Deleuze em 1978 acerca de Fédida com conceitos-inter, que marcam aquilo que está “entre”, aquilo que não é “um” nem “outro”, mas no meio, como intermediário, mensageiro, intermezzo

Que Fédida seja jovem não impede que ele possa medir seu trabalho à extensão de uma vida em curso, e que ele opere um tipo de aprofundamento vital, à maneira de uma árvore. Fédida tem belas páginas estranhas justamente sobre a conexão da escrita com a madeira, com a marcenaria, com a mesa. Ao mobiliário psicanalítico, que era um pouco pobre, poltrona e divã, Fédida acrescenta a mesa como elemento condutor ativo. Uma mesa massiva, móvel da intersubjetividade.

É que um dos principais projetos de Fèdida é elevar a psicanálise ao estado de teoria e de prática da intersubjetividade. Não se trata de fazer uma psicologia do psicanalista e do psicanalizado, e da relação deles, mas de construir uma estrutura de intersubjetividade que seria como que a condição de direito da psicanálise. E a grande novidade de Fédida é essa invenção de todos os tipos de conceitos-inter, que marcam aquilo que está “entre”, aquilo que não é “um” nem “outro”, mas no meio, como intermediário, mensageiro, intermezzo: não mais a outra cena, mas o entre-duas sessões, com o tempo e o espaço próprios da intersubjetividade. Se Fédida sofreu as influências da fenomenologia e da análise existencial (não apenas Husserl,mas Binswanger, Henri Maldiney), é porque encontrou a primeira grande tentativa de uma teoria da intersubjetividade como campo transcendental.

Com efeito, se esse ponto de partida for aceito: a intersubjetividade como campo original, primeiro em relação aos sujeitos que o povoam e aos objetos que o mobiliam – a tarefa devém a seguinte: dar ao objeto e ao sujeito um novo estatuto, pois esse estatuto deve decorrer de uma intersubjetividade primeira, e não o inverso. É isso que Fédida faz, ao construir uma noção muito bonita, a de objeu (cujo nome ele toma emprestado de Ponge). Em segundo lugar, as próprias conexões do sujeito com o corpo decorrerão do intersubjetivo; ou então, dos distúrbios ditos psicossomáticos, que marcam precisamente a variação dessas conexões, decorrerão distúrbios escondidos da intersubjetividade. Tais distúrbios se apresentam sob a forma do lamento, e como tantos outros lamentos. Nesse sentido, Fédida faz o quadro dos três grandes lamentos antigos, que hoje ganham uma importância moderna decisiva: o lamento melancólico, o lamento hipocondríaco, o lamento depressivo. Nossos três flagelos. A psicanálise inteira balança quando não mais está sob o regime neurótico da demanda, mas sob o do lamento psicossomático, inclusive o lamento do psicanalista. E é certamente a uma nova compreensão de todo esse domínio, do intersubjetivo ao psicossomático, que Fédida nos convida..

1978

P.S

Francis Ponge, Le Soleil placé en abîme in Pièces, Paris, Gallimard, 1961. O neologismo objeu é uma contração das palavras objet (objeto) e jeu (jogo, brincadeira).

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