O que é que leva a que haja em nós e fora de nós algo de anônimo que não cessa de se revelar ao mesmo tempo que se dissimula? Qualquer um indiferentemente interessa. Aguda indiferença

O ser que vem é o ser qualquer.

No contemporâneo há um apagamento de particularidades, o que não quer dizer apagamento de singularidades.

Essa mutação, entre efeitos de abertura e invenção, produz também reações de medo e fundamentalismo identitário.

Hoje se instala cada vez mais – após a morte de Deus e do homem na modernidade – um ser qualquer, um ser que, seja como for, interessa.

Há também indiferença enredada nesse qualquer, uma impessoalidade, cinza, massificada, e, embora isso pareça contrariar um interesse pelas singularidades, não há necessariamente uma oposição.

É porque nesse apagamento, nesse desbotamento massificado, há justamente um deslocamento dos códigos, uma espécie de descodificação, um desgarramento imperceptível que pode engendrar novas singularidades.

É o homem das grandes cidades, da impessoalidade, e que no entanto pode, do nada que ele é, engendrar fios de uma ética para um “homem novo”. Um início que começa recusando tudo e qualquer coisa, para justamente poder começar alguma coisa outra.

Se Deleuze pode fazer o elogio dessa idéia de um homem impessoal, cinza, massificado, embora isso contrarie sua aposta nas singularidades, é porque nesse apagamento, nesse desbotamento, há justamente um deslocamento dos códigos, uma espécie de descodificação, um desgarramento imperceptível que pode engendrar novas singularizações.

Que potência neutra é essa que de repente emerge nos mundos?

Como se explica que, no espaço humano que nos coube, já não tenhamos pela frente pessoas distintas que vivem experiências particulares, mas experiências vividas sem que ninguém as viva?

O que é que leva a que haja em nós e fora de nós algo de anônimo que não cessa de se revelar ao mesmo tempo que se dissimula?

Falamos, e as palavras precisas, rigorosas, não se preocupam conosco e só são nossas devido a essa estranheza que passamos a ser para nós próprios. E, do mesmo modo, a toda a hora, ‘dão-nos réplicas’ acerca das quais apenas sabemos que se dirigem a nós e ‘não nos dizem respeito’.

Mutação prodigiosa, perigosa e essencial, nova e infinitamente antiga.

 

D.P. A.M.B

 

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