainda outro ponto. A questão do reducionismo que também, lendo vários artigos, se percebe que às vezes a palavra reducionismo é usada para duas coisas que são muito distintas. Uma é o que poderíamos chamar de reducionismo metodológico. Esse é inescapável. É claro que o neurocientista vai falar, digamos, de uma experiência de depressão com um vocabulário que é próprio. Enquanto que nós usaremos outro. Esse reducionismo implica uma ontologia mínima mas dele não decorre verdadeiramente o nosso problema que é o reducionismo metafísico, o reducionismo eliminativista. Aquele que supõe que, entre os discursos disponíveis, há um que chega mais perto de descrever a realidade tal como é, os outros sendo auxiliares. E essa tentação que é

dos biólogos, mas é também, como alguns reconhecem, de alguns dentre nós, de dispor dessa chave para a natureza que deve ser combatida.

Então, para terminar, outros dois pontos que resumem um pouco ou se superpõem aos pontos anteriores, e que dizem respeito á posição dos psicanalistas neste cenário. Alguns autores insistindo que devemos deixar uma posição majoritária, que é, segundo eles, uma posição de denúncia, uma posição de crítica, uma posição que aponta os problemas da psiquiatrização, que é necessária, mas que deve ser paulatinamente acrescida primeiro de uma compreensão da complexidade do fenômeno da psiquiatrização.

Por exemplo, a mudança dos DSM no sentido de uma descrição ateórica das psicopatologias, ela de fato trouxe um enxugamento psicológico, um esvaziamento da densidade fenomenológica dos quadros.

No entanto ela, como tudo na vida, talvez não tenha sido sem efeitos positivos. Exemplo disso é o fato de que hoje em dia experiências antes rotuladas de uma maneira tal que produziam quase que inevitavelmente estigma e exclusão, são incorporadas ao campo da convivência. Um exemplo clássico é o da transformação da psicose maníaco-depressiva em transtorno bipolar. Os efeitos subjetivos que essa transformação trouxe tem problemas? Tem. Mas também trouxe avanços. Então, o reconhecimento da complexidade do fenômeno ao invés de uma psiquiatrização como um saco de pancada da nossa parte, é uma sugestão dos autores.

E finalmente a idéia de que devemos encontrar, como sugere Orlando Coser, as nossas maneiras peculiares e nos inserirmos no campo onde as neurociências se aplicam no terreno da clínica.

Espero ter sido fiel aos autores que li. Obrigado.

 

Estados Gerais da Psicanálise: Segundo Encontro Mundial – Rio de Janeiro – outubro 2003.

Função Leitor

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Algumas marcas da literatura em Deleuze ou em Deleuze & Guattari

 

Autor/a Onde O quê Mostra
Artaud      
Beckett D12 Gaguejar, ser estrangeiro, em sua própria língua. “Os exemplos mais surpreendentes para mim: Kafka, Beckett, Gherasim Luca, Godard”.
  D40 Estar sempre no meio. “Os personagens de Beckett estão em perpétua involução, sempre no meio de um caminho, com o pé na estrada”.
Borges      
Burroughs D26 Pick-up vs. cut-up. Pick-up é uma gagueira. Ela só vale em oposição ao cut-up de Burroughs: nada de corte, nem de dobra e de rebatimento, mas de multiplicações, segundo dimensões crescentes”.
Carroll      
Céline D43 Escritura e velocidade. “Escrever deve produzir velocidade. O que não quer dizer escrever depressa. Seja Céline ou Paul Morand, que Céline admirava […], ou Miller: surpreendentes produções de velocidade.
cummings      
Fitzgerald D52 [referências também a Lawrence, Virginia Woolf, Kerouac]. Linha de fuga sem autodestruição. “Como fazer para que a linha de fuga não se confunda com um puro e simples movimento de autodestruição, alcoolismo de Fitzgeral, desencorajamento de Lawerence, suicídio de Virginia Woolf, triste fim de Kerouac?”.
  D58 Linha de fuga “O que Fitzgerald chamava de verdadeira ruptura: a linha de fuga, não a viagem nos mares do Sul, mas a aquisição de uma clandestinidade […].
  D147 Linhas de segmentaridade “Em uma admirável novela, Fitzgerald explica que uma vida anda sempre em vários ritmos, em várias velocidades. […] Fitzgeral chama isso de cortes, cada segmento marca ou pode marcar um corte. É um tipo de l inha, a linha segmentarizada, que nos concerne a todos, em determinada data, em determinado lugar”.
Hardy D53 Personagens como blocos de sensações. “Caso exemplar de Thomas Hardy: nele os personagens não são pessoas ou sujeitos, são coleções de sensações intensivas, cada um é uma coleção, um pacote, um bloco de sensações variáveis. […] Hardy invoca uma espécie de destino grego para esse mundo experimental empirista. Pacotes de sensações, indivíduos, correm pelo matagal como linha de fuga, ou linha de desterritorialização da terra”.
  D63-64 Linha de fuga, conjugação “Ou a frase-matagal, a linha-matagal de Thomas Hardy: não que o matagal seja o tema ou a matéria do romance, mas um fluxo de escritura moderna se conjuga com u mfluxo de matagal imemorial”.
Hölderlin D111 [ref. tb. a Kleist e Nietzsche] Escrita como forma harmoniosa vs. Escrita como coexistência de velocidades variáveis “Já era assim que a trindade Hölderlin – Kleist – Nietzsche concebia a escritura, a arte, e até mesmo uma nova política: não mais um desenvolvimento harmonioso da forma e uma formação bem regulada do sujeito, como queriam Goethe ou Schiller, ou Hegel, mas sucessões de catatonias e de precipitações, suspenses e flechas, coexistência de velocidades variáveis, blocos de devires, saltos por cima dos vazios, deslocamentos de um centro de gravidade, sobre uma linha abstrata, conjunções de linhas sobre um plano de imanência, um ‘processo estacionário’ com velocidade louca que libera partículas e afetos”.
James (Henry) D61 Experimentação vs. intepretação “Henry James, um dos que mais penetraram no devir-mulher da escritura, inventa uma heroína postal, tomada em um fluxo telegráfico que ela começa por dominar graças à sua ‘prodigiosa arte da intepretação’ […]. Mas de fragmento em fragmento se constrói uma experimentação viva onde a interpretação começa a fundir, onde já não há percepção nem saber, segredo nem adivinhações. […] A literatura inglesa ou americana são um processo de experimentação. Acabaram com a intepretação”.
Kafka D12 Gaguejar, ser estrangeiro, em sua própria língua. “Os exemplos mais surpreendentes para mim: Kafka, Beckett, Gherasim Luca, Godard”.
  D139 Agenciamento e regimes de signos “Tentamos descrevê-la [a carta de amor] e mostrar como ela funcionava, e em relação a quê, a propósito de Kafka – a primeira tarefa seria estudar os regimes de signos empregados por um autor, e quais os mistos que ele opera (componente generativo). Para ficar nos dois casos sumários que distinguimos, o regime significante despótico e o regime passional subjetivo, como eles se combinam em Kafka – o Castelo como centro despótico irradiante e, mas também como sucessão de Processos acabados em uma seqüência de cômodos contíguos”.
  D141 [ref. tb. a Masoch, Kleist, Sarraute] Regimes de signos e plano de consistência “O que é importante para nós em Kafka é, justamente, a maneira pela qual, através de todos regimes de signos que ele utiliza e pressente […], ele as faz fugir ou correr sobre um plano de consistência que é como o campo imanente do desejo, sempre inacabado, mas que jamais nem legifera, nem subjetiva”.
Kerouac D62 Sobriedade, pura linha “As frases de Kerouac são tão sóbrias quanto um desenho japonês, pura linha traçada por mão sem suporte, e que atravessa as épocas e os reinos. Era preciso um verdadeiro alcoólatra para atingir essa sobriedade”.
  D64 Escrever por amor “Não conhecemos livro de amor mais importante, mais insinuante, mais grandioso do que Subterrâneos, de Kerouac”.
Kleist D55 Traidor vs. trapaceiro “O mesmo tema [traição] aparecem em Pentesiléia, de Kleist: o pecado de Pentesiléia, ter escolhido Aquiles, quando a lei das Amazonas ordena não escolher o inimigo; o elemento demoníaco de Pentesiléia a leva para um devir-cadela […]”.
  D62 [referência tb. A Lawrence, Kafka, Carrol] Vida vs. obra “É preciso ouvri os críticos qualificados falarem dos fracassos de Kleist, das impotências de Lawrence, das puerilidades de Kafka, das meninas de Carrooll. É sempre na melhor intenção do mundo: a obra parecerá ainda maior, tornando a vida mais miserável. Não se corre o risco, assim, de ver a potência da vida que atravessa uma obra. Esmaga-se tudo de antemão”.
  D121 Agenciamento maquínico “O que define um agenciamento maquínico é o deslocamento de um centro de gravidade sobre uma linha abstrata. Como na marionete de Kleist, é esse deslocamento que engendra as linhas ou movimentos concretos”.
  D89 Escrita e velocidade “A escritura é feita de agitação motora e de catatonia: Kleist”.
  D165 Linha de fuga e máquina de guerra “Toda a obra de Kleist repousa sobre a seguinte constatação: já não há máquina de guerra em grande escala como as amazonas, a máquina de guerra não passa de um sonho que se dissipa e dá lugar aos exércitos nacionais (Príncipe de Hamburgo); como reiventar uma máquina de guera de um novo tipo (Michael Kohlhaas), como traçar a linha de fuga da qual bem se sabe que ela nos leva, entretanto, à abolição (suicídio a dois)?”.
  D162-163 [ref. tb. a Hölderlin, Fitzgerald, Virginia] Linhas de fuga em linhas de morte “E as linhas de fuga acabam mal não por serem imaginárias, mas justamente porque são reais e estão em sua realidade. Elas acabam mal, não apenas porque entram em curto-circuito com as duas outras linhas, mas em si mesmas, por causa de um perigo que elas secretam. Kleist e seu suicídio, Hölderlin e sua loucura, Fitzgeral e sua demolição, Virginia Woolf e seu desaparecimento”.
Lawrence (D. H.) D50 Fugir, partir. “Partir, se evadir, é traçar uma linha. O objeto mais elevado da literatura, segundo Lawrence: ‘Partir, partir, se evadir… atravessar o horizonte, penetrar em outra vida… É assim que Melville se encontra no meio do oceano Pacífico, ele passou, realmente, a linha do horizonte’”.
  D59 Mania da interpretação “Lawrence denunciava o que lhe parecia atravessar toda a literatura francesa: a mania do ‘segredinho sujo’”.
  D62-63 Crítica da vida vs. Criadora de vida “Lawrence reprovava à literatura francesa o fato de ela ser, incuravelmente, intelectual, ideológica e idealista, essencialmente crítica, crítica da vida, mais do que criadora de vida”.
  D66, nota 1 Escrever é escrever com “Não há juízo algum na simpatia, mas conveniências entre corpos de toda natureza. ‘Todas as sutis simpatias da alma inumererável, do mais amargo ódio ao amor mais apaixonado’ [Lawrence]”.
  D67 Escrita e agenciamento “Só temos a simpatia para lutar, e para escrever, dizia Lawrence. […] Não, diz Lawerence, vocês não são o pequeno esquimó que passa, amarelo e gorduroso, vocês não têm que se tomar por ele. Mas talvez vocês tenham algo a ver com ele, […] pois vocês só podem se tornar esquimó se o próprio esquimó se tornar outra coisa”.
Literatura anglo-americana D40 A estrada e a grama. “Os ingleses e os americanos, que são os menos autores entre os escritores, têm dois sentidos particularmente aguçados e que comunicam: o da estrada e o do caminho, o da grama e o do rizoma”.
  D72-73 Ser estrangeiro na própria língua “Trata-se de fazer a língua se mover, com palavras cada vez mais sóbrias e uma sintaxe cada vez mais fina. Não se trata de falar uma língua como se fosse estrangeiro, trata-se de ser um estrangeiro em sua própria língua, no sentido em que o americano é bem a língua dos negros. Há uma vocação do anglo-americano para isso. […] O inglês, ao contrário, faz palavras compostas cujo único vínculo é um E subentendido, relação com do De Fora, culto da estrada interminável, que não tem fundações, que corre pela superfície, rizoma. Blue-eyed boy: um garoto, azul e olhos – um agenciamento. E…E…E, a gagueira”.
Literatura francesa D62 Neurose e segredinho “A literatura francesa é, no mais das vezes, o elogio mais desavergonhado da neurose. A obra será tanto mais significante quanto remeter à piscada de olho e ao segredinho na vida, e inversamente”.
  D52 O meio é que importa. “Nunca é o início ou o fim que são interessantes; o início e o fim são pontos. O interessante é o meio. O zero inglês esá sempre no meio. […] Os franceses pensam demais em termos de árvore: […]”.
  D50-51 Criar por rupturas, pr linhas de fuga. “A literatura anglo-americana apresenta continuamente rupturas, personagens que criam sua linha de fuga, que criam por linha de fuga. Thomas Hardy, Melville, Stevenson, Virginia Woolf, Thomas Wolfe, Lawrence, Fitzgerald, Miller, Kerouac. Tudo neles é partir, devir, passagem, salto, demônio, relação com o de fora”.
Lovecraft D56 [referência tb. a Melville-Moby Dick] O anômalo, o outsider “O anômalo está sempre na fronteira, sobre a borda de uma banda ou de uma multiplicidade, ele a faz devir, traça uma linha-entre. É também o ‘outsider’: Moby Dick, ou então a Coisa, a Entidade de Lovecraft, terror”.
  D80 Entidade e acontecimento “Tornar-se uma entidae, um infinitivo, como Lovecraft falava, a terrível e luminosa história de Carter: devir-animal, devir-molecular, devir-imperceptível”.
  D90 Devir-animal “Saiba apenas que animal você está se tornando, e sobretudo o que ele se torna em você, a Coisa ou a Entidade de Lovecraft, o inominável […].”
Luca (Ghérasim) D12 Gaguejar, ser estrangeiro, em sua própria língua. “Os exemplos mais surpreendentes para mim: Kafka, Beckett, Gherasim Luca, Godard”.
Masoch D137 Regimes de signos “Nota G. D.: digo a mim mesmo que foi isso que eu quis fazer quanto trabalhei sobre escritores, Sacher Masoch, Proust ou Lewis Carroll. O que me interessava, ou deveria ter me interessado, não era nem a psicanálise ou a psiquiatria, nem a lingüística, mas os regimes de signos deste ou daquele autor”.
  D139 Escrita e agenciamento “Todo agenciamento é coletivo, já que ele é feito de vários fluxos que arrastam as pessoas e as coisas, e só se dividem ou se juntam em multiplicidades. Por exemplo, em Sacher-Masoch, o fluxo de dor e humilhação tem por expressão um agenciamento contratual […]. A cada vez, devemos perguntar com o que o fluxo de escritura está em relação”.
Miller (Henry) D40 A grama como transbordamento. “Henry Miller: ‘a grama só existe entre os grandes espaços não –cultivados. Ela preenche os vazios. Ela brota – entre as outras coisas.[…]”.
  D64 Devir-grama, devir-China “Um devir-matagal; ou então o devir-grama de Miller, o que ele chama de seu devir-China”.
  D56-57 Devir-mulher “Lawrence e Miller são tidos por grandes falocratas; no entanto, a escritura os levou para um devir-mulher irresistível”.
  D59 Rostidade, devir “O problema de Miller (já o de Lawrence): como desfazer o rosto, liberando em nós as cabeças exploradoras que traçam linhas de devir?”
  D66, nota 2 Escrever é agenciar “É isso agenciar: estar no meio, sobre a linha de encontro de um mundo interior e de um mundo exterior. Estar no meio: ‘O essencial é tornar-se perpetuamente inútil, se absorver na corrente comum, tornar-se novamente peixe e não bancas os monstros; o único proveito, dizia cá comigo, que posso tirar do ato de escrever, é o de ver desaparecer com isso as vidraças que me separam do mundo’ [Lawerence]”.
  D67 Extrair vida da loucura, do álcool, da droga “Tentamos extrair do álcool a vida que ele contém, sem beber: a grande cena da embriaguez com água pura, em Henry Miller. Abster-se do álcool, da droga, da loucura, é isso o devir, o devir-sóbrio, para uma vida cada vez mais rica. É a simpatia, agenciar”.
Melville D51 Viagem, fuga e reterritorialização. “Sempre há uma maneira de se reterritorializar em uma uma viagem, é sempre seu pai e sua mãe (ou pior) o que se encontra na viagem: ‘Voltar aos selvagens tornou Melville completamente doente… Assim que partiu ele recomeça a suspirar, a lamentar o Paraíso, Lar e Mãe encontrando-se no outro extremo de uma caça à baleia’ [citando D. H. Lawrence]. Fitzgeral diz ainda melhor: ‘[…] Uma verdadeira ruptura é algo a que não se pode voltar, que é irremissível porque faz com que o passado deixe de existir’”.
  D55 Traidor vs. trapaceiro “Do que o capitão Achab é culpado, em Melville? De ter escolhido Moby Dick, a baleia branca, em vez de obedecer a lei de grupo dos pescadores, que diz que qualquer baleia é boa para ser pescada. É esse o elemento demoníaco de Achab, sua traição, sua relação com Leviathan, essa escolha de objeto que o engaja em um devir-baleia”.
  D87-88 [ref. tb. A Carroll] Devir-animal “O marinheiro de Melville torna-se albatrós, quando o albatrós se torna ele próprio extraordinária brancura, pura vibração de branco (e o devir-baleia do capitão Ahab faz bloco com o devir-branco de Moby Dick, pura muralha branca).”
Nietzsche D14 A vida como único fim da escritura; saúde frágil e literatura. “Nietzsche, ao contrário do neurótico, grand vivant de saúde frágil, escreve: ‘[…] Tal descoberta a [a vida] faz se iluminar, e um doce cansaço verspertino, o que os homens chamam de charme, pousa sobre seu rosto’”.
  D43 Estrangeiro na própria língua e velocidade. E o que Nietzsche fez com o alemão, é isso ser um estrangeiro em sua própria língua. É na escritura mais lentamente trabalhada que se atinge essa velocidade absoluta, que não é um efeito, mas um produto.”.
  D41 [Na mesma página menção tb. a Kafka e a Kleist]. Velocidade absoluta do pensamento e máquina de guerra. “Ou então Nietzsche, não é o que ele consegue fazer com um aforismo? Que o pensamento seja lançado como uma pedra por uma máquina de guerra”.
  D111 Agenciamento, velocidade “Dois segredos de Nietzsche: o eterno retorno como plano fixo selecionando as velocidades e as lentidões sempre variáveis de Zaratustra; o aforismo, não como escritura parcelar, mas como agenciamento que não pode ser lido duas vezes, que não pode ‘repassar’, sem que mudem as velocidades e as lentidões entre seus elementos”.
  D138 O escritor como sintomatologista “É a idéia de Nietzsche: o escritor, o artista como médico-doente de uma civilização”.
Proust D12-13 Falar na própria língua como um estrangeiro. “Os belos livros são escritos em uma espécie de língua estrangeira” (citando Proust). “É a definição do estilo. Também, nesse caso, é uma questão de devir”.
  D139 Agenciamento e regimes de signos “Como eles [os regimes de signos] se combinam de modo diferente em Proust: em relação a Charlus, núcleo de uma galáxia cujas espirais comportam enunciados e conteúdos; em relação a Albertina, que passa, ao contrário, por uma série de processos lineares acabados, processo de sono, processo de ciúmes, processo de aprisionamentos. Poucos autores fizeram intervir como Proust múltiplos regimes de signos para com eles compor sua obra”.
Woolf (Virginia) D40 A importância do passeio. “O passeio como ato, como política, cmo experimentação, como vida: ‘Entendo-me como a névoa ENTRE as pessoas que mais conheço’, diz Virginia Woolf em seu passeio entre os táxis”.
  D64 Dom de trânsito “Virginia Woolf e seu dom de passar de uma época a outra, de um reino a outro, de um elemento a outro: seria preciso a anorexia de Virginia Woolf?”.
  D56 Devir-mulher “Há um devir-mulher na escritura. Não se trata de escrever ‘como’ uma mulher. […] Mulher não é necessariamente o escritor, mas o devir-minoritário de sua escritura, seja ele homem ou mulher. Virginia Woolf se proibia de “falar como uma mulher”: ela captava ainda mais o devir-mulher da escritura”.
  D108 Hecceidades e afecto “As hecceidades são apenas graus de potência que se compõem, às quais correspondem um poder de afetar e ser afetado, afetos ativos e passivos, intensidades. Em seu passeio, a heroína de Virginia Woolf estende-se como uma lâmina através de todas as coisas, e, no entanto, olha de fora, com a impressão de que é perigoso viver até mesmo um único dia (“nunca mais direi: sou isso ou aquilo, ele é isso, ele é aquilo…”). Mas o próprio passeio é uma hecceidade”.
  D137-138 Individuação por hecceidade “Charlotte Brontë qualifica um estado dos ventos mais do que uma pessoa; Virginia Woolf qualifica um estado dos reinos, das épocas e dos sexos”.
  D140 [ref. tb. a Lovecraft, Proust, Kleist, Kafka, Nietzche] Regimes de signos e plano de composição “Mas o essencial é, enfim, a maneira pela qual todos esses regimes de signos correm conforme uma linha de declive, variável com cada autor, traçam um plano de consistência ou de composição […]: a Onda, de Virginia Woolf, a Hiperesfera, de Lovecraft, a Teia de aranha, de Proust, o Programa, de Kleist, a função-K, de Kafka, a Rizoesfera… […] o regime alimentar de Nietzsche, de Proust ou de Kafka é também uma escritura, e eles a compreendem assim; comer-falar, escrever-amar, vocês jamais apreenderá um fluxo sozinho. […] ‘De repente me dei conta’, diz Virginia Woolf, “de que o eu queria fazer agora, era saturar cada átomo’”.

 

 

Abreviaturas:

D — Diálogos