NOTA QUE EXPLICA[1], REPLICA[2] e COMPLICA[3] A ANÁLISE DA IMPLICAÇÃO[4] NA PESQUISA

A análise da implicação é um conceito da analise institucional que diz respeito aos deslocamentos de nossa posição ético-política, trata-se do que se passa e se desloca em nós com os encontros e experiências de pesquisa/interferência. É um termo que recolhe algo (Baremblitt, 1992) da noção psicanalítica de contratransferência (reação – consciente/ inconsciente – que o material do paciente produz no analista), só que na pesquisa/interferência a implicação não é um processo apenas psíquico, nem exclusivamente inconsciente, mas de uma materialidade múltipla, variada e complexa. É ao mesmo tempo, um processo político, econômico, libidinal, etnológico, etológico heterogêneo que solicita questionamentos em uma multiplicidade de camadas e nelas interessam, como diz Orlandi (2015): “paradas para repousos, contudo não reduzidos a descansos, mas produtivas na perspectiva da pesquisa; solicita ao corpo-e-alma improváveis velocidades e requintadas lentidões” bem como recuar alguns palmos abaixo, escavando outras lâminas geológicas da nossa implicação acompanhando inclusive momentos em que fomos escolhidos pela questão de pesquisa. A análise da implicação pode solicitar também um trânsito por regiões às vezes cinza que se instalam com marcas históricas, políticas que se sucedem e se embaralham em nós, riscadas, várias vezes reescritas no corpo pelo fio condutor das experiências. Esses movimentos da análise da implicação enredam muitas ervas, caules aéreos, subterrâneos, ricos em reservas comuns reativas e vivazes, nunca exclusivamente minhas e que questionam o que posso fazer e não fazer em posições e compromissos. Nas pesquisas pensamos e escrevemos com uma multiplicidade de pontas de questões morais, éticas, com livros, sensações, artigos e problemas produzidos e sustentados com muitos, portanto, a análise da implicação é também prévia a qualquer contato com a formalização da situação de pesquisa. Não começa no “objeto” e é, isso sim, uma correlação, pressuposição recíproca entre a causa e o efeito, uma simultaneidade, que faz parte do processo de análise e produção dos dados. A análise da implicação é crítica e enreda as tensões entre questionar e aprender com as contaminações sempre em curso nas penetrações mútuas para além da dicotomia sujeito e objeto enfatizando a cada vez, a cada caso e momento da investigação as posições ético-econômico-político-libidinais no pesquisador. Seria preciso na pesquisa examinar, exaustivamente, quais foram os inconfessáveis e imperceptíveis que foram ativados ou que já operavam em mim nas vicissitudes desta investigação. Algo ético-político acordou, despertou em mim e/ou sempre esteve bem acordado, produzindo dados que não tinha percebido em todos os deslocamentos da pesquisa. Há muito material menos consciente e nem tão inconsciente operando. Após alguns percursos da investigação tenho adquirido (na escrita etc.) simpatia ou acordos acordes com quais éticas? A análise da implicação é um exercício de relacionar-se com forças presentes, incontornáveis e incontroláveis que coexistem e agem intensamente nas pesquisas. É uma crítica de si e da crença numa posição de pesquisa que se quer capaz de encontrar desinteressadamente seu campo problemático. A tradição iluminista e cientificista que marca as práticas de pesquisa (não apenas as ditas positivistas) produz o estatuto de dejeto do purifico, do expurgo (do que eliminou a sujidade), do tornado limpo, portanto há necessidade de análise da implicação das metodologias e práticas de pesquisa e de abrir-se ao que é tido como contaminação, dejeto, do que precisaria ser retirado para supostamente deixar “o conhecimento mais claro, verdadeiro e chegar aos fatos”.

BAREMBLITT, G. F. Compêndio de análise institucional e outras correntes: teoria e prática, 5ed., Belo Horizonte, MG: 1 ª edição: Editora Record, 1992.

ORLANDI, L.B.L. Com que verbos cuidar do verbo pesquisar? Comunicação apresentada na UNIFESP em Santos, primeiro semestre de 2015.

Rascunhos do Grupo de Estudos do Laboratório de Sensibilidades (GELS)

[1]Peço auxílio a um dicionário etimológico e da língua portuguesa, não para ancorar possíveis hipóteses interpretativas, mas apenas para anotar rapidamente a versátil circulação dos termos ‘explicar’, “complicar” e ‘implicar’. No Dicionário Houaiss aparece uma sutileza do termo explicar: a) da prep.lat. ex/e ‘movimento para fora, tirado de’, para indicar que deixou de ser algo: 2) do pref.prep.gr. eks- ‘fora de’. b) plicar transitivo direto 1) fazer pregas, dobras em Ex.: p. um saiote transitivo direto 2)    acentuar com plica (sinal gráfico). E implicar é do latim implicare, “dobrar junto, entrelaçar, unir”, de IN, “em”, mais PLICARE, “dobrar”.

[2] Replicar do lat. replicans, antis part.pres. de replicáre ‘dobrar ou vergar para trás, encurvar, redobrar, desviar curvando’

[3] “Chamamos complicação o estado do caos que retém e compreende todas as séries intensivas atuais

[4] lat. implicátus,a, um ‘entrelaçado, unido’ considerando que a pesquisa: “é vazada por transpassagens de linhas implexas que a rearticulam como peça, como outro vergão que dobra, redobra ou desdobra fatias ou estilhaços da complexidade relacional. Esta não cabe e nem se disciplina na face reflexiva e bem arrumada dos textos ou das ordenações, sejam quais forem, pois é replicada, é relançada e complicada pela indisciplinada vertente das replexões.” Questão que dá uma idéia do complexo relacional que enreda exprimir com explicar, implicar e complicar.

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