COMUM. Como podemos gerar imunidade mais frágil?

“por que existem literatos com saúde fraca? São os mesmos pelos quais passa uma enxurrada de vida. É justamente por isso. Em relação à saúde fraca de Spinoza ou à de Lawrence, o que os unia? (…) eles viram alguma coisa grande demais para eles. Eram visionários. Viram algo grande demais e não foram capazes de suportá-lo. Deixou-os arrasados.”

Deleuze

É bem, talvez um pouco essa seja a tarefa atual de pensar. Hoje a humanidade se sente como se tivesse introduzido dentro de si mesma uma quantidade de intrusos, por exemplo: os organismos modificados geneticamente. Tudo o que nos agrava desde o interior da nossa própria civilização e cultura, então como podemos fazer? É necessário entender que não seria o fim da humanidade, como podemos gerar imunidade mais frágil? Para poder suportar esses intrusos que estamos injetando permanentemente?

Nancy

(…) nesse ponto ferido e enfraquecido é como que inoculado algo novo no organismo inteiro; mas a sua força tem de ser, no conjunto, grande o suficiente para acolher no sangue esse algo novo e assimilá-lo. As “naturezas degenerativas” são sempre de elevada importância, quando deve ocorrer um “progresso”. Em geral, toda “evolução” tem que ser precedido de um debilitamento parcial. (…) me parece que a famosa luta pela sobrevivência não é o único ponto de vista a partir do qual se pode explicar o progresso ou o fortalecimento (…) por surgirem naturezas degenerativas e, devido a elas, enfraquecimentos e lesões parciais da força estável; justamente a natureza mais fraca, sendo a mais delicada e mais livre, torna possível todo “progresso”. Um povo que em algum ponto se torna quebrantado e enfraquecido, mas que no todo é ainda forte e saudável, pode receber a infecção do novo e incorporá-la como beneficio. No caso do indivíduo, a tarefa da educação é a seguinte: torná-lo tão firme e seguro que, como um todo, ele já não possa ser desviado de sua rota. Mas então o educador deve causar-lhe ferimentos, ou utilizar os que lhe produz o destino, e, quando a dor e a necessidade tiverem assim aparecido, então algo de novo e nobre poderá ser inoculado nos pontos feridos. Toda a sua natureza o acolherá em si mesma e depois, nos seus frutos, fará ver o enobrecimento.

Nietzsche

 

“COMUM” E “IMUNE”

Roberto Espósito

Precisamente enquanto projetado para o exterior numa forma nunca antes experimentada, o homem moderno necessita de uma série de aparatos imunitários destinados a proteger completamente uma vida que, pela secularização das referências religiosas, está completamente entregue a “si mesma”. É então que as categorias políticas tradicionais como a de ordem e também a de liberdade assumem um sentido que as impele cada vez mais até às exigências de segurança. A liberdade, por exemplo, deixa de ser entendida como participação na direção política da polis, para converter-se em termos de segurança pessoal ao largo de uma deriva que chega até nós: é livre aquele que pode mover-se sem temer por sua vida e por seus bens. Vivemos numa sociedade em que emergem muitos fenómenos marcados pelo paradigma imunitário. Se a communitas é o que liga os seus membros num compromisso donativo mútuo, a immunitas, ao contrário, é o que os livra desse encargo, que os exonera desse ônus. Enquanto a comunidade refere-se a algo geral e aberto, a imunidade, ou imunização, refere-se à particularidade privilegiada de uma situação definida pela sua exclusão a uma condição comum. Isso é evidente na perspectiva jurídica, segundo a qual é dotado de imunidade – parlamentária ou diplomática – quem não é sujeito a uma jurisdição que concerne a todos os outros cidadãos, por derrogação da lei comum. Mas é igualmente reconhecível, na acepção médica e biológica do termo, segundo a qual a imunização, natural ou induzida, implica a capacidade por parte do organismo de resistir, graças aos seus anticorpos, a uma infecção causada por um vírus externo. Sobrepondo as duas semânticas, jurídica e médica, podemos certamente concluir que, se a comunidade determina a ruptura das barreiras de proteção da identidade individual, a imunidade constitui o modo de reconstituí-las de forma defensiva e ofensiva contra qualquer elemento externo capaz de ameaçá-la. Isso vale não somente para os indivíduos particulares, mas também para as próprias comunidades, entendidas neste caso na sua dimensão particular, imunizadas contra qualquer elemento estranho que pareça ameaçá-las a partir do seu exterior. Daí o duplo vínculo, implícito nas dinâmicas imunitárias – já típicas da modernidade e hoje cada vez mais estendidas a todos os âmbitos da experiência individual e coletiva, real e imaginária. A imunidade, ainda que necessária à conservação da nossa vida, uma vez levada além de um certo limite, a constringe numa espécie de jaula na qual acaba por perder-se, não só a nossa liberdade, mas também o próprio sentido da nossa existência, isto é, essa abertura da existência para fora de si mesma, à qual se tem dado o nome de communitas. Eis aqui a contradição que tentei pôr em relevo nos meus trabalhos: o que salvaguarda o corpo, individual, social, político, é o que ao mesmo tempo impede o seu desenvolvimento. E que, levado além de um certo limite, ameaça destruí-lo. Nas palavras de Benjamin, poderíamos dizer que a imunização em doses elevadas é o sacrifício do vivente, quer dizer, de qualquer vida qualificada, em nome da mera sobrevivência. A redução da vida à sua desnuda matéria biológica. Vê-se bem como, graças a esta chave hermenêutica, e sem recair numa metafísica substancialista, a categoria de comunidade pode readquirir uma nova conotação política. No exato momento em que o dispositivo imunitário transforma-se na síndrome, ao mesmo tempo defensiva e ofensiva, do nosso tempo, a comunidade apresenta-se como o lugar destinado (…) à resistência ao excesso de imunização que nos captura incessantemente. Se a imunidade tende a encerrar a nossa existência em círculos, ou recintos, incomunicados entre si, a comunidade, mais que um círculo maior que os compreende, é a passagem que, cruzando as suas demarcações fronteiriças, remexe a experiência humana, liberando-a da sua obsessão pela segurança (…) A imunidade, necessária para a conservação da vida individual e coletiva – nenhum de nós permaneceria vivo sem o sistema imunitário interno do nosso corpo – acaba por contrapor-se ao seu desenvolvimento, se entendida de forma exclusiva e excludente em relação a qualquer alteridade ambiental e humana. Em outras palavras, o que está em jogo é a diferença – a qual tem disputado Derrida – entre imunização e autoimunização. Todos sabemos o que são as doenças autoimunes. Trata- se dessas formas patológicas que ocorrem quando o sistema imunitário dos nossos corpos torna-se tão forte que chega a voltar-se contra si mesmo, causando a morte do próprio corpo. Naturalmente, isso não acontece sempre. Normalmente, o sistema imunitário limita-se a uma função conservadora, sem voltar-se contra o corpo que o hospeda. Mas, quando isso acontece, não é por uma causa externa, mas por efeito do próprio mecanismo imunitário, intensificado a ponto de tornar-se insuportável. Pois bem, uma dinâmica parecida é reconhecível também no corpo político, quando as barreiras de proteção contra o mundo exterior começam a tornar-se um risco maior que aquele que tentavam evitar. Como se sabe, um dos maiores riscos para as nossas sociedades hoje em dia consiste justamente num excessivo pedido de proteção, que, em alguns casos, tende a produzir uma impressão de perigo, real ou imaginário, com o único fim de ativar meios de defesa preventiva cada vez mais potentes contra ele (…). Mas é a caracterização imunitária que determina, primeiro a intensificação moderna e, mais tarde, na fase totalitária, a deriva tanatopolítica. Como bem soube ver Nietzche, o que chamamos “modernidade” não é senão a metalinguagem que tem permitido responder em termos imunitários a uma série de pedidos de proteção preventiva brotadas do fundo mesmo da vida no momento em que falhavam as promessas de salvação transcendente. (…) Trata-se, de certo modo, ou melhor, de todos os modos, de inverter as relações de força entre “comum” e “imune”. De separar, através do comum, a proteção imunitária da destruição da vida. De pensar de uma maneira diferente a função dos sistemas imunitários, fazendo deles, mais que meras barreiras excludentes, filtros de relação entre o interior e o exterior. Como? A partir de que pressupostos? Com que instrumentos? O problema se tem que enfrentar em dois níveis. O da desativação dos aparatos de imunização negativa e o da ativação de novos espaços do comum (…) Quando o mecanismo geral imunitário pôs-se em marcha, esta retirada do comum – sob a pressão convergente do próprio, do privado e do público. – tornou-se ainda mais integral. A imunidade não tem-se limitado a reforçar os confins do próprio, mas tem investido progressivamente na esfera do público também. Não é à toa que a soberania tem-se revelado o primeiro e fundamental dispositivo imunitário, ao lado das categorias, elas mesmas preventivamente imunizadas, de propriedade e de liberdade. O paradigma imunitário da política moderna, entendendo com isso a expressão e também a tendência cada vez mais forte de proteger a vida dos riscos implícitos na relação entre os homens, em detrimento da extinção dos vínculos comunitários. Assim como para defender-se preventivamente do contágio se injeta uma porção de mal no corpo que se quer salvaguardar, também na imunização social a vida é protegida de uma forma que lhe nega seu sentido mais intensamente comum

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