Luiz Orlandi (7 minutos e 57 segundos): abrir a caixa preta das políticas de cuidado, manejos e o ineludível morrer

abrir a “‘caixa preta'” das ‘”políticas de cuidado'”. Trata-se de um pertinente trabalho de pesquisa, de sondagem e determinação de “linhas de força” que tentam moldar os cuidados em saúde, isto é, que, a seu modo, tentam influir nos “encontros entre profissional e usuário de saúde”. Pois bem, dentre as várias políticas, mas sem entrar na história de suas sucessivas incidências e nem na sondagem de suas mútuas interferências numa mesma espaço-temporalidade, eu gostaria de destacar o nome de uma delas, apenas o nome, a dos manejos, e dizer livremente certas coisas, livremente, por duas razões: primeiro, por ser apenas um dos viventes e, portanto, de estar sujeito a cuidados; segundo, falarei livremente por não ter a competência e nem a pretensão de pesquisador nessa área tão difícil e importante. Minha sensibilidade avisa-me que há uma pluralidade de sinais e graus de poder de manejos envolvidos com saúde. Eles se apropriam variadamente de questões de saúde. É inevitável, portanto, que eles explorem aspectos de um tipo de cortejo fatalmente colado aos viventes, estejam eles gozando ou não de melhor ou pior nível de saúde. Qual é esse cortejo? É o cortejo de um ineludível morrer . As infiltrações operadas por manejos — sejam as do tipo das sociedades de soberania, das sociedades disciplinares ou das sociedades de controle — são inevitavelmente acolhidas ou repudiadas em diversos graus pelos viventes. Não sou suficientemente dotado de conhecimento ou de confiança em mim mesmo para avaliar se esta ou aquela infiltração, comandada por este ou aquele manejo, seja capaz de injetar mais ou menos alguma saúde no meu próprio cortejo. É que nós, viventes, somos quase sempre capturados por estratégias e táticas que cada manejo emprega em conformidade com uma rede de operações não suficientemente explicitadas ao vivente. Então, se não se abre a caixa preta, fica mais difícil ainda a explicitação. Sendo assim, com suficiente serenidade em prol de um realismo saudável, trata-se de pensar ‘cuidados em saúde’ como ações que interfiram nesses cortejos. Para quê? Para que, do interior do seu próprio cortejo, o vivente esteja em condições de perguntar: que pode este ou aquele paliativo fazer com que meu cortejo, unindo-se ao cortejo de outros viventes, eleve a potência do questionamento vital que nos diz respeito….